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Full text of "Historia da litteratura portugueza .."

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barbari] tfrolUge i.ibrars 



HENRY LILLIE PIERCE 



OF BOSTON 



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1 

' 1' 



OBRAS COMPLETAS 



HlSTORIA DA LiTTERATURA PORTUGUEZA 



CAMOES (Epoca e Vida) 



Historia da Lltteratura portuguexa (edifao integrai) 



2 
3 
A 

5 



6 
7 
8 
8-A 

9 
10 
11 
1!2 
13 
14 



15 
16 
17 

18 



19 
20 
21 
2*2 
23 



24 

25 
26 

27. 
28 
29 



IntrodDc^fio e Theoria da Historia da Littera- 
tara portugueza 

I. Epoca medieval 

Trovadores portuguezes 

Amadis de Oaula 

PoetaA palaoiaDOs 

* Os Historiadorea portuguezes 

II. Epoca classica' 
A.) — QuinherUistas 

Bernardim Bibeiro e os Buoolicos 

* Novella» de Cavalleria e Pastoraes 

Gii Vicente e as origens do Theatro nacional. . 
Eschola de Gli Vicente e o desenvolvi mento do 

Theatro naoional 

Sa de Miranda e a Esohola Italiana 

Ferrei ra e a Pleiada portugueza 

A Oomedia e a Tragedia classioas 

Cam òes — Epoca e Vida 

— Obra (Bibliographia) 

Eschola camoneana (Lyrioos e Epicos) .... 

B.) <— Seisc&ntistas 

* Os Culteranistas 

* Epicos seiscentistas 

Tragìoomedias dos Jesuitas e a Comedia de Capa 

e Espada 

* Vi eira e a Parenetica portugueza 

e.) — f Areades 

A Arcadia Lusitana 

Filinto Elysio e os Dissidentes da Arcadia . . . 

A balia Comedia e a Opera 

Booage, sua Vida e epoca litteraria 

* Jose Agosti nho de Macedo 



1 voi. 



1 voi. 
1 - 
1 « 
1 - 



III. 



Epoca romantica 

Garrett e o Romantismo 

Garrett e os Dramas romantioos 

Alexandre Heroulano e o Romantismo liberal . 

Castilho e os Ultra-Romanticos 

JoSo de Deus e o moderno Lyrismo 

A Eschola de Coirabra e a Dissolu^fio do Roman- 
tismo 



30-31 Reca pi tu la (fio da Historia da Litt. portugueza 
32 Indice geral analytico 



voi. 



voi. 



voi. 




.. .. N. B. — Os volumea notados com asterisco * estào 
ainda ineditos; pref ere-se a sua publicagào, quando 
ììào seja urgente refundir os que se acham esgotados. 



^ 



Blstoria 9a liitferafura Portugue?a 



GfìMÒES 

Epoca e Vida 
Tmeophii.o Braga 



LlVRflf^lfl CHflRDRON, de Lello S Irmào. 
cditores. f^. das Carmelitas, 144 — POF^TO. 
, - 1907 ■ 



éo^t 4^7i.^ 







PORTO — «Imprensa Moderna-, de Manoel Lello 
Rua Rainha D. Amelia. 61 



a 



Sociedade Scientifìca^^nrtisfica 

Lìfteraria 

BOIZ D8 eSMìÒSS 



822 ESEOEeS 



Sgraóecenéo : 



-^ la sua grande medaglia d'Onore 
come fesflmonian^a di alfa ammirazione 
pel più Insigne lllusfrafore deli' immor- 
tale Poeta 91 Lusiadi e dei Parnaso - 



(Il 13 eiugno 1905) 

Offerece 



O SIuGtor. 



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« 

i 



PRELIMINAR 



Nos nnmerosos trabalhos sobre a Vida de C-anioes, 
qae até ao presente nào satisfazem és condigòes da 
verdadeira historìa, em todos elles se observa urna 
constante conflagra^ào das interprota^oes criticas e da 
tradi^ào inconsciente em volta do facto. Umas vezes é 
a tradi^ao, mal comprehendida, que se toma corno facto 
positivo; oatras vezes é a sua interpreta^io ou as in- 
fereixcias toroadas corno realidade, prevalecendo a ima- 
gioacào sobre a verdade. 

Ha sempre que dizer de novo sobre a Vida de ('a- 
niòes, corrigindo ou restabelecendo pelo criterio severo 
estas relaQoes que envolvera o facto historico. O ver- 
dadeiro estudo so se realisarà quando pelo conhe- 
cimento geral da Epoca em que viveu Camòes, da 
psychologia da sua individuab'dade, e do quadro bio- 
graphico contornado nos tópicos irrefragavel mente 
conhecidos pelos documentos authenticos jà achados, 
se iimitareiT) as interpretsQÒes criticas a localisaQào dos 
factos em um quadro definitivo, e a determinagào dos 
residuos de verdade historica, que se encerram n'essas 
tradiQÒes ou lendas pessoaes. Porque a verdade nas 
tradicoes consiste no testemunho do facto pelas Ì7n- 
pressòes que d'eìle ficaram, e é pela analyse psyoliica 
d'essas impressoes, obedecendo a normas emhora in- 
iscientemente, que nos aproxiinamos da verdade da 
idade historica 

C<»mo 08 biographos que vieram depoia da geracào 
Camòes, esses investigadores do secolo xvii, ooino 
ro de Mariz, Severim de Paria, Paiva de Andrade 
iria e Sousa, nao souberam penetrar o sentido das 



Vni PBBLIMINAR 



tradii^des camonianas, os criticos que Ibes succede- 
ram despresaram esse rìquissÌDio material do passado 
historico, perdendo os fios eonductores para urna ver- 
dadeira reconstrucgao. Quanto mais distante tanto 
mais geral se torna a tradi<;ào, desligada dos particu- 
ìarismos que a pervertem e a confundem: é por està 
nova capacidade que os historiadores modernos pene- 
traram mais profundamente no passado,' por que essas 
épocas chamadas éempos fabulosos encerram o depo- 
sito das impressoes de successos que nào deixaram de 
si outra memoria, mas psycboiogicamente tao verda- 
deira, que ou nos mythos theogonicos ou nas lendas 
épicas servem para reconstituir uma Civillsagào rudi- 
mentar. 

Hoje o que melhor representar a Vida de Camòes 
coni mais verdade historica, com mais nitida compre- 
hensào da sua època, estabelecendo coni mais segu- 
ranga a rela<;ào do genio com o seu meio mental e so- 
cial, offuscare por ventura a gloria que compete a 
quantos o precederam ? Nào ; e, sem modestia, basta 
ter presente aquelle principio que traz Voltaire no seu 
Diccionario pkilosophico : «Tudo se faz por gradagoes, 
nào cabendo a gloria a ninguem.» 

No preambulo das memorias da sua vida, Goethe 
appresenta està indica^ào para um estudo biograpbico: 
«Parece-me que o objecto principal de uma biographia 
consiste em representar o homem que se visa no meio 
da sua època, e mostrar até que ponto o conjuncto Ihe 
foi obstaculo ou o auxiliou ; que ideias seguidamente 
formara do mundo e dos homens, e, se elle foi artista, 
poeta, escriptor, corno ihes deu expressào:* Seguimos 
està norma. CamÒes nasce em uma època em que a de- 
cadencìa de Portugal se dourava coni os restos de uma 
apparatosa grandeza, e quando na Europa prevalecia 
a dictadura monarchico-catholica sobre o espirito livre 
da RenasceiK^a. A vida do poeta decorreu entre calami- 
dades sociues, decepQòes intimas, perseguiQÒes e des- 
venturas, em que nunca succumbiu. Àlentou-o o ideal, 
a que todns esses soffrimentos deram relévo, que se 
tornou o Pensamento novo da consagra<jào da Patria 
em um Pregào eterno. E quantas angustias o tortura- 
ram e mesnjo o momento aziago da sua mor^te, nao fo- 
ram senao os mrios e a prova comò melhor sentiu e 
completamente se unificou com a sua terra. 



CATnOES 



EF^OCA, VIDA E 03RA 



Ao iniciar as expedÌQoes maritimas do se- 
culo XV, o genio da raqa lusitana manifesta- 
va o caracter etbnico da sua origem ligurica. 
Os grandes Descobrimentos e as temerosas 
navegai^es imprimiram ao Povo portuguez o 
vigor de urna Nacionalidade autonoma entre 
OS outros Estados peniDSulares ; e a essa na- 
cionalidade uma acQao bistorica, exercendo a 
missao impulsora de uma nova Era, na mar- 
cha progressiva da bumanidade. Confinado 
entre o continente e o mar, Portugal, pela te- 
nacidade de raga inconfundivel, realisara no 
aeculo XII a aspiragao tradicional da indepen- 
encia corno estado politico; mas foram os 
lus portos, as suas armadas dominando no 
^are librum que Ibe crearam os recursos eco- 
omicos, deixando entao de ser um appendi- 
da Hespanha. A sua burguezia nao se af- 



HIBTOBIA DA UTTSBATURA PORTtJQDEZA 

lou pelas revoltas communaes, mas nas 
as do trafico meroantìt dos prodactos de 
cploradas regi5e8, apeando o emporio ez- 
lÌTO de Veneza. Quando esses vastoa do- 
lioB geographìooB reclamaram oolonos, ca- 
li e coDfìaDQa para o credito, ae exiguas 
difòea d'eate pequeno povo foram causa 
lerial da sua decadencia ante o concurso 

poderosaa na^òes da Europa, e nunca 
s degeDereBoencìa imaginarìa. 
No Beculo XVI, o maior b()cu1o da historia, 
uando resplandecem todas estas condì^des 
les da NacioDalidade portugueza, noe as- 
tos mais delicadoB do Bentimeiito, da intel- 
ualidade e da acgio individuai. Na Litte- 
ira e Arte quinhentistas o sentimento na- 
lal ioBpirou as mais bellaa creaQoes esthe- 
s: no Theatro, revelando-se em Gii Vicente 
radioso mantida na vida popular; no Ly- 
ao, a passividade amorosa designada pe- 
criticoB estrangeiros — alma portugueza — 
i sua emocionante expressào; na Arcbite- 
*a, revivescendo na època manuelina no 
iteìro dos Jeronymos, fdrmaa ainda com- 
as à Hespanha lusa ou occidentali com a 
amenta^So do gothico-florido com os no- 

productoa das regioeB orientaes ; no Di- 
o, sancionando o costume do reino, ou as 
igaa garantÌBB populares, embora os reìni- 
is as codificassem segundo as leis roma- 

e canonicaa. E' n'este seculo guinheniis- 
que a Lìngua portugueza entra na disc!- 
la grammatica^ iniciada por Fernao de 
reira, proclamando o Doutor Antonio Fer- 
8, — que se falle, escreva e canto easa lin- 
., adaptada &a narrativaB da Hiatoria por 



CAM 5bB — BPOCA, VIDA E OBRA 



JoSo de Barros e DamìSo de Góes, tornando- 
se urna manifestaQSo organica do nacionalìs- 
mo» Bem dizia Frederico Schlegell: «Feitos 
memoraveìs, grandes successos e largos des- 
tinosi n&o bastam para eaptar a atten<;3o e 
determinar o juizo da posteridade. Para que 
nm poTO tenha este privilegio, é preciso que 
elle saiba dar conta dos seus feitos e dos sens 
destìnoB.» E' està harmonia que caracterisa o 
genio portuguez no seculo xvi, na affirma^ào 
complexa de profundos symptomas de vitali- 
dade. 

Mas sob este esplendor da èra quinhentis- 
ta, trabalhava urna for^a depressiva de des- 
nacionalisa^So, exterior & nacionalidade, pela 
ambilo do unitarismo iberico dos seus mo- 
narchas, ooadjuvados pelo unitarismo catho- 
Hco. Ao encetar-se o ultimo quartel do gran- 
dioso seculo, Portugal era convertido pelos 
seus dirigentes temporaes e espirituaes em 
urna provincia castelhana. 

Nao se apagou, apesar da dissolugào dos 

caracteres e de sanguinosas violencias, a con- 

sdencia da nacionalidadeportugueza; Camoes 

dsn expressSo a essa forga latente, e tornou- 

se Symbolo d'ella. Camoes, que nasceu no 

periodo das fortes energias; que assistiu à 

transi^So da generosa Renascen^a para a pha- 

se perturbada e esteril ; que viu toda a exten- 

sSo do dominio portuguez na Africa, India e 

extremo Oriente, nos seus desf alecimentos mo- 

ies, Camoes foi o luminoso espirito que sen- 

tt a ra^a na sua resistencia indomavel e deu 

spressSo artistica ou universal a essa con- 

nenda historica. No momento em que se iam 

ag;ando os testemunhos que mostravam Por- 



T^-:-- 



H 



.1 



4 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUG0EZA 

tugal solidario no desenvolvimento da Civili- 
saQao moderna, a Epopea de Gamoes foi o 
pregào do ninho seu paterno^ que accendeu 
nas geraQòes os impetos da independencia na- 
cional, e pela inspiragao universalista impoz 
aos seculos que este pequeno povo sobreviverà 
corno factor da historia da humanidade. Sob 
este aspecto escreveu Edgar Quìnst : «Quanto 
mais reflicto, mais me convengo que nada ha 
de mais vivo e grande, nas cousas e obras 
humanas, em que se nSo encontre este duplo 
caracter : o geral e o particular, a cabega e o 
coraQao, a humanidade e a patria. A immen- 
sa Òdyssea gravita em torno da pequena 
Ithaca. Que ha de mais coUossal do que o poe- 
ma de Dante? Transpoe o céo e o inferno, e 
comtudo nada ha mais fiorentino. Onde en- 
contrar-se um hprisonte mais vasto que noa 
Lusiadas de Gamoes? fluctuamos em marea 
desconhecidos, e comtudo o que bavera de 
mais portuguez ? Topa-se com a Lisboa que* 
rida nos confins da terra.» (Revol. d'Italie^ 
p. 74.) 

Estudado Camoes sob o exclusivo aspecto 
litterario, apparece a par dos maiores espiri- 
tos, mas sera incompleta a comprehensào do 
seu genio, porque ha em Gamoes uma feigao 
organica que o torna o representante da raga 
e o fez synthetisar o genio da litteratura por- 
tugueza. Descendente de um trovador-fidalgo 
emigrado da Galliza por luctas politicas, e 
parente da familia dos Gamas do Algarve, 
n'elle se unifica a^ antiga unidade ethnica e 
territorial da Lusitania, que comprehendeu 
toda a regiào do oéste da Hespanha, do Gabo 
Gronium a té ao Promontorio Sacro. Tendo 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 



nascido em Lisboa e passado a mocidade em 
Coimbra, o poeta percorreu as conquistas da 
Africa e da India, levandolo a contemplaQ3o 
do dominio portuguez & concepQào do ideal 
da Epopea gloriosa da nagSo nunca de ou- 
treni subjugadai chegando mesmo ao sonho 
da Monarchia universa!. O contacto da reali- 
dade fel-o reconhecer a decadencia moral das 
dasses dirigentes, o abysmo das ambiQoes 
clericaes, e os prenuncios do iberismo fortifi- 
cado pela Liga. catholìca. O regresso com o 
seu Poema à ditosa Patria tanto amada, foi 
para um maior soffrimento, assistindo fi aus- 
tera, apagada e vii tristeza em que se afun- 
dou a nacionalidade. 

E o poeta, que no seu temperamento e ca- 
racter individuai encarnou a feigao typica da 
ra^a lusitana, fortificou o ideal da Patria pela 
TradiQao e deu o maximo relèvo artistico, fa- 
zendo vibrar o ethos da nacionalidade. A Tra- 
dito é que dà unidade moral a um povo, a 
vìbra^ao unisona na emoQao nacional. Os 
Poemas homericos encerram o conjuncto das 
TradiQdes hellenicas ; sentindo este influxo, o 
genio grego fortaleceu-se com esses poemas 
todas as vezes que precisou de affirmar a sua 
independencia ou unidade moral. Na educa- 
^So grega, o estudo de Homero formava o 
nucleo fundamental da cultura; narra Xeno- 
phont«, que seu pae intentando fazer d'elle 
um homem de bem, o mandare decorar Ho- 
ro: cQuando uma crianga comega a ap- 
)nder alguma cousa, o ensino deve sair de 
mero, e esses cantos heroìcos devem ali- 
:ìtar sua alma, apenas sahido do berQO^ 
10 o leite mais puro ; elle ficarà o compa- 



eiSTORIA DA UTTBHAT0R4 PORTnOOEZA 

ro da nossa vida ; com o estudo torna-se 
)sao confidente, e na Telhice, se o aban- 
imos por um momento, voltamos logo a 
famintos.» Està unidade moral realìsada 

Tradi^So fez da Grecia a mais bella flo- 
o humana, e a impulsore de todas aa Re- 
oDoas. 

elaborando a EpopSa da nacionalidade 
ugueza, eente-se quanto em CamSes a poe- 
da Tradi^So o animaTa sob o prestìgio 
modelos olassicoB. Todas as pittoresoas 
as que bordam a hiatorìa de Portugal, 
3 a ApparÌQSo de Ourique e o aonho da 
nta Monarchia, as faQanhas de Egaa Mo- 
Geraldo Sem-pavor e dos Doze de Ingla' 
i, OS amores pathétìcoa de Ignez de Gas- 
9 de Leonor de SA, aa lendaa geographi- 
do Dragfio de Colchoa transformado no 
mastor, e das Ilhas Fortunatas na Ilha 

Amores, revelam comò se fundiam as 
3 correntea poetìcaa, medieval e claaalca, 
'òrma definitiva, que nSo é so de Portu- 
mas da Kenascen^a. 

S quando o palacianismo adoptava comò 
uà da cOrte o castelhano, repellindo a tin- 
^em nacional para o vulgo rude, tambem 
loes deu fórma perfeita e tmpereoivel a 

fronteira raoral da nacionalidade: foi elle 
le melhor fundou a disciplina grammatl- 
da lingua, enriquecendo-lhe o vocabula- 
com OS arcbaiemoa e neologismos neces- 
3B & expreaaSo pittoresca, fizando aocen- 
des e dando fi construc^So ayntaxica a 
ticidade latina. Embora a sua linguagem 
■esente todo o purismo dos Quinbentiatas. 

é ainda hoje actual e corrente. P<ìde-se 



CAMOEB — BPOOA, VIDA B OBBA 



dizer, qae os Lusiadds^ e tambem toda a sua 
obra lyrica, sempre imitada, obstaram à sci- 
sao da lingua portagueza em dialectos, son- 
do 8ob o dominio castelhano o maior estìmulo 
para a restauraQ&o da nacionalidade. 

Como individualidade preponderante, Ca- 
moes hombrea com as maiores que se desta- 
caram no quadro do secalo xvi; a sua vida 
atormentada, chela de decepQoes, mas sem- 
pre enlevado em uma esperanga ideal, é urna 
encarnaQào do temperamento aff ectivo da raQa 
Boffredora e aventureira. Os desdens de uma 
cdrte fanatica, injustÌQas, destèrros e vida er- 
rante de soldado na India, naufragios e mi- 
seria, tudo veiu em vez de quebral-o accen- 
tuar4he mais a individualidade. Joào Paulo 
Richter, em um relampago de genio mede-lhe 
assim a estatura: «Os poetas da antiguidade 
eram cidadaos e soldados antes de serem poe- 
tas, e em todos os tempos, a mSo dos gran- 
dea poetas épicos, em particular, teve de ma- 
nobrar o tim&o nas ondas da vida, antes de 
empenhar o pincel que tra^a a viagem; as- 
sim Camoes, Dante, Milton. . . Quanto foram 
Shakespeare e mais ainda Cervantes, ator- 
mentados, matraqueados, sulcados pela exi- 
fltencia, antes que em cada um d'elles o ger- 
men da fior poetica se desenvolvesse e en* 
grandeeeese.» (Poetica, e. i, § 2.) As parti- 
eularidades e minucias biographicas com que 
desde o firn do seculo xvi se tem procurado 
idarecer a vida de Camoes, conduzem a està 
nthese entrevista por JoSo Paulo. Mesmo o 
)eta na sua morte é luz philosophica que 
)8 orienta: no momento em que nao pode 
BIS tocar a patria livre, expirou com ella, 



DA UITBRATDRA PORTUQOEZA 



i6 paroxismo. O seu genio e a 
ficaram immortaes na Epopèa 
um Symbolo vivo para os por- 
ira a Europa eulta a expressSo 
tivilisa^So moderna idealiaada 
das Linguas vivas, corno Ihe 
Alexandre de Humboldt. 



INTRODUCgÀO 



A Renascenga do Seculo XVI e a Nacionalidade 

portugueza 



Todas as energias sociaes, especulativas e 

affectivas que fulguraram na Renascenga do 

seculo XIII, nas luctas das Communas, no he- 

roismo das Cruzadas, no lyrismo dos trova- 

dores, nas abstracQoes do Idealismo alexan- 

drìno ou neo-platonico, nas audacias da Dia- 

lectica, e no culto cavalheiresco da Mulher 

definindo-se na adoragao da Virgem, apaga- 

ram-se na inanidade, diante da tremenda rea- 

cgao da Egreja coUigada com a Realeza. Por 

que se operou este extraordinario eclipse na 

Civilisa^ào Occidental, que renasela ? Por que 

a todas essas energias faltou uma base obje- 

"va, experimental, verificavel ou scientifica. 

natureza era um prestigio para as especu- 

;5es da magia, e nao para a observagào in- 

ctiva. D'esse fulgor da primeira Benascenga 

aservou Petrarcha o facho sagrado do ly- 



HISTOBIA Di LlTTEBATtJRA FOBTUOUEZA 

10 trobadoresco, e acordou a paìzSo de 
novo amor, as Lettras humacas, as obras 
lìtas e despresadas da cultura greoo-ro- 
la. Foram estas duas tradigòes, que se re- 
)raram no meado do aeculo xv e acorda- 

o sentimento poetico e o anibuziasmo do 
nanismo com que a Italia abriu a èra de 
1 aegunda Renascen^a. Esse Humanìsmo. 

appresentou o aspecto philologico, pela 
*oduc<;ao pela Imprensa dos exemplares 
;o8 e romanoB, tornou-se critico nas lu- 

tbeologicas, servindo de arma de com- 
) aos Èrasmistas, e de base de reac^fio 
Ltal pedagogica aos JeBuitas, e conduztu 
)rematuraB syntheses philosophicas, comò 
brmularam Giordano Bruno e Campanel" 
K BenaBceoQa, que conatitue a esseucia do 
ilo XVI, actuando nas eaergias de todas 
lacoes, estava destinada a extinguir-se sob 
'eacQÒes catholioa e monarchica, e a esgo- 
se na eaterilidade, tal corno succederà no 
ilo XIII. N'esta segunda crise de revive- 
loia da Civilisa^ào Occidental, ap[V)receu 
elemento organico e fecundo, que deu é. 
io a base positiva — o conhecimento fun- 
o na observa^So da Natureza, fazendo 
ralecer o espirito scientifico em vez da 
lulidade medieval. Essa tendencia para o 
ido da Natureza proveiu dos grandes Dea- 
[■imentoB maritimos dos Portuguezes; e a 
laseen^a oome^a, terminada a epoca social 
ental da Edade mèdia, conservando-se o 
igonismo dos dois espiritos germanico e 
no. 
3 que foì a Edade Mèdia ? A germanìsa- 

do mundo Occidental pelas tremendaa in- 



CAM5E8 — EPOCA, TIDA B OBRA 1 1 

vas5e8 do seculo v em Franca, na Italia, na 
Hespanha, no norte da Africa, sobre todo o 
dominio da cultura romana. O aoordar d'essa 
quasi apagada cultura no firn do seculo xv, e 
seu influxo directo nas intelligencias do se- 
calo XVI constituiu um verdadeiro Renasci- 
mento do genio helleno- italico na arte, na lit- 
teratura, nas ideias philosophicas e politicas 
entre as nacionalidades modernas. E' certo 
qiie essa germanisagdo foi attenuada pela in- 
fiitraoao christS entre os Frankos, Lombar'> 
dos, Godos e Suevos, e até na propria Alle- 
manha ; mas a brutalidade guerreira systema- 
tìsou-se socialmente na hierarchia feudal dos 
Baroes e no absolutismo irrefreavel das Mo- 
narchias imperialistas ou militares. Mas os 
dois genios, radicalmente differentes, o germa- 
no e o latino, embora se repugnassemi coope- 
raram comò f actores na realisa^&o do progres- 
so humano. Ranke, na sua obra capital His- 
toria das Nagdes germanicas e das Naqoes 
romanioas de 1495 a 1535, toma o quadro 
da civilisaQ3o moderna no momento em que 
termina a Edade Mèdia pela renovagao do es- 
pirito greco-romano, e os Humanistas iniciam 
a èra que se designou significativamente do 
Renascimento. O quadro é interessantissimo 
pela complexidade dos phenomenos sociaes 
em que os dois espiri tos de novo se confla- 
gram, mas sempre servindo um impulso, em- 
bora inconsciente, na marcha da civilisagao 
•edema. A tentativa do imperador barbaro 
taulf de converter a unidade imperiai da 
omania, ou o mundo occidental em uma 
lidade germanica, ou Gothia, pela sobrepo- 
f3o das rai^as do norte, nào se realisou, por 



OBIA DA LITTEBATUBA PORTUGCEZA 

xcIusÌTÌsmo de sangue fundiu-se no 
ismo do genio latino, corno o evi- 
8 colonìas. boje nagòes da America 
da America latina, tao differencia- 
1 modo de Ber Bocial, e tao interes- 
prolongamento da CivilisagSo occÌ- 

3o dos estudos bumanistas no co- 
jculo XVI apodera-se da Allemanha, 
riquece de Unirersidades meridio- 
indo o genio latino pelos seus phi- 
aruditoB, corno Erasmo, Reuchlin e 
i; mas essa harmonia moral, sua- 
aente a impetuoeidade germanica, 
o da Beforma religiosa nascida da 
exe^tica dos textos da Biblia. Es- 
s Soury, confrontando os humanis- 
cos, eruditos orthodoxos, prelados 
)5, com a ìmpetuosidade protestai! - 
òrma religiosa nSo poderia ter sìdo 
L se nSo fòsse a Renascenga das 
las longe de ter nascido d'ella, foi 
irio urna reacQSo centra o espirilo 
ìeDascenca." Reaegao contra o quo 

o paganismo ìmperaDdo na Egre- 
rdeaes ciceronianos, no gosto das 
ticae, na sumptuoaidade artistica, 
rito de franca admira<;3o e de goso 

obras primas da Antiguidade. O 
'asmo que visitou Roma, queixa-se 

Cardeaes juram pelos Deuses im- 

receia que o culto pela Antiguida- 
trogradar a Italia ao paganismo, 
la ma Tontade se observa nos epi- 
le Ulrick de Hutten contra Julio ii 

Como nSo havia de iosurgir-se o 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 13 

pobre frade augustiniano, Luthero, que tendo 
Tisitado Roma chama aos italianos «os mais 
impios dos homens, motejando da verdadeira 
religiao.» Ulrich de Hutten que estiverà dois 
ansos na Italia, serviu-se da cultura buma- 
nista para atacar em Satiras latinas o papa e 
a cleriealha que ousavam perseguir Reuchlin. 
A coroagao do poeta Hutten por Maximiliano 
em 1517, era o triumpho do espirito moder- 
no, que ia irromper no protesto das 96 the- 
ses de Luthero contra a simonia romana. 

Na Edade mèdia duas ragas se acham em 
contacio, a germanica, pela sua Realeza impe- 
riai impondo-se & cultura latina, que é repre- 
sentada pela Egreja. As luctas entre o Sacer- 
docio e o Imperio n3o deixaram f undir-se estes 
dois elementos antagonicos em uma socieda- 
de europèa progressiva. Uma Ghristandade 
e orna Gothia, esgotaram-se em conflictos tem- 
poraes; mas o sentimento religioso, pela sin- 
cerìdade popular, estabelecera uma solidario- 
dade europea denominada a Republica chris- 
ti, a ponto de, na lucta das Cruzadas esse 
espirito da Republica christa impòr-se aos 
reis e cbefes militares e mesmo a desobede-' 
cerlhes. O espirito de reforma religiosa, que 
irrompe corno oxhortagoes mysticas no se- 
calo XV, revela que findara a unanimidade 
dos crédulos; e nas luctas dos differentes es- 
tados, quer nos conflictos politìcos procuran- 
do um novo equilibrio europeu, quer nas que- 
as religiosas, fulge um espirito que uni- 
i as intelligencias em uma concordia : é a 
liraQSo das obras primas da Antiguidade 
isica, formando esse gosto uma Republica 
' Lettras. Ante ella nao ha fronteiras na- 



BI8TOBI& DA UTTERATORA PORTUQUBZA 



laeB ; um mesmo sentimento se communica 
cartas intimas entre todos oa Humanistas 
anos, portuguezes, francezea, allem&eB, 
andezeB e hespanhoes. Emquanto os mo- 
Qhas se combatem, é a Republica das Let' 
: que Ihes atenua as furias deatempera- 
, bumanÌBando-OB no delirio da Monarchia 
versai, a que aspiram. Na Renascen^a do 
ilo XVI o Humanismo alenta o espirito oni- 
ialiBta, OS homens da Kefórma, e o en- 
Eo dos eruditoB, dos dignatarios ecclesiastì- 

como Bembo e Sadoleto. Os papas, corno 
o X, e OS reis, corno Francisco i, abrem as 
j cortes a esse eepìrito universalista. Mas 
ndo està concordia ia imprimir fi socieda- 
auropéa o caracter cìvitìsta eobre o impe- 
ismo medieval, um fermento de dìsaolu^ao 
i langar o cahos na marcba imponente do 
ilo XYi: a Realeza quer retomar o seu Im- 
alismo medieval, e a Egreja cavilla para 
anrar a decahida Theocracia. Esse fer- 
ito foi urna recrudesoencia do germanis- 

Como em urna nova edade do mundo, 
e^am as grandes guerras entre as Na- 
1, em que o desen voi vi mento do commer- 
da industria, da navega^ào, das Littera- 
iB, das Artes, da consciencìa religiosa e 
eduoa^ào scientifica, tornaram mais pro- 
la a BepBra(;3o do Occidente e do Norie 
Europa, do espirìto latino e do esfori^o 
nanico. As Nacionalidades separadas pe- 
Ddios dos soberanos, desen voi vem- se pela 
lade de cultura, inìoio da civìlisaoSo mo- 
ia, emquanto os politìcos buscam um equi- 
io europeu n'essas luctas da Franca de 
los vili, da Allemanha de Maximìliano, da 



CAHOE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 15 

Italia de Sforza, na Hespanha de Fernando e 
iBabel. O pensamento ou doutrina da Monar- 
chia universali hallucina a cabega de Carlos v, 
em que Hutten viai depois da elei^So pelos 
magnates teutonicos, um Àrminius symboli- 
sando as luctas da Germania contra Roma ; 
a mesma vertìgem em Francisco i, Henri- 
qiie VITI, e os seus antagonismos é que tor- 
nam irrealisavel o sonho imperialista, fazen- 
do com que as duas eorrentes germanica e 
romana, comò observa Ranke, se nào absor- 
▼essem em uma tyrannìa unica. Jacob Grimm, 
na sua Mythologia allemà^ fundava no anta- 
gonismo germanico contra a cultura latina, 
representada no Oatholicismo, a causa imma- 
nente do Protestantismo, que por esse ethos 
da raQa, predominou nos tres ramos teutoni- 
cos, Germanos, Scandinavos e Anglo-Saxo- 
nios. A lucta pelo imperialismo germanico era 
urna aspirando ao naeionalismo, assim comò 
na separaQSo da Inglaterra da Egreja de 
Roma. Sómente na monarchia hespanhola, é 
que o Imperador Carlos v, faltando às espe- 
ran^as protestantes, fundiu a prepotencia ger- 
manica com a auctoridade latina, laudando a 
Europa da segunda metade do seculo xvi em 
um tremendo retrocesso catholico-monarchi- 
co. Ter^se-hia inutilìsado todo o vigor da Re- 
nasconda, se o espirito moderno nao se fir- 
masse em um facto decisivo que revolucionou 
mundo cotn novas condÌQ5es da vida — os 
38cobriment08 dos Portuguezes. 
N'este quadro complicado dos factores da 
enasceuQa, que se conflagram em impulsos 
taes e retrocessos sangrentos de instituÌQoes 
achronicas que se impoem & sociedade, a 



H1ST0RIA DA LIITERATORA PORTUOUEZA 



vÌ83o Clara d'està nova edade consegue-se 
destacando esses elementOB progressivos : 

A rehabilìtagào da Natureza, ìniciada pe- 
los Descobrimentos marìtìmos, conduzindo a 
urna nova synthese do universo; 

O reconhecimento da Humanidade, pela 
revìvescenoìa da Cultura greco-romana, e es- 
pirito de toleraocia ; 

E o Individualismo, pela Uberta^So da 
auctoridade tradicional e livre-exame, que su- 
scita as di&sidencias espirituaes da Reforma 
e o prevaiecimento do racionalismo. 



Os Descobrìmentos maritimos dos Portuguezes 
e Sentimento da Natureza 



A importancia e caracter scientifico dos 
Deseobrimentos maritimos dos portuguezes, 
acha-se laconicamente refenda em 1537 pelo 
insigne cosmographo Dr. Fedro Nunes, no 
san Tratado em defensam da Carta de ma- 
rear: cNam ha duvida que as navegagdes 
d'aste reyno de cem 9nos a està parte s3o as 
mayores: mais mara vilhosas : de mais altas 
e mais discretas conjeyturas, que as de ne- 
nhama outra gente do mundo. Os Portugue< 
zes ousaram cometer o grande mar Oceano. 
Entraram por elle sem nenhum receo. Desco- 
brìram novas ylhas, novas terras, novos ma- 
1 J, novos povos ; e o que mais he : novo céo 
I novas estrellas. E perderam-lhe tanto o 
: ■Mio, que: nem fi grande quentura da torra- 
' zona, nem o descompassado frio da extre- 
parte do sul, com que os antigos escripto- 



F. 



18 HlSTOaiA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 

res nos amea^avam, Ihes pòde estorvar; que 
perdendo a estrella do norte e tornando-a a 
cobrar: descobrindo e passando o temeroso 
Cabo da Boa EsperanQa» o mar de Ethyopia» 
de Arabia, de Persia, poderam chegar & In- 
dia. Passaram o rio Ganges t3o nomeado, a 
grande Trapobana, é as ilhas mais orientaes. 
Tir ara- nos miiitas ignorancias e amostraram- 
nos ser a terra mór que o mar e haver hi 
Antipodas, que até os santos duvidavam; e 
que nao ha regiam que nem per quente nem 
per fria se deixe de habitar. E que em hum 
mesmo clima e egual distancia da equinociaU 
ha homens brancos e pretos e de mui diffe- 
rentes calidades. E fezeram o mar tam cham 
que nani ha quem hoje ouse dizer que achas- 
se novamente alguma pequena ylha. al^ùs 
baxos, ou sequer algum penedo, que por nós- 
sas navega^des nam seja jà descoberto. Ora 
manifesto he, que estes descobrimentos de 
costas, ylhas e terras firmes nam se fezeram 
indo a acertar; mas partiam os nossos ma- 
reantes muy ensinados e providos de estor- 
mentos e regras de Astrologia e Geometria» 
que sam as cousas de que os Cosmographos 
ham de andar apercebidos . . . Levavam car- 
tas muy particularmente rumadas, e n&o jà 
as de que os antigos usavam, que nao tinham 
mais figurados que doze ventos, e navega- 
vam sem agulha.» 

Depois d'està sobriedade scientifica, vé-se 
que OS grandes Descobrimentos portuguezes 
deviam influir em uma nova concepQào cos- 
mologica, e em um novo ideal da vida hu- 
mana, que o ascetismo medieval amesquìnha- 
ra. E' depois d'estes Descobrimentos que Co- 



CAMÒES — EPOCA, TIDA B OBRA 19 

pernice estabelece com dados positivos o sys- 
tama da terra, demolindo de vez a doutrina 
de Ptolomen sustentada pelo pedantismo dou- 
toral e pela Egre] a. Copernico n3o occultou 
quanto devia aos Descobrimentos dos Porta- 
gaezeSi e no seu livro Astronomia instaura- 
ta^ de Revolutionibus corporum ccelestium^ 
baseado sobre o conhecimento da esphericida- 
de da Terra, Hovamente verificada, diz : «Iato 
seri mais darò se fòrem ajuntadas as Ilhas 
em nassa tempo descobertas sob os Princepes 
das Hespanhàs e da Lusitania, e a Ameri- 
ca. . . além de muitas outras Ilhas anterior- 
mente Incognitas; n3o nos devemos por isso 
admirar de haver antipodas oa antichtones, 
pois a rasSo geometrica fórga a considerar a 
America diametralmente opposta & India gan- 
^etica. De tudo isto, finalmente, julga evi- 
dente que a terra e a agua se apoiam em um 
unico centro de gravidade. N3o é portanto 
plana a Terra... mas absolutamente redon- 
da.> Yé-se que a nova concepQSo cosmica, 
abragada unanimemente por todos os sabios, 
e actuando logo na orientaQSo do bqm senso 
vulgar^ nao nasceu de um processo subjecti- 
vo de intulQào genial, mas de uma simples 
deduc^So de um facto verifica vel. ^ Coperni- 



^ Joio BooanQa, no monumentai trabalho Hislo- 
fa da LusUania e da Iberia, (t. i, p. 95) commenta 
ita declara^o de Copernico sobre as consequencia» 
^entificas dos Descobrimentos dos Portnguezes: 

«Com effeìto, os descobrimentos geograpbicos he- 
Reamente realisados pelos portnguezes e hespanhoes 
arante os tres ultimos qnarteis do seculo xv e o pri- 
leiro do XVI deitaram por terra muitas das vellhas e 



20 



HISTORIA DA LITTERATURA PORTUOUEZA 



CO, espirito positivamente disciplinado pelos 
estudos da Mathematica e da Medicina, via- 
jftra por 1503 em Italia, e ahi teve conheci- 
mento da importancia dos Descobrimentos ma- 
ritimos dos Portuguezes; em 1606 come^ou 
a elabora^So da nova theoria cosmica no li- 
vro De revolutionibus Corporum ccBlestium. 
Na sua probidade de homem de sciencia, con- 
fessa Copernico, que os sabios gregos, corno 
Nicetas e Philolaus, os pythagoricos Archy- 



arreigadas opinioes a respeito do mundo, e produziram 
conhecimentos que.fizeram mudar completamente a 
face da sciencia e da sociedade, sem que a essa mudati- 
la se podessem oppór com efficacia nem a cren^a cega 
das multidoes, nem a auctoridade dos sabios, nem o 
dogmatismo religioso. Desde que os portuguezes troa- 
xeram à Europa os negros aa Guiné, bem poderam 
todos OS sabios do mundo esfalfar-se em affirmar com 
Strabao e Plinio que a zona equatorial era inhabitada, 
que a sua sabedoria nao evocaria mais que nm sorriso 
de incredulidade. 

«Bem poderia a Egreja com Lactancio e Santo A^os- 
tinho negar terminantemente a existencia dos antipo- 
das, e condemnar sob a auctoridade pontificai de Za- 
carias todo aquelle que affirmasse existir outro mundo 
e outros homens sobre a terra, que, depois de Fernao 
de Magalhàes ter feito a volta do globo, deìxando en- 
tre o Oceano Atlantico e o Pacifico o extremo conti- 
nente americano, habitado por outras ra^as humanas, 
ninguem tomaria a serio as dontrinas geographicas e 
anthropologicas dos Santos Padres. 

< — A Terra estava pois explorada quasi de pòlo a 
pòlo, e o seu equador todo percorrido desde as Ilhas 
de San Thomé e Princepe até à foz do Amazonas. Por 
toda a parte o globo se havia apresentado isolado no 
espa^o. 

«Foi a primeira vez que a humanidade após urna 
existencia de milhares de annos, teve a nogào nitida e 
positiva do mundo que habitava.» (Op. ciL^ p. 71 e 77.) 



CAMÒES — BPOCA, VIDA £ OBRA 21 

tas de Tarento, Heraclito do Ponto e Eche- 
crates, e ainda Timeo de Locres, jà tinham 
affirmado theoricamente a doutrioa da esphe- 
nddade da Terra; faltaralhes urna demon- 
Btraoao positiva, verificavel, e d'ahi a critica 
negativa de Ptolomeu a essa doutrina bem 
expofita por elle, mas sarcasticamente. Coper- 
nico, pela sua cultura humanista conhecia a 
velha doutrina dos philosophos gregos, e tor- 
nou-a scientifica pela verificagao do descobri- 
mento da America e exìstencia de antipodas, 
demonstrando a esphericidade da Terra. A 
obra de Copernico ficou inedita durante trintà 
e seis annos, tal era a potencia das ideias im- 
postas pelo dogmatismo clerical e erudito; ap- 
pareceu o livro em 1543, (Nurémberg) quan- 
do jà a RenasceuQa descambava para o seu 
periodo de decadencia, em que o humanismo 
ia ser desnaturado pela Companhia de Jesus; 
6 foi condemnado pela Congrega^ao do Index * 
em 1616, quando a Egreja jà impotente para 
yencer o espirito moderno, encarcerava exe- 
erandamente Galileo. 

N3o era semente a Egreja catholica, que 

reagia contra este facto capital da Kenascenga, 

que dava urna orientagSo positiva à mentali- 

dade moderna, libertandoa pelo criterio scien- 

tifico dos preconceitos tradicionaes do saber 

antigo em que tinham sido elaborados os do- 

gmas religiosos; o Protestantismo combateu 

facto com mais desplante. Luthero, que com 

sua audacia germanica atacava a auctori- 

ade hierarchica latina, estava immerso no 

trazo do espirito theologico, e a concepQao 

3Bmica de Copernico mereceu-lhe os mais 

iolentos sarcasmos. Consignem-se as memo- 



y 22 HlBTOBIA DA UTTIRASITU FOSTUOCSZA 

'■ randas palavraa que Ihe mereceram as ìd 

t de Copernico: «FaUa-se de um novo aatrt 

mo, que pretende provar que a Terra é 

l ^ra, e nfio o Gèo ou firiDamanto, o So 

Iiua. Tal v&B o mondo hoje em dia. Qi 

quizer campar por eaperto nSo se deve i 

^ tentar com o que praticam e sabem os out 

• O parvo quer alterar toda a arte da Astr< 

mia; maa a Sagrada Eseriptura diz que f 

Sol que JoBué mandou parar e nSo a Ter 

NSo admira que ao frade augustlniano, 

derivava da interpretalo da Biblia tod 

-, aaber humano, nSo ehegassem as notioiai 

factoB igQoradoH que alteravam fundamei 

i mente as concepc5es humanas; e ae os coi 

; cesae e comprehendeaae, por ventura em 

'• de se insurgir contra a simonia das ìndul] 

i cias, seguirla oom ardor a nova synthese 

; mica. 

;' A emoQSo profunda causada por esses Des- 

^' cobrimentoB entre os sabioa acha-se asaim de- 

: scripta por Damiào de Goea, na Chronica do 

i Prinoepe D. Joào: <Daa quaes naregaQ5e8 

j admiraffio foi entSo tamanha, que por esse 

[ reapeìto vieram a estes reinos muitos homens 

l letrados e curiosos, dos quaea una vinbam 

r oom tenoìo de ir vèr estas terras, provincias 

j e novos costumes dos babitadorea d'ellaa; ou 

> para tambem ajudarem a deBcx}brir outras 

' oom esperanga do proveito que d'ieso podìa 

aeguir; outros vinham sómente para vdrem 
as cousaa, que d'estas novaa provinciaa os 
nOBBOS traziam ; ou para esoreverem o quo 
ouviam d'aquellea que das taes Kavegaoèea 
tornavam ; ■ ■ ■ o que estes homena estrangoi- 
ros faziam ou de suaa proprias vontadas, ou 



CAICÒES — fiPOCAy TIBÀ B OBBA 23 

mandadoe de Gidades, Repnblicas e prince* 
pe0 desejoaos de saberem a certeza de tama« 
nhas novfdadee.» O Interesse que estes Des- 
cobrìmentos provoca vam proTinha das suas 
immediatas oonsequenoias. Primeiramente o 
apparedmento doe Portngueses na India su- 
fltoa na Europa a invasio erescente dos Tur- 
006, quo tfreram de ir luctar na Asia para 
mantéfem o seu dominio. Em seguida Veneza 
perdeu o seu imperio commmereial, que se 
fazia pelo Mediterraneo, e o ferror pela acti* 
yfdade mercantil substituiu^^se ao oavalheiris- 
mo esgotado das eruzadas religiosas e das 
gaerras privadas. No dominio do pensamento, 
o oònheeimento da esphericidade da terra, da 
nbiquldade do homem em todos os dimas, de 
ontras ra^as, rellgides e sodedades, alargam 
essa libertaQSo das mlragens do passado da 
scienda verbalista e dos dogmas theologioos, 
dando mesmo aos estudos dos Humanistas o 
gesto da serena amenidade comprehendida no 
ideal antigo. Sem o sueoesso grandioso dos 
Desoobrimentos, a RenasceuQa do seeulo xvi 
nio teria sido um regresso & Natureza, o 
aoordar do pezadello claustral da Edade mè- 
dia; seiti esse impulso realista e rejuTenescen- 
te, as Lltteraturas classicas tomariam a ser 
esqueddas, corno na primeira Renaseen^a do 
seculo xtn, e a Refórma religiosa nSo encon- 
trarìa nas nagOes de origem germanica a ef fer- 
resoencia do individualismo, que determinou 

s progressos poHticos e a actividade indù* 

"rial e mercantil. 
Importa condderar o facto dos Descobri- 

entos portnguezes sob o aspecto de um pla- 

consciente, realisado n9o 6. ventura, nem 



LITTBH4TDRA PORIDOUEZA 

>8 propheticas, mas por car- 
:, oomo notou o cosmograpfao 
' assim é que se compreheD- 
troBO phenomeno historieo, a 
o genio e da nacionalidade 
lundido com a aventura de 
lidou ter descoberto Gypan- 
lludiu &B navef;aQ5es feitas 
s hespanhoes (Fernando e 
itania (D. Jo3o ii e D. Ma- 
se Mea o facto capital da 
IO descobrimeoto da Ameri- 
CbrìstOTam Colombo, n&o se 
'adores bìstoriooa, que esse 
> pelos ccnhecimentos adquì- 
\\ pelo contacto do genoves 
lavegadores, apoderando-se 
) plano doB Descobrimentos 
es iam realiBando. A cbega- 
a Portugal, attrahido pela 
ma d'està na^So, foi entre 
landò jà estava realisada a 
Ihas atlaotìcas, i^rimeiro es- 
ilora(;3o doB maree ocoiden- 
tlacionado oom a familia de 
i>lhe com a filba D. Tsabd 
e com sua mulher visitou 
^asada com Fedro Correla, 
>rto Santo, e tambem nave- 
Colombo confessa o que de- 
Qes pessoaes com portugue- 
Portugal eomenzó a conge- 
no modo que loa Portugue- 
D lejoB al Mediodia, podria 
;a de Occidente y ballar tier- 
;e.> Assim se expresaa He- 



CAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBBA 25 



Bando Colon, seu filho, na Vida del Almiran- 
te; mas, embora se arrogue a originalidade 
do descobrimento por congeturas, vè-se tor- 
nado a confessar, que tambem foi dirigido por 
los indicios de los navegantes. Foram esses 
indicios as viagens realisadas ao Labrador 
por navegadores insulanos, que determina- 
ram Colombo à sua primeira viagem aos ma- 
rea do Norte: cYó navegué el alio de 477 en 
rt mes de Febrero: ultra Tile, cien leguas. . . > 
E da segunda viagem para o sul, és posses- 
sdes portuguezas do Golfo de Guiné em 1481, 
diz: cYo estuve en el castillo de la Mina del 
Rei de Portugal, que està debajo de la equi- 
nocial, y ansy soy buen testigo, que no és in- 
habìtabie corno dicen.» Era essa urna das ques- 
tdes geographicas dominantes antes dos des- 
cobrimentos portuguezes* A viuvez de Colom- 
bo é que o levou a estas emprezas arrojadas; 
entao se offereceu a D. Jo3o ii para realisar 
aa navegagdes para o Occidente. E' aqui que 
a excusa de D. Joao ii recebe urna explicagao 
nova; nào foram as exigencias excessivas de 
Colombo nem o parecer negativo do Conse- 
Iho real, que fizeram recusar-lhe os serviQos, 
mas sim o confiarem ao estrangeiro urna via- 
gem isolada, que constituia parte de um pla- 
no completo de expedi^des maritimas; entao 
Colombo parte para Hespanha em 1488, ten- 
do ainda por algum tempo relagòes com D. 
Jofio II ; desoonhecendo o plano das Navega- 
Ses portuguezas, intenta, sob o terror dos 
rurcos na Europa, descobrir um Continente 
>ara onde se estenda a Fé catholica, e entre 
M seus livros figuram as Propbecias, com 
'^ue se suggestionava. O quadro integrai das 



26 BI8TORIA DA LITTEBATUBA POKTOQOIZA 

NaTega^es portaguezas é essancial pi 
sua oomprehensao historioa. Ludano G 
ro traga-o laconicamente, mas com linfa 
tidaa: 

«Esse caminho é realmente o do eat 
o da critioa consciencidsa, minuoiosa e s 
do movimento das exploraQ^es maritimi 
ciadas pelos Portuguezea, n9o apenas 
se costuma pensar e dizer, sob a direct 
grande Infante D. Henriqus, mas dead 
Portugal comegou a consHtuir urna no 
um estado historioamenie distinoto ao 
da costa oocidental mais &van<;ada da Ei 

«Colombo fez-se n'eate melo. Be nasc 
Italia e morreu ao aervlgo da Heapanh», — 
em Portugal que se fez homem, e foi segara- 
mente por isso e aqui que se fez naveganta e 
descobridor. E' um facto irreouBavel e certo. 

cOra eaouaado sera dizer, que o movi^ 
mento alludido tem de aer conaiderado n&o 
corno um facto sporadico, corno produoto de 
um plano ou de um capricho individuai — tal 
concep^io é radicalmente absurda,— mas comò 
intima e fatalmente relaoionado com a for- 
malo da noBsa nacionalidade sob todoe 
o$ varioe aspeotos e elementoa concorrentes 
d'essa formagdo: — geographìcos, ethnicos e 
politicos. 

<A landa geral, tam adoptada peloa politi- 
cos e eacriptores hespanhoea, de que nós so* 
mos apenas um termo politicamente desagra- 
gado d'està sìmples expressSo geographica— 
a Hespanha — tem contribuìdo para as mais 
desaatrosas illuades e para os mala extraordì- 
narioB erros, entre ob quaes oa que andam 
vulgarisados a respeito da nossa singular ex- 



GAH5E8 —SFOCA, VIDA B OBRA 27 

pansSo maritima e oolonial» alias bem diver* 
sa cUi dos nosaos visinhos. 

«Assilli 6, que n&o se tem considerado tam* 
bem, que duas eorrentes diversas caracteri* 
sam deade o eomé^o, os nossos Desoobrimen- 
tos: — ama para o Oéste, para os desconhe- 
eidos marea que se alargam e nos attrfiem em 
face da mussa extensa costa Occidental ; — ou* 
ta para o Sul, ao longo da costa africana, 
definindo-se, mn dia, na procura das terras 
orieotaes da velha tradiQao erudita. — 

cDesde que a primeira d'aquellas eorren- 
tes, ]&. bastante sangrada pela segunda, at- 
tiage ou deseobre os A^dres — a maio carni- 
nho do Noto Mundo, — póde dizerse que a 
descoberta da America estfi tSo assegurada, 
eomo fica a da India desde que a segunda 
corrente, continuada por Bartholomeu Dias, 
monta o Gabo da Boa Esperan^a. — Assim 
oomo iogo depois de Diego Cam piantar o 
sea padrio em Oroas cape. . . Bartholomeu 
Dias passa arante, e Vasco da Gama entra 
no Mar da India; — tambem desde que des- 
cobrem e povdam os A<^res, os Portuguezes 
langam-se para a fronte na pesquisa de novas 
terraa occidentaes, solicitam com toda a segu* 
ranga a ooncesaao antecipada d'ellas, e lon- 
ge de alimentar illusoes de que seja na vo- 
gando para o Occidente que acertarSo com o 
caminho de Éste, contam pelo contrario, com 
regioes inteiramente desconhecidas e novas. 
aando multo, e alguns apenas, sonham com 
vaga tradÌQ&o da Antilia. O Preste Jodo 6 
ne nenhum procura, d'aquelle lado. 

e Esse absurdo so absorve a imaginaQSo 
yatica e a geographia theorica de Colombo. 



28 HISTORIA DA LIITERATUBA PORT176UEZA 

«Se foi esse absurdo que o lanQOu aos ma* 
res, foi a corrente antiga e genuinamente 
portugueza das Navegagòes e descobrimentos 
para o Occidente que o lev^ou a encontrar o 
contrario do que elle ima gin ava, o que os 
Portuguezes affirmavam existir, e que, exa- 
età mente antes de elle sahir de Hespanha, 
D. Joào II mandava descobrir por dois ho- 
mens dos AQòres : Fedro de Barcellos e Joào 
Fernandes Labrador. 

«Ah, a landa colombiana tem sido bem 
in j usta para com aquelle grande Rei por elle 
nào ter acceite o absurdo de deaviar os seus 
navegadores habeis e praticos do caminho 
que perfeitamente sabia que nos conduzia 6 
India, para o do Occidente, por onde elle 
mandava procurar, nào o Cypango, corno 
queria Colombo, mas bem diversas regiòee 
que o Labrador, os Cdrte-Reaes, e mais tar- 
de 08 Fagundes e Cabrai haviam de inscre* 
ver nos mappa8.> ^ 

Refor^ando està these do Descobrimento 
da America antes de Colombo pelos Portu- 
guezes, apresentada por Oldham, accrescenta 
Luciano Cordeiro, na Carta que vamos ex- 
tractando, alguns factos: <As exploragoes 
dos Córte- Reaes sào geralmente reconhecidas 
hoje, e embora se tenha entendido que em 
rela^So a ellas so possa considerar-se segura 
uma chronologia posterior & primeira viagem 
de Colombo, é certo que nào tem podido an- 



^ Carta ao Bardo de Danvers, referindo-se fi Con- 
ferencia do Pref. Oldham, Pre-Columbiam Discovery 
of America. 



CAHÒBS — EPOCA, VIDA E OBBA 29 

nnllar-se a terminante affirmaQào de um do- 
cumento officiai de principios de 1500, quan- 
do diz que ]& antes haviam andado elles 
n'aqnellas exploragoes. 

«Ainda ultimamente se encontrou docu- 
mento absolutamente insuspeito que denun- 
cia terem sido enviados dois navegadores dos 
A^res, em 1491 ou principios de 1492 a des- 
oobrir novas terras, chamando-se um d'elles 
JoSo Femandes Labrador. Este patronymico, 
que eziste ainda em Portugal, coincide com 
ìndiQaQoes antigas e precisas àcerca da des- 
coberta e denomina^ào da Terra do Labra* 
dor. Um sabio anglo-americano, o snr. Patter- 
8on» pubiicou ha poucos annos uma impor- 
tante memoria, em que por exame e observa- 
^o minnciosa e direota estabeleceu a desco- 
berta portugueza da America do Norte, em 
rrtaofio A qual subsistem numerosas denomi- 
na^ea dos descobridores portuguezes. 

«O proprio Colombo, — e o snr. Oldham 
tambem cita este facto, — explicava na sua 
terceira viagem uma variante de rumo, di- 
zendo querer verificar se tinha rasSo o Rei 
Jo&o de Portugal quando dissera, que para o 
Sul se encontrava a terra dos Papagaios, ìsto 
é» a America do Sul. 

«E' luminosa a phrase, observa o snr. Ol- 
dham. Sempre a considerei assim. E', ou vale 
um exceliente documento. 

<0 Rei Jo3o so podia ter dito aquillo a 
Colombo, quando este o importunava com a 
desastrada ideia de descobrir a India pelo 
Occidente, ou quando regressava da sua tam 
diversa descoberta, e, em qualquer dos casos, 
a phrase mostrava que o Rei tinha jà noti* 



80 HISTORIA DA LITTERATURA PORTt^GUEZA 

cias das Terras amerioanas. Dom Jo3o mor 
reu em 1495.» No plano dos desciobrimentoa 
geographicoa, a regiSo ocoidental, fixado o 
ponto de apoio no Archipelago dos Ai;6re8, 
era explorada pelos navegadores a^orianos, 
Baroellos, Labrador, Cdrte-Reaes, nas via- 
gens para o norte da America; e para o Sul 
pelos que andavam empenhados na passagem 
do Gabo das Tormentas, oomo sucoedeu a Al- 
vares Cabrai. Colombo, sem conbecer esse 
plano systematìco, dirigiu-se ao melo do con- 
tinente Occidental para descobrir o que elle 
julgou urna ilha, a Cypango. N'estas navega- 
Q5es attingiram os Portaguezes a maxima re- 
sistencia e energia do seu caracter ; d'essa pò- 
tencia activa proveiu o esplendor da naciona- 
lidade, e d'essa sublime emo^So nasceram 
bellas fórmas de Arte, comò a Architectura 
dos Jeronymos, a Ourivesaria comò a da Cus- 
todia de Gii Vicente, o Drama nacional coma 
o Auto da Fama, e a assombrosa Epopda 
dos Lusiadas. 

As navegagdes atlanticas, realisadas por 
Gonzalo Velbo Cabrai com o descobrimento 
do Archipelago dos Agóres, determinar am ex- 
ploraQdes maritimas para as regioes do No- 
roéste. Quando Colombo refere que navegou 
no anno de 1477 ultra Tile isla, por certo 
algum vago rumor Ihe tinha chegado da Tìa- 
gem feita por Jo&o Vaz Córte Real confundi^ 
da com as notioias da ida dos soandinavos fi 
Vinlandia. JoSo Vaz Córte Real tocou no 
Novo Continente, e em virtude d'esse assi- 
gnalado servilo te ve a capitania da Uh a Ter- 
ceira a que aportara, entao vaga pela morte 
de Jacome de Bruges. Foi-lhe conferida essa 



OAHÓES — BFOCA, VIDA E OBBA 81 

mercé) divìdida com o seu companheiro Alva- 
ro Martine Hofio^em, em carta de 2 de Àbril de 
1474, por terem descoberto a liba doe Baca- 
IbAos. D& notìcia d'este facto o Dr. Oaspar 
FruotuoaOt nas Saudades da Terra, qae fica- 
ram ineditas até quasi ao firn do seculo xix, 
d'onde o jesuita P.® Antonio Gordeiro extra- 
ctara para a Historia Insulana a affirmatìva : 
< Alvaro Martina Homem nao era de menos 
qoalidade e fidalguia que Beu companbeiro 
Joao Vas Córte Real» pois egualmente a am- 
bos tinha elrey mandado a deseobrir a Ter- 
ra do8 Baealhdos . . . T> Eram estes os servi- 
Qos allegados na carta de doagSo da Capita- 
nia por amboa requerida. Contra està priori- 
dado oppoem a falta de referencia nos cbro- 
nistas Garcia de Resende, Antonio GalvSo e 
DamiSo de Góes, e o nSo ser representada no 
Globo de Martim de Behaim, que viveu no 
Fayal de 1486 a 1490. Quanto a Bebaim, 
bavia certa reserva na vulgarisaijfio de urna 
empreza apenas encetada; a omissao dos 
cbronistas regios fundase em que elles 8Ó 
narravam o que o poder real consentia, corno 
se verifica com os textos de Damiaò de Góes. 
Ab explora^oes da costa africana, corno mais 
aeguras tornaram-se quasi exclusivas, attra- 
bindo para ellas todo o interesse, corno se ve 
pela elaborasse do Mappa Mundi de Fra Mau- 
ro. A empreza iniciada por Joao Vaz Corte 
Real, foì continuada pelo seu filbo mais novo 
aaspar Córte Real & propria custa, o que si- 
gnifica o abandono do governo. Sabe-se pelo 
ilvarfi de el-rei Dom Manoel, de 12 de Maio de 
1500: «Porquanto Gaspar Córte Real, fidai* 
;o da nossa casa, os dias passados trabalhou 



H19T0RIA DA LITTEBATORA PORTUGOEZA 






per sy e a sua custa, com navios e homens 
de buscar e descobrir e achar com muyto tra- 
balho e despeza de sua fazenda e peryguo de 
sua pessoa algumas Ilhas e Terra firma.* Por 
outro alvarfi do rei B. Manoel eabe-se, que 
Gaspar Córte Keal fez urna segunda expedì- 
qSo à regiSo do Noroéste, partìndo de Lisboa 
em 15 de Maio de 1501. O que authentìca- 
mente se sabe d'estas duas expediQoes consta 
unicamente da RelaQào do embaìxador de Ve- 
neza em Lisboa, Fetro Pasqualigo à Senho- 
rìa; essa Rela<;3o é datada de 18 de Outu- 
bro, dez dias depois da chegada do prìmeiro 
navio, que regressou ao firn de tres annos. 
Por està Rela<;3o se chega ao conbecimento 
de um facto, que authentfca a communicaQ3o 
com a America do Norte antes de Gaapar 
C6rte Real; abi se 13, misturado com impor- 
tantes descripgdes antbropologicas de tribus 
d'esse continente: «Elles trouxeram um pe- 
dalo de espada dourada, que parece ter sido 
fabrìcada na Italia. Urna das crianQas tinha 
nas orelhas duas pequenas argolas de prata, 
certamente fabrìcadas em Veneza. Isto m^ 
leva a crèr que se trata de urna terra firme, 
porque n9o é proravel que um navio tivesse 
alli aportado, aem que se tivesse tìdo noti- 
eia. > Pasqualigo consìgna a observa^So, que 
n'essa terra n9o sSo conhecidos os metaes, 
cu o ferro, tendo os selvagens armas de pe- 
dras lascadas; por tanto esses Testigios do 
fragmento da espada de ferro, e as argolas 
de prata sSo productos da industria e arte 
européas, e provam que realmente ahi che- 
gara um navio, que outro nSo era senSo o de 
JoSo Vaz Gdrte Real em 1474, de que se ca- 



GAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 83 

làra a noticia para que outra nagao se nao 
spoderasse d'essa empreza. 

Quando chegou a Lisboa o terceiro navio 
de Gaspar Corte Beali em 11 de Outubro, 
Pasqualigo nao ìnformou o governo de Vene- 
za, mas o negociante italiano Alberto Canti- 
no» que estava estabelecido em Lisboa corno 
agente do Duque de Ferrara, deu-lhe parte 
do successo em urna minuciosa carta, com no- 
ticias geographicas e etbnographicas colhidas 
das conversas com Gaspar C6rte Beai e seus 
companheiros e sob a impressào dos cincoenta 
selvagens americanos que trouxeram. Todos 
OS coahecimentos das descobertas na Ameri- 
ca do norte que se encontram nos chronis- 
tas hespanhoes e portuguezes fòram tomados 
da Relagao de Pasqualigo e da carta de Al- 
berto Cantino. A noticia colhida por Gaspar 
Fructuoso nas memorias genealogicas agoria- 
nas, fonte de valor nao desprezivel, forti- 
fica-se com o facto referido por Pasqualigo, 
que documentou a viagem de Joao Vaz Corte 
Real. 

Tambem a exploragao da regiao Sudoéste 
acha-se implicita no testamento de Joao Ba- 
malho, escripto pelo tabelliao Vaz Lourongo, 
na capitania de S. Paulo, em 3 de Maio de 
1580, no qual elle declara que tinha noventa 
annos de assistencia no Brasil, isto é, desde 
1490, ou dous annos antes de Christovam 
Colombo ter chegado & regiao tropical da 
america. * Joao Bamalho fora para alli arro- 
ido pelas tempestades, salvando-se com um 



Luciano Gordeiro, L'AméHqtie et les Portugais, 






HISTOSIA DA LITTERATURA PORTDaUBZA 

impanheiro Antonio Kodrigues, Tivendo 
9 entre os Tupinambas. Apontando eate 
escreTe Gaffarel no opusculo Dettiober- 
08 Portuguezes na America no tempo 
ìristovam Colombo: *A hietoria nSo se 
5e Bómente de faotos registrados e réco- 
ìoa, mas tambem de factos provaTeis, 
ra ignorados. NSo se oonsM-TaraiB-'^os 
a, nem a memoria d'eates predecessores 
rmoa de Colombo, mas n3o bastarà o^ea- 
(cer que poderìam ter existldo?» As au- 
;fls emprezas realisades ao Noroéste <la 
ica por JoSd Vaz C6rte Keal è contìi^a- 
>or seus fllboe, e ao Sudoéste oeeiqii^a 
Imente por JoSo Ramalbo e prppo^ta- 
Qte por Fedro Alvares Cabrai, levngu a 
r com segtiren^a que a regiSo trop^al 
) se dlrìgia Chrigtovam ColomboCa^ia 
do plano integrai dos Desòobrimefa'tos 
^ortugaezes, e que o genorez, tendo-se 
tado em San Jorge da Mina, gue està' de- 
de la eguinocial, o que nSo foi antes de 
, é que penéou em ir n'essa direoQ&o dos- 
r a liha de Cypango. ' - .: : 

) plano das Navegsgoes portuguezas, a 
ra^So da Costa africana para ehcoolrar 
gempara o Oriente nSo era'menoa acti' 
3 que a das regiòes ooddentaea. Oom- 



Na3 Cortes de Evora, de 1482, diziara ospro- 
ires dog Concelhos : 'os fi-orentiis e genovèt^ em 
reSDÒs nanca fizeram pKiveitoa sajro rotbOfCnos 
edae d'ouro e prota e deieobrir twatos s^ffr^dot 
na e ilhas. . . » Foi de urna estagào na Min,a; qne 
ovam Colombo teve informac5es doa m^ni1*'ei- 
rtuguezes da America tropìoal. '■ i 



0AMÒC8 — EPOCA, VIDA E OBRA 35 

tado f>8 erttditos italtanos, no principio do se- 
eelo XIX, tantaram attribuir aos Venezianos 
a direoQfio que seguiram os mareantes portu- 
mwe&t corno escrevia em 1806 o Cardeal 
zarla, mostrando que no Mappa Mundi de 
Fra Mauro* Camaldulense» existe apontado o 
Capa di i>èa6, chamado depoia de 1487 Cabo 
da Boa Esperan^a. 

Sobre e^ta ponto esoreyeu Frei Fortunato 
de Sad Boaventura, na sua Collecgdo de 
mb^idios para se escrever a Historia littera- 
ria de JPortugal: «notei, e eom que pasmo! 
que se foreeja por attribuir aos Venezianos a 
gloria de nos tarem ensinado um novo cami- 
ntio para as Indias Orientaes; e que bastou 
um italino ha poueo falecidoem Palermo^ que 
pela sua immensa erudi^So honrava a pur- 
pura romana, para attribuir a um certo Fr. 
Mauro, ieigo eamaldulense» e Cosmographo 
ìneomparayel, por occasfào de um Mappa 
Mundi que Ihe encommendara e^rei D. Af- 
fonao Vf a gloria de nos ter ensinado aquelle 
laminilo. . . » Fr^ Fortunato de San Boa ventu- 
ra entSo homisiado de Portngal, refutou aste 
aaaarto do Cardeal Zurla, citando as palavras 
do faistoriador veneziano Foscarinit que na 
8ua Historia litteraria de Veneza (p. 419) 
recontooe que aos Pilotos portuguezes é que 
deveu Fra Mauro as indicagoes positivas do 
seu Mappa Mundi: «TrsQOU Fra Mauro me- 
Ihor a^ Coatas da Ethyopia orientai do que 
VMa naa Taboas àe JPtolemeu, e confessou 
que ajustara a siluafda d^ aquella casta ao 
que the disseram OS Pilotos portuguezes,^ E 
inda depois d^sto accrescenta Poscarini, — 
|ue El-rei de Portugal deu primeiramente a 



i LITTERATURA 



n 



Fra Mauro todas as luzes sobre as Terras no- 
t'amente descobertas...' Àpesar de estar pu- 
blicada desde 1752 a obra de Foscarini, e»- 
irevendo o Cardeal Zurla em 1806, desoo- 
nheceu essa decIaragSo peremptoria do qus 
levia Fra Mauro aos Pilotos portugaezes e 
Ss informacoes officiaes do rei D. Affonso v. 
□ompostoo Mappa 3Iundi entre 1457 a 1469, 
i^ue terras tinham descoberto os Portuguezes 
ìt6 este aono na costa africana? 

Deixando as sxplora^oes atlanticas de Por- 
to Santo, (1418) Madeira, (1419) e A(^res, 
[1429) temos em 1433 o Oabo de Bojador, 
sin 1434 a Angra dos Ruivos, 1440 o Cabo 
Branco, 1443 a liha das Gar^as. No anno de 
1444 forma-se a Parceria de Lagos para a 
JontÌDuaQ5o dos Descobriraentos (incorpora- 
los Da lenda de Sagres); em 1446 é desoo- 
Derto o Cabo Verde, adìantando-se em 1447 
nais outenta legoas até ao Eio Nunee, e ain- 
ia mais trìnta e duas até ao rio Tobìte, etn 
1461 a Serra Leòa, e em 1471 effectuou-se a 
aassagem além do Equador. O Abb. Andrés. 
iia obra Delle origine e progressi dogni Lei- 
'.eraiura, reconliece que o Mappa Mundi de 
B'ra Mauro fora elaborado tambera sob a I«i- 
ùura das Yiagens de Marco Polo, das notiaios 
ie Herodoto, de Strabao e Plino, auctores 
jonhecidos pelos eruditos portuguezes do ae- 
3ulo XV. Eevindicando a originalidade das ex- 
aloragóes africanas para a circumnavegaQfio 
i'esse continente, termina Fr. Fortunato de 
3an Boaventura: «se os Venezianos estavaoi 
3ertos pelo seu Cosmographo incomparavet, 
ie que existìa o Cabo da Boa Esperan^a, e: 
ìe elles ]& tinham os subsidios necessariosi 



OAMÒES — EPOCA» VIDA E OBRA 37 

para emprehenderem està descoberta, e, por 
outro lado facilmente conheciam que abrindo 
novo caminho para a India ficaria arruina- 
do e totalmente perdido o seu commercio, por- 
que Ihes nao occorreu tomarem a dianteira 
aog Portuguezes e atalharem o gravissimo 
damno que Ihes estava imminente ? Como se 
póde Buppdr tamanbo descuido em gente so- 
bremaneira atilada e industriosa?» * 

Continuando na exploragào africana, em 
1481 a 1483, funda-se a Fortaleza da Mina, 
sa oo8ta de Guiné; em 1485 Diogo Cam che- 
ga ao Cabo do Padrao, quasi alcangando a li- 
nha do Tropico anatrai, e em 1486, Bartholo- 
meu Dias arrojado por uma tempestade porto 
da Àngra das Voltas dobra a poma sul do 
eontinente, & qual na sua volta denomina Cabo 
das Tormentas, definitivamente chamado des- 
de 1487 Cabo da Boa Esperanga. Estava re- 
solvido o problema da via maritima da India. 
Os fi^andea desastres e perturbagoes da corte 
de D. Joao ii, e a mudan^a de dynastia para 
xm prinoepe inintelligente, que repelliu todos 
08 grandes navegadores considerados pelo 
monarcha a que succedeu, fez que se retar- 
dasse a realisagSo da empreza, fundamental- 
mente estudada, até 1498, confiando-a a Vasco 
da Gama. Assim se completava o plano con- 
teiente, do qual uma parte fora realisada por 
Christovam Colombo em 1492, sobre iìifor- 
tnoQoe^ de Pilotos portuguezes^ comò elle pro- 
prio confeasoui navegando & ventura para 



Op. et/., p. 65. (Publìcada por A. de Portugal 
. Leorne, 1905.) 



88 BISTORIA DA LITTERATURA PORTCGUEZA 



aehar Cypango. ^ Era o descobrimento da 
America que mais actuava na comprehensSo 
da espkericidade da Terra, corno afRrmou 
Copernico (Magis id erit clarum, si addentur 
Insulae aetate nostra sub Hispaniarum Lus!- 
taniaeque principibus repertaó, et presértim 
America. . .) (De revoL corp, C(xl.f lib. vi.) Mas 
o descobrimento da via maritima da India de- 
terminava novas condiQ5e8 econòmicas na sa- 
ciedade europea, impellindo-a para um outro 
equilibrio politico pelo concurso simultaneo, 
coloni al e mercantil. 

Fallando d'este grande acontecimento em 
uma carta de 1493, Fedro Martyr d'Anghie-' 
ra designa Colombo pela antonomasia qui-, 
dam, Vir Ligur. Tambem Tasso, nà Gerusa- 
lemme liberata (xv, st. 25) emprega a mesmà 
poetica periphrase, celebrando o grande na- 
vegador: 

Un uom della Lig^iria aura ardimento 
Ali incognito corso esparso in primo. 

Por uma intui^ao genial, os esfor^os do; 
Colombo realisados pelas informaedes que ra- 
cebera dos Pilotos portuguezesi identificam-&e 



^ Colombo partiu do meridiano dos Agores para 
Oéste; Humboldt tira as consequencias d^este rumò:* 
« Se Colombo tivesse seguido a Carta tie TosoaneUl, l»r^ 
se^ia dirigido para o Norte e se teria eonservado aoh o 
parallelo de Lisboa; ao passo que na esperan^a de al* 
cannar Zipangon mais depressa, percorreu metade da 
sua ròta a altura da ilha do Còrvo, uma dos A^òres, e 
inclinando depois para o sul,. . .» fCosmos,, n, p. 317.) 
Segnindo este rumo, modifioado depois por conselho de 
Martin Pinzon, elle teria entrado na corrente do GtUf 
Stream e tocaria na Flòrida. 



GAHOES — EPOCA, VIDA E OBRA 39 

no caracter ethnico do Ligur^ essa raga mari- 
tìmaj actìva e soffredora, de que o Luso foi 
um raffio e o Portuìgu^z o seu mais puro re- 
presentante. Meamo na empreza das Navega- 
906S rellectidas ou aventurosas, e na fórma 
dos estabelecimentos coloniacs se destacam 
as duas ra^as peninsulares. 

. Os grandes Descobriraenlos maritimos do 
fim do seculo xv, que deslocaram o commer- 
cia dos paizes do Mediterraneo para os pò- 
VQS. occldentaes» e determlnaram nm novo 
equilibrio politico europea, p5em em eviden- 
cia.as differengas de. raga, que existem entre 
Portuguezea e Hespanhoes. Heeren aponta 
essas differenQas capitaes no modo corno rea- 
lisaram os seus estabelecimentos coloniaes: 
«Como OS Portuguezes chegaram às Indias 
por urna marcha de progressos successi vos e 
regulares, às suas ideias, sobre muitos pon- 
tos, tiveram tempo de se formarem, e a natu- 
reza do paiz nao Ihes permittiu de pensar em 
organisar ahi a exploraQ&o de minaSi mas sim- 
plesmente feitorias de commercio. — Os Hes- 
panhoes, n'este perioda nao fizeram eenào 
lan<;fir as primeirae bases do seu systema co- 
lonia!; OS Portuguezea, pelo contrario, està- 
beleceram-o quasi definitivamente. — Como o 
Novo Mondo n5o appresentava outros produ- 
ctos de urna grande importancia, o ouro e a 
prata, para ^lesgraQa dos naturaes do paiz tor- 
non-se o firn unico dos estabelecimentos que os 
I 98panhoes se propunham de fundar ahi.» ^ 



' Manuat historico do Systema politico dos EÉta- 
da Europa^ p. 22 e 28. 



B13TORIA DA LlTTERATtrBA PORTCeDEZA 



Além das novas coDCOpt^es, determina 
OS Descobrimentos portugnezes urna mai; 
gorosa actividado economica e mercanti! 
genio da navegagào tinha descoberto a ì. 
rica e a passagera do Cabo da Boa Eape 
98. Os resultados d'este descobri mento op 
ram urna grande revoIupSo no commercii 

xarsm a atten^ao de todos os povos, e de 

aos eupiritos urna direcqào nova. Todas as 
especulaQÒes da induatria, por motto tempo 
fundadas aobre as Cruzadas, dirigiram-se para 
a America e para as Indias orientaes. — A* 
medtda quo og espiritos se esclarecìam, lima 
carreira nova se Ihes abria. Um outro enthu- 
ziasmo suooedia ao daa emprezas religio- 
sas ; ■ ■ . as Cruzadas jà n3o b3o para a Euro- 
pa senSo um thema poetico.» ^ — «Logo quo 
fdram conhecidos taes det^cobrimentos, apo- 
deraram-ee inteiramente d'està eepirito em- 
prehendedor e aventureiro, qua por largò 
tempo tinha sustentado o arder das expedi- 
^òes centra os infieìs. A direcgSo doe fepiri- 
tOB, as Tìetas politicas, as especula^oes do 
commercio, ludo foi transformado; e entao 
vìu-se declinar a grande revoluQào daa Cru- 
zadas diante da nova revoIuQ3o quo irrompia 
da descobprta e da conquista de um novo 
mundo. Os Venezianos, senhores das antigas 
vias do commercio da India, fòram os prì- 
meiros a reconhecerem as mudangas que se 
operavam e cujas consequencias deviam ser- 
Ibeci funestas. ' Enviaram secretamente emìs- 
sarios ao suItSo do Egypto, interessado comò 



^ Hichaud, Historia das Cruzadas, t. iv, p. 76. 



GAMÓES — EPOCA, VIDA E OBRA 41 



elles em combater a ìnfluencia dos Portugue- 
ze6. A depiita<}So de Veneza conseguiu alliar 
sultao do Cairo com o rei de Galecut e al* 
guinas outras potencias italianas, para ataca- 
rem as frótas e as tropas de Portugal.» ^ An- 
tes d'eetas odiosas ìntrigas dos VenezianoSi 
que embaragaram a liga das potencias chris- 
ti8 centra os Turcos, que domìnavam no Me* 
diterraneo» elles mandavam a Portugal agen* 
tes — para escreverem o que ouviam (Vaquel* 
les que das taes navegaqoes tornavam, — 
corno refere o chronista Daraiao de Góes. Co- 
nhece-se hoje o systema da diplomacia da 
Repablica de Veneza, e a importancia das 
Rela^oes seoretas dos seus embaixadores ; em 
Portugal mantinha nm servilo de informa<;ào 
tal, que niuitos dos documentos mais reserva- 
dos da corte de D. Manoel, appareceram pu- 
blicados em traducgoes italianas no principio 
do seculo XYI. Pedro Martyr de Anghiera, 
viajante milanez, relacionado com Colombo e 
Americo Vespucio, escreveu RelaQoes, que fó- 
ram parar às maos do veneziano Angelo Tre- 
vigiano, empregado da embaixada da Senho- 
ria em Castella. E Trevigiano, conhecedor das 
viagens de Colombo e tambem das de Pedro 
Alvares Cabrai, forneceu noticias importantes 
ao almirante Malepiero, historiador de Vene- 
za. Tambem por pedido de Trevigiano, o em- 
baixador de Veneza em Lisboa, Matteo Cre- 
tieo, traduziu-ihe para italiano a primeira de- 

Tip^ao officiai do descobrimento do Brasil. 

B informa^oes de Cretico eram fidelissimas ; 



^ Id., ib.y p. 44. 



OBIA DA LITTGRATORA POETDOUBZA 

istucia e soborno, o embabcadc 
a córte de D. Manoel, além de 
tas pOde alcan^ar a revela<;S 
ticulares do rei D. Manoei a s< 
;athoIico Fernando, dando con 
■ealisada por Fedro AWares C; 
imento de ordens reoebidas. 
areceu traduzida em Italia do 

1505, nos preloa de JoSo de 
i Carta de Pero Vaz de Cam 
relatado ao rei D. Manoel o d 
das Terrea de Santa Cruz, ac 
età concordancia com o opu 
Devo, Paesi nuovamente rìtrc 
errativa portugueza de Camini 
ita durante tres eeculos. Ab i 
) embai:xador Matteo Cretico v 
I na collecQào dos Paesi nuovar, 
onde em primeira ciao figura 
;en8 de Cadamoato, ao servig 

a Cabo Verde e Senegal, tan 
ra m§o a viagem de Vasco da ( 
Ivarea Cabrai, com a narrativ 
\ Terceira Viagem de Americo 
do ainda reproduzidas em seg 

tres Tiagens de Colombo, Al 
Qzon. 

)riador Kanke fez sentir o alt 
eo das Relazioni dos embaixac 
s para o conheoimento da pa 
a da Europa, no seculo xvi; diz 
tinha esteiidido as suas rei 
gè, em paizes estrangeiros ; p( 
elatjoes aobre a Persia, sobre 
aoìpalmente sobre a Inglaterra 
e o nSo eneontrar naa collecgO 



CAMdfiB — BPOCA, VIDA E OBBA 43 

lemSs e nas de outros paizes, senSo urna ve* 
la^ao da etnbaixada veneziana àcerca de Por- 
tagal.» E' expIicaTel a omidsSo, por se usa- 
rem no principio do seculo xvi as ReldQoes 
verbaes feìtas pelos embaìxadores ao conse- 
Iho dee Pr^^adir «A Republica nSo se con- 
tentava sómente com os despacbos sobre os 
negocios oorrentes, que os seus embaìxadores 
Ihe expediam regularmente todos os quinze 
dias; mas, qnatìdo elles estavam de volta de- 
poìd de dois on tre^ annos de ausencia, eram 
obirigados a fa^er um relatorio ao conselho 
dos Pregadi, em presenta de homens que ti- 
ntiam encanecido nos negocios, que haviam 
desempenhado a mesma mi8s9o, ou que eram 
apoz chamados a exercel'a. Elles se esforga- 
vam a f azer conhecer em particular o prince- 
pe jnnto do qual estavam acreditados, a sua 
c&rte e os seus ministros, o estado das suas 
f!nan<;a9, das suas for^jas militares, de toda a 
saa adtnini6tra<?So, as dÌ3posÌQ5es dos seus 
sabdìtos para com elle, finalmente as suas 
relao^es com a^ ptitras potencias. — Estes re- 
latorios continbam Ss vezes tSo longas minu- 
cfas, quo a leitura nao podia ser feita em uma 
sd noite, e era frequente interromperem-se em 
melo ou de uma parte importante para des- 
can^arem. Eram geralmente feitos de memo- 
ria, pelo menos nos antigos tempos; cometa- 
vam todos por uma allocuQao dirigida ao 
Hoge e fi assembleia. Sente-se, ao 131os, que 
r auctor tudo obeervara por si, e que a nar- 
fttiva é e impressgo fiel aas suas impressoes. 
!ada embaixadot* estorca va- se o melhor que 
ódfa diante de um auditorio digno de um bo- 
èm de estado. — Por outro lado, muitas ve- 



LITTERATHRA PORTDaOBZA 



1 



a a Republica por està espe- 
das córtea e dos estados ea- 
mbaizadores venezianos, di- 
iasimos quando ee trata de 
ou o amor, o favor ou o des- 
9 OS intuìtoa dos princepes, e 
quando se trata de penetrar 
Kabinetes. Seja comò fòr, é 
)s homens que tomam parte 
no9 negocìos publìcos pos- 
uagao politica da aua epoca 
acimentos precedentes, assim 
ircumstanciaa decìsìras e os 
antea, um conhecimento que 
ilto ao publico e que morre 
om elles. Ora, b3o estas no- 
baixadores venezianos colll- 
odas as cortes da Europa, e 
nicavam & sua Eepublica em 
das a serem cuidadosamente 
arohivoB do eatado.» * 
imenda que Venesta suscitou 
arìtima dos Portuguezes, re- 
puto profundo que tinha dos 
occupa^So e de explora^o 
publìca encarregou-se de en- 
pto e para as costas da Ara- 
t fundirem canbQes, e calafa- 
irem nàos de guerra.» ' O 
3, induzido a fazer a amea^a 
jOgares aantos, aterrou por 
1, que eate se tìu tornado a 



tpanka Bob Carlos v, prefac. 
taire des Croisades, p. 44. 



CAM5)S3 — EPOCA, VIDA E OBRA 45 

pedir a Dom Manoel qne a bem da christan- 
dado gustasse as suas novas conquistas. Bem 
aconselhado, o rei respondeu ao papa que nao 
temia a ameaga do sultào, que pelo seu lado 
Ihe queìmaria Meca e Medina, abrìndo um 
mais vasto campo na Asia & propagagào da fé 
christà. O grande presente offerecido ao Papa 
pelo rei Dom Manoel foi um meio de dissipar- 
Ihe estes terrores, ainda que pelo seu lado o 
snltào do Egypto nao destruiria as egrejas 
de Jerusalem, que pelos tributos dos poregrì- 
noB eram urna pingue fonte de riqueza. 

Vencidos os Àrabes definitivamente em 
H^panha pela conquista de Granada, os Tur- 
cos cu Osmanlis substituiram-se na lucta con- 
tra as potencias christans no Mediterraneo, 
tendo-se jà apoderado da Hungria. Debalde 
o Papa chama para uma Cruzada os prince- 
I>es da christandade. Veneza entende se com 
OS Turcos, para fazer desempedidamente o 
seu commercio no Levante, e derrotar os em- 
porios dos Portuguezes no Oriente. A Franga 
de Francisco i faz tratados com os Turcos; e 
a Inglaterra receiosa da Franga, nao quer di- 
spender OS seus recursos em uma guerra im- 
productiva comò a Cruzada, que so interessa- 
ria as monarchias continentaes. A Allemanha, 
pela reacgSo da Refórma de Luther o contra 
Boma, pronunciava-se em Ratisbonne contra 
a cruzada feita aos Turcos. 

Carlos V, reunindo a coro a real de Hespa- 
nha e a imperiai da Allemanha, mostrou-se 
indifferente & queda da ilha de Rhodes em 
poder dos Turcos, mostrando audazmente o 
seu germanismo, atacando a Italia com a an- 
tiga furia gothica, e fazia o saque de Roma, 



46 HISTOKU DA LITTERATOBA. FOBTCai 

exibiado o titulo de Cbefe tempora! 
ja, ao mesmo tempo que tiuba pri 
eeu chefe. A Allemanha invocada 
aistencia contra os TurcOB, que ai 
lodo o Oocìdente, declarava temer i 
ra do Papa do que o turbante de 
Quando o papa LeSo x procurava 
todos DB monarohas da Europa a 
urna Cruzada contra os Taroos, ei: 
carsos para essa oampauha conta 
producto das Indulgencias, corno 
para aa Cruzadas da Edade mèdia, 
ainda obacuro frade augustiniano, i 
contra esse expediente, protestandi 
plano de Le9o x: tB^ uni peccac 
contra os Turcos, visto que a prov 
serve d'està na^ào infiel para visi 
quidades do seu povo.> Àssim perai 
de Ratisbonne, a Cruzada foi ooml 
Ber mais um expediente da Córte 

para esplorar a credulidade popu._. 

gir OS reis. Tambem Erasmo considerava o 
augmento do poder dos Tutoob corno um cas- 
tigo do céo inflìgido aos (JiriBtios degenera- 
dos, enviados pela provìdencia irrìtada; oom 
a sua ironia de erudito, chasqueava da. Cru- 
zada em que entram um Cardeal general, um 
bispo capitào, um padre centiiTido, que se 
]he afCiguravam estatuas da ouro e barro, nm 
centauro melo homem meìo cavallo. Dividì- 
da a Allemanha pelas querellas theologìeas 
da R<)fórma, este movimento, que tornava 
uma tendencia social, apagou os fervore re- 
UgioBos tornando irrealisavel ainda uma vez 
a cruzada. O philosopho Raynal, fallando das 
consequencias dos Descobrìmentoa dos Portu- 



OAltÒES — EPOCA, VIDA B OBRA 47 

gnezes, proclamou que elles salvaram a Eu- 
ropa da ìnvasào dos Turoos: «Qae seria da 
Hberdade? Morreria» se os Portuguezes nao 
embaragassem o progresso do fanatismo mus- 
snlmano fazendo-o parar na impetuosa car- 
reira das suas conquistasi cortando-Ihe o ner- 
vo das riquezas.» As luctas con tra o poder 
mnssalinano no Oriente, deram a Portugal 
urna missao faamana tao grandiosa comò a 
da Grecia derrotando as hordas do imperio 
do8 Persag. 

Quando Carlos v, em Tunìs, e Philippe ii, 
em Lepanto, se empenharam em combater os 
Turcos» lei para se tornarem chefes de um im- 
perialismo catholico, e converterem a Egreja 
em agente do BBXk despotismo. Pensando em 
avassallar a Italia, Carlos v, pelo seu engran- 
deeimento corno rei de Hespanha, chefe do 
Imperio germanico, soberano dos Paizes Bai- 
zos, e dos dominios da America hespanhola, 
visava à empreza de enfraquecer a Franca, e 
nSo atacava os Ottomanos jà por complacen- 
da com os partidarios da Refórma da Alle- 
manha, jfi por causa dos seus inimigos na re- 
publica romana (Franca, Italia e Inglaterra.) ^ 
E quando oontradizendo^se, o proprio Luthe- 
ro appellava jà para a luota contra os Tur- 
cos, Carlos V limitavarse a atacar os estados 
berberescos, que organisados pelo poder ot- 
tomano infestavam as costas da Hespanha e 
da Italia oom os seus eorsarios. A tomada de 
Timìs, em 1685, libertando vinte mil cativos, 
vtiu masoarar todas as inconsequencias e 



^ Michaad, Op. M.y t iv, p. 65. 



48 HISTOBIA DA IJTTEBA.TORA POBTITOTII 

egoismo de Carlos v exercendo o e 
rialismo germanico; conio é tambe 
da Victoria de Lepanto que Pliìlippi 
sangrenta a Liga catholica. A acQi 
gueza no Oriente, é que aseogurou i 
a posBÌbilìdade de inaugurar a harm( 
tal da Republica liiteraria da Eenascen^a; e 
pelo effetto dos noBsos Descobrimentos susci- 
tamos a intelligencia e paixao pela Natureza, 
dando &8 verdades racionaes a base verìfica- 
ve) que as tornou a manifestacSo invencivel 
do Espirilo moderno. 

No canto vii dea Lusiadas verberou Ca- 
mòes estas dissidencias dos monarchas da Ea- 
ropa, que enchiam de ousadia as invasòes dos 
Turcos, pondo em relèvo a missao grandiosa 
da pcguena Casa lusitana : 

Fazei que tome Ifi Ab sylvestree oovas 
Dos CBBpios montes e da Scythia Irla, 

A Turca gerafào, que tnuUiplica 
Na policia da vossa Europa rica. 

Mas emtanto, que cegos e sedentos 
Andaea de vosbo sangue, oh gente insana, 
Nào faltarào chrìstàos atrevimentos 
N'esta peguena Casa lusitana: 
De Africa tem marìtimos assentos, 
E na Asia mais que todas soberana, 
Na Quarta parte novos campos ara, 
E se maÌE mundo houvera, là chegara. 

ILus., 711, 12, 14.) 



Camòes, reservando-sa no alvarS de privi- 
legio de 23 de Septembro de 1571 a facul- 
dade de accrescentar mais alguns Cantos aos 
Lusiadas, reconheceu que Ihe fallava corcar 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 49 

a assombrosa empreza das Navegagoes com o 
final surprehendente da circumducgao do glo- 
bo pelo aggravado Lusitano. Nas Estancias 
ditas omittidas, mas verdadeiramente au- 
gmmtadas^ comò consìderou o Dr. Joao Tei- 
xeira Soares, synthetìsou OamSes esse feito 
de Fernando de Magalhaes : 

D'aqui sahìndo irà d'onde acabada 

Sua Vida sera na fatai Uba ; 

Mas proseguindo a venturosa armada 

A volta de tam grande maravilba; 

Verào a Nào Victoria celebrada 

Ir tornar porto junto de Sevilha, 

Depois de haver cortado o mar profundo 

Dando urna volta em elaro a todo o mundo. 

Dr. Joao Teixeira Soares, consciencioso 
investìgador da historìa dos nossos Descobri- 
mentos maritimos, concine sobre està estro* 
phe: <E' este visivelmente um trabalho com- 
plementar em que Gam5es condignamente in- 
teirou a narragao do facto.» E em seguida 
poe em relévo' a maxima influencìa d'esse 
Feito, com verdade^ portuguez, sobre o en- 
grandecimento colonial dos hespanhoes: <0 
campo que està navegagào audaoiosa abriu, 
mais directamente possi vel, à actìvidade 
maritima dos Hespanhoes foi immenso: todo 
> Oceano Pacifico com suas infinitas Ilhas. 
«Domìnavam j& entao os Hespanhoes em 
boa parte da costa occidental da America, e 

iheciam este mar nas proximidades d'ella; 

18 a sua grande navegagao n'elle proveiu- 

)s do feito de MagalhSes. 
cA sustentaQàò do pretendido direito da 

^spanha às Molucas; o conhecimento, trans- 



EO HlSTOBIA DA LITTBRATUBA POBTtRlI 

mìttìdo por Portugnezaa, da narega 
para a Ohìna; a neceesidade de i 
anxìlios dìrectos do Mexico e do ] 
finalmente as ideias eystematieai 9( 
Btencia de um eontìnente avstral, 
prinoippes moveìa dae suaa naVeg 
aquellès marea e regiSes. 

(Urna das BUas notaveis oonaequendas tai 
o reconheeìtnento qne no eitio de 1546 £ez 
D. Inigo Ortis, commandante do galefia S. 
Joannilbo, de toda a costa orientai da Nota 
Guiné e da AuBtralia até aoB 20° de latitxi<ie 
sul. D. loigo partencìa fi armada de Eay Lo- 
pes Villalobos, quo em 1543 eàhira da Hes- 
panha para as Molaoas pelo GBtreito de Ma- 
galbSes, e d'aqiiellas ilhas sahira a buscar 
aoccorros à Nova Hespanfaa, (Mexico) nave- 
gando pelo bemìspherio do sai, dapoia de 
uma tentativa infruotnoaa que bo mesmo ga- 
leào f6ra feita pelo norie. Ka liata dos gran- 
defi navefi:adores por parte da Hespasha no 
mar do Sul, apparecem aìada dola iliastr^ 
portuguezes: JoSo Fernandes, piloto a^orìB- 
no, descobridor da Nova Z^andia em 1572 
e tambem do Arofaipelago que d'^e se d«- 
nomina na costa do Chili; e Pedro Fernan- 
des Queiroz, o deaoobridor daa Novas Hébrì- 
das.» ^ . 

Quando ae rsaUsaTom no mundo estaa 
atrevìmentos da pequena Casa Ltteitana, o 



1 Coisat eamonianaa, iv. No jornal Velense, n. 
48, de 8 de Septembro de 1881. (Da ilha de S. Joree. 
— Id. na Epoca, n." 87, de 16 de Bepteitabro de l^S 
<I]ba de S. Miguel.) 



Bécmo éBpisrito de audacia ooneabia o iddal, 
qoe n&o deixaria apagar na memoria huma- 
aa estes féitos de que outros se aproprìaram, 
fieaiido-no& o prBffao eterno ; 

A déscoberta 'da Amerìoo tropical, a paa- 
sagem & India pelo Cabb da Boa Eftperan^a 
e a primeira viagem de cicoumduoQSo do glo- 
bo, tado iato realisado de 1492^ a 1622, em 
trinta airnos, eomo observa Humboldt, deu o 
ooDhadmentò pieno da terra: «A conoepQ3o 
hnniana tinha* se» tornado mais penetrante; o 
komeni eétava melhor preparalo para reee- 
ber dentro em' m a infinita variedade dos phe- 
Bomenòs^ a elaboralos e a fazel-oe servir pela 
oompara^ao a urna contemplai^aa da nature- 
za -mais, gecàì e mais alta» — O aspeeto de 
1101 continente que appareda nas vastas soli- 
does do Ocèano, isoladodo reato da crea^ào, 
a curioàdada impaciente dos primeiros via- 
ywBtBB e d'aquelles que ooUigìam as suas nar- 
ratiras* suscitou deade lego ae mais graves 
qnéstdes» que ainda Jioje n^ occupam. EUea 
08 inlerTOgaram aobre a. unidade da ra^a hu- 
mana^.e aB.altera^oes qua soffreu o typo com- 
Bmrae originario, aobre as migragoes dos pò- 
TOflt e o parentesco das lìnguas mais dissimi- 
bantea.muitaa vezes nos sene radicaès do que 
nas flexoes e fórmas grammaticaes, sobr^ a 
migra^to das espeoies animaes e vegetaes, 
aobre a causa dos yentos alizios e as corren- 
tes pelagicas, sobre o decrescimento progres- 
so do calor, quer se suba a vertente das 
ordilheiras ou se sonde as camadas de agua 
brepostas has profundezas do Oceano; em- 
a sobre à acgào reciproca dos vulcoes reu- 
4os em circuito e sua influ^ucia em rela^ao 



63 HISTOEIA DA LIITERATDRA POETDt 

aos tremores de terra e &s lÌDhas i 
de que estfi suloada a terra. — Ei 
outra epoca, desde a funda^ào d 
dea, circulo das ideiae, no que 
nente ao mundo exterìor e às rela 
paQO, n3o tinha sido tao aubitai 
gado e de urna roaneira tao maravil 
ca se tioha t9o vivamente sentido 
dade de observar a natureza sob as latitudes 
dìfferentee e em diversos gràos de altura 
acima do nivel do mar, nem de multiplicar 
03 raeioa por auxilio dos quaea se póde for- 
car a rerelar os seus segredos.» fCosmos, ii, 
314.) 

eUma cousa que n'esta obra agitada, con- 
tribuiu tambem de urna maneira ootavel para 
o progresso das vistas sobre o mundo, foi o 
contacto de uma multidSo numerosa da euro- 
peus com uma natureza esotica, que expan- 
dia livremente as suas magniti cenci as nas pla- 
nuraa e nas regiòes montanhosas da America. 
Apoz a expedi^ào de Vasco da Gama, con- 
templou se um egual espectaculo nas oostaa 
orientaes da Africa e na India meridional. 
Desde o comèdo do seculo xvi, um medico 
portuguez, Garda d'Orta, tinha com o apoio 
do nobre Martim Affonso de Sousa. estabele- 
cìdo n'esta regi3o, sobre o locai hoje occupa- 
do pela cidade da Bombaìm, um Jardim bota- 
nico, no qual cultivava as plantas medicinaes 
das cercanias. A musa de Camòes prestou-lhe 
o tributo de um elogio patriotico. O impulso 
estava dado: cada quul sentia o desejo de 
observar por si mesmo... Dois dos maiores 
homens do secalo xvi, Conrad Gesner e An- 
dreas Oesalpiaua abrìram gloriosamente novo 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBR A 53 

eaminho em Zoologia e em Botanica.» (Id. 
ib., p. 334.) E' para nós glorioso o destaque 
dado por Alexandre de Humboldt a Garda 
d'Orta, o espirito scientifico, e a Camoes, a 
suprema idealisagao poetica, no quadro impo- 
nente da Renascenga. As suas palavras valem 
urna consagragSo. O odio contra a natureza, 
tcedium vitae, que tanto caracterisa o asce- 
tismo da Edade mèdia, é na Renascenga sup- 
plantado pelo encanto da belleza do mundo 
exterior, pelo deslumbramento expresso em 
uma linguagem imaginaria e pittoresca. Esse 
phenomeno, que tanto influiu na contempla- 
sse poetica e no estudo da Natureza, foi pro- 
duzìdo pelos Descobrimentos de novas re- 
gioes geographicas. Humboldt, tratando em 
urna parte do Gosmos sobre o Reflexo do 
mundo exterior na imaginagao do homem, 
provou largamente esse facto: «No momento 
em que o mundo se achava subitamente en- 
grandecido, tudo se conjugava para encher o 
espirito de raagnificas ìmagens e de Ihe dar 
urna mais alta consciencia das forgas huma- 
nas. Na expedi(;ao de Alexandre, os Macedo- 
nios trouxeram dos sombrios valles do Indus- 
tSo e dos montes Paropamissos impressoes 
que se encontram ainda vivas, muitos secu- 
los depois, nas obras dos grandes escripto- 
res. descobrimento da America renovou o 
effeito produzido pela conquista macedonica; 
exerceu urna influencia maior do que as Gru- 
ìdas nos povos occidentaes. Pela primeira 
ìz o mundo dos trópicos desvendava aos 
iropeus a magnificencia das suas planuras 
eundas, e todas as variedades da vida or- 
inica distribuidas pelas vertentes das Gordi- 



54 HISTOBIA DA LlTTERATURA PORTt7G0EZA 



Iheiras, com os aspectos do Norte que pare- 
cem reflectir-se sobre os platialtos do Mexìoo, 
da Nova Granada e do Qnito. O prestigio da 
imagìnaQào, sem a qùal nSo pdde eristir obra 
humana verdadeìramente grande, d& mn en- 
canto singular is descripQoes de Colombo e 
de Vespucci. Descrevendo as costaa do Bra- 
si!, Vespucci patentèa um conhecimento exacto 
dos poetas antigos e modemos. — Nas epoca6 
heroicas da sua historia, os Portugoezes e oa 
Gasteltianos nSo fdram exclusivamente leva- 
dos pela avidez do ouro, corno se snppoz, nSo 
comprehendendo o espirito d'estes tempo». ^-^ 
O desejo de visitar paizes ionginquos era 
quanto bastava para arrebatar a mooidadè 
da Peninsula hispanica, das Flandres, de Mi- 
13o, do sul da Allemanha, para a cadeia dofi 
Andes, para os plainos ardentes de Uraba e 
de Coro, sob o- estandarte de Carlos v. Mais 
tarde, quando os costumes se ado^aram, e 
que todas as partes do mundo se patentea- 
vam simultaneamente, està curiòsidade anòio- 
sa foi sustentada por outras causas e tomoa 
urna direcQ^o nova. Os espiri tos infiamma- 
ram-se com um amor apaixonado pela Natq- 
reza, de que os Povos do Norte davam ò 
exemplo. A contemplaijSo elevava-se engran- 
deoendo-se ao mesmo tempo o circnlo da 
observaQSo scientifica. A tendencia sentimeti- 
tal e poetica, que se encontrava no imo de 
todos OS coraQdes, tomou urna fórma mais de- 
finìda no fim do seculo xv, e deu oHgeni ^ 
obras litterarias desconhecidas dos tempoe.> 
Comprovando este asserto, que éuma ca- 
racteristica das ìitteraturas modernas, Hum- 
boldt analysa eloquentemente os Lusiadas 



CAMÒE8 — EPOCA, VJDA .E OBBA 55 



conio reflexo das impressoes yivas da aatu< 
reza na alma dp Camoes; 
. «Gate earacterde yerdade que nasce de 
upu. observagao immediata e pessoal brilha 
Da mais alto gr&o na grande Epopèa nacio- 
aal dos Portaguezes» Sente* se fluctuar corno 
qua um perfume, das flores da India através 
d'este poema escripto sob o céo dos tropicos, 
na grata de Macào e nas ilhas das Molucas. 
Sem me deter a discutir a opiniao a venturo- 
sa de Frederico Schlegel, de que os Lusiadas 
de Camoea sobrelevam acima do poema de 
Ariosto pelo eaplendor e riqueza de imagina- 
^ao, ea posso affirmar ao menos, corno obser- 
yador da natureza» que nas partes descripti- 
YBs dos Lusiadaa nunca o enthuziasmo do 
poeta» o encanto dos versos e os doces ac- 
centos da sua melancbolia em nada alteraram 
a Tarda de dos phenomenos. A arte, tornando 
as impressoes. mais vivas, antes augmentou a 
grandezae a fidelidade das imagens, corno 
aeonteoe todaa as yezes que se toca em uma 
lente pura. Camoes é inimitavel quando pinta 
a mudan^a perpetua que se opera entre o àr 
e mar, as harmonias que ezistem entre a 
fórma daa BUTen9, suas transformaQoes suc- 
eesslTas. e os diveraos estados porque passa 
a superficie do Oceano. Primeiramente mos- 
tra eeta mperficie encrespada por uma leve 
bofagem de veoto; as vagas apenas solevan- 
tadas £ulg^m, refractando o raio de luz que 
bi se ref lecte ; depois uma outra vez, os bai- 
:eis de Goelho e de Paulo da Gama, assalta- 
oa :p^a torri vel tempestade, luctam contra 
ifi elementos deaencadeados. Camoes é, no 
wtido proprio d^ palavra, um grande pin- 



] 



HISTOBIA DA LITTERATURA PORTUGtIEZA 

naritimo. Elle batalliara ao pé do Atias, 
mperio de Marrocoa; tinha combatido so* 
Mar Vermeiho e no Golfo Persico; duas 
s dobrara o Oabo, e durante dezeseis an- 
penetrado de um profundo sentimento da 
reza, elle tinha escutado attento sobre as 
3 da India e da China, a todos os pheno- 
Ds do Oceano. Descreve-nos o fogo ele- 

de Santelmo, que os antigos personifi- 
m sob OS nomes de Castor e PolLux. Elle 
la-lhe: «O lume vivo, que a maritima 
e tem por santo* — e pinta a lornsaQào 
Bssiva de trombas amea^adoras e mostra 
)mo nuveus tenues Be condensam em um 
>r espésso que se enrola em spirai e d'onde 
e urna columna que suga avidamente as 
is do mar; comò està nuvem sonibria, 
ido està saturada recolhe em si o pé do 
, e voando pelo céo, espalba a agua doc« 
ondas do mar, que a roncadora tromba 
inha tomado. — 

Gamòes n3o se mostra sómente um gran- 
intor na descripcao dos phenomenos iso- 
9, elle realtà tambem em abranger as 
des massas de um simples relance. O 
liro canto do seu poema reproduz em al- 

1 tragos a configura^ào da Europa, desde 
■ias regiòes do Norte até ao reino da Lu- 
ia e ao Estreito onde Hercules realiaou o 
iltimo traballio. Por todo elle fa; 
costumes e & civilisaQ3o dos pc 

tam està parte do mundo tao ri 
ulada. Da Prussia, da Moscovi 
38 que lavam as aguas frias do 
o Rheno frìo lava) passa rapi 
ianicies deliciosas da Grecia, — qi 



r 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 57 



tes 06 peitos eloquentes, e os juizos da alta 
phantasìa. — No decimo canto, o horisonte 
alarga-se mais ainda; Tbetys conduz o Gama 
a urna alta montanba para Ihe desvendar os 
segredos da estructura do mundo (a machina 
do mundo) e o curso dos planetas, segundo o 
systema de Ptolemeu. E' urna yisào contada 
no eatylo de Dante; e corno a terra ó o cen- 
tro de tudo o que se move com ella, o poeta 
aproveita a occasiao para expòr o que se sa- 
bia doB paizes recentemente descobertos e das 
suas diversas produoQoes. Nao se limita, comò 
fez no terceiro canto, a representar a Euro- 
pa; todas as partes da terra sao passadas em 
rovista, mesmo o paiz de Santa Cruz (o Bra- 
sil) e as costas descobertas por Magalhaes. . . 
«Louvando sobretudo em Camoes o pintor 
maritimo, quiz mostrar que as scenas da na- 
tureza terrestre o tinham menos vivamente 
attrabido. Jà Sismondi notara que nada no 
seu poema indica que elle se demorasse a 
contemplar a vegetando tropical e as suas 
fórmas caracteristicas. Elle nao menciona se- 
nio 08 aromas e as producQòes de que o com- 
mercio tirava lucro. O episodio da liba encan- 
tada, appresenta em verdade a mais graciosa 
de todas as paizagens, mas a decoragào so se 
compòe, corno competia a uma ilha de Veìitis, 
de myrtos, de cidreiras, de romanzeiras e de 
limoeiros odoriferos, tudo arbustos proprios 
do clima da Europa meridional. Cbristovam 
piombo, o maior dos navegadores do seu 
mpo, sabe melhor gosar as florestas que 
»rdam as costas e di mais attengào & phy- 
)nomia das plantas. Mas Colombo escreve 
I diario de viagem, e ahi consigna as im- 



^ 



HtSTOBlA DA LITTBRATDBA POBTUGUSZA 



s5e3 de oada dia, ao passo qua a Epopèa 
)amò6B celebra as emprezas dos Portu- 
:es.> ' O influxo das Navegagòes acorda- 
os o genio esthetico em outras f<SriiiaB de 

, pesar de exlstir a ìaflueneia italiana n» 
iteotura em Portugal, desde que aqui se 
orou André Contucci, de 1485 a 1494; 
orme refere Vasari, sob o reinado de D. 
Del o gothioo fiamme] ante d3o oede o 

&B tórmas da arohitectura classica; era 
t ponto assimilam-ae, fundem-se, estabe- 
tdo a tranBÌQ^o para urna nora escdioUi 
;ìva gothioa e o pleno<ceatro romano en- 
n a aereridade com a elegancia; osoroa- 
abundantes do gothioo teroiarlo cobrem 
iohosamente a BÌmplioidade das orddQS 
as. Fallando da aacristia da egreja de 
m, o artista Isidore Taylor, comparaa* 

& sala do Capitalo da oathedral de Seor 
lota-lhe: <a riqueza do gothico fiamme^ 
ì unida & graga e & sciencia dos meBtres 
lenasceoQa.» 

1 viajante aventureiro Liobnowaky, paa- 
.o por Portugal em 1842, notou no mos- 

de Belem a fas3o de estylòs arohlteeto- 
3, que elle oaraoterisava corno 8flmi-inau> 
>'byzantino, semi-Dormando-gothico, mas 
7éa d'essa liga extravagante e confusa, 
lestacar-se de vez em quando *na primi- 
puresa, Urna pega qualquer das menoìff- 
is ardiìtecturaa, corno Iriumpbando eoa 
imente do contagio da liga estranba; 



Connoi, t. II, p. 64 a M. Trad. Gatnkj-. 



r 



0AM5eS — EPOCA, riDA K OB&A 59 

Esges vestigios de urna pureza primitiva n3o 
podiam Ber referidoe pelo aventureiro via^ 
jàtite ao typo tradicional da ra4;a lusa ; e era 
imo o que fazfa Raekzinsky sentir um en- 
canto indefinido em «urna immensa quanti* 
dade de edifieios e orrnamentos que se encon- 
tram em todas as provincias de Portugal.» 
Esse «èstylo particuiar e caraeteristico, que 
tanto participa do gothico corno da renascen- 
^> chama*'8e manoelino por formar-se na épo^ 
ea da maior rltalidade nacional, em que aoon- 
tdoeu reinar D., Manoel; mas é urna manifes* 
taóio da ra^ aoordada no seu genio e tradì- 
QÌo eethetica. D^eeta fusSo tem os criticos da 
arte pretendido formar um quarto periodo do 
gothieo, cbamado quaternario ou gothico fio* 
rido, a que em Portugal se deu o nome par- 
tidularde Arohiteetura manoelina. Emquanto, 
eli Italia e Franca se imitam servilmente os 
monamentos gregos e romanos^ nós tornàmos 
esse estylo de transiQ§o definitivo até ao tem* 
pD doa Philippes e da degenerescenela clas* 
sica dos Jesuitas. Sob este aspeeto é uma 
verdadeira orìginalidade ; o mosteiro de Be- 
loni, o Convento de Thomar, a Capella im* 
perfeita da Batalha, a egreja de B. Francisco 
do Porto, aio modelos de um momento pas- 
sageiro da feigSo gothiea, substituida pela 
perversfio do gosto jesuitico. Qual seria a ra- 
8&0 porque nSo seguimos a norma classica da 
^<«Qascen4}a ? O artista f ranoez Isidore Taylor 
Ine bem eate caraoter propriamente portu- 
Bz: «Mas em Portugal este estylo nSo cor- 
ponde ao que assim é denomìnado em 
aoQa ou mesmo na Italia ; està observa(;3o 
tfimmum a todos os munumentos d'este rei- 



1 



■ ISTORIA DA LITTERATDRA PORTDGOEZA 



jtruidos pela mesma epoca. A archìte- 
ntìga e a architectura gothìca ahi con- 
ni o caracter qiie ellas appresentam 
a a Europa; poréni, o estylo da Re- 
m, fornou-se em Portugal um iypo 
lar, que perience d nagào, typo d& 

de graffa, de riqueza e de originali- 
]ue n3o tem outro exemplar na histo- 
Architectura. Elle nao surgiu comple- 
) armado do genio portuguez; no em- 
lle prnduziu nào menos de tres monu- 

deliciosos, dos quaes se procurarla 
) por toda a parte o modelo e a copia, 
lem, Cintra, e Batalha. E' verdadeira- 
ì fusào do gosto orientai e do estylo 
tal.» A ornamenta^ào, corno os melis- 

musica, é que dà is nosgas obras ar- 
micas o aspecto orientai; mas ha urna 
rganica, tradicional, que se liga ao ge- 

raca lusitana, e é o que constitue a 
lìdade do estylo occidental. A grande 
listorica da nacionalidade acordou to- 
fibras ethnicas, e està do genio archi- 
io ngo é a menos assombrosa. 
^ue esse typo chamado manoelino era 
ma! na ra^a, comò se verìfica em toda 
o lusitana; depois, porque o desenvol- 
3 ornamentai vinha exprimir os sym- 
los nosaos Deseobrimentos. A Archite- 
mquanto foi urna fórma espontanea da 
tao do sentimento era toda symbolica ; 
explica-a por urna comprehensSo ìd 
i das ideias abstractas. Nós, povo me 
1, sem tendencias para a abstracgSc 
mos a fórma que melhor quadrav. 

nesso genio espansivo e scismado 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OSEA 61 

Descobrindo a India pela ròta marìtima, vi- 
mos no dominio das regides orìentaes o pro- 
longamento do christianìsmo, emquanto Ve- 
neza reconheceu logo a sua ruina corno po- 
tencia maritima. ^ O grande feito devia ser 
perpetuado em urna esplendorosa Cathedra!, 
corno fora a independencia do territorio por* 
tuguez consagrado na egreja da Batalha de- 
pois da Victoria de Aljubarrota. Era o pa- 
drào melhor comprehendido por nacionaes e 
estrangeiros. Tendo o arehitecto de sj^mboli- 
sar OS feitos nos differentes ornato» do monu- 
mento religioso, os productos do Oriente vi- 
nham com a sua novidade extravagante e 
abundancia excessiva dependurar-se por toda 
a parte, dar a conhecer os novos climas« a 
flora e a fauna maravilhosas d'essas regioes 
estranhas; eram corno Exvotos que alli vi- 
nham depositar os mareantes cansados das 
tormentas. Revestindo assim o edificio com 
urna graga nao conhecida, o povo sabia ao 
primeiro relance alcangar o pensamento da 
obra, lér na pedra o feito memorando. Isto 
bastava para ser impossivel banir completa- 
mente a arte gothica que se prestava a està 
caprichosa espontaneidade ficando symbolica- 
mente bella; o estylo classico, corno imitado 
com canones dogmaticos, nao prestava ensejo 
para este symbolismo audacioso e livre que 
reunia em urna mesma fórma o sentimento 
religioso com o espirito aventureiro da nave- 
fào que agitava a alma portugueza. Eis a 
isa porque esse rapido momento de transi- 



^ Darà, Hist. de VenisCf t. ni, p. 295. 



mSTOSU DA UTTSHATDRA POBTnaDI! 



qSo em que o gothico flammejante se enla^on 
oom o estylo Massico, durara em Portaci .o 
bastante para estabelecer o perìodo quaterna* 
rio, chamado gothico florido, oonhecido pela 
designaoSo nacìonal de manoelino. Os orna- 
toB que tento o distìnguerà aBo a E^hera ar- 
millar, flòres das regtòea tropioaes, grìnaldas, 
fioròes. periquitoa e aves raras, rendilhadmi 
exquìsitos com divisas da CBTallerìa andante, 
cordas em acanelledura enrotando-se pelae 
columnas de fdrmas jonioas ou coryiiùiias, 
travando-se no àr em abobada, que deìxa 
pender para baixo grandea laQos de pedra, 
cachoB com fructas e relSvos emblematiooB; 
de longe em looge appareoem medaihóes com 
figursB de meio corpo cibando para o borì* 
Bonte comò o marinheiro na amurada do na' 
TÌo eapreitando pela immensidade doa marea; 
vendo atravéa da oerra^ào doa cabos. A ogì^ 
Ta e o semi-circulo romano transformam-se 
comò que imitando o arco do Belvagem que 
Terga para despedir a flexa; as janellas or.* 
nam-se com stalactitea engra^adaa, e os tra- 
balhoa caraoterisaiQ-se com a perfeigSo do 
bem acabado; nSo é o dinbeiro que motiva a 
sumptuosidade, é a crenga que incita a perferf- 
cSOt é a revolta contra o prestigio das regras 
academioas que dà ao genio portuguez està 
raago de espontaneidade. 

DepoÌB do descobrimento do camlnhoma^ 
ritìmo da India, mandou o rei D. Manoe] &6 
papa LeSo :?^ um riquisBimo preBente, em qiu 
ia tembem um Elepbante corno aymboio di 
Asia; paBseou o animai pelaa mas de Roiocii 
com grande asfiombro do poro, que nunca % 
nba visto um animai tfio desmeaurado, coi 



r 



CAXÒBB — EPOCA, VIDA E OBBA 63 

mais assembro da fórma monstruosa do que 
attendendo ao symbolo da Asia que assìm 
prestaTE homenagem à religìào de Christo. O 
animalago offerecido em 1614| viveu apenas 
doìs aiiiioa; faltou cedo este divertimento do 
povo, mandando o papa a Giovane da Udi* 
ne, diseìpulo de Raphael, eximio em pintar 
hypogriphos e animaos phantasticos, que o 
rstratasse ao naturai. ^ O Elephante fora 
mandado para Portugal em 1506 por Dom 
Francisco de Almeida, na nào oommandada 
pelo poeta Vasco Gomes de Abreu. ' Depois 
de ter produzido em Boma urna revolu^So 
nos ornatos da eschola de. Raphael, mereceu 
SM* celebrado nas famosas Epistolae obacuro- 
rum Vinyrum do cavalleiro Ulric de Hutten, 
nas qnaes a hypocrisia clerical e o pedantis* 
mo da Sehola^tica eram mortalmente verbe- 
indoff. ' A curìosidade despertada por estas 



^ Vasari, Vida dos Pintore$. Ed. de Florenga, de 
1852, t. vili, p. 41, not. 2. 

* Pedatura lusitana, Bibl. do Porto. Ms. 442. 
^ Eis a narrativa da merte do Elephante of feroci* 
do ao papa : <Yos bene audiviatia qualiter Papa habnit 
I nauta magnum animai, qnod vooatum fuit Elephas, et 
habuìt ìpsum in magno nonore, et valde amavit illud. 
Rune igitaf debetis sciré quod tale animai est mor^ 
tiiàm. Bt quando igitar luit infirmo, tune Papa fuit in 
magna tristitia, et vocavit medicoa plures^ et dixit eis: 
Si est pofSiibile, sanate mibi Elephas. Tunc fecerunt 
magnam oiligentiam et viderunt ei urinam, et dederunt 
élìinam pdrgafionem quae custat qninque centnm au- 
la :'t»edtatnetr£lépbad... est liìortum, et Papa dolet 
tltam, et c^iannl qnod 4aret mille ducatos prò Elephas : 
ia fnii fnirable animai, babens longum rostrum in 
igaa quanti tate; et quando vidit Papam, tunc geni- 
avitei, et dixit ctim terribili voce bar, bar.* (Epist,^ 
.1767. tii, p;906.) 



CI BISTORIA DA UTTERATURA PORTUQt 

figuras estranhas vindas de ìgnotas regìdes, 
offerecia um doto elemento de ornato para a 
pintura e esculptura decorativas. Na Egreja 
dos Jeronymos os papagaioe e periquitos de- 
penduram-se dOB cordòes que entrela^am as 
columnaa com a abobada comò mastros e en- 
xarciaB de um baìxel; é o gale3o regresaando 
do Oriente enramalhetado, enfeitado com os 

firoductoB de urna maravilhosa natureza. FeU 
andò da influencia indiana naa Capellas ìn- 
completas da Batalha, nota-lhes Bobinsoa, 
«n'aquella florida e ornamentada estructura 
o mixto do gothico de transigSo e da oroa- 
menta^ao indiana. Tambem, por todo o se- 
culo XVI, 08 elephantes fSram introduzidos 
com proeminenteB feigòes ornamentaes no 
còro da Egreja dos Jeronymoa em Belem. O 
estylo manoelino, emfim, — appresenta fre- 
quentes vezeB, de modo o mais innegavel està 
influencia indiana.^ 

O presente levado pelo embaixador Trìs- 
t3o da Cunha ao papa LeSo x em 1514 con- 
stava de riquÌ3simo8 trabalhos de Ourivesaria, 
que D. Manoel Ihe offerecia corno pàreaa da 
India. Consistia em um Pontificai inteiro de 
brocado de pezo, bordado e guarnecido de 
pedrarìa, com romanB de ouro massico, cujos 
bagoB eram rubina, com flóres formadas de 
perolas, diamanteB, amethystas, esmeraldas e 
rubina ; levava mais, urna mitra e bficulo, 
anneis, cruzes, calices e thuribulos, tudo de 
ouro batìdo, coberto de pedrarias; tambeo 
Ihe mandou muitas moedas de ouro de qui 
nhentoB cruzadoB. Os dois ourives que fre 
quentavam a córte, Gii Vicente e Dìogo Fei 
naodes, por certo tomaram parte na feìtur: 



CAMÓBS — EPOCA, VIDA B OBRA 65 

d'este opulentissimo presente ao papa. O ar- 
tista eximio, que soube synthetisar na Gusto- 
dia feita com o primeiro ouro das pàreas de 
Quilòa a f 6 e o heroismo dos Descobrimentos, 
teria esparzido o seu genio creador sobre es- 
«as maravilhas da embaixada de Tristào da 
Canha ao papa. 

A Pintura portu^ueza, que se define com 
o nome de Gram Vasco, appresenta no seu 
syncretismo analogo ao da Archi tectura, um 
caracter nacional. Emquanto a Pintura fla- 
menga, corno observa Joaquim de Vascon- 
'Cellos, capitulara perente a influencia ita- 
liana desde os principios do seculo xvi: «Os 
B08SOS pintores da eschola chamada impro- 
priamente Grao- Vasco, (1500-1530) conti- 
nuam durante trinta annos um estylo, que 
aeus inventores (que os nossos suppunham 
imitar) haviam abandonado ha multo. Fóram 
archaicos n'isto, sem deixarem de ser eccle- 
cticos, porque introduziam nos seus quadros 
feìi^es e feitios que nao eram flamengos, fun- 
dindo n^uma forte dòse de individualismo 
nacional urna dòse nao menos forte de cos- 
mopolitismo artistico. 

tFrancisco de Hollanda tinha o direito de 

Ihes dizer que estavam atrazados meio seculo, 

mas nao devia admirar*se que a sociedade por- 

tagueza os applaudisse unanimemente; que 

essa mesma sociedade, muito pouco eulta em 

materia de arte, affeiQoada semente às scenas 

igicas e imprevistas do mar e da guerra, des- 

mbrada peias grandezas apparatosas, exo- 

ns, da civìlisa^So orientai, achasse pouco 

«to naa estudadas, mas simples concepgoes 

ìalistas dos primeiros mestres italianos. 



66 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



«A pintura da epoca manoelina é para 
nós, hoje, nma mamfestagSo complexa; para 
o Hollanda, dotitrinario b intolerante, era um 
enigma: execuQ9o flamenga nos accessorios» 
desenhados com amorosa phantasia e escru- 
pulo de illuminadores ; pintando os typos, re- 
tratando homens, miilheres e criangas, indi- 
vidualisando sempre, cóm um sentirneniaUs- 
ma portuguez, que jS nos Autos transforma- 
ra as grandes scenas da Escriptnra sagrada 
em pequenos quadros de genero» intimos, fa- 
miiiares. — 

cNo meio d'essas influencias encontradas, 
as fónnas physicas meridionaes^ palpitan- 
tes, cheias de vìqo nas mulheres, as quaes 
sfio bellas A italiana^ mas sympaticas, com 
um toque de malicia graciosa e um ardor mal 
encoberto. Kostos lindos, oblongos, com olhòs 
fulgurantes, em rica moldura de negras tran- 
gas; mSos pequenas e bem modeladas, sahin- 
do de formosos bragos, que as longas man- 
gas golpeadas nSo querem disfargar. Bustos 
cheios e curtos, sobre ancas reforgadas, con- 
trastando tanto mais do que os rostos^ com 
OS hombtos altos e quadrados, com os peitos 
seccos e alongadas cintas dos flamengos e al- 
lem&es. N'uma palavra: a figura feminina 
nacional^ desprendida de todos as peias, de 
todos OS modelos eproporgoes consagradas» 
impondo-se sem reserva comò modelo. Cada 
cabeQa, cada corpo é um retrato. Nenhum 
ideal abdtraoto de belleza, lienhum symbol! • 
mo, nenhuma allegoria sequer. Os homens e\ ^ 
geral^ poueo notaveis^ custando a reconha» • 
n'elles a raga heroica do Seoulo das Besc • 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 67 

bertas.» ^ A està excelìeute caracteristica da 
Pintura portugueza ha a accrescentar a pai- 
zagem do fondo dos quadros que é a da nos- 
sa terra, e a tonalidade opalina da luz do 
nesso céo. 

N'esta hyperstheaia da alma portugueza 
na realìsagao da sua roissao historìca dos 
DesQobrimentoSf loram suscitadas todas as 
suas capacidades mentaes e moraes, que fio- 
riram ainda quando j6 o seculo e as institui- 
Q5es politicas cahiam no retrocesso e no obscu- 
rantismo religioso. Todos os productos pri- 
maciaes dos nossos Quìnhentistas provinham 
d'oste ìmpulsoi ou vis a tergo^ emquanto o 
secalo assombrado pelas fogueiras inqu.Ì6Ìto- 
riaesi pela pèrfida captagào jesuitica termina- 
va pela extincQSo da nacionalidade portugue- 
za. Muitas vezes estas manifestacoes fulgu- 
rantes de um impulso passado, mascaram glo- 
riosamente a decadencia latente ma9 inevUa- 
vel em que urna epoca se affunda. ' 

Na tragicomedia Triumpho do Inverno, 
representada em ,1580, apontou Gii Yicente 
a depressào do g^nio nacional manifestada 
desde 1510, desde que D^ Manoel deixàra 
de convocar cortes e extinguira as liberdades 
manicipaes ou locaes. 



* (ìuatro Dialogos da Pintura antigua^ Nota, p. 79. 

^ Yillemain lormùla este mesmo pensamento : 
<0 grào de eleva^ao qjie attinge o caracter de um 
70^ é a medfda da fluperioridade que elle pode con- 
fVÉr« oti eficontrar naa consas de arte e de gesto. 
ta eleYa^ao aSo é sempre a fórma da liberdade ci vìi, 
)priamente dita ; ella póde, segundo a edade da na- 



IRIA DA LITTERATCRA POHTUGUEZA 

sceiKja resume-se em urna palavra 
. Disse Michelet: «Desde o dia em 
reentrou no mundo, nào sómente 
la prodigiosa crea^ào de Sciencias 
3 Industrias, do potencias, de for' 
licas, — mas urna nova for?a mo- 
Fils, p. vn). A Era dos Descobri- 
ì ac^ào, quebrando a apathia da 
lia. Foi assim o grande seculo xvi 
al. A acQ^o portugueza é ainda 
eu influxo na corrente da civilisa- 



) de urna epoca, lan^ar raizes em outra 
tar-se do zelo religioso, da honra aristo 
elidade cavalheìresca ; ella póde luanter-se 
do de SCO bri mento e da empreza longin- 
10 sedilo SVI, Portiigal e Heapanha fulgi- 

grande hrilho poetico, justamente quan- 
elhas liberdades se iam enfraquecendo. 
aterra tìnha apparecìdo cheia de invengào 
e imagina^ào sob o rcinado imperioso de 
1, o pensamento francez, livre com tanta 
a, nas longaa perturba^òes da Li^a, de- 
10 tempo animada e contida por Henri- 
ha disciplinado sem se enfraquecer sob a 
;loriosa mao de Richelieu, e tinfaa achado 
;a, magniti ce noia e gra^a durante o meio 
liz XIV cncheu com o exito das euas ar- 
cndores da sua córte e do seu habil ascen- 

Europa. 

nelhaittes intluencias esgotam-se, com os 
gloria, com as illusóes das reminisceucias 
i; ellasseriammalsubstituidas pelaac^ar- 
fa do poder concontrado. A forca na 

a obediencia; ella nSo eleva as alma 
B obedecem; nào suscita o talento, qu 

suspeito; nào deixa campo ao livre-ext 
desoonfia.» (Ckoix d'Eltides de Littert 
ìraine, p. D36.) 



II 



A Humanidade revelando-se na Cultura greco-romana 

e a renovapào religiosa 



seculo XVI tem sido caracterisado corno 
maior seculo da historia; n'elle convergi- 
ram a maxima somma de impulsos acor- 
dando as energias latentes desde que a tre- 
menda reac^ào catholico-feudal sustou o des- 
envolvimento mental da primeira Renascenga 
do seculo XIII. Esse fulgor vivo das intelli- 
gencias audaciosas apagou-se pelas persegui- 
Qoes religiosas; essas revindicaQoes das cTas- 
ses servas fòram embaragadas ou illudidas 
pelo poder real. Successos inesperados ata- 
cam a apathia de dois seculos: os Descobri- 
mentos geographicos dos Portuguezes deter- 
iinaram o accordar de novas energias, que 
>ram designadas corno um Renascimento: 
longando-se a actividade pacifica do homem 
torcendo o imperio da vontade sobre a Na- 
reza, novas concepQdes do mundo physico e 



70 HlSTORIA DÀ LITTERATURA PORTUGUEZÀ 



moral impelliam para a demolÌQao das velbas 
noQòes tradicìonaes e levavam todos os espi- 
ritos a reconhecerem a necessidade de urna 
Synthese ou systema de opinióes sobre o 
mando e a consciencia^ Dados positivo^ obrì- 
gavam a exercer o criterio scientifico; o par 
cosmologico da Mathematica e Astronomia 
dos gregos, veiu dar uma base inabalavel & 
marcha d'està seganda Renascenca, em (jue 
&& especulagdes subj^ctivas ou metaphysicas 
substituiu OS dados objectivos ou experimen- 
taes. O genio grego nSo era estudado agora 
naB manifestaQoes theurgicas do alexandrmis- 
mo desvairado pelas idealisaQ5es orientaes, 
n'esse imaginoso neo-platonismo das doutri- 
nas de Jamblieo e Porphyrio, comò acontece-, 
ra no seculo xiii, pela corrente das Cruza- 
das ; o genio grego revelava-se agora no du- 
plo aspecto artistico e scientifipo, nas crea^òes 
bellas dos grandes espiritos da litteratura at- 
tica, e dos seus phìlosophos e investigadores. 
Por este impulso pratico das Navega^oes por- 
tuguezas, e theonco do verdadeiro e impere- 
civel hellenismo, a Henascenga do seculo xvi 
n3o pdde ser dominada pelos poderes conser- 
vadores, corno no seculo xiii, e poz em di»- 
cussao, em conflicto, em antinomia todos os 
problemas sociaes, com coragem moral e com 
o vigor da intelligencia. Póde-se dizer, que 
pela primeira vez na humanidade, o seu oés- 
envolvimento recebeu o impulso directo dos 
pensadores, obedeceu ao poder das ideias. 
Para \& do Cbristianismo appareceu uma ou- 
tra humanidade, que sem ter recebido o influ- 
xo da graga divina e da redempQ9o, exprimiu 
com nitidez as mais seguras ideias moraes. 



CAMOES — EPOCA» VIDA £ OBRA 71 

< 

realisou as mais extraordinarias fórmas artis- 
ticasr, e systematisou fundamentalmente con- 
cepQ56s aobre o univ9rso. transmittidas em 
Escholas philosophicas, que se refiectiram na 
elaboraQ9o popular do Christiauismo, Era a 
rebabilitaQSo da Àntiguidades do paganismo, 
amaldiQoado pela Egreja na obra dos seus 
sabios e poetas, e nas crengas populares pò- 
iytheicas. O acordar do sentimento da Natu- 
reza, na Renascengat era simultaneo com a 
emonio que tendia fora da disciplina evange- 
lica para o sentimento da humanidade. Com 
a curiosidade mental que suggeria o interesse 
pela Sciencia, manifestava-se a effusao sym- 
pathica que inspirava um novo Lyrismo, mais 
vibrante pela realidade que exprimia. E esse 
Lyrismo, que Petrarcha transmittira da pri- 
meira Renascenga para a nova èra de reno- 
va<^o, nao era uma imitaQ3o das fórmas clas- 
flicas greco-romanas» tinha uma verdade que 
o tornava sincero e bello, provinha dos esbo- 
ijQs creados pelos Trovadores no seculo xii, 
e elaboradoe na sua fórma definitiva pelo ge- 
nio italiano. 

estudo dos textos das obras primas da 
dvilisa^So greco-romana, a sua vuIgarisacSo 
pela maravìlhosa e recente invengao da Im- 
prensa tornando accessi vel a todos os espiri- 
to6 essas creagoes supremas, despertaram o 
genio criticOi deram ao Humanismo essa pri- 
irnira fórma propriamente philologìca ; o tex- 
t< grego dos Evangelhos foi lido na fórma 

glnaria, e comegaram as questdes interpre- 
ti ivas ou exegeticas que levaram a dìscutir 
e dogmas theologicos. Assim a par do huma- 

1 nò da Renascenga, que chega até ao exa- 



H13T0R1A DA LITTERAltTRA PORTOGDEZA 



-— 



iae inBtitiiÌQÒes politicas, apparece a Ke- 
18, que comegando por urna aspiragào a 
renascimento da Egreja pela regressao 
rimitÌTa simplicidade dos chrìstàos das 
eumbas, chega à discussào dos dogmas 
um negativismo philoaophico. E' n'estes 
mtoR conflictos doutrinarios e de interea- 
de ìnstituÌQòes, que Burge a complicaQào 
Guerras religiosas, em que o Poder espi- 
li e o temporal se ligam para a resistencia 
ervantista, profundamente perturbadores, 
impotentes para, corno no Beculo xiii, 
irem a marcha e o exito da Kenascenpa. 
L influencia do HellenÌBmo na Renascen^a 
acordar o espirito scientifico; as gran- 
expedÌQòes e conquistas de Alexandre na 
a, fòram subita revelagSo de urna grand» 
3 da terra, mais assombrosa nos seus pro- 
08 naturaes dò que o mundo ficticio das 
òes imaginosas. Esses novos conbecimen- 
:6ram coordenados e system atisados por 
toteles, comò nota Humboldt: «Precisa- 
le na epoca em que este rico tbesouro se 
ecia ao conhecimento bumano, os traba- 
de Aristoteles tornavam a construcQSo 
es materiaes mais facil e mais variada, 
ndo as leis da experimenta^So pbysica^ 
■do OS espiritos em todas as vias da es- 
lag3o, dacdo-lhes o modelo de urna lia- 
;em verdadeiramente scientifica, cuja pre- 
I se accommodava a todas as cambìantes 
ensamento.» Os descobrimentos dos Por- 
ezes, abrindo a ròta maritima da India, 
itearam as maravìlhas naturaes do Orien- 
movando a empreza de Alexandre; e està 
mstancia determinou a preponderancio 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 73 

do hellenismo scientifico^ que veiu apoiar o 
espirito moderno, emquanto os modelos litte- 
rarios foram pervertidos pela banal imita^ao. 
E quando contra Àristoteles, que surgia na 
grande Renascenga corno il maestro di color 
che sanno, pelo seu saber positivo, ainda Fe- 
dro Ramus o confundia com o philosopho de- 
tnrpado por alexandrinos, arabes e scholasti- 
dstas, coube tambem ao portuguez Antonia 
de Gouvéa repor o philosopho stagirita na 
6iia inabalavel supremacia mental. 

A influencia de Roma, que approximara 
OS povos pelas suas conquistas, egualando-o& 
pelas lei8 e unificando^os no Imperio, esbo^a- 
va um direito commum, humano, em que a 
Hnmanìdade comegara a ser entrevista pelos 
philosophos stoicos. As ìnvasoes germanicas 
perturbaram està syntbese affectiva, e o Chris- 
tianismo tornado Religiao do estado manteve 
as desegualdades sociaes. Diz Humboldt: «Du- 
rante multo tempo nos Estados christaos, a 
liberdade pessoal de numerosas classcs de ho- 
mens nao encontrou apoio junto dos possui- 
dores dos bens ecclesiasticos e das corpora- 
Qoes religiosas.» (Cosmos, ii, 242.) A renas- 
cenga do Direito romano veiu accordar esse 
espirito de liberdade individuai e civica, com- 
pletar o impulso hellenico pelo concurso ro- 
mano conduzindo os separatismos nacionaes 
ao universalismo. 

A Antiguidade classica, nos seus dois eie- 
entos organicos, Grecia e Roma, appresenta 
)is aspectos de Civilisa^ao bem caracterisa- 
19, que, comò observou Littró, se reconhe- 
m nas differen^as entro Homero e Virgilio, 
tre Euripidea e Seneca, Menandro e Plau- 



74 HISTORIA DA LITTEBATUBA FORTUGUfeZA 

to, Demothenes e Cicero, Thucydides e Taci- 
to, Milciades e ScipiSo, Alexandre e Cesar. 
O Cbristianismo syncretisou estes elementos 
nos seus dogmas ou o hellenismò, e organi* 
saQSo social, o romanismo; por esse mutuo in- 
fiuxo que apparentemente renegava, foi in- 
corporando na mesma doutrina as ra^as gau- 
leza, germanica, ligurica, iberica e celta, na 
longa transi^So da Edade mèdia. Mas essa 
unifica<}So religiosa chamada a Ghristanda- 
de, avanzava no seu desenvolvimento para 
uma Renascen^a grecoromana, o Humanis- 
mo; tal foi o assombroso phenomeno do se- 
culo XIII, que falhou por fàlta de sciencias 
positivas. Mas esse fundo da cultura greco- 
romana actuou mais persistentemente nos cin- 
ce grupos cooperadores da Civilisa<;3o moder- 
na — a Italia, a Franca, a Inglaterra, a AUe- 
manha e a Hespanha ; atra vés dos caracteres 
nacionaes, a Renascen^a classica imprìmiu* 
Ihes um mesmo espirito de admira<;io das 
f órmas bellas e da imita^So, e uma certa obii- 
tera^ao do germanismo que preponderou na 
sociedade feudal em toda a Edade mèdia. A 
RenasceuQa designa o momento historico em 
que se effectua està nova unidade da Civili- 
saQSo moderna. O germanismo reapparecerfi 
na fórma do Imperialismo nas Monarchias 
absolutas, levadas pelo sonho da Monarchia 
universal; Carlos v, para realisar o Santo 
Imperio romano, abandona o germanismo da 
Refórma, ou o seu intuito nacional, para se 
fortificar com a unidade catholica oom quem 
se liga. Mas, ainda através de todas as dissi- 
dencias religiosas, politicas e internacionaes, 
a RenasceuQa classica era seguida nas Mo* 



CAMOES — EPOCA, V1D4 E OBBA 75 



narchias absolutas, na Egreja catholtcat nas 
democraciaSi entre os protestantes e livre- 
peosador^» oom o mesmo enthuziasaìo, bri- 
ihando pelo contraste com todoa eases oonfli- 
ctos. F<ka da Egreja existiu urna Grecia e 
ama Roma, repreaentadas pelea poetaa, pelea 
philoaophoa e sabips, que tiabam alcauQado 
a verdade moral iadependentemente de toda 
a revela<^o, unioamente pelo eentimento hu- 
mano. O conhecimento d'e9te9 monumentos 
do passado, que eatavam obliteradoa Boa se- 
culos medie vos em que a Egreja fora a eschola 
excbisivat foi urna Benascenga da Humani- 
dada, porque realisava a concordia entre a 
Europa germanica e a Europa romana, que 
tinbam aido aempre antagonicas na marcba 
social. Agora era necesaario urna acQao com- 
mom, determinada pelea Descobrimentos dea 
Portugoezea, que tambem vieram authentìcar 
que occupava o globo urna Humanidade mais 
vaata do que eaaa que ae comprehendia aob 

nome de Christandade. Oa espiritoa mais 
eminentea da Renaacenga eram altamente to- 
lerantea, temperando oa impetoa violentoa e 
aangaìnarioa dea poderea que ae conflagra- 
vam. Trea inatrumentos technicoa deram & 
Renaacen^a a aeguran^a e perpetuidade do 
seu influxo; a Bussola^ a Imprensa e o Te- 
lescopio; aao o6 trea arietea com que o saber 
formalista da Edade mèdia é dissolvido, e a 
consciencia é libertada da immobilidade dos 
€ {mas» alargando^ae a propria sociedade 

1 mondo. A Bussola dirige as Na vega<;des 
e ivendando o Mar Tenebroso, por — marea 
I K» d'antee navegadoa, circumdando o glo- 
l a Imprenda vulgarisa as maravilhaa daa 






76 HISTORIA DA LITTERATORA PORTUGUEZl 

litteraturas classicas de pura inspiragao hu- 
mana; o Telescopio conquista os céos pelo 
reconhecimento das Leis astronomicas, de- 
struindo todos os pedantismos e pezadelos da 
Astrologia. Diante de tantos factos positivos, 
Leonardo de Vinci formula o principio, que é 
a base de todas as Sciencias — fundar o co- 
nhecimento na sèrie das inducQòes. O espi- 
rito moderno tornarla a ser perturbado pelas 
reacgoes dos poderes, mas jàmais extincto, 
corno se viu nos cataclysmos sociaes do fim 
do seculo XVI, e nas grandiosas syntheses 
philosophicas do seculo xvii. 

Na sua esplendida unidade, a Kenascenga 
appresenta variedades em que se revelam os 
caracteres nacionaes do complexo genio euro- 
peu. Ha urna Renascenqa italiana, essencial- 
mente philologica e artistica ; ha urna Eenas' 
cenga franceza, em que a paixao do hellenis- 
mo Ihe imprime a disciplina do gosto, e o 
romanismo a comprehensao da independen- 
cia da esphera civil ; ha uma Renaseenga al- 
lenta, em que através da erudigao litteraria 
predomina o intuito social. Em todas estas 
manifesta<^oes da Renascenga brilha singular- 
mente o genio portuguez, desabrochando li- 
vremente com altas capacidades no estran- 
geiro, ao passo que em Portugal se estava 
em um occaso mental, de que tanto se queì- 
xam alguns dos nossos quinhentistas. André 
de Resende, que estudou na Italia, viajou 
pela Europa e frequentou a con vi venda dc^. 
principaes eruditos da primeira metade e • 
seculo XVI, na sua Oragào de Sapiencia, ree 
tada na Universidade de Lisboa em 1534, e 
timula a mocidade a seguir esse movimeni 



CÀMÒSS — EPOCA, VIDA E OBRA 77 

da Renascenga, appresentando-lhe o exemplo : 
<nào so na Italia, creadora d'estes estudos, 
mas tambem da Franga, da Inglaterra, da 
Allemanha, n'esta nossa edade disputando a 
palma das lettras à Italia, e finalmente a Po- 
Ionia, a mais atrazada de todas as terras an- 
tigamente.» Vieram bona philologos para mes- 
tres dos princepes, corno o hellenista Nicolào 
Clenardo; Erasmo chegou a ser convidado por 
Dom Joao in, mas o imperialismo de Dom 
Manoel e o fanatismo de Dom Joao in abafa- 
ram logo esse espirito que na Peninsula se 
chamou o Erasmismo. 

Representando o Humanismo italiano, 
que cometa pela ida de fidalgos portuguezes 
fi Italia ouvir as ligoes de Angelo Policiano, 
corno se sabe por uma carta d'este humanista 
a Dom Joao ii sobre a applicagao dos dois 
filhos do Chanceller Joao Teixeira, * appare- 
ce logo Estevara Cavalleiro professor de gre- 
go e latim na Universidade de Lisboa, tendo 
là ido aperfeigoar-se nas disciplinas do Helle- 



^ «Angelo Policiano faz men^ao de dois Teixeiras, 
ao passo que Hermigio Caiado, vivendo entào em Flo- 
renga, nos faz crèr que eram tres; porém a vista do 
que consta do proprio Caiado na sua Ecloga vii, que 
dedieou a Alvaro Teixeira, um dos tres, fica o nò bem 
desatado, e logo se conhece que tanto Policiano comò 
Hermigio disseram a pura verdade. N'aquelia dedica- 
toria se nienciona Luiz Teixeira eloquentiae ipsius alti- 
mnxis, mas Tristào Teixeira (continua o poeta) = a quem 
eu dera o nome pastori! de Thyrso, faleceu em Bolonha 
a dezenove annos de edade, nào sem lucto e magoa 
n • sóinente Tossa, porém a mais subida da parte de 
q ntos o trataram e conheceram, e que eram testemu- 
n <3 dos purissimos costumes, vida regular, pericia 



78 niSTORIA DA LITTBRATttRA FO 

nismo. Foi seu glorioso diactpulo André de I 
Resende. 1 

Ayres Barbosa, naturai de Àveiro, depoi&J 
de frequentar Salamanca, foi frequentar 08% 
estudos oom Angelo PoUclano em Fiorenza, 1 
tendo ahi por condlscipulo Jo3o de Medicit 
(Le3o X). Regressou a Salamanca para reget 
urna oadeira de RhetoHca, e depola de gregc 
e latim, na dece ìntimidade ìntellectual do e» 
lebre Antonio de Nebrixa. Cabe-lhe a glorie 
de ter side o inìciador dos estudos hellenicos 
na Peninsula. Depoìs de aposentado em Sa 
lamanca, D. Jofio iii o cbamou a Lisboa para 
mestre dos oardeaes Com Affonso e D. H 
rique, faleoendo em 1530. Era um exii 
poeta latino. 

André de Resende, continuador de Ay 
Barbosa, é o fundador da Archeologia ci 
sica em Portugal, interpretando pelos tex 
dos geographos gregos, pelos historìado 
romanos, e monumentos epigraphicos do s 
patrio as antiguidades da Lusitania. D. '^ »- 
dro de Masoarenhas, embaixador de Portu- 
gal em Roma, protegeu multo a André de 



em ambas as lingua» prega e latina, e grande saber 
de ambos ob direitoa Civll e Canonico-».* (Eglogae et 
Silvae Hermici. Bononiae, IfiOl.) — <D'eates irmSos 
foi Luiz TeixeJra Lobo o maia celebre, assim na Italia, 
onde ctiegou a occupar em Ferrara a instancla do Du- 
que Hercules 2.° a cadeira de Prima de LeÌB, corno e~i 
Portuga), onde foi mestre do princepe D. Jo3o, depo i 
rei Dom Joao iii; e aubla aos logares mais conapica( i 
da magistratura.' (Frei Fortunato de San Boaventar , 
LitteratOB porttiguetes em Italia, p. 82. Ed. Anton < 
de Portugal.) 



GAMOES — EPOCA» VIDA E OBRA 79 

Resende, aasistindo no seu palacio quando 
estere em Bruxellas. Ahi, diante de Carlos v, 
em urna festa pelo nascimento do Infante D. 
Uanoel, se representou em 1532 o Auto da 
Lusitania^ de Gii Vicente, ao qual assistiram 
Damiao de Goes e mais quaranta e outo por- 
tuguezes. André d^ Resende fez a descripQao 
d'essa festa e representa^ao no poemeto lati- 
no Genethliacon Principis Lusitani^ ut in 
Gallia Belgica celebratum eaU — Mense De- 
cembri, MDXXXii. Quando D. Fedro de Mas- 
carenhas acompanhou Carlos v na expedi^So 
centra os Turcos em 1529, o embaixador le- 
vara oomsigo André de Resende. ^ A sua ami- 
Bade por Erasmo a quem foi visitar, o tornou 
suspeito & reacQao catholica suscitada por Car- 
los Y centra Erasmo, e foi elle uma das pri- 
meiras victimas da monopolisa^ao do ansino 
pelos Jesuitas, sondo fechada por ordem regia 
a sua eschola em Evora. Gabe a André de Re- 
sende, a gloria de ter formado o nome patro- 
nymico de Luaiadas^ com que Camoes, conhe- 
cedor dos estudos da archeologia classica in- 
titulou a Epopèa nacional. Um dos maiores 
discipulos de André de Resende, Achilles Es- 
tago, nascido em 1524 e falecido em 1581, 
periodo que abrange toda a vida de Camoes» 
preferìndo & carreira das armas a das lettras, 
frequentou Louvayna, a Universidade de Pa- 



^ No Nobiliario de Alao de Moraes, vem apontado 
dré de Resende comò filho de André Vaz de Resen- 
> residente em Evora e de Leonor Vaz de Goes. No 
1 testamento de 1 de Dezembro de 1573, declara que 
tempo qne o fazia contava sessenta e sete annos. 



DA LITTERATCRA PjaTUOrE 



rìs, e em Flandres terminou os seus estudoB 
philologicos. Regeu urna cadeira na Universi- 
dade da Sapìencia de Roma; blbliotbecario 

; da Livraria maauscripta do Cardeal Sforza, 

■-■ Pio IV o nomeou eecretario do Concilio de 

[' Trento, de que se excuaou, e Pio v o tomou 

[, para seu secretano dae cartas latinas dtrigi- 

^. das a reis e principee. Dom Sebastiào e o 

I Cardeal Dom Henrique o convidaram para 

\. ser seu secretario; preferiu ficar em Roma 

;, commentando os textoa de Cicero, Iloracio, 

: Catullo, Tibullo, CaUimaobo, e traduzindo as 

'f obras dos Padres da Egreja que eacrereram 

[ em grego. Maitos outros bumaniatas portu- 

il guezes ficaram na Italia, naa escbolas de Me- 

[ dicina e Direito, que eram animadas do mes- 

' mo espirilo de erudiQào claesica. 
r Na Renaacen^a italiana n3o fòram os por- 

l tuguezes meros discipuloa; figuram tambem 

^ comò cooperadores. O Cardeal D. Miguel 

^ da Silva, embaixador de D. Manoel e D. 

[ Joào III, grande amigo do Cardeal Farnese, 

^ (Paulo III) foi ppotector do desen voi vi mento 

t da typographia grega em Roma; ahi impri- 

l miu Zacharias Calliergi em 1615 oa Idyìios 

; de Tbeocrilo, e ao dedicar a D. Miguel da 
Silva a sua edigào De Atticey vocibus gra&- 

i ce, declara quanto fora por elle pecuniaria- 

^ mente auxilìado pelo multo aprégo que dS fi 

' lìtteratura grega; n'este mesmo livro o huma- 

l nista Lactancio Tolomei, endere<;ou-lhe em 

\ versos escriptos em lingua grega um calo- 

i roso elogio. Por causa de ter recebido 

% barrete cardinalicio, malquistou-se com Doi 

[ JoSo HI, que the tirou o bispado de Viseu ; 

[ Carlos V, para comprazer com o cunhado n3> 




\ 



GAMÒES — EPOCA, TIDA E OBRA 81 

o quiz receber corno Legado a latore. ^ Mui- 
t08 portuguezes deixaram nome nas escholas 
e Univeraidades de Italia, na Medicina e Ju- 
risprudencia, quo ensinaram; em 1505 prò- 
fesaava em Padua direito civil Jeremias por- 
togaez, citado com louvor por Facciolati ; em 
Matiiematica brilhou em Roma Rodrigo, que 
faleceu da peate que succedeu ao Saque de 
Roma em 1527; Martinho de Figueiredo, au- 
etor de nm Commentario a Historia naturai 
de Plinio, de 1529, distingue-se na Univ^ersi- 
dade de Bolonha, segundo af firma o seu con* 
temporaneo Hermigio Gaiado ; Gaspar Lusita- 
no regenta em Pisa, por 1550; Thomé Gor- 
r5a professa letras humanas em Palermo e 
successivamente em Roma e em Bolonha de 
1586 a 1595, em que faleceu. JoSo Yaz Gas- 
tello Branco substitue Moreto na cadeira de 
Rhetorica, na Sapientia romana; e Diogo Pi- 
res, que se correspondia coni Erasmo, era 
recommendado pelo cardeal Roberto Nobili 
corno e un gran poeta e gran letterato greco 
e latino.^ A realeza, que favorecia a paixao 
dos estudos humanistas, a ponto de Dom Ma- 
nosi n&o admittir ao serviQO do pago quem 
nSo appresentasse certidSo de ter estudado 
latim, * come<^u a considerar perigosos esses 
conhecimentos e a desestimar os eruditos que 



^ Frei Fortanato de San Boaventura, Litteraios 
portuguezes em Italia, p. 106. (Ed. Farla.) 

' Carta de D. Manoel de 22 de Janeiro de 1500, 
p "a qne nenhnm mo^o fidalgo seja apontado nem paga 
8 i moradia sem a cerddio do mestre de Grammatica. 
( ovas da Hist. Genealogica, t. n, p. 881.) 



estudaram fora de Portugal. De Hermi^o 
Caiado. escreve Barbosa, que tendo florescì- 
do em Bolonha ne j'urisprudencìa, ao ser pre- 
tendo em Fortugal em logares da magisb'a- 
tura, morrera de desgosto em Bemfica. Seria 
eata desestima que motivaria o deixaren 
fìoar tantoB portuguezes no estrangeiro 
epoca da Kenascen^a; pelas queixas de 
dré de Resende, na Oratio prò rostris, infi 
se isso. Dom JoSo iii convidou Paulo Jo 
para escrever em latim a Historia de Poi 
gal, ao que obeerva Fr. Fortunato de E 
Boaventura: «quando Ihe bastarla André 
Kesende, cujo estylo e correo^ao de liog 
gem se avantaja muito & de Paulo Jovit 
j& n'esses dias Jeronymo Osorio mui dig 
mente poderia encarregar-se da mesma 
refa.» * 

No Humanismo francez, o Collegio 
Santa Barbara foi um fòco da mais iute 
cultura bumanista, dirìgìdo peloa celebres 
dagogistas portuguezes Diogo de Goui 
seu sobrinho André de Gouvèa, e Diogo 
GouTèa o novo; d'esse Collegio sahìrain 
grandes humanistas francezes, corno Re 
lais; Montaigne foi discipulo de André 
GouvSa no Collegio de Bordéos, chamai 
Ihe noe seue Ensaios le plus grand Princi 
de France. Diego de Gouvèa, o velbo, foi 
numero dos estudantes de El-rei, qua 
subsidiados estudar para Paris; tornou^se 
lebre pela sua atilada dìrec^So do CollegÌ< 



CAHOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 88 

Santa Barbara. Recommendou a Dom Joao lu 
qne pedisse a Ignacio de Loyola, que fora 
seu discipulo, para que Ihe envìasse alguns 
do8 seus associ adoB para missionarem na In- 
dia. Um dos padres foi Francisco Xavier, de- 
nominado o Apostolo das Indias. Diogo de 
Gouvéa veiu morrer em Portugal de prove- 
età edade em 1557, deixando um tratado ma^ 
nascripto contra Luthero. O sobrinho Diogo 
de Gouvéa, o moQO, foi nomeado por Dom 
JoSo in theologo para o Concilio de Trento, 
em 29 de Septembro de 1551. André de Gou- 
véa, Antonio de Gouvéa e Marcai de Gouvéa 
féram estudar na Persia sob a direc^ao do 
velho tio; André ficou o Principal do Colle- 
io de Santa Barbara, sondo em 1534 chama* 
para reformar o Collegio de Guienne, que 
elevou ao maximo 'esplendor. Na Refórma 
dos estudos humanistas em Portugal, Dom 
JoSo III chamou a Mestre André de Gouvéa 
em 1545 para vir fundar o Collegio Real; 
grandes desgostos, pelas intrigas jesuiticas Ihe 
precipitaram a morte em 9 de Junho de 1548, 
vindo o Collegio Real, jà sob o principalato 
de Diogo de Teive, a ser entregue aos Jesui- 
tas em 1555, que o transformaram no Colle' 
gio das Artes, de Coimbra, d'onde fizeram a 
base dos assaltos contra a Universidade. An- 
tonio de Gouvéa tornou-se o celebre juriscon- 
snlto bumanista, admirado por Cuiacio e me- 
morado pelo triumpho sobre Pedro Ramus 
pela defeza de Aristoteles ; além dos seus com- 
mentarios juridicos, commentou Cicero, Virgi- 
lio e Terencìo, com recensao dos textos. Margal 
de Gouvéa, com nao menor merecimento, fi- 
cr 1 na sombra depois do occaso das letras hu- 



t 



84 HIBTORIA DA LITTEBA.TURA POBTirQI 

manas aob os Jesuitas. * O bispo D. Antonio 
Pinheìro regeu urna cadeira de Rhetorìca, em 
Paris, e esoreveu um oommentarìo &s Insti- 
tuÌQÒ68 de Quintiliano, applaudido pelos eru- 
ditos contemporaneoB. De Paria é chamado 
Ignacio de Moraes, por carta de D. Jo3o in 
de 21 de Janeiro de 1541 para vir reger a 
oadeira de Grammatica em Coimbra; e f oi-Ihe 
confiado o encargo de l§r n'essa UniTersida- 
de uma cadeira de Poesia. Era de Poesia la- 
tina qua se tratava ; sendo Ignacio de Moraes 
admirado pelos principaea humanistas coévo*- 
como Jeronymo Gardoso, André de Kesend 
Antonio de Cabedo, Pedro Sanches e Mano 
da Costa. — «Foi multo cresoido o numei 
dos nossos poetas que eecreveram em latin 
basta dizer que na Carta de Pedro Sanchi 
a Ignacio de Moraes, onde se tece um catal 
go dos nossoa Poetas latinos, chegam esb 
ao numero de cincoenta e nove, e é de orj 
que fdssem muìtos mais, visto qun aqueli 
carta achou-se mutilada, e assim se estao 
pou." " Toda està phalange de humanlsfa 
que formavam o Collegio de Mestre Andi 
foi denuncìada fi InquisigSo pelos Jesuitai 
dispersando uns, Guerente, Elie Vinet, A: 
naud Fabricio, e outros prezos pelo Sani 



1 Ja em 1624 um Fedro Fernandea, de Evora, j 
figarava em Paris corno um eminente professor de U- j 
tlm. (Barbosa, Bibl. lua., ui, 676.) Parece que os Gou- j 
véas recrutavam o seu corpo docente entre os forr"' * 
erudìtoB de Evora. 

■ Fr. FortuDato de San Boaventara, Op. à 

p. se. 



r^ 



CAMOE8 — EFOCA, VIDA B OBBA 85 

Officio e processa dos, corno Bucchaiiam, Dio- 
go de Teìve e o Dr. Jo9o da Costa. O jesui- 
tismo fora organisado por um alumno do Col- 
legio de Santa Barbara; ahi os Gouvèas crea- 
ram a vìbora que veiu destruir em Portugal 
a sna feconda disciplina pedagogica. ^ 

O Humanismo allemào é representado na 
Renascenga portugneza por DamiSo de Goes, 
a quem se póde applicar està fina obser- 
vaQao de Edgar Quinet, que os grandes es- 
criptores e poetas do seculo xvi sSo extraor- 
dìnarios homens de acQao. Nascido em Feve- 
reiro de 1502, corno o declara no processo 
inquisitorial a que foi submettido aos setenta 
annos, andou desde 1523 occupado em labo- 
rìosas missoes diplomaticas ; viajou por toda a 
Europa, percorrendo oom espirito curioso e 
ivido de se instruir os Paizes Baixos, a Di- 
namarca. Succia, Noruega, Polonia, Russia, 
AHemanha, Snissa, Italia e Franca. D'essas 
terras mandava informaQSes e obras artìsti- 
cas, e adquiriu seguro conhecimento dos inte- 
resses poUticos que se estavam coordenando 
em um novo equilibrio europeu, que Ihe dà o 
rel§vo da sua Chroniea do rei D. Manosi. 
Fixou a residencia em Anvers, e pela pai- 
xSo dos estudos humanistas recusou o impor- 
tante cargo da Thezouraria da Casa da In- 
dia. As suas relaQdes inteUectuaes alargaram- 
se, com OS principaes sabios e artistas da 
Penascenga, principalmente com Erasmo, de 



^ Todo este quadro do Humanismo francez em 
] >rtagral eatfi largamente tratado na Historia da Unir 
1 -^Made de Caimbra, 1. 1 : O Collegio Real. 



9m foì hospede durante quatro mezes e 
D quem conservou urna correspondenda 
aiDoea. Olào Magous, Joannes MagnuB, o 
ìsta Glarean, o cardeal Sadoleto, Bembo e 
ulo III, Melanchton e Luthero, trataram-o 
n egualdade, no conflicto das ideias, na 
ase aìnda nio intransigente da Refórma; 

1531 ouvia Pomeranus em Lubeck, e con- 
TSava oom Luthero em Dantzic; as questdes 
tologicBB o fizeram permanecer em Loavain 
re mezes, sendo chamado por D. JoSo in 
i'ortugal em 1534. As cartas que Ihe dirìgi* 
aemo proTooaram-lhe a saudade d'essa vida 
elLectual, voltando & Àllemanha em 1535, 
ra ir em seguida completar os seus estudos 
Universidade de Padua. D'aqui partìu Da- 
So de Góes para ir essietir aos ultimoa mo- 
ntos de Erasmo. Voltou para Loavain 
de se casou, com Joanna de Hargen, en- 
gando-se aos seus trabalhoa litterarios. E' 
t3o que publìca em 1541 o seu livro, Fi- 
ì, Religio et Mores Aetiopum, dedicado ao 
pa Paulo III. Em Portugal entendeu o Gar- 
al-Infante Dom Henrique, Inquisidor goral, 
shibir esse livro: «Por ser cà ordenado que 
livros novoB que vierem de fora primeiro 
e se Tendam sejam vistos por um ofFicial 

Santa InquieicSo.» Por este documento 
e estfi no processo do Chronista, se v@ que 
:ardeal D. Henrique, o discipulo do huma- 
ita Clenardo, estabeleceu a Censura littera- 
, tendo mandado formar um catalogo dos 
?ros prohibidos, Rol dos Livros por ette 
fesos, que se publicou em li de Julho de 
41, e se repetiu ampliado em 1661, 1664, 
82, deturpando todas as obraa doa nossos 



r 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBEA 87 



Quinhentìstas, que fdram dadas & estampa 
depois quOt corno esoreve o poeta Dr. Anto- 
nio Ferreira na Carta m : 



Escaro e triste foi aquelle dia 

Que ao saber e valor ho juiz foi dado, 

Que nunca ao claro sol olhos abria. 



Conciliando a vida especulativa com a acti- 
Tidade, distìnguiu-se Damiao de Goes dirigin- 
do 08 estudantes na defeza de Louvain, que 
estava sitiada. Em 1545 Dom Joào iii, vendo a 
importancia com que é considerado, ohama-o a 
Portugal para Ihe confiar a educaQào do prin- 
eepe Dom Jo9o, unico filho sobrevivente e 
eea herdeiro. E' entfio que a intriga viperi- 
na do jesuita P.« SimSo Eodrigues o afasta 
d'essa missao pedagogica, alarmando a con- 
sdeneia do monarcha nfio ]& pelo seu eros- 
mismo, mas por ter conversado com Luthero 
e Melanchton. Dom Joao in compensou-o com 
a nomea^o de guarda-mór da Torre do Tom- 
bo, e P.® Sim9o Hodrigues apresentou cen- 
tra elle urna denuncia secreta à Inquisigao, 
que surtiu o seu terrivel effeito depois da 
morte do rei. Foi bruscamente arrancado à 
ana familia em 1571, e arrojado ao carcere 
infecto da Inquisi^&o, onde em extremo des- 
oonforto» aos setenta annos, se viu coberto de 
aarna e ozagre. Q Cardeal D. Henrique, o que 
' mdeu Portugal aos Gastelhanos, comò diz 
* cantiga popular, mandou deturpar a sua 
ironica de D. Manoelf e depois de conde- 
nado corno heretico e lutherano a carcere 
Tpetuo em outubro de 1572, foi mandado 



88 BISTORIA DA UTTBBATURA POBTI 

para sua oasa, onde o aeharam morto myste* 
rìosamente em 30 de Janeiro de 1574. ^ A 
data de 1571, era que foi preso o ÌDsigne ha- 
manista, accusa a intenaidade do fanatismo, 
em que Philippe n e Pio v com a Republica 
de Veneza, formaram a Liga contra o poder 
ottomano; é aentenciado depois do triumpho 
de Lepanto em Agosto de 1572; a sua morte 
corresponde a esse furor sangrento da Saint 
Barthelemy, cuja matan^a foi celebrada em 
Portugal com Te Deum e lamìnariaB. 

Na sua revolta oontra a hierarchia catfao- 
tica, Lutfaero, que na Universidade de Erfnrt 
estudfira as lettras humanas em Cicero, Vir- 
gilio, Tito Livio e Plauto, nSo cessa de pro- 
clamar o seu deadem pela cultura hnmaniata, 
negando que elle seja um latino, um grata' 
matico ou meamo um ciceroniano. E comtu- 
do, o que apparece na sua polemica religio- 
sa, alludindo & hìstoria, & politica ou inrìs- 
prudencia, provém d'essas reroìnìsoenoiag claa- 
sioas. Sa a Refórma em rez de ficar reduzìda 
a birras de sacriatia, comò no prìnoipio a ca- 
racterisou Erasmo, exerceu acQ3o sodai, foi 
por esse espirito moderno, de dignidade civìl. 
de individualiamo harmonisado com a oonoor- 
dia humana renovada pelo renaaoimento da 
cultura greco-italica. LuÓiero, educado na phi- 
lOBopbia esobolastica e na dialectìca formalis- 



> Todos 08 materìasB para o conbeoìmetito ttisto- 
rico de DamiSo de Goes tèm sido publicados por Joa- 
quim de VasconcelloB, G. J. C. Henriques e Dr. Souaa 
Viterbo. 



r 



GAMOES — BPOOA, VIDA E OBBA 89 

ta, eonfundin este rìdo mantido nas polemicas 
theologicas oom as doutrinas de Aristateles, ao 
qaal chamaya no seu desdem monachal Ari- 
itidtog. O eapirito de rerolta cantra a dvilisa- 
9S0 hellenica leTava-o a atacar o sea mais alto 
representante philosophioo ; esse meemo r an- 
cor manifesta- se em Franca em Fedro Ra- 
mns, propondo-se snstentar a these: «Que 
tndo quanto disse Aristoteles fdram estulti- 
ees.i Gabe ao portnguez Antonio de Gouvéa a 
gloria de ter feito reconhecer perante a Uni- 
Tersidade de Paris a supremaeia mental de 
Aristoteles, separando os seus textos authenti- 
008 da Gonfusio dos commentarios e absurdas 
tpostillas dos aleicandrinos e dos arabes. A 
oomprehensSo da obra de Aristoteles tornou- 
se mais lucida & madida que foi prevalecendo 
a corrente sdentifioa da Renascen^a, conti- 
imando os pares sdentificos da Mathematica e 
Astronomia grega. Pela sua nulla educa^ao 
scientifica deblaterava Luthero especialmente 
contra a Meteorologia de Aristoteles, porque 
ahi formulare o principio — que tudo quanto se 
mamfesta na natureza provém de causas na- 
taraes. Luthero revoltava-se contra o princi- 
pio, porque para elle o arco-iris era o avìso 
de que estavamos livrea do perito de outro 
dOavio; que os oometas eram avisos aterra- 
dores da divindade ; os meteoros, dragoes vo- 
lantes produzidos por espiritos maleficos ; nas 
cdres do iris, o amarello era para recorda^So 
lo fogo no juizo final. Tudo isto se repetia, 
inquanto se elaborava a concepg&o positiva 
^0 mundo sobre os conhecimentos adquiridos 
elas Navega^Ses dos Portuguezes. Era pre- 
so que n'esse movimento de emancipa^So 



90 BISTOBIA DA UTTBRAT0RA PORTI 

das consciencias exiatisse um d 
que era posto em ac^ào meamo p 
des inconscientes. 

NSo foì pelo indiTidualismo gè 
se orìginou a Refórma, maB peli 
cismo de raqa emquanto ao set 
abstracQSo emquanto & iotelligc 
Gritnm, na sua Myihologia aller, 
no genio germanico em antagonìi 
cultura latina, a causa immanent 
tantiamo, que veiu a predominar 
mos teutonioos, Germanos, Scand 
glo-Sax5e8. Esse antagonismo di 
quanto ao espirito religioso d'ei 
dencia do genio da Ba^a, desoriF 
to, que considerava os templos 
doa deusea, conaagrando as fon 
daa floreatas e dos montes com 
adora^So para o seu sentimenta 
obra de Luthero, o sentimento di 
que o leva a certos rasgos qae 
rito philoBopbioo poderia ter; eli 
a dignidade do casamento e da 1 
pendo com o celibato olerioal, te 
corno um homem vìvendo pela 
despresa vivamente o monachisi] 
monia com o genio germanico, a 
terpretada allegoricamente conti 
das auctoridadea patrologioas. Li 
aa doutrinas mystìcaa comò Tal 
sando as obras e antepondo-lhes 
gundo San Paulo e Santo Agos 
gnidas no seculo xv por Jo3o Gerson, Huea, 
e Weaael de Groningue. Como Erasmo inter- 
preta a Biblia philologioamente corno um do- 
cumento, e assim os demaìs humaniatas, Lu- 



GAMOES — EPOOA, VIDA B OBRA 91 

HìBro detesta-o, seguindo o sentido allegorico e 
tropologico. N'este caprìcho da imagina<;So 
consistia o livre-exame da Refórma, conver- 
tendo a exegese em grammatical ou historica 
segundo a conveniencia. Na lucta da Egreja 
oontra o Protestantismo, sustentada pela Com- 
panbia de Jesus, toda a theologia da Graga 
effioaz foi atacada e substituida pela justifi- 
ca<^o pelas obrcLs^ (penitencias e indulgen- 
das) que se tomou a base da sua moral ac- 
eomodaticia. Para Luthero, a Graga merecia- 
86 pelo impulso intimo do individuo, salvan- 
do-se pela Fé ; Fides sola justi ficai. A alma 
germanica acordava no seu ethos para reve- 
larse comò nacionalidade ; a Kefórma, aban- 
donada por Carlos v pelo Acto de 26 de Maio 
de 1521, dà a vibragSo sentimental religiosa 
fts aspiraQoes do germanismo (separado do 
Imperialismo) inspirando os artistas, comò Lu- 
eas Granach, Albrecht Diirer, poetas corno 
Hans Sachs, o principal dos Maester Sangers^ 
e Ulne de Hutten, philosophos e humanistas 
corno Reuchlin e Melanchton. N'esta corrente 
creadora de revivescencia germanica, Luthe- 
re cria a prosa allema, na poderosa tradu- 
OQao da Biblia, e nos Goraes sacros dà o im- 
pulso para o desenvolvimento do Lied popu- 
lar que vinha dar expressao ao genio musical 
da Allemanha. A influencia da publicagao da 
Germania de Tacito, viera revelar à Allema- 
nha a consciencia da sua tradigào ethnica ; e na 
ucta entro o Sacerdocio e o Imperio, em que 
) nadonalismo e o espirito secular se accen- 
liam na elei^So de Carlos v pelos magnates 
BQtonicos, Hutten ve n'elle um Arminio, sym- 
iolisando as luctas da raga germanica contra 



A DA LnTBRATCRA POBTCQDEZA 

kllemanha da Refórma proseguia 
odo eagrandecimento nacional, e 
atrazou-se pelaB tremendas re- 
iperialismo de Carlos v. A dicta- 
chica funda-se na Europa do ae- 
lo estabelecimento dos Exereitos 
', organisagSo militar ìnventada 
s e oausa dos seue trlumphoe. 
!uropa, pelOB altos progreSBos in- 
emprezas economicas avanzava 
> do prestigio das fic(;òeB tfaeolo- 
rindo eapirito novo pela verifì- 
Brdades racionaes, db seus chefes 
etrogradavam S imitaQ3o do po- 
uia. 

3a na Inglaterra, que leva a dÌB- 
paraQSo da depeDdencia de Roma 
e vili, foi mais do que um arbi- 
lico, foi uma revela^So do nacio- 
a o genio germanico immanente 
)nia, repellìndo a aoctoridade ro- 
9ssa lucta, que se partìcularìsa 
spanha, (fòco da reac^So catholi- 
Brra torna-se uma potencia ante 
europeo; Shakespeare apparece 
these da alma britanica, a es- 
pleta do genio da nacionalidade 

ma da Refòrma em Hespanha e 
[>resenta um aspecto especìal ; no 
8 tres monarcbas Carlos y, Fran- 



, diante do brutal imperialiamo germa- 
k, notava que està nao era a Allemanha 



OAlidES — EPOCA, VIDA E OBRA 93 

eìsco I 6 Henrique viii disputam, na corren- 
te do bumanismo que domina todas as intel- 
ligencias, qual hade possuir a Erasmo nos 
aeus estados. Tambem Dom JoSo iii procura- 
va attrahir Erasmo a Portugal. Erasmo era 
visitado por hespanhoes e portuguezes corno 
Luiz Vives, Damiio de Goes e André de Re- 
sende; um louvor de Erasmo era um titulo 
de Buperioridade mental. 

À simples erudiQào dos Humanistas sob a 
inflaencia de Erasmo, conduzia fatalmente 
pela recensSo oritioa dos textos à sua inter- 
pretaoao critica doutrinaria, que provocava 
88 diBsìdendas theologicas. Era o primeiro 
passo para a Refórma da disciplina da Egre- 
ja, CU] a necessidade era reconhecida pelos es- 
piritos orthodoxos. Essa aspiragào a urna Re- 
fórma manifestar a- se no seculo xv, nos Con- 
cilios de Pisa, de Constanga e Basilea, assem- 
Ueias constituintes da soberania papal, com 
08 poderes plenos de alterar as bases dogma- 
ticas da religiSo. Os Papas pozeram-se em 
antagonismo oom os Concilios, impondo a sua 
soberania acima dos seus poderes constituin- 
tes, e procedendo comò princepes temporaes 
na Vida luxuosa e desenvolta. O espirito da 
Befórma, que visava a disciplina, exacerbou- 
se com as dissipacoes da córte romana, e no 
principio do seculo xvi visou directamente a 
hierarchia ou o proprio pontificado. Reclama- 
se de toda a parte um Concilio; os Papas il- 
udem em quanto pódem essa reclamagào, que 
'eiu a ser attendida na convocaQ3o do Con- 
ilio de Trento. Escrevia Edgar Quinet: «No 
itervallo de duas gera^des a Refórma explo- 
iu, nSo comò um rumor surdo, uma censu* 



DA LITTERATDRA PORTOQOBZA 

n'uma bcìb3o estrondoBa, trium- 
:te rompeu com o Meio Dia; a 
1-86; precisando reunir forgas 
-se, d'este momoDto em diante 
<}&o do Catholicismo amea<;ado 
jela surpreza ; ... » (Rev. d' Ita- 
momento da Refórma foi de- 
Heapanha pelo Erasmismo ; as 
ide humanista fòram eapalba- 
inha por Luiz Vivea, que fra- 
i'aris OS curBos de pbilosophia, 
B pesBoalmente com EraBmo em 
tituindo eilt3o com Budeus o 
irato do HumaniBmo. A leitura 
)s facilitada ao vulgo pelaa tra- 
xto grego, com commentarìos, 
espiritoa meditatìvoB a critica, 
do padre cessava ante o cren- 
ja effusSo religiosa avanzava 
is da reTelaf;3o. Os Erasmistas 
Luthero, seguiam a auctorida- 
ira. O celebre Nebrija, renova- 
.08 philologicos em Heapanha, 
i lettura dos livros sagrados 
t acabar com o acfaolasticismo 
; era o amìgo intimo de Àyres 
liversidade de Salamanca. Cha- 
tanistas eatea humanistas que 
)ztìrpB<;3o doB abusoa na Egre- 
e revoltarem contra Roma, es- 
tà naturai relaqSo entre a Re- 
ftefórma. A influencìa de Eraa- 
ida por Alfonso de Valdez, re- 
re oontra aB doutrinas de Lu- 
e Valdez, seu irm3o, que fOra 



OAMÒES — EPOOA, VIDA E OBRA 95 

espulso de Hespanha pelo seu mysticismo re- 
formador, por 1530 fixou a residencia em 
Napoles, onde exerceu um enorme influxo 
n'esta fórma de agitagSo religiosa. Ainda em 
Hespanha. publicou o seu Dialogo entre Mer- 
curio e Caronte (ediQSo sem data) sobre o 
qual Gii Vicente compoz em fórma dramatìca 
o Auto da Barca do Inferno^ representado 
na córte portugueza em 1517; ahi diz um 
personagem, quando entra para a Barca e 
Té um fidalgo n'ella : 

Sancta Joanna de Valdez, 
Ga he yossa Senhoria. 

(Db., I, 223.) 

E tambem o Gompanheiro do Diabo, refe- 
rindo-se & alcoviteira Brisìda Vaz : 

Diz qae nao bade vir cà 
Sem Joanna de Valdez. 

(Ih., p. 231.) 

No Auto da Feira ataca Gii Vicente a si- 
monia da Córte de Roma causticamente, o 
que leva a inferir o sentido ironico com que 
alludia ao mysticismo reformador de Joao de 
Valdez. Essa corrente mystica, que vinha do 
secalo XY. chegou a organisar-se em Italia. 
No meio das pompas sensuaes de que se cer- 
eou LeSo x, favorecendo a paixSo pelas obras 
irtisticas do paganismo e um scepticismo mun- 
lano, algumas dezenas de padres conspicuos 
le reuniam na egre j a de S. Sulpicio e Doro- 
théa, formando espontaneamente uma Asso- 
ia^ào intitulada Oratorio do Amor divino y 



tlSTOBU DA UTTERATURA FOBTDSnE 

ido entre bì aobre a doutrìna _ 

soutìda peloa humanistas. CaraccÌ<no, 
ho de Paulo it, falla d'està tentatÌTa 
[ de regenera93o christi, eemelhante 
leiraB aspira^òes protestantes. E* nor- 
r OS grandes espirìtos da Renascenga 
tarem-se catbolicoa, os humanistas pela 
irancia, os poetas pelo idealismo neo- 
io, considerando o bello nm dogma 
ado & fé. N'esta identidade de emo- 
contram-se cardeaes, comò Bembo e 
0; artistas, comò Baphael e Miguel 
; poetas, corno Sanazzaro, Sa de Mi- 
Camòes e Tasso. E nSo 6 para admì- 
I nas auas obraa empreguem na mes- 
alisa^So os Symbolos do Paganismo 
!sadoB com os do Christianismo. Pom- 
Montaigne, Erasmo e Scaligero, pela 
humaniata attingiam um estado moral 
ancia diente d&s questóes theologìcas, 
ido-se pelo seu indifferentismo mais 

do que aquelles que proclamavam a 
a. E eaae indifferentismo fomentava a 
incìa da Egreja petoa estudos da Au- 
le pag3. A separaQ^o brusca (jue se 

dentro do GathoUciamo nào foi tanto 
BOB Protestantes, sacrificados por Car- 
que queria a sagra^ao imperiai de 
maa principalmente ao implacavellfa- 
10 heapanhol, que Ignacio de Loyola 
sterna da rancorosa perfidia da Com- 
de Jesus, moditioou n'eata fórma mais 
anea com o tempo, que as hecatomhes 
[uemada. Emquanto]o Protestantismo 
va regreasar às tórm&a do Christlanis- 
aitivo, a Egreja de Roma defenden-se 



wr^^~ 



CAM5e3 — EPOCA, VIDA E OBRA 97 

pela reacQio sangrenta das Guerras de Re- 
ligiao, destruindo todo o esplendor da Re- 
nascen^a, e coUigando contra o espirito mo- 
derno as Monarchias absolutas da Hespanha 
e da Franga. 

No canto vii dos Lusiadas, corno em urna 
introducgao à chegada da armada de Vasco 
da Gama a Calecut» descreve Camoes o està- 
do politico da Europa no periodo mais vio- 
lento das luctas da Refórma, correspondendo 
ao momento em que o poeta esorevia. Urna 
ma comprehensSo historica d'essas estancias 
do poema tem querido vèr em Camoes um es- 
pirilo em antinomia com a Refórma. Como 
nm humanista culto e inspirado, elle, comò os 
grandes humanistas italianos» nao carecia se- 
pararse da Egreja para apoiar uma renas- 
cenga christa f undada na justificagào pela Fé. 
No Soneto 236 vem à fòrmula nitida do ro- 
manismo de JoSo de Valdés, que nos define 

seu sentimento religioso : 

Coasas ha hi que passam sem ser crìdas, 
E coasas cridas ha sem ser passadas ; 
Mas, o melhor de itido é crér em Christo. 

Quando Camoes se achava no fulgor do 
talento, vulgarisouse o lìvro de JoSo de Val- 
défl Alphabeto christiano, impresso na Italia 
em 1646; n'esse eloquente dialogo escripto 
pra Giulia Gonzaga, duqueza de Trajetto, 

1 Ida toda a disciplina religiosa no amor de 

< tristo. Pela renuncla ao mundo e pela luz 

< consciencìa» cbega-se ao amor de Christo: 

< perfei«So christa n&o consiste nas obras, 

< ) sSo a consequencia e nSo a causa da jus- 



n 



■ORIA DA LITTEBATHRA POETCGnEZA 

consiste inteiramente no amor de 
ihristo é a via real da salva^So. — 
Deus por Christo, eie todo o Chris- 
Era està doutrina seguida por va- 
res franciscanos e augustlnìanos e 
jUos da Italia; na sociedade napo- 
2;uiam com enttiuziaumo a doutrina 
I, a Diiqueza do Camerino, Isabd 
irmà do Inquisidor-mór Manrique, 
de Sevilha, Victoria Colonna, Giù- 
73. Ligava-se està aspiraQào religio- 
corrente dos grandes mysticoa do 
, renovada pelo idealismo e emonio 
a Renascen^a. Depois da morte de 
1 1541, as perseguiQÒes da Inquisi- 
m a dispersao doB seus dìscipulos, 
ido-se da Italia e outros morrendo 
ra. E' a essa nova phase de lucta 
da pela influencìa hespanhola, que 
a se tornou politica e um assalto 
ma, destacando o conflicto inconci- 
re o Germanismo e o Komanismo. 
[rito da Renascen<;a, e na sua aspi- 
lanìsta, nao podia CamÒes ter sym- 
la Refórma tal comò se mostrava 
na Allemanha e na loglaterra, ten- 
manifestado comò um trìumpho do 



OS AllemJes, soberbo gado, 

or t3o largos campos se apascenta, 

ccessor de Fedro rebetado, 

pastor e nova seita inventa. 

o eni feias guerrae occupado, 

inda co'o cego error se nào contenta) 

antra o aoberbìssimo Othomano, 

>or sahìr do jugo soberano. 



h 




CAMÒES — BPOOA, VIDA E OBRA 99 



Védel-o darò Inolez, que se nomèa 
Rei da veiha e santiBsima Cidade, 
Que o torpe Ismaelita senhoréa, 
(Quem viu honra tao longe da verdade !) 
Entre as boreaes neves se recréa ; 
Nova maneira f az de Chrìstandade : 
Para os de Christo tem a espada nùa, 
Nào por tornar a terra que era sua. 



Pois de ti, Gallo indigno, que direi ? 
Que o nome Cbristianissimo quizeste, 
Nao para defendel-o nem guardal-o, 
Mas para ser contra eilc e derribal-o! 

Achas que tens direito em senhorios 

De Christaos, sendo o teu tao largo e tanto. 



Pois que direi d'aquelles que em delicias 
Que o vii ocio do mundo traz comsigo, 
Gastam as vidas, logram as divicias, 
Esquecidos do seu valor antigo ? 
Nascem da tyrannia inimicicias, 
Que o povo forte tem de si inimigo ; 
ComtigOy Italia, fallo, jà submersa 
Em vicios mil e de ti mesmo adversa. 

(Lus,, VII, st, 4 a 8.) 



Camdes verberava a segunda phase da 
Refórma, corno a deturpara a politica impe- 
riai e monarchica nos paizes catholicos, in- 
conciliaveia nas suas ambigoes, e incapazes 
de se collìgarem contra o poder medonho dos 
'' ireos. O papa Adriano, ainda em 1522 em 

■da mensagem ao Reichstag de Nuremberg, 
< igindo a repressSo contra os Lutheranos, 
' afessava a dissoluQ&o da Curia romana, e 

)metteu a extirpaQSo dos abusos. Foi im- 

tente o papa, para realisar a Refórma pa- 



citica aentro aa f^greja; e aesae que a ta- 
c?8o jesuitica ou hespanhola se constiti '" 
Paulo in preparou a sua maioria parlam 
tar do epiBCopado, e convocou o Concilio p 
Trento. Os Jesuitaa o dirigiram e ahi se f 
ram valer. Escreve Qainet: «Em frente 
Befórma, a Egreja catholica recuou par 
Edade mèdia deliberadamente, e o Conc 
de Trento foi a expreesao d'està reaoQ9o a] 
xonada e cega. Em logar dos papas meio ] 
losophoB que iniciaram a Renascen^a, ap 
recem papas inquisidores, que evocam a Si 
Barthelemy.* ' De facto a um Le3o x sn< 
dem OS Adriano vi, os doìk Paulos ni e 
Sixto V, Clemente viii. Pio T, ex-inquisic 
proclama em 1556 a bulla In Coena Domi 
declarando o Papa supremo Senhor do 
der espìritual e do temporal sobre os rei 
princepes. Era a rèplica & elimina(;ào da h 
archia pontificai na Atlemanha e na lof 
terra. IIIus3o perturbadora, porque o Sa 
Imperio, que designava a theocracia pò 
ficai romana, assimillou-se ao germanis 
imperialista de Carlos v, que abandonoi 
BefÓrma fallando ao espirito secular da i 
eleicao pelos magnates teutonicos. Philipp: 
continuando o plano imperialista do pae, f 
ve-se da forte disciplina inquisitorial da É$ 
ja para cimentar o seu poder introduzind 
InquisiQSo nos Paizes Batxoe. A educa< 
publica na Allemanha ó entregue aos Jei 
tas, que estabeleoem os seus Collegios ero 
golstadt. Colonia, Praga e Vienna. Vìnb 



Quinet, RevolìOiotu d'Itaìie, p. 413. 



r' 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 101 

atacar toda a vitalidade da RenascenQa pre- 
Tertendo o humanismo.. Noa humaDistas ca- 
tiiolicos da phase sincera, a cultura litterarìa 
subordinava as suas cren<;^as religiosas ao 
bom senso ou predominio de urna rasào eia* 
ra, nào se langando em exaltaQoes de um do- 
gmatismo imaginoso de exegetica sobre os 
textos hebraicos e gregos da Biblia. Observa 
Jales Soury: «Esses bumanistas nào eram, 
comò Luthero, homens de fé e de acgao ; or- 
thodoxos eruditos, prelados ciceronianos e 
philosophos» eram incomparavelmente mais 
instruidos e mais livres de todos os precon- 
oeitoa eoclesiasticos. Foi precisamente està 
largueza de espirito, e estes refinamentos de 
instrucQao, que os impediram de reagir con- 
tra a Egreja.» N'esta corrente é que se edu- 
cou Gamoes, ao qual a reacgào violenta tanto 
Ihe repngnava no campo protestante (AUe- 
manha e Inglaterra) comò no campo catholi- 
OD, (Franga e Italia) comò se ve nas estrophes 
dos Lusiadas. Gamoes imprimiu o seu poe- 
ma quando jà o humanismo da Renasoenga 
eslava monopolisado pelos Jesuitas no ensino 
dos seus Gc^egios, e deturpado no gosto in- 
sulso da sua rhetorica fria. 

O syncretìsmo da mythologia paga com 
as syoAbolisagoes do ohristìanismo, que appa* 
race no poema de Gamoes e nos poetas da 
seganda metade do seoulo xvi, taes comò 
Tasso (discipulo dos Jesuitas) Lope de Vega 
i Cervantes» é oonsiderado corno consequen- 
( i d'està deolinagào da Renascenga, em que 

< i imposta a censura ecclesiastica, e deter- 
1 aadas imagens para excluirem o emprego 

< '^ entìdades polytheicas. Escreve Tobias 



aiSTORIA DA LITTPRATCHA PORTU 



Barreto: ta reac(;So catholica tevu lsiuiu«ui u 
effeìto de acabar com o espìrito da Kenaseen- 
^a. Os grandes Poetaa do tempo de CamÒeB, 
TasBO, Cervantes, Lope de Vega, prestam-ee 
bem ao eBtudo d'este phenomeso. N'elles se 
observa comò qua o processo de transfonna- 
Qào do espirito de urna epoca, da mythologia 
paga na mythologia christ3. Sem fallar na 
bem conhecida interven^So de Yenue em prol 
dos propugnadores da cruz, cabe aquì reoor- 
dar que na Galatéa de CervanteB. na Arca- 
dia de Lope de Vega, oa templos dos Deuees 
e OS clauatros apparecem ao lado una dos ou- 
tros. — A intuigSo da con tra Refórma so che- 
ga a tazer-se completamente valer em Calde- 
ron, urna gera^So depois de Cervantes.» 

Carlos V e Philippe ii fundaram a sua po- 
litica imperialista servindo-se dos dois instru- 
mentos da Egreja, Inquisi^So e Companhia 
de Jesus, para o engran decimento da Casa 
de Austria. A reacgào catholica contra a so- 
ciedade civil e o individualismo da Refórma, 
disciplìnada no Concìlio de Trento, dissolve a 
RenasceuQa pela chateza da educaij&o cu in- 
terTen<;§o pedagogica dos Jesuitas, e pelo ata- 
que ao pensamento na Censura ecclesiastica. 
Èssa tristeza para que pende o alegre e vigo- 
roso Seculo XVI no seu sensualismo artistico, 
sentiram-na em Portugal Sa de Miranda 'e 
Csmòes, na ItaHa Miguel Angelo, e na AUe- 
manha Alberto Dùrer, aynthetisando-a no seu 
quadro da Melancholia. CamOes termina a' 
Epopèa nacional com essa nota realista do 
occaso da grande època, e resumé toda a de- 
cadencia de Portugal em: <Uma austera, apa- 
gada e vii tristeza.* 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 103 

A Renascen^a da tolerancia dos humanis- 
tas affundava-se nas Guerras de Heligiào; a 
admirafào dos bellos modelos da Litteratura 
classica apagava-se ante os ouropeis da falsa 
rhetorica dos Jesuitas; as ordens architecto- 
nicas gregas deturpavam-fìe com o baroco. E 
corno a toda a elabara^ào das ìdeias corre- 
sponde um movimento social acompanhado de 
effeitos politicos, a essa dissolugao do poder 
espiritual ante as novas concepgoes da natu- 
reza e da bistoria, contrap6z-se urna concen- 
tragao do poder temporal na fórma do impe- 
rialismo, que estabelecia um novo equilibrio 
europea. À fixaQào do imperio Othomano, 
aiargandO"Se por todo o Mediterraneo, e a 
qaeda da importancia commercial de Veneza, 
pela passagem do Gabo da Boa Esperanga 
às Indias orientaes pelos Portuguezes, des- 
moronaram o velho equilibrio dos està dos da 
Europa; a situagao de Hespanha sob Gar- 
los y, pelo seu seu fanatismo catholico e pela 
necessidade de resistencia contra o poder dos 
Turcos, deu ao chef e da Gasa de Austria to- 
das as condigòes para encarnar em si as duas 
tradi(;des do Santo Imperio romano com o 
Imperio germanico. Garlos v, visando a com- 
pletar a unidade iberica, realisada pela fusào 
de Castella e Aragao, com a incorporagao de 
Portugal por melo de casamentos reaes, de- 
sposoa urna filha do rei D. Manoel, e mais 
tarde o principe Philippe, que foi o ii, com a 
priuceza D. Maria, filha de Dom Joao iii. 
^ D laQO commum os aproximava: o exagera- 
( fanatismo, que o proprio Garlos v estimu- 
I ra na familia real portugueza, provocando 
( T D. Joao III OS esfor<;os para o estabeleci- 



HI8TOR1A DA UTTEBATORA PORTUGOEZA 

to da InquisÌQ3o em Fortugal; foi tam- 
o Geral hespanhol, FraDCÌsoo de Borja 
veiu secretamente a Portugal tratar do 
mento de D. Carlos, princepe herdeiro no 
do falecimento do recem-nascido D. Se- 
i3o. TodaB ae energias heroicas do cara- 
portuguez estavam empenhadas na fixa- 
do nosBO domiDÌo orientai, e o commercio 
um inonopolio do poder real, que trafica- 
)or fórma directa e exclueiva. Todas ea- 
riquezas tornaram-se um maio de corru- 
I, Buscìtando a avìdez dos confiacos peloa 
esaos inquisitoriaes, e as funda^ea de 
leiros e dotaQoes opulentaa de mil reli- 
OS diligentes. corno os retrata Camóes em 
verso immortal. A lucta contra o Protea- 
smo, e a necessidade de combater o des- 
ilvimento da marinha doa Turcos, que se 
aram senhores das costas da Grecia, Si- 
< Africa, e tornado Chypre aos Venezianos, 
alando as potencias occidentaes, levaram 
ippe li a tornar-se o cbefe da Santa Liga, 
ampanha contra os Turcos e das reacQÒes 
Qlicas sangrentas. O espirito de naciona- 
le e patriotismo portuguez tinha sido apa- 
) pelo castelhanismo da córte, e pela edu- 
o jesuitica de duas gera(;oes em quem 
'imiram a intransigencia catholica. Antes 
indar o grande seculo em que Portugal, 
> o princìpal impulsor da cÌTÌllsaQào mo- 
a, attingiu o maximo relévo das suas 
gias e capacidades ethnìcas, estava redu- 
sem vioiencia d condi^So de provincia 
tlhana. O sentimento da ra^a elevoa-se 
Terra Portucalense & fórma de Na^So 
irìca; o apagamento d'esse ìndividualis- 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 105 

mo ethnico pelo fanatismo hespanhol, absor- 
vea a nacionalidade no imperialismo caste- 
Ihano cu iberico. 

A grande vitalidade que se desenvolve na 
Hespanha na constituigSo das Nacionalida- 
des, no fim da Edade mèdia, manifesta-se em 
todo o sen esplendor no Estado Portucalen- 
se, erigindo-se em NaQao autonoma. Portugal 
oompetìu n'esse concnrso de uma civilisagSo 
nascente com a bella poesia dos Trovadores, 
com a liberdade civil e politica das Cartas de 
Forai, com a fundagSo da Universidade, com 

estabelecimento do Ministerio publico. E 
emquanto Portngal se conservou em antino- 
mia com Castella, chegou à consciencia nacio- 
nal e à missao historica dos Descobrimentos. 
A approxima^So politica de Castella, a come- 
Qar pelo casamento do filho-herdeiro de D. 
JoSo II, assignala um tremendo influxo de 
dissoluto. A Litteratnra inspirada pela vi- 
brasse d'essa actividade heroica, brilha em 
teda a època dos Quinhentistas, mas coinci- 
dindo com a marcha simultanea de uma ìrre- 
paravel decadencia da nacionalidade. A ap- 
proximaQao da c6rte castelhana descobre es- 
868 fermentos lethaes: a Hespanha està do- 
minada pelo fanatismo sanguinario da In- 
qnisiQSo, e os Reìs catholicos lisonjeando esse 
poder corno regimen policial, desvairados pe- 
las riqnezas da recente descoberta da Ameri- 
ca, vao demolindo com acinte as instituigoes 

< 18 franquias populares e apossam-se do de- 

1 k) da Monarchia universal na odiosa feigao 
I germanismo. O casamento austriaco, de 

< 9 Carlos V foi o producto, trouxe este espi- 
1 > de uma monarchia absorvente e exclusi- 



106 HISTOaiA DA LITTERATDRA FORTUO 

va ante a qual a liberdade politica foÌ elimi- 
nada e abafada a liberdade de consciencia. 
A està altura é que o rei D. Manoel ligando 
OS seus interesBea pesBOaes à unifica^So iberi- 
ca, realisada em parte por Fernando e Isa- 
bel, seus soi^ros, é envolvido nos planos ar- 
ditosoB de Carlos v, que trabalhava no seu 
imperialismo germanico para formar a Mo- 
narchia universal. Està vesania de megalo- 
mania real tambem atacou o rei D. Manoel, 
comò a Francisco i e a Henriqus viii. 

Pela renovagfio dos estudos da Aotiguìda- 
de classica, reappareceu nas doutrinas politi- 
c»s do seculo xvi esse sonho monstruoso da 
Monarchia universal. Comegara està ideia a 
lisongear os Jurisconsultos que no seculo xiil 
trabalhavam pela independencia do poder 
monarchico no conflicto do Sacerdocio e do 
Imperio. A Eschola de Bolonha sustentou 
pela primeira vez està utopìa do mundo antt- 
go, e Bendo abra^ada peios jurìstas Bulgarus, 
MartìnuB, Jacobus e Hugo, conheceram-se os 
Bcus effeitos pelo modo corno foi funesta & 
nacionalidade italiana. A Renascen^a do se- 
culo XVI avivara o typo politìcso da Antigui- 
dade — a unidade absoluta do Estado sob a 
fórma de Monarchia universal. Canonistas, 
philosophOB e poetas, dìssìdentes emquanto a 
tbeorias moraes ou artisticas, entendiam-se 
quanto a està face do novo problema social. 
Enéas Sylvius, que leve intimidade com o 
humaniBta portuguez Ayres Barbosa, nega o 
direito das nagòes a uma vida independeate, 
e diz que o Imperio é o Fapado na aua fórma 
tempora!; d'aqui deduzindo, que o imperador 
està aoima da lei, aendo um crime desobede- 



r^ 



CAMOES — EPOCA, VIDA B OBRA 107 

cer-lhe mesmo quando commette urna in j usti- 
<^. SSo tremendos os consectarios ; Bellarmino 
sostenta que «julgar conveniente mais do que 
QTD monarcha, é ir cahir no polytheismo.» 
Rabelais, o violento satirico do seculo xvi, 
ridicalarisou no Pantagruel a monomania da 
Monarchia universale descrevendo este so- 
nho da realeza: «sem resistencia elles toma- 
rào cidades, castellos, fortalezas. Em Bayo- 
na aprehendereis todos os navios, e costeando 
para a Galliza e Portugal, pilhareis todos os 
lo^ares maritimos até Lisboa, aonde tereis 
refòrQO de toda a equipagem requerida a um 
conquistador.» (Lìv. i, e, 33.) Se nao fòsse a 
Refórma, com o seu espirito individualista e 
depois nacionalista, Carlos v realisaria o so- 
nho da Monarchia universal, Segundo o lì- 
vro de Sleidan, De Quatuor summis Impe- 
riis, formava a Allemanha a quarta Potencia 
universal. Os sonhos da Monarchia univer- 
sal espalhavam-se entro o vulgo por melo de 
prophecias fabricadas com astucia e peias al- 
legorias apocalypticas applicadas ao poder 
dos Turcos. Escreve Bayle, apontando Car- 
los V comò um dos reis mais embevecidos 
n'este ideal cesarista: «Fizeram correr urna 
prophecia^ que promettia a este Imperador a 
derrota dos Francezes, a dos Turcos e a con- 
quista da Palestina. . .» Antonio Pontes, que 
em 1535 acompanhara Carlos v & expedigào 
de Tunis, consignou em uma relagào d'esse 
' 'to, que para augmentar a coragem dos sol- 
do8 se espalhou entre elles uma prophecia. 
està expedigào concorreu a aristocracia por- 
^eza com o Infante D. Luiz, que foi tam* 
m poeta, e o grande galeao portuguez San 



i^ 



HISTOBIA DA JJTTERATUHA POBTI 

quebrou as grossas corrente 
. entrada da armada na QoU 
epois da tomada de Tunis, 
:>880B expedìcionarioB viesse 
18, que se parecem pelo seu 
ovas messianicas do Banda..», »^uu». 
ites de 1541, e com ae que David Parens 
.Dziu no seu commento ao Apocalypse. 
ancisco i, eacrevendo a Paulo iii e re- 
endo a accusaqòes de Carlos v, dis: <0 
'ador ere que tal é o seu destino, e quer 
1 liberdade a todos, tanto aos seus amù 
omo aos inimigos e reinar sósinko no 
da dissolu<;ào universat.* Em 1539 o 
xador de FraQ(;a escrevia de Roma, a 
Bito do3 planofl de Carlos v : «O papa e 
a córte romana suspeitam fortetnonte 
Imperador aspiro à Monarhia univer- 

caeamento do prìneepe Philippe com 
iceza D. Maria, filha de D. Joao iii, era 
isto em toda a Europa, comò refere Àu- 
assim se preparava o abysmo em que 
fundarse a nacionalidade portugueis. 
ra 09 escriptores estrangeìros, a ìncor- 
So da nacionalidade portugueza parecifl 
cto providencìal, para fortalecer a H«b- 

1 fazendo-a reslstir ao exclusivismo da 
rchia universal. Tavannes, nas suaa 
irias, mostra pela Geographia que Deus 
iuer a pretendida Monarchia unitaria: 
lo emprezas tao bem projectadas aca' 
1 mal, cré-Be que é obra de 'Deus, pare- 

que impoz barreiras para que se n3o 
tassasse loucamente : & Hespanba, ob 
ts Pyrenneos e o mar; &. Franca, o mar, 
^renneos, o Kbeno, as mon^nbas da 



CAHOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 109 

Suissa e do Piemonte; a Italia tem o mar e 
08 Alpes.> E continua depois de ter descripto 
88 fronteiras naturaes: <Dens fez vèr a sua 
Yontade, que era, que estes limites nSo fds- 
sem falseados, e que se n9o fizesse um mo- 
naroha uno; fez nascer ao mesmo tempo Fran- 
cisco I, Solimio, Henrique vili, para os oppòr 
a Carlos t. . . De novo parece que Deus con- 
tinua n'esta vontade; que a Francia, a Hes- 
panha e a Inglatarra sejam egualmente pò- 
derosas, que se n9o possam engrandecer com 
prejuizo das outras; tendo tornado o reino 
de Franca pela paz unido, poderoso e formi- 
davel; de outra parte ajuntou Portugal a 
Hespanha, e a Escossia à Inglaterra, para 
que ellas tenham forga e melos de se guarda- 
rem egualmente umtis das outras, impedirem 
a Monarchia e conservarem o seu estado.» ^ 
Ranke, na obra A Hespanha sob Car- 
los y e Philippe //, falla do equilibrio politico 
europeu fundado sob o terror da Monarchia 
Qiiiversal, na fórma do imperialismo germa- 
nico: <A ideia do equilibrio europeu tinha-se 
entSo desenvolvido de uma maneira particu- 
lar. Pretendia-se que duas grandes Potencias, 
cajas forQas fòssem pouco mais ou menos 
egiiaes, se mantivessem oppostas uma à ou- 
tni, para que as potencias de uma cathego- 
ria interior podessem sempre achar protecgào 
junto de uma ou de outra. A destruigSo d'este 
equilibrio conduzia immediatamente para a 
fonarehia universal. Aconteceu assim, que 



^ Mem., p. 266, 880, 381. Ap. Laurant, Études sur 
HiMMre de VHufnanOéy t. x, p. 23 a 32. 



lA SA LITTERATCRA POKTUOnEZA 

fot ioBensivelmente aborrecido de 
opa, d'aquetlee que elle atacava 
I que o seu poder amea^ava de 

tro logar: <0 que principalmente 
lilippe II o odio geral e aa accuaa- 
iz&ra sobre a sua memoria, pratì- 
i ultimoB vinte annos do seu rei- 
inte este ultimo periodo apode- 
^ortugal, atacou a Inglaterra, in- 
» naa perturbatfoes interiores da 
mprehendeu reunir este reino fis 
da Bua Casa; no espago d'estes 
1 devastou OS Paizes Baixos eom 
istantemente Tiolentas e felizes, e 
liberdade de AragSo, arruìnando 
38 recureos do seu reino.» 
> do verdadeiro esptendor do ge- 
1 e da litteratura portugueza, cha- 
ìuinhentistas, è aquelle em que a 
lolitica era supprimida pela nào 

das Cortes e as institui^òes popu- 
vidas no absolutismo estupidn do 

D. Manoel. A grandeza doa Des- 
I na Africa, Asia e America, dava 
Casa lusitana oa fumos inebrian- 
Darcbia uoiversal, motivando oa 

castelhanoa de D. Manoel, Dom 

incepe D. JoSo, e princeza D. Ma- 

casamentoB completou Philippe ii 

da Casa de Austria. Emquanto 

navegadores realisaram em trinta 
aravilbas dos assombrosos Desco- 



r 



CAMÓES — EPOCA, VIDA E OBRA 111 

brimentos, os seus monarcbas retorciam as 
malhas etn quo estrangulariam a liberdade de 
consciencia e de pensamento, e a propria au- 
tonomia da nacionalidade sacrificada & uni- 
dade catbolica. Estavamos assombrados ante 
o terror das fogueiras ìnquisitoriaes, e sub- 
mettidos & ferula do ensino jesuitico; a na- 
fSo mortalmente ferida ainda se inspirava no 
grandioso sonho de grandeza maritima para 
a creaQao da sua architectura, da sua ou rive- 
saria, do seu theatro, do seu lyrismo incom- 
paravel, da sua prosa, da sua historia, sen- 
tindo-se viver n'essas creaQoes estheticas e 
litterarias. Foi no extremo da decadencia por- 
tugneza, no anno da Santa Liga, que se os- 
tentava na matanga da Saint-Barthelemy, que 
esse pensamento jà realisado dos Descobri* 
mentos apparece idealisado na Epopèa dos 
Lusiadas^ de que fez Gamoes o pregao im- 
mortai do ninho seu paterno. A nacionalida- 
de podia supplantarse no territorio, mas fi- 
cava para sempre rediviva nos espiritos. Ga- 
moes, que nos tormentos de sua vida obser- 
vara a grandeza territorial dos dominios por- 
tuguezes, sentia-se possuido do mesmo sonho 
da Renascenga, considerando Portugal reali- 
sando o Quinto Imperio do Mundo, depois 
das Quatro grandes Monarchias dos Assy- 
rios, Persas, Gregos e Romanos : 

Se do grande valor da forte Gente 
De Luso^ nào perdeis o pensamento, 
Deveis de ter sabido clara mente 
Como é dos Fados grandes certo intento, 
Que por ella se esqueQam os humanos 
De Assyrios, Persas, Gregos e Romanos. 

[Lus., I, st. 24.) 



A missSo da Quinta Monarchia, acha-se 
mais nitidamente alludida na estancia do cac- 
to X doB Luaiadas, do manuBcripto de Ma- 
noel Correa Montenegro: 

Conquieta sera a quarta, gue no Imperio 
Fortuguez so retiae com possane, 
Pois no sublime e no infimo hemispherio 
As quatro partes so do mundo aloan^; 
E as quatro NagòeB d'ellas por mysterìo 
Coni que conquista, e tem certa esperan^a, 
Que Chritt&os, Mauro», Turcos e ^entias 
Juntarào n'uana Lei seuB Senhonos. 

E no canto ni, est. 20, na descrìpQSo da 
Europa, deduz da aitua^So de Portugal essa 
miesSo : 

Eie aqui, quasi cume da eabefa 
De Europa teda, o Rdno lusitano. 



^ Nas Propbeoias do Bandarra, acha-se o reQexo 
d'eatas eeperan^s tradiclonaes da Quinta Monarchia: 

Portnnl tem a bandelra 
Com Cìdoo Qnines no melo, 
E segando vijo e oralo 
Bste i a eabièeira, 
E pori sua otmefpa 
Qua am CalTarlo the M dada, 
È sarà rei da manada 
Qua T«D da longa oanoln. 



Wk 11 ■ ■ I ■ » 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 113 

A tradÌQào da Quinta Monarchia^ que syn- 
cretisava a corrente hellenica da Monarchia 
universale explorada pelos jurìsconsultOB do 
seeulo XIII ; e a allegoria dos quatro monstros 
politioos da Prophecia de Daniel, (Assyria, 
Persia, Grecia e Roma) a que se devia seguir 
a Quinta Monarchia^ sustentada na utopia 
christS de Paulo Orosio, e na Cidade de Deus 
de Santo Agostinho, e ainda entre ob Ana- 
batistas bollandezes refugiados em Inglaterra 
e ahi denominados Homens da Quinta Mo- 
narchia, està tradÌQào continha um sentido 
historìco em rela^ao a Portugal. Na ideia da 
Quinta Monarchia està implicita a conscien- 
cia da autonomia nacional. 

Quando comeQou a reconquista do solo 
hispanico pelos Asturos, Cantabros e Bascos, 
combatendo denodadamente os Arabes, os 
trìamphoB d'essa guerra santa de libertagao 
determinaram o esbòi^o de quatro Monar- 
chias, Leao, Castella, Navarra e AragSo. 
Greados estes fócos politicos nacionaes, o in- 
teresse e o instincto naturai dos povos leva- 
va-08 para a Confederando, comò se ve pelas 
Ligas defensivas de Leao, Navarra e Castella 
no seeulo xi, contra AlmauQor; e a Liga de 
AragSo» Castella e Navarra no seeulo xiii, 
nas Navas de Tolosa. Mas, pelas ambiQoes 
reaes estes quatro estados eram incorporados 



Serfio OS reis conoorrentes 
Quatro serùo e dSo mais; 
TodoR quatro principaes 
De Levante ao Poente, 
Os outros reis mui oontentes 
De o vèrem Imperador 
E havido por Senhor, 
Nfio poi dadiva oa presentes. 



■•■— 



L LITTBRAIDBA PORTCODEZA 



la unidade imperiai por Sancho Magno, 
ffonso III, por Fernando o Santo, «. 
por Affonso ix. Durante estas tremeB-. 
ctaB peaaoaes é qua o Territorio Por^, 
<i8e se Beparou da dependencia asturo- 
B, e de Condado desmembrado da Gal- 
saou a Estado autonomo sob D. Affonso 
(uea: com a independencia em 1143, 
;al ficou reconhecido corno urna Quinta 
•chia. E emquanto aa outras mona^ 
perdiam a sua autonomia. Bendo ora 
aradas na Navarra, logo em Aragào, 

em Castella, e&ta Quinta Monarchia 
re-se sempre ìndependente através de 
9, firmada na consciencia da ra^ja. no 
idividuallBmo etlinico que bo fortifica 
cionalidade, nunca de outrem subja- 
corno o proclamou CamOes; e avanoca 

acgào historìca, com que revolucìonou 
do. O sonho da Monarchia universal e 
■into Imperio, da primeira e segunda 
:en<;as, vioha agora desvairar oa aeua 
lanteB para o imperialismo iberico^ 
terificava asta pequena nacionalidade. 
o a nacionalidade portugueza era ab- 
a em Castella, por Philippe ii, esM 
le grandeza, que se lìgava ao prophe- 
dava relèvo à tradigSo da independen 

Quinta Monarchia, nas infindaa espo 

da Bua reviTescencìa. Camòea acor 
isse sentimento de autonomia: 

nunca OS admìrados 

Allemàee, Gallo e, ItaloB e Inglezes 
PoBeam dizer que tao para mandados 
Mais que para mandar os PortUffuezes. 

(CKDtD s, sL 153 



.. 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 115 

Tambem Garda de Resende em algumas ] 

estrophes da Miscellanea, que anda junta & ' 

8ua Chronica de D. Joao ii, condensa nos 
86US principaes factos o quadro deslumbran- 
te da Kenascenga portugueza : 

E vimos era nossos dias 
A letra de fórma achada, 
Co Dì que a cada passada 
Grescem tanto as Livrarìas. 
D'Allemanha é o louvor, 
Por d'ella ser o author 
D'aquella coasa tao dina ! 
Oatros dizem que da China 
Ser o primeiro inventor. 

Outro Mundo novo vimos 

Por nossa gente se achar, 

E o nesso navegar 

Tao grande, que descobrimos 

Cinoo mil leguas por mar ; 

E vimos minas reaes 

De ouro e dos outros metaes 

No Reyno se descobrir : 

Mais que nunca, vi safr 

Engenhos de officiaes. 

Vimos rir, vimos folgar, 
Vimos cousas de prazer, 
Vimos zombar e apodar, 
Motejar, vimos trovar 
Trovas que eram para lér. 
Vimos homens estimados 
Por manhas avantajados ; 
Vimos damas mai formosas, 
Mai disoretas e manhosas, 
E galantes afamados. 

Musica vimos chetar 
A' mais alta perfeì^ào : 
SerzedaSy Fontes cantar, 
Fraùcisquinho assim juntar 
Tanger, cantar sem ra^ào. 



116 HISTOftlA DA LITTERATORA PORTUGUEZA 



Àrrìaga, que tanger ! 
O Gego, que grao saber 
NoB orgàos ! e o Vaena ! 
Badajoz e outros, que a penna 
Deixa agora de escrever. 

Pintores, Luminadores 
Agora no cume e^tao ; 
Ourìvìsìs, Esculptores 
Sam mui subtìs e melhores. . . 
Vimos o gram Michael, 
E Alberto e Raphael; 
E ha em Portugal taes, 
Tarn grandes e naturaes 
Que vém quasi ao olivel. 

E vimos singularmente 

Fazer representaQoes | 

De estylo mui eloquente. 

De mui novas invengoes, ^ 

E feitas por Oil Vicente: j 

Elle foi o que inventou 

Iato cà, e que o usou 

Com mais graga e mais doutrina, 

Postoque Juan del Encina 

O pastoni comeQou. t 



*i 



Faltava ainda n'esta assombrosa expi 
sSo do genio portuguez a creagào da Epo] 
nacional coroando a sua ac<}ao historica. 
eruditos, corno André de Resende, Joio 
Barros, Ferreira e o chronista Castanb 
tinham a intuigao d'essa necessidade. Ei 
ideal foi realisado n&o corno um prodacto 
saber humanista, mas corno urna expr< 
da raga, corno consequencia da ac^So ser 
do a patria com — brago da Armas feito\ 
mente ds Miisas dada. 



Ber ce 
a, OB i 
|ue n'e 
grande 
ellectui 
lo, acQ: 
les e < 
jonal I 
le ae m 
até n 
!0 appi 
Angelo 
So hisl 
Dento I 
ctivo 1 
, eonvt 
iens m 
mpanb 



118 HISTOBIA DA LIITBBaTDRA POI 

de Jesus, pelo ensino e pela dit-uuvi*" vof" 
tual nas cortes entre o elemento prep""*^' 
rante. E' n'este seculo e entre t3o grai 
fiorasse do ìnvivìdualiBmo humauo qi 
pareoe Camoes, destacando corno um ty 
preaentativo da sua naoionalìdade, e sin 
□eamente corno o creador da fórma p 
que idealisava a actividade da Renasi 
E' & luz de urna t3o assombroea època, 
Tulto de Camdes recebe todo o seu r 
destacandO'Se corno um Symbolo, q 
torna claro ao tomar-se conheciinento e 
Vida, em que a ra^a, a feìgao nacioni 
aBpira<;3o da època se reflectem intensai 
Estudando o Reflexo do mundo ei 
na imagina^ào de Camdes, Alexand 
Humboldt ao descrever os desoobrimen 
fim do seculo xv, notou esse phenomen 
ral da revela^So de altas indiTÌdualic 
(A ìmagina<;3o sobreexcitada ìmpellìa 
as grandes emprezas, e por outro lado, 
dacia qne se manifestava quer no pr< 
quer no adverso successo, por si agit 
imaginagao e mais vivamente a inflam 
Assim, n'este maravilhoso tempo da Co 
ta, tempo de esforgo e de Tìolencìa, ei 
todos 08 espirìtos estavam possuidos d 
tigem do8 desoobrìmentos por terra 
mar, muitas circumstancias se reuniram 
apezar da auseocia de toda a liberdadi 
tica, favoreciam o deeenvolvimento doE 
cteres indìviduaes, e coadjuTavam, n< 
mens auperiores, é. realisagào dos gt 
pensamentos, cuja origem reside no ii 
alma. Engana-se quem julger, que oi 
quistadores fòram guìados unicamentt 



r 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 1 19 

sède do ouro ou pelo fanatismo religioso. Os 
perigos elevam sempre a poesia da vida, e 
de mais a època vigorosa da qual investiga- 
mos n'este momento a infiuencia sobre o des- 
envolvimento da ideia do mundo, dava a to- 
das as emprezas e às impressoes da natupeza 
que prodnzem nas viagens longinquas um 
eDoanto, que come<}a a apagar-se na nossa 
epoea eulta em meio das innumeras facilida- 
des que abrem o accesso a todas as regi5es. 
Nao se tratava sómente de um hemispherio: 
quasi duas ter^as partes do globo formavam 
Dm mnndo novo e inexplorado, um mundo 
qne até entao tinha escapado aos olhares, 
comò essa face da lua eternamente yedada 
aos olhos dos habitantes da terra, em virtu- 
de das leis da gravitagfio.» (Cosmos^ ii, 328.) 
A coragem, a valentia, o sacrificio tornavam- 
ae heroismo; e em vez da imitagao das figu- 
ras ideaes dos cyclos épicos medievaes, admi- 
ravam-se os vultos biographados por Plutar- 
cho, e a galeria dos seus Varoes illustres era 
reproduzida ao vivo pelos homens de acQao. 
genio da Renascen^a renegando as ficQoes 
poeticas da Edade mèdia, encontràra uma ou- 
tra craveira para avallar os individuos, com- 
parando-08 aos heroes da Grecia e de Roma; 
Cam5es segue esse criterio ao considerar as 
faoanhas portuguezas : 

Que excedem as sonhadas, f abulosas ; 
Que excedem Rhodamonie e o vao Rogeiro 
E Orlando^ inda que fora verdadeiro, 

(Lus.^ 1, st. 11.) 

Raro sera o heroe portuguez celebrado 
* LusiaddSj que nao seja comparado em to- 



CAMOB6 — BPOCA, VIDA E OBRA 121 



Qual o manoebo Euryalo enredado 
Entre o poder dos Rùtulos, fartando 
Às iras da sobef ba e dura guerra, 
Do crìstalino rosto a cor mudando, 

Tal te pinto, oh Tionio, dando o esprito 
A quem Vo tìnha dado . . . 

Para Camoes o heroe deve ter os caracte- 
res consagrados pela antiguidade classica : a 
belleza das fórmas ou gentileza, a alIiaoQa 
das armas com as letras ou poesia. Ao fazer 
retrato do vice-rei D. Henrique de Menezes, 
ezalta-o pela : 

Gentileza de membros corporaes, 
Omados de pudica continencia, 
Obra por certo de celeste altura. 

Estas virtudes raras e outras mais 
Dignas todas da homerica eloquencia. 

(Son. 228.) 

Perderìam n'estes paradigma s com os per- 

Bonageos da historia antiga os heroes portu- 

guezes a sua fei^ào individuai e nacional? 

Àehamos urna resposta luminosa em um fra- 

gmento escripto por Ànthero de Quental, in- 

titolado O patriotismo e os Lusiadas, de rara 

intoigao historica: <0 patriotismo, comò os 

Portoguezes dos seculos xv e xvi o concebe- 

ram, foi um phenomeno moral, quasi unico 

na Europa de ent&o, e que os tornou multo 

is parecidos com os romanos antigos do 

■ a com 08 povos seus contemporaneos. O 

triotiamo é urna ideia abstracta, que exce* 

a eapaddade toda sentimental da raga; o 

tincto naturalista da ra^a dà o amor da 



122 HISTORU DA LITTEBATOKA PORTOODE; 

terra; nSo vae mais além; so a idei 
nal póde dar o patriotiamo comprebi 
romana e & portugueza. — Està doqS 
triotismo cria urna ordem de sen 
particulares dos ìndividuos para co 
9S0, um modo de vèr moral peculiar. 
ver patriotico, comò o comprehendei 
Roma, Fabricio, Régulo e Cat3o; ec 
gal, Castro, Albuquerque, — dever 
co, cuja expressSo suprema é o bi 
Leia-se a historia da Europa até 
culo XTi; abundam ob bravos, mas 
mente se encontrarSo os keroes, sei 
typo magnanimo que a Antiguidade 1 
e que de novo e no seu ponto de vis 
Bou Portugat durante os seculos XV XTI. JNo 
Peito illustre lusitano bavia entào alguma 
oousa de grande e transcendente, que impel- 
ila a nagSo para um destino extraordìnarìo e 
suscitava no meio d'ella os beroes, que de- 
viam servir a ideia nacional com a abnega- 
q3o tenaz e superior com que se serve urna 
ideia religiosa. E' que patriotìsmo é urna ea- 
pecie de religi3o civil. Foi por essa religiSo 
que, durante tres seculos, noa erguèmoe no 
mundo, para realisar um sonho gigantesco 
e quasi sobrehumano;. . . A època nacional 
portuguezB, por excellencia, é o seculo xvi. 
Tudo concorre entSo para dar ao espìrìto 
portuguez aquelle summo grào de tensSo, 
que produz os grandes movimentos nacio- 
naes. A nacionalidade rompe com impulso 
irresistivel os seus limites tradicionaes, tras- 
borda fremente corno um rio caudaloso, e af- 
firma-se na sua plenitude pelas descobertas e 
pelas conquistas. — A na^io faz-se heroe: 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 123 

heroismo 6 a sua atmosphera ordinaria^ e to 
do8 participam mais ou menos d'esse conta 
fpo sublimados. D'aqui, urna concepQ3o par 
ticalar da vida sodai, do direìto, do dever 
tanto para a nagSo corno para os indìviduos 
Ser portuguez é alguma cousa de especial 
mn ^po sui generis de virilidade e nobreza 
qua todos procuram realisar, e que a Littera 
tura idealisa, de que ella se inspira na phase 
nova em que entSo entra. — O velho typo 
cavalheìresco, pbantasioso e sentimental, em- 
palidece diante d'esse outro que surge, nobre 
e digno, quasi severo, o homem do dever, 
nao da sensibilidade, que JoSo de Barros, 
Ferreira e Miranda vao le vantando, e que 
Gamdes vira collocar sobre o sublime pedes- 
tal èpico. 

cEste typo, o verdadeiro typo portuguez 
do seculo XVI, corno se revela nos Lusiadas^ 
nSo é com effeìto urna mera inven<;ao do ge- 
nio de Oamoes: é urna genuina creaQào na- 
clonai, um ideal do sentimento collectivo, que 
se foi gradualmente formando e depurando 
até encontrar no grande poeta quem Ihe desse 
urna expressao definitiva. E' por isso mesmo 
que elle domina, de toda a sua altura, o pen- 
samento e a obra de Camoes. O que o poeta 
eanta 6 o heroismo portuguez, o Petto illus- 
tre lusitano; em todo o seu Poema se resumé 
a Vida moral portugueza durante um seculo:^. 
Depois d'està nitida synthese philosophica 
genio portuguez relacionado com a grande 
poca da activìdade historica da nacionalida- 
'e, causa urna deploravel surpreza vèr comò 
nthero de Quental attribue as energias de 
Drtugal no seculo xvi aos factos que determi- 



DA UTTERATURA PORTUGCEZA 

apida e immediata decndencia! 
s;rB<;ada af firma tira : (Dentro, a 
resultado da sua concentra(;3o : 
dos Foraes, pela Monarchia 
expuls&o dos Judeus, attinge o 
alidade politica, social. religiO' 
aaxìmo do poder sobre ai mee- 
rgica cohesSo depura o Beati- 
li, dà-lhe urna aegura conscien- 
va-a Squelle grào de tensio em 
ismo, exaitando se, se transfor- 
^ecie de heroismo univenjal.> ' 
screver em< menos linhas maior 
ictoe em contradic(;3o com as 
historicas. O esplendor da Èra 
lentos foi offuBcado pelo impe* 
i D. Manoel, imitando o germa- 
'los V, atacando todas as insti- 
ires, e preparando pelos aeus 
fusào de Portugat na unidade 
olerancìa religiosa na expulsSo 
lì urna vii transigencia para um 
1 de que dependia a aspira^So 
1 intolerancia tornou-se institui- 
ecimento da Inquisigào em Por- 
oào III, e na entrega da educa- 
tca aos Jesuìtas, apagando-se 
3 Autos de fé, e pela caTilla(;ao 
espirituaes jesuitas a conscien- 
ilidade, a ponto de se receber 
Portugal com festas de egreja, 
s triumphaes, em 1580. 
reCórma dos Foraes? Um meio 



montano, p. 144 a 146. 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 125 



de extinguir as garantias locaes consuetudi- 
narìas do dìreito foraleiro. A pretexto de re- 
noTar a letra apagada e as palavras meio 
obsoletas dos Foraes, e de egualar as moe- 
das, rei D. Manoel, querendo converter es- 
sas garantias locaes no direito pessoal das suas 
Ordenagòes regias, chamou a si todos esses 
pequenos codigos territoriaes, mandando-os 
transformar por Fernao de Pina, extinguin- 
do todas as immunidades n'elles contidas, fi- 
cando as prestagoes censiticas primitivas. Està 
obra de cavilla<jao visava ao engrandecimen- 
to do imperialismo manoelino, qua mais se 
affirmou ainda mandando supprimir e de- 
struir todos os exemplares da edigao das Or- 
denagòes do Reino, de 1514, em que algu- 
mas garantias locaes teriam escapado. A re- 
nascenga scientifica do Direito romano, tor- 
nado vigente corno subsidiario, servia a cau- 
sa do Absolutismo para que tendia a realeza 
no seculo xvi. Appareceram os profundos ro- 
manistas, que crearam a archeologia, a criti- 
ca exegetica, a interpreta<jao das leis pela hìs- 
toria social, substituindo o systema taxativo 
e casuistico por fórmulas geraes ou syntheti- 
cas; mas diante do exagerado regalismo, os 
nossos romanistas, exploraram a confusao do 
fòro real e canonico, vendo apenas o aspecto 
lucrativo do Direito. O jurista e poeta André 
FalcSo de Resende descreve està degradagao, 
dos que seguiam urna actividade mais rendo- 
sa e segura do que a da viagem da India : 

A morte d'este avisa ao irmào segundo, 
Que a pé enxoto siga, e nào do Oceano, 
Um caminho mais certo e mais jocundo ; 



HISTOBIA DA LITTERATURA PORTI 



Um caminbo direito, que Ulpiano, 
Scevola, e outros fizeram, e, ine 
Gom outroB o abria mais Juslin 

Dio seDteni;a fina), mie é mais aegn 
(Ou seja emfim diretto ou seja I 
Baldo e Jca&o seguir, que Palii 

E por isso a oste filho o pae avaro 
Quer que em Leis se gradue, at 
Das burlaa e das trampaa casa i 

Estuda mais que Cèpola Cautelleu, 
So De pane lucrando escreve e 
Refaz demandaa niil sem deafaz 

Intenta sempre ajuntar curo ou pr( 
Morre einfioi mal e pobre este 
Que nunca de aer rìco a sède o 

Ao irmao terceiro o pae faz canonie 
Dos falsos; e por maia te honrs 
Depois de em contas ser fino al 

A' pratica mandal-o assenta a Remi 
Que as Decisòes da Rota e a Cu 
E fa^a de contuios grande aomi 

E por manha ou dinheiro, inda que 
Como Simào, que a gra^a com[ 
Trabaltae de acquirir doa bens i 

E eia o coitado em Roma, e eis do ( 
Em ReservBS, Regressos, Bene: 
E n'ellas rico e visto ser pretei 



FalcSo de Kesende escrevia do 
tei do seculo xvi, quando a dee 
tugueza fora urna consequencia 
tica doB seus monarchas; os sei 
o reflexo da degrBdaQao doa esp 
roes da grande Èra dos Desco 
nham-se atascado na indigna chi 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 127 



N'outro tempo valeu mais que ouro o engenho ; 
Agora engenho tem quem tem mais ouro, 
E so ter ouro é um geral dissenho. 

Està falsa oobiga de tbezouro 

Leva cega apoz si honra e nobreza, 

Do Tejo, Ana, Mondego, Minho e Douro. 

Nào fallo jà no mais da redondeza; 

Cà em nosso Portugal principalmente 
Sangue e saber por vii .metal se présa. 

Qoantos vimos, por ser interesseiros, 
Escurecer o nome e illtistre fama 
De Portuguezes fortea e guerreiros ? 

Que se o nobre desejo os leva e chama 
Além de tantos marea exquìsitos, 
Gubi^ de ouro os escurece e infama. 

(Poes., p. 273 e 278.) 



Camdes, que até ao momento em que se 
estrangulava a Nacionalìdade em 1580, obser- 
vara oste processo de tremenda decadencia, 
tambem notou a differenga que ia dos homens 
da Bua època 

a Gente lusitana. 
Por quantas qualidades via n'ella 
Da antiga tio amada sua romana, 
Nos fortes cora^oes, na grande estrella, 
Que mostraram na Terra tingitana, 
E na lingua, na qual, quando imagina, 
Gom pouca oorrupQao ere que é a latina. 

{Lus., 1, 33.) 



J& nSo bSo OS heroes que alliavam a pen- 
a e a espada que elle contempia; mesmo na 
:!popéa dos Lusiadas, escrìpta em parte sob 

impressSo deprimente da decadencia que o 
uvei via, esses homens de acQSo jfi nao tem 

estimulo da gloria : 



K LiriESAtUHA POI 



f Nào tinha em tanto oh feitoa glo 

' De Achillea, AJexandro na peieje 

I Quanto de quem o canta, os nui 

[' VerBOB 1 ìbbo bó louva, ìbso deae, 

l Vae Ceaar aubjugando loda Fra 

[ E &s aroias nào Ihe impedem a 

L ■ Mas n'uma mio a penna, e n'ou 

1 Eftualava de Cicero a eloquencii 

'ì O que de Scipiio b% a&be e alcai 

i E' nas comedlas grande expeiiei 

b Lia Alexandre a Uomero, de ma 

r Que sempre se Ihe sabe d cabeci 

r Emfim, nào houve torte capitfio 

~ Que nào fòsse tambem douto e t 

> Da Lacia, Grega ou barbara na^ 

' Se nSo da Portugueza tamsómei 
Sem vergonha o nào digo; que e 

' De algum nào ser por versos exi 

) E' nào se vèr presado o verso e 

i Porque quem nào sabe a arte nS 

\ Por isso, e nào por falla de natu 

i NSo ha tambem VirgilioB e Hom 

i Nem bavera, se aste costume du: 

y PioB Eneae, nem Achilics féros. 

» Mas o peór que ludo é, que a ve: 

i Tao asperoa oa fez e tao austero 

[ Tao rifdes, e de engenho tao rem 
Que a muJtoB Ibe dà pouco on na 



O proprio CamÒes jfi nSo v 
romano na Gente portugueza, ( 
nha o dizia, ao obaervar que 
nacìonal apagaya-ae na inconsci 
de Resende amplia o quadro f 
Camòes, mostrando em que code 
roismo UDÌversal, que era o ab] 
ca^So portugueza. 



CAMÒES — EPOCA, VIDA K OBRA 129 



E assim mandar ordena um filho à China, 
Instructo e chatim jà na mercancia, 
Nos resgates das Ilhas, Guiné e Mina; 

Inhabil na christà philoBohia, 

Porque o pae, cego, e tendo por affronta, 
Diz qne qualquer fradinho isto sabia. 

Mas, contador experto em caixa e conta, 
Sabe comprar barato e vender caro, 
Que para sua cubica isto é que monta. 

E jà se embarca, e é seu norte e faro 

Sempre o negro interesse, e n'elle a proa, 
Deixa atraz patria, o pae e o amigo caro. 

Jà o mar bravo aos mimos de Lisboa, 
A' Vida e alma antepondo a fazenda, 
Dobrando Gabos, climas, ebega a Oda. 

Tira seu fato e faz taverna e venda ; 

Trampéa e engana, troca, jura, mente, 
Como um bofurinheiro emfim poe tenda. 

E em que redobre o resto e accrescente 
Sempre ao cabedal, mais se desvela 
Por navegar os maree do Oriente. 

Tenta outra vez Neptuno dando à vela, 
Gosteia rlos, ilhas, enseadas, 
Faz viagem à China, até dar n'ella. 

Compra na veniaga as mais presadas 
Mercadorias ; e as que traz vendendo, 
Nas embarcagòes torna carregadas. 

Mas c'o dinheiro o amor d'elle crescendo, 
Faz a cobiQa que inda em vào forceja 
As medidas encher ; fnndo nào tendo. > . 

fPoesias, p. 295.) 

Estes tercetos pódem ser commentados 
pela Relagào do P.® Manoel Godinho: <Iam 
e Yinham ricas f rótas do Japao, carregadas 
de prata ; da China traziam ouro, sèdaa e al- 
miflcar; das Molucas o cravo; da Sunda a 
I 3sa e noz ; de Bengala toda a sorte de rou- 
I 1 preGìosissimas ; de Pegu os estimados ru- 
I s; de CeylSo a canella; de MussulapatSo 
< diamantes ; de Manar as pérolas e aljofa- 
1 ' do Achem o bejoim ; das Maldivas o am- 



bar ; de JafanapatSo oa elephantes ; de Go- 
cbim 08 angelios, tecas e couramas; de todo 
Malabar a pimenta e geogibre; de Canarft 
OS mantimentos; de Solor o seu p&o; de Bor- 
neo a campbora; de Maduré o aalitre; de 
Cambaìa o anil, o lacar, e roupas de centra- 
cto; aB baetìlbas de Chaul; o incensp de Ca- 
xeu; GB cavallos da Arabia; as alcatifas da 
Persia, com loda a sorte de sSdas lavradae 
e por lavrar; o azebre de Sacotorà; curo de 
Sofala; marfìm, ebano e ambar de Mogambi- 
que; de Ormuz, Diu e Malaca grossaa quan- 
ÙaB de dinboiro, que rendiam os direitos daa 
nàos que por alìi paBBavam. Emfim, nfio ha- 
Tia cousa de estima por todo o Oriente, que 
ou por tributo ou commercio, nSo fdsse do 
Estado.* 

A decadencia de Portugal observada noa 
caracteres no pendor do secolo xvi, reconhe- 
cia-BB Da insania do governo ao abandonar 
possessQeB que fOram adquiridas por sacrìfi- 
cios heroicoB. A decadencia portugueza em 
Africa comeQa Bob D. Jo3o iii, que em 1536 
manda abandonar a fortaleza do Gabo de 
Aguer; em 1542 aSo abandonadoB Qafim e 
Azamor; em 1549 Arzilla e Alcacer-ceguer, 
concentrando-se ou lìmitando-Be o dominio a 
Ceuta, Tanger e Tetu3o. Na Asia as perdas 
come^aram em 1571, quando em 4 de No- 
vembre a praQa do Chalé foi entregue ao Sa- 
morìm de Calecut. E o sonho do Santo Impe- 
rio catbolioo ou da Quinta Monarchia, que ai 
rastou D. SebaBtiSo & aventura da conquiet 
do norte da Africa, deafez-ee miserandament 
em 1578, dando legar & heran^a castelhan 
que absorvia Portugal na unidade iberica. 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 131 

t 

N&o era so o sentimento da nacionalidade 
qne se apagava pela coopera<;So da unidade 
eatholiea e unidade iberica na realisa^So do 
sonho imperialista de Carlos v e do seu con- 
tìnuador Philippe ii; a lingua portugueza era 
abandonada, prevalecendo o eastelhano na 
oOrte de D. Manoel e D. JoSio iii, em conse- 
quencia das rainhas hespanholas com quem 
casaram, e dos numerosos séquitos de damas 
e cavalleiros que comsigo traziam. E quando 
no seculo xvi, as linguas vulgares comega- 
Tam a exprimir pela cultura dos eruditos o 
caracter das nacionalidades, os nossos Qui- 
nhentistas sob o influxo da córte escreveram 
grande parte dos seus versos em eastelhano^ 
chegando a ser, comò S& de Miranda, mode- 
los de purismo. Quando Ferreira protestou 
em seus versos, para que se fallasse, cantasse 
e escrevesse a lingua portugueza, reagia con- 
tra esse habito da cortezania, e comò presen- 
tindo que o emprego do eastelhano atacava a 
individualidade politica da nagao portugue- 
za. Os versos escriptos por Gam5es em easte- 
lhano fóram motivados por exigencia da cór- 
te, a que allude Jorge Ferreira, quando se 
qneixa de que as trovas castelhanas se ti- 
nham apossado do ouvido portuguez. A na- 
morada de Camoes, D. Catherina de Athayde, 
era filha de uma dama hespanhola, que viera 
no séquito da rainha D. Catherina; n&o Ihe 
''"a indifferente o metrificar na lingua que os 
mpositores musicaes pref eriam para as Can- 
ea da córte. Quando Gii Vicente empregava 
eastelhano nos seus Autos, além da necessi- 
de de comprazer com a córte inteiramente 
nanholisada, nem por isso deixava de con- 



DA LITTERATDRA F 



' o seu desdem, dizendo; 
na castelhana linguagei 
lìr.t A oblitera<;3o d'est 
:ionalìdade facilitou a pe 
iO de patria diante da u 
imrnada na pessoa de 1 
;s Expurgatorios, introdi 
el Cardeal D. Henrique, 
8(30 titteraria deturpani 
dos Quinhentistas, corno 

Camòes, fazendo com 
de escriptos ineditos, ani 
'a, Be perdeBBem, comò f 
e Paula Vicente, bb Poe 
veira e de seu irmSo H< 
versos de Aotonio de A 
adros, de JoSo Lopes L 

Farla, de Antonio Per« 
de André da Fonseca, 
10, do Infante D. Luiz, 
, de D. Gonzalo Goutinh( 
ancioneirOB manuscripto 
prohibidoB e destruidoa 
Bs amorosas. 
iste quadro do secalo XA 
alismo portuguez chegoiJ 
levo, o meio aocial, que 1 
isa-se em duas datas qu 
da nacìonalidade: 1536 
irtugal a Inqulsigào, por 
: V, e com a perda da Ut 
ia, cala-se e morre o p 

1 por ella, Gii Vicente; 
ncia nacional fica extii 
3 Philippe ti, que impSe 
'nasticos, e, n'esae mesti 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 133 

em pura pobreza Camoes, aquelle que mais 
profandamente sentiu e soube revelar a con- 
sciencia da nacionalidade. 

A' imita^So de GasBÌodoro escrevendo nos 
Fastos Consulares de Roma : = que o Rei dos 
Godos, Theodorico, fora chamado pela von- 
tade de teda a gente, = tambem em 1580 
consignaram as memorias do tempo, que Phi- 
lippe II, ao entrar em Lisboa fora recebido 
com Te Deum e arcos triumphaes, e cantado 
por poetas n'este acto da ìncorporagao de 
Portugal na unidade iberica. Era o effeito do 
caimibalismo inquisitorial nas classes popu- 
lares, e da educagSo dos jesuitas na corte e 
fidalguia; a unidade catholica, para vencer o 
espirito moderno, dava toda a sua forga ao 
chefe da Santa Liga. ^ 



^ E' asBombroso de venalidade o discùrso que 
proferìn Damiào de Àguiar, Procurador por Lisboa no 

Ìuramento dos Tres Estados, nas cortes de Thomar, a 
^hìlippe II: <A mercé soberana, que Deus nesso se- 
nhor fez a estes reinos em dar-lhes Yossa Magestade 
>r rei, cria nos animos de vossos vassallos o contenr 
imtnto e satisfagdo qtie se póde encarecer; e assim ac- 
iitam e juram Vossa Magestade por rei e senhor, e es- 
trani as merces que Ihes tem promettidas, etc.» Vem 
} rarissimo livro do contemporaneo Isidro Velasquez 
lamantino, Casos dignoa de cuento. Lisboa, 1583. 



r 



VIDA DE CAMOES 



EPOCA PRIMEIRA 

, S6US ascendentes e educapSa litterarìa 

(Itti a 154S) 



Um dos caraoteres predominantes do se- 
culo xvi 6 o reldvo surprehendente das indi- 
▼idualidades, na ac^So, no pensamento, na 
crea<;8o artistica, nas fortes paixoes, nas he- 
roicas virtudes e até nos espantosos crimes. 
Estuda-se o maior seculo da Historia na in- 
flaenda das suas individualidetdes preponde- 
nmtesi e por seu turno essas individualida- 
des carecem de ser estudadas nas suas parti- 
oularidades biographicas, accumulando todos 
08 elementos que constituiram esses caracte- 
res, esses temperamentos, que determinaram 
as incomparaveis energias. A comprehensSo 
Camoes corno homem e comò poeta, està 
iis no quadro do seculo em que elle avulta 
um modo inconfundivel ; o seu ideal artis- 
1 Ulumina-se ao clarao da Renascenga que 
da doira a decadencia para que avanza a 



>TOSIA DA UTTIRATURA POBIDGITEZA 



^ 



dade que o inepìrou. Mae ha no seu 
10 influxos atàvicos, que explìcam o 
etico conio urna remota vibra^So da 
do lyrismo galecio-portuguez ; ba a 
que Ibe exaltou a emotividade e fez 
1 aventureiro em que a exietencia se 
u — pelo mundo em pedagos repar- 
3 venceram as decepQòes, porqae 
mento o abBorveu, e Ihe deu um fìin 
e &s suas capacidades, tornando-se 
um poTO. Os ascendentes do poeta, 
contemporaneos e amigos, os meios 
im que TÌveu, venturas e desastres 
nperaram, ludo isso é necessario oo- 
ara assistir & floraQ3o de um geaio 
a do seu seculo sobreleva na huma- 

recomp6r a sua vida, cheìa de inco- 
ìndispensavel destacar os problemas 
. e datas capìtaes, que a critica vae 
mente estabelecendo, na fatta de do- 
; authenticos, por testemunbos de 
iraneoB e inferencias luminosas. De- 
a critica logo com o problema da 
seu nascimento, e da localidade em 
i luz. ' 



ilnamoa do texto todasashypotbesesquejJi 
, porque oomplloam o oonheoimento dos u* 
dos; por vezes convém deixar em noUa ■ 
>B problemas, para accentuar o estado i 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 187 



a) Orlgen e genealoola da famllia de Camdes. — Natclmanto 
da Poeta, — Prlmeiros annot. 

TJm facto politico, mas de consequencias 
historicas na intellectualidade portugueza, deu 
causa & origem da familia de Camoes em Por- 
tagal. Travara-se urna lucta contra Fedro o 
Cruel, (filho de Alfonso xi e da formosissima 
Maria) levantando os fidalgos hespanhoes, 
impellindo contra elle o bastardo Enrique ii, 
(filho de Alfonso xi e D. Leonor de Gusman.) 
N'esta lucta, que chegou ao fratricidio com 

3 uè Enrique ii se apossou do throno, o rei 
e Portugal Dom Fernando envolveu se em 
urna guerra de successSo dispendiosa (1369- 
1385). Alguns fidalgos que seguiram o parti- 
do de Fedro o Cruel, depois do seu assassi- 
nato em 1368, refugiaram-se na c6rte do seu 
alliado, em Portugal. N'essa corrente vieram, 
FemSo Caminha, que foi o sexto avo do poe- 
ta Pero de Andrade Caminha, um dos avós 
de S& de Miranda, e Vasco Pires de Camoes, 
terceiro avo do immortai èpico. O esplendor 
com que a època quinhentista se manifesta, 
e em que tanto brilham estes poeta s, era comò 
uma revivescencia da unidade lusitana, pela 
allianga galecio-portugueza. Sobre Vasco Pi- 
res de Camoes existem abundantes noticias 
genealogicas, historicas e litterarias, indispen- 
saveis para a comprehens&o do seu glorioso 
desoendente. ^ Refugiado em Portugal em 



^ Na Pedatura Lusitana, de Chrìstovam Alao de 
1 raes, (Ms. n.*" 445 da Bibliotheca do Porto) lé-se: 
« te appellido se entende ser o mesmo que Gandara, 
B Amuu e Triumphos da Galliza, p. 584, chama 



138 H18TORU DA UTTBRATURA POSI 

1370, aqui obteve extraordina 
regias; casou com urna filha de 
reiro, appellidado GapitSo-nidr i 
de Portugal, cbamada D. Mari 
Nasceram d'eete casamento tres l 
provieram tres ramos genealogie 
tea, de que o menos vasto se exi 
Poeta. Eia o simples proBpeoto: 

1." Gonzalo Vaz de Camoe. 
scendem numerosaB familias ari 
em que ha homonymoB do nossc 

2." Joào Vaz de Camòes, bisi 

3." Constatila Piree, {linha ( 
riOB homonymos de Joào de Cai 
Vaz de Cam5eB, de Goimbra) 
scendem ob Severim de Faria, q 
o poeta com o primeiro estudo I 
com um retrato gravado. 

Sobre eate sìmples contórno, 
o perigo de confuB9o, coordenar 
ticularidades htstoricaB e dados 

Sue noa dSo conhecimento das 1 
es que mostram n'esta familì 
nevroticas, taes comò o sentirne] 



Vaaco Femandea de Camanho, fllho i 
n&o Garoia Camanho e de sua mnlhe 
Soares de Figueiròa.» Seu irmSo Gard 
manho seguiu a causa de Enrlque ii. 
-;undo é tambem chamado do Gancio 
Zaaco Lopes de Camòes; e nos docum 
cellarìae de D. Fernando e de D. Joào i, < 
Piree de Camòes, sobrenome ueado pc 
Btaaca Pire» de Camòes. E' este o que 
historica. 

^ Segundo AlSo de Horaea ; JnroE 
o nome de FrajKiaca. (Obr., i, p. 13.) 



gu 

Ve 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 139 

genio da aventura^ a paixao pela lucta, a os- 
tentalo gastadora e perdularia, as intrìgas 
amorosas; e noe seus cruzamentoe e paren- 
teeoos, as relai^oes quo determinar am jà a 
aetìvidade maritima, j& as tendencias mysti- 
cas da religiosidade, ou da contempla^So idea- 
lista. 

Na Carta ao Condestavel de Portugal^ 
mandando-lhe a collecQao dos seus versos, 
descrevìa o Marquez de Santillana a coorde- 
naQfio historica da Poesia peninsular, e n'esse 
inapreoiavel documento ao dar noticia do Can- 
cioneiro portugnez que vira, quando peque- 
no, em casa de sua avo D. Macia de Gisne- 
roe, falla d'esses trovadores, e diz : cDespues 
deetos, vinìeron Basco Peres de Camoes é 
Ferrant Casquicio é aquel gran enamorado 
Madas, del qual se fallan sino quatro cancio- 
nes...» NSo se póde entender das palavras^ 
do Marquez de Santillana, esoriptas em 1449, 
qae as poesias de Vasco Pires de Camoes es« 
tivessem coUigidas n'esse Cancioneiro, que 
oontinha Cantigas serranas e Dizeres portu- 
guezes e gallegos^ mas que apoz os trovado- 
res D. Diniz, Fernant Gonzalles de Sanabria, 
se seguirà a revivescencia da eschola galle- 
ga, representando Vasco Pires de GamSes, 
assim corno Macias, a reac<;3o contra os Lais 
bret3os, e contra as allegorias dantescas, que 
se imitavam em Gastella e Àragao. No Gan- 
doneiro de Baena figura Vasco Pires de Ga- 
li M em cantares que Ihe dirige Fray Diego 
d Valencia, de Leon, frade franciscano, mes- 
ta de theologia, grande letrado, mestre de 
ti 18 as Artes liberaes, physico, astrologo e 
n ^hanico. Todas estas qualidades Ihe reco- 



nhece Baena, nas ri 
que tambem diz: <8 
ombre tao fundado 
el.» (Ed. Pidal, t. ii, : 
todo o esplendor da 
seoulo XIII, na penine 
na-se didactìca, servi 
jpaB psycbologicoB e I 
trovas ou Perguntas 
lencia de Leon : 

* Està pergunta 
maestre Fray Diego, cantra Vasco Lopkh 
DE Camòes, un cavallero de Gatisia: 



Querriendo saber la cosa dubdossa, 
paresce que sea ya quanto eacura. 
Por onde querrìa, por vueetra mesura 
de vóe, Vaeco Lope, saber una cosa: 
en corno see mata en nuve aquosa 
el fuego caliente, é fase tornar 
piedras é toriecos, relampagos dar, 
e muchas fortunas d'afria danosa. 



O frade, versado na pbysica do seu t 
pò, pedia a Vaeco Piree de Camòes, qne 
ezplicasse a forma^So do raio na nuvem aq 
sa. E' certo que Vasco Pires Ihe respond 
e pe)o8 mesmoB consoantes; aquì temos e 
composìgSo authentica do terceiro avd do ( 
tor doB Lusiadas : 

<Respue8ta que dio al dicho maestro F. 
Diego. ■ ■ el dicho Vasco Lopes: 

Queation me lue poeta, aesas proveohoBa, 
é bien me parece que ée de natura, 
en au fundamento es de tal figura 
en corno la agna matar fuego osa. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBBA 141 



Pues està tal obra non es espantosa : 
dos eosas contrarìas poder se ligar, 
la una con otra, é desy alcan^ar 
relampagos, toriscos, afria pedrosa. 

E puesto que el f nego non pnedo esperar, 
pero sì sobeja conviene que lo faga, 
é por sa caUdat lo sotil desfaga, 
dexando lo duro por pedrìficar. 
Desy con la nuve fria encontrar, 
jantando las otras que son medianeras, 
lormam-se las afrias de muchas maneras, 
por estea contrarios assy se j untar. 

Finida 

Assy qu'el fuego con agena f riura 
congela los cuerpos con su gran ardura, 
maguer los dissuelve é por su propria calura, 
ca si fuer sobejo puede resfriar. ^ 



Pela sua parte, tambem Vasco Pires de 
Camoes dirigia perguntas a Fray Diego àoer- 
cadacreaQao do mundo. Em outra cantiga de 
Fray Diego, perganta a Vasco Pires de Ca- 
moes qual o motivo porque muitas vezes se 
di um ai sem qae nada nos doa. O primeiro 
Terso revela jà as alternativas que o fidalgo 
gallego recebeu com a coroagào de Enrique n, 
bastardo fratricida ; na terceira estrophe dft 
a conhecer que Vasco Pires de Cam5es era 
lun grande sabio e bom conhecedor de medi- 



Caneionero de Baena, t. ii, p. 176. — O Vis- 
wp de Jaromenha, sabendo que Vasco Pires de Ca- 
^04 versejava, suppoz que os dois Sonetos n."" 290 e 
^1 em |;ulego, que andam nas Obras de GamÒes Ihe 
P<v acenam; estes dois apocryphos sào hoje reconhe- 
<3d< *^mo de Diogo Bernardes, 



H18T0SIA DA 



Cina: *^Este Deci\ 
gunta, fiso é orti 
tra Vasco Lopes 



e mas voe enss 

E VOB, corno ae 
de loB cordialei 
eo mucho me <i 
é VOB levaredei 
ca no se me es< 
sj vÓB non poi 
por DioB, Vaaa 
mandatloa regi 



Felos sacriFicìi 
nando, recebeu \ 
tas doa^òes impo 
grande faToritiBm 
15 de Margo de ] 
termo de Santare 
Qo de 1374, con: 
Vaaco Pirea, do C 
va servindo na p 
rìque de Castella 
de 1378, concedi 
Quinta de Geeta^ 
Evora Monte, A.\ 
pertencìdo & Infa 
28 de Fevereiro, 
ras de Monte-Mór 
meama Infanta. 1 
de 1380 é nomes 
gre, e em 1383 p' 
tendo j& eido ag 
Castello de Àlcan 



Càm5eS — EPOCA, VIDA B OBRA 143 

nhete, Marvao e Amendoa. ^ Pela sua parte 
D. LeoDor Telles o nomeou aio de seu sobri- 
nho D. Affonso, Conde de Barcellos. Todas 
e6tas liberalidades fdram causa de Vasco Pi- 
res de Camoes seguir depois o partido do seu 
conterraneo o Conde Andeiro centra o Mes- 
tre de Avis. Chegou a tornar-se proverbiai a 
medranoa do fidalgo, e n'esse sentido appa- 
reca o seu nome em urna Carta em redondi- 
Ihas de Manoel Machado de Azevedo a seu 
cnnhado o poeta Sa de Miranda: 

Hade enfreiar sua penna 
Como um potrò desatado, 
Quem qnizer ser mais medrado 
Que Camoes ou Joào de Mena, 

(Est. 8.) 

A data d'està Carta fixa-se pelo verso em 
qae Sé de Miranda é tratado corno: «Amigo^ 
senhor e hirmdo.T^ Aqui a palavra hirmdo si- 
gnifica cunhado, parentesco estabelecido pelo 
casan^nto do poeta com D. Briolanja de Aze- 
vedo em 1536. A comparaQao ou parallelis- 
mo com Jodo de Mena é tambem intendo- 
nai, nSo pela relagao do chefe da eschola 
poetica castelhana, mas por ser o poeta pre- 
dileeto da córte de Enrique ii de Castella, o 
inìmigo de D. Fernando de Portugal. 

Com Vasco Pires de Camoes tambem veiu 
para Portugal um seu primo, Ayres Peres de 
C'-noes, ao qual allude o chronista Fernao 
I kes: cEntonce ficou com elles Ayres Perez 



Ghancellaria de D. Fernando. — Alemquer e seu 
i dho por 6. J. Carlos Henriques, 



393; e Gap. 17, fi. 34; Gap. 31, fi. 55.) Na 
Chronica do Condestavel, tambem se falla 
em Vasco Pìrea de CamSes, que abratjara o 
partido de Castella: iTeodo Vasco Pires de 
Camoes a Villa e o Castello de Alemquer por a 
rainha D. Leonor, e com multa gente de Ga 
teliaoB e Fortuguezes, o Mestre se partìa e 



OAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 145 

Lisboa, e Nun'Àlvares com elle, nam mais 
qne com duzentas cu trezentas langas e pou- 
cos homens de pé e bésteiros, e se foi a Alem- 
quer sobre Vasco Pires. E fóram hy feitas 
muitas escaramuQas da gente do Mestre com 
08 que estavam na villa.» (Cap. 21.) Ficando 
vencedor o Mestre de Avis, confiscou-lhe gran- 
de parte dos seus bens: na carta de 15 de 
Margo de 1384 dà o Mestre de Avis ao seu 
€reado Gii Affonso parte dos hens que per- 
tenceram a Vasco Pires de Cam5es; em 20 
de Maio do mesmo anno, as casas que pos- 
suia em Lisboa, a um individuo de Alemquer. 
Ainda Ihe deixou numerosas doagoes, taes 
comò as herdades de Evora, Estremoz e Avis, 
de que fez varios morgados conhecidos pelo 
nome das Camoeiras. Em Evora dava-se o 
nome de Camoeiras &s casas do Recolhimen- 
to de Santa Maria Magdalena, assim chama- 
das por terem pertencido a descendentes de 
Vasco Pires de Camoes ; ^ o morgado das Ca- 
moeirasj pertenceu a um seu bisneto Lopo 
Vaz de Camoes, e no termo de Alemquer 
existiu outra propriedade com o titulo de 
Quinta de Camoes. 

Nas trovas de Fray Diego de Valencia, do 
Cancioneiro de Baena, allude-se fi revoluQSo 
de Portugal, e ao risco em que o poeta galle- 
go estava de ser prezo : 

Hadamiento de rreyno, fambre, grandes daiios, 
Doertes muy esquivas, tiempos mny estrafSos, 
alores e frios, segunt que vos vedes. 



Fonseca, Evara gloriosa^ p. 233, 



H ISTORI A DA LITT 



I no final da es 
irde de mala pri 
IO das luctas de 
Quando CamòeB, 
sordido» (/allego. 
0) e mesmo S& 
Lia endecha tVila 
) apagado o ce 
ica d'estes dois ; 
eza esqiiecia-se 
parte oriunda d' 
la Galliza. Este 
08 dois excelso 
ade, dando-lhe a 
>o seu casamentc 
ogenito GonQali 
interessa immec 
a. * Do seu filb 



Apreaentanioa a f 
I Plres da Camòes (: 
mias que confundei 
.u — Gongato Vaz de 

FonReca, filha de . 
3e-mór de Moreira e 
;cia LopeB Pacheco; 
.« — Antonio Vai d 
ado de seu av3 ma 
le sabe com quem e; 
lOpo Vaz de Camòes 
I. Aldonga Annea di 
Cacho ou OaBco, Ale 
,° — Lopo Vaz de Ca 
; Gomes da Caraar 
n, na ilha da Madi 
alvee da Camara, fi 
ira Joào Gongalves 
,□1011 io Vaz de GamJ 



CAMÒES — EPOCA, VjDA B OBRA 147 



Gamòes é que seguiremos a linha de descen- 
dencia, que veiu extinguir-se era Luiz de Ca- 
moes por essa fatalidade que faz que o genio 
86 nao perpetue pelo sangue mas pelas suas 
obras. 

Joào Vaz de Camoes, vassallo de D. Af- 
foDso V, tomou parte nas expedigòBS guerre!- 
ras d'aquelle monarcha em Africa e Castella, 
conforme d'elle escreve Manoel Severim de 
Paria nos Diseursos varios politicos : «Viveu 
na cidade de Coioibra, da qual foi benemeri- 



Simào de Camòes da Camara; 

Duarte de Camoes. 

5.° — Antonio Vaz de Camoes, casou com D. Isabel 
de Castro, filha de D. Joào de Castro, capitào de Evo- 
ra, bastardo, e neta de D. Diogo de Castro e D. Fran- 
cisca de Brito; tìveram : 

Lopo Vaz de Camoes; 

D. Francisca de Castro, segunda mulher de Fran- 
cisco de Farìa Severim ; terceira mulher de D. Marti- 
nho de Sousa e Tavora, Alcaide-mór de Alter do Chào. 

Fora do matrimonio : 

Luiz Gon^alves de Camòes, que instituiu o Mor- 
gado da Torre, em A vis, que foi a Simào de Camoes, 
nlho de Duarte de Camoes. Na Expedi^ao de Tunis, a 
Oliai foi o Infante D. Luiz em 1535, escapando-se de 
Evora, appresentou-se-lhe para ir comò pagem um Luiz 
DB Cahòes; cita este facto D. Carolina Michaèiis na 
Boa edi^ào das Poesias de Sa de Miranda, mostrando 
que nao podia ser o poeta, que apenas contava onze 
annos de edade. Pela data do aconteci mento, sd quadra 
eom o homonymo Luiz Oongalves de Camoes; te ve elle 
r~ìa filha, D. Bernarda, que em seu testamento man- 
c I metter freira. 

Diogo da Fonseca; 

D. Antonio; 

D. Isabel. 

6.» — Lopo Vaz de Camdes, (1498), senhor do Mor- 
1 '^ da Camoeira, em Evora, e dos que andavam jun- 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 149 

Vaz de Gamoes maadou fazer, onde, & parte 
do Evangelho se ve um tumulo levantado de 
marmore, todo lavrado de figuras de meio 
relego, e nos cantos duas maiores, com escu- 
do6 de suas armas nas maos, e em cima do 
tumulo a figura do mesmo Joào Vaz armado 
ao modo antigo, com urna espada na mao, e 
ao8 pés um rafeiro deitado.» Severim de Fa- 
ria escrevia por 1624, notando, pela degrada- 
sse da capella: <sporque comò faltaram os 



8.® — Simào de Camoes da Camara, filho de Lopo 
Yaz de Camoes. Nào se sabe com quem casou. 

9.* — Duarte de Camoes, fìjho de Lopo Vaz de Ca- 
moes; casou com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tava- 
res de Sonsa, e teve : 

Fedro GouQalves de Camoes ; 

Luiz de Camoes, (£' a este que se refere o testa- 
mento de Duarte de Camoes» de Èvora, datado de 12 
de Maio de 1553, em que apparece citado Luiz de Ca- 
XÓES comò seu filho segundo, que succederà no Mor- 
gado, no caso do falecimento do primogenito Pero Gon- 
falres de Gamoes, e no falecimento d'elle um sobri- 
nho, filho de Antonio Vaz de Camoes.) Documento do 
Uvro 1.0 da Provedoria de Evora. Publicado por A. F. 
Barata, na Commetnoragào gloriosa, pag. 8. Em 1576, 
assigna Lujz de Camoes em Evora um documento cer- 
tificando o casamento de Pero Gomes em 6 de Maio 
d'esse anno. (Storck, Op. cit,, p. 15, not. 4.) 

D. Maria da Camara, que casou com Francisco de 
Farìa Severim, Executor maior e Secretano de Fazen- 
da de Philippe u. 

— Gonzalo Vaz de Camoes. (Tambem poeta. Juro- 
menha, Obr,, t. ii, p. 502.) Casou com D. Margarida 
^^ Veiga, e teve: 

Duarte de Camoes ; 

D. Joanna Ferreira. 

(Ha um Simio Vaz de Cam5es, que vestiu a rou- 
] a de jesuita; nascido em 1531, sendo seus paes An- 
1 io Vaz de Camoes (talvez o 5.<>) e D. Isabel Figueira 
< Costa. Era tambem poeta.) 



160 HISTORIA DA LIITERAIORA PORI 

descendantes do instituidor, fìct 
sem haver quem a ornasse e tivesse ouidado 
d'ella. > JoSo Vaz de Camdes, que se achou com 
D. Affonso V na bat«lha do Toro, onde flo- 
rearam muitos poetas palacianos que tèm co- 
plas no Gancioneìro de Kesende, caaou com 
Ignez Gomes da Silva, filha naturai de Jorge 
da Silva, de que teve Ant3o Vaz de CamÒes. 
Pelas noticias geuealogicas sabe-ae que 
AntSo Vaz de Camóes casou com D. Guiomar 
da Gama, ' da familia dos Gamas do Algar- 
ve, & qusl pertencia o grande navegador. 
Bate casamento esplica a sua vinda para a 
córte, e tambem o cargo de CapitSo da Ar- 
mada, que possuia seu avo Gonzalo Tenrei- 
ro, que elle exercera. Nas Lendas da India, 
de Gaspar Correia, cita-se um : (AntSo Vaz, 
que commanda urna caravella, era konradoe 
Hdalgo cavalleiro.t (Op. cit., i, p. 530.) E' 
tambem para inferir que seja este meemo An- 
tSo Vaz aquelle que esteve com Affonao de 
Albuquerque na tomada de GOa. Era multo 
frequente no acculo xvi dar os commandos 
das nàoa da India aos fidalgos cavaUeìros, 
nSo pela sua competencia nautica, mas pela 
gerarchia do nascimento e parentesco. Deu 
isto causa a tremendas catastrophes narra- 
das em emocionantes Re)a<^eB de naufragioB. 
Oli Vicente que conbecei} todaa as miserìas 
da sociedade portugueza, satirisa eete ruìno- 



1 Na doagao de D. Manoel em 1502 a Vasco dc^ 
Gama, concede: <e ae poaaam em diante obamar di£^ 
Dom — asay aeuB filhos e netos e todos aquelles qoftyj.' 
d'ellea deacenderem.* Ap, Roteiro do Vasco da Oamf'--,-^ 
p. 178. :i-V 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 



151 



80 privilegio da nobreza em urna scena da 
Tragicomedia Triumpko do Inverno^ em qua 
apparece urna n&o em perigo : 



Marikheiro : 
Piloto : 



Marinheiro : 



Tomastes vós hoje a altura, 

Por saberdes onde estaes ? 

Co' Ufo dos Bòs-Sìnaìs 

Me fa^o a Deus e a ventura. 

Ou na Aguada da Boa Paz ; 

Ou seremos tanto ovante, 

Como o Rio do Infante 

Segundo o tempo aqui faz ; 

Ou co' Cabo das Correntes. 

Isso é lobo ou rà, 

Ou feixe de lenha ou armo de lan ; 

Isto fazem adherentes. 

Quem V08 houve a pilotagem 

Para a India, d'està ndo ? 

Porque um piloto de pào 

Sabe mais na marinhagem. 

Està é urna errada, 
Que mil erros traz comsigo, 
Officio de tanto p'rigo 
Dar-se a quem nào sabe nada. 
Este ladrào do dìnheiro 
Faz estes màos terremotos ; 
Que eu sei mais que dez pilotos, 
E sempre sou marinheiro. 

(Obras, t. li, pag. 469.) 



Na sua reaidencia, ainda em Coimbra, hou- 
ve do seu casamento dois filhos, um que se 
ooeupou no servilo das Àrmadas, Simào Vaz 
de GamoeSt o Bento de Camoes, que reeebeu 
habito de Conego Regrante do mosteiro de 
inta Cruz de Coimbra, ordem rica onde pro- 
sava a nobreza de nascimento, e em cujos 
'Uegios recebia a joven fidalguia a educa- 
D dos Estudos menores. 



Embora n'este documento qSo venha o 
appellido de Camòes, a data e circumBtancìas 



> Nobiliarìo do Abb. de Perozello, t. it, fi. 160. 
Ms. da Bibliotheca do Porto. 

» Ckancell. de D. Joào iii, Liv. 17, fi. 133. — No 
ABeento da Casa da India de 1 550, o nome loaorìpto do 

Sae do poeta é Simdo Vaz; e na Carta de perdSo de 7 
e Har^o de 1563 paesada ao poeta, vem: «Luia Vaai 
de Camòes, filho de Symào Vaca, Cavai." fidalgao de 
mlnba casa,> tambem nSo traz o appellido ; era por essa 
fórma usualmente oonhecido. 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 153 



especiaes quadram com a situa^So do pae do 
Poeta; effectivamente Sim9o Vaz de Camoes 
era naturai de Coimbra, residindo em Lisboa, 
occupado no servilo das Armadas, servi<^8 
qne se acham allegados no alvarà da tenga a 
seu filho. Fedro de Mariz, na biographia do 
Poeta, conheceu a vaga tradigao dos servigos 
de Simao Vaz de Camoes nas Armadas^ es- 
crevendo laconicamente: «foi por Capit&o de 
ama nfio à India, naufragando nas cóstas da 
Terra firme de Gda.» 

pae de D. Anna de Macedo, Jorge de 
Macedo era sobrinho neto de D. Philippa de 
Macedo, que dos seus amores com D. Affonso 
de Portugal, depois Bispo de Evora, teve a 
D. Francisco de Portugal, 1.® Conde de Vi- 
mioso, e pae do poeta D. Manoel de Portu- 
gal, amigo de Camoes. Isto explica a tradi- 
to de ter a Casa de Vimioso mandado a 
mortalha com que se enterrou o poeta, e a 
protecgào que no pago Ihe prestava D. Ma- 
noel de Portugal. ^ 

Nos documentos officiaes, comò o Registo 
da Casa da India e os alvaràs da tenga ao 



* Nos Ineditos goesianos, de Guilherme Joao Car- 
los Henriques, p. 166, vem um peqùeno esboQogenea- 
logico de Jorge de Macedo : «Viveu em Santarem pelos 
annos de 1470, e depois segando outros authores, vi- 
▼611 em Azambuja : casou com. . . e teve : 

1 — Francisco de Macedo, que teve de Guiomar de 
] titaa... 

2 — Anna de Macedo^ que casou com Simao Vaz 
< Camoes, Gapitao de mar e guerra na India, e foram 
] » do insigne poeta Luiz de Gamòes. 

8 — Ignez de Oliveira de Macedo, que casou com 
T IMas de Groes.» 



r' 



poeta, transferìda para sua mSe D. Anna de 
Macedo, é ella chamada Anna de S&, ' e em 
alguns bìographos ajuntani-se os doìs appet- 
lidos Anna de Sa e Macedo. 

NaBceu Luìz de Camòes em Lisboa, no 
anno de 1524. Nao esiste um documento di- 
recto e authentico que fixe està data; os re- 
gistoa parochiaes «livros dos baptiBados com 
OS notnes dos padrinbos e madrinhast so fd- 
ram muito depoia d'essa data pelo Cardeal 
Infante Arcebispo de Lisboa D. Affonso esta- 
beleoidos nas freguezias da capital. Ha ape- 
nae inferencìas, que nos aproximam da ver- 
dade, convergindo todas para determinal-a. 
O cotnmentador Manoel Correa uotara qu« 
na estrophe 9 do canto x dos Lusiadas fize- 
ra o poeta urna allusào é sua edade; Manof' 
Severìm de Feria acceitou esse facto, e tirou 
Ibe as ilta^es. Yejamos a estrophe, do cant 
ultimo do poema, em que o poeta trabathari 
por 1569 a 1570: 

Vao OS annos deacendo, ojà do Esito 
Ha pouco que passar até Q Oulono; 
A fortuna me faz o engenho frìo. 
Do qual jà nào me jacto nem me abono. 



> Alvarà de 31 de Maio de 1682; Ementa, de IS 
de Novembre de 1582; e Alvarà de 5 de Fevereiro da 
1685. — Os linhagistas ignoraram estes documentos. 

Fedro de Manz, chama-lher *Aniia de Macedo, mu- 
Iher nobre de Santarem.» (p. 10.)^ — Severìm -.Annade 
Macedo (dos Macedos de Santarem.) O meamo o Unh» 
gista Jorge de Cabedo, e D. Nicotào de Santa Uaria 
Vhron., p. 290. 

O Dr. Wilhelm Storck por eala variante vulgarì» 
sima formou duas indìvidualidadea, fazendo uma a mai 
e OQtra a madrasta de Camóea. 






CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 155 



Oa desgostos me vao levando ao rio 
Do negro esquecimento e eterno somno; 
Mas tu me da que cumpra, oh gram rainha 
Das Muaas, com o que quero a Na^ào minha. 

Era uso corrente equiparar a marcha da 
▼ida fis quatro estagoes do anno; Manoel Cor- 
rea faz sobre a estrophe estas considera^des : 
«Tambem Luìz de Camoes divide em quatro 
partes n'este logar. A primeira edade, de ve- 
fào^ é té OS 25 ; a segunda, que se compara 
ao estio^ é té os 50, à qual chamam consi- 
stencia, porque n'ella està um homem em 
suas forgas; a do outono^ que é té os 70, na 
qual edade se colhe jà o fructo da vida; e a 
do inverno^ que é a que chamamos decrepi- 
ta. poeta via-se na edade de quarenta an- 
nos e mai8^ e n&o multo favorecido de prince- 
pee, merecendo-o elle tanto, cansado das ar- 
mas e enfadado com as letras, pelo qual ti- 
nha necessìdade do favor para proseguir sua 
empreza; e por isso invoca a Musa Calliope, 
qae Ibe de novas forgas e ajuda.» (FI. 264, j^.) 
Correa deixou a fòrmula vaga de quarenta 
annos e mais ; mas indicando a data em que 
Camoes escrevia esse canto x dos Lusiadas^ 
em 1570. (FI. 297 t-) em que o poeta confes- 
sa que jà tem potico que passar do Estio até 
OutonOt ou OS 50, os annos desciam da sua 
mèdia além dos quarenta e ciuco, apontando 
limite que o separava d'essa edade. Assim 
& 1570 tirando quarenta e seis annos, fixa- 
* anno de 1524, em que nascerà. ^ 



^ Seyerìm de Faria, nos Discursos varios politi' 
fL 10, applicou este processo de inferencia à data 



Souea, sobre uns apontamentos do Registro 
da Casa da India, que Ibe cheKaram às m&os 
em 1643; abi na Lista doa Homens de Ar- 
mas, que se inscreTeram para irem na Nfto 
S. Fedro dos Burgalezes em 1550, vem o 
nome do poeta com vinte e cinco annos. Par- 
tindo aa n&os da carreira da India na entra- 
da de Abril, està seguiu no 1." de Maio, tendo 
o poeta 25 annoa feitos, (cu comegados os 
26. que usualmente se contam 86 quando ter- 
minadoB.) Latino Coelho e o Dr. Storck fize- 
ram observat^óes fi aritbmetica de Faria e 
Sousa : iPois entào, cincoenta menos vinte e 
cinco dào vinte e quatro---* (p. 140.) Na 
Carta de perdSo passada a Luìz de Gamóes 
em 7 de Margo de 1653, pelo ferimento de 
Gonzalo Borges, ahi se le : <e elle he hum 
mancebo e pobre, e me vay este anno servii 
& India- . . > Isto d& urna base a que pouooc 
mezes tinha além dos vinte e cince annoe fei- 
tos. na sua primeira in8cripQ9o. 

Ha ainda ama terceira inferencia, para fi- 
xar o nascimento de Gamoes em 1524; na 
Cangào xi vem urna queìxa & fatalidade que 
o acompanhou desde o bergo: 

Quando vim da materna sepnltura 
De novo ao mundo, lo^o me fizeram 
Estrellas infelice», obrigado. 



da morte de CamSes {\&1Q, eegundo o Epitaiihlo erra- 
do) : *parece que nSo paaaou de cincoenta e etneo.* Tt- 
rando a esse anno de 1 679 — 65, temoa fixado a nase 
mento em 1624. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 157 

Gorreu urna temerosa prophecia pela Eu- 
ropa, que em Fevereìro de 1524 haveria um 
grande diluvio. E foi tamanho o terror em 
Portugal, que a rainba D. Leonor, no anno 
de 1523, mandou escrever pelo Licenciado 
Frei Antonio de Beja, da ordem de S. Jero- 
nymo, um opusculo contra o juizo dos astro- 
logos; o mesmo fez Carlos v, acceitando a de- 
dicatoria de um opusculo de Gristobal de Ar- 
008, refutando a aterradora prophecia, ^ que 
tanto alarmava os povos. Està circumstancia 
tao extraordinaria» de que ficaram manifes- 
tos documentos, n3o podia pela coincidencia 
do nascimento do poeta n'esse anno deixar 



^ Eis o titulo do folheto portuguez : 
Contra os juizos d08 astrologos. Breve tratado con- ' 
tra a opiniào de alguns ousados astrologos : q por re- 
gna de astrologia no bem entendidas ousam em pu- 
blico jnyzo dizer : que a quatro ou cinco dias de Feve- 
reìro do anno de 1524, por ajuntamento de alguns 
planetas em ho signo de Pìscis: sera grà diluvio na 
terra. Ho qua! tratado pera consolaQam dos fiees : fez 
e eopilou de muytos doutores catholicos e sanetos ho 
licenciado frey Antonio de Beja da ordem do bemaven- 
tnrado padre e doctor esclarecido da ygreja sam Hier- 
mimo; e foy per elle dedicado e oferecido aa christia- 
nissima senhora ha senhora raynha dona Lianor d' Por- 
tngal. Aqui veram tambem q cousa he astrologia : é os 
miiles e erros q causa sua incerteza e pouca verdade : e 
conio se no deve dar fé em nenhuma cousa aos astro- 
logos. Ho q tabem manifesta per ditos d' muy antigos 
e sanetos doutores. A qual obra se imprime por màda- 
de sua alteza. — German Galhard. (Tarja gravada 
madeira.) In-é.^' com 45 folhas, em caracteres go- 
C09, numersQao romana. Seguem-se duas paginas de 
iez; no verso da ultima as Armas reaes, com o se- 
mte oolophao: «Foi imprimida està obra a louvor 
la' e consola^am dos fieys; novamente em a ^idade 



i 



O Dr. Htorck accejtando a data do naBci- 
mento do poeta comò provada, ve na8 estret- 
lag infelices allusSo & orfandade do recem- 
nascido, e illogicamente concine: <Th. Braga 
tentou uma decifragào multo diversa qne 
é imposBÌvel acceitar. Julga reconhecer em 
aqueliss psiavras, que fattam tSo clarameate 
de infortunio pessoal, alluBoea geraea ao anoo 
de 1524, que teve os mais tremendos vatiol- 
nìoa, visto que alguns prophetas prognostìca- 
ram um diluvio resultante do ajuntamentoe 
conjuncQllo de todos os Planetas no signo de 
Plscls. — Pelo que sei, o tal desesperado prò- 



nobre de Lisboa, periìerinà Galhard&emprimidor, por 
mando da serenissima e niuito alta aenhora ha senbo- 
ra raynha dona Lianor, a sete dias de Har^ de mi! 
quinhentos e vinte e tres annoe • 

O folheto de Criatobal de Arcos intitula-se: BepT(h 
bacion nnevamente ordenada cantra la falsa prò- 
gnosticacion del diluvio que dicen gue serd el anno dt 
1524 por el aguntamiento y conjuneion de lodo» lo» 
Planetas en el signo de Piacta. 

E' dedicado a Carlos v, ho qual dirige as aeguin- 
tes palavras na dedicatoria: -00010 el autor del Almi- 
nac en la tabla del afio de 1524 haya dìclio y pronosti- 
cado que por el ayuntamiento y conjuneion de los Pla- 
netas en Piscis, sera indubitable mutacion... en todo 
el mundo. . . base divulgado por todo el vulgo comma- 
Diente una adivinanza y opinion que bade ser un mnj 
grande diluvio. . . y de està causa uiuchos ya tieDea 
seilalados montes muy altos donde se suban, otros ha- 
cen arcas ó nàoa, otros casas y baluartes para se esca- 
par de tan gran diluvio ; assi que, por aeegurar y qai 
tar de temer tantas gentes y naciones, hioe y orde"' 
este tratadlllo.i (Deacripto por Gallardo, Énaayo 
una Bibiiotheea espanota, 1. 1, p. 296.) 



r 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBUA 159 



gnostico de 1524 nao se realisou em Portu- 
gal. — As estrellas infelices do nosso Poeta 
nada tdm com estas ineptas prophecias.» ^ 
Pelo facto de se nào realisarem os prognosti- 
008, nem por isso os terrores populares dei- 
xaram de produzir-se em todo o anno de 
1523 ale o Fevereiro de 1524. a ponto de 
intervir com o seu piedoso influxo a rainha 
D. Leonor, viuva de D. Joao u e tia de 
D. Joao III, para o licenciado Fr. Antonio de 
Beja escrever o opusculo Contra o juizo dos 
Asirologos. Storck desconhecia o documento 
portuguez; e sendo o successo tao notorio 
em Portugal, nada mais expressivo para a 
CanQào autobiographica de Camoes, do que 
tomal-o pelo azìago presagio cerno marco des- 
ditoso do anno do seu nascimento. ' 

Mas n'essa assombrosa CanQào, ha outras 
referencias & inf ancia do poeta. Por ventura 
seria o seu nascimento abortivo, por effeito 
d'esses mesmos terrores? Lè-se na Cangào: 

Fox minha ama urna fera; que o destino 
Ndo quiz que mulher fosse a que tivesse 
Tal nome para mi; nem a haveria. 
Assi crìado fui por que bebesse 
O veneno amoroso, de menino. . . 



1 Vida e Obras de Camoes, p. 151. Trad. de D. Ca- 
rolina Michaèlìs. 

* No anno de 1524, corno se sabe pelas Provisoes 
> 15 de Julho, 9 e 13 de Agosto e 18 de Outubro, re- 
(tìram-se os casos da terrivel peste de 1523, em que 
I fizeram dois ceraìterios fora de Lisboa, continuando 
ap^ravar-se em 1525, a ponto de quasi se despovoar 
(ddade. A phrase Estrellas infelices tem um sentido 
»Ì8 que pessoal. 



Està vers3o tira todo o sentido fìgurado fi 
io antecedente, d'onde se concine que o 
3ta foi amamentado por urna alimarìa; e 
ido em 1585 ainda viva sua mSe, muito 
ha e muito pobre, ve se que teria casado 
' 1522, em edade em que o parto earìa 
ÌB que laborioso. D'ahi a consequencìa da 
amentagSo nSo materna e o ficar unige- 

0. 

O Dr. Storck considera pouco vulgar a fi- 
*a do verso: Quando vim da materna se- 
'tura, — e diz que a -interpreta^So qae 
Ditte é «està unica: que o nascimento de 
ndes custou a vida a sua mSe.* * (Op. cit.. 



^ Para comprovar que o poeta ficara sem mSe, al- 
; a eBtrophe da Endecha que cometa : 

Naoieodo mesquirìo 
Dolor Tue mi carnai 
Trtsteza fuè el ama, 
Culdado el padrino. 
Veatioae ventura 
N'egra Tsstidura; 
Hnyd la ventara. 

(Vida, p. 167.) 

EbU Endecha é feita eobre nm typo popnlar enli< 
to em vo^a na córte portugueza e heapanhola, tn 
I em musica e no ]yrìBmo quiahentlsta. Appareoe: 



CAHÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 161 



p. 150.) A materna sepultura é phrase bibli- 
ca vulgar; Bocage emprega-a em um bello 
soneto, tendo elle perdido sua mae aos dez 
annos de edade: 

Do carcere materno em bora escura, 
Em momento ìnfeliz, triste, agoìrado, 
Me desaferrolhou terrivel Fado, 
Meus dias commettendo a desventura. 

Perìgosas sementes de ternura 
Havìa o Deus feroz em mim lan^ado, 
Que mil azedos fructos tem brotado, 
Regados pelos prantos da amargura. 

(ObraSy t n, p. 26; ed. 1849.) 

E o que mais impressiona, é Camoes con- 
fessar o seu precoce temperamento amoroso, 
na edade inf antil : 

E para que o tormento conformado 

Me dessem com a edade, quando abrìsse 

Inda menino os olbos brandamente, 

Mandam que diligente 
Um Menino sem olhos me ferisse. 

As lagrimas da infancia jà manavam 

Com uma saudade namorada ; 

O som dos gritos que no ber^o dava 

Jà corno de suspiros me soava. 

Co'o Fado estava a edade concertada, 

Porque, quando por 'caso me embalavam, 

Se de amor tristes versos me cantavam, 

Logo me adormecia a natureza ; 

Que tao conforme estava co'a tristeza. 



G doneiro de Ledesma, nos versos de Pero de Andra- 

d 3aminha, nas allusoes de Antonio Prestes ; por isso 

^ Camoes nao tem urna expressao pessoal e intima, 

CI valor autobiographico, mas o fornecer a letra para 

^ melodia apreciada na córte. 



162 HISTORIA DA LITTERATURA FOBTUOUEZA 



O biographo alIemSo em certo modo josii- 
fica o epitheto de fera dado por Camoes § 
«mansa ovelha ou cabra domesticada» apon- 
tando em Petra rcha (Canzone xi, 29): c/a 
fera bella e mansueta»; e no Son. ci: «e 
questa umil /era» ; e notando as imitagoes ca- 
monianas : fera formosa (Ele^. vili, 4) ; fera 
suave e formosa (Can<j. xii, 70); e fera hu- 
mana. (Son. 75.) * 

Este temperamento erotico dos grandes 
poetas, confeRsado por Camdes e Bocage, 
Garrett o deflne n'estas linbas autobìogra- 
phicas das Viagens na minha terra: e Este 6 
o unico privilegio dos poetas: que até mor- 
rer pódem estar namorados; tambem n&o 
Ihes conheQO outro.» (Gap. xi.) A saudade na- 
morada» de que eram expressao as lagrimas 



^ Tendo concluido o Dr. Storck pela sua interpre» 
ta^ao concreta: tgue o nascimento de Camdes custou a 
Vida a sua mde*, o que està em contradiQào com o Al- 
vara da tenga de 1585, que dà D. Anna de Sé, sobre- 
vivente a seu filho, e multo velha, recorreu à aegointe 
e gratuita ìnferencia : que D. Anna de Sa é urna perso- 
nalidade differente de urna Dona Anna de Macedo, que 
na sua conjectura morreu de parto! Transcrevemos as 
suas palavras: «sòmos levados pelos factos aatfirmar, 
embora pareva ousadia, que Anna de Maeedo^ mae do 
poeta, morreu ao dar à luz o seu unico filho Luìz Yaz, 
e que Anna de Sa, segunda mulher de Simào Vaz, era 
pertanto a madrasta do Poeta. Està conjectura remove 
de vez todas as difficuldadeB.» (Op. eit, p. 158.) 

Ora, a Ementa de 18 de Novembre de 1582, traz 
— Ana de Sa mày de Luiz de Camdes, O Al vara de '^l 
de Maio d'este anno^ transfere a tenga a ^Anna de i 
mài de Luiz de Camoes. . . muyto velha e pobre^ ; e o 
Al vara de 6 de Fevereiro de 1585, vem *Anna de i 
mulher do dito Simdo Vaz e mày do diio Luùs de < k 
moes. . . > Nào ha logar para ooajecturas. 



' I 

I 

I 
I 

I . ! 

I CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 163 i 



, da infancia, os suspiros que se evolavam dos 
grìtos DO berQo, Camoes os considera corno a 
revela^ao da fatalidade que Ihe impulsionou 
a Vida. N'esta passividade affectìva elle se 
tornou um representante do genio portuguez 
pela sua personalidade. Jorge Ferreira de 
VasconcelloSy em urna scena da comedia Eu- 
frosina^ deacreve este caracter amoroso dos 
portuguezes : 

<E nSo me negareis ser està a principal 
incIinaQSo portugueza, e d'està Ihe veiu a ca- 
valleirosa opiniSo e primor que tem sobre to- 
dos ess'outros, e estimarem as mulheres so- 
bre todos. Porque o enganoso italiano dissi- 
mula o amor, louva a sua dama por trovas, se 
a alcanga logo a encerra e tem comò cativa, 
se desespera alcangal-a, diz mal d'ella e quer- 
Ih'o. O alegre francez trabalha contentai* a 
por serviQOB, cantigas e festas; vendo-se su- 
jeito chora, corno a alcauQa logo a despresa, 
e busca outra; se a n3o póde ha ver amea^a-a 
e ?inga-8e se póde. O frio àllemào ama bran- 
damante, segue com enganos e peitas, caso 
que deseje n9o se sugiga, alcangando-a es- 
Irìa-se, se a nSo alcanna esquece-se desesti- 
mando-a. S6 o portuguez^ àmego e timbre 
dos hespanhoes e grimpa de todas as na<^es, 
corno atilado, gentil, galante e nobre esposo, 
oompadece todos os effeitos de amor puro, 
nSo oonainte mal em sua dama, n&o soffre 
T8^8e ausante d'ella, busca de noite e de dia 
ide e comò a veja, queria sempre estar com 

I la, emagrece com cuidados e m& vida, muda 
da a mft condigSo em boa, queima-se por 
>ntro em penaamentos, que humilde repre- 

' Ita em lagrimas e suspiros, sinaes de ver- 



dadeira d6r. Em todo o ieu querer unìdo e 
conforme com o d'ella, constante na sua fé, e 
chama sempre por ella em Buas affrontas, 
corno a atcanQa nunca a deixa até 6 morte, e 
assim a faz senhora de si mesmo ; n3o preten- 
de proveito, salvo o d'ella, pelo qual commet- 
te fouto todoa OS perigos ; nem dormìndo perde 
d'ella lembram^a, antee n'isso se deleita, de- 
terminando viver e morrer com ella; se deee- 
epera matase ou faz extremos mortaes, tudo 
isto e multo mais se acha no bom Fortu- 
guez, da sua naturai constella^So apurado no 
amor...» (Act. v, se. 5.) Um outro grande 
poeta portuguez, D. Francisco Manoel de 
Mello, tambem experimentatmente chegou à 
mesma conclusao, e apoiando-se sobre o tes- 
temunho doe estrangeìros consigna-o: to nos- 
so naturai e. entre as mais na^óes conkecido 
por amoroso -■■ * * Cervantes, que esteve al- 

funs annos em Portugal, diz na sua novella 
e Persiles y Sigismunda, que era iquasi 
costume morrerem de amar oa portuguezes.y 
Este, ethos, que Gii Vicente formulou em um 
BÓ verso, nas Cortes de Jupiter: «Sao extre- 
mos nos amores,^ ' Camòes o reconhecea em 
si desde a primeìra infancia, quando o emba- 
lavam com versos de amor. 

Està mesma precocidade se encontra em 
Dante, namorado de Beatriz da edade de 
nove annos, quando a viu passar bianco ves- 
tita. SSo estas affeigoes da infancia que dei- 
xam na alma do artista esses th'ezouros inP 



Epanaphora» da Historìa portugueza, p. 2 
Obras, t. ii, p. 416. 



CAHOES — EPOCA, VIDA E OBRA 165 

Dit08 de emoQoes ingenuas que as recorda- 
Qoes vivificam poeticamente, que a crìtica e a 
edade nao desnaturam, e d'onde tiram todo 
colorido que ha de verdade e realidade nas 
suas obras. Alfieri escreve d'estes precoces 
transportes da infascia: ^Effeti che poche 
persone intendono e pochissime provano ; ma 
a che soli pochissimi e consesso l'uscir dalla 
falla volgare in tutte le umane arte,^ By- 
ron e Canova chegaram a confessar que es- 
sas primeìras impressoes da infancia ficaram 
sempre puras através de todos os lances da 
existencia, allumiando com a luz suave de 
urna feliz realidade o que ha de triste nas 
creaQoes. Mozart, tambem na infancia, na 
venturosa ignorancia das etiquetas palaci a- 
nas, fallava de amor às archiduquezas da 
córte de Vienna de Austria. Em Goethe nào 
poderam as syntheses philosophicas do Faus- 
to apagar a primeira emoQào do amor que 
eternisa o quadro da seducgao de Margarida. 
Por esse determinismo organico, e caracteris- 
tico da raga, Camoes presentia que o amor o 
devia elevar acima do vulgo, darlhe um 
ideal de actividade, tornalo grande: 

Eu vi via do cego Amor isemto, 
Porém tao inclinado a viver preso, 
Qae me dava desgosto a liberdade ; 
Ùm naturai desejo tinha acceso 
De algum ditoso e doce pensamento, 
Que me illustrasse a insana mocidade. 

(Gang, viu.) 

Com està organisa^So e instincto desen- 
vidos pelo genio nacional, Camoes tornou- 
"^esde multo crian<;a um gran maestro 



166 HisTORiA DA littera: 

d'amore; a cultura litti 

caBuÌBtica Bubjectiva da 

aioda conservada na tre 

KOS Cancioneiroe prover 

do secalo xiv. ' Nao é e. 

estudo doB aBcendentea do poeta, cuja fami- 

lia tara por tronco em Portugal um trovador 

da Galliza; nem mesmo o problema da sua 

naturalidade, em que evolucionou a fioratalo 

da infancia. 

A naturalidade de CamÒes tem sìdo um 
problema para db seus biographoa, teroando 
una por Lisboa, outroa por Coimbra, entran- 
do tambem na liga mantenedores por Santa- 
rem e Alemquer; succedeu-lhe comò a Ho- 
mero: 

£896 que bebeu tanto da agiia Aonia, 
Sobre quem tem contenda peregrina 
Entre bì Rhodea, Smyrna e Colophonia. 

(Lus., V, 87.) 

O testemunho mala antigo e admìttido 
corno decisivo é o do licsnciado Manoel Cor- 
rèa, que no commento & primeira estancia 



* No Caneioneiro da Vaticana existem cineo Can- 
(òes do trovador Joham Nunee Gamaties, n.« 252 a 
266; e no Caneioneiro Galocci-Brancuti, conaervam-Be 
mais trea, n."- 209 n 211, d'este mesmo trovador, Eni- 
bora se nào possa decìdir, conio opina Storck, ae eate 
trovador Joham Nunes Camanea, «da pleiada doa poe- 
taa dionjaioB, pertence ao tronco CamÒes, > (Vida, p. 
96, nota 3.) é elle na realidade um doa representantead 
lyrismo galecio-portuKuez, que vJeitara a córte de D. D 
niz quando ella era um centro hegemonlco de loda 
actividade poetica penìnsular. Camanes é urna fórm 
patronimica de Camano, corno apparece nas genealc 
gias. 



CAHÒSS — EPOCA, VIDA E OBBA 167 

do8 Luaiadas affirma categoricamente: cO 
Autor d'este Livro foy Luiz de Camoes, por- 
tuguez de nagào, nascido e creado na cidade 
de Lisboa, de paia nobres e conbecidos.» Cor- 
rèa allude à ìntimidade que tinha com o 
poeta ^segundo tinhamos estreita amisade.T^ 
(Cant. IX, st. 59); e faz alarde das suas con- 
▼ersas: ^e eu em sua vida pratiquei ìsto eom 
elle. . .> A asserQào de Correa foi seguida por 
Manoel Severim de Faria e depois por Ma- 
noel de Faria e Sousa, apoiando-se no Assen- 
to da Casa da India, de 1550, em que se Ha: 
«filho de Slmaò Vaz e Anna de Sa, morado- 
res em Lisboa, à Mouraria.» Na Carta de per- 
dio de 7 de Mar^o de 1533, o pae do poeta 
vem designado corno Cavalleiro fidalgo, mo- 
rador em a cidade de Lisboa; vé-se que pela 
sua categoria era obrìgatoria a residencia 
na capital, e embora fòsse naturai de Coim- 
bra, p^Io seu casamento aqui estabeleceu do- 
micilio, mesmo comò capitào de mar e guerra 
da India. Tudo isto justifica as palavras de 
Manoel Correa: nascido e creado na cidade 
de Lisboa. Outros biographos, corno D. Fran- 
cisco Alexandre Lobo, ainda recorrem a argu- 
mentos tirados dos versos do poeta, corno os 
da Elegia iii: «mas o poeta parece declarar 
a sua naturalidade na Elegia ni, em que de 
certo modo se diz desterrado da patria, ao 
mesmo tempo que é constante que a escreveu 
andando desterrado de Lisboa.» ' Storck con- 



* D. Francisco Alexandre Lobo, Obras^ t. i, 29. 

carta publicada por Innocencìo Francisco da Silva, . 

Gazeta setobalense, com data de 15 de Septembro | 

^872, sobre este problema, lé-se : i 



de Mariz arrematfira em leflfio maDdado fa- 
zer pela Legacia, qSo emendou o facto da na- 
turalidade de Lisboa, que contradictava a li- 
sonja que Beis annos antee fìzera a Coimbra. 
Nào foi ìsto devìdo a esqueci mento, maa a 
mudanoa de opiniào, reduzida ao facto com- 
provado, de eer Camòes «oriundo de Goim> 
bra peloB ascendentes, mas nascido na cida- 
de de Lisboa.! ' As mesmas relagòes dos aa- 



tPara mim a patria de GamSee é indubitavelment 
Lisboa. Entre as muitss rasóes de congruencia queaf 
sim m'o persuadem, nao é daa menoa atlendiveis o 
talvez prepondera aobre todas, equivalendo quasi 
prova testemunhal, a auctoridade de Manoel Correi 
contemporaneo e ami^o do poeta, ao qual tratàra d 
perto, e de quem positiva mente affirma ser elle aqi 
nascido. Para invalidar utn testemunho tao valioe 
quanto insuBpeito, haver-se-iam mister (ao menos ai 
sim o creto) argumentoa mais concludentes que ob al 
agora adduzìdos pelos que se declaram a favor de ot 
tras naturalidades.* iNa Obra monumentai de CamSa 
I, p. 11.) José do Canto, na CoUec^ào camoniana,p.i 
Jì." 18, comprova-o cabalmente, 

> Vida e Obras de CamÒes, p. 112. 

> Juromenha, Obras de Camòes, 1. 1, p. 10. O D. 
Wilhelm Storck adoptou a naturalidade de Coìmbra, 
dedicou a sua Vida e Obras de CamSes: A' Cidaàe e 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 169 

oendentes de Santarem e Alemquer, por mal 
interpretadas deram logar às lendas que vèm 
confundir o facto positivo da naturalidade de 
Camdoa. 

Ao alludir & sua ascendencìa de Coimbra, 
importa conhecer a individualidade de Dom 
Bento de Camdes, tio do Poeta, e que tanta 
influencia exerceu nos seus prìmeiros estu- 
dos, mesmo no desabrochar da sua adolescen- 
da. Quando Jorge Cardoso escrevia o seu 
Agiologio Lusitano^ na Nota e, a 4 de Janei- 
ro, consignou: «Por mais que nos cancemos, 
nanca pudémos descobrir com certeza a pa- 
tria do servo de Deus Dom Bento. Achamos 
porém indicios de ser Coimbra. E o que 
mais é, que foi d'aquelles antigos Conegos, 
que vivendo na largueza da claustra, se quiz 



Coimbra (onde o Poeta naaceu e se creouj e no Sexto 
Centenario da Universidade (1290-1890.) 

^ Eia o seu argu mento : «O que me move a decìdir o 
pleito sobre a naturalidade de Camoes a favor de Coim- 
bra, é, emprimeiro logar, o facto de o livreiro da Uni- 
versidade Domingos Fernandes affirmar positivamente 
em letra redonda (na Dedicatoria das Rimas de Luiz de 
Gamòes, por elle editadas a sua custa em 1607, e diri- 
gidas aquelle inclyto estabelecimento) que o Camòes 
nasceu, se criou e estudou na cidade do Mondego, sen- 
do pertanto coimbrào : = por nascimento e creagào, por 
officio e por obrigaQào; = e isto antes de Mariz, Correa 
e Severìm se terem pronunciado. Diz elle, depois de 
enaltecer os meritos da cidade : = fÓ8tes tambem a mes- 
r* para com o vosso grande Luiz de Camòes, pois 
n 3endo eUe n'essa vossa cidade de Coimbra, a vosso 
P 3 comò màe naturai o criastes tantos annos : com 
^ .a doutrina corno Mestra o ensinastes algus, e com 
' JOB louvores comò fiel amiga, o honrastes tantas ve- 
I a quem senio a vós se deve encommendar està 
I '^^^ao de bum vosso filho, discipulo e amigo, e 



HISTORIA DA LITTERATDl 



eepontaneamente Bugeitar 
vancia de unta asperrima 
principio no resi Convento 
mesma cidade, Dom Fr. E 
ligioBo da Ordem de S. Hi 
ro Bìspo de Leiria, eoi : 
1527, por mandfido de et-i 
auctoridade apostolica; e 
eleito eoi primeiro Prelado 
dre D. Bento, e confìrma 
transito foi em 4 (alias 2) e 
comò se le nos livros novo 
Congregai;So e de outras r 
em 2 de Janeiro, corno o 



mais sendo elle jà morto, para 
e ainda vìvo para poder ser offe 

Dr. Storck voltaaapoiar-: 
ascendentes de Camòea viverer 
fesBando a falta de documentog ; 
do livreiro Domiii^os Fernandi 
questào, a meu vèr, o facto di 
Gamòes em Coimbra, durante i 
Qào constante do poeta pela cidi 
ultimo, OB versos autobiographi 
iOp. cit, p. 114 e 117) A lends 
zida a lisonja banal de Domingo 
de Livroa, que esteve feitoriaar 
Livraria da Univeraidade. Quan 
Fernandes imprimìu em 1618 o 
noel Correa aos Lusiadas, nem 
cense Fedro de Mariz, bacharel 
raór da Livraria da Unlversidac 
firmado pelo licenciado pelo mi 

Tambem o Dr. Joào Teixeii 
portantea estudos Coisaa can, 
ideia da naturalidade de Alemqi 
que oB trechos poeticos, que < 
ttieae. 



GAHÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 171 

to do Obituario: Quarto nonas Januarii^ 
obiil BenedictuSy Presbyter S. Crucis, qui 
fuit primìis Generalis nostrae Congregatio- 
nU. ^ Como na refórma da Universidade trans- . 
ferida para Coimbra em 1537, os Priores de 
Santa Cruz eram simultaneamente Cancella- 
rios da Universidade, D. Bento do Camoes, 
que fora eleito no primeiro Gapìtulo de 3 de 
Maio de 1539, foi nomeado por D. Joao iii, 
por carte de 15 de Dezembro do mesmo anno, 
Gancellario da Universidade, acompanhando 
08 trabalhos da recente installagao. N'este 
alto cargo litterario é facil de reconhecer a 
influencia que exerceria na cultura do sobri- 
nho, o prococe Luiz Vaz ; mesmo o seu espi- 
rito mystico communicou ao poeta as lendas 
maravilhosas do primeiro rei de Portugal, 
que entraram nos Lusiadas. Memorando o 
passamento de D. Bento de CamSes, escreve 
Jorge Cardoao: «Era Sancta Cruz de Coim- 
bra, a morte do R. P. Dom Bento, varao em 
todo o genero de virtudes excellentes, a quem 
D. Fr. Braz de Bairros, (primeiro Bispo de 
Leiria), reformador d'està Congregagào en- 
tro todos aquelles relìgiosos escolheu por be- 
nemerito do Generalato; no qual procedeu 
oom grande modestia e affabilidade. Estando 
pois um certo dia recitando algumas devo- 
Qoes (corno costumava) dian|;e do sepulchro 
do S. Rei D. Affonso Enriques, Ihe appare- 
cen glorioso, dando-lhe as gragas de quam 
ei <)tlentemente se havia portado no cargo. 



i Juromenha, Obr., t. i, p. 488. que cita o Diario 

I H >noo de D. Ignacio de N. S. da Boa Morte. 



l 



E ]& póde ser, 
do seu transito 
restaram de vi( 
<;So, corno se fd 
AnteB da re 
de Santa Cruz 
D. Bento de Ga 
o rigor discìpl 
muìto comprazt 
de UDÌ terremot 
1526, a Córte 
seguinte de 15 
terrivel peste, « 
]*o. Dom JoSo 
achavam-se eoti 
OS fidalgoB da 
num Medecinai 
la-se da peste c< 
e Santarem em 
cente falla d'es 
residindo entào 
po que a córte : 
tavam as distr 
poderem dar-se 
de Almeirim, e 
Coimbra, cujos 
sas para os trat 
za. Sa de Mira 



>■ Agiologia h 
testemunha quante 
do Paria de noticia 
ca da naturalidade 
o sentìdo ambìguo 
Vaz de Gamòes, fai 
Lisboa. 



CAMOE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 173 

da sua viagem à Italia, e tivera a honra de 
fazer a Falla de recepQao do monarcha em 
Goimbra, em urna Carta em redondilhas a 
Pero Carvalho verbera esses parasitas corte- 
zios: 

Fostes mal agasalhados ? 
Certo, nào ; que té as fazendas 
Vos davam parvos honrados. 
Pois qne ? Porque os privados 
Tinheìs loiige vossas rendas. 

Simao Vaz de Camoes, que tinha em Coim> 
bra a casa ou solar herdado de seu avo Joao 
Vaz de Camoes, nao deixaria de acompanhar 
a corte n'aquelle seu exodo; seria elle um 
d'esses parvos honrados que dispendeu a sua 
fazenda com os descontentes privados. Pelo 
menos podemos esplicar assim sua pobreza, e 
a gra<;a de cidadào de Lisboa, que Ihe fez o 
rei em 4 de Outubro de 1829. Para distrahir 
a corte foi Gii Vicente a Coimbra represen- 
tar a FarQa dos Almocreves, e a tragicome- 
dia da Divisa da Cidade de Coimbra, Como 
fundador do Theatro portuguez estava en- 
tSo residindo em Santarém, nada mais natu- 
rai do que as suas relaQ5es pessoaes com o 
fidalgo coimbrào Simào Vaz, casado com uma 
mulher nobre, dos Macedos de Santarem. Na 
Farqa dos Almocreves allude rapidamente a 
um Simdo Vaz, bastante caloteado pelo Fi- 
dalgo pobre : «Peor voz tem Simdo Vaz — 
T' Bzoureiro, e capellSo...» De facto Simao 
\ ^ \ tinha cargo administrativo nos Arma zeus 
d Guiné e India. Tambem se achava entào 
I e Coimbra Jorge Ferreira de Vasconcellos, 
I e I allude na sua Comedi a Eufrosina a tei a 



r 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 175 

E' tambem na Gan^ao iv, que o seu tem- 
peramento erotico se denuncia em urna psy- 
choee amorosa fugitiva, mas que o impelle 
para a idealisa^ào poetica : 

Àllì se Die mostraram 

N'este logar ameno, 

Em que inda agora mouro, 

T^sta de neve e d'ouro ; 
Rìso brando e sua ve, olhar sereno, 

Um gesto delicado 
Que sempre n'alma me estarà pìntado. 

Està paix3o incipiente suscitada ao con- 
tacto de ingenuas formosuras, nasceu por 
aquelle motivo que o poeta reconheceu nos 
8608 versos: «Conversa^So domestica affei- 
fòa.» Em Coimbra vivia o terceiro ramo dos 
filhos de Vasco Pires de Camoes ; ^ e s&o con- 



^ A linhagem do terceiro filho de Vasco Pires de 
Camoes, é a que envolve as homonymias écerca da pa- 
temidade do poeta, Simdo Vaz de Camoes, e do seu 
avo Jodo Vaz de Camoes ; 

Constanga Pires de Camoes, casou com Fedro Se- 
verim, naturai dò bispado de Senlis, em Franca, o qual 
vdu para Portugal, depois de ter estado em Oeuta com 
D. Joio I ; tiveram : 

Maria Annes Severim ; 

Gaetana de Gamòes, mulher de Alvaro do Tojal, de 
qnem nao teve filhos ; nomeou em duas vidas umas ca- 
ns em Mataporoos em Fedro Alves de Gamòes, filho 
de sua Irma Margarìda de Gamòes e do licenciado Al- 
varo Pires. 

— Margarida de Camoes. fVid. infra,) 

Mafia Annes Severim, casou oom Gii Annes de Oli- 
^ "% de quem teve : 

Joio Gii Severim ; 

Ascencio Severim ; 

Belchior Gii Severim. 

loào Gii Severim, casou com Isabel Gon^alves de 



teniporaneos ao poeta, os liinos de Margari- 
da de Camòes, Joào Vaz de Gamòes, que foi 
escholar de Diretto, e Pero Alvares de Ca- 



Pina, fìlha de Lopo Fernandes de Pina, e irmà do Chro- 
nÌBta-mór Ruy de Pina; da qual houve; 

Antonio Gii Severim, 

Gaspar Oil Severim, que morreu na India solleìro. 

D. Ignez de Cauióes, mulher de Manoel Pegado, 
que foi a India por CapItSo de Sofala. 

Casou em segundas nupcias coni Violante 
M acedo. 

Antonio Gii Severim, aerviu muìtos snnosns 
e se achou no segundo Cérco de Diu, que de 
D. Joào de Mascarenha^ Foi Executor-mór. Caa< 
Gaetana Lopes, de quem houve: 

Gaspar GJ! Severim ; 

Belchìor Gii Severim ; 

D. Angela de Sequeira, morreram meninos. 

Gaspar Gii Sevsrim, eerviu nas armadaa da 
G seguiu o Prior do Grato ; casou com D. Ant( 
Faria e Vasconcellos ; tiveram : 

Antonio Gii Severim. a. g. 

Francisco de Faria Severim; 

D. Mìcliaela de Vasconcellos, que morreu mi 

Casou aegunda vez com sua prima Juliaua 
ria, fìlha de Duarte Frade de Farìa e de uma i 
Maria Severim, da qual teve: 

Manoel de Faria Severim, chantre da Sé de 
que eacreveu uma bìographia de CaniÒes nossei 
cursos varios politicos, e foi um dos maiores ei 
do seu tempo. 

Frei Christovam de Lisboa, frade Gapucho. 

D. Joanna de Faria, aegunda mulher de D. 
tovam Manoel. 

Pedro Severim de Noronha. 



— Margarlda de Pina, filha terceira de Gon 
Pìrea, e de Pedro Severim ; casou com o liceacia 
varo Martina Pire8;teve: 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA B OBRA 177 

m5e8. Seria talvez a lenda dos amores de 
urna prima^ que chegou ao conhecimento de 
JoSo Finto Ribeiro, originada d'esses inge- 



Joao de Oamoes ; 

Fedro Àlvares de Caraoes, em quem sua tìa Gae- 
tana de Gamoes nomeou a casa de Mataporcos, em 
1539. 

Joào Vaz de Camoes, fez o Morgado de Alemquer; 
mia em Goimbra na sua casa da Porta Nova, rua que 
terminava no Gliào de Joanne Mendes (onde posterior- 
mente se edificoa o GoUegio da Sapìencia) e é hoje a 
ma dos Goutinhos. (Jomal Heraldico, n,^ 3.) D'este 
Joao Vaz de Gamòes se encontram documentos no car- 
tono da Sé de Goimbra, que publicou Ribeiro de Vas- 
ooncellos no InstUuto de Coimbraj voi. iii, n.<* 11, de 
1854: «Poi Joào Vaz de Gamòes (que d'alcunha chama- 
Yam alguns Joào Vaz de Villa Franca) fidalgo e cida- 
dio d'està ddade, e jà em 1602 niella vivia; porque 
em 9 de Janeiro d'este mesmo anno elle renunciou a 
terceira vida que tinha em um praso no sitio de Alvor, 
perto d'està cìdade e do senhorio directo d'este Gabi- 
do, a favor de sua mulher Catalina Pires, e para um 
filbo on filha d'entre ambos (Liv. 4 de Emprazamentos 
da Cathedra!, fi. 175); e n'este documento se designa 
dito Joào Vaz por Escholar em Direito, e morador 
n'esta cidade. — Nào apparece d'este anno em diante 
{ÌÒ08; Livro do Azeite, de 1505) — mais o nome da dita 
(kMina Pires; talvez falecesse pouco depois, porque 
em 1528 acha-se nomeado este mesmo Jodo Vaz de 
Camoet, escudeiro, cidadào, morador d'està cidade, 
casado com sua segunda mulher Branca Tavares. (Liv. 
7 dos Emprazamentos, fi. 222.) 

... «Joào Vaz tendo tido do primeiro (matrimonio) 
SìHiào Vaz de Camoea, achamos o mesmo Joào Vaz a 
< tractar em 1530 com seu Irmào Pero Vaz^ morador 
^a de Lagos, reino do Algarve, escudeiro do Gonde 
Monsanto, a renuncia das Gasas que este possuia 
Ila dos Goutinhos a seu favor e de sua mulher 
nca Tavares, e para um filho ou filha d'entre am- 
qual o derradeiro nomear em terceira vida, ex- 



HIStORIA DA LITIBBA: 



Duos e primitìvos amores de Goimbra? A eda- 
de obrigava ao trabalbo; e sendo a admiesSo 
aoB estudos dos Collegios de Santa Cruz aos 



cluindo d'està sorte eeu primogenito Sìmfio Vaz. D'est» 
arte viu psaaar a casa paterna aos irmàos do segando 
matrimonio ; entre os quaes foì Isabel Tavares a no- 
meada por BUCcesBora. . . 

• Faleceu Joao Vaz pouco mais ou menos em 1650, 
pois que em ? de maio d'este anno se aeba nma eaorì- 
ptura de rcnovai;ào de vidas a favor de. sua filha Ièo- 
bel Tavareg, (Liv. 9, fi. 167) moradora n'eeta cidade 
em casa de sua tta (irm3 de sua mie) Philippa Taya- 

Este fìdalgo coimbrào SimSo Vaz de Cam3«fi figu- 
ra nos documcntoB officiaes desde 1563 até 1676, jus- 
tamente quando o pae do poeta nào é mais nomeado. 
Pelas datas d'esses documentos v€-Be quc era da atea- 
ma edade de Luiz de Gamoee, e dotado de egual cara- 
oter turbulento, obedecendo amboa a ex tra ordina ria 
manìa da sociedade aristocratica do seculo xvt em Por- 
tugal e Kespanha, a Valentia. Emquanto o poeta 
lava preso em Lisboa por ter ferido o creado do 
Gonzalo Borgen, Stmao Vaz de Camoes, seu primo, 
trava & for^a no mosteiro de Sant'Anna, em Goimt 

§e]o que era remettido sob priBào para Lisboa. (Ci 
o Corregedor da Comarca de Coimbra, de 25 de 
nho de 1553) sendo depois sentenciado a degredo i 
petuo para o Brasil e a pregio com cadeado ao pé, 
que obteve perdSo, (Alvarà de 12 de Agosto de 16 
nào podendo comtudo apparecer a dez teguas em Ti 
de Goimbra. 

Por um Assento da Verea^ao de Coimbra, <3I de 
Juiho de 1663, fi. 61) d&-ae Simào Vaz de Camoes ca- 
sado pela prìmeira vez em 1662: <que postoque o d'*" 
Simào Vaaz cosasse ho ano paaaado, disBeràoqnef^ 
doente e nào podera até o presente servir o dito oi 
ciò de almotacé, nem ter casta apartada sobre si e i 
tar com seu sogro, e por quanto agora estava sSo 
bem desposto, e come^ava de ealr por fora e and 
pela cidade e ter casa apartada sobre si, o elegerào o 



CAMÒBB — EPOCA, VIDA E OBRA 179 

doze annos, corno affirma D. Nicolào de San- 
ta Maria, (Chr., p. 413) é justamente no anno 
de 1537, em que attingira Camoes os doze 



forme a Ordenagào por ser casado novamente^ dos hon- 
rados da terra > Para nào ser eleìto almotacé de Ooim- 
bra, alcanQou Simào Vaz de Camòes o Al vara de 10 de 
Dezembro de 1563, isemptando-o por ser a este tem- 
po Procurador do Collegio de San Thoraaz, de Coim- 
bra. Apesar d'isto foi eleìto almotacé por determinagào 
de am Alvarà e Carta regia de 15 e 24 de Margo de 
1567, no qual se allude a sua prisào de 1553. Na Ve- 
reacào da Camara de Coimbra, (1 de Outubro de 1567, 
fi. 57 t) foi eleito almotacé d'este mez com Antonio de 
Àlpoim, conseguindo ser isempto d'estas obrigagòes 
por carta de 16 de Janeiro de 1568. O almotacé Joào 
A^res fez queixa à Camara de ter sido espanoado por 
Simlo Vaz de Camoes e por seus criados, pelo que se 
mandoa proceder, por Provisào de 16 de Maio de 
1876. (Vide Indices e Summarios dos Livros e Doctir 
menios da Camara de Coimbra, P. ii, Fase, i, p. 5, 
noi 2.) 

Este SimSo Vaz de Camoes, foi considerado pae 
de Luiz de Camoes, em. 1854, por Miguel Ribeiro de 
Vasconcellos ; e em 1860, o visconde de Juromenha col- 
ligia na mesma persuaQào todos os documentos relatì- 
▼os a este turbulento personagem. Apontamos a sub- 
standa dos documentos : 

— Renova por Bscriptura de 3 de Agosto de 1553 

praso das Casas da Porta Nova pela renuncia de Isa- 
bel TavareSf cedendo-lhe o irmào bens para ella casar 
eom Alvaro Ptnto. 

— Documento de 1553, sobre o assalto de Simao 
Vaz de Camoes ao Convento de Sant'Anna; Carta de 

1 dào de 1558; Documento de 1567, nao admittindo 
zeusa de Almotacé; outro do mesmo anno para o 
:amento dos gastos da prisào ; Documento do mes- 
anno isemptando-o do cargo de Almotacé. Ha mais 

Documentos da Verea^ào de Coimbra, de 1563, 
gando-o a servir corno Ahnotaoé; outro de 1576 
e offensas corporaes que fìzera ao Almotacé em 



ipletoB, que elle enceta a faina acti- 
tudos raenoree. 



i'óram publicados por Brito Aranha, Dice. 
XIV, p. 18 a 20, dizendo: «Que resolvam, 
, este problema ob FtiturOB biographos.») 
Iilema, mas inìntelligencia das hoinonymiaB. 
itos do Cartono da Sé de Coìmbra, p 
lìguel Ribeiro de Vaaconcellos, no vo 
uto de Coimbra, p. 170, desfazem os i 
dataa de 1530 e 1560. 
Ì?Mào Ka2 de Camòe» por 1562 comD.I 
a, filha de Alvaro Cardoao, a qual pa 
nupcias com o Dr. Roque Tavares. S: 
5es morreu aem gera^ào em 1684. 
vares de Camòes, tÌo de Simào Vaz di 
em Alào de Moraes: -nSo casou, dìzeii 
i CODI uma senhora da Gasa de Honn 
liram do tempo da reformagào dos M< 
Guiomar de Castro, freira de Odi veli 
!: D. Uarìa de Noronha, que caaon c( 
seu pae com José Gomee Boacan ; e D. 
oronba, mulher de Dìogo Ribeiro.» N< 
!>iogo Rangel, cita-se D. Maria de Nor 
ro Alvares de Camòea e de D. Guiomi 
ra de Odivellaa » Vid. Borges de Figi; 
eiro de Odivellaa, p. 191. Em um ( 
irtorio da Sé de Coìmbra, Pero Alvan 
ì vivia em Lagos, casou com Brites Go 



ìe Camdes, lìoenoiado, morava em 15( 
e S. Nicolào, onde era proprietario. 
I, Arte musical, n." 132, anno vi.) Bm 1 
rdou parte de um padrao de iuroa.'qiK 
Il pae Gonzalo Barbosa, musico da Cai 
Ib., n.» 180). Naa IVovas da Hist. g, 
itro mendoDado corno fllho de Alvaro 
fidslgo de D. Joào iii. 
Ive» de Camòes, em 1665 era dono de 
i dos Douradores, na freguezla de 9 



CAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 181 



B) No Estndo de Artes « Humanldadet nas Escholat 
de SanU Cruz de Coimbra (Ift37 a 1642) 

No ferver dos estudos que precedeu a 
creaQ3o da Universidade de Coimbra, desta- 
caram-se entre as Escholas das Collegiadas, 
aquellas que sustentava o Mosteiro de Santa 
Cruz, merecendo do rei Dom Sancho i a doa- 
rio de quatrocentos morabitinos «para sus- 
tenta^So dos Conegos do dito Mosteiro, que 
estudam nas partes de Franga - . .-» A té certo 
ponto as doutrinas da primeira Renascenga 
do secolo XIII acharam interesse especulativo 
no8 seus escholares, corno se ve pela lenda 
de San Frei Gii. Pelo influxo da segunda Re- 
nascen^a do seculo xvi, tambem pelos Cone- 
gos que iam estudar a Paris, fóram refor- 
mados os Collegios de Santa Cruz, com um 
brilbo que levou Dom Joào iii a transferir a 
Universidade de Lisboa para Coimbra. Lis- 
boa, pelo bulicio do seu vasto commercio dos 
novos Descobrimentos maritimos e conquis- 
taa, que pelo trafico e monopolio real dava fi 
o6rte urna opulencia ruidosa, tornava-se im- 
propria para a concentraQao e rem anso do 
estudo. De mais, as pestes terriveis succe- 
diam-se quasi periodicamente, forcando os 
lentes a pedirem para se fechar a Universi- 
dade, comò em 9 de Maio de 1525 em repre- 
aentaoSo collectiva pela morte do lente de 
lilosophia moral Agostinho Micas. O pro- 
io monarcha teve de fugir de Lisboa em 
26 para Coimbra, recrudescendo a peste 
tda em 1527 ; para Dom JoSo iii Lisboa 
"eceu-lhe a ruidosa Coryntho^ e Coimbra 



do Moflteiro da iSanta Cruz, obrigsodo os 
seus setenta e dous Gonegos & vida da clau- 
sura, e apoddrando-se de urna grande parto 
doB seuB enormes readìmentos para a refdr- 
ma da Universidade. ComeQOU a rifórma do 
MoBteiro eoi 13 de Outubru de 1527, sendo 
encarregado d'eata empreza, além do provin- 
cìal do8 hiaronymltas, Prei Braz de Bar 
que apparece & frente do governo do Moi 
ro e dirigindo teda a reorganisaoSo pedi 
gica. Ob Beteata e dous conegoa oruzioe, 
vivìam corno princepes epÌBcopaea, revt 
ram-se, ficando apenas submìasos & olauE 
Tinte e dona Conegoa, entre oa quaea fu 
Dom Bento de CamoBB, que veiu a aer e1 
Prior craateìro no primeiro Capitulo gora 
1639, em 5 de Maio, e Gancellario da 
versidade em 16 de Dezembro do me 
anno. Separaram-se as reodas do Prìor 
Mór, que eram usuCruidaa pelos irm3oB do 
as quaea fdram em grande parte applioad 
construc^So de Cjollegios e aalarìos de leu 
e aos Gonegos, cujo quadro Be preenctiea 
ram arbitradoB oa rendlmeotos de nm o 
e mìl duzentos e trinta e quatro reis. Em 
tubro de 1628 vieram de Paris em fórm* 
Universidade profesBores, que tornaraa 
EBtudoa do Collegio de Santa Cruz o p 
de convergencia doB filboa da prindpal 
breza ; Prei Braz de BarroB Tìaae fon 
em 1630 a proceder A coostruo^So de 
GoIIegios defronte do Moateiro, na ruf 
Sophia; um era para Theologoa e Ariti 
oom nove GoUegiaturas, e intìtulaTa-se C 



CAM5B8 — BPOOA, VIDA B OBRA 188 

gio de Todoa os Santos, e na linguagem do 
vulgo OS PcardoSf por causa do seu habito ; e 
Collegio de San Miguel para Ganonistas 
€om Theologoa, com nove eoUegiaturaa, cha- 
flBado tambem ob Roxos, pela cdr da batina. 
Predominava o systema pedagogico francez, 
oomo o qne se segui a no Collegio de Santa 
Barbara, que dirigia em Paris o Doutor Dio- 
go de GouvSa. De Paris tinham regressado 
em 1528 Pedro Henriques e Oon^alo Alva- 
ree, com Vicente Fabricio, florescendo enor- 
memente o ensino do grego e do latim. Lè-se 
na Cfkronioa dos Gonegos Regrantes: «Man- 
don o Padre Reformador Fr. Braz de Barros 
vir Mestres da Universidade de Paris, por in- 
formaQao que Ihe deu o P.^ D. DamiSo, nosso 
Conego de Santa Cruz, que là tinha estuda- 
do. Vieram por Mestres de Grammatica, de 
Grego e de Hebraico dous doutores pela Uni- 
versidade de Paris, ambos portuguezes e mui 
versados nas ditas linguas, a saber Mestre 
Pedro Henriques e Mestre Gonzalo Alvares, 
qne dopois leram tambem nas Escholas pu- 
biieas de Coimbra, corno dissemos. Arles, co- 
mefou a Idr o nosso conego D. DamiSo, que 
depois de ter lido tres annos por ordem do 
dito Reformador, tornou a Paris a receber o 
grào de Mestre em Theologia, para vir lèr ao 
mesmo Mosteiro de Santa Cruz ; Ganones leu 
P.« D. Dionisio de Moraes, que era bache- 
rei formado n'elles pela Universidade de Pa- 
3. — GomeQaram a lér estes Mestres aos Re- 
i;io808 de Santa Cruz em Outubro de 1528, 
m tanto aproveitamento dos discipulos, que 
rrea fama dos Eatudos, que havia no dito 
ysteiro^ muitos fidalgos e nobres do Reino 



BZ* il 



BTOBU DA LITTEBATD&A rORTUODBZA 

am a elle seus filhoe. Para estes se 
3 Collegio de San Miguel, dentro do 

de Santa Cruz, e para Estudantes 
s pobres o Collegio de Todos os San- 

tinha o seu dormitorio na casa gran- 
erreiro da FrocuraQào, a que chama* 
ìaIe3o, e o outro tinha o seu dormì- 
is para cima, à parte do norte, junto 
ì9. Perseveraram eatea Collegios den- 
losteiro até 1544...» (Op. cit., t. il, 

Fdram construidos mais doìs CoUe- 
9 as Escholaa maiores, o de San Joào 

e o de Santo Agostinho, para effe- 
nudaoQa da UnìverBidade para Coim- 
Kioego D. DamiSo, que eetudava em 
(ra encarregado por D. Joao lii de 
tr lentes para a nova Universidade ; 
\ de 1535 escrevia ao seu Prior: <3i 
. eerSo, e comecarfi a floreecer essa 
dade... N9o se agaste vocaa Pater- 
te dei grande partìdo aos Meatres, 
l'outra maneira nSo foi poBBivel mo- 
ìrem ; mas corno a Universidade fdr 

se acbarSo outroB muitoa, e por me- 
pendio; que quantoa Mestres fdren 
bs, logo OS mandarei e conteotarei 
ide de quinhentos cruzados, que dei 

Ifi t3o; porque Mestres em ArlM 
I cfi fis duzias, e todos pela maior 
atoB e ìdoneos para ensinarem.» So- 
assumpto escrevia D. JoSo ili a Frei 
Barros: <E quanto ao trabalho que 
,e levastes em asentar co doutor Pra- 

regra das Arte» e os francezes, aìu 
le Parie, eu creo que seria asy e lol* 
le me screvaes quantoa leutes eam, 



i 




GAJfdSS — BPOCA, YIDA E OBRA 185 

de que Faculdades. E asy quàtos escolares. e 
estudantes ]& ouvem em cada ciencia ou arte.» 
E em carta de 11 de MarQO de 1536, escri- 
pta de Evora. activa o rei a organisagao da 
Faculdade de Artes, para serem chamados 
para Coimbra os bolseiros (Estudantes de 
Eirei) que estavam em Paris: 

«Padre Frei Braz de Barros. Eu el rei vob 
envio muito saudar. Vos avieis de poer no 
firn de Setembro d'este ano bum Mestre que 
Ida as Sumulds por entam fazer bum ano 
que agora le o outro de Logica, e d'abi a 
hom ano outro Mestre que léa Filosofia^ que 
sam OS tres anos das Artes. E posto que atee 
ho tdito tempo nam seja necessario ordenar 
08 ditoB Mestres por atee entam os Conigos 
nam terem necessidade delles, folgaria orde- 
nardea de os poer logo e mandardelos bus- 
car, que sejam pessoas pera isso sufficìentes, 
asy corno fizestes aos que agora temdes, por- 
que queria que as Artes se nam leam mais 
em lixboa, e mandar que os meus bolseiros 
de Paris se venham os que ainda ouvem as 
ditas Artes e nam paseara à Theologia o que 
nam seria razam mandal-os revogar nam ten- 
do asy OS estudantes que as ouvem em Lis- 
boa corno OS de Paris outro estudo honde se 
pQSsam ouvir n'estes reinos, e perderiam o 
trabalbo que tem nisso levado, pelo qual vos 
agradecerey fazerdelo logo. E comò o tiver- 
dee feito escrevedem'o pera logo mandar re- 
^ gar OS de Lisboa e mandar vir os de Pa- 
I . E iato de revogar de Lisboa folgarey que 
t ihaes em segredo porque na queria que se 
e ibesse ante de os mandar revogar, encom- 
I ndo-vos muito que o fagaes asy. Anrique 



■^ 



GAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 187 

lados reoonstitaem-se pelas circumstancias de- 
termiDantes. Seguindo este criterio, compre- 
henderemos qual foì a educa<;ao de Camdes 
reeonstaaiindo o quadro do ensino, na educa- 
lo individuai do seu tempo. 

Manoel Severim de Paria colloca os estu- 
do6 de Gamdes n'esta epoca, quando se fez a 
trariada^o da Uniyersidade para Goimbra, 
Sem fixar o anno de 1537: «eendo mogo foy 
estndar a Coimbra, que entao comegava a 
florescer em todaa as sciencias, por beneficio 
de El*rei Dom Joào iii, conduzindo este ex- 
oeUente prinoepe para mestres d'elias varoes 
insignes e dos mais peritos que entao havia 
em E!m*opa, dos quaes elle aprendeu a lin- 
gua latina, e philosophia e mais letras hu- 
manas com tanta perfeiQSo corno mostram 
aeas escriptos.» (Disc, fi. 2, t-) * O Dr. 



ree escriptores, e em muitos dos francezes, Italia nos e 
oastelhanos.» E oaraoterisando no Tratado de Educa- 
(do eflta primeira direcQào do sabio tio, diz : e Ea tive 
i boa fortuna de receber urna educa^ào porttigueza ve- 
Ika..,* Està contiaaidade da tradlQào nos revela a 
<tÌBdplma sympathica dos primeiros estados de Ga- 
niSes, e a ella a mesma conclusao a que chegou Gar- 
lett: «O hometn que se destina ou destinou o seu me- 
namento a urna voca^ào publica, nào póde sem ver- 
gonha ignorar as bellas lettras e as classicas.» //6., 

^ Na biographia ms. por Frei Franoisco de Santo 
Agoetinho de Macedo, lé-se sobre os estudos de Oa- 
Boes: ce fot oultivar (se engenho) de tenra edade nos 
i ados de Coimbra, que floresciam n'aquelle tempo 
d irado por virtude dos mestres famosos, que El-rei 
I Joio in das Universidades mais insignes da Euro- 
I ionduzira.» (Ms. n,^ 133, da Bibl. nac.) Vé-se que a 
1 naa de 1537 era ainda lembrada no seoulo xvn, e 
1 rfa a indioa^ao de Severim de Faria. 



1 HISTORIA DA UTTEI 

ck, n'uma argucìi 
lo o quadro das re 
1, diz àcerca d'eel 
m de Farìa: <pói 
versidade conio at 
egios dos Cruzios. 
irrefragavel e hìst 
>res da Unìversìdai 
rudencia, Medicina 
)8 de Santa Cruz, 
tram os Pa^os dai 
'8 de Artea e Hui 

Faculdade unive 
tiarel e Licenoiatui 
1 localieados em i 
□a Univereidade. 
lender que o titul 
3 por André Falc 
B, n3o Bendo um I 
acSo vulgar de Bc 
8 outras de Bachi 
legista, Bacharel 
lichaelis conforma 
ì de Severino de F 
o biographo alle 
a aqui faltem algai 
17) e mais o emprt 
de, e jà nSo havi 
)xacto da passagei 

noticìa além daa < 
joeta.» (Ib., p. 2; 

em algarismos, si 
importante de 151 
idade nem em Col 

incorporado em i 
iija sède era Coiml 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 189 

darà sendo mogo. O lìvreiro Domingos Fer- 
nandes é mais cathe^orico quando em 1607, 
na Dedicatoria das Rimas de Gamoes A^ in- 
dyta Universidade de Coimbra, quando ella 
]ft estava aeparada no Pago das Esoholas, es- 
creve: <0 vosso Luiz de Camòes: pois nas- 
cendo n'essa vossa cidade de Coimbra, a vos- 
so peyto corno may naturai o criastes tantos 
annosi Cam vossa doutrina corno Mestra o 
ereastes alguns; etc.» Domingos Fernandes 
sabendo que Simio Vaz de Cam5es era na- 
tarai de Coimbra, julgou coherente que o fi- 
llio o fosse egualmente, comò pelo intuito da 
lisonja Ihe convinha ; mas estes tantos annos 
de creagao» comò alguns de doutrina tém im- 
plicita a referencia fi puericia passada em 
Coimbra e ao adolescente no seu curso de 
Artes e Humanidades. No texto de Severim 
de Paria, a phrase por beneficio de Eirei 
Dora Jodo ni poderia entender-se uma das 
nove Collegiaturas dada a Camòes, mas em 
rigor comprehende as grandes refórmas pe- 
dagogicas. Conhecido o quadro complexo e 
geral d'essas refórmas, qualquer facto parti- 
calar esclarece-se com um caracter positivo, 
lego que se relacione com o conjuncto. ^ E' 



^ O vìsconde de Juromenha desoonheceu o quadro 
do8 estndos classicos em Portugal no tempo de Ca- 
mòes, dedarando : «Seria longo para aqui, e por certo 
tr"^a mai* snperior às minhas forgas, o descrever o 
n Timento lìtterario da Academia porta gueza, no tem- 
p qae foi eursada pelo nesso poeta.» fObras, 1. 1, p. 
1 ) E eom rela^io ao Dr. Storck, lameata D. Carolina 
1 haeUs, qae o ultimo biographo de Camòes nào ti- 
1 )6 oonsultado a Chraniea dos Regrantes de D. Ni- 
fi ) de Santa Maria: «T«ido-a à sua disposigao coor- 



teninos no Collegio- . . > ^ Os escholares 



a, sem duvida, um quadro multo mais ampio a 
. Vida escbolar portusueza na epoca de Cain5es, 
to das pequenae Bombras que o turvaro agora.) 
e Obraa, p. 201, nota 6 "".l 
Na Hiatoria da Universidadc de Coimbra, L ~ 
I. Chamavam-se AbeeedarioB on classe 'doa m 
de sete ou menos annos de edade, qae, sabeo* 
riam-ae os Dietico» de Caldo em dnaa lingnac 
rava-ae o costume de entregar a lì(ào eacrip 
irò que fSase recitada.* Schcla Aguitaniea, a 
o do systema de André de Gouv&t. 



r 



CAMÒKS — EPOCA, VIDA E OBRA 191 

de regras eram os que estudavam a Gramma- 
tica gradatìvamente. Em carta de D. JoSo lu, 
de 4 de Julho de 1541 providenceia sobre a 
queiza do Reitor sobre a «falta que hi ha da 
prinmra regra de Grammatica por Christo» 
Tarn d'Abreu. . .» E na Matricola dos cursos 
da Univeraidade em 1540, vem sobre o titulo 
de Grammatica a lista dos alumnos da jRrt- 
meira regra^ da segunda e da terceira regra. 
Ob escholares de partes^ estudavam a Sum-- 
ma theologica de San Thomaz apenas na 
primeira e na segunda parte, pelo seu cara- 
eier philosophico. A primeira parte era uma 
Oatologìa em que se discorria sobre os séres 
em geraly os entes de rasSo ; a segunda parte 
constava da analyse das faculdades. N'este 
programma dos escholares de partes estaya 
excluida aquella que comprehendia a theolo- 
gia. Na GauQao satirica do trovador portu- 
guez Pero Mendes da Fonseca, lé-se uma al- 
lueio ao eseholar de partes : 

Ghegou Payo de maas artes 
con seu cerarne de Cbartes, 
e non leti el nas partes 
que chegasse a hnn mez. . . 

fCanc. VcU,, n.» 1132.) 

8e Gamoes recebeu algum ensino domes- 
tico ou particular antes de entrar para as Es- 
cholas de Santa Gruz em 1537, foi o que 
€< ifitituia esse quadro facultativo ou livre 
I descrevémos. Nos Gollegios de S. Joao e 
Santo Agostinho, e no de Todos os San- 
ta é que se ensinavam os Cursos de Artes e 
l nanidades^ em que havia grào e licencia- 



j 



comedìa Eufrosina urna allusSo sarcastica fi 
Arte velha: «Como se atguem se rira, se tos 
ouvisse, d'esses tossos preceìtoB e Arte Pas- 
trana. . .> (Act. iii, se. 2.) Ainda em 1522 se 
ìmprimia em Lisboa està Qrammatìca latina 
no ensino de Santa Cruz de Coimbra seguia 
se a Grammatica de D. Maximo de Souaa 
d'elle se le na Ohronica dos Regrantes: iFo 
o melhor grammatico e rhetorico do seu teni' 
pò, foi grande philosopho e mui conaummad' 
theologo. Por occasiSo de ensinar Qrammat 




CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 193 

ca a algans principes e senhores d'este reino, 
qae se creavam com o nosso habito no Mos- 
toiro de Santa Cruz, compoz a primeira Arte 
de Latim e Grammatica, que se imprimiu 
n'este reino por ordem d'el rei D. Joao, no 
Mosteiro de Santa Cruz no anno de 1535, e 
por ella se ensinou Latim e Orammatica nas 
EsehoUis Menores de Coimbra muitos annos ; 
e ainda depois que se deram estas Escholas 
menores aos Padres da Gompanhia pelos an- 
nos de 1555, ensinavam Grammatica pela 
Arte do P.® Dom Maximo, até que o P.» Ma- 
noel Alvares compoz a Arte por onde agora 
ensìoam.» ^ Póde-se affirmar que pela Gram- 
matica latina do conego Dom Maximo de 
Scasa fez Camoes o seu curso de Artes; 
a lingua portugueza estudava-se simultanea- 
mente com a latina, corno se y@ pela Gram- 
matica de FernSo de Oliveira, de 1536, que 
ezplica a parìdade do apparelho grammato- 
logico. D'ahi a illusSo que ficou no espirito 
de Gamdes, quando ao definir a sympathia 
da Densa protectora dos Portuguezes, fun- 
da-a na linguagem vernacula : 

E na Lingua, na qua!, quando imagina, 
Com pouea eorrupQào ere que é a Latina. 

/Lu8., cant. i, st. 33.) 



^ D. Maximo de Scusa era naturai de Scure, filho 

de Lecnel de Scusa e de D. Anna de Macedo, naturai 

d€ lantarem ; faleceu em 6 de Outubro de 1544. A sua 

Oi mmatìca, depcis de substituida pela dos Jesuitas 

i \o ou-se multo rara; e em 1668, escrevia D. Nicolào 

\-- de Santa Maria: «D'estas Artes do Padre D. Maximo 

; bi inda algumas na nossa Congregagào de Santa Cruz 

I di loimbra, e nós temos uma em nosso poder em gran- 

I d< itima.» (Op. eit., p. 356.) ^ 



CAXOES — EPOCA, VIDA E OBRA 195 

eonrideradas manifesta^es geniaes, e condu- 
nam a ama outra exhibÌQ&o pomposa, a de 
fallar latim. 

Em um Regimento de 18 de Julbo de 
1638, dado por D. Jo9o ni à Universidade, 
estabelece: «Primeiramente bei por bem que 
OB lentes le& em latim, e bo Rector manda- 
raa que se cumpra assi, e aoabada a ligam 
fari circolo a porta dos Geraes bonde léram, 
e responderfio aas preguntas que os scbola- 
ras Ihe fizerem... e assi mandaraa que os 
Bcholares dos portas das seholas para den- 
tro fallem latim^ segundo a provisSo que eu 
ji sobre isso passei, ba qual bo Rector veraa 
e mandara comprir.» 

Alludia & Pro Visio de 16 de Julbo de 
1537 : ce pera que os soholares se costumem 
a fallar latim e entendello^ ei por b6 e man- 
do que oB lentes le9 e latim suas ligoes, e n3o 
Wà em lìnguaje, e assi as conferencias que 
08 scbolares antre si fizerem e preguntas aos 
lentes e repostas a ellas que se costumi fazer 
acabadas as liQoens e todo o mais que falars 
das portas a dentro das scbolas seja 6 latim, 
sem cousa alguaa f alare em linguagsm, sob 
pena de que bo contrario fezer paguar por 
cada vez que falar lingoaje bo que ao Re- 
ctor b6 parecer.» 

Està mania de fallar latim cbegou a inva- 
dir a oOrte e mesmo a imp6r-se comò distin- 
Hio is damas e prinoezas ; por isso escrevia 
< Oonde.de Vimioso a Ayres Telles, em tom 
^ igrammatioo : 

Estadaes e fugis de mim, 

soia UMno; 
qae quedas de o ansino 

do Latim. 



de T 
CoyUdn 

hom 
qae fÒBt 

del 



loradiaa 
ta dos m 
mmatica 
im carac 
3rte fran 
3 de Se 
FrancÌBO 
Julìo Ci 
I e latint 
m tanta 
iero, Hoi 
e nm mt 
mas estii 
fantes si 
Maria e 
aduziren 
ca. 

André d 

Daarte, corno se vira for^ado a fal- 
quando em 1634 Ihe appresi 
:e Nicoiào Clenardo: <fez-ll 
a breve falla, e o infante m 
■espondesae e dissesse qaan 
. folgava. Eu, para logo oon 
er o Infante, Ihe reapondi : E 
I Tossa alteza, ella por si Ib'i 
de ser seu meatre, nfio se ao 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 197 

a Ihe fallar latim ; o Infante assim o fez, que 
oome^u e ajudei-o eu. E pareceulhe t3o bem 

que eu fiz, que logo assentou, que d'ahi 
em dlante corno o mestre viesse e estivessem 
fi liQào, todos OS presentes fallassem latim. 
Muitos houve, que tinham opinifio de letra- 
dog, que por n3o descobrirem o fio de quam 
mal sabiam fallar latim, escolheram antes 
d8o ir fi IìqSo, nem entrar emquanto o mestre 
Ifi estivesse, e nSo é necessario nomealos. O 
Infante D. Duarte, corno principe discreto, e 
qae em publico nao queria que se Ihe enxer- 
gasse qualquer falta^ me chamou a seu apo- 
sento e disse-me: — Bem vistes comò o In- 
fante meu senhor poz lei que todos fallassem 
latim; as li^oes se comegarSo d'aqui a tres 
dias; folgaria que se nao enxergasse tanto 
em mim este defeito; qualquer affronta que 
por isso houver de receber seja antes aqui 
oomvosco s6. Àlegrei-me em extremo e lou- 
Ysi-lbe multo isto, e comecei logo a fallar-lhe 
latìm, e a desempecer a lingua; foi a cousa 
de tres dias em maneira, que perdido o pri- 
meiro medo, se desenvolveu tanto que, quan- 
do veiu a primeira IìqSo fez espanto aos que 
tal nio esperavam vèr, quam facil e nSo la- 
boriosamente fallava.» (Op. oit^ cap. 10.) 

Nos CoUegios de Santa Cruz, ainda em 
1550, comò o consigna um documento <a to- 
dos é opprobrio fallar salvo em a lingua la- 
Una ou grega.i^ GamSes este ve submettido a 
66te signo de latim. O Dr. Storck, que tr adu- 
na magistralmente toda a obra do poeta, no- 
ton o effeito d'està cultura latinista no seu 

1 dee e estylo haurido em «leituras constan- 
t ^ e vastas, nm peculio copiosissimo de pa- 



198 HISTORIA DA LITTeRATl 

lavras e phrases latìnaa: 
irrefutavel, de um lado o 
fundos conti ecimentos, t< 
moBos, de historia e mytti 
eBpecial da litteratura la 
tos até de pormenores n 
plica, comò propriedade 
mo nas regiòes onde n&c 
vroa de consulta, corno p 
ta, Gda e Macào, — e de 
ra audaz corno o Poeta i 
patria de muìtos termos e 
cos que se nacionalisarat 
sempre melindroso, que : 
fino sentimento da indivi 
moderno, um saber profi 
decisivo oste testemunho 
mSo, reconhecendo a gec 
bSo portugueza realQand 
cultura humanista. Ob e 
deram-lhe elementos pat 
taoOea Jntetlectuaes da su 
O eatudo do grego, a 
tìm, era disciplina seguic 
francezea, tambem pratlc 
Santa Cruz de Ooìmbra 
ladaijBo da Universidadi 
Henriques e Gonzalo Atv 
Paris em 1528, vindo ( 
Santa Cruz, oom Vicentt 
già a impresaSo e reviaS 



1 Vida e Obrat, p. 207. : 

Son apenas qustro porases 11 
elxon violar pela con versasse 



CÀXdBS — EPOCA, VIDA E OBRA 199 

na imprensa que trabalhava n'aquelle mos- 
tfiiro. Em 1534 ahi se imprimiu o livro de Boe- 
do De DivUionibvs et Difinitionibus^ tendo 
into'oaladas palavras em caracteres gregos. 
Gl^iardo ao passar por Coimbra ficou mara- 
Yilhado com aquelle progresso, recommen- 
dando a Vaseo, que se quizesse livros gre- 
gos se dirigisse a Vicente Fabricio, animan- 
do com isso OS Conegos Regrantes. Dom He- 
liodoro de Paiva, oompoz um Vocabulario 
de Grego e de Hebravco^ que dedicou a 
D. Joao III, e imprimiu nos prelos do Mostei- 
ro em 1532. Era entao normal no ensino a 
Grammatica de Tbeodoro de Gaza. Chama- 
Tam-se os estudantes de grammatica Escho- 
lares de regras^ porque se dividia o seu en- 
sino em gr&os; ém al vara de 5 de Julho de 
1541, D. JoSo III dispensa da colleeta ou mi- 
nerval eoa scholares da grammatica da pri- 
fneira e segunda regra e assi os da schola 
de Lopo Galeguo ...» 

Ck>mpletavam o curso de Artes, a Diale- 
ttica e a Bhetorica. Na Vida do Infante 
D. DuariSf por seu mostre André de Resen- 
de, aponta-se o quadro d'oste ensino: cLia- 
mos um tempo em Lisboa a Dialectiea^ e de- 
pois de Ihe ter lidos os principios por a Arte 
de Joanne Getario, tornamonos fis Artes; foi 
Infante D. Henrique visitalo huma sèsta 
«stando nós em IìqSo, levantei-me eu, e dava- 
Die ospaQO pera pratica e conversammo. Nao, 
nio, disse o Infante D. Henrique. Eu nSo 
qoero interromper a IìqSo, sentae-vos e prose- 
gui. — Virei-me para o Infante : Vosso irm3o 
q'^er estar i li«ao, bom ser& que saiba quan- 
ti y. A. tem aproveitado com Ih'o ouvìr de 



oca. vjerrou o iDianie o uvro e em la- 
ripetente Ihe resamiu o tratado de For- 

De Pfedicabilibus e as Cathegoritu 
Btoteles e Perikermeneias, tSo solta e 
lacbadamente, qua o Infante aea ir- 
;ou attonito.» Depois passa & disc!"" 

Philosophia maral: <NSo é iato t 
luanto agora direi: liamoa tambei 
>e Offieits, e lèramoa este dia o o 
3 Justicia. Repetiu de cor assìm oc 
Jes que acabou Ihe disse, agora ( 
}ro dizer fis versas. E oomeQOu da i 

palavra proseguindo até fi prìn» 
iibear nem fazer intervallo.* (Gap. 1 
iooumento do emprego material e il__ 
lurdo da memoria, tornado depois ex- 

naa escbolaa dos Jesuitas. Na Logica 
ra-se o Organum de Aristotele», as 
Uas logicales de Fedro Hìspano com 
imentarioa de Jorge Bruxeltense ou de 
) d'Etaples, com repetigSes. sabatinas 
UB5eB; eram na linguagem das escbo- 
ominados oa scholares departes. Bar 
3U Latomus dedicando a André d* 
i a sua traducQ9o da obra de Agrìcola 
wntione Dialectica, diz-lbe - em urna 
cMas comò duas sejam as partes em 
a se divide — a de ensinar e a de fal- 
uma das quaes chamam Dialectica e 
fi outra o nome de Rhetorica — mui- 
aas por eltas, tanto n'um comon'ontro 

nos fOram tranemittìdas com grande 
le.> FAram estas doutrinas pedagogi- 
] converteram lodo o Humansimo n 
ide rhetorica, que imperon tres n 



I 



CAMÒSS — EPOCA, VIDA E OBBA 201 

Assìm corno sob o excessivo ensino do la- 
tijs, Gam5e8 nao perdeu o sentimento da lo- 
eoQio popolar e caracterisUcamente nacional 
oa portugueza, tambem escapou fis conse- 
quencias dissolventes da Dialectica e da Rhe- 
torica, que além de estafarem o cerebro pelo 
abuso da memoria, dissolviam o caracter fa- 
zendo prevalecer fi verdade o sophisma, e fi 
sinceridade da expressao a pompa e emphase 
mascarando o Bcepticismo. Na Philosophia 
morale cu a Ethioa, que sob a preoccupa- 
rlo catholica se tornava em urna casuistica, 
salvou-o a Philosophia naturai observada nos 
phenomenoB cosmicos, no percurso da sua tor- 
mentosa ezìstencia; elle assim o manifesta: 

Se OS antigos Philosophos que andaram 
Tantas terras, por vèr segredos d'ellas, 
As maravilhas que eu passe! passaram, 
A tao diversos ventos dando as velas, 
Qne grandes escripturas que deixaram ! 
Qne inflai^ao de Signos e de Estrellas ! 
Que estranhezas! que grandes qualidadest 
E tndo sem mentir, puras verdades. 

(Lu9.y cant v, st. 23.) 

Os oasos vi, que os rudos marìnheiros, 
Qne tém por mestra a longa experìencia, 
CoDtam por certos, sempre e verdadeiros, 
Julgando as cousas so pela experìencia. 
E OS que tòm os juizos mais inteiros, 
Que so por puro engenho e por sciencia 
Yèem do mundo os segredos escondidos, 
Ju^gam por falsos ou mal entendidos. 

(Ib.y 9t. 17.) 

Mandsley considera o effeito d'està cultu- 
ra ou — saber de experìencia feito, — corno 
( disse o poeta: cnovos descobrimentos nos 



intimo com a natureza, que noa ensina as U- 
95ea da experiencia, que deve guiar 00 ha- 
mena na conducta da vida; ezereendo urna 
inflaencia conatante e real, que nSo tém aa 
maximaB da pbilosophia, nem mesmo aa doa- 
trinaa da religi9o.> fOp. cit., p. 166.) 

Bispde a carta regia de 9 de Fevereiro 
1637, dirigida ao Prior Craateiro de Sa 
Cruz de Coitnbra, que entao era D. Mig 
de Araujo, que a diaciplina de Artes se 13 
no Collegio de Todos os Santos: «Vi a ca 
que me eacrereates, co o debuso que me 
Tiastea d'eaaa obra dea Eatudos, com os ap 
tamentos em que vem a deolara^io da lar 
ra e altura daa paredes, e graudura doa p 
iaea daa Aulas e Geraea de Theologia, Ca 
nes, LeÌB e Medicina ; agradego-voa a dilig 
eia com que estas obras se fìzeram, que ti 
procede do tobbo bom zelo e animo virtuc 
Eu sempre fiz fundameato, quando man 
fazer esses Estudoe de aaaentar abi Unii 
aidade e Escolaa geraea, pelo sentir asai 
mais servigo de Deus e bfi de meus vasi 
loB; e por que oa Lentea que ora v3o p 
oomegar a I3r Theologia, Ganonea, Leia e 1 
dicina, hSo de aer n'easa cidade por todo e 
mez de Ferereiro, pera come^arem a 13r 
1 de Mar<}o que ora vem, mandareis pre 
rar essea Geraea com cadeiraa pera oa di»/. 
Lentea, e bancoa para os Eatudantes, e tudo 
o mais que fdr necesaario. E aa Artes se le- 
rfio n'eaae yoaao Collegio de Todos oa San- 



GAIIÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 203 

to$.* ^ Iste mesmo repete D. Nicolào de San- 
ta Maria, na Chronica dos Regrantes: « A8-4r- 
le»^ Rhetorica e Grammatica^ e linguas de 
Orego e Hebraieo, se liam no Collegio de To- 
dos OS Santos.^ (p. 293.) Quando D. JoSo ni, 
por al rara de 15 do Dezembro de 1539 tor- 



^ Na Hist. da Universidade de Coimbra, t. i, p. 
456. Aìnda em 14 de Dezembro de 1536 os lentes da 
Universidade de Lisboa representavam a Dom Joao in 
para que nao mudasse os Estudos para Goimbra. Tran- 
serevemoa alguns treohos d'esse interessante docu- 
mento: 

«Senhor. — Pare V. A. muita merce a està Univer- 
sidade ^nerer tomar condusào sobre o requerimento 
de se nao mudar este Estudo para Goimbra pelas ra- 
sdas oonteùdas na carta que ihe esoreveu pelos douto- 
rsa seus procuradores e outros que elles dirao a V. A. ; 
porqne além do gesto aue la fazem e perda das liQoes 
dts snas cathedras, ainda que se lèam por substitutos, 
sabbio assi os lentes comò estudantes o que hào fazer, 
^ae todoa andam indeterminados, porque se V. A. por 
aaia da juati^a que'parece a està Universidade que tem 

Sra nao mudar o Estudo, determina todavia de o mu- 
r a Coimbra, os lentes que là nao houverem de ir 
requererio o que Ihes cumprir de seus salarios e ^^r- 
▼1^, e OS que houverem de ir ordenarào suas oousas 
em tempo e assi o farao os estudantes que é a prìnd- 
pal parte da Universidade, e crémos que nao é seu 
wrvi^ e desasocego. em que os poem nao vèrem jà 
«laramente a determinagào de V. A. sobre ìsto. 

^ «E lembramos a V. A. entre as outras cousas, que 
ibi ha para se nao mudar este Estudo d'aqui, que este 
bairro em que estes estudantes vivem é o melhor para 
gasalhado e saude d'elles, ^ue póde haver em seu 
1^0, e que n'esta cidade quiz Ei-rei que Deus tem, 
Ma pae, qne se fizesse a romaria que se faz por elles 
Mda anno, e assi o Infante D» Henrique, e que aaui 

aoiz el-rei seu pae, que estivesse este Estudo dando- 
I casas em que se flzessem as escholas, comò diz o 
P lego dos Estatutos, e assi o quizeram os rais que 



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CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBBA 205 

elles 16rem, estudarem e servirem. A qual ju- 
risdioQSo se estenderà em ob Mestres so diente 
em que tocar &8 lÌQoens, e f altas dos lentes, 
e em o fazer dos exercicios e disputas, e em 
as horas que hfio de ler... E em os Estu- 
dantes e CoUegiaes em Ihes dar licengas, e 
em 08 reprehender e emendar, quando fdrem 
escandalosos, mal ensinados ou deshones- 
tos...» * 

Pelos CursoB de Artes e Humanidades que 
segoiu Camdes, e pela oìrcumstancìa da sua 
nobreza, elle foi porcionistaf ou bolseiro re- 
gio do Collegio de Todos os Santos, no in- 
ternato de Santa Cruz de Goimbra. ' As disci- 
plinas de Theologia, Leis, Medicina e Mathe- 
matica eram tambem lìdas em outros Colle- 
gios do mesmo Mosteiro; mas comò ainda 
nio estavam construidos os Pagos das Es- 
ekolas, Dom Jo&o iii unificou-os todos pela 
nomea^io do Cancellarlo cruzio : ce pela dita 
maneira hei por unidos e ineorporados os 
dUos Collegios com a dita Universidade ; e 
mando que d'aqui em diante todo seja e se 
ehame hud Universidade, e todos j untamen- 
te hajam e gozem de huns mesmos privile- 
gìoSi assim dos que até aqui Ihe sejam conce- 
didos, comò de todos os que ao diante se con- 
eederem & dita Universidade.» Por isto se v&, 
qne nas Escholas de Santa Cruz recebeu Ca- 
mdes o gr&o que competia no firn do seu Car- 
so de Artes e Humanidades, comò Bacharel 
l Hno. 



^ Hi8t. da Universidade de Coimbray t i, p. 458. 
* Póde inferìr-se do Soneto lix, glorificaado D. 
J ui na sua morte. 



ordenamoa que o nacnaret em quaiquer Bcien- 
cia pague para a Arca do Studo huma dobra 
d'ouro de banda, e huma ao scrivao, e bedel 
e hua barrete com bum par de luvas ao pa- 
drinho que Ihe hade dar o grfio, e luras ao 
Rector e Lentea que prézentes fórem ao Auto; 
e Ber& obrigado o Rector oom e UnÌTersH»- 
de e ho Bedel diante com sua maga, ir p( 
graduando aa sua pousada se fòr no baii 
e o trarSo &b Scholae honradamente, oi 
logo em principio do Auto fard huà ar 
ffua, e depois lerS hu3 li(;3, e acabada a li<; 
disputa se fdr em Artes... pedirà o gì 
arenguando ; e depois d'isto darà as luvas i 
eobreditos e farft juramento em as m9oa 
BcrivSo o bedel, aegundo abaixo se diri 
esto acabado ho Doutor ou Mestre Ihe dar: 



OAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 207 

grào, e depois de recebido o grfto, ho gra- 
duado darà gra^as a Deus e aos presentes. 
E o que hoaver de receber gr&o tomaraa do 
DoQtor cu Mestre da Universidade que Ihe 
aprouver, e loguo ho tornar&o honradamente 
pera sua casa donde o trouxeri ; e assi bave- 
mos por bé que qualquer que se graduar 
arme o Geral de panos finos por honra do 
Auto.» Cursadas em dois annos a Chrammati' 
ca e a Rhetorica, de 1537 a 1539, seguiu 
Gam5es os trez Gursos de Artes, Logica e 
Pkilosophia naturai, de Outubro de 1539 a 
1642, o que prefaz o periodo dos tres annos, 

SBira receber o grfio de Bacharel. Em urna 
atira de André FalcSo de Resende : ^A Luiz 
BB GamOes. Reprehende aos que desprezan- 
do 08 Doutos, gastam o seu com truhàes,> 
Tem urna refereneia ao grfio em Artes de Ga- 
mSes, pois que pelo intuito da dedicatoria re- 
presentava um douto amesquinhado na deca- 
dente sodedade portugueza do ultimo quar- 
tei do seculo xyi : 

Està é, Oamòes, que qnem escreve ou falla 
Em nnmeroBo verso, ou segue e usa 
A poetica prosa, e qner ornala, 

E o naturai engenho applica k Musa, 
Alguma hora do pò se levantando, 
Logo algum vii esperito o nota e accusa: 

«Vèdes o triste, (diz aos de seu bando) 
Que é Bacharel latino, e nada presta ; 
E' poeta o coitado, é monstre infando.» ^ 



^ Ohras de Falcio de Resende, p. 283» Jurome- 
% Obra» de Catndes, 1 1, p. 194. 



HISTORIA DA LITTEH 



Este que Be alerant 
QumeroBO. que é Bacfaarel latino e Poeta, 4 
irrefragarelmente Camòes, e nSo um dento 
qualquer, porque o contraete perderà de for- 
i}a. O Dr. Storck chegon a interpretar, < 
Falc3o de Resénde ae referia a bÌ propi 
Bem notar que isso ìmportaria urna vaidi 
estólida. * Conhecendo o espirito e tradì 
humanista das Universidades, é que se a 
lia o que significa a designa^ào de Bachc 
latino. Do primitivo typo da Eschola g( 
de Conetantinopia, de 425, em que conj 
ctamente com o Direito ae enainava a Lith 
tura grega e a Latina, e a PhilOBOphìa, 
Oursos de Artes formaram parte importa 
das Universidades medievaes, que roraa 
integra<;3o de Escholas isoladas. Na Esch 
de York, a Grammatica e a Rhetorioa ei 
professadas com a Jurisprudencia; na 
chola de Pavia, segundo o costume, as I 
las Lettras e a Juriaprudencia formavam o 
quadro pedagogico; e Innocencio iv, pela 
bulla de 1254, exigia as proras das Faoulda- 
dea de Artes, para que ob profeBsores de Ja- 
risprudencia podessem ter prebendas, honrafl 
e dignidades ecclesiaaticas. Os Gursoa de Ar- 
tes fòram incorporados oom as outras Facol- 
dades nas Universidades, oorrespondei 
titulo de Doutor em Lettras aos seas gr 
doB. Por ventura o grande desenvolrii 



^ Vida e Obrtu de CamÒes, p. 221 ; parte ( 
to de vieta gratuito, que sendo Camdes Baohare 
em Leis, e por Isso Baeharel latino designa: 
donto apenaa. 



OAHÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 209 

dos estudos de Humanidades nos CoUegios 
de Santa Cruz de Goimbra levou Dom Joào lu 
a trasladar a Universidade de Lisboa para 
Goimbra em 1537. Os dois versos do qui- 
nhentista Antonio Ferreira: «Nào fazem da- 
mno as Musas aos Doutores, — Antes ajuda 
a suas Lettras d3o>» syntbetisam esse lumi- 
noso princìpio pedagogico, que fortifìcou o 
genio de Gamoes na grande epoca do Huma- 
nismò. 

Em quanto D. JoSo ni parecia interessar- 
se pelo desenvolvimento da instrucgào publi- 
ca, aproveitando os esforgos dos Gracianos 
em Santa Gruz de Goimbra, mudando a Uni- 
versidade de Lisboa em 1537, n'esse mesmo 
anno introduziu a Inquisi^ao em Portugal, e 
Gonfiava aos Dominicanos a acQao tenebrosa 
dos seus tribunaes sangrentos. O povo pro- 
testava com o naturai bom senso contra està 
violencia, sendo a sua voz abafada pelo car- 
cere a arbitrio ou extincta pelas fogueiras. ^ 



\ No Livro da8 Denunciagóes da InquisiqàOy a 
partir de 1587, vem um documento revelador d'esse 
estado da eonsciencia popular : 

•Ana Royz, mulher de hum pintor Xpova Treque 
(Cfarìstovam de Utrecht), inoradora n'esta cidade na 
Mouraria, freguesia de Santa Justa, testemunha jura- 
<ia aos santos evangelhos e perguntada devasaménte 
pelo dito doutor Joham de MeUo inquysidor, que se 
8»hìa algana pesoa ou pesoas que disesem ou fizessem 
li laa consa contra nosa santa fee catolleca que ho di- 
si : dise ella testemunha que he verdade que averà 
h ano ou quìnze mezes pouco mais ou menos que 
el testemunha fora a Ribeira por hum saco de carvà 
« ) foj Goprar a haua molher grosa preta, que ora 
b Tesa, e que na he lem brada do nome e vende car- 



Santa Cruz de Coimbra cometjada em 1527, 
Bubmettendo os aeua opulentos cone 
clausura claustral, iniciaram-se tambe 
voB desenvolvimentoB do enBÌno por n 
que estudaram em Paria, e que tornai nw u 
Collegio de Santa Cruz o fóce de cultura do" 
jovena fidalgos portuguezeB. Foi este progrei 
so pedagogico que determìnou Dom Jo3o r 
a trasladar a Universidade de Lisboa par 
Coimbra em 1537, suavÌBando a violencla à 



va, a qual dìeera a ella tosteniunha que s 
ella testemunha se asentara, e a dita ci 
goo. e a dita mulher Ihe perguntara: 

— Que novaa svia por eata cidade? 

E ella teatemunha diaera; que: 



— Que navas tinha da Inquisirà? 
E ella testemunha Ihe dlsaera. que: 

— Dizià que vJnba, e ae era asy que vipha, queer 
liua cousa mui santa que tanto era por bòa Lei »e!h 
corno pela nova, Rpgundo diziam. 

E a dita mullier Ihe diserà: 

— Nunca o ouvireis nem vereis eia vossos diaa. 
E ella dera com ambas as màos figas, dizendo: 
— Tome pera El Rey! tome para quem hoacona 

Ihou ; e tome para o Papa que ha outorgou Porqi 
por derradeiro hamde tycar por quem sam, e fon 
de dinbeiro bade acabar lodo. 

E al nan dine, e ao costume dise nibil, e por ni 
saber aeynar asiney aqui a eeu roguo, eu notairo e f 
Jorge Velho notairo ho escrevi. Jorge Velbo. J." ( 
Hello.» (FI. 89.) Dr. Sousa Viterbo, Mem. daàea' 
mia, t. X, P. I, p. 152, 2.' CI.) 



r 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 211 



applicar urna grande parte dos rendimentos 
de Santa Cruz aos gastos da Univer^idade. 
Durante oste periodo de actividade dos Col- 
legios depoìs de 1527, fóram Priores crastei- 
ro8 de Santa Cruz D. Dionysio de Moraes 
(1530 a 1533), Dora Paulo Galvào (1533 a 
1536), D. Miguel de Araujo (1536 a 1539); 
foi entao que Dom Joao iii para honrar o 
Mofiteiro, que tanto cooperara com a Univer 
sidade com os seus proprios Collegios e com 
sacrificio dos rendimentos da coramunida- 
de, concedeu o tìtulo de Cancellario da Uni 
versidade de Coimbra aos Priores crasteiros 
de Santa. Cruz. No capitulo geral dos Conven- 
tos augURtìnianos celebrado em 5 de Maio de 
1539, foi eleito Dom Bento de CamSes Prior 
geral, sendo tambem elle o primeiro que re- 
cebendo o cargo de Cancellario da Universi- 
dade o exerceu durante o seu triennio de 
1539 a 1542. Nao póde este facto ser indif- 
ferente para a vida de Luiz de Camoes; pri- 
meiramente a convivencia com o homem aus- 
tero e cheio de auctoridade, incutia àquelle 
espirito lucido e irrequieto uma comprehen- 
sao elevada da existencìa, e facilitava Ihe as 
condigoes para adquirir uma vasta leitura 
fiervindo se da riquìssìma livraria do mostei- 
ro. Tambem nao era um escholar que pas- 
sasse desapercebido a seus mestres, no corri- 
culo dos cursos, por que antes dos seus ras- 
gofl geniaes fulgirem jà o nome de Dom Ben- 
de Camoes Ihe servia de ègide. E so com 
sonvivencia com mestres muito illustrados» 
no 08 chamados parisienses Pedro Henri- 
18, Gonzalo Alvares, Vicente Fabricio, os 
mmaticos Joao Fernandes, Belchior Bellia- 



KI3TORtA DA LITTER&TURA PORI 



go, Ignazio de Moraes, D. Maxi 
e Don Heliodoro de Paiva, que 
tes e HuinanidadeB durante o qi 
estudos de CamÒes. é que se pòi 
profundo saber humanistico por 
do em Coimbra no remanso que e 
mais leve depois na córte e mu 
epoca tormentosa da India. 

Quando no Canto iii dos Lui 
ta esbo^a pittorescamente a s 
reis de Portugal, lembra-se da 

de Coimbra, ao fallar de Dom 

atituidor, e descreve-a com emogào viva, sob 
a ìmpressSo que Ihe ficfira d'aquelles prìmei- 
roB cinco annos em que fdra restituìda fi Bua 
antiga sède: 



Fez prìiueiro em Coimbra exercitar-se 
O valioso officio do Minerva; 
E de Helicona as Mueas fez passar-se 
A pizar do Mondego a fertil herva. 
Quanto póde de Athenas desejar-Be 
Tudo o soberbo Apollo aqui reserva; 
Aqui as capellas dà tecidoe de ouro. 
Do Baccharo e do sempre verde louro. 
fLua., Ili, i 



A carta regìa de 15 de Dezembro de 1639, 
em que D. Jo3o in outorga o cargo de Can- 
cellano da Universidade aos Priores de Santa 
Cruz, fundamenta essa distinc^So: <A quan- 
tos està mìnha carta virem fa^o saber, — qi 
considerando eu corno em o Mosteiro de Sani 
Cruz de Coimbra jazem os corpos dos reis (f 
gloriosa memoria, a saber: del Rey Dom A 
fonso Henriques e del Rey Dom Sancho, a* 



CAH5B8 — EPOCA, YIDA K OBRA 213 



filho, prìmeiros Reys d'este Reyno de Portu- 
gal; e bem assi havendo respeito ao dito 
Mo8teiro ser ora por ordenanga tambem re- 
formado, e estar em tanta observancia, e se 
fazer em elle tanto servilo a Nosso Senhor, e 
em 08 Collegios que em elle mandei fazer^ 
tanto fruito e provetto dos meus Reynos e 
senhoriost em as Linguas, Artes e Theo lo- 
gia, pelas quaes cousas recebendo eu multo 
prazer e contentamento: E querendo accres- 
centar, honrar e fazer mercé ao dito Mostei- 
ro, de meu proprio motu bei por bem e me 
praz fazer mercè, comò de feito fago ao Prior 
do dito Mosteiro e Gerai da Oongregagao que 
ora he, e pelo tempo que fdr, do Officio de 
Cancellarlo da Universidade da dita Cidade 
de Coimbra, do qual officio Ihe fago mercè 
oom todaa as honras e privilegios, anteceden- 
das» preferencias e prerogativas com que o 
tireram e d'elles usaram sempre os Cancella- 
rios que fdram em està dita cidade de Lisboa 
até ao tempo que d'ella mudei os Estudos 
para a dita Cidade de Coimbra. E por està 
mando ao Reytor, Lentes, Conselheiros, De- 
patados, Estudantes da dita Universidade, 
qua ora sSo, e ao diante forem, que hajam 
pelo sobredito modo o dito Prior, que ora 
he, e aos que pelo tempo forem por Cancel- 
larlo da dita Universidade; e que todos os 
grfios de Licengas, Doctorados e Magisterios 
RA ddem pelo dito Cancellano em o dito Mos- 
iro, onde se farSo os exames; e os ditos 
éoB se darSo pela Bulla e Privilegio con- 
lido & dita Universidade pelo Santo Padre 
ninha instancia em Theologia, e Canones; 
m Leis, Medicina e Artes se darao sempre 



UI3T0RIA DA LITTERATDlt \ 



por minha auctoridade, com 

te, se darào segundo a fór _.. 

gimento e Estatotos da TJniversidade. Dos 
quaes Grfios o dito Cancellano passarfi Car- 
tas em fórma aos graduados. com declara^o 
da auctoridade por que fdram dados expreesa 
nas ditaa Cartas feitas pelle escrivao da Uni- 
versidade e assinadaa por ("Po dito Cancella- 
rio. E mando que das portas a dentro do 
dito Mosteiro e da sna Capolla de S. Joào, e 
de todos 08 seus Collegios, a eaher. do Colle- 
gio de S. Joào e do Collegio de Santo Agoe- 
tinho e do Collegio de Todos os Santos. o 
dito Padre Cancellarlo haja e tenha toda a 
jurÌBdiccao em os Mestres, Eatudantes e Otfi- 
ciaes que em elles lérem, estudarem e aervi- 
rem. A qual jurìsdic^So se enteoderfi em os 
Mestres sómente em o que tocar ds lÌQoena e 
faltas do8 lentes. e em o fazer dos exercicioa 
e disputas, e em as horas que hSo de I@r, e 
em Ihes dar ae licetiQas pera ìrem fora, e 
pera lérem outros por elles, e em Ihes man- 
dar pagar seus salarios, e em oa mandar mul- 
tar em elles, quando em as sobreditas cousas 
Ihe tórem desobedientes. E em os Estudan- 
tea e Collegiaea em Ihes dar licentfaa, e em os 
reprehender e emendar, quando fòrem escan- 
daloaoB, mal ensinados ou deshonestoa, e em 
as cousas que dSo torTa<}§o a bem estudar.— 
cE quando acontecer o dito Cancellario 
Ber ausente, ou ter outro impedimento, tenha 
suas vezeB em o dito officio aquelle SeligioE 
que as tiver em a governan^a do dito Moi 
teìro, e pela dita maneira bei por unidos 
ineorporados os diios Collegios com a dH 
Universidade ; e mando que d'aqui em diai 



f^ 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 215 



te todo seja e se ehame hua Universidade^ e 
todos juntamente hajam e gozem de uns mes- 
mos priviiegios, assi dos que até qui Ihe sao 
Goncedidos, corno de todos os que ao diante 
80 concederàm é dita Universidade.» ^ 

Por aqui se ve a importancia que o cargo 
de Canceliario deu aos Priores de Santa Cruz 
de Coimbra na refórma da Universidade em 
1537, incorporando n'ella os seus Collegios 
do Mosteiro, jà afamados no ensino publico. 
NSo 6 pois possi vel equivoco sobre o facto 
de ter Luiz de Camoes sido alumno da Uni- 
versidade de Coimbra. 

Eleito Prior geral em 5 de Maio de 1539, 
foi Dom Sento de Cam5es o primeiro que 
exerceu o alto cargo de Canceliario da Uni- 
versidade; d'elle escreve D. Nicolào de Santa 
Maria, na Chronica dos Regrantes: «tomou o 
habito de Conego regrante no Mosteiro de 
Santa Cruz antes da refórma (1527) e foi um 
dos Gonegos que a acceitaram, e por isso e 
por.sua qualidade, letras e virtude, multo es- 
timado de ElRei D. Joao ni, que festejou 
multo ser elle o primeiro Prior Geral (1539) 
e fez tambem primeiro Canceliario da nova 
Universidade de Coimbra...» (Ib., p. 290.) 
governo de Dom Sento de CamSes foi per- 
turbado por conflictos que comò Prior geral 
de Santa Cruz teve com o poder real. Em 14 
de Agosto de 1539, um collegial do Collegio 
de Todos os Santos achou um grande the- 
uro debaixo das escadas que iam para a 



^ Chronica dos Regrantes, Liv. vn, cap. 14. 
iùria da Universidade de Coimbra, 1. 1, p. 458. 



216 HISTORIA DA UTTSBATDRA 

torre do Moateiro; o achad 
gueiredo, ia siibreptieiBmenl 
zouro pare casa de seu pae 
Borges. Divulgado o succesi 
Bento de CamSes que o ti 
priedade do Mosteiro de É 
seu lado el-reì Bom Jo3o in 
denaQào do reìno reclamava 
pertencendo & coróa. Torni 
gìoso; diz o chronista cru 
thezouro andou o Prior Ger 
requerimentos e demanda c< 
do pertencer ao mosteiro, 
tenga por Elrey » (Op. eii 
no anno seguìnte, em 20 de • 
vflgaram ae rendas avulta( 
Mór de Santa Cruz por t 
D. Duarte, irrnSo de D, Joi 
fructava sendo casado; D< 
Prior Geral apoderou-se d'' 
prol do seu Mosteiro, tSo & 
fórmas e funda^òes de D. Jc 
esteve pela apropriagào, e 
Papa Paulo iii, que convi 
poder real, mandou em \hA 
das fdsBem deferìdas a um 
filho bastardo de D. Joào in 
bel Moniz, mÓQa da camara < 
nor, terceira mulher de D 
ce considerar-se a relìgÌ08Ì< 
D. Joào [II corno se conciliai 
dade com que dotava seue 
bastardos com os bens eccl< 
bastardo Dom Duarte, faleci 
Tìnte e dous annos, dera D. 
dìas de San Miguel de Ref( 




CAMdES — EPOOAy VIDA E OBRA 217 

San Bento, de San Martinho de Caramos, 
de San JoSo de LongaVaros, e ainda o Prio- 
rado Mór de Santa Cruz de Òoimbra, dando- 
Ihe a mais em 1542 o Arcebispado de Braga, 
vago pelo falecimento de Frei Diego da Sil- 
va. Estas rendas do joven bastardo passa- 
vam pela mSo de D. JoSo iii e eram dìspen- 
didas a seu arbitrio; pela avidez do monarcha, 
presnppSe-se que a austeridade de D. Bento 
de Camoes o affrontava, convertendo se a 
antiga estima em surda antipathia. Estes fa- 
ctos levam a inferir que mais tarde, quando 

moQo poeta Luiz de Camoes entrou na cór- 
te de D. JoSo III, comò sobrinho de Dom Bento 
estas hostilidades fdssem habilmente recorda- 
das por mediocres invejosos do seu talento. 

Sob o governo do terceiro reitor da Uni- 
versidade, Frei Bernardo da Cruz, bispo de 
S. Thomé, que nSo sympathisava com os Co- 
negos de Santa Cruz, soffreu o Cancellano 
Dom Bento de Camoes, conflictos de jurisdi- 
0^0, em que teve de intervir o reformador 
I>om Frei Braz de Barros reclamando para 
Dom JoSo III: cyér està casa que V. A. man- 
don reformar, em que ha tanta virtude e reli- 
gi2o, set assi tratada e posta em tanto perigo 
e dasasBOcego comò a cada dia poe o bispo 
reitor. — E porque eu em o principio d'estes 
deeassocegos euidei que esto se podia temperar 
oom algumas boas palavras e com alguns bons 
meios e com humildade d'estes religiosos, to- 
d ìa nSo aproveitei, ante cada dia se vae o 
ti mais ateando; nem para temperar està 
h hi lembran^a dos merecimentos d'està casa 
p respeito dos Reta que em ella estào sepul- 

1 o«, nem da boa religiSo que em ella se 



r 



CAM5E8 — EPOCA, VIDA E OBRA 219 

dilatasse o auto té eu escrever a V. A.> ' Por 
està carta de Frei Braz de Barros de 15 de 
Dezembro de 1541, vè-se que o conflìcto se 
passara com D. Bento de Óamoes. Findo o 
reitorado de Frei Bernardo da Cruz, restabe- 
leeea-se a harmonia entre o Mosteiro de Santa 
Cniz e a Univeraidade, pelo admiravel go- 
Temo de Frei Diego de Margo, que na Uni- 
Tersidade de Louvain tinba side condiscipulo 
de Frei Braz~ de Barros. E' naturai que por 
està antinomia entre o Cancellario e o Reitor, 
terminando Luiz de Gam5es o seu curso de 
Artes e Humanidades aos dezoitos annos, nSo 
proseguisse cursando Leis ou Canones. Pa- 
reee quasi forgada a sua partida de Goimbra 
para Lisboa. 

Dom Bento de Camoes acabou o seu trien- 
nio prioral em 5 de Maio de 1542, concen- 
trando-se na apathfa contemplativa; deserò- 
ve^se no Agiologia lusitano este estado asce- 
tioo : cEstando pois certo dia recitando algu- 
mas devoQoes, corno de costume diante do se- 
pulchro do Santo Rei Dom Affonso Henri- 
^tee», Ihe appareeeu glorioso, dando-lhe as 
gra^s de quam excellentemente se havia por- 
tado no cargo.* (Op. cit, i, p. 22.) Estas ap- 
parifoes de D. Affonso Henriques eram um 
traqne frequente com que os Cruzios defen- 
diam as suas rendas ou prerogativas nos as- 
saltos do poder real. 

A lenda da vis3o de Dom Bento de Ga- 
mi 8 ìndica-nos a via por onde o poeta co- 



\ 



•i 



Corpo chronologico. Parte 1* MaQ. 71. Doc. 33. 
To do Tombe. 



220 aiSToaiA da utter 

nheeera as pittorescas 
colligiani para a saiict! 
monarchia, taes comò 
a fidelidade de Egas ] 
mSe D. Tareja, que 
mente entretecer nos Z 
lidas por conceasSo ei 
das Chroìiicas breves i 
bra. * 

Isto conduz à ìnfe: 
Bento de Camoea intim 
sobrinho, que deslumt 
lento. 

E' naturai que ten 
Vida ecclesiastica em e 
elevarla adignìdades i 



* D'esle Mosleiro de 
verdade dizer o que o Dr. 
mento a Bntallm >para assi 
mente impressinnado do l 
epopèa dos Liisiadas, que 
poncho a pouco as suas rai: 
oesabroclinu eni esplendida 
do sentimento nacional, alii 
tim systenia completo de pt 
lembramo-noe aquì do m 
KtopDtock que, doie seculos 
cathedra! de Quedljnburg 
Imperador Henrìqiie i, re 
heroka, entre lan^as e ari 
das Terras germanicas. Kl 
i;ào patriotica; Camòea, poi 
através doB Mares e contii 
OB tiiil aggravos de guerra 
naufrHgio medonho, com r 
aervando illeso no regresso 
fructo gerado em urna vid( 
gura.> (Vida e Obraa, p. 2£ 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 221 

86 entende pelos planos de vida expostos em 
urna carta attribuida ao poeta, publicada pela 
primeira vez por Juromenha : «Tornei o pulso 
a todos OS estados da vida, e nenhum achei 
em perfeìta saude; porque a dos Clerigos 
para remedio a véjo tornar mais da vida que 
da salva^ao da alma; a dos Frades, inda que 
por baixo dos habitos tem uns pontinhos, 
que, quem tudo deixa por Deus, nada havia 
de querer do mundo; a dos casados é boa de 
tornar e ruim de sustentar e peor de deìxar; 
a dos solteiros, barca de vidro sem leme, que 
he bem ruim navega^ào : ora temperai-me là 
està gaita, que nem asi, nem asi, acharàs 
meo real de descanso n'esta vida ...» * Conta 
Manuel Correa, que nos ultimos annos de 
sua Vida Luiz de CaraSes comprazia-se em ir 
ouvir as theses de Theologia moral ao visi- 
nho convento de S. Domingos; era um resto 
da sympathia que essas questdes- Ihe mere- 
ceram na epoca dos primeiros estudos, quando 
heaitava ante a carreira ecclesiastica. No Can- 
doaeiro manuscripto colligido por Luiz Fran- 
co, que a si se dà o titulo de Companheiro em 
estado da India e muito amigo de Luiz de 
CamoeSs vem urna Elegia celebrando a Sexta 
feira da Paixào, acompanhada de um Soneto 
dedicatorio, que o visconde de Juromenha 
oonsiderou corno composigào dedicada por 
Camdes a seu tio e depois de eleito em 1539 



Juromenha, Ohraa de Camdes, t. ii, p. 17: 
*a] arece em um paragrapho inedito de urna das suas 
Ga is impressas, e se eucontra em um manuscripto 
qu ^oasuo, onde està Carta vem por integra, t 



222 HISTORIA DA LITIEBÀIDBA PORI 

Prìor Cerai. Pelo menos, no co: 
già ha umsB alluedes àa suas f 
toraea: 

Divino, almo pastor. Delio dourai 
A quem de Amphrìaìo jd vivant ■ 
Guardar formoso, vico e branco 

Os setenta e dois Conegos cri 
effecti va mente habito branco. I 
allude-se tambem ao seu carac 
gioso: 



Este pequeno fructo, produzido 
Do meu saber e fraco entendimei 
Urna vontade grande te offereca. 

Se fór de ti notado de atrevido, 
D'aqui peQO perdSo do atrevimen 
O qual eata vontade te mereoe. 

No firn da Elegia torna a re 
neranda individualidade a que 
cada: 

Recete, pào da vida, eate pequen 
Sacrificio de niim, é. eombra escr 
De uin atto freìxo d'este valle am 

E dame tanta gra^a e tanto esp'i 
Para que sempre louve, qua] espi 
O tei! saber profundo e infinito. 

Tomdra aer Virgilio ou ser Hom 
Sómente no saber, que foi divino 
Que ser o que elles foram niLo ne 



Soneto cccxLix ; e Elegia zxix. : 



CAMdBS — EPOCA, VIDA E OBBA 223 



N'eeta Elegia faz o poeta um alarde de co* 
nbecimentos mythologicos, misturando-os com 
symbolos christSos, corno quem estava imi 
tando Sanazzaro; alli se apontam as Nym 
phaSf as Nove irmds, Timbreo, Phebo, a Hes 
pena. Theiis, Xanto, Galatèa, Daphne^ Clio 
Panopea^ Doris, Zéphyro, Favonio, Clais 
Aquario, Piscis, Europa, Pellio, Ossa, Ema 
Pindo, Atlante, Japiter, Phlegra e Acheronte 
Terrnmando a composigào, indica o logar em 
qua a escrevera; seria o valle ameno a mata 
do mosteiro de Santa Cruz. A Elegia é des- 
proporcionada, com urna abundancia facil, de 
de quem dominava o verso endecassyllabo. 

triumpho da eschola italiana, iniciada 
por Sa de Miranda no seu regresso a Portu- 
gal em 1526, era definitivo; Dom Manuel de 
Portugal, amigo de Camoes, adheria àquelle 
movimento litterario, e o atrevimento a que 
no Soneto que fica citado alludia Camoes, 
ooDsistiria na versificaQSo em metro ende- 
cassyllabo, abalangando-se a escrever em ter- 
cetos cu capitulo, comò se chamava a essa 
fórma estrophica. * Camoes tornou a tratar 
este assumpto em uma outra Elegia mais breve 
A' Paixdo de Christo Nosso Senhor, corno 
qoem se penitenciàra da sua primeira exube- 
rancia. No final da Elegia xxix, o verso: <To- 



* O Dr. Storck, na Vida e Obras de Luiz de Ca- 
moes, (p. 240) traz: «Anteriormente, julguei nào dever 
al rmar nem negar a justi^a da hypothese de Jurome- 
dI e Braga. Hoje digo que essas poesias devem ser 
re radas das Obras camonianas, emquanto nào se apre- 
8( arem provas da sua authenticidade.» Tém a mesma 
ai lentìcidade dos outros textos camonianos do Cancio- 
n( o de Luiz Franco, e refor^ando-as a interpretagào. 



HISTORIA DA LITTEI 



mara ser Virgilio ou ser Homero* é cop'"''^'»- 
rado plauBÌvelmente por Juromenha come 
aspiragào do poeta S concep^So de urna 
péa nacional. 

Notando Faria e Souea nas compOG 
lyricas de Camòes a expresaao precoce «j 
pensamento realisado na edade madura, i 
facto mais urna prova da authenticidad 
Elegia da Paixào. NSo deizaria de bu( 
esse pensamento o Panegyrico de D. Jo 
publicado por JoSo de Barros em 153f 
qual exaitando a poesìa beroìca em qui 
cantavam antigamente os feitos notave» 
grandes homens — o que se fo^e usadi 
Hespanha e toda a Europa, se me eu nS< 
gano, mais proveito de tal musica nac 
do que nace de saudosaa oantigas e tr 
namoradas > Jo3o de Barros referia-se a 
ISvo das Eglogas de Bernardim Ribei 
do Crisfal de Christovam FalcSo, que ei 
gavam todas as emogdes; e possuìdo da 
cepQ3o historica, comprehendia a oppor 
dade ou o realismo da poesia heroica pa: 
talentos do seu tempo. E' posaivel que 
mente da sua palavra germinasse na n 
do joven poeta, por que a aspìra^ao a i 
sar a Epopèa portugueza transparecia 
vezes DOS versos lyricos corno uma ez] 
sào da sua pujanQa. 

A admìra^So pela poesia da Eeohole 
liana n&o o tornava incompativet oom a 
Ibas fórmas nacionaea. Os talentos poe 
do joTCQ escholar foram conhecidos e ii 
diatamente aproveitados para os divertii 
tos dramatioos da Universidade, nas t 
doB estudos. Na reforma de D. JoSo in ì 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 226 

da se regular as leituras de Direito pelas di- 
visoes seguidas na Universidade de Sala- 
manca ; por està dependencia nSo admira que 
em Coimbra se seguissem os mesmos costu- 
mes esoholarescos. Nos Estatutos da Univer- 
sidade de Salamanca estabelecem-se as epo- 
cas em que se permittem as representa<;5es 
scenicas: «La Pascua de Natal, Garnes tolien- 
das, Pascua de Resurrecion y Pentecostes de 
Qn ano saldran los estudiantes de cada uno 
de los Colegios a orar y hazer dedamaciones 
pnblicamente. Item, de cada Colegio cada 
ano se representard una eomedia de Plauto 
y TerenciOy y Tragicomedìa, la primera el 
primero de las octavas de Corpus xpi y las 
otras en los domingos siguientes ; y el regente 
que mejor hìziere y representare las dlchas 
Cùmedias o Tragedias se le den seis ducados 
del Arca del Bstudio y sejan juezes para dar 
66te premio el Rector y Maestro-escuela.» ^ 
Era este costume commum a todas as Uni- 
vmrsidades da Europa, e encontram-se mani- 
festa^oes em Coimbra, nas Escholas de Santa 
Graz, no Collegio Real, e ainda sob os Jesui- 
tas com as suas apparatosas Tragicomedias 
latinas. Eram um exercìcio litterario e um di- 
vertimento ferial. Camoes refere-se a este 
costume, e ft festa escholar em que eram mais 
rnidosas as representa^oes ; assim no Auto 
de El-rei Seleueo, diz : «Tu fazes ]& melhores 
ariramentos que mogos de Estudo por dia de 
Si t Nicoldo Camdes era um d'esses que 



^ Ad. Yidal y Dìas, Memoria historica de la UnU 
Vi ndadi' 



de Salamanca, p. 94. 



HlSTDBtA DA LITTBRATI 



sabia achar pittorescos ar) 
encontrou o gracìoso tfaei 
rea de Jupiter por Alcmt 
eBquivan^as sob a fórma simulada de seu ma- 
rìdo AmphytrÌ3o, e apezar de todo o pr " 
da fórma claBsica elaborou-o do typo di 
vicentino. Em Coimbra tinha Gii Vice 
preeentado dìante da córte, quando 
demoroa, a sua far(;a dea Almocreves, 
da Serra da Estrella, e a Tragicomet 
Divisa da Cidade de Coimbra. Por cei 
eetee espectaculoB nacionaes e unicoB i 
tavam ainda esquecidOB, tendo-se divi 
em folhas volanteB em semi gotico al 
das mais populares compo8Ìi;óe8 de ( 
cente. No Auto dos Enfatrioes, escrip 
Camoes para esBea dÌTertimentoB da l 
sidade, em que elle foi por veutura o i 
dor, ou mesmo um dos repreeentantes, 
nifesto o aeu conhecimento da Tragict 
Doni Duardos de Gii Vicente. A cread 
mia, entra cantando o romance de F 
com que Gii Vicente terminou o seu J 
que foi glosado por varioa poetas no sacu 
tornandoBe popular; aia o texto de Ct 

Voyme a las tierras «stranaa 
A do ventura me guia. 

E aeguia uma versào orai, ou va 
por que no texto representado em Evo 
Gii Viceote em 1533, vetn : 

Voyme d tierrae estrangeras , 
Piies ventura alla me guia. ' 



* Alludindo ao emprego do Centào, esc 
Francisco de Portngal, na Arte de Oatanteria^ 



CAHÒES — EPOCA, VIDA B OBRA 227 

Gamoes segue tambem o preceito de Gii 
Vicente no emprego do castelhano; quando 
Mercurio falla, corno companbeiro de Jupiter 
para a seduc^So de Alcmena, exprime-se em 
portuguez ; quando se encarna no criado Sosia, 
emprega o castelhano para o fingimento ou 
disfarce. ^ O thema da comedia plautina pre- 
stava-se à fórma italiana do imbroglio^ mas 
GamOes que abragara no Lyrismo o gosto pe- 
trarchista, preferiu seguir no theatro as for- 
maa vicentinas, em redondiihas, o Auto na 
sua estructura perfeita. A paixSo pelo tbeatro 
nSo pareceu um accidente simples da vida 
escboiar; em Lisboa essa paixao leva-o à in- 
timidade com o poeta tunante Antonio Ri- 
beiro Gbiado. O Auto dos Enfatrioes foi comò 
obra da mocidade desprezado pelo poeta ; ou 
perdido entre aquelles que o representaram ; 



•Qae solamente los sufrimos en esto de valerse de 
Tersos, los que la antiguidad estabeleció aprobaciones, 
nna vez en la vida, otra en la muerte, dexando exce- 
ptuado por comisìon particular el Auto de Dom Diuir- 
des, en aqnellas certezas echas de molde para succes- 
S08 materìales : 

que agua tfio saborosa, 

Toda se me apresenta en el corazon. 

O responde oomo vistes 

O vistes oomo respondes, 

Sagrada flòr de las flòres. 

«Y Io de Artada a Julian, para las criadas en la» 
dr ^speraciones, si mi consejo tomara no se irla, aun- 

con riesgo de que le suceda corno al (D. Juan de 

I, Conde de Portalegre) que trayendo por resposta 
o< versoB de un Romance a uma dama dixo ella: 

— O que cansada cosa, discretos de cartapacio.» (P. 

Esehola de Qil Vicente, p. 204. 



I 



em lima collec^So de Autos populares. E um 

firecìoBo documento para revelar a vida esebo- 
aresi!a de Coimbra, e urna pagina palpitante 
da mocidade do poeta n'esse melo culto. Os 
biographoB nào comprehenderam o seu valor 
bistorioo. Montaigne, noB aeus Ensaios. de- 
Bcreve os divertimentos dramaticos que 
usavam no Collegio de Guyenne aob o pi 
cipalado de Mestre André de Gouveia: • 
desempenhei os primeiros personagena i 
Tragedias latinaa de Buchanan, de Guere: 
e de Moret, que se representaram no noi 
Collegio de Guyenne, com dignidade.» (L 
I, cap. 25). Na descrip<;fio d'eate Collegio i 
Gautlieur, reconbece-se que: <No Collegio 
Guyenne o tbeatro era em certa maneira u 

Sarte da educai;3o.> Poi noe eatudoa de Coi 
ra que se revelou o goato dramatico de Joi 
Ferreira de Vasconcelloa e do Dr. Antoi 
Ferreira. Eatea divertimentos conaervaram 
com fervor, pois que em 1661, quando o Pr 
do Grato, filbo naturai do Infante D. Li 
acabou oa aeus eatudos de Pbiloaophia e 1 
taphysica, ao dar-lhe o Prior Cerai D. Fr^.. , 
cieco de Mendanba, Cancellarlo da Universi- X 
dado, o gr&o de Bacharel em Artea, bouvs i 
uma grande festa dramatioa. LS-se uà Ghro- 1 
nica do8 Regrantes : lOrdenou entSo omesmo I 
Prior Goral, que este acto ae fizesse ce 
grande aolemnidade. Para iaao^houve prò 
afte de El-rei D. Jo3o in, que podesae o 1 
D. Antonio receber o dito grfio em San 
Cruz, na Aula do Geral em que se fazem 
Quodlibetos e Augustiniatuie. E que seu mi 
tre o Padre D. Braz Ihe orasse no acto, e l 



r 



OAMÒBS — BPOCAy VIDA E OBRA 229 

pozesse as insignias de Mestre em Artes. Or- 
denou mais para a tarde d'aquelle dia urna 
Tragedia do CUgante Oolias, em latim, que 
representaram os Estudantes actuaes da Uni- 
versidade, na Claustra da Portaria, que fica 
anterior ao Mosteiro.» (Liv. x, p. 183). «De 
tarde se representou a Tragedia do Gigante 
Oolias na Claustra da Porteria, com grande 
apparato e se acabou com uma musica mui 
suave, cantando a córos a quella letra do 
triampho de David, que teve do Gigante: — 
Saul percussit mille — Et David decem mii- 
lia». (Ib., t. n, p. 319.) Na linguagem popu- 
lar portugueza ainda se encontra o nome de 
Goliardo^ significando o frascario, derivado 
das tropelias que faziam os estudantes que 
representavam de Golias. Ghiado, que era 
▼erdadeiramente um exfrade goliardo, diz 
na Pratica de outo Figurasi «Em beber sou 
nm Cfolias.y Por està narrativa da festa dra- 
matica no baoharelato de D. Antonio, Prior 
do Grato, nas Escholas de Santa Gruz, se nos 
revela corno e em que condi<}5es foi represen- 
tado o Auto do8 Enfatrioes^ por ventura es- 
cripto por Gamdes para celebrar a recepQfio 
do seu grfio de bacharel latino. ^ Estes cos- 



^ Escreve Jaromenha: <Gonsta-no8 que no Ar- 
chivo da Universidade de Ooimbra exlstem matriculaa 
mmU) antigas, que vao ao tempo da traslada^ao, e re- 
sisto das formaturas ; porém tendo-se ali procurado a 
> no88o Poeta nào se encontrou.^ fObras, t. i» p. X, 
1 2). E' uma omissio explicavel. Nas leìs organicas 
. traslada^o da Universidade de Lisboa para Coim- 
a, acham-se àisposi^oes prohibindo aos estudantes 
eqnentarem as aulas e fazerem formatura sem tereni 
'ectaado a matricnla nos diversos annos. O rigor Vfià 



I 

i 



tumes escholarescos communs a todas as tJnì- 
Torsidadee, explicam-noa esee caracter impe- 
tuoso de valeatào e arruaceiro, que manifee- 
tou CamOes ]& fora de Goimbra. Descreve 
este costume Quicherat na Historia do Colle- 
gio de Santa Barbara, gloriosamenta regen- 
tado pelos dossos Gouvéas: «Formou-se n 
seio das escbolaB uma class» de professon 
Taleotdes e espadaobins, que argumentavai 
puchando pelos cópos ; e ainda mais os disc 



lei mostra quanto este abuso estava inveterado, eh 
gando-Be até a provar a frequencia para receber o gri 
por testemunhaa. Em uma Carta règia de 3 de Novembi 
de 1689, lè-se: 't^MO alguns eatudantee se nfio quere 
assentar na matricula d'essa Universidade. . . e os a 
nos que cursarem nào poderào provar por teatem 
nhas-, etc— E em uma Portarla de 18 de Mar^o ( 
1640, acba-se concedìda lìceDi;a a dois estudantes pai 
provarem a sua frequencia por testemmibas, viato ni 
eatarem matriculados : «Reverendo Reitor Ainìgao, ( 
El-Rey vos envìo muito saudar. Vi a carta que me e 
crevestes e que dizeee corno nS quizestes que seco 
tasseni os Cursos aos Bachareis que ora se qoere 
graduar, aenà aaquelles que se aeham matriculados b 
gundo forma da Provisao e Regimento que Bobre el 
passei : foi assi bem feito e assi ei por bS que t 
cumpra e guarda, e porem pelas rezons que na di 
Carta dais, ei por he que a Oaepar Antunea, sch 
lar de Leìa e a Luis Daraujo studanta de Canones, i 
rec«ba a prova de teatemunhas para elles provare 
ho dito Gaspar Antunea tres annoa que diz qne studciu 
nesae stndo de Goimbra sem ser matrlculado, e a Luìi 
de Araujo dona annoB que outrosl dlz que atadon no 
dito estudo sem se matricular, e provando oa ditoi 
oursoB por testemunhBS Ihe seja contadoa no numero 
doB cursos que ha de ter para se gradaarem de ba- 
ohareis assi corno se Ihe conterà se estiveram matrìon- 
ladoB. Anriqne da Mota, a fez a dezenove de Har^ e 
mil qninbentoB e quarenta.> 



r 



1 

I 



CA1C5B8 — EPOCA, VIDA E OBRA 231 

pulo8 das classes superìores auetorisavam-se 
com o exemplo para trazerem debaixo da capa 
a espada curta ...» Em carta règia de D. Jo9o 
ni» de 26 de Agosto de 1538, determina- se: 
eque nenhua studante dos Studos da minha 
cidade de Coimbra tragua espada de dia pela 
cidade assi corno tenho mandado que as n& 
tragui de noite, e trazendo-as centra està mi- 
nha defeza mando ao meirinho da Universi- 
dade que Ihas tome e se perquS para elle. — 
e assi ei por he que ni traguS punhal ne da- 
gaa sob a mesma pena.» Foi està carta pu* 
blicada em 7 de Outubro pelo escrivao da 
Universidade Heitor Rodrigues. As regalias 
das Uniyersidades permittiam certas festas 
turbulentas ou as Soigas, sobretudo na cele- 
brasse dos Reis Magoa. «N'este dia, comò 
escreve Quioherat, as portas dos Gollegios fi- 
cavam abertas, e os escholares livres de toda 
a vigilancia, safam cobertos de andrajos, e 
ooffl fato do avéssOi ou com qualquer outro 
arranjo ridiculo. lam a um logar formar uma 
grande assemblèa . . . AUi nomeava-se por 
aeolamaoSo o Roi des Sots.^ Em uma Provi- 
lo de D. Jo9o m, de 4 de Julho de 1541, 
determina-se : «quanto aa SotQa multo custosa 
que alguns studantes este anno fizerS de que 
T08 escandalisastes por nS ser cousa de stu- 
dantes, ei por be avendo respeito ao que di- 
zees, que se nS faga mais e vós Iho defendee.» 
As cerimonias do gr&o de doutoramento 
fa nbem admitxiam certas praticas grotescas 
d I escholares, a que se dava o nome de Veja- 
» n e tambem de Inveetivas, segundo se cos- 
ti lava em Paris : «e ho que receoer o gr&o fi- 
ci ^ em baixo assentado em hu& cadeira e 



282 HISTORIA DA LITIBBA 

diante haa mesa com aeu banqual e eetarSo 
com elle dous b&chsrets ou lìcenciadoe, e le- 
raa huma breve IìqSo. ■ . ; e acabado esto, bum 
homem honrado louvarà entSo letras e costu- 
mes do graduando e em linguagem per pa- 
lavras honestas diraa alguns defeitos gra- 
eioaoè pera folguar que nata sejam muito ds 
sentir, e Disto o scrÌTSo Ihe darà juram 
em fórma autes que auba a receber o gr 
Guerra y Orbe falla d'este costume nas 
versidades hespanbolas: cLos Vejamens 
bianse introduzido en Espana & imìtacìoi 
Gimnaeio de Paris, sustituyendo ó parodia 
con picantes burlas y sazonados dictos 
enfadosoB panegyriooB. — Llamase Vefa 
el de loB medioos e juristas, y se eacrìbii 
lengua oastellane ; pero decian Gallo, A 
gallicua, comò allusion de su origen, al d( 
theologoB pronunciado en latin. > Ém d 
regia de 1 de Julho de 1541, prohìbiam-s 
versos satiricos fis portaB da Ùnivereidadi 
Coimbra : <Eu El-rei fa^o aaber a vós Le 
ciado EatevSo Nogueìra, Conservador ( 
privativo) da Universidade de Coimbra, 
eu ei por b« e me praz, que quando se p 
rem algdas Invectivaa ou oartas ou Tre 
de mal dizer aas portas das Scbolaa, ou i 
tro das ditas scholas que aejam defamatonm 
oontra alguaSs pessoas, que posaam tirar de- 
vassa BObre quem as taes Invectivaa, eartas 
ou trova» fez e assi sobre que as pos nas dì' 
tas scholas ; e achando algaas pessoas cai 
daa as prendereeB e procedereea centra al 
corno V08 parecer justi^a segundo fórma 
minhas ordenai^ea, dando appellaoSo e ; 
gravo nos casoa em que oouber- ■ ■ > 




OAMÒBS — BPOCAy VIDA E OBRA 283 

Além d'estas liberdades estudantescas que 
pertnbavam os esplendores da reforma, torna- 
▼am-se excessivos os Descantes ou musicas 
noctornas, a que o solìcito D. Joào iii teve 
de acudir em carta de 20 de Junho de 1539, 
dirìgida ao Reitor: «Reverendo Bispo Rector 
amiguo. Eu El-rey vos envio muito saudar. 
Ea sao enformado que alg^s studantes (Vessa 
Universidade na esguardSndo ho que cumpre 
a servilo de deus e meu e ha honestidade de 
Buas pessoas, andam de notte com armas fa- 
tendo musicas e outros autos nSo mui hones- 
t08 por essa cidade, de que se segue escan- 
dalo aos cidadaons e moradores e pouqua 
autiioridade e honra aa Universidade ; e por 
qae recebo desprazer de taes cousas se fa- 
zerfi, vos encomendo que vos enformees disso 
e ho estranhai aas pessoas que ho fizerem 
aegundo a qualidade de suas pessoas ; e man- 
dae diamar o meirinho da Universidade e Ihe 
diiee de minha parte que olhe por isso e cum- 
pra minhas ordena^oens, e assi as ordenan- 
tas que sobre isso tenho feitas, porque n& ho 
faz6do assi eu proverei no caso corno ouver 
por bem e vós me escrevee ho que neste caso 
passa mui decradamente. Anrique da Motta 
a fez é Lìxboa aos vinte .dias de Junho de 
nil quinhentos trinta e nove.» ^ 



' Em nma carta de D. Joio ni, de 25 de Novem- 
bro de 1540, ao Bfapo reitor, vein a noticìa de um estu- 
ai tte eóbnla, que perturbava os estudos pela sua des- 
ti ^oUnra: «Eu sou enformado que hutt studante d'essa 
C iversidade que se chama Araujo, he bomS que nà 
V e honestamente n6 studa comò deve fazer, e de* 
9 ^de mal ho que Ihe seu pae dà ; e porque iato ale de 




OAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 235 



Riberas me crié del rio Mondego. 

El-rio de Mondego y su ribera 
Con oiros mis eguales passeava^ 
Sugete al crudo Amor y su bandera ; 
Con elles a cantar me exercHava^ etc 

Està precocidade na paixSo amorosa, quo 
acordava o aentìmento poetico, é revelada bì- 
multaneamente pelos dois poetas, e em edade 
que tanto os aproximava. Jorge de Monte-Mór, 
nasddo em 19 de Mar^o de 1523| nào seguiu 
dm Goimbra o Gurso de Àrtes e Humanida- 
des, mas estudou theorica e praticamente a 
Musica, corno carreira profissional. Quando 
Camoes veiu para Lisboa, tambem Jorge de 
Monte-Mór se appresentou na cdrte habiiitado 
para entrar corno musico da Capella da prin- 
cexa D. Maria, que em 1543 casftra com o 
principe D. Philippe. Jorge de Monte Mór 
vìera para Coimbra frequentar as aulas de 
Musica do Mosteiro de Santa Cruz; era ahi 
que, corno Esoholar pobre elle podia en- 
oontrar recursos para a frequencia d'aquella 
disciplina, que formava parte obrigada do 
quadro pedagogico das Universidades. No 
Mosteiro de Santa Cruz havia o costume tra- 
didonal das Bagoes eobertas^ que os Priores- 
Móres destinavam a pobres ' honrados, por 
intenQfio do fundador San Theotonio ; nas re- 
formas ordenadas por D. Jo&o m desde 1627, 
essas RaQoes eobertas foram destinadas a au* 
xQiar estudantes pobres, conservando a in- 
teDf2o primitiva. Èram vinte e quatro as Ra- 
tSes eobertas^ e a ellas concorreram e se 
fo laram com esse auxilio escholares que 
B6 ^aduaram na Universidade, que foram 



i 



236 HI8TOBIA DA 

advogados, juìzei 
deoiOB acceitar ae 
Monte-Mór ae ap 
prestava o Mosh 
cholares pobrea, 
BÌonal, cultivandc 
com outroa seus i 
t;So poetica. ' Por 
villa em que na 
quem Ihe enainas 
pallia a dirjgir-ee 
o Mosteiro de Sai 
cidade aristocrat 
^ea cobertas pat 
tana. Florescia en 
D. Heliodoro de 1 
do qua! se 13 di 
«Sabìa as linguaf 
com toda a perfe 
comò a lingua por 
eBcrivSo de todae 



■ D. Nicoldo de 
Liv. VII, p. 64. 

• O Dr. Storck i 
Jorge de Monte-Mór < 
mento r •Jtfonte-Mór, 
banhada pelas aguae 
ainda boa legua. — 
póde fallar, porque 
sabia. Sendo assìm, 
seria m provaveis, se 
amìgoB, mas nada c< 
dra da prìmeira moi 
1637, em que Mont< 
servindo-lhe o seu b 
camaradagem auppo 
acceltavel.> {Vida e C 




OAMOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 237 



tava exceUentemente. Era cantar e musico 
destro e oontraponiista, compoz muitas Mis- 
908 e Magnificat de canto de orgao, e Motetes 
mui snaves ; tangia o orgSo e craviorgao com 
notavel ér e graga, tangia viola de arco e to- 
cava harpa e cantava a ella, com tanta sua vi - 
dade quo enlevava os ouvintes. (Op. cit , p. 
327.) Era tambem multo rica de obras theo- 
rìcas a livraria de Santa Cruz. 

Datam d'estes estudos em Santa Cruz de 
Goimbra as amìsades de CamSes com a moci- 
dade da prìncipal fidalguia portugueza ; ahi 
oonheceu D. Gonzalo da Silveira, filho do an- 
tigo poeta do Cancioneiro geral, D. Luiz da 
Silveira, a quem celebrou nos seus Lusiadas. 
Falla chrcniata cruzio: «da boa creagao que o 
Padre D. Gonzalo da Silveira teve no mesmo 
Mosteiro, ou tambem querendo seguir o cos- 
tume antigo dos senhores do nosso Portugal 
velho, OS quaes mandavam os seus filhos 
qae haviam de seguir o estudo ecclesiastico ao 
dito Mosteiro a estudar letras e virtudes, corno 
fez Infante D. Luiz, a seu filho naturai o 
senhor D. Antonio, e o duque D. Jaime a seus 
filhos, senhor Dom Fulgencio e D. Theotonio; 
e Harquez de Ferreira, D. Francisco de 
Hello, a seu filho D. Joào de Braganga ; e o 
Conde de Portalegre D. Jo3o da Silva a seu 
filho D« Antonio da Silva; e finalmente o 
Conde da Sortelha a D. Oongalo da Silva. i^ 
(Ch. dos Regr., p. 413). No Soneto xxxv 
Camoes celebrando o seu martyrio nas mis- 
B*ì8^ falla d'elle corno quem o conheceu 
B quella penetra^So intima das escolas: 






' Juromenha. compmanao em XOBO escnpio o 
Soneto XXI, de Camóes, ao novo herdeiro da Casa de 
Bragan^a, diz : • prova velniente o foi do anno de 1536, 
no qual intentou acompanhar o Infante U. Ltiitda- 
pedifdo da Oolela.. > (O&r. i, p 16). Qnem é qneiii- 
tentara acompanhar o Infante? Vé-ee que JoromeDlu ' 
se referia ou a Luta de Camòes, que entSo confondi 
com o homonynio, filho de Duarte de Camóes, i 
Evora, ou a Dora Theodosio, que leso flzera. A ródi 
cqao de Juromenha é amphibologica; em todo o caso 
inadmissivel que Luiz Vaz fizesse um Soneto aosoni 
annoB. 



rem 86 as fogueiras da Inquiai^fio, que ostava 
desde 1636 eatabelecida em Portugal, tendo 
j& um tribuna] do Santo Officio a funccionar 
em Coimbra ; via a córte dominada pelo san- 
guinario fanatismo caslelhano, e a nobreza 
Irida em apanliar doagòes regìas, commandos 
de armadas e capitanìas. Ao cheiro d'està ca- 
nella deapovoava-Be o reino, assim ]& o obser- 
Tara Sé de Miranda, que eotSo vivia des- 
alentado na sua Commenda das Duas Egrejas. 
Em Coimbra entravam una padres alcunhados 
Franckinotes, que se davam a si proprios o 
nome de Apostoloa, e que se havìam de cele- 
brisar no mundo sob o titulo de Companliia de 
Jesus. Esses padres empregavam todos os 
meioB de capta^ào, a comegar pela direc^So 
espiritual do rei e infantes, pelo rapto dos 
filbos da principal nobreza, corno se vira em 
D. Gonzalo da Silveira, e pela hallucinaQ3o 
do POTO com OS terrores rtietoricos da morte 
e do inferno. Tal era o Portugal da segunda 
netade do seculo xti, gue agora vetnos — tao 
; sér primeiro». ^ A està vi- 
dosio a Coimbra, ref ere-se 
Camdes no Soneto ccxxvii, 
que o duque estava ausente 
ipròveitado a passagem por 



o taes factos, é que Juromenha 
em 1606, fundando-se na phrase 
so podia Ber escripta depois da 
ayiDe em 20 de Setembro de 1 5S3. 
ssivel, por que teria o poeta nove 
Storck, eem fundamento colloca o 
5es jà TÌvIa em Lisboa. {Vida, p. 



CAXOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 241 

i - 

i TersSo a Camoes, corno tentarne nos seus es- 
I todos de Coimbra ? Se os endecasyllabos nSo 
leondizem com a perfei^ao que ]& tinha Ca- 
moes n'este metro, corno se ve pela Cangio iv, 
em que se despede de Coimbra, nos exten- 
808 Commentarios em prosa vèm factos que 
incitam fi presumpijao de ser obra do poeta ; 
Tdm ahi cìtados onze Sonetos de Petrar- 
eha explicando o pensamento do auctor dos 
Triumphos, e esses mesmos Sonetos fòram 
eonhecidos e muitos d'elles traduzidos por 
Camoes ; certas explanagoes mythologicas Ifi 
remos citadas, que depois foram elaboradaa 
artisticamente pelo poeta, corno os Sonetos 
de Leandro e Hero, de Jacob e Rachel, a tra- 
digao de Stratonice, thema do Auto de El-Rei 
SeleuGo^ as comparaQ5es de Canace, Baccho 
eonsiderado deus indiano, o dito celebre de 
Sdpiào, que elle empregara. N'estes Com- 
mentarios acham-se factos que se encontram 
[na Glosa de Gesualdo, publicada em 1553, o 
que nos dà o limite em que trabalhava n'estes 
|86tudos criticos, que fòram interrompidos, e 
ffoaram por aperfeiQoar. Està mesma data de 
1553, em que estava Camoes vehementemente 
Bogestionado para a elaboragSo dos Lusia- 
:das, 6 tambem indicio do motivo do abandono 
Id'esse esbdQo fragmentario da versào dos 
Triumphos de Petrarcha. 

Dr. Storck rejeita a attribuigao a Ca- 
'iDoes, fnndamentando em que nao acha nas 
iObras do poeta o «minimo vestigio dos lar- 
[gos estudos que o ignoto traductor ou antes 
icommentador de Petrarcha dedicou ao Cyclo 
[bretào e fis biographias dos trovadores pro- 
|Ter'».aes.> (Vida, p. 243.) Para a vida dos 



i 



CAH5E8 — BPOOA, VIDA B OBRA 248 

coUegiaes Rodrigo Lopes de Carvalho, Fran- 
dsoo Pinheìro, Antonio Serrào, FernSo de 
Brìto, Joao de Seixas, Luiz de Castilho, filho 
de Diogo de Castìlho, e Gonzalo Pires, filho 
de Duarte Pires, mestre das obras dos dois 
CoUegios. 

Quando Camoes deixou Goimbra, em fins 
de 1542, ainda o ensino humanistico nao es- 
tava corrompido pela falsa comprehensào da 
antignidade e negagao de todo o espirilo na- 
cional dos Jesuitas. ^ 

E' a allìan^a d'estes dois elementos que 
equilibra o genio de Camoes, tornandoo su- 
perior aos melhores espiritos exclusivìstas da 
RenascenQa. Pela leitura das suas obras des- 
oobre-se logo duas educaQdes distinctas, appa- 
rentemente antinomicas, mas no fundo solida- 
rias: Os seus versos estao cheios de paradi- 
gmas, que provam o conhecimento que tinba 
de Homero, de Virgilio, de Petrarcha e Sa- 



^ Sobre o caracter do ensino litterario dos Jesui- 
tas traQou Michelet este scintillante juizo: «E' deplora- 
▼el vèr protestantes e livres pensadores (Bacon, Ran- 
ke, Sismondi, Augusto Comte) louvarem os Jesuitas 
eomo mestres e excellentes latinistas. Elles tìveram um 
oonhedmento superficial da Antiguidade. Evidentemen- 
te, nunea léram nem conheceram os grandes eruditos 
do Beculo XVI. Nas maos dos Jesuitas tudo se tornou 
froixo e falso. Estas linguas màsculas e altivas, o que 
fiearam sendo nos seus Gollegios ? Quào molles e eife- 
minadas! O seu reinado de humanistas póde chamar- 
86 oom inteira verdade, o predominio da chateza. 
«Nunca o diabo farà a obra de Deus. O mais que 
2 sao contrafac^^B ignobeis e caricaturas. O f ructo 
fluitioo, derivado da Italia corrupta, do grotesco idy- 
I de Tirsis e de Gorydon, envenenou a Italia.» (Nos 
'Ì8, p. 149, 4.» ed.) 



I, da Mythologia, dos Geographos gre- 
las EncTolopedias em que se conaen- 
08 estudos classico^; * mas todo este 
ì erudicSo e auotoridade dos precoD- 
lumaDÌstas nSo ooDBeguiram apagar 
alma o sentimento nacional. que tran- 
a sympathia daa allusòes aos Roman- 
ularea tradicionaea, aos Anexias e mo- 
vulgares, na preferencia dada & fórma 
la do Auto em seus tentàmes drama- 
as lendas que matizam a Historia da 



Dr. Wilhelm Storek, que estudou laboriosa- 
Obraa de Camòes, traduzindo-aa para allemSo 
■ente e coinraentando-ae, deacreve com rigor 
onheoìmentoa alaasìoos: 

aeus conhecimentoB philosopliicos derÌTaiii 
pormenores, na apparencia, da leitura de Dii 

Laerte, Plutarcho, Cicero, Valerio Maximi 
lio, Plinio senior e dss AnthologiaB. Encoi 
, miudo reminiBcencias d'estes escriptorea ei 
8 catnonianaa, dando logar à reaolu;ào de p< 
iroblemaa, principalmente quando nos achi 
frente de textoa deturpados. Mas oa aacton 
que ennumerei. nao sào os unicos gregna 

que Camòes manuseava frequentemenb 
loeaias dao testemunho claro de corno conhi 

e feitoB de uma innga sèrie de escripton 

Homero, Aelìano, Xenophonle, Virgilio, Li 
idio, Horacio, Plauto, Livio, Eutropio. Just 
meu, e outroa, fìcando indeciaa a questio e 
ras gregas no originai, 
cariadissimos conti eoi mentos de Camòea, qn 
satam em todas as euas obraa, documentand 
la lettura. . . Saber muito era o caracterìstie 

època; a inatrucQao en oy ole p edica, sonh 
do9 humanistas. — A quantidade e variedad 
scientifico, manifeatado naa obras de CamÒei 
miragào, principalmente se considerarmos 
de bibliothecas volumosas, e o alto valor do 
npreaaoa e manuscriptoa, que n'aqucUas èra 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 246 

Portngal, que elle soube com tanta arte en- 
ramalhetar nos Lusiadas. Està educa^So na- 
donal, apagada em Ferreira systematicamente 
e em Gaminha, fez-se de um modo naturai e 
simples na boa soltura das margens do Mon- 
dego, em uma terra anìmada de tradÌQoes 
historìcas, e de costumes velhos e caracteris- 
ticos. Està educa^ao é que fortificou o seu in- 
dividualismo, alentando-lhe o sentimento da 
Nadonalidade, que se tornava mais intenso, 
quanto mais os acontecimentos tendiam para 
apagal-o. Por ventura esse sentimento, que 



difficaltava aos estudiosos a acquìsÌQào e até mesmo 
uso dos livros. Mas adniiragào multo mais intensa 
desperta a fidelidade e seguran^a da memoria do Poe- 
ta. Quer esteja em Coimbra, quer em Lisboa, em Ceuta, 
6oa, Malaca, Banda» Macau ou MoQambìque, quer ande 
em terra ou vogue no alto mar, em toda a parte elle 
dispoe dos seus multiplices e vastissimos conbecìmen- 
tos em historia universa!, geographia, astronomia, my- 
thologia classica, litteraturas antigas e modernas, poe- 
sia eulta e popular, tanto da Italia corno das Hespa- 
nhas, aproveitando-os com a mais perfeita exactidào, 
corno fflho legitimo do periodo de Renascimento e Hu- 
msnista dos mais doutos e distinctos do seu tempo. — 
E um dominio comò o de Camoes sobre tao vasto cam- 
po de conhecimentos, nào se alcanca sonbando, da noi- 
te para o dia, mas sim estudando assidua e methodica- 
mente com engenbo e arte, talento e enthuziasmo, aju- 
dtdo por mestres e guias e a estimulante companbia 
de camaradas e émulos. — Nào é diffidi adivinhar quem 
proporcionaria ao adolescente occasiào de consultar e 
lé*- boDs livros. Dom Bento havia de por a disposigao 
d( sobrinho o que o seu peculio tinha de aproveitavel, 
e anqueava certamente, comò Prior Geral e C ancella- 
ri da Universidade, ao talentoso e tenacissimo colle- 
Rì e estudante Luis Vaz a Livraria de Santa Cruz e a 
bi iotheca da Universidade.» (Vida e Obras de Ca- 
ni », p. 224 a 228.) 



i;poi 

e In 



quentou a córte de Doni Joao ni, mas conhecia-o dsB 
muitas leiturae das obras claesicas que andavam tra- 
duzidas do grugo e latini para castelhano. Apoutare- 
mos al^uniaa gue Ihe erain accessìveis na epoca dos 
estudof^ em Coimbra: 

— Libro del Ysopo, famoso fabulista. Burgi 
1496. 

— Vidas de loa iUustres Varones griegos e Ron 
noa. Tradiici;ao de Alfonso de Palencia. Seviiha, 14£ 
1508. 

— La Filosofia nioral, de Aristoteles ; Etica, R 
nomica y Folitìca. Zaragoza, 1509. 

— Iliada de Homero, traduzida do grego e lat 
por Juan de Mena. Valladolid, 1519. 

— Obras de Aristoteles, traduzidas do latim p 
Juan Gines Sepulveda. Paria, 1531 e 1532. In-fol. 

— Metaphysica de Aristoteles Roma, 1537, 

— Las Gìierraa civites de los Romanos, de Apiai 
Trad. por Diego Salazar. Alcalà, 1536. 

— Leandro y Itero, de Museu. Traduzido por Jn 
Boscaii. Barcelona, 1543. 

E' excusado citar as obras caetelhanas qne elle i 
nhecia, por que pertencem ao tempo da aua maior a' 
vidade poetica. 



Desde que o poeta nào quiz lisongear sea 
uìndo oestado ecclesiastico, de que o 
am esses precocee amores, a termina- 
Beu cureo de Artes e Humanidades 
'a-o a regresBar a LÌBboa, à casa pa- 
pera entrar na lucta da vida, com o 
la córte, onde eram conhecidoB os seuB 
B. No Soneto cxxxiii, descreve Ca- 
i partida de Coimbra, sentindo que o 
lento Ihe vda sempre para aquella 
onde ledo vìvera: 

ìocfs e claras aguas do Mondego, 
loce repouso de mìnha leoibranga. 
Inde a comprida e perfida esperanga 
lOQgo tempo apoz si me trouxe eego. 

ìf. vós me aparto, SÌ; poréin nào nego, 
lue inda a Ii)n<ra rneniuria que me alcanna, 
le nao deixa A.^-. vóa fazer mudatila, 
las quanto mais me alongo mais me achego. 

radicào d'està paychose amorosa de Ca- 
elacionada com a sua partida para Lis> 
rncretisou-ae com outros factos; assim 
mbran^as de Diogo de Payva de An- 
filho do cbronista Francisco de Andre- 
te em algumas linhas biographicas de 
B: 

r estes amores foi quatro vezes dester- 
uma de Coimbra, estando là a córte, 
Àsboa; etc.» 

preBumivel, que terminado o Curso na 
sidade em 1542, Beus paee o obrigassem 
sssar a Lisboa, affastandoo d'essa pai- 
cìpiente, de que elle falla com tanto 
accentuando o fortjadg e inesperado 
mento. D'ahi essa impressao de um 



I dester 
lanha, ^ 
1 estadc 
femin 
)ara ex 
o èstro 
rante, t 
nmunici 
o nasci] 
a SUB e: 



nillo Gas 
MS de Dii 
ihas bìogi 
8 verdade 

onde està 
;ora o fa 
nos anno: 
ì o rei esi 
■amòes, N 
8 vezes e 
icto na B' 
dsB circu 
la verdad 
leneutica 
e envolv 
ipontam i 
liduoa hh 
jo chroni 
sinda em 
dea e um 
rdo de Bi 
escreveu 
aliosas n< 
mbem um 
i de Staci 
As Un hai 
la rei a ciò 
le dea con 
I. o que 
lo tradìcsii 



EPOCA SEGUNDA 

A Córte de D. Jodo III 

(l54Sal66S) 



Gonhecido o quadro pedagogico da època 
em que cursou Camdes os estudos de Coim- 
bra, determinasse pelo corriculo dos cinco an- 
no8, come^ados em 1537, queregressaria & casa 
paterna, tornado o gr&o, em fìns de 1542. Ju« 
romenha fixou està data por um processo la- 
borioso e aproximat'ivo, para supprir a falta 
de conhecìmento do quadro dos estudos que 
esclareceria com mais seguranga. Interpre- 
ta estas palavras da Carta i de Camòes, es- 
cripta da India, em 1553 : «Porque, quando 
euido que sem peccado que me obrigasse a 
tres dias de purgatorio, passei tres mil dias 
de m&s linguas, peóres tengòes, damnadas 
^ontades, nascidas de pura inveja...» Ap^- 
ir de Storck achar «estranheza que Camoes 
' )riga88e um intimo amigo a um calculo ari- 
tmetico bastante complicado — capaz de ar- 



BI8TOBIA DA UTTI 

devidamente < 
ezes ou oitent 
'echo da carta tem um valor cbronolo* 

autobiograpbico. Os tres mil dias, que 
uzem a outo annos e outenta dias, sr 
i-se com verdade diante dos factos pò 
: Embarcando CamSes para a Indif 

de Mar^ de 1653, (comprehendem-sc 

trimestre os outenta dias) ficam oc 
'.nnos, que subtrahidos de 1552, noE 
im ao anno de 1644, no qual effeotì- 
te chegou a ter entrada no pa<;o, onde 
u, pelo deslumbramento do seu genio 
is profundas inrejas. ^ Na biographia 
cripta por Frei Francisco de S. Agoa- 
Macedo vem a tradigào doa epithetOE 
itivos que Ihe davam na córte: «Era 
9 com desenfado; aprazivel eom prì- 
xtrte? com graceio;--- era bem viste 
lor ouvido. Chamavam-lhe Sereia de 
Oysne do Tejo.* Ab damnadas ten^oee 
ivillosas invejas fòram-se accentuando 

noB epithetoa odientos de Trinea-FoT- 
omem das abas grandes, e Cara sem 

mdo Camoes regressou a Lisboa con- 
} seus dezenove annos; corno, sem bene 
tuna nem importancia individuai, foi 
mìttido no pa^o? NSo foi admittido im- 
amente. So quando penetrou na cdrte 
I do seu talento poetico incomparavel, 



tescontaodo dois annos em Ceuta, é que Jiir< 
rem à data de 1542, (Obras, t. i, p. 25) o 
afusamente. 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 251 

e as damas da mais alta gerarchia, corno 
D. Francisca de Aragao, Ihe pediam versos 
oa Ihe davam Tengoes para glosas, é que se 
facilitaram as appresenta^oes, pela intimida- 
de que tinha com outros fidalgos tambem 
poetas e dignatarios do pa^o. Dos fins de 
1542 a 1543 passou Camòes vida desafoga- 
da, sem outra occupagào mais do que despe- 
dir-se da sua mocidade. Observa o Dr. Storck: 
«dando ou acceitando por provado — que Si- 
mao Vaz de OamSes e D. Anna de Sa resi- 
diam em Lisboa — de certo que davam casa 
e mesa ao moQO descuidado e ocioso, que des- 
perdi^ava o seu tempo a verse jar, a atar e 
desatar amores, a vaguear pelas ruas e pra- 
Qas de Lisboa, folgando a deshoras com ami- 
gos e companheiros em recontros e penden- 
cias de mancebos, brigando de noite com ou- 
tros valentòes e deixando-se arrebatar a des- 
afios e duellos.» (Vida, p. 271.) Embora o Dr. 
Storck exagere o quadro e o antecipe, é certo 
que D'esse anno de 1543 se manifestou «bom 
JQstador, manso, discreto, galante, partes que 
a qualquer mulher abalam.» (Filodemo, p. 
415.) Fdram as damas que primeìro o admi- 
raram, e o attrahiram para a corte. 

A passagem repentina de um meio intelle- 
ctual e contemplativo, comò era a vida confi- 
nada n'um Collegio universitario, para a agi- 
tagao ruidosa de uma Córte turbulenta e fes- 
tiva, bastava para produzir um deslumbra- 
I mto e desequilibrio moral na organisagào 
e motiva de um adolescente, emquanto se nao 
s aptasse a esse meio. Maudsley, na Pyhsio- 
l na do Espirilo^ considerou este phenome- 
I ' «Quando uma grande e subita revoluQ&o 



STORIA DA LirrBRATTIRA POBTDQCBZA 1 

produzida por urna causa esterna,; 
bela de perigos para a eatabilìdade 
jo individuo; nada é mais perigoso 
iquilibrio de um caracter do que o fa- 
ollocar um individuo em circurnstao- 
jrnas completamente differentes, ssin 
la Vida interna ahi se techa prepara- 
daptado;.... (Op. cit., p. 421.) No 
resso de Goimbra para a populosa 
im 1543, na impetuosidade e soltura 
I dezenove annos, Camòes, suscitado 
preasòes de uma larga socìabilidade, 
onge de encarar a sèrio o problema ' 
Da sua fórma concreta de fazer car- 
essa incapacidade momentanea, trans- 
ira considerada corno conaequenda 
ixcepcional organisa^So poetica. Ami- 
Brigosaa o envolviam n'estas diver- 
e tanto contrastavam com os dias se- 
ì Goimbra ; nos Cdrros e Pateos de 
s conheceu esse frade franciscano rì- 
ntonio Bibeiro Ghiado, que chegon a 
tar diante de D. Joao ni o seu Auto 
rat Inven^ào; por ventura valentòes 
alisto de Siqueira, * ou escholares 
liz de Lemos, o acompanhavam uà es- 
dade d'aquelte temperamento impul- 
D uma Garta de Camdes, que eeteve 
ite 1904, encontram-se tragos d'està 
a existencia folgasS ; Calta na taverna 



kLLisTO VB SiQtJEiiu, filho naturai de Francis- 
leira, Escrivao da Coainha del Re^, mulato 
ìcido por valente, bomem grande eepiugar- 
(Gouto, Decada vili, 7.) 



à 



OAMdBS — EPOCA) VIDA E OBRA 258 

do Malcosinhado, onde se encontravam sem- 
pre «una Cnpìdos- valentes, dos quaes suas 
alcanhas sSo Matadores, Matarins, Matantes, 
e outros nomes derivados d'estes, porque se 
aeham com cascos e rodelas, eum gladiia et 
fmtibuLs^ corno se Nosso Senhor tìvesse de 
padecer outra vez.» O Matante era o typo 
oomico do Espadachìm dos Autos populares, 
corno se v§ por umas coplas de Caminha; por 
isso aocrescentava Camoes: <Na paz mostram 
eoragao — Na guerra mostram as costas», 
obserya^So que mais tarde repetìu com sar- 
casmo na satira dos Diaparates da India. 
Seria d'este tempo a alcunha de Trinca Fot- 
tes, que Ihe poz o poeta Ghiado; Juromenha 
encontrou em um manuscripto: «um Epi- 
gramma do seu amigo Antonio Kibeiro Ghia- 
do, em um certame poetico e gracioso, sondo 
prèmio posto por um fidalgo uns mel5es, 
que tinha em uma giga uma regateira : 

Luisa y tu te avisa 
Que taes meloes Ihe nao dès ; 
Porque esse que ahi vés, 
Trinca Fortes mala guisa.» * 

Nos Manuscriptos da GolIecQao pombalina, 
n."" 133, vem a folhas 124 o Epigramma com- 
pleto, com a rubrica: Trova que disse hit 
francez a hiia regateira. O verso final tem 
a variante: «Triquesfortes males gisa», que 
parece uma deturpagfio. Em seguida vem ou- 
tr-- quadra com a rubrica: ^Resposta de Ga- 
w M aohando-se presente : 



Jur., Obras de Camoes, t. i, p. 187: nao cita o 
m nscripto. 



a mudante de oondi<;9o foi uma codbo- i 
Et deciBÌva da Bua entrada na córte, | 
eada pela prestigiosa fama de i 



lopes de Mendon^a publicou eates Epìgi 
is das SesaóeB da Academia, (2.» Classe 
) Sem indicar o numero do Ms. Fombi 
<Este improviBo, sem a nieiior preten^ào litK- 
e um feitio popularmente libertino, ageita-» 
ndole irrequieta e folgaza, malìciosa e sensnal 
laute brìgao, do qual devia desabrochar miii 
sublime Epico.* O nome de Trinca- fortaainit 
ilar no seculo XVII, nos Villancicos : 

Eu està pobre camisa 
Vo8 offerego, senhora ; 
SuppoBlo qua leulia sgora 
Trlnqua-ropta, mala guisa. 

lAnth. port., pag. 317.) 



MIA, VIDA S OBRA 255 

Buscitou logo aa mais 
|ue Ihe complicaram a 
ìe de um immenso amor, 
iguBtiosa fatalidade. Es- 
se anno de deacuìdo, que se póde definitiva- 
mente fixar em 1543, reappareoe nas suaa 
recorda^des comò um contraste de encanto 
diante das paixòes e decep^es que o envol- 
vem. 

Na Ecloga ii, desoreve Cam5es aquelles 
primeiroe tempos da vida de Lisboa aìnda 
descoidado de preoccupagoes amorosas : 

Qne ben) livre vivia e bem isento, 
Sem que ao jugo roe visse submettido 
De neohum amoroso pensamento ! 

Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido 
Tao fora de amor tinha, que me ria 
De quem por elle via andar perdido. 

De varias córes sempre me vestia; 
De boninaa a fronte coroava, 
Nenhum paator cantando me vencia. 

A barba éntào na» faces ine apontava, 
Na lucta, na carreira, em qualquer manha 
Sempre a palma entre todos alcan^ava. 

Da mlnha tenra edade, em ludo estranha, 
Tendo, corno acontece. affeìcoadas 
Hnitas Njmphas do rio e da montanha; 

Com palavras mimosaa e forjadaa. 
De Bolta liberdade e livre peito, 
Ab trazia contentes e enganadas. 

Mas nao querendo Amor, que d'este getto 
Dos corai^ea andasse trìnmphando, 
Bffl quem elle oreou tao puro affetto; 

Potteo a pouco me foi atsi levando 
Diuimuladamente às mios de quem 
Toda eata ìnjnria agora està viogaodo. 



vam mais em voga noa seròes do paQO ; 
irneìo de poetas fidalgoa que nos circuloa 
lìnos lisongearam urna certa deìdade, 
oa veraos de Cam5ea oa mais impres- 
.ntea pela belleza da fórma e pelos re- 
»a do galanteio cobrindo urna vibrag&o 
[onada. Quando SS de Miranda vivia no 
> da aua Commenda daa Duas Egrejas, 
klto Minho, ainda da cdrte Ibe pediam 
5es para esses tomeios de galanteria pa- 
ia ; a mesma distinc^So deram a Cam5es. 
ì, pela aua amisade e parenteaco com 
lanoel de Portugal, que regresaara de 
a em fins de 1542, pela admìra<;ao que 
ledicava D. Francìaca de AragSo, a prì- 
1 feata ruidosa do pago aerviria de pre- 
para ser convidado ou melhor attrahido 
quentar a córte. De facto em 1544 é o 
;ipe berdeiro Dom JoSo jurado solemne- 
e em Almeirim. Ha um fervor momenta- 
)or poesia e bellaa letrae, que se ligavam 

plano da sua educaQ3o e com o da cal- 
da Infanta D. Maria, a quem Francisco 
[oraes, recemcbegado de Paris, dedicara 

1 novella do Palmeirim de Inglaterra. 
a, melbor do que Francisco de Moraes 
ria apreoiar o genio de Camòes, e com 
thusiasmo pela sua incomparavel supe- 
lade, fallar do ìoven poeta ao embaixador 
rancisco de Noronba, conde de Linha- 
intào com alto cargo e valimento na córte, 
ante um poeta é que sabe 13r e compre- 
er outro poeta, comò o affirmou Filinto 
io. E Cam5es acbara-ae possuido jà de 



GAMOeS — EPOCA, VIDA E OBRA 257 



nm pensamento, que se ia tornar a noenergia 
da sua vìda — um novo espirito, que sera o 
Canto heroico que anda idealisando. 

estado de espirìto, em piena liberdade 
critica e de urna alegria exhuberanto, em que 
86 representa a sua vida n'esse anno de 1543, 
6-no8 authenticado por uma Carta de Luis 
Camoes a hU seu amigo, encontrada em um 
manuscripto da Gasa de Vimieiro, na qual 
accentua o bigotismo da corte sob a influen- 
cia dos Apostolos, corno entSo se ehamavam 
a 8i proprios os Jesuitas. ^ Transcrevemol-a 
integralmente pela intensa luz que projecta 
n'este rapido periodo em que desconhece o 
soffrimento moral, e em que pinta fortemente 
a socìedade em que se agita : 

«Hùa vessa me deram, a qual pelo des- 
oostume me poz em tamanho espanto comò 
contentamento em saber novas de quem tanto 
as desejava; mas nem com està vos forrareis 
do esquecìmento que de mim tivestes em me 
nao escreverdes antes de vos irdes. Antre 
alguas novas que mandastes vi que me gaba- 
Yeis a Vida rustica, comò sao aguas craras, 
arvores altas sombrias, fontes que correm, 
aves que cantam, e outras Saudades de Ber- 
naldim Ribeiro, quae vitam faciunt beatam. 
Nao vos nego a enveja que d'ella vos tenho 
nem o pouco conhecimento que d'ella tendes, 
pois me dizeis que vos enfada jà. A troco 



L Ma. 8571, da Bibliotheca Nacìonal, fi. 22 t. e 23 
i, tra do firn do seculo xvi. Està publicada e annota- 
(b jelo Dr. Xavier da Gunha, em folheto. Coimbra, 

1 



OAMOES — BPOOA9 TIDA B OBRA 259 

■ 1 

e tado saudades, enfadonhos na oonversaQSo 
pelo qoe cnmpre A gravidade de amor. 

«N'estes fazem aloouveteiras seus offi- 
doB, corno Bào: palavras doces, esperan^as 
longas, recados falsos; ou yob fallam pela 
greta da porta» corno vos n&o fallou, eetava 
mal disposta, sentiu-a sua mSe. Por que està 
é a isca com que Celestina apanhava las 
den mouedas a Calisto com sua sobrenfusa. 
Ontras damas hay cà, que ainda que nao se- 
jam tam fermosas comò Helena, sSo altivas, 
corno sSo haas beatas de San Domingos, e 
auiras que canversam os àpostolos : estas se 
geram de viuvas honestas, e de casadas 
que tém os maridos no Cabo Verde; assim 
que haas por cesar e outras por Ihes Deus 
trazer os maridos, de cuja yinda ellas fogem, 
nunqua Ihes escapam as quartas feiras em 
Santa Barbora, as sextas em Nossa Senhora 
do Monte» os sabbados em Nossa Senhora da 
Orafa, dias do Espirito Santo. Haas dizem 
que jejuam a p&o e agua, outras que nSo 
oomem cousa que pade^a morte, e d'estas ha 
algfias de estora que fazem ir uma nào & In- 
dia em tres dias ; grandes capellos e habitos 
desarja: 

Contas na mio, 
e o olho ladrao, 
e haja eu perdio. 

«Porque debaixo Ihes achareis mantéos de- 
bi ados, gravina laurados, jub5es de holanda 
i^l )6 e justos. Estas nào se servem com mu- 
si a suaves nem vestidos lustrosos, mas com 
was peitas, ornzados amarellos, que — por 
^x)8 baila el porro, — por que palayras 



ì 



mulaa e cavano», u «.e-.. """"ar'HlHoini 
saa amigaa tob darei novas. Maria Oaldeir» 
matoua aeu marido; grande perda para 
DOTO, que reparava nmitaa orfas e adubai 
ca pagodea de Lisboa, a fora outrasobras. 
crandea reapeilos. E porque està aenhora i 
livesse multo tempo no outro mundo ai. 
parUu para là Beatriz da Mota, Tossa m< 



CAHÒBS — EPOCA, VIDA B OBRA 261 

D'este diluvio houveram algtias d'estas damas 
medo, e edificar am hàa Torre de Baby Ionia, 
onde se accolheram ; e vos certifico que sSo 
jà as linguas tantas, que cedo cahirà, porque 
ali vereis moiros, judeus, castelhanos, leone* 
zes, frades, clerigos, casados, solteiros, moQOS 
e velhos. A està torre chamaram accolheita, 
pela fortaleza d'ella ; mas o philosopho Joào 
de Melo ^ Ihe poz nome o Rompeo, porque 
he de tres p&os, se: de Francisca Comes a 
tarifa, Antonia Braz, afóra a Bolla, que he 
Maria da Rosa. Eu o chrismei ha poucos 
dias, e Ihe puz o nome o MaleosinhadOj por- 
que sempre achareis n'elle que comer, quer 
bem, quer mal. E tudo o d'estas senhoras he 
brando, rostos novos e canos velhos; sSo 
boas para Nymphas d'agua, por que nao dei- 
tam mais que a cabe^a fora. A rasào por que 
se oomem estas por Lisboa mais que as ou- 
tras, he que afóra seus rostinhos, servem de 
folioes que cantam e bailam t3o bem, que nao 
hSo inveja aos que El Rei mandou chamar. 
£ pagode que se faz sem estas he da seita 
do8 Epicuros, que punham a bemaventuran^a 
em corner e beber ; mas eu digo que o f aziam, 
porque estas nao foram em seu tempo. 

« N'estas casas achar&o continuamente mui- 
t08 Cupidos valentes, dos quaes suas alcu- 



^ Julgamos urna referencia sarcastica ao terrivel 
(nisidor Joào de Mello, domestico do Cardeal In- 
»te D. Affonso em Evora. que pertencendo ao Tribu- 

do Santo officio de Evora em 1536, passou para o 
Lisboa em 1539, onde se fez notar pelo seu rigor, 
i 3 de Outubro de 1Q41, assignava a sentenza con- 

Bandarra. Està allusào determina-nos com segu- 
'^ a epoca a que se refere a carta de Gamòes. 



il* 



nhas b3o — matadores, 
matantes, e outros non 

porque sempre os acha 
delas, eum gladiis et fìi 
Senhor houvesse de pa< 
feaso-Toa que estea me i 
Katea na pratica dìr-Toa 

Sue arreos son Iss 
Bu descanso ea pe)( 

< Haa, sei-Tos dizer, < 

Na pax mostram cf. 
Ns guerra mostrau 
Porque aqui torce •■ 

< Como Toa parece, 
viver entre estes, que nSo 
que TOB enfada, easa qi 
um dormir & sombra de 
de um ribeìro, ouvindo 
aarìnhos, em bragoa co 
trarcha, Arcadia de Si 
Virgilio, onde vSdes aqi 
vós, senhor, eaaa vìda v 
de trocar pela mìnha, e 
que fòr bem. 

«E n9o voe esque^a 
porque ainda me fica i 
m3oB beijo.» 

A comprehensSo d'ei 
conhecimento da data e 
omissa, mas eatabelece 
eonversaQdo dos Apost 
quando se tornaram oa 
da cdrte, e armaram prc 
firmando o seu predomi 



r 



CAM dB8 — BPOOA, VIDA B OBRA 268 

terio, entSo se differengava pelos varios ooios 
qne frequentava, na egre j a de San Domin- 

S3, na ermida de Santa Barbara situada ao 
mpo da FOrca, na capellinha da Senhora 
do Monte, As sextas feiras, ^ e aos sabbados 
na Graga, e com suas devoQdes especiaest 
iimas para casarem, outras porque tdm os 
maridos auaentea. As alegres digressoes em 
Tolta de Almeirim estavam abandonadas por 
e8te fervor religioso, que mascarava as intri- 

Ss amorosas. GamSes escreveu umas redon- 
ihas A urna senhora tesando por umas con- 
tas, oom a intelligencia da situa^ao: 

Pe^o-TOB qne me dìgaes 
Às oraQoes que resastes, 
Se sào pelos que matastes. 
Se por vós, (^ue assi mataes ? 
Se sào por vos, sào perdidas ; 
Que qual sera a ora^ào 
Que seja satisfa^ào, 
Senhora, de tantas vidas. 

Ab dnco estrophes d'estas redondilhas 
sSo de urna gra^a e finura incomparaveis. A 
ideia agradou, e motivou o desenvolvimento 
da primeira estrophe glosada corno delicioso 
eommentarlo, dirigìdo A urna Senhora resan- 
do. Tornara-se urna elegancia cortesanesca o 



^ Annotando està passagem, escreve o Dr. Xavier 
dr Ounha: e Ainda hoje a pittoresca Ermida de N. S. 
d< ifonte é mui conoorrida às sextas feiras por devo- 
te e sobretudo por devotas que na iminencia da 
m emidade vao aili sentar-se na lendarìa cadeira do 
bi .K) S. Gens esperan^adas em que esse acto piedoso 
iti 1 proporcionarà feliz successo ao nascimento doa 
fi «•> 



OilMdES — BPOOAy VIDA E OBRA 265 

presenta, no séquito da Rainha. A Capella 
real, com fronte para o largo do Balogio, hoje 
denominado do Pelourìnho, tinha ingresso 
por duas amplas escadas, achando-se cercada 
por lojas de capellistas. Olhar, sentir amor 
por urna dama do Pago e muito moqa, o pro- 
prio CamSes Ihe chamou um atrevimento. 

À situaQfio nào era uma ImitaQio do caso 
dos amores de Petrarcha, comò o fazia sup- 
pdr a relaQfio paraphrastica do Soneto ni com 
Soneto lxxvii de Oamdes ; ostava na reali- 
dade dos novos fervores devotos da corte de 
Dom Jo3o III, tal corno a Carta transcripta o 
revela. TJm immenso desejo incitaria o poeta 
a pretender entrar na córte» para ver a rara 
e angelica figura — quo a furto da rasào o 
salteara. Como conseguil-o? É certo quo os 
sena versos foram lidos no paQo, e aprecia- 
do8; Dom Joao iii entendia de poesia, e o 
Infante D. Luiz era excellente poeta. rei 
desejou vèr os versos de Camoes, as redon- 



escrivaes para redigirem em nome das pessoas anal- 
phabetas ; d'alli se seguìa para o occidente a Kua Nova, 
a principal da cidade, com arcarias gothicas, onde ha- 
via o mais actìvo commercio de negociantes nacionaes 
e estrangeiroSy inglezes, flamengos e estantes florenti- 
nos. Para o norte ia a Rua Nova d'El Rei dar ao Ro- 
do, nm dos extremos da cidade, onde se erguiam o 
palaeio dos Estaos, agora da InquisiQào, o Hospital de 
lodoB 08 Santos, e a lèste o Convento de S. Domingoa^ 
endendo-se adiante o bairro da Mouraria^ e sobran- 
ro o Monte de SanifAnna^ em volta de cuja egreja 
lam accumulando as casarias. Era n'este bairro 
ro, qne se estenderà para o valle rompendo a mu- 
ba, que morava a familìa de Camoes, quando fre- 
mtou GB Pa^os da Ribeira ; no monte de Sant'Anna 
1 iton DOS ultimos annos da vìda e d'alli vinha intelle- 
< ''-rnente distraìr-se com os frades de S. Domingos. 



266 HI8TOBIJ 



dilbaB que ai 
dÌBse na sua ( 
qn« nfio sou e 
ahi Tee tima 
oolhì da mani 
n9o é tSo dee 
que Et Rei mt 



Vejamos o 
cOrte. 

Ab relaQÓe 
Moraes, aucto 
que regressari 
cretarìo do ei 
ronha, 2.» Coi 
eia de Ber ei 
D. Catherìna, 

goeta|dedioou 
dalgo. Come 
magoadoB?! 

primeiras offertas Utterarias. Nas edÌQoea pri- 
meiras traz a rubrica : < Feito do Autor na 
sua puericia.> Ainda nSo tinha os vinte annos 
o poeta ; póde-se portento acceìtar a ìndnoQào 
tradiciooal da rubrica. A rubrica da edi^-^n 
de 1595 : « A Dom Antonio de Noronha* vi 
complicar a comprehensSo, pelo anacbronisn 
maa maDtinba a rerdade de um elemento t 
dìcional. O Dr. Storck eeclareceu o problen 
< A tradÌQ&o levando-nos & casa dos Com 
de Linhares, nSo erra. Erra apenas a peaf 
que indica. D. FrancÌBCo de Noronha é o 
Senhor famoso e excellente — espedal 
graQaa entre a gente, — a quem os suspii 



CAM dBS — KPOOA, VIDA ■ OBRA 267 



Ba^adoB do primeiro Idyllio oamoneano se 
diiigem, e n&o o pequenino D. Antonio... 
que mal contava de sete a oito annos. Ao 
pae« e n&o ao filho, diz o Poeta : 

Por partes mO langando a phantasìa 
Busquei na terra estrella, que guicuse 
Meu rudo verso, em cuja companhia 
A santa piedade sempre andasse ; 
Lnzente e darà corno a luz do dia, 
Qne o rado engenho meu me alumiasse ; 
E em Yossas perfei^des, grao Senhor, vejo 
Aìnda além cumprìdo o meu desejo.» 

O poeta dedicando ao Conde de Linhares 
aqnelle quadro idyllico das — v&s querellas, 
brandas e amorosas — revela o alto pensa- 
mento que Ihe absorve a mocidade, a Epo- 
pèa qua sonha e elabora corno expressSo das 
mas aspiragoes : 

Em quanto en appareiho um novo esprito 
E Toz de cysne tal que o mundo espante, 
Com que de vós, Senhor, era alto grito 
LouTores mil em toda a parte cante ; 
Outì o canto agreste em tronco escrito, 
Entre yacas e gado petulante : 
Que quando tempo ror, em melhor modo 
Hade-me ouvir por vós o mundo todo. 

Eram ent&o muito lidas na córte as duas 
Edogas Trovas de dois Pastores ( Ecloga m 
de Bernardini Ribeiro ) e o Crisfal, de Chris- 
tOYana FalcSo, em edÌQoes anonymas em foiba 
colante. CamSes foi attrahido para esses qua- 
dro8 bucolicos, come^ando pelo monologo 
idyllico. Mas a sua aspiragSo era mais alta, e 
^ ella alludia com viva confian^a. Como ca- 
rni Mro-mór da rainha D. Catherina, seria 



268 H18TOBIA DA UTTBB 

D. Francisco de Noronh 
entrada nos seróeB da 
ral està inferencìa, Bab 
talento primacìal do pc 
dade nas damaa do pa 
(Ecloga v) exprime i 
terior & paixao que o ■ 
phes, carregadas de tii 
tencem àquellas compc 
peito, com palavras foi 
contentes e illudidas a 
inspirava. Depois das 
prìnceza D. Maria cor 
herdeiro da corda de 
comeQaram aa festas d 
Bendo jurado herdeirc 
o Princepe D. JoSo. '. 
grias, que mascaraTi 
corno a da subita dece] 
ria, e os aziagos pr 
B. Luiz, que Luiz de 
admittido no pat;^ e a 
de seu genio. Foi ra 

3 uè o for^aram eem e 
a córte terriveia oiro 
flectiram na sombrìa t 
cter de D. Jo3o in e d 



A ) Ot S*ri)«« noi Ptf 01 i 

Aquelle espirito di 
ressee, generoso e p 
pela idealisBQSo poetic 
cador pelas réplìcas s 
calumnias que repellia 



OAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 269 

sombria pelo prestigio do genio, com toda a 
imperìcia da sua edade ingenua. A ruina era 
inevitavel; e tanto mais immediata seria, 
quanto foi calorosa a admira^ao do primeiro 
momento. A mansSo regia era quasi mona- 
ehal : e San Francisco Xavier nio duvidou 
comparar o palacio d'este soberano ( D. Joao 
m) ao m^is obser vanto e bem regulado mos- 
teiro.» ^ É indispensa ve! conhecer por dentro 
a córte de Dom JoSo in, para comprehender 
a Vida de Gamdes n'esses fugitivos dias de 
enthusiasmo e galanteio, que duraram desde 
1544 a principios de 1546. e que Ihe inspi- 
raram as mais bellas crea^es do seu lyrismo. 
A Corte de Dom Joao in apparece descripta 
nos seus mais occultos aspectos nas Instruc- 
goes sabre as eousas de Portugal, dadas ao 
Nundo Aloysio Lippomano, por ordem de 
Paulo III, por breve de 29 de Outubro de 
1542 credi tado diplomaticamente j unto . do 
monarcha. ' O que se passava em 1542, pelo 
qua se le nas InstrucQoes, era urna situagào 
permanente: « O Rei, e a seu exemplo toda a 
Dobreza que o rodSa, da grandissimo credito 
ao8 Frades ; ou seja pela diligencia d'elles 
cu por negligencia e descuido dos prelados, 
tomaram-se tyrannos do reino, por vìa das 
confissoes e prédicas.» Os nomes dos frades 
mais infiuéntes sao ahi apontados ao Nuncio, 
para saber julgar com esses valor es : < Na 
ordem de Santo Agostinho, tres frades prin- 



' Fr. Fortunato de S. Boaventura, Litteratura 
Pi "ugùeza em Italia, p. 96. 

> Acham-se em italiano, publicadas no Corpo di- 
pi ntUieo partugueSf t. v, p. 180 a 152. 



270 HISTOBIA DA UTTBRATURA POBTUQUBZA 

olpaes : Frei Jo3o Soares, confessor do rei, 
frade de pouoas letras, mas de grande auda- 
cia e ambiciosissimo, de opinides péssimas, 
e dedarado inimigo da Sé Apostolica; fax 
negocios de toda a casta, sob o pretexto da 
confiss&o. Os outros dois frades — confessam 
grande numero de pessoas, e andam muito 

I'untos ao rei, sdo dois custelhanos^ ViUa 
("ranca e Montoro. O rei, e muitos dos altea 
fidalgos confiam n'elles bastante.» 

Sob a influencia dos Oracianos é que 
Dom Jofio III se interessou pelas grandes re- 
formas, tornando os Gollegios de Santa Grox 
de Coimbra o primeiro nucleo para a reorga- 
nissQao da Universidade, trasladada para 
Coimbra em 1537. Està influencia foi oontra- 
minada pelos Dominicanos, desde que Dom 
Jo3o ni foi instigado por seu cunhado o Im- 
perador Carlos v, para estabelecer a Inquisi- 
q3o em Portugal. Ld-se nas Instrucfoes ao 
Nuncio urna observaoSo referente ao frade 
hieronymita e valenciano Frei Michele: <nSo 
querendo urna vez a1)solver o rei, nfio foi 
mais chamado para o confessar, entrando em 
seu logar Fr. JoSo Soares.» 

Da Ordem de San Domingos^ o frade eas- 
telhano Padaglier ( Frei Jeronymo Padiiha ) 
prégador e litterato, era apontado comò « ho- 
mem de novidade e atrevido.» E em rela^So 
ao Tribunal da InquisiQSo traz està indicaòSo 
pasmosa : < É bem que o Nuncio saiba mais, 
que se diz que o Infante D. Luiz é muito t' 
ferrado sobre a InquisigdOj por Ihe ser a 
sim imposto pelo Imperador^ que se faga 
mais rigorosa que se possa em Portuga 
porque teme que o esemplo de Portugal poa 



OAXÒBS — KPOCAy VIDA B OBBA 271 

mn dia rednzir a sua Inquisi^So aos mesmos 
termos. — O outro pretexto qae move o Im- 
perador, é que a Inquisi^So de Portu^al dft 
aos Gastelhanos aquelle refugio que tinham 
quando em Castella eram mal tratados, e 
tambem aquelles que fugiam de Portugal, to- 
dee ou por urna ou por outra, ficavam sob 
Poder do Imperador ou dos seus, e em 
Flandres ha um grande numero e todos quan- 
tos precisam d3o dinheiro.» Da influencia po- 
litica do Infante D. Luiz, ezpde : e Junto do 
Rei nas cousas importantes, pode multo o In- 
fante Dom Luiz, por atiotoridade que se ar- 
ragau quasi violentamente.:» E accrescenta: 
«OS irmSos do Rei querem ser tratados comò 
rei.» E n'estas condi«des recommenda-se: 
«É preciso que o Nuncio saiba quem prega 
e quem confessa as pessoas principaes.» O 
Conde da Castanheira é um d'esses mais pre- 
ponderantes « por multa amisade que Ihe tem 

rei. É oste um homem pessimo, appellando 
sempre para a sua consciencia e devoQSo, 
para se entender por oste melo com os frades 
qae tratam com o rei continuamente. O Conde 
de Vimioso tambem tem certa auctoridade 
junto do rei. Da rainha D. Catherina desta- 
eanse està nota viva: «Dizem que a Rainha 
toma deliberadamente parte nos negocios pu- 
btioos, e quer mostrar e fazer parecer, que é 
assim. É senhora multo devota. Principal- 
mente fallando com ella, reduzir todas as 
e 'sas o mais que se puder (comò em ver- 
c le se deve fazer) ao servilo de Deus e 

1 a da Egre] a, fazendo sempre mengao da 
e isdenda, do outro mundo, e do perigo da 
1 ^esia, das censuras da Egre j a, em summa, 



r 



272 H18TOBIA DA UTTERATU 

de tudo o que faz medo i 
sas e que produz n'ella to< 
corno insinuava a sugge 
para explorar a obsessSo 
tra Vida, que soffrìa està 
Doida, a rainha D. Cather 
O estado de depreesSo 
aseim notado: <Em Portu, 
infinitos OS litigios matrii 
ecclesiasticos. * E tendo i 
tem em mào todo o reìno. 
pai ou outras dependencii 
e grande parte do povo 
nenhum sair das m3os da 
fazer qualquer cousa sem 
dos ou por vìa das Commi 
fìcios com Habito, ou empb. 
de padres, vivem de bens 
laa e provisòes da Sé Apo 
ninguem se julga seguro 
de Portugal era ]& recoi 
<Portugal ao presente est 
quissima forpa; o Rei, além 
e com dividas grandissimi 
reino, com enormes juroE 
mente mal visto do povo 
nobreza, nSo por sua me 
xado a si mesmo nSo prò 
pelos mfios conselhos e ac 
est9o junto d'elle. > — e Ai 
gal com Franga pelos eoa 
gòes e da ìrmà (a Infanta 
Kainha de Franca, que ( 
mam, com o Imperador e t 
secretas, estSo reduzidas 
receia urna total ruina.> 



r 



OAHÓES — EPOOAy VIDA B OBRA 



273 






N'esta crise de depressao moral e politica 
é que a Companhia de Jesus entrou em Por- 
tngal, recommendada pelo celebre pedago- 
gista Dr. Diogo de GouvSa e pelo embaixa- 
dor D. Fedro de Mascarenhas, que estava na 
intìmidade de Carlos y. Os da Companhia de 
Jesus arroga vam-se o titulo de Apostolos ; 
Dom Joao iii pedia para Roma ao Geral Igna- 
do de Loyola alguns socios para as missòes no 
Oriente. O f ervor que elles produziam era quasi 
un delirio ; o Infante D. Luiz queria profes- 
sar na Companhia, & imitagao do Duque de 
Gandia, mas foi preciso interdir auctoritaria- 
mente o proprio Loyola, para o afastar d'es- 
sa obsessSo que podia desmascarar a propa- 
ganda capciosa ou os raptos da Companhia na 
mocidade das familias fidalgas. Dom Joao iii, 
que sob o influxo dos Dominicanos consi- 
derava o ser Inquisidor- Geral comò de mais 
valia que a propria realeza, entregou-se em 
absoluto 6, Companhia de Jesus, concedendo 
as mais latas e inconsideradas doaQoes àquella 
nova ordem, que chegou a alterar as leis ci- 
vis, podendo receber doagoes de bens de 
peasoas na menor edade ! Liberto do conflicto 
das ambi^es de Augustinianos e Dominica- 
nos, que o domina vam, emancipava- se agora 
um pouco entregandO'Se passivamente & dis- 
ciplina dos Jesuitas, que Ihe lisongearam a 
vontade occupando-se da organisagao dos Col- 
legio das Artes em Coimbra e de Santo An- 
tS em Lisboa, para expurgarem as discipli- 
ni i humanisticas do erasmismo com que es- 
tfi am inquinadas em Portugal e Hespanha. 
rei, obedecendo a està suggestSo, dizia 
q I aos escholares os queria — mais eatholi- 



.^■4: 



')i 



U 



eoa e menos lattnos. E 
thìa medieval. A relìgì 
Tidade mystioa coodaz 
Se DO Beculo xvi o es 
pag9 n3o tivesse conti 
plos da Bociabilidade 
persoDalidade, ou a ac 
cionismo christSo terìi 
nova de aotividade qu 
mèdia. 

Agora 08 Jeauitas ^ 
doB Exereicios espiriti 
centraQSo subjeotìva e 
p)a<;3o da morte e dof 
pelaa confiaeSes frequei 
individu aliamo diante i 
Infante D. Luiz, o die 
Kunes, Bubmettìa-se & 
jeauita P.* Diogo MirSc 
rique, que fora nomea 
apagou o aeu reeentìmi 
nbia e tomou corno dii 
LeSo Henriques. Outr( 
Qalo de Mello djrìgia 01 
tìmoratas consciencias 1 
e de seuB filbos D. Due 
za de Parma, e da E 
D. Catherina. Dom Jo9 
goveroado pelo astuto 
que se apoderou da e 
D. Jo3o, afastando da e 
o egregio bumanista I 
ter sido amigo de Erae 
Luthero. Multiplicavam 

Sor varias ermidas da ( 
arta de Camdes em qi 



276 mSTOBIA DA UTTBRA 

duzivel agonia do espii 

ter produzido dei 
1 vez propagada 
'gas, que pungime 
[^ue temores agonis 
tea de consciencia, 

produzidos naa ce 
adas por urna doi 
muito ein barba 
;i<;9o a mais bruta! 

conceber, — para n 
ilhares de pulpitos e 
03, posto que nSo 1: 
idimento claro, que 
e OS seus pensam 
ramante o que est 
i dizer no imo de 
I. A esperanga e o 
ì o instincto da pr 
to ao futuro, s3o 
rosas da nossa na' 
se firmou a religii 
ì OS artificios podei 
o seu firn e o s< 

uma subordinarsi 
:o & rasSo, mas ui 
mogao. * 

omo este terror li 
osa & apathia, ob Je 
a esperanija, cujoe 
) obras, com que st 
ias. D'aqui toda eE 

cheia de restricQ5i 



Fitthologie da l'Eipri 



lEEA I 



ITOBtA DA UTTEBATORA FOBTDGIIEEA 

e accòrdo com a moralidade. A In- 
mteve-se em urna serenìdade de es- 
iTeladora de urna intelligencia su- 
'eando em volta de si urna atmospbera 
a litteraria e artistica, proporcionan- 
•rdadeiros gosos moraes. 
ante D. Luiz, qua se ìntromettia no 
do ìrm3o, tinha seus intuitos de casar 
rinoeza que ia Ber futura rainha de 
a. A surpreza da resolu<;So de Dom 
desnorteou-o ; e fez manifestacSo do 
itimento em umas Trovas propheticas 
consequencias d'esse casamento eat- 
para a autonomia de Portugal. Em 
(^elIanea manuscripta da Bibliotheca 
, e no Cancioneiro da Bibliotheca de 
incontram-se essas Trovas que se fi- 
uando El Rei D. Joào III casou a 
D. Maria, sua filha, com Filippe, 
Imperador Carlos V, rei de Hespa- 
izem que as fez o Infante D. Luiz, 
io- No Cancioneiro de Evora vèm 
}s em nome de Nuno Alvares Perei- 
do Senlior de Basto, o amigo de 
randa ; transcrevemos algumas estro- 



Ya se lo viene llegando 

aquel tiempo, hermano mio, 

de lodo tu seiiorio 

perderes brinca brincando. 

En verdad, 

corno sea tu bondad 

de ìnnoceticìa cefìida, 

no sentiste la maldad 

en tua conseios tecida. 



Los que por amigo a tienea, 
mas que a tua hermanoa, 






6 
reras. 



Companhia Carlos v, no Beu plano de in 
pora;3o de Portugat. Por eetas Trovas se 
serva corno o casamento da princeza < 
azo a- tremebimdas preocoupagóes politi 
qae se confìrmaram nas maiores catai 
phoB. 

Infante D. Luìz cuItiTava a poesia, 

8ó a fórma do Auto vicentino, corno o i 

delicado lyrismo petrarchista ; attrìbue-s( 

Soneto que anda entre os de Camoes : 

* breves do meu contentamento. «Alj 

>QetoB sacros de sentimento profund 

rma polida andam incorporados nas o1 

ricaa de Can:ióeB.> ^ Barbosa Machado 

^u a seguiate Copia do Infante : 

Huìto venc8 o que se vence, 
Muito diz quem nào dìz tudo ; 
Porque a um discreto pertence 
A tempo fazer-se mudo. 

Quando se descreve a austerìdade da 
ba D. Catherina sob urna exclusìva preo 
i<;So religiosa, chega a parecer incompa 
)m seu espirito toda a distrac^So littet 
le nos apparece illuminando os serOei 
irte. A educaQ3o da mulber, no seu tei 
fleetìa toda a cultura meotal da Rena£ 
i; por isso alguns escriptores Ibe dedica 
rroB, corno o Dr. Affonso de Guevara, 1 



> D. Carolina Micbselis, A Infanta D. Mar 
nota 201. Em varios manuscnptos encontri 
t o nome do Infante D. Luiz quatorze Soneto. 
xiUeccìonadores acharam attribuidos a Gam5e: 



t HIBTOBIA BA UTTSBATORA I 

Anatomia, Freì Luìz de 
incÌBCo Jimenes. Em un 
tre do Totnbo, em que r 
ipezas da rainha B. Cathi 
So das obras que compua 
, e as contas pagas aos 
lonso LoureDQO e livreiro 
Et. * Entre esses lÌTroB es 
ietìsmo, e devocionarios t 
is luxuosissimas encaderc 
am-se outraa obraa de litt 
inem a corrente do gosto 
aponta por trezentoe reaei 
yyana, que encadernou i 
ta e fitas e quatro tacbò( 
atro partee da Caronica d 
,65 que despendeu em 25 
]0 (de 1544) em mandai 
ncioneiro portugues » ; er 
Caneioneiro geral de Gai 
t)licado en 1516. Além dai 
QO as Vidas dos Homens i 
cbo, acham-se descriptas 
I, taes comò os Proverbiai 

Meudoza ( Marquez de 1 
izientas de Juan de Mena. 
Juan del Enzina, as Trovi 
uè, com Recued el alma 
i glosa ; Los Nueve de la 
lo em setim branco com a 
mpressao de Lisboa, por G 



1 Publicado pelo Dr. Sousa ^ 
iemiea A Livraria real egpeeù 
D. Matioel. 



nnhiicado em 1540, diz da sua capacidade in- 
tual : « Joanna Vaz, naturai de Coimbra, 
1 da Rainba noasa senbora, por suas 
ies e doctrìnas mui aceìta a ella nas 
I latìnas e outras artes bumanaa mui 
, de quem vi algumas cartas por que 
se pode provar està noticìa que dou 
.» A rainha D. Catherina, que creou 
I a mais tenra edade a Infanta D. Maria, 
ilo se Ihe apartou caaa, entendeu dever 
parte d'ella Joanna Vaz, que a acompa 
I Da sua educaQ3o. 

icontram-8e frequentemente nos Gancio- 
ì manuBcriptos poesiaa de Jorge Fer- 
38, denominado o Fradinho da Rainha. 
im poeta da córte que fora estudar letras 
nas por ordem da rainha D. Catherina ; 
io ella morreu, e apoz a derrota de 
ebastiSo em Africa em 1578, passou a 



Ir 

L 



GAXdBS — EPOOA, VIDA E OBBA 285 

da Cruz, ohamado o Fradinho da Rainha, traz 
està referencia ao seu passado poetico : 

Seja grato o meu breve ultimo canto, 
Reliquias da esquecìda ìnutil arte 
Gom que vàmente jà folgueì menino, 
Nào de todo infelìz no canto indino. ^ 

Frei Paulo da Cruz tentou publicar a col- 
leoQio dos seus versos com o nome de Jorge 
Femandes, Fradinho da Rainha^ mas foilhe 
negada a permissao; regressando a Castella, 
morreu em 1631. 

O medico da rainha D. Catherina, Fran- 
cisco Lopes, tambem era poeta e auctor do 
Loor de Nuestra Senora, em diversos generos 
de metros. A queixa de Jorge Ferreira de 
Vasconcellos de se terem as cantigas caste- 
Ihanas apoderado do ouvido portifguez, pode 
bem explicar-se pela lisonja à rainha D. Ca- 
therina, que apreciava dignamente a poesia. 

Entre as damas da córte da rainha D. Ca- 
therina brilhava a formosissima e intelligente 
D. Francisca de Àragào, em volta da qual se 
reuniam os poetas palacianos que a galantea- 
Tam, ou que exaltadamente a amavam, comò 
Pero de Andrade Caminha e D. Manoel de 
Portugal. Ella pedia versos a Camoes, distin* 
guindo-o por essa fórma de todos os outros ; 
e nio deixarìa està homenagem ao genio de 
influir nas rivalidades e odios que o envolve- 
ram. Em urna carta de D. Joao de Borja (fi- 



^ Pnbfìcado no livro de Diogo Pires Cinza, Vida, 
^ rie e traslada^do do invieto Martyr S, Vicente, 
1 L14f — 1614, 



que o. A. gueta ae su eDireiemmienio y oon- 
versacion por tenerla muy buena y far" "- 
tenida por la muger que mejor ha sabi 
cer el officio de dama que ha havido en 
tro tiempo en Portugal y cierto eotiend 
poderia poner escuela desta faculdad, se 
bien que sabe servir a su Reyua y ha f 
Ber servida corno dama.> * Por esteba 
trato de D. Francisca de AragSo compi 
de se o alcance da homenagem que pri 
a CamSes entra os outros poetas. Era p 
tido urna certa liberdade nos veraos in 
dos ou dedicados fis damas do pago ; D. 
cisco de Portugal esplica esse costume 
selhando aa damas a lèrem todos os ^ 
que Ihes fizerem: «Lea versos que le 
rae, que las licencias poeticas han asseg 
este genero de razones, puea le quita: 



288 HIBTOBU DA LITTBEAI 

Ihe Bs coplas acompanb 
fórma peculiar da galan 
observa D. Francisco de 
Carta breve y liana y 1 
lo mìsmo enamorado qu( 
ea lo discreto ; las razon 
sin borronee.» (Arte, j 
Carla a D. Franeisca d 
paQo, seguiu o preceito { 

» Senhora.— Deixei-Ei 
cimento de V. M., ereni 
guro; mas agora que he 
a resuscitar, por mostra 
bro-lbe que uma vida t 
de agradecer que uma m< 
se està vida, que agora 
para me tornar a toma 
dSo me fica mais que de 
tar com este Mote de V. 
entendimentoB, segundc 
poderào soffrer; se fore 
V. M., se màos, sao ae ^ 

Importa saber ob tramites que se exigiam 
na córte para chegar qualquer Gloaa a uma 
dama : era preciso dispensa da Camareira- 
mór para que o Mordomo Ih'a fosse entregar 
por sua mSo. Allude a estes tramites D. Fran- 
cìbco de Portugal: t Aunque dizia un discreto, 
(Villa Mediana) que no se podian sufrir Ca- 
bezas de Motes por las manos que correi 
por el desasseo con que llegan a las de 



1 Jnroinenha aeparou està Carta das Redondi 
Gollocando-a aem sentido entre aa oatraB Cartae 
CamSeB. (Obr., \. V, p. 235.) 



r 



CAHdES — EPOCA, VIDA E OBRA 289 

Damas, con aquella obligacion, de que no se 
paede ninguno sin la dispensacion de la Oa- 
marera<Mayor, aquel dallas a un Mordomo 

3 ne las de a la Dama a que van encamina- 
as, 7 ella levallos & la Reyna, que los abra, 
y luego mandar que les respondan, mas ce- 
rimonias solian tener, que lo tiempo fue qui- 
tando corno impertìnencias.» (Art. de Galani. 
p. 124.) cLos que se trazen en la antecamara, 
y manda luego sobre alguna particularidad & 
question, no siendo tan solemnes, son mas 
aolemnisados. » (Ib.t 139.) cSufrense estas 
bnrlas cortezes, embian-se con licencia del 
Mayordomo semanero, y a vezes sin ella. . . > 
(Ib., 140.) 

Por estas etiquetas palacianas se ve que 
dìfficuldades encontraria Gamoes quando sa- 
tìsfazìa a estes pedidos de versos. Àquellas 
ooplas : A huma Dama que the mandou pe- 
dir algumas obras suas, mostram o emba- 
raQO em que està para dizer quanto sente, e 
quanto mais eloquente seria se ella o visse : 

Senhora, se eu alcan^asse 
No tempo que lér quereìs, 
Que a dita dos meus papeis 
Pela minha se trocasse; 
E por ver 

Tudo o que posso escrever 
Em mais breve rela^ao, 
Indo eu onde elles vào 
Por mim so quizesseìs lèr. 

{Obr,, U IV, p. 37.) 

Urna outra dama brindava Gam5es com 
Q la penna, na certeza que Ihe inspirarla uma 
d Udosa poesia; Oaminha nSo encontrava 
d istes favores. A huma dama que the deu 

19 




290 HISTORIA DA LITTBRATURA PORTUOUBZA 



urna penna, agradeceu Camoes, com om 
Decima. D'està fórma poetica diz o audo 
da Arte de Oalanteria : € Las Decimas no a 
cerraré las puertas de Palacio, pues tanto a 
entran por las del pecho; los otros modos d 
versar hizieranse para leidos, y estos par 
sentirlos . . . » (p. 111.) 

Apesar de todo o esplendor da eschol 
italiana inaugurada por S& de Miranda, o 
versos de redondilha ou da Medida vellu 
dominavam no pago por imposiQao da galan 
teria das Damas. A cada passo encontra-si 
Camoes lisongeando este gosto nas mais deli 
cadas Redondilhas, glosando Motes velhoa 
ou versos proverbiaes de antigos poetas caa 
telhanos. Muitas vezes se encontram os mas 
mos Motes glosados tambem por Caminha, 
por certo por exigencia das Damas; citar» 
mos OS que simultaneamente trataram: 

— Para que me d9o tormento (Gamoefl^ 
t. IV, p. 65; Caminha, Poe8. ined., p. 227.) 

— Ay de mi (Id., p. 173; e p. 235.) 

— Justa fué mi perdicion (p. Ili ; 245.) 

— Na fonte està Lianor (p. 81 ; 297.) 

— De pequena tomai amor (p. 61 ; 298.] 

— Vida da minha alma (p. 127; 341.) 

— Catherina bem promette (p. 94 ; 345.1 

— Coifa de beirame (p. 128 ; 345.) 

— Tende me mao n'elle (p. 134; 350-2.) 

— Saudade minha (p. 126; 368.) 

— Sem vós e com meu cuidado (p. 11& 
370.) 

— Pariome mi madre, (Camoes; Gami] 
348.) 

— A fuera, consejos vanos (p. 161 ; 
Sobre as praxes exigidas para glosar 




CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 291 

tee Motes, observa o auctor da Arte de Ga- 
lanteria: « Glosas, solamente quando el Mote 
fuere de Dama, que no tiene el entendimiento 
todo el logar en esto modo de dezir, antes es 
atar el Ingenio a cosas, que a vezes hard mal 
logar otras mayores, mas estoy de la parte 
de las Bueltas, que los antigos ivanse atràs 
lo8 affeitos.» (p. 118.) «... el Mote no llevarà 
retruecano, ni sentencia sin derivacion, ni 
cosa que huela a Romance, claro, elegante y 
agudo, decifrando de entre los terminos que 
se propone, haziendo proprio Io ageno, que 
aquel Mote sera mas acertado que mayor 
affecto descubriere, y con mayor pureza le 
reprezentare . . .> (p. 143.) Em uma córte em 

!ue se fallava exclusivamente o castelhano, 
!amoes pela sua vasta leitura de traducQoes 
de obras classicas, escrevia perfeitamente 
Tersos castelhanos. Caminha, crescendo em 
rivalidade diante dos triumphos de Camoes, 
avanzava para o odio e para a calumnia. 
Certos Sonetos de Camoes, que eram multo 
apreciados pela belleza da imitagSo petrar- 
chista, Caminha refazia-os debalde, deixando 
patente a sua mediocridade. * Nào se podia 
Ber galanteador no pago sem saber rimar de 
prompto sobre qualquer accidente e caso for- 
tuito; dizia D. Francisco de Portugal: «Que 
bazer una Copia era entendimiento, y muchas 
ea parte de necedad; se refiere de un buon 
ìuicio, (D. Juan de Silva) el galan no bade 



^ Taes sào: Soneto 102 de Camoes, e o 75 dp Ca« 
ili (a; o 2 para o 37 ; o 69 para 82; o 165 para 89; 
1 para o 138; o 167 para o 88; o 271 para o 44. 



I 

ì 



CAXÒES — EFOGA, VIDA E OBRA 293 



jfoada ap ouiro. D. Guiomar de Blaesfet veiu 
I casar com D. Simao de Menezes, mais tarde 
Borto em Alcacer Eibir. N'estas intrigas amo- 
posas, Gamoes tornava-se o centro de conver- 
^ncìa de outros poetas, pela sua supremacia 
genia! dìante das damas. D. Manoel de Por- 
tagal, que tinha regressado de Italia em 1642, 
indava enamorado por D. Francisea de Ara- 

E LO, que se mostrava fria para o terceiro fi- 
do Oonde de Vimioso. A proposito d'este 
amor, traz urna anecdota o auctor da Arte de 
Galanteria : < D. Manoel dezia, que no queria 
11188 si nò lìcencia para poder con unos orga- 
DOS en el terrero del palacio, enternecer la 
lenora Dona Francisea.» (p. 168.) Conside- 
rando a importancia que Sa de Miranda li- 
Biva a D. Manoel de Portugal, mimoso das 
ttsa«. comprehende-se melhor a sua amisade 
por Camoes, entSo o intimo confidente, e 
Domo lume do pago seu guia nos serdes da 
eOrte. Commentando o verso do Soneto lxiii : 

Escriptos para sempre jà ficaes 
Onde vos mostrardo todos c'o dedo. 

Parìa e Sousa escreve, que pessóa que ti- 
Tera conhecimento intimo com Camdes Ihe 
diBsera, que quando o poeta passava pelas 
mas de Lisboa, paravam e o apontavam com 
admiraoao. Tudo iato devia suscitar invejas 
latentes» que trama vam a sua mina, embara- 
^ndo-lhe a carreira social. 

N'este tempo os Romances populares re-. 
Tivesciam no gosto da córte por andarem 
^tos em musica pelos compositores caste- 
winos Valderrabano, Salinas, Luiz Milan, 
p^Hlana, Pizador, e as damas compraziam- 



294 H18TORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



86 em cantal- OS com os mais seductores reque- 
bros. GoDtra està fórma castelhana fallavam 
OS poetas petrarchistas ; toca esse antago- 
nismo o auctor da Arte de Oalanteria: cEl 
Sonato logar tiene en todo : la maestria d'ellos 
guardase para los estudiosos, aunque séan 
muy buenos, se hagan tarde y quando la oo- 
casioQ pida salir a plaza, que la8 Damus no 
estan obligadas a saber la Poetica de Aris- 
toteles, ni ay muger que apetega versos sino 
oquelles que tienen pocas syllaba^^ pensa- 
rujentos vivn? y mucbo ayre, que son pro- 
priedados do Romance, cuyos desenfados pa- 
vece que se hizieron solamente para ellas. . .> 
(p. 114.) Os versos curtos ou de poucas syl- 
labas eram os que melbor se punham em musi- 
ca e cantavam. Gamoes intercalou versos dos 
mais vulgarisados, Romances da córte nas 
suas Cartas, Autos e Satiras, sempre com 
graga, sabendo tambem tirar d'està fórma 
velha relévo para a expressSo subjectiva. 

N'este periodo rapido em qua passou ful- 
gurante pela córte, te ve Gamoes a emoQao 
profiinda que se apoderou de todoa os seus 
sentimentos, os araores por urna dama da 
rainha; e ainda no pago a vista das Colga- 
duras do Triumpho da India representava- 
Ihe objectivainente os quadros que elle aspira- 
va a tratar corno um novo pensamento nos seus 
Gantos heroicos. Entre os livros que perten- 
ciam & Livraria do rei D. Manoel, acha- e 
descripto: cOutro, escripto em pergamint ^ 
enluminado a lugares d'ouro, dos Treumi 8 
da India, cuberto de veludo cremesym» ce a 
quatro brochas, sete cantos com duas ros 3 
no meio esmaltadas, tudo de cobre dourad * 




CAMÒB8 — EPOCA, VIDA B OBRA 295 

Bousa Viterbo faz a hypothese plausivel de 
lue este Uvro contivesse os debuxos feitos 
por artista para sereni passados &s tape^arias, 
DQ pannos de armar, que se aoham descriptos 
un ama minuta, hoje publicada, dos vinte e 
teìs assumptOB que o rei D. Manoel mandara 
bzer representando o Descobrimento e con- 
qnistas da India. ' Estas descripQoea, feitas 
por mio do escriv3o da puridade Antonio de 
Alea^^va Garneiro, jà foram confrontadas 
eom 08 quadros dos Lusiadas, por Joaquim 
de Vasconcellos, podendo-se conci uir pela sua 
eoncordancia, que o poeta fora impressionado 
sa sua idealissQ&o por essas colgaduras. Ce- 
lebrando esse amor com a dama do paQo^ liga 
e poeta a ventura d'esse sentimento ao exito 
do Canto beroico que elaborava mentalmente. 
À còrie da rainha D. Catherina, m&o 
grado a sua austeridade religiosa, continuava 
a tradi^So do esplendor dos Seroes do pago, 
em que brilhavam os poetas e os apaixona- 
doB. Escreve D. Carolina Michaèlis, deslo- 
eando do palacio da Infanta D. Maria para o 
da rainha sua tia essas manifestagoes de poe- 
sia e galanteria, de que ficaram vestigios nos 
Cancioneiros do seculo xvi: « E' facto, que no 
paco da rainha viviam ou se reuniam as in- 
iptradoras de fama Foi dama sua aquella 
D. Maria Manoel. que ha via enfeitigado o ve 
Iho Duque de Coimbra, corno D. Anna de 
Aragao, a briosa defensora da independencia 
nadonal ; tanto a Natercia de Camoes, comò 
aqi )lla gentil D. Margarida da Silva, por 



A Lìvraria real, p. 15 



296 HtSTOBIA DA LITTERA 

cuja causa o melhor an 
tonio de Noronha ) mori 
DOS, senhora tSo genti 
cODcorreram trinta a ( 
eluìndo o grande stoico 
seu retiro mìntioto. DaD 
FranciscB de Aragfio, i 
sas a que melhor sabia 
contentando a severa e 
apesar d'isso, nSo fó o i 
mór e o cerimonioso Ca 
eentìmental D. Manuel 
de Vimioso, e o proprio 
que por causa de tanta 
de S. Francisco de Bc 
sorciar-se com ella. Dai 
aquella D. Guiomar H 
Tez inflaromou D. Sim 
desagradou ao ìnclyto 
doza. 

* Poi por tanto nas 
desabrocbaram, para ot 
onde 08 cortez&cs saboi 
dos intermezzos lyricos i 
de euro da Litteratun 
cbÌBtosos, Voltas alegret 
Trovas satiricas, Cartae 
toa cultoB, Eglogas sei 
mios solemnes, Epistola 
narratìvas, Elegias grav 
Bublimes. 

*Foi Ifi qua se derac 
lados, eseas anedoctas 
gracioBoe que continuar 
calo SVI a antiga tripli 
dos, de galantes e de pi 



r 



CAMdSS — EPOCA, VIDA E OBRA 297 

reepostas, de que gosavam os portugue- 

N'esta atmosphera estonteante, é que tam- 
bem foi Camoes arrebatado «j9or huns amo- 
res no pago da Rainha,^ conforme se ex- 
pressa a tradÌQ§o que chegou ao conheci mento 
de Fedro de Mariz. D. Carolina Michaelis 
formula a conclusào : < A quem objectar que a 
corte de D. Jo9o in e D. Gatherina — intro- 
duetores fanaticos da Inquisi^So e da Compa- 
nhia de Jesus— era antes que tudo eachola 
de santa doutrina^ respondo que nem por 
isso deizou de ser o que fdra nos seculos 
anteriores : escola de fina galantaria, de onde 
saiam mestres e modelos na arte de amar ; e 
selva de aventuras romantìcas, onde se des- 
enrolaram innumeros dramas de amor.» (p. 
5.) Mais do que a densa e o canto, presta- 
va-se a estes galanteios a poesia : < A prefe- 
rencia era dada naturalmente aos generos li- 
geiros da Eschola velha. Oonservam-se versos 
talhados entSo em pedra, cortados em arvo- 
reB, ' inscriptos em folhas de hera, e certa- 



* D. Carolina Michaelis, A Infanta D, Maria, 
p. 52. 

* Camòes no Auto de Filodemo allude a este cos- 
tome, quando falla dos que juram : *por quantos So- 
netos estào escriptos pelos troncos das arvores do vale 
Liuo.,.» (Àcto II, se. 1.) E no Soneto 14, allude à 
mesma usanza : 

Gansado jà de andar por a espeseura. 
No tronco de urna faia, por lem branca 
Escreve estae palavras de tristeza: 

— Nunca ponha ninguem sua esperan^a 
Em peito feminil, que de natura 
Sómente em ser mudavel tem firmeza. 



298 HI8TORIA DA UTTERATURA POBTUOUBZA 

mente na època estivai, durante alegres me- 
rendas em Santos-o-Velho, e em Cintra. Ver- 
808 lan^ados nos aposentos das damas, hoje 
de amor, àmaobS de esoarneo. Versos sem 
canto para Livros de memorias, Cancioneiros 
ou Albun8. Inumeros Vilancetes em louvor de 
dama8, homenagem em geral de um so galan, 
mas frequentemente coUaborado por urna so- 
ciedade de cortezàos. ' — Uma legiao de Mo- 
tes, escolhidos pelas damas, serviam para os 
seus servidore^ adivinharem e explìcarem nas 
Quintilhas e Decimas ora engragadas ora prò 
fundas, o entendimento ou seja a tenQdo, qua 
ellas, as preponentes Ihes ligavam. 

< Um dia, alguma que a sorte havia em 
qualquer jogo de espirito designado pela in* 
spiradora — digamos, D. Catherina de Athai- 
de, proferiu o thema : 

Divide y aborreci. 

fitando o amado. E o Camdes, fingindo de 
repentista, replicava: 

Ha-se de entender assi : 
Que des que os di mi cuidado, 
A quantas huvo mirado 
Olvidé y aborreci. 

€ Outra vez é D. Francisca de Aragào, que 
escreve a lapis n'um bilhetinho perfumado a 
regra : Mas porém a que cuidados ( sem por- 



* Reconstruido sobre as Poesias inediias de C 
minha publicadas pelo Dr. Priesbch, que authentica 
a verdade do quadro. 



r 



GAMOES — RPOOA, VIDA B OBRA 299 

taaQao elucidati va, bem se ve), resuscitando 
por esse meio o magno poeta, que ella por 
nm amùo qualquer, havia enterrado no es- 
qaedmento durante alguns dias. . » * D'estas 
galanterias passadas em Cintra e Almerim 
oom as damas, escreveu o commentador quasi 
contemporaneo de Camoes, D. Marcos de San 
Loureni^: «Estas Nayadas eram as Damas 
do Pago^ as quaes se iam recrear àquellas 
florestas com as Rainhas de Portugal, em 
quanto Deus quiz que elle gazasse d'estes 
mimos, dos quaes por que nao soube usar 
veiu a career d'eiles.» ' As relaQoes com a 
odrte de Franga, onde era rainha a mae da 
Infanta D. Maria, alentavam o velho costume 
da galantaria a lei de Franga. Em uma me- 
moria franceza do principio do seculo xv[. à 
qual allude d'Hericault, na vida de Marot, 
lése: «N'este tempo havia um costume, e era, 
que ficava mal aos mancebos de boas fami- 
lias ndo terem uma namorada, a qual nao 
era escolhida por elles nem tampouco pela sua 
affeigào, mas eramihes dadas por alguns pa 
rentes ou superiores, ou ellas tam,ben esco- 
Ihiam aquelles por quem queriam ser servi- 
das na còrte.T^ • 

A Vida intima da corte franceza acha-se 
descripta em uma carta de Franeisoo de Mo- 
raes, o auctor do Palmeirim de Inglaterra, 
de 10 de Dezembro de 1541, quando estava 
er Paris corno secretano da Embaixada de 



A Infanta A Maria, p. 55. 

Àp. Juromenha, Obr. i, p. 32. 

Nas Oeiuvres de Marot, p. xxxix. Ed. 1867. 



res. Em contraste com esse quadro de desen- 
Toltura doB jogOB da pela, do aléo e outras 
momarias, falla da austeridade da rainha 
D. Leonor, mSe da Infanta D. Maria. N'esse 
meio h allucinai! te, o proprio Francisco de 
Moraes, jfi quinquagenario, achou-se possuido 
por une amores tardios pela joven Torai. Sob 
essa emOQào passionai foi-lhe a imagina^So 
para as aventuraB cavalbeireBcas e escreven 
a novella do Palmeirim de Inglaterra. Ee- 
gressando para Portugal em fìna de 1543 
com o embaìxador que era Camareiro-mdrda 
rainha D. Catherina, achamol-o logo tornando 
parte nos divertìmentos palacianoa, contri- 
buìndo com as auas Voltas e Redondilhas. 
No Cancioneiro manuscripto de Luiz Franco 
(fi. 102) vem urna quadra com a rubrìca Vi- 
lancete de Francisco de Moraes, que appa- 
rece glosada por GamSes oom o titulo 

Mote alheio 

Triste Vida se me ordena, 
Pois quer voBsa condi^So, 
Que 09 niatee que daes por pena 
He fjqueni por galardao. 

Ab quatro deliciosaa Decimaa de Cam5e8 
glosando eBta quadra, represeatam urna pai- 
x3o nascente, timida mas feliz no soffrimenlo. 
Vem na edigSo daa Rimas de 1G95 junto do 
Mote que no Manuscripto do Poeta é attr' 
buido fi Infanta D. Maria, a quem Francifr 
de Moraes dedicara o aeu Paìmeiritn de I'. 
glaterra, logo ao chegar de Franca, pei 
«obrìgaqfio em que estou a V. A. porrmi 



OAMOeS — EPOCA, VIDA E OBBA 301 

da Raynha Christianissima de Franga, vossa 
m&y, de que jà recebi merces. . . > De urna si- 
tualo da Novella do Palmeirim, emque na 
porta do castello està um escudo em que està 
escolpida urna mulher, com umas letras bran- 
eas no regalo que diziam: Miraguarda^ foi 
pedido a Gamoes o sentido nas ten<^es da di- 
vìsa mysteriosa. Por ventura pedir-lh'o-ia a 
Infanta D. Maria, ou a dama que Ihe lem- 
brava que a mirasse com cautella. E' o que 
86 le nas linhas brancas 

A Tengdo de Miraguarda 

Vèr e mais guardar 
De ver outro dia, 
Quem o acabarìa. 

VOLTAS 

Da lindeza vossa, 
Dama, quem a ve, 
Impossivel é 
Que guardar-se possa. 
Se faz tanta mòssa 
Vér-vos um so dia, 
Quem se guardavia ? 

Melhor deve ser 
N'este aventurar 
Ver e nào guardar, 
Que guardar e vèr. 
Vèr e defender, 
Muito bom seria, 
Mas quem poderia ? 

( Obr. IV, 124 ) 

A intelligencia da situsQào em que se 
3hava Camoes, na sua paixSo incipiente, leva 
'^ntir n'estas redondilhas um outro sabor 



802 HISTORIA DA LITTBRATUBA POBTUOUBZA 



esthetico. Estas rela<^es do poeta com Fran- 
cisco de MoraeSy escb.recem-nos comò pode- 
ria Cam5es ter-se encontrado com a Infanta 
D. Maria. A excelsa princeza cultivando as 
bellas lettras e a musica comò em uma Aca- 
demia no seu palacio de Santa Clara, rodea- 
da de senhoras intelligentes e instruidissimas, 
corno Joanna Vaz, Paula Vioente, fiiha do im- 
mortai comico Gii Vicente, Luisa Sigda, mas- 
tra de linguas, e Angela Sigéa, excellente 
musica, pela reserva naturai do espirito me* 
lancolico e delicado n3o recebia èavalheirose 
poetas aulicos ^ Grandes soffrimentos morara 
a forgavam a esse retrahimento ; e é naturai 
que D. Joao ili, que tanto a melindrara, para 
Ihe attenuar a tendencia para o isolamento 
facilitasse os divertimentos litterarios no Pago 
da Rainha. Sua tia a rainha D. Gatherina 
cuidara da sua crea^ao desde os dois annos; 
e comò a neta de Isabel de Castella que mais 
herdou o seu gosto e interesse litterario, fad- 
litou-lhe a mais esmerada cultura humanista. 



^ As Academias de senhoras eram entào frequen- 
tes ; a viuva de D. Joào li reunia varias damas for- 
mando uma Eschola de Santa DotUrina, A Gondessa 
de Vimioso exercia entre as Senhoras em Evoranoseu 
palacio, quando a visita vam, um influxo de cultura, 
corno refere o P.'- Fonseca (Évora Gloriosa^ p. 627): 
« O mesmo usava D. Joanna de Vilhena com as senho- 
ras que a vinham visitar, dando a cada uma d'ellas al- 
guns trabalhos com que as entretér; e entretanto, oa 
Ihes Ha algum capitulo dos documentos que o Oonde 
tinha composto, ou Ihes contava algum exemplo cu bis- 
toria santa com que adorar o trabalho; o quefazia< n 
tanta gra^a que assim D. Brites, duqueza de Goin 'a 
e Aveiro, com todas as mais senhoras frequentai! n 
com gosto a Eschola de Dona Joanna,^ 



OAMÒES — BPOOA, VIDA E OBRA 303 

Àlguns doB seus primeiros mestres, corno An- 
tonio de Abreu e Manoel Barata, apparecem- 
no8 mais tarde apontados entre os amigos de 
GamSes. E' de presumir que esses estudos 
intensos a que alludem Aspilcueta Navarro, 
jurigconsulto Manoel da Costa, o Sutil, e 
outros humanistas. fossem um meio empre- 
gado para a trazer dìstrahida das saudades 
de saa mfie, que convolara a segundas nup- 
cias com Francisco i. A Infanta era extraor- 
dinariamente rica, e seu irmào D. Joào ni 
evitava por todos os meios o entregar-lhe a 
herauQa paterna. Segundo a informagao do 
embaixador de Veneza & Senhoria, era a 
princeza possuidora de 400.000 escudos» aug- 
mentados com mais 200:000 nos ganhos da 
chatìnagem real da India, além do dote de 
saa mae hypothecado ao Condado de Lorena, 
oom 08 respectivos juros. Era evidentemente 
urna das princezas mais ricas da Europa, um 
bello partido para uma casa real. Apparece- 
ram-lhe logo tres protectores para disporem 
do seu destino: o Imperador Carlos v, seu 
tic, que pensou em essala com o Archiduque 
Maximilìano, herdeiro do throno da Alterna- 
nha, embara^ando o plano de Francisco i, 
que pretendia casal-a com o seu filho mais 
novo o Duque de Orleans. N'este jogo de in- 
teresses Carlos v sacrifica a sobrinha, a In- 
fanta D. Maria, casando sua filha a princeza 
D. Maria com o Archiduque Maximiliano, e 
ide-lhe comò noivo seu filho, herdeiro do 
irono da Hespanha, o princepe Philippe, 
atra no jogo D. Jofio iii, e quando o embai- 
idor de Hespanha vem com o pedido da 
io da Infanta, o rei comò bom pae mas per- 



304 HI8TOKIA DA LITTBRATDRA 

fido Ìrm3o subatitue-lhe bue 
D. Maria, casaudo-a com P 
E' entfio que a raìnha D. 
oonstantemente sua filha, sen 
oom evasivaa e dilaodea p< 
estado de espirito em que 
fanta D. Maria, do periodo 
tou Camoes a córte, encontri 
urna carta de D. Sanoho de 
eztraordinario a Carlos v : 
grande entendimiento y co-, 
seda y de pocas palabras \ 
de Las Taleroaas personas t 
nen-se sue determìnacionea 
ha mas de dos aiìos que ae i 
tido y recGJimieQto muy bu( 
oion, y esto no corno hypoc 
encerra n'eataa palavras esc 
se retata na vida do aeu coni 
Alcantara. A Infanta D. Ma 
tanta desconsidera^io, intent 
maa impediu-lhe easa resoli 
fessor, comò se aabe pela oc 
aerta na Vida de S. Fedro . 
obra de Fray Diego de Ma 
por sua ìndicacSo fundara 
teiro das Deacalsas reaes d 
nado Santa Helena do Mon 
Attrahida para os ser5ei 
nha, a Infanta n3o ae mos 
&a manifeata^es do talento 



> Fray Diego de Madrid, Vie 
cantaro, t. ii. Madrid, 1765. Api 
ciane» Éctremenai, p. 136, nota. 




OAKÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 805 

i naturai, que pela sua longanimidade desse 
tambem o seu Mote ou TeuQ&o. 

Na Miscellanea poetica do Municipio do 
Porto (espolio do Conde de Azevedo) encon- 
trou D. Carolina Michaelis urna Volta Da In- 
fanta Z>. Maria^ que nunca teve dita para 
easar, sendo grande senhora. E diz : 

Jà nào posso ser contente, 
Tenho a esperanga perdida, 
Ando perdìda entre a gente, 
Nào mouro, nem tenho vida. 

Nem descanso, nem repouso, 
Mea mal cada vez sobeja; 
O que a minha alma deseja 
Nào posso dizer nem ouso. 
Assi vìvo descontente, 
De assàs dòr entrìstecida : 
Ando perdida entre a gente, 
Nào mouro, nem tenho vida. 

Como Mote alheio^ foi essa quadra glosada 
por varios poetas contemporaneos da Infanta, 
corno D. Francisco de Portugal, conde de Vi- 
mioso, Francisco de S& de Menezes. Luiz de 
Gamdes, um Anonymo do Cancioneiro de 
Eyora, e Diogo Bernardes; e jà no seculo 
xrm por Francisco Rodrigues Lobo e Simao 
Machado. Sobre a attribuiamo 6 Infanta, es- 
(TOTe D. Carolina Michaelis: cEmquanto nao 
se descobrir um nome de auctor anterior & 
Infanta, nSo é iliicito todavia propagar a 
quadra corno da sua lavra, tendo em conta 
de obra de D. Maria tambem a Volta — que é 
«D nyma e falla em nome de uma mulher.» ' 



A Infanta D. Maria^ p. 57. 



r 



S06 UieTORIA DA LI! 

As damas da od 
davam Motes, que 
peloB galanteadore 
considerava -se esti 
para urna dama: 
una Redondilla y 
Mote, y aunque ha 
lucida, sin que las 
les, corno Iob ora 
las Sybilas, seran < 
respetadas corno or 
floreecieron grande 
desdize la piuma e 
buela con ella con» 
Senhora D. Morii 
en Io mas la virtù 
solo es discreta q 
mente dizo : 

Se Eoub 
De que 
Inda aai 

« Pero enquantt 
mas estudìo, que a 
unoB jasminea que 
con agua de amba 
Arte poetica de Esc 
Moradìaa da Casa i 
gura Paula Vicen' 
Tangedora e mÓQS 
thica cooperadora 
naoSo dos seus A 
companheìra da Ini 
e Luisa Sigda, qu< 
da Casa da RainhE 



GAMÒES — EPOCA, VIDA B OBBA 307 

o ordenado de 6$000 rs., (Jur., Obr., i, 31) 
foram cedidas para a Infanta, corno professo- 
ras e senhoras da sua casa. A entrada da 
Sigéa corno mostra de linguas, em 1544, 
tendo entSo quatorze annos, explica-se pelo 
seu raro talento n'essa ordem de conheci- 
mentos ; d'ella escreve Feyjó, no Teatro cri- 
tico: e naturai de Toledo y originaria de 
Francia, sobre ser erudita en la Philosophia 
e buenas-Lettras, fué singular en el orna- 
mento de las lenguas : por que supo la latir^a^ 
la grega^ la hebraica^ la arabica, e la sy- 
riaea^ y en estas lenguas se diz que escribió 
una carta a Paulo iii. Siendo despues su pa- 
dre Diego Sigeo Uamado & la córte de Lisboa 
para preceptor de Theodosio de Portugal, 
buque de Berganza, la Infanta D. Maria de 
Portugal hi] a del rey Don Manoel y de su tor- 
cerà esposa Dona Leonor de Austria, que era 
muy amante de las letras, quiso tener en 
eompania à la sabia Sigda.» ^ E' de 1544 o 
seu assentamento na moradia, e de 1546 a 
data da Carta polyglota ao papa Paulo iii. 
Luisa Sigéa sentiu na córte portugueza uma 
corrente hostil, quando as disciplinas huma- 
nistas foram entregues aos Jesuitas em 1555 ; 
n'essa obnubila^So que apagou o brilhan- 
tismo da Renascen^a em Portugal, Luisa Si- 
gèa deixou a córte privada de toda a protec- 
$0, em 1557, casando com um cavalleiro de 

Biii^os, . Francisco de Guebas, senhor de Vii- 
lai isor. Algumas cartas, que existem em Ma- 

~ l e no Museu Britanico, escriptaé por 



"^Tìeatro eriiioo, i, p. 377. 



808 HISTORIA DA UTTBBATURA PORTUGUBZA 

Luisa Sigèa, mostram a tendencia especola- 
tiva do seu espirito para os problemas mo- 
raes. No seoulo xvi, era costume na convi- 
yencia social fazer-se perguntas, para provo- 
car respostas difficeis com subtileza e facilida- 
de. Na Vida de Manoel Machado de Azevedo^ 
pelo Marquez de Montebello, vém umas vinte 
perguntas apresentadas no firn de um ban- 
quete a que assistiu Sft de Miranda, no solar 
de Grasto, na festa de Santa Margarida feita 
por seu cunhado. Eram : 

— Qual o maior engano ? 

— Qual a mayor enf ermidade ? 

— Qual a mayor saude ? etc. 

Em uma Carta (vii, attribuida a Gamdes) 
achada por Juromenha, vem as perguntas : 

— Qual é o maior aggravo que se pode 
f azer a um homem ? 

— Qual é a cousa mais importuna ? 

— Que cousa é esperan^a? e para que? 
Na córte da Infanta D. Maria era tambem 

usuai o passatempo das Perguntas. Em uma 
das Gartas de Luisa Sigèa, do Museu Bri- 
tanico, lèse: 

«Senhor. Perguntastes-me est'outro dia, 
que livros me parecia que lésseis para d'ellea 
poder-vos aproveitar na conversa^So galante 
e a Perguntas e Respostas^ que se apresen- 
tam aos que tratam d'ella.» Desculpando-se 
da demora em satisfazer o pedido, comega 
indicando as partes de que deve constar n 
boa conversagSo : « Eu para mim a querei a 
graciosa, galante, chela de novidade, sisu a 
e honesta, que se comegasse com desejos e e 
acabasse sem enfado. Porque, se fdr galan i, 
palavras, gestos, repentes, agudezas n&o * I- 



r 



CAMÒBS — BPOOA, VIDA E OBRA 809 

tarao a proposito e a seu tempo; e se fdr 
graeiosa, nSo vir3o contos, que sao os que 
entretèm fora de tempo, antes se saberào in- 
tercalar por tal arte que pare^am proprios» 
n&o emprestados, naturaes, nSo furtados de 
outro, e gostosos, nSo inconvenientes. Se chela 
de noFÌdades, terfi o que acima dìgo, e mais 
ama certa compostura de cousas que se sóe 
tratar, travada por tal arte, que cada dia se 
deseja, e pareva sempre que fica. come<;ada, e 
nnnca enf ade. N3o Ihe farà damno sobre estas 
tres propriedades ser por vezes sèria, honesta 
sempre» pois o siso e a gravidade nas pessoas 
dà confian^a ao's que conversam e credito aos 
com quem se conversa de se poder fiar d'elles 
palavras e outras cousas que traz comsigo a 
conversa^So. E a honestidade e compostura 
faz ser mais gostoso o que se ouve e diz, por 
que sob estas duas cabem todas as cousas que 
86 podem desejar, tratar e descobrir e pre- 
tender na Vida ; e da desenvoltura e dema- 
siada soltura n3o se fiam senào os que nao 
sabem nem valem nada» que é mui pouco 
para desejar. 

€ Està conversa<;3o alcanna por tres melos : 
prìmeiro, pelo habito de conversar sempre 
oom pessoa de valor e de arte, que livremente 
possa e saiba ir & m3o ao que nSo fdr comò 
que tenho apontado. O segundo, IìqSo de 
livros galantes e avisados, de historias ou fa- 
balas, comò poetas, que em um verso disse- 
r DD mais do que outros em quatro regras, e 
e I urna pennada resumiram uma historia ou 
f ^nla, que é o que melhor parece na conver- 
8 *Ao, por quanto contenta o laconismo, ou 
( historiadores que misturaram bem cartas 



810 HISTOBIA DA UTTERATUBA PORTUGUEZA 

sentenciosas e pratioas com os grandes feitos 
e determinaQdes de honra, para dar lastre és 
historias tanto de homens corno de mulheres, 
do que se pode tornar bastante, nSo b6 para 
persuadir na conversa^fio o que se deseja 
corno para dar com taes exemplos confian<^ 
e assim para se emprehender o que se pre- 
tende. Oradores egualmente, que com boss od- 
res rhetoricas quanto quizerem saber&o dar a 
entender e tratal-o com arte tal, que qnem o 
ouvisse nSo se causasse se fosse estense, nem 
se enfadasse nao sendo do seu gosto, tanta 
foi a forga da persuasSo e o sai que mistura- 
ram com as suas palavras em latim e em tos- 
cano, que é lingua para este effetto mais sa* 
borosa, os Triumphos de Petrarcha, as estan- 
cias e Asolanos de Bembo, e outros mil, que 
nào temos que enumerar, pois o sabem todos, 
sabendo-o mui poucos, pelo pouco que os 
usam. ^ 

O terceiro, e principal via para alcangar a 
boa conversaQSo é a determina^ao mui firme 
que se deve ter de n3o pensar, quem preten- 
der tel-a, nem dizer nem desejar cousa tìI, 
nem soez . . . Resumindo, a pessoa que pre- 
tende ter boa conversando e de arte, deveser 
no aspecto branda, nas palavras comedida, 



* Està referencia aos Triumphos de Petrarcha, ex- 
plica-nos o interesse que fez tentar a traducQào anonv- 
ma em portuguez do texto fragmentario attribuii > 
a Gamòes por Juromenha. Merecia con f eri r-se està y< - 
sào com a castelhana de 1553 ^en la mediday nume ì 
de ver 808 que tiene en el toscano, y con nueva glose • 
£' possivel que a impressa em Medina del Campo 
cilitasse a tentativa portugueza. 



CaMÒES, — BPOCA, VIDA E OBRA 311 

008 gestos grave, no discurso da conversaoio 
saborosa e fida, e de bom senso para dizer as 
ooQsas Gom sai e gosto de quem as ouQa, e 
affeìQoada a cousas grandes, e que tome de 
véras o exercicio das boas letras e maneiras, 
para que o que a conversar Ihe de credito 
oomo a pessoa habii e destra no que diz e 
pretonde; pois o decùrso da vida faz muito 
ao caso para isto . . . NSo se deve pensar que . 
lego em dois dias se alcanga o supradito. 
Amios requer, tempo e experiencia e occa- 
fioes, e n'esto intuito dar-se de véras & boa 
IìqSo, pois tem està differenza da conversammo 
viva, que n3o se acha n'ella senSo o bom que 
aquelies disseram, e n'esta outra ha m&os 
trechos ; por que se é continua causa, se gros- 
seira d& cuidado, se larga falta com que en- 
tretèl-a, se curta fica sempre metade por di- 
zer, principalmento se é com quem se gosta 
de tratar; e a outra toma-se quando se quer 
e deixase quando enfada, e faz-se d'ella um 
habito de soffrer, de entender, de esperar, 
de perseverar, pois seus fructos nao se co- 
Ihem 8en3o por estes melos . . . > ^ 

Depois d'esto quadro que nos relova a fina 
sodabilidade na córte frequentada pela joven 
Luisa Sigèa, apparece-nos um outro aspecto 
a que aUude Camdes, fallando no Àuto do 
Pilodemo de: <Huns almofagados, que com 
dois ceitis fendem a anca pelo melo, e se pre- 
Barn de brandos na conversa<;So, e de falla- 
r a pouco e sempre comsigo dizendo que nSo 



^ Publicada em originai castelhano com outras 
1 ìevue hiifpaniqtie, yiu anno, p. 280 a 284. 



CAXdBS — EPOCA, VIDA E OBBA 818 



da Vida, que sempre Ihe vem ft memoria mais 
do qae aos outros, e nSo Ihe ter auooedido o 
que desejayam, tira-lhes toda a esperan^a.» 
Luisa Sigda, que acabou em trìsteza a sua 
▼ida prematura, conhecia este problema mo- 
ra! pela oonvivenda com a excelsa Infanta 
D. Maria na sua sublime mudez oom que 
soube occultar annos de verdadeira tristeza. 
A bella conversaQSLo em que Luisa Sìgèa era 
esimia, pela opulencia de referencias dos es- 
criptores dassicos e reflex5es moraes, fazem- 
DOS comprehender essa chamada Academia 
da Senhora Infanta, em que se canta vam e to- 
cavam as numerosissimas melodias, que anda- 
Tarn em voga pela Europa. 

A presenta de Paula Vicente' e Angela Si- 
géa em casa da Infanta D. Maria denuncia o 
▼ITO interesse com que ahi se cultivava a mu- 
sica Tocal e instrumental. Os compositores do 
secalo XYi compunham GanQ5es para serem 
cantadas é viola d'arco ou rabeca, e os theo- 
rieos comò Luiz Milan, Francisco Salinas, 
Luiz Narvaes e Enrìque de Valderrabano, in- 
tercalavam nos seus livros os Cantares velhos 
qua serviam para expressSo das melodias ca- 
racteristicas. Cantavam a solas, ou comò di- 
ziam entSo os italianos Canzone ad una voce 
OQ monodias, em que espontaneamente se es- 
tava creando a fórma suprema da Aria. Do- 
minavam na*cdrte as duas influencias musi- 
eaes, a hespanhola e a franceza, que se pò- 
dem bem personificar a primeira em Paula 
Vicente, e a segunda em Angela Sigda. QU 
V'^^nte tinha empregado nos seus Autos nu- 
n rosissimas Can^des com melodias castelha- 
Di nadonaes e propriamente pessoaes ; mui- 



CAMOKS — BPOOA, VIDA E OBRA 315 

Aqui se accentuava jft a erudi^So, em que 

Srevalecia o estylo fugado sob a influencia 
a auctoridade dos Mestres flamengos. O 
gesto franeez destacava-se pelo estylo harmo- 
dìco simplesy com a simultaneidade de vozes ; 
▼fimos n'este tempo os moralistas austeros in- 
surgirem-se contra as musicas jttsquinas^ imi- 
tadas de Josquin des Près, corno se ve no 
Auto da Ave Maria de Antonio Prestes* Està 
corrente musical podemol-a representar na 
eMe pela influencia de Angela Sigda, em casa 
da Infanta, onde as Gangonetas francezas 
oram vìvas lembran^as de sua mSe. Diante 
doB textos da poesia de Gancioneiro, que 
apparece nas Redondilhas dos nossos qui- 
lÀentistas, e do conhecimento das musicas 
das Cannes, em parte reproduzidas pelos 
theoricos do seculo xyi ou impressas pelos 
Husicographos comò Barbieri e Pedrell, po- 
demos hoje caracterisar os tres estylos das 
Gan^s de corte, no tempo em que contri- 
buia Camoes com as suas Goplas e Voltas 
para tornar mais interessantes essas Melo- 
dias. Aeceitava-se o estylo Fugado, obede- 
oendo ao prestigio dos mestres flamengos, con- 
siderando as suas quadraturas com urna certa 
aerisdade ecclesiastica. A par d'està corrente 
oontrapontica, que ia encontrar na Egreja o 
Beu desenvolvimento, dominava na Gdrte o 
estylo expressivo da Gangao desenvolvendo a 
sua melodia caracteristica da tonalìdade po- 
pi ir, e ligando-a sempre fi palavra metrifi- 
ci 1 das Lettrilhas, Motes e Vilancetes, com 
qi OS compositores hespanhoes se adianta- 
n ao seu tempo, realisando o problema da 
al n^a indissoluvel entre a palavra e o 



r 

■ GAM5E8 — BPOOA, VIDA E OBRA 317 

modi e fez taes extremos gue^ chegando a no- 
meia d'Elrei D. Jodo III^ irtndo da Infanta^ 
m mandou prender no Limoeiro, onde esteve 
tempo que pareceu bastante para seu cas- 
tigo ; e a està prisdo e amores fez Luiz de 
(hmoes umas Voltas dquella Cantiga ve- 
Ika: Perdigào perdeu a pena, etc, que co- 
Becam : 

Perdigào, que o pensamento, etc.» ^ 

Lidas fi luz de t9o curiosa revela^fio do in- 
disereto linhagista, despertam estas Voltas 
nm interesse vivissimo, illuminando a vida 
de GamSas n'essa brevissima frequencia do 
pago. As Voltas alludem fi temeridade da pal- 
lio de Jorge da Silva, que tambem era poe- 
ta, e de quem restam versos mystioos : 

Perdigào, que o pensamento 
Subiu a um alto logar^ 
Perde a penna de voar, 
Qanha a pena do tormento. 
Nào tem no àr, nem no vento 
Azas com que se sustenha ; 
Nao ha mal que Ihe nào venha. 

Qui9 voar a urna alta torre. 
Mas achou-se desazado ; 
£ vendo-se depennado 
De puro penado morre. 
Se a queixumes se soccorre, 
LanQa no fogo mais lenka : 
Nao ha mal que Ihe nao venha. 

CObr., i. IT, 19.) 



Ap. Jur., 06r., t. iv, p. 452. 



r 



OAMO ES-^ EPOCA, VIDA E OBRA 319 

do santo, o Beato Àmadeo, em que se immor- 
talisou o namorado. ^ No Mote glosado por 
Gamoes, o nome Perdigào tem um intuito: a 
aDosao satirica ao Falcdo da Empreza do seu 
antepassado D. JoSo da Silva, com que pela 
divisa Ignoto Deo declarava fi princeza o seu 
amor. 

SSo numerosas e interessantes as intrigas 
amorosas na c6rte de D. Joao iii; mas este 
periodo de galanteria delicada e de poesia 
idealista vae apagar-se pelo mesmo sdpro ge- 
lido que mirrou a flora<;ao do humanismo da 
RenascenQa portugueza. 



* Le-se na Evora gloriosa, p. 236 e 422 : « Cha- 
mado antecedentemente D. Joào da Silva, foi filho de 
Rny Gomes da Silva, famoso Fronteiro de Geuta, e Àl- 
eaide-mor de Campo Mayor e Ouguella, e Senhor da 
CbamuBca e Ulme, e de D. Isabel de Menezes, filha 
do nesso 2.« Conde de Vianna e l.» de Villa Real, 
D. Fedro de Menezes, primeiro Governador de Ceuta. 
N'esta ddade nasceu D. Joào da Silva e sua irmà Dona 
Brìtes da Silya, conforme algumas noticìasi e conforme 
a ontros na de Evora, onde um e outro se educaram de- 
baixo da tutella de um tio Joào Gomes da Silva; . . .seu 
irmao, depois de se applicar às Letras humanas e 
àc[nellas artes dignas de seu nascimento, entrou a ser- 
vir no paQO do nosso rei D. Duarte, onde tendo muitas 
oecasioes de vèr a Infanta D. Leonor, se arrebatou 
tanto da sua rara formosura, que entre os limites do 
respeito devido a tao soberana pessòa, Ihe consagrou 
todas as suas venera^oes e pensaroentos ; o que expli- 
to" engenhosamente tomando por empreza um Falcào 
TI inte com as letras Ignoto Dea. Assim viveu algum 
te pò. D. Joao, contente com poder vèr e venerar 
» elle luzìdo sol, mas chegado o anno de 1449, ven- 
d ^ promettido ao Imperador Frederico m, e que se 
^ ntava para diverso horisonte, se contemplou cego 
® esperado ; mas sabendo que estava destinada para 



OAMdBS — BPOOA, VIDA B OBBA 321 

pairaya-Ihe a imaginaQio idealisando os feitos 
narrados nos- pulverulentos chronicons da 
bistoria portugueza ou representados em al- 
guns monumentos da arte nacional. Era o 
Canto heroico da Gente lusitana, o PregSo 
eterno, que se elaborava no audacioso pensa- 
mento. Os eruditos, referindo tantos feitos 
grandiosos, sentiam que elles nao tivessem 
ainda inspira do um novo Homero, que os n&o 
nniversalisasse um outro Virgilio. Os poetas 
da Renascen^a sentiam se mesquinhos diante 
d'estes supremos modelos. E ahi, nos Pa<K^s 
da Ribeìra, quando Gamdes se vìa mais esti- 
mnlado pelos quadros do Descobrimento da 
India representados nas colgaduras manoeli- 
naa, de repente o seu pensamento é offuscado 
pela fulguraQào de uma belleza feminina que 
Ihe empolga todos os sentimentos do seu sdr 
moral. Foi a psychose subita, que o tornou 
namorado, apaixonado, louco pela candura e 
seducQSo da mulher que ainda mal se destaca 
da crianQB, sem a consciencia do seu poder. 
Desde esse momento decisivo da sua vida, o 
mondo appareceu-lhe a uma outra luz, sob 
nm aspecto que até ali n3o vira, sentindo*se 
absorto em uma atmosphera de enoanto : 



Um nao sei que sua ve, respirando 
Causava um admiravel, novo espanto, 
Que as cousas insensi veis o sentiam. 



E' quasi oom terror que està fascina^So 
qne anima as cousas materiaes, o leva a con- 
aiderar o surprehendente reflezo em si pro- 
prio: 



'^ 



322 BISTORTA DA UTTBBATURA FORTUGUKZA 



Porqne, quando vi dar entendimento 
A'b cou8a8 que o nào tinbam, o temer 
Me fez cuidar que effeìto em mi farìa! 
Conheci-me nào ter conhecimento. 



Sob està emo^So perdendo a consciencia 
critica, abandona-se ao sentimento excluaiTO 
e absoluto : 

Assi, que indo perdendo o sentimento 

A parte racional, me entristecia 

Yél-a a um appetite submetida; 

Mas dentro n'alma o firn do pensamento 

Por tao sublime causa me dizia 

Que era rasao ser a rasào vencida. 

Oh grào concèrto este t 
Quem sera que nao julgue por celeste 
A causa d'onde vem tamanbo effetto ; 

Que faz n'um cora^ao 
Que venha o appetite a ser rasào? 



Na Ganc&o v retrata os tra^os physionoiDi- 
C08, as linhas sensuaes que acordando o de- 
sejo, elevam a mulher & adoragSo : 

OS olhos bellos, 

Verdes e graciosos, 
Debaixo de arcos negros e delgados ; 

Os ondados cabellos 

Loiros» longos, formosos, 
Agora ao vento soltos, ora atados. 

Os dentea, que cercados 

Estào de sangue e riso, 

As perlas imitando; 

A testa onde cegando 
A vista TRtà ; o carào delgado e liso, 

A cor, a gra^a, o siso, 
O segnro repouso honesto e brando, 

Que Deus na terra deu 
Para sinal de pax ao mundo seu. 

(Jar., Obr., t, 11, 510) 



1 




OAMÓES — EPOCA, "VIDA B OBHA 828 



O seu caracter transformou-se n'esta crise 
passionai, em quo outros poetas se afunda- 
ram, corno Bernardim Ribeiro e Garci San- 
chez de Badajoz ; declara-o na CangSo vili : 

Depois de en tregue jà ao meu desejo 
Ou quasi n'elle lodo convertido. 
Solitario, silvestre e inhumano. 
Tao contente fiquei de aer i>erdi(io, 
Que me parecc tudo quanto véjo 
Bxcusado. senào meu proprio dano. 
Bebendo esce sunve e doce engano, 
A trdco dos seiitidos que perdia, 

Vi que Amor me esculpia 
Dentro n'alma a figura illustre e bella, 

A gravidade, o siso, 
A mansidào, a gra^a, o doce riso. 

Na deslumbrante psyohoset aquella mu- 
Iher é unica no mundo» e sómente ella o lan- 
QOQ n'esse estado de amnesia ; na Oan^So xi, 
em que historfa todas as phases amarguradas 
d'este immenso amor, representa Camdes o 
rapido momento em que ficou tomado : 

O doce e piedoso 
Mover de olhop, que as almas suspendia, 
Foram as hervas magicaSi que o Gèo 
Me fez beber : as quaes por longos annos 
N'outro sér me tiveram transformado, 
E tao contente de me vèr trocado, 
Que as magoas enganava cx>'o8 enganos ; 



No preludio da Ecloga i, celebrando a 
1 Ite de D. Antonio de Noronha e do Prin- 
( )e D. Jo&o, escripta em 1554, desenha Ca- 
I es um quadro da cOrte de D. JoSo iii, que 
i I illuminara com os f ulgores do seu talento : 



i 824 H18TORIA DA LITTBRATURA PORTUGUBZA 



Eu vi jà d*este campo as varias flores 
A's estrellas do céo fazendo inveja ; 
Adornados andar vi os pastores 
De quanto por o mundo se deseja; 
E vi eoo campo competir nas córes 
Os trajes, de obra tanta e tao sobeja, 
Que se a rica materia Ihe faitava, 
A obra de mais rica sobejava. 

E vi perder seu pre^o às brancas rosas, 
E quasi escurecer-se o claro dia 
Diante de umas mostras perigosas, 
Que Venus mais que nunca engrandeda. 
As pastoras, etnfim, vi tao formosas. 
Que o Amor de si mesmo se temia ; 
Mas mais temia o pensamento faito 
De nào ser para ter temor tao alto. 

Gamoes recordava-se d'aquella constella- 
qSo de damas, que traziam fascinada urna 
pleiada de jovens fidalgos inspirados poetas, 
que formavam urna nova geragao de Fieis do 
Amor; eram D. Manuel de Portugal e Fedro 
de Andrade Camìnha, apaixonados por Dona 
Francisca de Aragao; Jorge da Silva, louco 
de admiraQao pela encantadora Infanta Dona 
Maria; D. SimSo da Silveira, sempre alque- 
brado pelos rigores de D. Guiomar Henri- 
ques, Joao Lopes Leitao procurando fallar &8 
damas comò a borboleta que se arroja para a 
luz, e embora mais tarde, obedece a està cor- 
rente de idealismo erotico o gentil D. Antonio 
de Noronha, bem perdido por D. Margarida da 
Silva. Eram estes os pastores adornados, 
que vira Gamoes n'aquelles Pagos da Ribeira, 
onde as damas faziam inveja às estrellas do 
céo, e onde viu tambem as mostras perigo- 
éas, que Ihe tiraram ao pensamento o temor 
tao alto, perigosas porque a que o ìnsplrrTa 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA B OBRA 825 



entrava apenas na adolescencia, e era dama 
da rainha, temerosa pela sua austeridade. 
Todas essas paìxoes foram mais ou menos 
transitorìas, mèramente galanteios ou sonhos 
desiiludidos ; semente Cam5es sentiu profun- 
damente, dominado por urna absorpQSo abso- 
luta. O Dr. Storck, estudando corno eximio 
traductor as poesias completas de GamOes, e 
oompenetrando-se das situa^oes da sua vida». 
ehegou & condusao fundamental : « Das poe^ 
sias de Cam&es resulta» que na sua vido, 
houve urna so paixdo forte, profundamente 
arreìgada, que Ibe proporcionou poucos e fu- 
gazes dias de felìcidade e longos annos de. 
tormentos. Ella acompanha e persegue ainda^ 
ezpatrìado, através de terras e mares, na 
miseria do desterro — perpetua saudade da, 
8na alma.» ^ Quem foi essa dama, em que se, 
ooncentrou a existencia affectiva do poeta, e 
de quem provieram todos os seus trabalhos ? 
Entré varios nomes poeticos de damas, 
apenas com expressao allegorica, apparece 
no8 Sonetos de Oamoes (n^ 70, 103, 147 e, 
163, na Ecloga xv e em um Acrostico em re- 
dondilhas) o nome de Natercia, anagramma 
perfetto de Caterina, ao qual se liga na Ecloga 
e no Acrostico d appeliido de Athayde. Reve- 
lado furtiva ou indiscretamente o nome da 
namorada Gatherina de Athayde, a que fami- 
lia pertencia ella, quando nas Moradias da 
^^rte e nas genealogias contemporaneas se 
< ^ntram quatro damas com este mesmo no* 



' Vida e Obraa, p. 828. ( Trad. Micha^lis.) 



326 HIBTORIA DA UTTERATURA PORTUGUBZA 



Eis um problema, quo nos amores de Ga- 
moes é semelhante ao que os eruditos italia- 
nos investigam na vida de Tasso sob o titulo 
de systema dog amores. Os biographos de Ca- 
mSes seguem os mesmos processos para de- 
terminareni quem fora a inspìradora dos seos 
versos ardentes e realistas. Entre as apaixo- 
nadas referencias dos versos de Tasso fis da- 
mas qae elle cortejava na córte de Ferrara, 
destacam-se tres Eleonoras, cuja belleza idea- 
lisou na synthese esthetica de Armida e de 
Herminia: eram Leonora San Vitale, e a prin- 
ceza Eleonora d'Este na fulguragao dos seos 
trinta annos; eram Lucrezia Bandidjio e Lu- 
crezia d^Este, casada com o Duque de Urbi- 
no. D*entre esse c6ro de gentileza que o in- 
spirava na córte de Ferrara, qual foi a mulher 
que Ihe domiqou todas as emoQoes? Foram 
as princezas? e qual d'ellas, a casada, Lucre- 
zia, ou a solteira Eleonora? 

Eis o systema dos amores^ que os eruditos 
tassistas resolvem com argumentos exegetì- 

COS. 

Dà- se com Camdes o mesmo trabalho de 
exegese, para determinar quem fosse a na- 
morada do poeta; e esse problema jà existia 
antes de Camdes voltar de Ceuta, em 1550, 
por isso que Frei Joao do Rosario perguntava 
por vezes à sua confessada D. CatheriDa de 
Athayde, filha de Alvaro de Sousa, se fora o 
Poeta deslerrado por ssa rasdo, A respos 
que ella dava ao seu director espiritual e 
sempre negativa, — que assim ndo era. Ef 
dama casara do pago com Ruy Pereira 
Miranda Borges; e uma outra dama da i 
nba, que tinha egual nome, era muito mo^ 



r 



CAM dBB — BPOOA, VIDA E OBRA 327 

drcumstancia que levava a procurar outros 
homonymos. Nao admira que o problema 
chegasse ao seculo xvii indefinido, compli- 
eando-se na tradÌQao pelo syncretismo das ho> 
monymias. Nas Lembrangas de Diogo de 
Paiva de Andrade, filho do chronista e 
Guarda mór da Torre do Tombo Francisco 
de Andrade, que pretenda é, phalange poe- 
tica de Caminha, Diogo Bernardes e Jeronymo. 
Corte Real, colligiu esse erudito vagas tradi- 
sse da córte em rela<;ào aos amores de Ca- 
mSeSt que por outras ignoradas vias appare- 
eem mais tarde em Farla e Sousa. N'essas 
poaeas linhas das Lembran(}a8, ^ em que j& 
se systematisam os amores do poeta, pelos 
qnaes o dà quatro vezes d^sterrado^ vem o 
nome da dama desligado de toda a elucida- 
lo genealogica : < Luiz de Camoes, poeta 
bem conhecido, . . . namorou Catharina de 
Athayde. . . A està senhora dedicou muitas 
das suas obras, e ainda que com differentes 
nomee é a mesma de que falla repetidas ve- 

188.» 

Na sua inconsciencia de compilador, o seis- 
oentista Paiva de Andrade, cfie logo no syncre- 
tismo tradicional de D. Catherina de Athayde, 
filha de Alvaro de Sousa : < Foi dama da rai- 
nha D. Catherina, e continuando os amores 
oom boa correspondencia, mudou ella de ob- 
jeelo para os agradoa^ de que Camoes se 
qr-^ixa em suas composigoes.» Como estas 
L fibrangas permaneceram manuscriptas e 



Publicadas por Camillo em 1880, no opusculo 
Ia de Camòes — Notas biographicas, p. 14 e 15. 



828 H18TOBIA DA LITTBBATUBA PORTUGUEZA 



iffnoradas, o appellido de Athayde ohegou a 
ncar esquecido. 

O nome da amada do Poeta, ao qual em 
anagramma de Natercia allude quatro veses 
noe Sonetos lxx, chi, gxlyii e glxiii, continaoii 
ignorado por muito tempo, até fi desooberta 
da Egloga xv. JoSo Finto Ribeiro referin^ee 
a um nome genealogicamente errado ; escreve 
Farla e Sousa: « el Licenciado Juan Finto Ri- 
beiro entiende que ella se llamava Dona Co- 
Urina de Almada su prima, é qi;e la cele- 
brava con el nome de Natercia, cifra del de 
Caterina, comò parece del Soneto 70.» Accet- 
tando a indicaQ9o de sua prima, appareoe- 
nos uma D. Catherina de Athayde septìma 
filha de D. Francisco da Game, estribeiro-mór 
de D. Jo9o III, e de D. Guiomar de Vilhena, 
filha do Conde de Vimioso; foi segunda ma- 
Iher de D. Fedro de Noronha, senhor de Villa 
Verde. * 

E' naturai que o poeta Ihe dirìgisse algum 
galanteio poetico, corno era usuai na córte, e 
que fosse repellido comò um primo pobre. 
Em umas Redondilhas, glosou Gamdes eate: 

* Mote 

No monte de Amor andai, 
Por Ber monteiro de fama, 
Sem tornar gamo nem gama. 

Volta 

Achei-me tao elevado 
N'este monte a montear, 



^ Nobiliario Ms. de D. Antonio de Lima. fi. f t 
Pedatura lusitana, fi. 261 ». (Bibl. do Porto, Ms. 4 ..) 



CAMdBB — BPQCA, VIDA B OBBA 829 



Que donde cnidei ca^ar 
Ku mesmo fiquei caQado. 
CaQador desesperado, 
Sahi de urna e outra rama, 
Sem tornar gamo nem gama, 

Levava por meus monteiros, 
K'esta caga de tormentos, 
Os mena aia, que comò vento» 
lam diante lìgeiros. 
Una tao tristes companheiros 
Levei, corno quem ama, 
Ppr descobrir està gama. 

A roupa de montear 
Que n'este dia levava, 
Era o mal que me pesava, 
A cometa o suspirar. 
Ja nao podìa cessar 
Como touro quando brama, 
So por buscar està gama, 

Os càes eram meus tormentos 
Gbeios de multa agonia, 
O furào minha porfia, 
As rédes meus pensamentos. 
Nem me valeu tornar ventos, 
Nem penetrar pela rama, 
Para descobrir tal gama. 

fObr., t. IV, p. n7.) 

Ha evidentemente urna inten<;3o de galan- 
teio n'esta palavra gama, que se relaciona 
com a tradigSo de urna sua prima. Os des- 
dens da orgulhosa familia do almirante noa 
explicarao o resentimento profondo de Ca- 
-^Ses, que Ihe escapou n'esta estrophe xcix 
y canto quinto dos Lìisiadas : 

A's Musas agradcQa o nosao Oama 
O multo amor da Patria, que as obriga 
A dar aos seta na Lyra nome e fama 
Pe toda a illustre e bellica fadiga ; 



que seria I). Caikerina de Alhayde umf filha de D. An- 
tonio de Athayde, primeiro Conde da Castaaheira, o 
conaellieiru mais favorito de D. Joao ili, que abaasTi 
do seu valimento pela prepntencia. D'aqui logicamente 
deduzìa oa deslerros do poeta da córte e as persettoi- 
flòes que o envolveram. Havìa aqui o syncretismo tra- 
dicional do odio don Athaydes coiitra Bernardini 
beiro e Sa de Miranda : • Eis por que os bioRraphos 
Camòes se obstinaram era fazer da dama ilo poeta ui 
filha do favorito . . . • Iato observa D. Carolina Michi 
1Ì8, ( Vida, p, 339) notando que dae seis filhas do Con 
da Castanheira nenbuma teve o nome de Catheri. 



l 



GAMdSS — EPOCA, VIDA B OBRA 831 



Duito tarde, no decurso das suas exploraQ5es 
por miscellaneas poeticas, encontrou em fórma 
de Acrostico umas redondilhas sobre os no* 
mds Luis — Caterina de Ataide; nSo chegou 
ft aproyeitar-se d'èllas na edigao do testo ca- 
noneano. Golligiu-as Juromenha nos manu- 
leriptOB de Faria e Sousa; transcrevemol-as 
taai, por que o Dr. Storck as considera urna 
falsificaoSo do commentador, de todo inadmis- 
iìtsI: 

Moti 

t^ urne d'està vìda, 

< eja-me esse lume, 

ch é que se presume, 

co em o vèr, perdida. 

Volta 

Q oncedei luz tal 

> quem vós cegastea ; 
H oda me tìrastes, 

C^ essa so me vai ; 
90 asao he, querida, 
^ a vìr do alto cume, 
^ orte de tal lume 

> alma perdida 

O esatando hide 

M sta iréva escara, 

^ urora, onde pura 

Hj oda luz reside : 

> y, que atada a vida 
C-I a Cora esse lume, 

O eìxa o seu queixume, 
i H stima-se perdida. 

1 eia fórma em redpndiiha de arte menor, 
Yì e que foi uma improvisagao de momento, 
ni Arte, directamente passada & inspiradora, 



/ 



332 H18TORIA DA LlTTBBATURA PORTUGUBZA 

quando a paìxSo era jà confessada. Tem o 
estylo da galanteria d'essa epoca e a expres* 
sSo da verdade sentida. Mas, rigorosamentoi 
quem lésse as redondilhas em Acrostico nio 
fioava sabendo quem era essa Caterina de 
Athaide, se a de Sousa, se a da Gastanheira, 
se a da 6ama ou ainda a de Lima. ^ 

Desde a descoberta da Ecloga xv de Ga- 
m5es, a morte de D. Catherina de Athaidùn 
Dama da Eainha, fixou Farla e Sousa o 
nome da namorada do poeta comò filha de 
D. Antonio de Lima, da qual memora o No- 
biliario manuscripto do seculo xvi, por outro 
D. Antonio de Lima : «D. Gatherina ni 
Athatde, que sendo Dama da dita Bainha^ 
morreu no Pago moga.i^ ' Mais tarde pela pa- 



^ O Dr. Storck affìrma, que sào urna «linda de§- 
eoberta calculada para documentar os amores de Liso 
e Natercia, ou Luise Caterina.* E accrescenta: «infifo 
que so muito tarde, depois de concluidoo Gonunentarìo 
dos Sonetos — Ihe veiu a ìdeia luminosa de forjar o 
Acrostico.» (Vida^ p. 388). Para que servia a Farite 
Sousa essa simulagao litteraria, se o Acrostico nào com- 
provava o seu intuito, que era determinar em D. Ca- 
therina de Athayde, filha de D. Antonio de Lima^ a na- 
morada do poeta ? E uma vez no absurdo, Storck caminha 
para outro, considerando essas deliciosas e expressi- 
vas redondilhas «uma versalbada insignificante» nao 
Bendo «provavel que o poeta desvendasse o mjsterìo 
que encobria os seus castos amores.» O mysterìo pre- 
valecia, por isso que eram varias as damas d'este nome, 
e o Acrostico era uma fórma frequente dos galanteios 
da corte. 

^ Importa destacar o linhagista do seu homony- 
mOy pae da namorada do poeta; tinha elle o appelliao 
de Pereira, sendo filho de Diogo Lopes de Lima, ae- 
nhor de Castro Daire, aloaide-mÓr de Guimaraes e co- 
peiro-mór de D. Joào in. 



GAMÒBS — EPOCA, VIDA B OBRA 833 

i^ » ■ I II 

blica^o das Poesias de Pero de Andrade Ga- 
minha, em 1791, pela Academia real das Scien- 
das, ahi appareceu o Epitaphìo xxii: A* Se- 
nhora D. Oatherinà de Ataide, filha de 
D. Antonio de Lima, Dama da Rainha. Ga- 
minha tìnha motivos para sensibilisarse por 
Mte falecimento prematuro, porque D. Àn> 
tonfo de Lima era Gamareiro-mór do Infante 
D. Duarte, em cuja casa servia corno cama- 
rdro menor Andrade Gaminha. ^ 



* Diante d'estes factos irrefragavei8, surgiu o pro- 
blema de 8er a natnorada do Poeta D. Catherina de 
Atkaid€f filha de Alvaro de Sousa e de D. Philìppa de 
Atbayde. Em carta de 2 de Agosto de 1852, dirigiu 
Beato José Rodrigues Xavier de Magalhàes a Alexan- 
dre Hercnlano, nm excerpto dos Papeis de Fr. Joào do 
Rosario relativo ao Convento dos Dominicos de Aveìro, 
em qae se encontravam estas linhas referentes a dama 
aUndida : 

^E todalas vezes qtie no Poeta desterrado por ssa 
rasào Ihe falava, sempre em reaposta havia que assim 
nao erUf e que fera aqnella alma grande, que para 
emprezcu grandes^ e a regioens tao apartadas o leva- 
ta,* 

Herculano entregou a carta ao Visconde de Juro- 
meoha, que acceitoù sem mais prova a negativa de 
D. Catherina de Atbayde (de Sousa). No Alroanack de 
Lembran^as para 1855, p. 330, saiu a noticia: « Na 
eapella-mór do convento de Dominicos d'està cidade 
(Aveiro) està collocado do lado do Evangelho um tu- 
malo singelo e hoje arrninado, que se julga ser de 
D, Catherina de Athayé^e, decantada debaizo do nome 
de Nathercia nos versos do immortai Camoes,* E 
trtnscreve a inscrip^ào do tumulo : 

» Aqui jaz D. Catharina d'Athaide, filha d'Alvaro 
de Sousa e de Dona Filippa d'Athaide, e por ser devota 
d'està casa Ihe deixou vinte mil reis de j uro; tem por 
Isso missa quotidiana, e Ihe deram està capella a ella e 
a I }Q pae e mais herdeiros descendentes. Faleceu a 28 
de ^etembro da 1551.= 



^ 



884 HI8TOBIA DA UTTBRATUBA POBTUOITBZA 



TranscrevemoB do Nobiliario de D. Anto 
nio de Lima, manuscripto genealogico de 
seculo XYi, a noticia da familia de D. Catb» 
rina de Athayde: 

<D. Antonio de Lima, filho primogenita 
d'este D. Diogo de Lima, foi Mordomo-mdr 
do Infante D. Duarte, filho de eirei D. Ma- 
noel, e depoia foi Camareiro mór do snr. In- 
fante D. Duarte, Condestabre e Duque de 
Guimaraens, seu filho, e foi commendador de 



Camillo Castello Branco, nas Notas biographàcoB 
de Camoes, teceu urna historìa romanesca para mos- 
trar que està D. Catberina de Àthayde, que casca com 
Ruy Borges Pereira de Miranda, fora a namorada do 
poeta : « Apossado iniquamente dos senborios de Gaf' 
valhaes, libavo e Yerdemilbo, Ruy Borges, filho dt 
Antonia de Berredo, affeigoou-se a D. Catberina d« 
Atbavde, filba de Alvaro de Sousa, Veador da Casa da 
Rainha, senbor de Eixo e Requeixo, nas visinban^ 
de Aveiro. D. Catberina era pobre, corno filba 8e> 
gunda ; seu irmào André de Sousa era simples derigo, 
prior de Requeixo; o senbor da casa era o primog^ 
nito Diogo Lopes de Sousa. 

< D. Catberina acceitara o galanteio do poeta ìaòl 
Vaz de Camoes, talvez antes de ser reqnestada por 
Borges de Miranda. O senbor de Ubavo, rivalisado 
pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirìto di 
dama da rainba. Seria um estupido consciente; qael- 
zou-se talvez à mae, ...mas é naturai que a mie dd 
Ruy Borges recorresse directamente ao rei solidtaado 
o desterro do perigoso èmulo de seu filbo. Asaim póda 
motivar-se o primeiro desterro de Camoes para Ioii|?b 
da corte ; e o segundo para Africa em castigo da t^ 
mosia d'elle e das vaoilla^es de Catberina de Athaydfi 
na acceita^ao do opulento Ruy Borges. . . 

«Safu Camoes para a Africa em 1547, e là se d** 
teve proximamente dois annos. Quando regressoo, a 
dama da rainba era jé casada com Ruy Borges e vivit 
na casa do esposo convisinba de Aveiro, entregne ao 
ascetismo sob a direc^ào de f rei Joao do Rosario, ^ide 



ì 



OAMOES — EPOCA, VIDA B OBRA 335 



Gucujies, da Ordem de Ghristo. Foi casado 
eom D. Maria Bocca Negra, dama dà Rainha 
D. Catherina, mulher de eirei D. JoSo iii, qua 
com ella veiu de Castella, (e filha de Fran- 
cisco Velasques de Aguilar, trinchante do 
princepe D. JoSo, pae de el-rei D. SebastiSo, 
e marido de D. Cecilia de Mello, Camareira 
pequena e Guarda-roupa da dita Rainha ;) de 
quem houve: 

D. Diogo de Lima ; 



dominicano.* Gain ilio serve-se do Soneto colxxiv, para, 
provar que se referia a està deslealdade da dama : 

Mas eu de vossos males a esqaivanQa 
De qne agora me vejo bem vmgado, 
Nao a qaizera tanto a vossa casta. 

«Semelhante Soneto dìrigìdo 6 outra D. Catherina 
de Atbavde, dama do pago oue morreu solteira, nào 
tem explicagao. Glaro e que Luiz de Gamoes allude à 
moiher que o vinga padecendo as magoas resultantes 
de urna allian^ em que elle foi ingratamente sacrifi- 
cado.» E para fortificar a sua hypothese accresoenta o 
eonflicto com Gonzalo Borges : 

« O poeta grangeara inimijBros na córte. Deviam ser 
08 Berredos e os parentes de Ruy Borges de Miranda. 
Entre os mais proximos d'este havia u/n seu irm&o 
bastardo, Gonzalo Borges, creado do pago, a cargo de 
quem corria a fiscalisagào dos arreios da oasa.real.» 
(p. 18 a 26.) Estava bem engendrada a hypothese so- 
bre o Soneto e o eonflicto na procissSo de Gorpus em 
1552; mas as datas sao implacaveis, derruindo as 
mais plausiveis phantasias. 

José do Ganto refutou a opiniao de Gamillo comple- 
tamente: «A està aéria presumpglo se oppde um do- 
eamento existente na Torre do Tombo, no respectivo 
Htto das Moradias da Gasa da Rainha — que fixa o 
eaiamento de CcUaryna d atayde f.* d'alv.^ de sousa, 
- ^wamio de 1548. 



836 HI8TORIA DA UTTIRATOBA POB 

D. Duarte de Lima, (morrei 
Cbaul.) 

D. Francisco de Lima, (Chai 
e bom letrado.) 

D. Jo3o (morreu em Ghaul. 
D. Luiz de Athayde) * 

Dona Catherina de Athai 
Dama da dita Rainha, morreu i 

D. Cecilia, freira no MoBteiro 

D. Joanna de Lima, que ca: 
tim Affonso de Miranda, Cam: 
Cardeal Infante D. Henrique. 

D. Isabel de Lima, que foi 
Vista.» ' 



< A' margem do aeaentamento d'esi 
— Em almeirim a vii de dei.'" de 15 
dona cateruna pera tirar sai cosar 
eerto ser casada pera fazenda del R< 
por tanto foy rigcada a guai certidà 
aotaa pareli a. - 

Diante d'estes factos poaitivos, toi 
Tel a hypothesfì dns seuH amores com 
que em 1542 frequentava ainda os e 
bra, e quando regressou a Lisboa em 
rina de Athayde (de Suusa) eetava ■ 
Borges vivendo proximo de Aveiro. 
ttt'ann, pag. 75); inào ae podem oonfu 
rea) com ob da verd^ideira Natercia, qi 
« probabilidade e as allusòes do prof 
OS primeiro», e comec^ram cèrea do i\ 
Natercia nào fora muito outra, corno t 
sivel para os subsequentes degredos 
KB aaudoBBs Cangóes que passados mi 
alnda Camdes dlrigia do Oriente i àt 
se apoderara de todos oa aeus affecb 
gava sempre viva?> 

' Couto, Decada vili, cap, 22, 3S 

■ Ha. da Bibliotheoa do Porto, n 
Eate Nobiliarlo manuscripto existe na 
e na Blbliotbeca naoionol. 



GAMÒBS, — EPOCA, YIOA E OBRA 337 

Yd-se por este excerpta genealogico que a 
Camilia era numerosa, vivendo de empregos 
do paQO. D. Maria Bocca Negra veiu no se- 
qoito da Rainha D. Catherina para Portugal 
ma 1525. Na Chronica de D. Francesiilo de 
Zufiiga, bobo officiai de Carlos v, ao descre- 
ver a jornada da rainha D. Catherina para 
Portugal, vem a seguiste anedocta ficerca de 
D. Maria Bocca Negra: «Don Fedro d'Avila 
Devaba una bestia menor, que en romance se 
dice asno, y llevaba una moza de camara que 
te Uamaba Boca Negra, y el requiebro que 
le decia era : 

N'hora mala os conoci, 

puea por Boca- Negra me perdi. 

(Gap. xLin.) 

Està dama, que a rainha muito estimava, 
casou em 1628 com D. Antonio de Lima, 
tambem empregado da famiiia real, e digna- 
tarlo; nasceram d'este consorcio quatro rapa- 
sse e quatro meninae, assim agrupados pelo 
Unhagìsta, mas com certeza naturalmente en- 
tremeados. Muito proximo da verdade anda- 
remos collocando o nascimento de Catherina 
de Athayde em 1531, porque falecendo mÓQa 
em 1526 ainda nao completara a maioridade 
ou OS seus vinte e ciuco annos. A sahida de 
Catherina de Athayde (de Sousa) pelo seu 
easamento em 1643, dera lo^ar para a no- 
meagao de uma outra dama da Rainha ; n'esse 
auio D. Catherina de Athayde (de Lima) 
eompletava doze annos. e a Rainha que 
bem conhecia a necessidade de D. Maria 
Bc a-Negra, (confessa-o no seu testamento) 
ao eou-lbe a filha para o cargo de sua da- 



838 H18TORIA DA UTTBRATURA PORTUGUBZA 



ma, que j& se tornava conhecida pela eatre- 
mada formosura. Camoes vìu-a antes de eUa 
pertencer ao pa^o; assim se deduz da tradì- 
qSo conservada nas Lembrangas de Paiva de 
Andrade: <iFoi depois dama da Rainha 
D. Calherina, e continuando os amores eom 
boa correspondencia ...» Fixada a entrada 
de Camoes na corte em 1544, corno se infera 
de factos inilludiveis, a paixào amorosa ir- 
rompe manifestamente confessada lo^o em 
1544. Eo^a data é verificada pelo Dr. Storck, 
interpretando a estrophe 2.' da Can^o yn: 

No Tauro entrava Phebo, e Progne vinha, 
O corno de Acheloo Flora entomava^ 

Quando o Amor soltava 
Os fios de ouro, as trangas encrespadas 

Ào doce vento esquivas, 
Os olhos rutilando chammas vivas 
E as rosas entre a neve semeadas 

Co' riso tao galante, 
Que um peito desfizera de diamante. 

Este processo metaphorico de datar o 
acontecimento foi empregado por Camoes noa 
Lusiadas, para fixar chronologicamente o 
domingo de Paschoa de 1498, em 15 de 
Abrii : 



Era no tempo alepre quando entrava 

No roubador de Europa a luz phebéa^ 

Quando um e outro corno llie aquentava 

E Flora derramava o de Amaltliéa: 

A memoria do dia ronovava 

O pressuroso b(ì1 que o céo rodèa, 

Km que Aquelle, a queni tudo e>tà sujeito, 

O séio poz a quanto tinha feito. 

(Cant. n, st. 72.) 



CAMÒES — EPOOA, VIDA B OBRA 839 



Vd-se portante que ha um sentìdo chrono- 
logico na estancia 2.' da Cangao vii, e o Dr. 
Storck precisou o nitidamente pelo Calendario 
universal de Kesselmeyer, que a sexta-feira 
da Paixao, ^ a que se refere o Soneto, cahira 
em 11 de Abril de 1544: co que tudó cor- 
responde melhor Ss indicagdes metaphoricas 

?ue temos examinado.» (Vida, p. 227.) Na 
lanoso vili, que é urna remodela^ao da vii, 
refere Camoes està crise passionai : 



En vivia do cego Amor isento, 
Porém tao inclinado a viver preso, 
Que me dava desgosto a liberdade. 
Um naturai desejo tinha acceso 
De algum ditoso e doce pensamento 
Que me illustrasse a insana mocidade. 
Tornava do anno jd a primeira edade; 
A revestida terra se alegrava. 

Quando o Amor me mostrava 
Os fios de ouro, as tran^as desatadas 

Ao doce vento estivo ; 
Os olhos rutilando lume vivo, 
As ro.^as entre a neve semeadas ; 

O gesto grave e ledo, 
Que junios move em mi des^o e medo. 



O locai em que sentirà esse abaio moral, 
foi por Paiva de Andrade e Manoel de Farla 
e Sousa determinado na egreja das Ohagas, 
por uma tradigào que serviu para interpretar 
Soneto cxxiii, que comega : 



* Paiva de Andade interpreta em 19 cu 20 de 
Abril de 1542; e Faria e Sousa em 7 de Abril do 
mesmo anno, sendo a quasi concorda ncìa dos dois seis- 
cei ìstas proveniente da mesma tradigào. 



340 HlSrORlA DA JUTTEBATtTfiA PORTUGOEZA 



A chaga, que, Senhora, me fizestes, 
Nào foi para curar-se n'unì so dia; 
Por qiift crescendo vae em tal porfìa, 
Que bein descobre o intento que tivestes. 

Chronologica mente, vé-se que o facto é 
inadmissivel; mas deve procurar-se o residuo 
ile verdade que se encerra em toda a tradigio 
inconscientemente transmittida. 

Nas Lembrangas ioeditas de Diogo de 
Paiva de Àndrade, sobrinho do celebrado 
orador, vém algumas linhas tradicionaes e 
biogr«phÌGaH «obre Camdes, anteriores aos 
trabalhos de Paria e Sousa; encontramse em 
dados pontos os dois escriptores, que se nao 
conheceram, signal que hauriram na mesma 
tradig&o. Ahi Paiva de Andrade, citando an- 
tes de Paria e Sousa o nome de Catharina 
de Athayde, declara : cprincipìou a inclinagSo 
em 19, ou 20 de Abril do anno de 1542, em 
Seztafeira da Semana santa, indo ella a 
Egreja das Chagas em Lisboa, onde o poeta 
se achava.T^ Iato repete Paria e Sousa; pura 
lenda, que as datas historicas dissolvem. Em 
1642 é que Prei Diogo de Lisboa instituiu a 
Irmandade das Chagas de Christo, composta 
dos homens que versavam a carreira da In- 
dia, tendo a sua sède no Convento da SS. 
Trindade. Dissidencias entre a Irmandade e 
OS Prades, fizeram que erigissem urna egreja 
propria, obtendo a permissào do papa Paulo in, 
que Ihe concedeu a cathegoria de paro- 
chia. A Egreja das Chagas foi erecta eoi > 
as parochias de Santa Oatherina e dos Mi 
tyres, no alto sobranceiro ao Tejo, sendo i 
grada em 80 de Novembro de 1552, transl 
rìndo-se para alli a Irmandade em 1553, * 



I 

i 



CAMdSS — EPOCA, VIDA E OBRA 841 

anno em que Cam5es partiu para a India. 
Sem dependencia do prelado diocesano, a 
Gapellania das Chagas ^administrava sacra- 
mentos aos homens do mar e navegantes da 
Indiaj e ao entrarem as Nàos da India, re- 
picavam os sìnos da Egreja das Chagas, por 
que eram da Innandade os homens qae ma- 
reiam e governam as Ndos que vem da In- 
dia.* ^ So 88 pode tornar verdadeira a lenda» 
considerando que na traslada^ào da Irman- 
dade das Chagas para a sua Egreja em 1553» 
CamSes antes de partir para a India assistira 
a essa festa a que concorreu a córte, e entSo 
veria pela ultima vez Catherina de Athayde 
no séquito da Rainha. Com as prerogati vas 
deParocbia ahi se poderia celebrar as Chagas 
antes da Sexta feira da PaixSo, realità» ndo-se 
a partida da Armada no domingo de Kamos, 
eoi 26 de MarQO. 

Da interpretaQao chronologica da CangSo 
TU concine o Dr. Storck, fi luz de um quadro 
mais exacto da epoca da vida de Camoes na 
e6rte : < Bastarfi assentarmos corno certo que 
08 amores de Luiz Vaz comegaram na prima- 
vera de 1544, na temporada paschoal, e que 
nm anno mais tarde, na primavera de 1545, 
prìncipìaram as tristezas, os desconsolos, os 
revézes e os perigos causados pela mfi von- 
tade dos mexeriqueiros e intrigantes palacia- 
no8.> * Confirmam-nos estas datas o facto 
p (Tchologìco de comegarem os amores tendo 



' Carlos Testa, Ariigos disperaoa: A Egreja da$ 
C ^aSy p 85 a 46. 

^ Vida e Obras, p. 328. 



842 BI8TOR1A DA LITTERATURA PORTUGDBZA 



Gatherina de Athayde os seus treze annos, 
achando-se na intensidade em que se denun- 
ciaram dog quatorze para os quinze annos. 
Essa tenra edade é sempre accentuada nos 
versos do poeta. 

Na Egloga a morte de D. Catherina de 
Athayde^ se encarece o £acto da sua morte 
prematura : 

» 

Como nao te applacou tao lenita edade 
Ao corta r de seu fio. oh Parca dura, 
Que agora o mundo matas de saudade? 

No texto do Cancioneiro de Luiz Franco, 
em tercetos que se nao encontram na lÌ4}io 
de Feria e Sousa, insiste o poeta na circum- 
stancia da juventude da namorada: 

Quetn cuidara que huns tao ienros annos 
E urna tal claridade, que excedia 
' Quanto podem cuidar peitos hunianos: 

E aquelle olbar brando, que fazia 
Ao mesmo Amor guerra livrernente 
Podesse perecer eni algum dia ! 



Ah morte! morte dura e fera ! 
Como nao te movia urna beldade, 
Que até as duraa pedras commovera l 

Como nao te moveu unta tenra eda>de, 
Como nao te moveu a sorte dura 
Dos que agora sentem sua saudade. 

No incompara vel Soneto & morte de N • 
torcia, sob a impressao abrupta da notic \ 
recebida em Goa, Camdes para accentuar i 
magoa sem remedio de perdel-a, insiste \ 
circumstancia de ter falecido: 



i 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 343 



Tao cedo, d'està vlda descontente. . . 
Roga a Deus, qae teus annos eneurtou, 
Qae tao cedo de cà me leve a vér-te, 
Qudo cedo de lueus olhos te levou. 

(Sonelo XIX.) 

E' certo, que està circumstancìa da tenra 
edade^ tenros annos, a fatalidade que tao 
cedo Ihe encurtou os annos, e a observagio 
do Hnhagista, morreu no Puqo moqa, discri- 
ttìna peremptoriamente as duas damas da Rai- 
nha, Ulna que morreu nova e casada em sua casa 
em 1551, e outra que morreu no Pago moQa, 
quando o poeta jà se achava ha via tres an- 
nos na India, cujo passamente consagra. ^ 
Mas acima d'este resultado historico, ha o 
tMìo psychologieo capitalìssimo, que nos re- 
vela o caracter que toroou essa paixao amo- 
rosa por uma crìanQa bella, descuidada, que 
sentia acordar-se-lhe na alma o primeiro im- 
pulso affectivo deslumbrada pelo genio pri- 
macial que ella via admirado por todas as 
outras damas da córte. Esse galanteio com 
que a crianga brìncai fazendo soffrer o poeta, 
torna- se jà na mulher surprehendente de bel- 
kza uma paixao absoluta» irrefreavel, que & 
prìmeira decepQfio a leverà até & morte. Nos 



* Escreveu o Dr. Joào Teixeira Soares : A iden- 
ddade de D. Catherìna de Athayde diecu te-se princi- 
l^lmente coni rela^ao a duas senhoras : a filha de Ai- 
Taro de Scusa, de Aveiro, morta n'aquella cìdade em 
Ferereiro de 1551, dois annos antes da sahida de Ca- 
mòes para a India e jà casada com Ruy Pereira Bor- 
ges, e a filha de D. Antonio de Lima, morta em 1556, 
)&to é, tres annos depois d*aquella sahida.» Coiisas Ca- 
fnonianas. fNa Epoca, n." 3a. Ponta Delgada, 19-yiii 

isr ) 



344 HIBTORIA DA UTTBRATORA PORTUGUIZA 

Sonetos de Camoes é que patentemente m 
destacam estas phases do seu amor, oonfun 
didos pelos compiladores que os foram puUi- 
cando; e sómente pelo processo psychologieo 
se descobrem todas essas pbaees paasio- 
naes, que se tornam um drama intensamente 
doloroso. O criterio psychologieo so moderna* 
mente foi comprehendido, e d'elle depende 
urna nova luz na historia. 

O estudo da obra de Camoes, para aer 
bem comprehendida, impoe o conhecimento 
da sua vìda ; mas tendo passado urna exi* 
stenda desapercebida para os seus contempo* 
raneos, poucos factos chegaram a nós os vin* 
douros, sondo necessario muitas vezes peUs 
referencias autobiographicas nas suas obraa 
reconstruir o quadro da sua vida. Qual o 
processo critico para reconhecer essa physio- 
nomia moral do Poeta, sem divagaQoes phan- 
tasistas, mas com seguranQa e verdade nas 
deducQoes, que se tornem inferencias hiatori* 
oas? Pelo processo psychologieo, illuminando 
a biograpbia sobre o fundo tambem reoon* 
struido e melhor conhecido do meio social os 
da sua epoca. Maudsley, na Physiologia do 
Espirito, insiste no alcance psychologieo das 
biographias : « Todo o homem destinado a 
I urna actividade qualquer, e os seus acu>8 re- 

I sultando evidentemente das suas relaQoes com 

I as circumstancias, é clero que a biograpbia. 

que collocar simultaneamente em linha de 
I conta o individuo e as circumstancias, beffi 

I corno a sua acQSo e reacgOes reciprooas. po- 

dere so assim patentear o homem de una 
maneira adequada. — Qual foi a forge de ca* 
racter de tal homem? qual foi a das ciroum* 



GAMdEB — EPOCA, VIDA E OBRA 345 

stanoias? Ck>mo é que elle as combateu? ou 
eomo é que foi affectado por ellas? — O que 
resultou d'està lucta, attendendo às condigSes 
particulares da evoluQSo do individuo ? — SSo 
eatas as questdes a que urna boa biograpbia 
deve procurar responder. Ella considera os 
homens comò séres concretos; toma nota, se 
quer cumprir conscientemente o seu plano, 
dos 86U8 antecedentes atàvicos; descobre-lhes 
ae dissimilbanQas dos seus caracteres e capa- 
ddades; fisa a justa parte que compete & in- 
flnencia benefica ou funesta do ambiente; 
considera a trama da vida comò o resultado 
inevitavel dos elementos e das condiQoes com 
as qnaes e sob as quaes foi entretecida, e 
desenvencilha pacientemente os fios emara- 
nbados. Em summa, a biograpbia é a appli- 
ea^ao da sciencia positiva & vida humana, e 
a Gonsequencia necessaria do progresso da 
phiiosopbia inductiva. Nao é para maravilhar 
que a biograpbia fórme hoje parte tao consi- 
deravel da Litteratura • . « > (Op. eiL, p. 13.) 
Maudsley, considerando a biograpbia corno 
processo para a psycbologia scientifica, diz: 
«Ella nos fornece o fio do desenvolvimento 
do espirito no individuo, na sua cvoIuqSo 
através das influencias da bereditariedade, 
da educagao e das condigoes em meio das 
qaaes vìveu.» E considerando o meio social, 
observa: e Effectivamente o individuo é a 
unidade sodai, que Augusto Oomte tSo bem 
earacterisou, e elle nfio pode ser compreben- 
dido a fundo independentemente do meio so- 
dai no qual vive; o estudo das relsQoes da 
sua organisa^So psychica com a natureza hu- 
mana, de que é a unidade, é t&o indispensa- 



346 HI8T0RIA DA LITTSBATURà PORTUOUHZA 



vel corno o estudo das relsQdes entre a sua 
organÌ8aQ3o physica e o meio ambiente.» (Op, 
eit, p. 53.) 

Seguindo este criterio psyehologico na ma- 
nifestagào passionai de urna crianga para 
quem o amor é ainda galanteio apparecendo 
corno um brinquedo de sociabilidade, resalta 
logo o realismo dos mais exaltados versos de 
Gam5es deslumbrado por uma belleza sobre- 
humana, que o domina pela inconsciencia da 
sua incomparavel formosura. Os soffrimentoSi 
as venturas inesperadas, os desalentos so- 
bitos e a condemnagào d'esses amores, tudo 
deriva de uma tenra edade auctoritariamente 
protegida. retrato, todo de expressao moral 
da mulher que foi a Circe fascinadora do 
Poeta, desenhado delicadamente no Soneto 
XXXV, revela-nos uma crian^a ingenua, timida 
e sensivel, n'aquella edade com que Bernar- 
dim Ribeiro nos deu a conhecer Aonia : t don- 
zella d'antre treze ou quatorze annos^ sem 
saber que cousa era bemquerer. . .» N'esta 
edade se define toda a psychologia d'esse 
amor, nas suas crises de indifferenga, de des- 
cuido, de rigor, depois de paixao absorvente 
que vae até & morte. Notando està circumstan* 
eia especialissima, comprehender-se-ha em to- 
da a sua luz o Soneto: 

Um mover de olhos brando e piedoso, 

Sem ver de que; um riso brando e honesto 
Quasi forQado; um doce e humilde gesto 
De qualquer aiegria duvidoso; 

Um desejo quieto e vergonhoso, 

Um repouso gravissimo e modesto, 
Uma pura bondade, manifesto 
Indicio da alma, limpo e graoioso ; 



OAMÒSS — EPOCA, VIDA E OBRA 847 



Um encolhido onsar ; urna brandura, 
Uni medo sem ter culpa; um àr sereno» 
Um longo e obediente soffrimento ; 

Està foi a celeste formosura 

Da min ha Circe, e o magico veneno 
Que pode transformar meu pensamento. 

E' Yordadeiramente a menina e mÓQa, que 
BDcanta pela passividade da sua brandura, 
pela serenidade modesta, de um pudor que 
le denuncia ìnvoluntariamente. No Soneto 
Lxxvm retrata-a com as mesmas córes, que 
Bxam a sua physionomia moral: 

Leda serenidade deleitosa, 

Que representa em terra uro paraiso ; 
Bntre rubis e perlas doce riso, 
Debaixo do oiro e neve cor de rosa ; 

Presenta moderada e graciosa, 

Onde ensinando estào despejo e siso, 
Que se póde por arte e por aviso 
Gonio por natureza ser formosa. 

Falla, de que ou ja vida ou morte pende, 
Rara e suave emfim, Senhora vossa, 
Repouso na alegria comedido'; 

Estas as armas sào com que me rende 
E me cativa Amor ; mas nào que possa 
Despojar-me da gloria de rendido. 

poeta era visita da casa de D. Antonio 
de Lima, e n'essa frequencia via de perto as 
qaalidades da encantadora crian^a, corno re- 
Tela no Soneto Lxxxvii: 

Conversagào domestica affeicòa, 

Ora em fórma de limpa e sa vontade, 
Ora de u ma amorosa piedade, 
Sem olhar qualidade da pessóa. 



^ 



848 H18TOR1A DA UTTERATUBA PORTUOtJKZA 






Se depoÌB, por ventura vos magòa 
Coro desamor e pouca lealdade, 
Logo vos faz roentìra da verdade 
O brando Amor, que tado emfini perdóa. 

Nào sào isto, que fallo, conjecturas. 

Que o pensamento julga na appareneia 
Por fazer delicadas escripturas^ 

Metida tenho a mao na consciencia, 
E nào fallo senào verdades puras 
Que me ensinou a viva experiencia, 

O poeta lembrandose que a vira ama Tei 
com 08 seus cabellos louros ondados esparà- 
dos, outra prezos, enaetrados por saa m&o 
bella, anceia o momento em que poderi mait 
outra vez vel-a: 

Se imaginando so tanta belleza 

De si com nova gloria a alma se esqueoe; 
Que sera quando a vir? Ah, quem a visse! 

(Sonet. LXXS1T.) 

Mas a crìaDQa, porque <sem saber que 
cousa era bem querer,» brinca com o amor, 
mostra-se rigorosa, desegual, dissolvendo i^ 
refletida todas as esperangas que suscitarapor 
travessura. No Soneta cxx com que peri- 
phrase denuncia a crueza que ella Ihe infUge: 

Tornae essa brancura a alva a^ncena, 
E essa purpurea cor às puras rosas, 
Tornae ao sol as chammas luminosas 
D'essa vista que a roubos vos condemna. 

Tornae é suavissima Sirena 
D'essa voz as cadencias deleitosas ; 
Tornae a graQa és Gra^as, que queixosae 
Estao de a ter por vós menos serena. 



CAMOKS — EPOCA, VIDA E OBRA 349 



Tomae a bella Venus a belleza ; 
A Minerva o sa ber, o eogenho e arte, 
E a pureza a castissima Diana. 

Despojae-vos de toda essa grandeza 
De does ; e fìcareis em toda a parte 
Coinvosco so, que é so ser inhumana. 

Todos esses caprichosos rigores com que a 
erianQa se diverte, accendem mais a paixào 
BB alma do poeta : 

Porém, se entào me védes por acérto, 
Es8é caperò desprizo eom que oihaes 
Me torna a animar a alma enfraquecida. 

Oh gentil cura ! Oh estranho desconcérto ! 
Que dareis co'um f^yor que yós nào daes, 
Quando com um desprezo me daes vida. 

{Sonet. Lxv.) 

E submisBO àquella magestade, que Ihe 
|»ro6tra todos os sentidos, pede-lhe que impo- 
oha orna norma, comtanto que a possa vèr: 

Dae-me uma lei, senhora, de querer-vos, 
Porque a guarde, sob pena de enojar-vos; 
Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos 
Fare, que fique em lei de obedecer-vos. 

Tndo me defendei, se nào de vér-vos 

E dentro na minha alma contemplar-vos: 
Que se assi nào chegar a contentar-vos, 
Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos. 

I fSonet, Lxviii,) 

I E n'estes brincos de amorosos rigores, a 

Icnieldade inconsciente da criancice vae até 

I provocar o ciume; no Soneto lxx o poeta em- 

prega pela primeira vez o nome de Nather- 

eia em que vae a queixa desolada: 



850 HISTOBIA DA LITTKRATURA PORTUGUEZA 



Quando Liso^ pastor, n'um campo verde 
Natercia, crùa nympha, so buscava, 
Com Olii suspiros tristes que derrama : 

— Porque te vàs de quem por ti se perde. 
Para quem pouco te ama ? (su spira va) ; 
E o ecco Ihe responde : «Pouco te ama.» 

No Soneto cxlyii tratando-a ainda pelo 
anagramma de Nathercia, nome que o poeta 
inventara e que é urna cousa sua, exproba- 
Ihe a atten^ao que dava a outro: 

Ah, Nathercia cruel 1 Quem te desvìa 
Esse cuidado teu do niea cuidado? 
Se tanto heide penar desenganado, 
Enganado de ti viver queria. 

Que foi d'aquella fé que tu me deste ? 
D'aquelle puro amor que me mostraste? 
Quem tudo trocar pode tao asinha ? 

Quando esses olhos teus n* outro puzeste, 
Como te nào lembrou que me juraste 
Por toda a sua luz que eras so minha? 

Aquelle ciume provocado era urna expe* 
riencia de pura infantilidade feminina; Cathe* 
rina nào Ihe previra o effeito deprimente, e 
para acudir ao mal que estava causando, fa- 
cilmente convenceu o poeta, de que as saaa 
queixas eram injustas. No Soneto xciv o poeta 
concluindo: e Que eu so da culpa vossa pagua 
a pena», desenha o quadro d'està reconcUia- 
qSo: 

Se tomo a minha pena em penitencia 
Do erro em que caiu o pensamento, 
Nào abrando, mas dobro meu tormento, 
Que a tanto e mais o briga a padencia. 



CAMÒES — EPOCA, VIDA B OBRA 351 



E se urna cor de morto na appareneia, 
Um espalhar suspiros vdos ao vento, 
Nào faz em vós, senhora, movimento, 
Fique o meu mal em vossa consciencia. 

A creanza sente j& o seu poder de mulher, 
e querendo ter consciencia d'esse imperio affe- 
ctivo, vae repetindo os momentos de crueza 
para com o namorado poeta : 

Um firme cora^ào posto em ventura ; 

Um d«>8ejar honesto que se engeite. . . 
Um vér-vos de piedade e de brandura 

Sempre inimiga 

Ando buscando causa que desculpe 
Crueza tao estranha: porém quanto 
N'isso trabalho mais, mais me mal trata. 

D'onde vem, que nao ha quem vos nao culpe: 
A VÓ8, por que mataes quem vos quer tanto, 
A mim, por querer tanto a quem me mata. 

e Soneto cxm.) 

E obedecendo à f atalidade do seu destino, 
poeta sente ainda n'esse rigor um vislum- 
bre de interesse da parte da namorada : 

Assi nao busco eu cura centra a dòr, 

Porque, buscando alguma, entendo bem 
Que n'esse mesmo ponto me perdi. 

Quereis que viva, emfìm, n'este rigor? 
Semente o querer vesso me convem ; 
Assi quereis que seja? Seja assi. 

fSoneto cxxni.) 

O poeta reconhecendo-lhe a condigSo es- 
q va, exora que ante as lagrimas choradas 
C( * verdade se modifique um pouco : 



352 HI8T0RIA DA UTTBRATURA POSTUOUBZA 



Por vós perdi, senhora, a liberdade, 
E nem da propria vìda estou se^ruro; 
Rompei d'esse ri^or o forte maro, 
Nào passe tanto ovante a crueldade. 

Ao prazer dos desprezos dae ja fini ; 
Nào vos chamera crue], nome devido 
A quem se ri de quem suspira e ama. 

Abrandae esse peito endurecido, 

Por o que toca a vós ; jà nào por mim, 
Que eu aventure a vida e vós a fama. 

(Sonet. ccL'i.) 

E iembra-lhe que esse poder com que tanto 
o domina é urna primavera que passa : 

Colhei, colhei do tempo fugitivo 
E da vossa belleza o doce fructo; 
Que em vào fora de tempo é desejado. 

E a mi, que por vós morrò e por vós vivo, 
Fazei pagar a Amor o aeu tributo, 
Contente de por vós o ter pagado. 

(SonsL ccci.ix.) 

O poeta falla-lhe tambem da sua propria 
mocidade, causa de tanta paixào: 

Este amor que vos ienho limpo e puro, 
Do pensamento vii nunca tocado, 
Em minha tenra edade comegado^ 
Tel-o dentro d'està alma so procuro. 

f Sonet. cLxiv.) 

E no Soneto cclxxv, resumindo teda a 
passividade deante dos continuados rigores, 
eleva-se & magestade do sacrificio corno uffl 
cavalleiro do amor : 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 353 



QaaDdo, senhora, quiz Amor que amasse 
Essa grà perfei^ào e gentileza, 
Logo dea por sentenza — que a crueza 
Em vosso peito amor accrescentasse. 

Determìnou, que nada me apartasse, 
Nem desfayor cruel, nem aspereza ; 
Mas, que em minha rarissima firmeza 
Vossa isen^ao cruel se executasse. 

E pois, tendes aqui offerecida 

Està alma vossa a vosso sacrificio, 
Acabae de fartar vossa yontade. 

Nào Ihe alarguels, senhora, mais a vida ; 
Acabara m orrendo em seu officio, 
Sua fé defendendo e lealdade. 

N'iim momento subito e inconsiderado to- 
das eatas cruezas desapparecem, corno bru- 
mas passageiras, e um favor, um penhor fir- 
ma entro os dois namorados a confianQa : Na- 
therda deu-lhe urna lagada dos seus cabellos 
louros. Consagra essa dadi va o Soneto xLii: 

Lindo e subtil trangado, que ficaste 
Em penhor do remedio que mereijo ; 
Se so comtigo, vendo-te, endoudcQO, 
Que fora co'os cabellos que apertaste ? 

Aquellas trangas de curo que ligaste, 

Que OS raios do sol tém em pouco prego, 
Nao sei se ou por engano do que pego, 
Ou para me matar as desataste. 

Lindo trangado, em minhas màos te vejo, 
E por satisfagào de minhas dores, 
Como quem nào tem outra, heide tomar-te. 

E se nao fòr contente o m'eu desejo, 

Dir-lhe-hei, que n'esta regra dos amores 
Por o todo tambem se toma a parte. 

^0 Soneto evi ainda torna a referir-se a 
M penhor excepcional: 






854 HIBTORIA DA UTTBRATDRA PORTXJGUEZA 



Ditosa està alma vossa, a que quizestes 
Por em posse de prenda tao sabida, 
Qual està que benigna, emfim, me destes. 

Sera sempre anteposta é mesma vida : 
Està estimar em menos me fizestes, 
Se antes que essa outra a quero ver perdìda. 

O poeta n&o póde com tanta felicidade; 
anda quebrantado, quasi louco, corno denun- 
ciando o seu segredo; e no Soneto oli ex- 
prime esse estado : 

Julga-me toda a gente por perdido, 

Vendo-me, tao entregue a meu cuidado, 
Andar sempre dos homens apartado, 
E de humanos commercios esquecido. 

Mas eu, que tenho o mundo conhecido, 
E quasi que sobre elle andò dobrado, 
Tenho por baixo, rustico e enganado 
Quem nao é com meu mal engrandecìdo. 

Va revol vendo a terra, o mar e o vento, 
Honras busque e riquezas a outra gente, 
Vencendo ferro, fogo, frio e calma; 

Que eu por amor sómento me contento 
De trazer esculpido eternamente 
Vosso formoso gesto dentro da alma. 

Em um Soneto escripto em eastelhano a 
Nathercia, e intimo, porque a mSe d'ella era 
castelhana, compara as duas epocas em qoe 
a Vida se Ihe divide: 

Bien veo que era vida deleitosa 
Aquella que lograba sin lemores, 
Quando gustos de Amor tuve por viento; 

Mas viendo boy a Natercia tan hermosa, 
Hallo en està prision glorias mayores, 
Y en perderlas por libre hallo tormento. 

(Sonet.CLi.in.) 



ì 



CAMOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 855 

Nathercia entrega-lhe deliberaci amente a 
0aa alma ; volta ao seu naturai de brandura, 
com que tanto impressionara o poeta na in- 
tensa psychose; resumindo toda a pequena 
historia d'aquelle amor, escreveu no Soneto 
ccxcv: 

Quantas penas, Amor, quantos cuìdados, 
Qìiantas lagrimas tristes sem proveìto, 
De que mil vezes, olhos, rosto e peito 
Por ti, cego, me viste jà banhados. 

Quantos mortaes suspìros derramados 
Do coraQao por tanto a ti sujeito ; 
Quantos males, emfìm, tu me tens feìto, 
Todos foram em mi bem empregados. 

A tudo satìsfaz (confesso-te isto) 
Urna so vista branda e amorosa 
De quem me catìvou minha ventura. 

Oh, sempre para mi bora ditosa ! 

Que posso temer jà, pois tenho visto, 
Gom tanto gosto meu, tanta brandura ? 

Està confianga dura pouco; come^am as 
incertezas, os desalentos. Gonhecidos aquelles 
AiQores, a famìlia de Nathercia reflecte na 
sua curta edade, muito mòqa^ e aprecia os 
meritos do apaixonado, tambem mòQO de ta- 
lento, cultivado, mas sem posi^So social. Era 
nm fraco partido para uma dama de nasci- 
mento ; pelo seu saber litterario e loquella bri- 
Diante, poderia entrar no servilo de um prin- 
cepe come esse poeta Pero de Andrade Ga- 
minha, que medrava na casa do Infante Dom 
Duarte, cu comò Achillea EstaQO, secretarlo 
de Oardeaes e de Papas, na sua isolada de- 
ricfltura. Todas estas consideraQoes seriam 
^I ^entadas a Nathercia, que comò crianga 



I 



submissa facilmente acreditaTa. O poeta i 
conhece que toda a Bua ventura fora mn < 
gano: 

Onde pò rei nieuH olhos, que nào veja 

A causa de que nasce o meu tormento? — 

Jà sei comò se engana quem deseja 
Env v3o amor, fiel co n tenta mento- 



No Soneto clit, todo em phrases interro- 
gatìvas, que sfio os problemas do seu amor, 
cometa pela pergunta: 

Que esperaes, eeperanca ? — Desespéro. 

Quem d'isso a causa foi? — Urna mudan^a. 
Que sentia, alma, vós ? — Que amor é fero, 

E emfim, corno viveis ? — Sem confianga. 

Queiu voB austenta, logo? — Uma lembranca. 
E so D'ella eaperaea? — So n'ella eapero. 

Este estado de incerteza prolonga-si 
gravado ontra vez pelo espinho do ci 
defìne-o no magoado Soneto ccLxxin: 

Suatenta meu viver uma eaperanija 
Derivada de um bem t3o desejado. 
Que quando n'ella estou mais confiado 
Uór duvlda n\c, pòe qualquer mudanga. 

E quando inda este bem na mór pujan^ 
De seus goatos me tem mais enlevado, 
Me atormenta entao vèr eu, que alcan^d 
Seri por quem de vós nào tem lembrangi 

Cam5es nSo previa a influencia hos 
familia de Oatherina, e attrìbuia a gì 
deiconfìanoa ao seu desamor, dizendo-lEi 
amargura : 



CAMOES -;— EPOOA, VIDA E OBRA 867 



Perca-se emfim jà tudo o que esperei, 
Pois n^outro amor jd tendes esperanga ; 

- Tao patente serd vossa mudane, 

Quanto ea encobri sempre o que vos dei. 

Deì-vos a alma, vida e o sentido ; 

De tudo o que em mi ha vos fiz senhora, 
Prometteis e negaes o mesmo Amor. 

Agora tal estou, que de perdido, 

Nao sei por onde vou, mas aigum'hora 
Vos darà tal lem branca grande dor. 

fSoneto ccLxvi.) 

Os desalentos da decepQSo profunda em 
que cahiu o seu espirito resume-os no Soneto 
CCLXXXvni : 

Doce sonho, suave e soberano, 

Se por mais longo tempo me durara ! 
Ah, quem de sonho tal nunca acordara. 
Pois havia de ver tal desengano. 

Ah, deleitoso bem ! Ah doce engano ! 

Se por mais longo espaQo me enganara ! 
Se entào a vida misera acabara, 
De alegrìa e pesar morrera ufano. 

golpe foi de surpreza, corno pela inter- 
venQ9o de um poder extranho; seria auctori- 
dade paterna, ou qualquer censura da Rai- 
nha? O poeta aproxima os extremos com que 
folgin o seu amor : 

Ditoso seja o dia e hora, quando 
Tao delicados olhos me feriam ! 
Ditosos OS sentidos que sentiam 
Estar-sé em seu desejo traspassando. ^ 

Assi cantava, quando Amor virou 
A roda a esperan^a, que corria 
Tao ligeira, que quasi era invisibil. 



858 H18T0RIA DA UTTERATURA POBTUGUEZA 



Converteu-se-me em noi te o claro dia ; 
E se alguma esperam^ me ficou, 
Sera de maior maL se for possibil. 

Esse maior mal veiu, e implacavel ; no So- 
neto cxxi, o poeta vd-o aproximar-se : o apar- 
lamento for^ado. 

De mil suspeitas vas se me levantam 
Trabalhos e desgostos verdadeiros. 



Quando cuido que tomo porto ou terra, 
Tal vento se levanta em um instante 
Que subito da vida desconfio. 

O dia, bora ou o ultimo momento 

De Vida, em que meus fados me pozeram, 
Jà minbas esperauQas se perderam, 
Jà nào me enganarà meu pensamento. 

Triste mudanga, duro apartamentOy 
Que perder em tao breve me fizeram 
Tudo o que meus servigos mereceram. 
Oh quantas cousas muda o mudamento ! 

Nao espero jà ver cousa passada, 
Porque vejo que tao longa partida 
Me ndo consente esperanqas de tomadUt. 

( Sortelo cccxx). 

Dona Catherina de Athayde mal oontaria 
OS quinze annos ; a sua pouca edade impunha 
o protegel-a, e tanto mais que a sua famila 
dispunha de poucos bens de fortuna, corno 
se sabe por uma clausula do testamento da 
Rainha, e Luiz Vaz de Camoes apezar do 
brilhantismo do talento era filho de um fi- 
dalgo pobre. O afastamento do poeta da cdi e 
foi brusco, parecendo por isso um desterr ; 
nSo teve esse afastamento um caracter o\ l- 



J 



r 



CAMOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 859 

dal, parece que seria ordenado pela raìnha 
D. Catherìna, muito amiga da sua camareira 
D. Maria Bocanegra. Camoes conheceu d'onde 
Uie vinha o golpe inflexìvel, e na Ode iii, 
descrevendo a desolagao em que jaz apartado 
d'aquella que tanto amava, poe em contraste 
a sua situando com a de Orpheo, applacando 
as furias do Orco e conseguindo trazer outra 
▼ez & Vida Eurydice pelo poder do seu can- 
to: 

De todo jà admirada 
A Rainka internai e commovida. 

Te deu a desejada 

Esposa, que perdìda 
De tantos dias jà tivera a vida. 

Pois minka desventura 
Como jd ndo abranda urna alma humana, 

Qne he cantra mi mais dura^ 

E inda mais deshumana, 
Que o furor de Callirhoe profana ? 

Oh crua, esqtiiva e fera. 
Duro peito, cruel e empedernidOy 

De alguma tigre fera 

Là na Hircanìa nascido, 
Ou d'entre as duras rochas produzido. 

Ha n'estas estrophes urna insistencia que 
denuncia urna personalidade conhecida; Ju- 
romenha reconheceu-o : «Parece fazer urna 
allusSo fi rainha D. Gatherina, que mais cruel 
que Proserpina, Ihe rouba a vista da sua 
amante.» (Obr.^ ii, p. 535.) Conhecida a situa- 
qSo no seu conjuncto, o facto da severidade 
da Rainha D. Catherina contra os amores do 
Peta, deixa de ser uma simples interpreta- 
^ >, mas uma confidencia. 



360 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

No Soneto xxiv, descreve CamSes a de- 
spedida e separa^ao commovente pela sereni- 
dade que aff ecta ; conversaram até ao alvore- 
cer: 

Aquella triste e leda madrugada, 
Cheia toda de magoa e de piedade, 
Emqtianto houver no mundo saadade, 
Quero que eeja Bempre ce! ebrada. 

Ella so, quando amena e marchetada 
Sahìa, dando a terra claridade, 
Viu apartar-se de urna outra vontade, 
Que nunca podere vér-se apartada; 

Ella so, viu as lagrimas em fio 

Que de uns e de outros olhos derivadas, 
Juntando-se, formaram largo rio; 

Ella, ouviu as palavras magoadas 
Que poderào tornar o fogo frio, 
E dar descanso As almas condemnadas. 

A impressao d'aquella alvorada da de- 
spedìda, tSo bella corno a de Bomeu e Ju- 
lietta idealisada por Shakespeare, Oamoes 
torna aìnda a exprimil-a no delicioso Soneto 
cccxYii, coUigido no Cancioneiro de Luii 
Franco : 

Aquelles claros olhos, que chorando 
Ficavam, quando d'elles me partia, 
Agora que farào? Quem m'o dirìa? 
Se por ventura estarao em mi Guidando. 

Se terao na memoria, corno ou quando 
D'elles me vi tao longe de ale^ria? 
Ou se estarào aquelle alegre dia 
Que tome a vél-os. n'alma figurando? 

Se contarao as horas e os momentos? 

Se acharao n'um momento muitos annoB ? 
Se fallarào com as aves e com os ventos? 




1 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 361 



Oh, bem aventurados fingimentos, 

Que n'esta ausencia, tao doces enganos 
Sabeìs fazer aos tristes pensamentos ! 

No Soneto lxxv, o poeta reconhece que 
mais do que a auaencia é a lembranga do cas- 
tigo que a motiva e que Ihe dóe: 

Ditoso seja emfim qualqner estado 
Onde enganos, desprésos e isen^ào 
Trazem um cora^ao atormentado. 

Mas triste quem se sente niagoado 

De erros e/m gite nào póde haver perdào^ 
Sem Hear na alma a magoa do peccado. 

Ainda na Ecloga ii, descreve o poeta a 
indole d'aste amor, que o dominara em abso- 

luto: 

Nao póde quem quer muìto ser culpado 
Em nenhum erro, quando vem a ser 
Este amor em doudice transformado. 

Amor nào sera amor, se nao vier 
Com doudices, deshonras, dìssensoes, 
Pazes, guerras, prazer e desprazer ; 

Perigos, linguas mas, murmuraQÒes, 
Ciumes. arruidos, competencias, 
Temores, nójos, mortes, perdlQÒes. 

Estas sao verdadeiras penitencias 
De queìn pÒe o desejo onde ndo deve. 
De quem engana alheias innocencias. 

Mas iato tem o amor, que nào se escreve 
Senào d'onde é illicito e custoso ; 
E d'onde é mais o risco, mais se atreve. 



N'isto fenecem pensamentos vàos, 
Tristes servi^os mal galardoados,^ 
Caja gloria se passa d'entre as màos. 



362 HISTORIA DA LITTERATUBA PORTUGUEZA 



Lagrimas e suspiros arrancados 
D'alma, todos se pagam com enganos ; 
E oxalà foram muitos enganados ! 

Andam com seu tormento tao nfanos, 
Que gastam na do^ura de um cuidado 
Apoz urna esperan^a muitos annos. 

O poeta nSo soube guardar o segredo da 
sua felicidade; os impetos da paixao da?am- 
Ihe ousadias descuidadas que o denunciavamo 
e de que os invejosos do peregrino talento 
sabiam tirar partido para o perderem. Nather* 
eia, na namorada travessura da edade juve- 
nil, ia l@r os versos que elle Ihe improTisava 
e logo fugindo vergonhosa. 

Na Ecloga m, Cfam5es ]& af astado da corte 
representa uns imaginosos encontros com a 
sua namorada, e exproba-lhe o esquecimento; 
a realidade salta no dialogo : 

— Oh aspecto suave e peregrino! 
Pois corno, tao asinha assi se esquece 
Urna fé verdadeira, um amor fino? 

«Que me queres, Almeno, ou que porfia 
Foi a tua tao àspera commino? 
Minha vontade nao t'o merecia. 

Se com amor o fazes, eu te digo, 

Que amor, que tanto mal me laz em tudo 

Nào pode ser amor, mas inimigo. 

Nào és tu de saber tao fatto e rado, 
Que tao sem siso amasses, corno amaste. 

— Onde viste tu, nympha, amor sisudo? 
Por que jà nào te lembra que folgaste 
Com meus tormentos tristes, e algum'hora 
Com teus formosos olhos jà me olhaste? 



OAlfÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 363 



Como te esquece jà, gentil pastora, 
Que folgavas de lèr noe freixos verde s 
que de ti 'screvia cada hora ? 

Porque a memoria tao a pressa perdes 

Do amor que me mostravas, que eu nao digo 

Se vós, oh altos montes, nào disserdes ? 

E corno te nào lembras do perigo 

A gite 80 por me ouvir te aventuravas, 

Buscando horas de sèsta, horas de abrigo ? 



£ escondendo-te logo na espessura 
las fugindo, comò vergonhosa 
Da namorada e doce travessura. 



Se mas tengòes puzeram nodoa féa 
Em nosso fìrme amor, de inveja pura, 
Por que pagarei eu a culpa alheia? 

Qnem d'està fé, quem d'este amor nào cura, 

Nnnca te ve su j cito o cora^ào ; 

Qae o firme amor comò a alma eterno dura. 

«Mal conheces. Almeno, uma affei^ào ; 
Qne se eu d'esse amor tenho esquecimento 
Meus olhos magoados t'o dirào. 

Mas teu sobejo e livre atrevimento 
E teu pouco segredo, descuidando, 
Fot eausa d'este tango apartamento. 

Um so segredo meu te manifesto : 

Qae te quiz muito em quanto Deus queria ; 

Mas de pura affei^ào, de amor honesto. 

E pois de teus descuidos e ousadia 
Vasceu tao dura e dspera mudangay 
^olgo; que muitas vezes t'o dizìa. 

m uma IìqSo manuscripta d'està Egloga 
^^ ^trou Faria e Sousa mais dois tercetos, 



864 HISTORIA DA LlTTEBATURA PORTUOUBZA 



em que se revela que a namorada do poeta 
pensou em recolher-se & vida religiosa da 
clausura : 

E' verdade; mas jà tenho perdida 
Essa affeigào que em ti mal empregael, 
E n'outra mais honesta convertida : 

Amor casto, divino amor tornei, 
Amor, a cujo amor està sujeito 
Quanto vive ; por este te deixei. 

E' presumivel que para applacar a Rai« 
nha, se offerecesse Catherina de Athayde 
para entrar em um convento; a Rainha es- 
tava sob a angustia inconsolavel da perda de 
sua filha a princeza D. Maria, morta de parto 
em 1545. Isto a levava a esse sombrìo retra- 
himento, nSo consentindo mais estas galante- 
rias na córte. Era o occaso do espirito de 
D. JoSo III, que faz epoca no seu governo. 
Outras circumstancias influiram para a impo> 
sigao de um regìmen de austeridade nas rela- 
Qoes da córte. 

Dom JoSo III, corno se ve por urna ane- 
docta da Arte de Galanteria, era severo oom 
08 escandalos amorosos no Pago. «Bien pò- 
diera aqui traer lo del Conde de Vimioso, que 
veniendo de un Consto de Estado adande 
se havia tratado el grossero modo de galan- 
teavy que habia acaeddo en Palaeio, por que 
condemnó & muerte el dichoso cumplice, que 
despues de perdonado de cuchillo, se le e :e- 
cutó de casamiento.» (Op. ciL, p. 167.) 

Nos versos dos poetas oontemporan ds 
allude-se a este escandalo amoroso acontec io 
nos PaQOs de Santarem em 1546 ; f oi o cs o» 



j 




CAM5BS — EPOCA, VIDA E OBRA 365 

lue no8 apoaentos da formosa D. Julìana de 
Lara, filha do Marquez de Villa Real, entrara 
de noite o filho do Conde Bario de Alvito. 
No Cancioneiro de Evora vem umas Trovas 
d Sentenga dada cantra um Hdalgo^ que con- 
traston o crime com a ventura do culpado: 

A sentenza jà é dada ; 
Pero foi mal requerida, 
Toda pessoa culpada 
Deve estar arrependida. 



E pois se puaha em direito 
Està tal condemnaQào, 
Houveram de ter respeìto, 
Que ainda que era feio o feito 
Era fermosa a rasao: 
E de vera de lembrar 
Ao Senhor e aos Doutores, 
Qae 08 erro» por amores 
Erros sào de perdoar. 

Todos n'este caso erraram, 

Todo o mundo n'elle errou ; 

Erraram os que julgaram, 

Multo mais o que julgou. 

So Dora Fuao acertou ; 

E postoque nao responde, 

Nem q querem escuìtar. 

Mais querìa ser o Conde. 

Que El Bey, que o manda matar. 



Honrados e deshonrados 
Accusaram o Senhor ; 
Devendo de ser lembrados 
Que Deus ao bom amador 
Nunca deroandou peccados. 
Mas quetn tem mó condicio 
N'ella faz seu fundamento, 
E póde mais a teuQao, 
Do que póde o entendimento, 



366 HISTORIA DA LlTTBRATURA PORTUOUEZA 



Dona Juliana, ainda parenta da famifift 
real, foi casada com o Duque de Aveiro, e 
nas trovas vem este final: 

Perdòe Deus ao Senhor 

Que isto quiz por em doutores. 

Para dar causas maiores, 

A que nasQam d'um amor 

Muitos grandes desamores ; 

Porém isto bavera cabo, 

E tudo vira a paz, 

Em que pez' a um diabo 

Que taes obras sempre faz. 

(Canc.y ed. Barata, p. 32-5.) 

Està peripecia fixa-nos o anno de 1546 
corno a epoca em que prorompeu a austeri- 
dade e intransigencia com as galanterias amo- 
rosas do Pa<}o. Nas Obras de Caminha (p. 361) 
encontra-se um Epigramma ^A Joào Lopes 
LeitàOj estando preso em sua ca^a^ por en- 
trar urna porta a vèr as Damas, contra van- 
tade do Porteiro,^ Isto nos mostra que oque 
acontecia agora a este poeta e grande amigode 
Camoes, fatalmente Ihe succederia desde que 
se tornaram conhecidos os seus amores. 

Tambem n'este mesmo anno de 1546, de- 
pois de um prolongado estado de loucura 
attonita produzida por uma decep<^o de 
amor, foi o poeta Bernardim Ribeiro inte^ 
nado comò incuravel no Hospital de Todos os 
Santos. A sua historia intima estava revelada 
na pungentissima Egloga Dialogo de dois 
Pastores Silvestre e Amador, (Ohristovam 
FalcSo e Bernardim Ribeiro) na mutua con- 
fidencia das suas desgra^as amorosas. As 
Saudades liam-se secretamente em traslados 
com a avidez de quem conhecia os perse la- 






GAMÒB8 — EPOCA, VIDA E OBRA 367 



gens d'esse episodio da córte manoelina. Era 
mn exemplo tragico, que nao devia repetir-se, 
impondo o bom senso das pessoas auctorisa- 
das tréguas a paixdes que versos vehemen- 
tissimos exacerbavam e que a sensibilidade 
delicada das donzellas na fior da edade pò- 
dia converter em deUrio. O proprio Bernar- 
dini Ribeiro retratara a ingenuidade de Àonia : 
e ainda entfio donzella (Vanire treze ou qua- 
iorze annoSf sem saber que cousa era bem 
querer...9 {Saud., cap. xix, P. i.) Era a 
edade tambem de Natnercia, com a mesma 
ignorancia do que era bem querer, e. deslum- 
brada pelo fulgor de um poeta comò Ca- 
m5es, na fiorente edade dos vinte e um an- 
nos arrebatado pelas mais intensas emoQoes. 
Gom o poeta so se importavam os que pela 
inveja Ibe tramavam o desfavor da córte; 
mas Nathercia, d^antre treze para quatorze 
annos 6 que carecia ser defendida para nao 
eahir na depressSo moral em que uma con- 
trariedade precipitou Àonia. A' Rainha, que 
por espirito de protecQSo a admittira por 
Dama no Pago, muito moga^ competia o ata- 
Ihar aquelle amor nascente antes de se tornar 
absoluto. D'aqui a sua severidade, que os ca- 
80S do tempo suscitavam, e de que parece 
ter-se arrependido referindo-se a Gatherina 
de Athayde no seu testamento. ^ 



^ Pelo testamento da Rainha, vé-se que afamilia 
de D. Antonio de Lima nao vivia na opulencia, pelo le- 
gado s^ninte: «AD. Maria Bocanegra, ha vendo re- 
Bpeito ao muito tempo que seus paes e ella me servi- 
ram, e a que tem necessidade, mando que se déem cin- 
eo«*\ta mil reis de tenga em cada anno, em sua vida, e 



868 aiSToiUA da littbratura pobtdodbza 



Na Elegìa i relata Gamdes inequivoca- 
mente o seu destérro da córte, comparando 
em certa fórma a situasse com a de Ovidio 
desterrado — Na aspereza do Ponto: 

D'està arte ine figura a phantasia 
A Vida com qua morrò, desterrado 
Do bem que em outro tempo possala. 

Aqui contemplo o gosto jà passado, 
Que nunea passarà por a memoria 
De quem o traz na mente debuxado. 

Aqui, vejo a caduca e debii gloria 
Desenganar meu erro co'a mudan^a 
Que faz a fragil vida transitoria. 

Aqui me representa està lem branca 
Qudo potica culpa tenho; e me entristece 
Vèr sem. rasdo a pena que me alcanna. 

Que a pena que com causa se padece 
A causa tira o sentimento d'ella ; 
Mas multo doe a que se ndo merece. 

E divagando pelas campinas do Ribatejo, 
descreve Camóes aquella paisagem caracte- 
ristìca admiravelmente sentida e pintada por 
Garrett; esses tercetos tdm urna vibra^So vi- 
vida: 

D'aqui me vou, com passo carregado 
A um outeìro erguido, e alli me assento, 
Soltando toda a rédea a meu cuidado. 

Depois de farto jà de meu tormento. 
Estendo estes meus olhos saudosos 
A' parte d'onde tinha o pensamento, 



principalmente respeitando o tempo que D. GATdSRniA 
sua filna, me serviu * 

Està reminiscencia sympathica seria a oonscienctt 
de ter-lhe amargurado o seu destino. 



j 




CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 369 



Nào vejo senào montes pedref?osos : 
E sem graQa e sem fior os cani pò s vejo, 
Que jà floridos vira, e graciosos. 

Vejo o puro, sua ve e rico Tejo, 
Com as concavas barcas, que nadando 
Vào pondo em doce effeito o seu desejo. 



D'alli fallo co'a agua, que nào sente 
Com cujo sentimento està alma sàe 
Em lagrimas desfeita claramente : 

— Oh f ugitìvas ondas ! esperae ; 
Que, pois me nào levaes em companhia, 
Ao menos estas lagrimas levae. 

Até que venha aquelle alegre dia 
Que eu va onde vós ides, livre e ledo ; 
Mas tanto tempo quem o passaria ? 

Nào pode tanto bem chegar tao cedo ; 
Porque primeiro a vida acabarà, 
Qtie se acabe tao aspero degredo. * 



Desde que os amores do pago foram co- 
nhecidos, nSo faltaram invejas e rivalidades 
para tirarem partido contra Gamoes. Fedro 
de Marìz, no prologo biographico de 1613, 
foi o primeiro que consignou a tradigSo do 
86tt afastamento da córte: «Vendo-se n'este 
desamparo, (corno alguns dizem homiziado 
OQ desterrado por huns amores no Pago da 



1 O Dr. Storck chega a suppòr um decreto real 
que o desterrasse da córte, (Vida, pag. 382.) Nào era 
easo para tal, e seria mesmo absurdo ; ao afastamento 
prolongado chama-se vulgarmente um desterro. 



L 



370 H18TORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Rainha.J* Manoel Severim de Faria repete: 
«Continuou em Lisboa algum tempo, até qvs 
una amores, que segundo dizem, tomou no 
PaQo, o fizeram desterrar da córte.» O modo 
de expressar de Severim aioda aponta a tra- 
di<;fio, carregando mais na fórma do aparta- 
mento, chamando-Ihe desterro. Nos Commenta- 
rios ineditos de D. Marcos de San Loaren^o, 
fallando das suas relagoes com as damas do 
pa^o, insiste na tradigao : ^ . . . d'estes mimos, 
dos quaes porque os ndo soube usar veiu a 
carecer d'elles. > 

E' entSo que entre os Camonistas do secalo 
XYii, se systematisam corno destérros todas as 
mudangas de terra, na vida do poeta ; assilli 
apontou Diogo de Paiva nas suas Lembran- 
Qas : € Por estes amores foi quatro vezes des- 
terrado: uma de Coimbra, estando Ift a córte, 
para Lisboa; outra de Lisboa para Santa- 
rem; outra de Lisboa para a Africa; e final- 
mente de Lisboa para a India. . . » Nào rejeita 
Faria e Scusa completamente està systemati- 
sagSo formada pelo syncretismo de factos com 
tradiQoes e interpretaQoes exegeticas de ex- 
pressoes poeticas. Manoel de Faria e Scusa 
colligiu por outras vias essa tradi^So persi- 
stente, com elementos que esclarecem o facto: 
«Y ay tradiciones, que una (dama) de pala- 
do tue la ocasion de su destierro, porque 
perdido por ella y haciendola perder por si, 
fué el remedio apartarle. D'este apartamiento 
se lamenta en aquella Elegia, que comien^: 
O sulmonense Ovidio. . .» E accrescenta uma 
circumstancia que prevaleceu para este apar- 
tamento da córte: «resultò (pareee que a in- 
stancia de los parientes d'ella) de deateri ^ 



I 

i 



CAHÒB8 — EPOCA, VIDA E OBRA 371 

le.> * Assim se pode bem notar, que ha nas 
tradigdes um fundo de verdade, deturpada 
quasi sempre pelas vistas systematicas dos 
biographos tornando as suas interpretaQoes 
por f actos. Por praxe da córte : « nao era per- 
mittìdo aos — mdijos fidalgos — que andavam 
no pago — tornar trajo de varSo sem terem 
passado a Africa, e virem de là com certiddes 
de Yalorosos.» E' pois multo naturai, que 
Bendo Gamdes filho de cavalleiro fidalgo Ihe 
fosse vedada a entrada no pago sob este pre- 
texto de ter de ir & Àfrica, para Ihe competi- 
rem os trajes requeridos pela etiqueta. Um sim- 
ples pretexto, que equivale a uma exclus3o. 
Isto explica por que foi GamSes para Geuta, 
depois da excursSo breve pelo Ribatejo, e as 
snas ulteriores esperan^as no regresso & córte 
em 1550. 

Tomando no sentido usuai a palavra de- 
sierrOf que significa figuradamente uma au- 
sencia forgada ou prolongada, torna- se corre- 



^ Os amores de Camòes e D. Catherina de Athay- 
de, ambos nobres e jovens, nào eratn motivo para o 
afaetamento abrupto do poeta da corte; for^aram-o a 
sahìr de Lisboa, temendo o perigo de um casamento a 
furto, corno fizera o poeta do Crisfal com D. Maria 
Brandao. Eram frequentes estes casos no secalo xvi, 
e pelas ConstituiQoes do Arcebispado de Lisboa de 1587, 
eram vàlidos os easamentos a mrto, sendo « ho homem 
de quatorze annos, e ha mulher de doze, e de menor 
edade nom.» ( Tìt. viii, Const. i.) Catherina de Athayde 
. contava quinze annos quando Camoes foi mandado sa- 
hi da corte ; seria a suspeita de um casamento a furto 
a odoa feia que a inveja puzera em seu firme amor, 
00 10 refere o poeta na Ecloga ni ? Era entào em Ca- 
ia is muito viva a impresselo do Crisfal, de que usava 
m OS versos comò aphorismos. 



372 HISTOBIA DA UTTERATURA PORTUOUBZA 



lati va de homizio ou ausencia voluntaria 
diante de abruptos acontecimentos, corno em- 
prega estes dois vocabulos Fedro de Mariz. 
Como a mae do poeta era naturai de Santa- 
rem, a tradìQio tendeu para localisar o retiro 
para esse logar; mas o poeta, demorou-se 
pelo Ribatejo, corno se determina pelos seus 
versos, e pela tradigSo que o faz hospede de 
Dom Gonzalo Coutinho, seu amigo, na Quinta 
dos Vaqueiros, ^ no RibatejOi proxima de 
Santarem. 

No preambulo descriptivo da Egloga n 
descreve Camoes o seu refugio ou desterro 
DO Ribatejo: 

Ao longo do sereno 

Tejo, su ave e brando, 
N'um valle de altas arvores sainbrio, 

Estava o triste Almeno, 

Suspìros espalhando 
Ao vento, e doces lagrimas ao rio. 

No derradeiro fio 

O tinha a esperanga, 

Que com doces enganos 
Lhe sustentara a vida tantos annos, 
N'uma amorosa e branda confianga ; 

Que quem tanto queria, 
Parece que nào erra se confia. 



Do frio e doce Tejo 

A 8 aguaa se tomaram 

Ardentes e salgadas. 
Depois que minhas lagrimas cansadas 
Com seu puro licòr se misturaram ; 

Como quando mistura 
Hyppanis c'o Exampèo sua agua pura, 



^ Allude a està hospedagem, era um Epigrani a 
latino, Manoel de Sousa Coutinho (Fr. Luiz de Soyxf ) 



r- 



CAMÒES — EPOCA, VIDA £ OBRA 373 

Sobre està passagem escreve Juromenha, 
annotando: « Por estas e outras citaQoes se ve 
que o Poeta escrevia està composi^ao nas mar- 
gens do Tejo, onde elle se estreita e as aguas 
eorrem doces; à semelhanQa das lagrìmas mis- 
turadas com o rio, corno Hepanis e Exampéo, 
dfi a entender que tinha presente o Zézere 
misturando-se com o Tejo* (Ob.^ iii, p. 367.) 
Barreto Feio interpretando a Gan^So xiii, 
Bustenta que andara pelas visinhan^as do Zé- 
zere; porém està compo8ÌQ3o pertence a Miguel 
LeitSo de Andrade, que a esse tempo ainda 
nfio era nascido. Como Ihe f allaria por estes si- 
tiog a lembranQa do enamorado cantor do Cris- 
fai! Ha na Edoga in analoga situagao no 
encontro dos dois amantes que se recriminam. 

Frequentemente emprega Camoes a compa- 
ralo do touro para exprimir os impetos da va- 
lentia, corno ao narrar a batalha de Ourique : 

Qual no córro sanguineo o ledo amanXe, 
Vendo a formosa dama desejada, 
O touro busca, e pondo-se diante 
Salta, corre, sibila, acena e brada ; 
Mas o animai atroce n'esse instante, 
Com a fronte cornigera inclinada, 
Bramando duro corre, e 09 olhos cerra, 
Derriba, fere, mata e p5e por terra. 

Sobre o emprego d'està imagem, escreve 
Dr. Balthazar Osorio, na Fauna dos Lu- 
Hadas: «E assim ainda mais vezes, quando 
procura encarnar a ferocidade, é do animai 
)pa«\s bravo e vulgar do paiz e de que o Poeta 
tii la sem duvida mais conhecimento, que se 
le ibra. No Canto vi, estancia 84, referindo-se 
ft ^rìa dos ventos insubmissos : 



374 HISTORIA DA UTTERATUBA PORTUOUEZA 



Assim dizendo, os ventos que luctavam 
Como touros indomitos bramando,. . . 

mais urna vez se recorda da fera cujos instin- 
ctos de certo observou no Ribatejo por occa- 
siao do seu desterro da córte, ou com quem 
por ventura se defrontava com outros fidal- 
gos seus amigos em Almeirim ou em Almada, 
quebrando langas nas festas dos touros . . . > Na 
Carta i, compara-se aos touros da Mereeana. 
Pelas proximidades de Pedrogam, d'onde 
visitou o Convento dos Dominicanos, gastoa 
Camoes o tempo que destinava para resti- 
tuir-se aos àres de Coimbra. Uma carta in- 
edita, attribuida por Juromenha a Camoes, 
(é a vii) poderia considerar-se comò refenda 
a està situagao: «Novas minhas estava para 
nao escrever, porque nao ousava confessar 
que temia deixar um estado por outro, que 
mais me enfadasse, pois n'esta parte me ven- 
ciam dois receios: a bum, largar o que com 
tanto me enganei^ outro, de nao saber o corno 
me haveria no que tinha provado; mas aqm 
entrou a rasào dizendo-me, que do que tirùia 
me bastava o desengano e que para o que 
buscava me servisse o conseiho qual estou re- 
soluto de ir este anno a Coimbra, restituir-tne 
aos dres em que me criei, parte do tempo 
que perdido tenho, e entretanto que eu mais 
de perto nao posso córar estas opinides com 
que fis duvidas respondo, . . . > * 



» Juromenha, Obras de Carndes, t v, p 243; 
contrada com a Carta primeira da India em um Cj 
cioneiro em que vinham muitas poesìas authentìcas 
Camoes. D. Carolina Michaelis eonsidera-a segundo 
dos OS probabilidades «crbra de um Conde de Ale 




CAlfÒES — EPOOA, VIDA E OBRA 375 

Està circumstancia do intento de resti- 
tuir-8e ao8 àres de Coimbra, em que se criara, 
quadra pienamente com a situa^Sio do Poeta, 
divagando sem destino pelo Ribiatejo. O facto 
do falecimento de seu tio Dom Bento de Ca- 
moes em 2 de Janeiro de 1547, veiu atalhar 
asta resoluQ&o plausivel e pacificadora ; e 
aggravando mais a sua amargura, determi- 
narla corno que um acto de desespéro sug- 
gerindo-lhe a partida para a estagao mili- 
tar de Ceuta. Todas estas circumstancias se 
systematisam dando relévo àquella explosao 
sentimental da Ecloga i: 

Por que primeiro a vida acabarà, 
Que se acabe tao dspero degredo, 

NSo era com certeza urna paixao amorosa, 
entre os dois namorados jovens e fidalgos, na 
cdrte de D. Jo3o ni, onde eram frequentes 
esses casos, que levantaria diante de Camoes 
tantas contrariedades e malevolencia até o tor- 
narem incompativel com o Pago, vendo-se 
forQado a ausentar-se de Lisboa. O proprio 
poeta reconhece mais algumas causas além do 
amor; no Soneto cxciii indica-as sem as por- 
menorisar : 

Erroa meu8^ ma fortuna. Amor ardente^ 
Em minha perdi^ao se conjuraram ; 
Os erros e a Fortuna sobejaram, 
Que para mi bastava Amor sómente. 



1, e a resposta de um A. de Jf.» (Storck, Vida de Ca- 
ie», p. 891.) E' frequente entre os copistas curìosos 
.rìbuirem a si ou firmarem com o seu nome os ver- 
s ou prosas que trasladam ; conhece este phenomeno 
'^m manuséa manuscriptos. 



376 HIBTORIA DA LlTfERATURA PORTUGU&Z. 



Tudo passe! ; mas tenho tao presente 

A grande dòr das cousas que passaram, 
Que jà as frequencias suas me ensinaram 
A desejos deixar de ser contente. 

Errei todo o dìscurso de meus annos. 
Dei causa a que a Fortuna castigasse 
As minhas mal fundadas esperan^as. 

De Amor nào vi senào breves enganos; 
Oh, quem tanto podesse, que fartasse 
Este meu duro genio de vìngan^as. 

N'este Soneto systematisa com verdade 
surprehendente os factos fundamentaes, que 
converteram a sua vida em um contìnnado 
desastre. Compete a quem estuda o quadro 
da sua vida, agrupar sob essa trilogia fati- 
dica OS factos isolados ou desconnezos, que 
por isso nao sao comprehendidos, recebeudo 
assim uma nova luz. 

Que érros poderia ter commettido um ra- 
paz contando apenas vinte e um annos, in- 
struido, de sentimentos elevados e aspiraQoes 
dignas ? Frequentar os Pàteos das Oomedias, 
ou acceitar a convivencia de algum frade go- 
liardo corno Antonio Ribeiro Ghiado? Ti- 
nha-se descuidado um pouco de arranjar pelo 
seu talento uma posigào social. Em verdade, 
Gam5es tinba gasto o melbor do seu tempo 
em acquiescer às divas que Ihe pediam ver- 
SOS, escrevendo cartas &s damas mais vallo- 
sas do pago que o distinguiam excepcional- 
mente. Incapaz de se rebaixar aos calculos 
das mesquinhas ambigoes, mesmo satisfa- 
zendo os pedidos com que o mortificavam, 
deu elle causa às rivalidades que tramaram 
as perseguiQoes de que foi victima. O seu t** 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 377 



lento dramatico conhécido pelo bello Auto 
dos Atnphytrioesj em que allia às fórmas vi- 
eentinas o espirìto da antiguidade classica, 
denunciou-lhe o gosto, e para urna festa do- 
mestica pediram-lhe que compuzesse um Auto 
expresBamente. Em 1545 escreveu Gamoes o 
Auto encantador de El Rei Seleuco. Està 
data é fixada pela inferencìa de Juromenha: 
«Devia ser escripta depois do anno de 1545, 
pois no Prologo, o moQo diz, fazendo mencio 
da moeda os bazarucos : = que se agora fora 
«quelle tempo em que corriam as moedas dos 
sambarcos^ etc.=os quaes corriam ainda no 
tempo de D. Joào de Castro, pois n'esse 
mesmo anno revogou este vice-rei a lei do 
seu antecessor Martim Affonso de Mello, que 
Ihe alterou o valor.» (Obr., t. iv, 480.) D^este 
mesmo Prologo deduz-se, que o Auto fdra 
eomposto no curto espago de tres dias e re- 
presentado em casa de Estacio da Fonseca, 
enteado de Duarte Rodrigues, reposteiro de 
D. JoSo HI; por està circumstancìa, D. Caro- 
lina Michaelis e o Dr. Storck explicam a ori- 
gem do Auto comò uma pega genethliaca 
para ser representada em vespera de noi- 
vado, e comparam-o com o costume da AUe- 
manha o Potter abend SckerZy em que drama- 
Reamente se festejavam os paranymphos. ^ 
£' muito presumivel que o thema dos amores 
de Stratonice e de Antigono nSLo fosse esco- 
Uùdo por Camoes. Seria conhecido do poeta 
pelos Commentarioa dos Triumphos de Pe- 
trarcha e pelos auctores classicos ; mas a re- 



Revista Ituitana^ i, p. 884. 



878 H18TORIA DA UTTBRATURA PORTUGUEZA 

ferencia a esse caso dos amores do filho do 
velho rei Seleuco pela sua formosa e joTen 
madrasta, approveitada pelo Dr. JoSo de 
Barros no seu Espelho de Casados^ publicado 
em 1540, incitava as attengSes da córte. 
Quem mais apaixonado do que Gamdes para 
dar todo o relévo a esse problema moral pelo 
effeito dramatico? Eis corno o Dr. Joao de 
Barros enunciou o caso: ^Outros (se, paes) 
fezeram grandes estremos por filhos. Seleuoo 
Rey, deu sua mulher a seu filho Antigono da 
qual elle era tam namorado que veo adoeQer 
a morte; e estando muytos fisicos de nam en- 
tenderem de sua doen^a, bum delles to- 
mando-lbe o pulso Ib'o sentiu alterar e des- 
faleger assi corno a madrasta se chegava e 
apartava delle. E entfio apertando com elieo 
fisico Ih'o veo a descobrir: o fisico disse a 
Eirei, o qual por Ihe dar a yida consintio o 
adulterio que dizem que he mayor dor que a 
morte dos filhos, e que a morte propria. De 
maneira que sem conto som as doves que os 
casados tem com seus filhos, que asi corno 
muyto OS amam asy sintem sua pena.» (Op. 
ciL, fi. III.) Tinha este exemplo velho grande 
analogia com o successo que se deu em Por 
tugal com o rei D. Manoel, que em antithese 
do Rei Seleuco, se desposou em terceiras nu* 
pcias com D. Leonor de Austria, noiva pre- 
tendida do princepe D. JoSo (o in). Se real- 
mente era inopportuno tratar theatralmente o 
caso do Rei Seleuco^ por causa das remini* 
scencias da córte portugueza, e isso causon 
embaraQos ao poeta, devemos considerar o 
Auto comò tendo sido o seu erro, que rMe 
vagamente confessa. Observou Juromenl u 



CAMdES — EPOCA, VIDA B OBRA 379 

i 

rEsta comedia nSo devia agradar na córte, 
^is sabemos que El Rei D. Manoel nao re- 
prosentou com seu filho D. JoSo iii o papel 
te Seleuco, antes Ihe tomou a noiva que Ihe 
Ktava destinada.» {Op. cit, iv, 481.) Gonyém 
Bonsiderar outra circumstancia : tendo sido 

S.blicado o Auto de El rei Seleuco em 1616, 
um manuscripto que possuia o Conde de 
Penaguiao, vSse que o Auto fora parar às 
mSos do Camareiro do Princepe real, talvez 
por denuncia pèrfida contra o poeta fundan- 
do-Be em allusÒes que nem elle mesmo notara. 
episodio palaciano nao estava apagado nas 
lembrangas dos aulicos, por que esse conflicto 
prolongou ainda os seus effeitos aos primei- 
ro3 annos do reinado do monarcha piedoso. 
A situando de D. Joao iii com sua ma- 
drasia D. Leonor de Austria, viuva do rei 
D. Manoel, era muito delicada pelos antece- 
dentes conhecidos. Desde novos e emquanto 
princepes embalaram-se na ideia do seu con- 
sorcio; criavam-se um para o outro. Quando 
princepe pediu ao pae auctorisagao para o 
casamento, pretextou D. Manoel a grave 
doenga da rainha D. Maria, sua segunda mu- 
Iher, addiando a requerida resolugao, para de- 
pois do proximo desenlace fatai. Logo que se 
achou viuvo, mandou D. Manoel pedir*a mao 
de D. Leonor de Austria para si, pretextando 
enviado, que o princepe D. Joao era idiota 
ou boba, Foi assim illudida, que ella casou por 
procara^So com o velho rei ; e quando ao entrar 
em Portugal, o princepe D. JoSo foi ao seu 
encontro» joven e apaixonado, pensando que 
era a sua noiva, ella achando-o tao gentil, 
disflA com magoa para as suas damas e com 



380 HISTORIA DA LITTERATURA PORTtraUBZA 



acerba ironia: «Este es el bobo?> Assini e 
contava D. Brites de Mendon^a, que vinlui 
no seu sequito. (Annaes de Z>. Jodo IIT^ 
P. I, e. 4) Dom Manoel procederà assim re- 
ceiando-se de que tendo o princepe estado 
desapossasse do throno! as perturbaQoes da 
córte apressar am-Ihe a morte, falecendo aa 
firn de tres annos, ficando de baìxa edade 
com vinte e dois mezes a Infanta D. Maria, 
nascida em 8 de junho de 1521. 

Os antìgos amores, os ciumes reprimìdoe, 
o desgosto da^ decepQfio commum aproxima- 
ram a rainha viuva e joven do rei, que ainda 
nSo tinha escolbido esposa ; conviviam muito, 
embora habitassem palacios separados mas 
visinhos. Nas pestes violentas de 1523 e 
1524, retirou-se D. JoSo ili para o Alemtejo, 
e a rainha viuva com a filhinha seguia-o I<^ 
após. Os povos comeQaram a representar ao 
rei para que se casasse com a juvenil ma* 
drasta, corno conta o chronista Francisco de 
Andrade. {Chr., P. i, cap. 29.) D. Joao ni 
chegou a tratar do casamento, perguntando* 
Ihe um dos seus enviados, do estrangeiro, se 
procederia no caso. O embaixador de Henrì- 
que vili, em Hespanha, escrevia-Ihe : «Queo 
rei de Portugal nSo consentia que a rainha 
viuva viesse a Hespanha, por que estava na- 
morado d'ella e a queria desposar.* Passa- 
va-se isto em Fevereiro de 1523. Quando 
D. Joao III seguia fugindo da peste para Sas- 
tarem, veiu após elle a rainha viuva, sahindo- 
Ihe ao encontro em Muge o embaixador de 
Carlos V, Cristovao Barroso, intimando-r te 
em nome do Imperador seu irmSo que s o 
proseguisse mais, devendo sahir de Portuf L 



0AMÒB8 — EPOCA, VIDA B OBRA 881 

Assim o effectuou em Maio de 1523. Foi as- 
8im que ella se viu repentinamente separada 
de sua filha, para sempre. Em 1525 estava 
D. Joao IH casado com D. Catherina de Aus- 
tria, irm& da rainha viuva, que tratou com o 
maior carinho a Infanta D. Maria; e D. Leo- 
nor casava por combinagoes politicas de Car- 
los y com Francisco i. 

Todo este drama affectivo de D. Joao iii e 
da sua madrasta ^pequena de corpo — de boa 
graga e despejo e de condigào branda e assi- 
Bada» corno escrevìa Pero Correa, embaixa- 
dor em Flandres em 1517, estava ainda na 
lembrauQa de todos, quando em 1545 compoz 
Camdes o Auto de El Rei Seleuco! O assum- 
pto interessante, pelo conflicto moral, era 
um erro, por que se prestava a malsinagoes 
calumniosas, a malévolas interpreta^es. 

Para o interesse da sua vida, a composi- 
qSo d'este Auto foi um dos èrros de que se 
accusa; nao faltavam rivalidades mesquinhas 
para o intrigarem, provocando o seu affasta- 
mento da córte. De mais, o Auto do Rei Se- 
leuco fizera um certo ruido : ahi no seu Pro- 
logo teve o poeta a coragem de proclamar a 
gra^a do frade ribaldo Antonio Ribeiro Chia- 
do, que tambem foi louvado pelo aulico Jorge 
Ferreira de Vasconcellos. Fallando do gra- 
cioso do Auto, diz o representante no Prolo- 
go : « e eu por gracioso o tomei ; e mais tem 
outra cousa, que uma trova fal-a tSo bem 
comò vós, ou corno eu, ou corno o Ghiado. » 
No Prologo de Eirei Seleuco descreve Camoes 
08 assaltos dos Embu<;ados que pretendem 
entrar no Corro & forga; este costume ainda 
persistia no seculo xviii, comò se v@ pelo Fo- 



882 HISTORIA DA LITTEBATURA POBTTJGUEZA 

Iheto de ambas Lisboas^ de 1730: cN'este 
bairro (Tanoaria) fis luzes de palidas fogud- 
ras entre os nocturnos divertìmentos, que per* 
mitte o festivo da noite, se representaram uns 
divertidos Entremezes, e nao acabarem oomo 
taes & pancada se tem por milagre, porque 
certos rebu^ados foram & vista da fun^So ea* 
moer a céa ...» Entre os encomios a Camoes, 
o Soneto que cometa : — Quem é este que na 
Harpa lusitana — que anda attribuido ao seu 
intimo amigo Joao Lopes Leit&o, allude a 
urna brilhante creaQ&o dramatica, e ao cara* 
cter classico, com que 

Abate as Musas gregas e latinas, 

E faz que ao mundo esque^am as plautinas 

Gragas, com graga e alegre Lyra ufana. 

Como seu intimo amigo, JoSo Lopes LeitSo 
conhecia as tentativas épicas do Canto he* 
roico, que andava em elaborarlo, que o absor- 
via, e o fortificava. Era urna gesta^ao sobre- 
humana ; e esse, que abate as Musas gregas e 
latinas, 

Luis de Gainòes é, que a soberana 
Potencia Ihe infiuiu partes divinas, 
^'or quem espiram as flores e boninas 
Da komerica Musa e mantuana. 

Cam5es agradeceu pelas mesmas rimas a 
bella homenagem de Joao Lopes LeitSo, no 
Soneto LXii, e exalta-lhe tambem o seu talento 
poetico por um delicado parallelismo. Por 
essa resposta se infere, comò mais tarde com- 
prehendeu o Dr. Storck^ que esse Soneto 
€ foi composto antes do desterro, na primer-^a 
època lishonense, e sem duvida, por que ie 



CAMÒBS — EPOOA, VIDA E OBRA 383 



l^rsuadiu — de que alguns Gantos dos Lusia- 
^ }& estayam entao promptos . . . > A refe- 
renda ao talento poetico do seu glorificador, 
|6 póde legitimamente quadrar com Joao Lo- 
066 LeitSo, mas nSo com um desconhecido 
iVancisco Gomes de Azevedo, que em um 
Banuscripto apparece « assignando o Soneto 
laadatorio.» (Viday p. 383.) Foi n'esses rapi- 
dos dias felìzes da córte, que nunca mais vol- 
taram, que Joao Lopes Leitao, saudando o 
reyelador das gragas plautinas nos festejados 
Antos dos Amphytrioes e de El rei Seleuco^ 
leva mais longe o assombro, e denuncia a 
renovatjào das bellezas da Musa homerica e 
mantuana. Nao era na India, que Joao Lopes 
libiULo tendo-se encontrado com Camoes, e 
ambos nas inclemencias da vida militar, o sau* 
darìa, comò entendeu Farla e Sousa, com o 
enthusiasmo que reflectia a admìragao do 
melo ambiente. 

Infelizmente poucos subsidios restam para 
reconstruir a vida de JoSo Lopes LeitSo; 
oontemporaneo e amigo da mocidade de Luiz 
de Gamòes, este joven poeta pertencia à prin- 
dpal fidalguia portugueza. Frequentaram am- 
bos a corte, sendo' o confidente dos seus amo- 
rea no pago; no Soneto cxxxiv diz-lhe Ca- 
moes: 

Senhor Joao Lopes, o meu baixo estado 
Hontem vi posto em grào tao excellente, 
Que sendo vós inveja a toda a gente, 
So por mi vos quizereis ver trocado. 

gesto vi suave e delicado 

Qne jà vos fez contente e descontente, 
Lan^ar ao vento a voz tao docemente, 
Que fez o àr sereno e socegado. . 



384 R ISTORIA DA. LITTBRATDRA P0BTUG17EZA 



Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto 

Ninguem diria em muitas ; mas eu chegn 
À expirar so de ouvir a doce falla. 

Oh, mal haja a Fortuna e o mÒQo cego ! 
Elle, que os coraQOCS obriga a tanto. 
Ella, porque os estados deseguala. 

Nos seus galanteios no paQo, Joao Lopes 
Leitao soffria do mesmo delirio amoroso de 
Gamoes, quebrantando por vezee a etìqueta 
aulica. Nos versos de Pero de Andrade Ca- 
minha acha-se urna copia: ^A Jodo Lopes 
Leitao^ estando preso em sua casa^ por entrar 
urna porta a vèr as Damas conerà vontade 
do Porteiro: 

Ainda hoje vim a saber, 
Que se agora vos nào vemos, 
E' por que quizestes ver 
O que todos ver tememos. . . 

« Resposta de JoAo Lopes : 

Bem podera eu soffrer 
O tra balbo em que me vejo, 
Se ver quem tanto desejo 
M - a mim nào foram tolher ; 
Que antes me quero perder 
Por ver o que mais tememos, 
Que deixando de o ver. 
Viver seguro de extremos. 

Estou-me agora doendo 
De qiìern ti ver para si, 
Que é melhor andar vendo 
Verduras, que estar aqui. 
Ninguem haja d6 de mi 
Por me vèr n'esta prisào, 
Hajam do meu cora^ào 
Que ve tanto damno em si. ^ 



^ Nas Poesias de Caminha, p. 361. Ed. da Àcade* 
mia. 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 385 

O Soneto de Cam5es dando-lhe noticia de 
ter fallado oom a sua namorada, esclarece a 
situa^So a que allude Gaminha. JoSLo Lopes 
Leitao estava vivendo entre as verduras da 
sua casa na provincia; em breve teve tam- 
bem Camoes de sahìr da córte por analogo 
motivo, de que se exproba : 

Mas teu sohejo e livre atrevimento 
E teu pouco segredOf descuidando 
Fot causa d'este longo apartamento. 

Se as poesias de Joào Lopes Leitao nSLo 
estivessem irremediavelmente perdidas, quan- 
tos episodios da vida de Camoes nos seriam 
por ellas revelados. Està personalidade sym- 
pathica, que sobrevive nas poesias de Ca- 
mdes, figura nas noticias heraldicas. Os No- 
biliarios manuscriptos do seculo xvi dao-nos 
Jo3o Lopes LeitSo por filho de Francisco Lei- 
tSo, fidalgo do tempo de D. Manoel, e de 
D. Joanna Freire, fìlha de Rodrigo de Sande, 
veder da rainha D. Maria, e embaixador ao 
rei catholico D. Fernando, a quem servirà na 
conquista de Granada e de quem recebeu o 
Dom. Este avo materno do poeta figura tam- 
bom no Caneioneiro geral de Garda de Re- 
zende, em um Apodo de 1498 às ceroulas de 
Manoel de Noronha : 

f 

Depois de beni apodadas, 
cheas de pena e de mei, * 
seram logo empicotadas 
ou enforcadas. 



^ AUude ao symbolìsmo juridlco dos nossos Fo- 
raes, de castigo infamante das penas e mei, Michelet, 
Origines du Droil fran^ais, p. 383. 



r 



886 H18T0RIA DA LlTTERATURA PORTUGUBZA 



pois nos gastaran papel. 
Fora melhor do ouropel 
ineu coraQam 
està vossa envengam. 

(Conc. ger. t, in, p. 137.) 

A avo do poeta, D. Margarìda Freirc 
apparece corno dama muito festejada no Cai 
cioneiro de Resende, pelo» prìncipaes poetai 
da córte de D. Manoel, taes corno Joao d 
Silveira, Luìz da Silveira, Jorge da Silveira 
D. LourenQO de Almeida, Conde de Aiooutiiii 
Fernao Telles, Conde de Vimioso, Conde da 
Faram, D. Francisco de Biveiros, D. JoSo Lo 
bo, Diogo de Hello, Jorge de Mello e outrcN 
muitos. {Cane, ger.^ iii, 43.) Como Joio Lopei 
LeitSo teria na familia quem Ihe reoordasM 
08 afamados Serdes da córte de D. Manoel, i 
quem Ihe suscitasse n'alma o sentimento di 
poesia e o espìrito de galanteio. Entrou mnita 
creanza para o servilo do paQO, sendo esco 
Ihido para pagem da lauQa do Princepe Dod 
JoSo, filho unico de D. Jo9o ni; Camoes esalti 
a indole poetica do que foi o primeiro a loo* 
val-o : 

De tao divino accento em voz humana, 
De elegancias que sào tao peregrinas, 
Sei bem que minhas obras nào sào dinas; 
Que o rudo engenho meu me desengana. i 

Porém^ da vossa penna illustre mana 
Licor que vence as aguas cabalinas, 
E Gom vosco, do Tejo as flores finas 
Farào inveja a copia mantuana. 

E pois a vós de si nao sendo avaras, 
As filhas de Mnemdsine formosas 
Partes dadas vos tem ao mundo daras. 



GAM5E8 — EPOCA, VIDA E OBRA 387 



A mìnha musa e a vossa tao famosa, 
Ambas se podem n'elle chamar raras, 
A vosa de alta, a minha de invejosa. 

(Sonet. LX11.) 

Jo9o Lopes Leitao ^ pertence a essa se- 

Kinda gera^ao dos Fieis de Amor, que succe- 
a a Bernardini Ribeiro e a Christovam Fal- 
o; reconhecia o genio de Camoes'e acom- 
ava-o nas intrigas amorosas da córte. 
U.em nas Redondilhas de Gamoes um Mote e 
Volta A Joào Lopes. Leitao, aobre urna pega 
me eaeha que deu a urna dama que se Ihe fa^ 
pta donzella: 

j Mote : 

1 Se vossa dama vos dà 

[ Tudo quanto vós quizestes, 

Dizei-me: P'ra que Ihe destes 

O que vos ella fez jà ? 

Volta : 

Sendo os rostos envidados, 
E vós de cachas mil contos 
Sabeis com quam poucos pontos 
Que Ihes achastes quebrados ; 
Se o que tem que vos dà, 
Vós mui bem Ih'o merecestes, 
Por que se a cacha Ihe destes, 
Tinha-vol-a feìto jà. 

[Db., t. IT, 49.) 



^ Basta o agradecimento de Gamoes pelas mes- 
mas consoantes, exaitando o auctor do Soneto — Quem 
^ este que na Harpa lusitana — para se reconhecer que 
Aio era dirìgido a nm desconhecido. Francisco Gomes 
de Azevedo, encontrou-o em um manuscripto. E comò 
poderìa um ignorado sujeito conhecer tao intimamente 
JJunoes e f azer-lhe a glorificagào C9n vieta e fervorosa ? 
"^'estas attrìbui^oes Faria e Sousa teve melhores funda- 
ler^-^s que o Dr. Storck. 



388 HISTOBIA DA LITTBRATaRA PORTUOUBZA 



Pelas suas ìmportantes rela^es de familia. 
Joao Lopes Leitao regressa brevemente I 
córte ]& perdoado dos atrevidos galanteiofly 
estimado pelo princepe D. Joào, pelo seu W 
lento poetico; seu irmao Fedro LeìtSo, pagedi 
do Livro em casa do Infante D. Duarte, età 
tambem poeta, figurando no certame do B^ 
ceto de louvor a D. Margarida da Silva. ^ Dì- 
rigiu-lhe da India urna carta Joao Lopes Lei- 
tSo, a qual se guarda na bibliotheca da Aja* 
da. ' Segundo os Nobiliarios manuscriptos,; 
este amigo de Gamoes, que o foi encontrar na; 
India e assistiu ao Banquete de Trovasi nio 
casou, e d'elle ficara urna filha naturai cha-j 
mada D. Violante Leitao, que se metteu frwftj 
em Odivellas. Um outro seu irmao foi fradi 
dominico, Fr. Estevam Leitao, que segone 
o partido do Frior do Grato. | 

Fara Camoes nao se abrandaram os rigo*! 
res, e augmentaram as malevolencias pelaiiiH 
punidade da distenda. Elle mesmo se queixa 
d'està covardia: «Entao ajuntou-se a istQ^ 
acharem-me sempre na pele a virtude dftj 
Achilles, que nao podia ser cortada se naOj 
pela sola dos pés ; as quaes de m'as nao ^ 
rem nunca, me fez vèr as de muitos, e nao; 
engeitar conversa<;des de menor impressao, ai 
quem fracos punham m&o nome, vìngandoj 
com a lingua o que nao podiam com o bra^o.» 
Este mdo nome era a alcunha de Trinca 
Fortes, revelado pelo epigramma, do Ghiada 



^ Poesias ineditas de P, deAndrade Caminha,}^ 
288. Ed. Priebsch. 

* Juromenha, Obr., t. ii, p. 432. 



CAM5E8 — E^OCA, VIDA E OBRA 389 



corno se vd por està Carta primeìra dirigida 
da India» CamSes andava entao envolvido 
nas praxes fidalgas da Valentia^ e pode-se 
consideral-a tambem um dos seus erros, a que 
no Soneto allude. Na Elegia ii tratando do 
seu amor, escapava-lhe a nota da Valentia 
que o dominava : 

Amor nào sera amor, se nào vier 

Gom doudices, deshonras, dissen^oes, 
Pazes, guerras, prazer e desprazer ; 

Perigos, linguas mas, murmuragòes, 
Giumes, arruidos, competencias, 
Temores, nòjos, mortes, perdÌQÒes. 

A praxe da Valentia foi urna pandemia 
da sociedade do seculo xvi, sendo em Gamdes 
urna das causas que o afastaram da córte. 
Acha-se uma precisa descripQSo d'està mono- 
mania na novella picaresca de Vicente Espi- 
nel, Vida del Escudero Marcos de Obregon: 
< entre muchas cosas que me succedieron fué 
una dar en Valentia ; que havia entonces, y 
aun creo que ahora bay, una especìe de gente, 
que ni parecen cristianos, ni moros, ni genti- 
les ; sino su religion es adoraren la diosa Va- 
lentia^ por que les parece que estando en està 
confradia, los tendran y respetaran por va- 
lientes^ no curando à serio, si no à parecelo:» 
(p. 189.) Fallando de si, o poeta hespanhol 
Vicente Espinel descreve perfeitamente os pe- 
rigos da mocidade portugueza: «Pùseme es- 
pada y en las obligaciones en que se pone 
quien la cine, que con el desvanecimiento de 
la Valentia y con el haber dado en poeta y 
musico, que qualquiere de las tres bastaba 
para deribar otro juicio mejor que el mio, co- 



390 OISTORIA DA LITTERATURA FORTUGUEZA 

\ 

mencé 6, alear mas de Io que me estaba y a 
tenerme por paseante, de manera que no ha- 
bia portuguez mas azucarado que yo. . .> Està 
comparagao final, e as feÌQoes do vedente do 
seculo XVI esboQadas por Espinel, dfto-nos a 
comprehensSo d'està phase do caracter de. 
Camoes, que reapparecendo em muitas sitaa- 
(fies da sua vida, explicam urna das causas 
do afastamento da córte. Este costume da 
Valentia, que foi idealisado em Novellas pi* 
carescas e Comedias famosas hespanholas, 
conservou-se no seculo xvii em Portugal, 
comò se ve pelo encontro nocturno de D. Fran- 
cisco Mailoel de Mello e D. JoSo iv, e tambem 
na morte de Fedro Severim de Noronha, filho 
d'aquelle que mandou gravar o primeiro re- 
trato de Cam5es, assassinado uma noite na 
Tanoaria pelos mulatos de D. Àffonso vi. No 
seculo XVIII a fidalguia da córte ainda con- i 
servava a praxe da Valentia, apontando-se 
Sebastiao José de Carvalho (depois Marquei 
de Pombal) afamado n'essas vacaQdes noctnr- 
nas. No prologo do Auto de El rei Seleueo 
allude Camoes ao costume car acteristioo : 
cOra vieram uns Embu^adotes, e quizeram 
entrar por forqa; oll-o arrancamento na 
mào; deram uma pedrada. . . » Os Cdrros cu 
Pateos das Comedias, em que Ihe representam 
OS Autos e OS arranques da Valentia, elle 
bem cèdo os considerou comò os erros que 
vieram aggravar-lhe a corrente que o imp^ 
lia para a desgraga. * 



' E' destituido de verdade o retrato que Anthero 
do Quental fez de Camoes, considerando romanticas u 
Buas desventuras: «A bem considerar, Camoes fc* sb- 



r 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 891 

Depois dos seus erros ou delictos da me- 
Gìdade, corno Ihes chamaria Camillo, apon- 
tou CamSes a ma Fortuna conjurando-se com 
o Amor ardente, para a sua perdigao. Embora 
vaga e indefinida, a phrase ma Fortuna ex- 
prime uma realidade; successos extranhos à 
Yontade e de que elle nào tinha a minima re- 
spoDsabilidade actuaram na sua existencia em- 
bara<?ando as legitimas aspiraQoes do talento. 
N3o faltaria na corte quem recordasse a Dom 
Jo&o ni, que o imaginoso e apaixonado poeta 
era sobrinho de Dom Bento de Camoes, com 
quem o rei tivera varios conf lictos : primeira- 
mente, a posse do thesouro achado em 14 de 
Agosto de 1539 pelo coUegial do Collegio de 
Todos OS Santos Àleixo de Fìgueiredo, debaixo 
das escadas que iam para a torre do Mosteiro 
de Santa Cruz ; queria Dom Bento de Camdes, 
entSo Prior geral, que o thesouro pertencesse 
ao Mosteiro, e o monarcha pretendia-o pelo seu 
direito magestatico. N'este conflicto foi dada 
sentenza a favor de D. Joao in. Passado este 
caso, em que D. Bento de Camdes pugnava a 
favor da sua Ordem, surgiu em 1540 outro 
conflicto com o rei; as grossas rendas do 
Priorado mór de Santa Cruz, que eram rece- 
bidas pelo Infante D. Duarte, vagaram por 
sua morte, e entendeu o Prior Geral que ellas 
regressavam ao Mosteiro; Dom JoSo ni quiz 



tes um homem feliz, do que um desgra^ado. A felici- 
dade burgueza e pacifica nào Ihe convinha ; teve a vida 
de aventuras e de fortes emoQÒes que quadravam ao 
sen genio, e que todo o verdadeìro poeta preferirà sem- 
pre, do que estou persuadido, a qualquer felicidade 
calma e monotona.» (Circulo, p. 171.) 



^ 



892 HIBTORIA DA LITTERATURA PORTUOnEZA 

dar essas rendas ao seu bastardo, fìlho di 
D. Isabel Moniz, Dom Duarte, que mandara 
crear no convento da Còsta, fazendo-o na maifl 
tenra edade Prior-mór de Santa Cruz de 
Coimbra, com dezoito annos apenas. O rd 
appelou para a Curia romana, e o papa Pau- 
lo III em 1541, mandou deferir as rendas ao 
monarcha para a nomea^So do seu bastardo, 
que veiu a morrer em Lisboa em 1543 anles 
de ser sagrado arcebispo de Braga. Aiém 
d'isto, durante o triennio em que D. Bento de 
Camoes exerceu o cargo de Cancellano da 
Universidade, andou sempre em conflictosde 
jurisdicQào com o Reitor da Universidade, o 
Bispo de San Thomé, que corno dominicano 
professava grande antipathìa contra quem era 
augustiniano. O reformador Frei Braz de 
Barros escrevìa por vezes ao monarcha, es- 
clarecendo e attenuando estas birras, em que 
a rasao estava sempre do lado de Dom Beato 
de Camoes. Todas estas lembrauQas do pri- 
meiro Cancellano da Universidade, austoro 
de costumes e fecbado na pureza do seu as- 
cetismo, eram fracas recommendagoes para o 
poeta medrar na córte ; Camdes o reconhecerf 
bem ao alludir & sua ma fortuna. 

Educado na corrente humanista francezaj 
que tanto fizera florescer as Escholas d( 
Santa Cruz de Coimbra, esse brilhantismi 
era agora of fuscado pelo predominio dos J( 
suitas no animo de D. Jo3o ui, que tratan 
de monopolisar o Ensino mèdio. A eschol 
de André de Resende foi mandada fechar; 
o espirito d'està transformagao brusca, resu- 
mia-se na phrase de Dom Joao m em relacaol 
aos escholares, — que os queria mais ca^^^U-ì 



r 



CAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 398 

t08 e menos latinos. la imperar o pezado e 
eetupidecente methodo alvaristico, e apagar-se 
itoda a elegancia dos bons classicos e o doce 
ealto da Antìguìdade. NSo era està crise pe- 
dagogica e litteraria urna ma fortuna para 
Gam5es, creado em urna mais saudavel e 
franca atmosphera de mentalidade, em que 
pensamento e a imagina^So se fortificavam 
penetrando o espirito da Àntiguidade classica ? 
Mas està crise ainda se tornou mais grave, 
quando em 1545 tratou Dom Joao m de no- 
mear um sabio humanista para dirigir a edu- 
cando litteraria do esperangoso princepe Dom 
Joao. Lembrou-se o monarcha de chamar 
para Portugal o portentoso Damiao de Goes, 
afamado entro os grandes humanistas da Eu- 
ropa, e confiar-lhe a educagao do princepe. 
Era realmente urna ventura o ter nascido em 
tempo que se podia receber Iìqoos de DamiSo 
de Goes; elle por ordem do rei regressou & 
patria com toda a sua familia. Logo que o 
jesuita P.<i SimSo Rodrigues soube da inten- 
(fio do rei, fez urna accusagào secreta & In- 
quisigao de Evora, em 5 de Septembro de 
1545, denunciando que Dami§o de Goes vi- 
vera na intimidade de Erasmo, que conversara 
eom Luthero, e era amigo de Melanchton. E 
come habil jesuita, levou Dom Jo3o m a fal- 
tar ao compromisso do convite a DamiSo de 
Goes, fazendo-o preferir para mostre do prin- 
cepe D. Joao o Dr. Antonio Pinheiro, que em 
Paris fdra celebrado professor de Rhetorica. ^ 



Historia da Universidade de Coimbra, t. i, p. 
87 



894 fllSTORlA DA UTTERATURA POBTDGUEXA 

A acousaQflo secreta feita pelo P.« Simao Rodri* 
gues Burtiu o seu terrivel effetto em tempo 
conveniente, sendo DamiSo de Goes arrastado 
ao carcere inquisitorial ; e o Dr. Antonio Pi- 
nheiro, cooperando no plano jesuìtico, foi no- 
meado Bispo de Leiria e tornou-se decidido 
partidario de Philippe n. Em roda do prin- 
cepe D. JoSo agruparam-se poetas e fidalgos 
que mais se conformassem com a monita do 
P.® SimSo Rodrigues. Para attenuar as admi- 
ragSes que o genio de GamSes provocava, su- 
scitaram no princepe o enthusiasmo pelo veiho 
Sft de Miranda, philosophicamente refugiado 
na sua quinta da Tapada no alto Minho. A 
tradiffio da hostilidade de Sfi de Miranda 
centra Camoes nSo tem outro sentido se nSo 
o intuito dos que dirigiam os enthusiasmos 
ingenuos do princepe D. Joio. ^ E comò se 
està md fortuna ainda n&o bastasse, corno 
diz o poeta no seu nitidissimo Soneto, para 
castigar as suas mal fundadas esperan^as, 
veiu com os breves enganos um ardente amor 
tornar irremissivel a sua perdiQ&o. 

Na CauQSo xi, incomparavel expressio do 
sentimento humano, e de um extraordinario 
valor autobiographico, descreve Camdes a 
paixio exclusiva que Ihe enche a vida. E' a 
historia do seu amor relacionado com todoa 
OS accidentes, soffrimentos e desastres que 
constituiram a trama da sua existencia. A 
GangSo xi é uma admiravel synthese, em que 



^ O poeta Philippe de Aguiiar. que mandava \ "- 
SOS a Sa de Miranda, era filho de Francisco Velasq s 
de Aguiiar, trinchante mór do princepe D. Joào; e i t 
sua mae primo de D. Catherina de Athayde. 



r 



CAMÒBS — BPOCA, VIDA E OBRA 395 

define todos os transes porque passou até ao 
refugio das suas recordagoes. 

Descreve o temperamento amoroso, reve- 
lado desde o bergo pela exquisita sensibili- 
dade que Ihe causavam as cantìgas tristes com 
que era adormecido. Essa precocidade prepa- 
rava-o para a impressSo decisiva da imagem 
reaU que tantas vezes entrevira em sonhos: 

De quem eu vi depois o originai, 
Que de todos os grand es desatinos 
Faz a culpa soberba e soberana. 

E diante d'aquella fórma humana, que 
sdntUava espiritos divinos, passam-se as ra- 
pidas crises dos desdens, das enganosas es- 
perangas, da inoerteza, e de sentir-se compre- 
hendidOy mas invejado, envolvido em perse- 
goiQoes odiosas : 

Qne genero tao novo de tormento 
Teve Amor, sem que fosse tao semente 
Provado em mi, mas todo executado! 
Implacaveis durezas, que ao fervente 
Desejo, que dà forga ao pensamento 
Tinham de seu proposito abalado, 



Aqui sombras phantasticas trazidas 
De algumas temerarias esperan^as. . . 
Mas a dór do desprezo recebido 
Que todo o phantasiar desatinava, 
Estes enganos punha em desconcerto. 
Aqui o adivinhar, e ter por certo 
Que era verdade quanto adivinhava, 
E logo o desdizer-me de corrido ; 
Dar as cousas que vìu outro sentido ; 



E depois que um doce e piedoso mover 
i ' olhosy um gesto puro e trasparente o en- 
e ìtraram, e 



396 H18TOR1A DA UTTERATURA PORTUOUEZA 



N'outro sér me tiveram transformado, 
E tao contente de me vèr trocado, 
Que as magoas enganava co'os enganos 



Deu-se a fatalidade da separa<?So bniflca, 
relegado da córte, para n&o mais vèl-a. Ca- 
mdes descreve està situa^ao, que vae deter- 
minar inteirame^te o plano da sua vìda, cada 
vez mais tormentosa e desesperada: 

Pois quem póde pintar a vida anaente 
Com um descontentar-me quanto via, 
E aquelle estar tao longe d'onde estava ; 
O fallar sem saber o que dizia; 
Andar sem vèr por onde ; e juntamente 
Suspirar sem saber que suspirava ? 



Agora co'o furor da magoa irado, 
Querer e nao querer deixar de amar; 
E mudar n'outra parte, por vingauQa 
O desejo privado de esperanga, 
Que tao mal se podia jà mudar ? 



Este curso contino de tristeza, 
Estes passos vanmente derramados, 
Me foram a pagando o ardente gosto 
Que tao de siso na alma tinha posto. 

N'este prolongado e amarissimo tormento, 
CamSes vè-se forgado a deixar a patria, ir 
para muito longe para se esquecer de tudo 
e de si mesmo. Elle descreve este passo des- 
esperado : 

D'està arte a vida em outra fui trocando; 
Eu naoy mas o destino feio, irado; 
Que eu, inda assi, por outra a nao trocara. 
Fez-rne deixar o patrio ninho amadOf 
Passando o longo mar, que amea^ando 
Tantas vezes me esteve a vida cara. 



CAMÒSS — EPOCA, VIDA E OBRA 397 



Agora exp'rimentando a furia rara 
De Marte, que nos olhos quiz que logo 
Visse, e locasse o acerbo Mieto seUy 

E n'este escudo meu 
A pintura verdo do infesto fogo. 

N'estes versos resumé o poeta a sua par- 
fida para Ceuta, o tempo que ahi serviu mili- 
tarmente e comò foi ferido, perdendo o olho 
direito. Na Can^So xi, escripta nos ultimos 
annos de Camoes, este facto é uma recorda- 
qSo que se encadèa na sèrie das suas calami- 
dades; aqui 6 um ponto de partida que nos 
leva a acompanhal-o das digressoes pelo Ri- 
batejo para o norte de Africa. Que motivos 
levariam Camoes, comò homem culto desti- 
nado à actividade mental, & vida artistica e 
espeoulativa, a arrojar-se a um clima inhospi- 
to, ao ruido da guarnigSo militar aborrecida, 
sequestrado a todos os interesse do espirito? 

Nao foi por certo uma aventura, mas um 
pensamento que o impelila & importante re- 
soluto. Esse pensamento apparece expresso 
em muitas das suas composigòes lyricas e 6 
proclamado nos Lusiadas. E' o Imperio afri- 
cano. Todo o homem culto do seculo xvi co- 
nhecia a importancia da queda de Constanti- 
nopla sob o poder dos Turcos, e as tre- 
mendas consequencias do desenvolvimento 
maritimo dos Osmanlis no Mediterraneo e 
estabelecimento dos Estados berberescos no 
norte da Àfrica, perturbando pela pirataria 
t *a8 as na^des occidentaes, comò a Italia, a 
1 .spanha e Portugal. 

Ao terminar os seus estudos, em 1542, 
( nSes viu n'esse anno Dom Joao iii commet- 
1 deploravel erro governativo de abando- 



398 



HISTORIA DA LITTBRATUBA PORTUODEZA 



nar Safìm e Azamor. Os deslumbramentos da 
córte e a sua tenra ed ade fizeram-Ihe esque- 
cer esse symptoma de decadencia. Agora no 
meio dos seus intimos desalentos, um facto 
importante veiu revelar-lhe quanto digno se- 
ria gastar o vìqo da mocidade indo combater 
contra os mouros. Em 1547 succedeu o li- 
moso cérco de MazagSo, tao celebrado pelos 
poetas contemporaneos, corno Jorge Ferreìra 
de Vasconcellos na comedia Ulyssipo^ e por 
Ghiado na Pratica de auto figuras^ em qae 
se reflecte a forte impressao causada por està 
acontecimento no animo publico : 

Gama: Além vejo que arrefece. 
Lopo: Tudo agora està em paz. 
Gama: Isso é que me apraz. 

O Xerife? 
Lopo : Nao parece, 

Dìzem que em Marrocos jaz. 
Gama: Senhor, corno nos acodes 

a maior tribulagào. 
L' PO : Saheis jd de Mcusagdo, 

Que é outro segundo Rhodes ? 
Gama : Tendes infinda rasào ; 

a Fortaleza 

està sobre urna penedia^ 

que nào pode ser minada, 
Lopo : Dizem-me que està cercada, 
Gama: Si; da banda da enxovia, 

Que do mar nào é feUo nada. 
Lopo : Porém tudo bade ter firn, 

Nao ba quem viva quieto; 

ho milhor be ser discreto 

e assentai que passa assi. 

(FL. 3 t) 

Este successo suggeriu a Camdes o troca ) 
desterro infructuoso do Ribatejo pela yì ì 
de acQSo nos recontros de Africa, cumprìr ) 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 399 

asaiin a pragmatica exigida, dirigindo-se para 
Geuta, a principal conquista portugueza, onde 
88 faziam appréstos para a resistencia. Pela 
oonfisa&o de D. Catherina de Athayde (de Sou- 
fia) a Frei Joao do Rosario, tempos antes da 
sua morte em 1551, perguntada sobre a causa 
do destSrro de Gamoes, se fora por amores, 
respondeu: «que assim n3o era; e que fora 
aquella alma grande^ que para emprezas 
grandes e a regides tao apartadas o levava.^ 

Como saberia està dama, vivendo casada 
na provincia desde 1543, que o admirado 
poeta sahira de Portugal para regides apar- 
tadas, levado pela sua alma sublime para 
emprezas grandes? Basta considerar, que sua 
mie D. Philippa de Athayde, era camareira- 
mór da rainha D. Catherina, e seu pae D. Al- 
varo de Sousa era Védor da Casa da Rai- 
nha; elles a informariam das noticias e pe- 
quenos interesses da córte. O que seriam estas 
emprezas grandes? O poeta ]& elaborava 
mentalmente o Canto heroico da historia por- 
tugueza; esse ideal o fez comprehender a 
importancia politica do Imperio africano, ini- 
do da grandeza de Portugal. O acontecimento 
de 1547 veìu dar reldvo ao seu pensamento, 
pela importancia que o dominio do norte de 
Africa exercia sobre a politica e a seguranga 
da Europa. 

Vejamos em breve summula o problema 
africano no seculo xvi, para bem comprehen- 
( r o pensamento de Camoes, que o inspirou 
( m tanta sìnceridade, e do qual D. Sebastiao 
] &Ì8 impulsivo do que intelligente converteu 
i 1 uma estupenda catastrophe. O Mediterra- 
] "0 estava dominado por tres povos que ahi 



400 HISTORIA DA LITTBRATUBA PORTUGUEZA 



exercìam a sua actividade; os Osmanlis, oa 
Italianos e Hespanhoea^ que pela sua desunìSo 
deixavam engrandecer o perigo turco. Os Oa- 
manlis tinham-se apoderado da Huagrìa, e 
eram servidos na guerra pelos Tartarea, a cuja 
raQa pertenciam; sustentavam urna incessante 
lucta centra es eutres dois peves que mal se li- 
gavam para combatel-es. Venceram os Hespa- 
nhoes nas cestas de Africa e es Italianos nas 
costas da Grecia ; amea^aram Gran, atacaram 
cem tedas as suas fergas Malta, conquistaram 
Chypre, infestando pela pirateria as costas 
italianas e hespanholas. Era a perspectiv^a da 
antìga invasSo dos Arabes feita agora pelos 
Turcos, que es substituiam; era urgente de- 
struil-os para mantSr a ac^ao livre d'estes pe- 
ves ne Mediterraneo, e iste sómente por urna 
coUigaQSo pelo influxe da religiao catholica e 
pelos interesses peliticos. Des^e a tomada de 
Ghypre em 1588 per Barbarexa. que atacou 
e venceu a armada christ3 junto a Prevesa, 
OS Turcos ficaram senheres do Mediterraneo 
até 1571, em que a Victoria de Lepanto por 
D. JoSo de Austria, Ihes destruiu a sua pre- 
ponderancia. 

E' n'este longo periodo de 1538 a 1571, 
em que os Turcos estabelecendo-se nas costas 
africanas, ternam e Imperio africano e pro- 
blema vital para as na^oes catholicas occiden* 
taes. As luctas do imperialismo, em que Car- 
los V, Francisco i e Henrique via sacrificam 
as energias da Europa aos seus egoismc, 
ternam mais terrivel e problema african , 
por que os Turcos j& nao encentram urna r 
sistencia decisiva. A lucta dos dois pov< 
centra es Osmanlis, come observa Ranke, i 



r 



Ci^HÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 401 

prìmiu-lhes um caraoter mixto de altivez e de 
solercia, de presump^ao e de engenhosa cu- 
rìosidade, de cavalleria romantica e de poli- 
tica artificiosa, de crenga nos astros e de 
mysticismo cheio de abnega<;ao.> ^ Como ho- 
mem culto e valoroso Gamdes comprehendia 
este problema, vendo a antithese portugueza: 
em uma epoca inicia-se o Imperio africano 
pela tomada de Ceuta em 1415, de Alcacer 
Geguer em 1458, de Arzilla e Tanger em 
1471, de Anafé em 1468, derrota do Prin- 
cepe de Fez e Maquinés sob D. Manoel, to- 
mada de Safim em 1508, de Azamor em 1513, 
de Amagor em 1515; em outra epoca, sob 
D. Joao III cometa o desmoronamento d'esse 
Imperio, pelo abandono da fortaleza de Cabo 
de Aguer em 1536, e depois da tomada de 
Ghypre, em que cometa o Imperio de Barba- 
ro-xa no Mediterraneo, s3o em 1542 abando- 
nadas por ordem^ regia Safim e Azamor. A 
defeza heroica do Cérco de Mazagao vinha 
acordar na alma do poeta o ideal africano, 
que tinha de soffrer em 1549 uma terrivel 
decepQSo, quando D. Joao iii mandou estupi- 
damente abandonar Arzilla e Alcacer Ceguer, 
ficando o Imperio de Africa reduzido a Ceu- 
ta, Tanger e Tetu3o. A ideia do heroismo em 
Africa era substituida pelo espirito de ga- 
nancia na India. 

No admiravel episodio do Velho de Res- 
tello, em que se appresenta Camoes comò um 
sublime symbolista, propoe no momento do 



* Hist do8 Osmanlis, 



402 HISTOBIA DA LITTBRATDRA PORTUOUBZA 



deslumbramento da aventura indiana, o pro- 
blema concreto africano: 

Nào tens junto comtigo o Ismaelita, 

Com quem sempre teràs guerras sobejas ? 

Nao segue elle do Arabio a lei maldita. 

Se tu pela de Ghristo so pelejas ? 

Nào tem cidades mO, terra tinnita, 

Se terras e riqueza mais deseias ? 

Nào é elle por armas esforgado, 

Se queres por victorìas ser louvado ? 

Deixas crescer és portas o inimigo 
Por ires buscar outro de tao longe, 
Por quem se despovòe o reino antigo, 
Se enf raquega e se va dettando a longe ? 
Buscas o incerto e incognito perìgo, 
Porque a fama te exalte e te lisonge, 
Chamando-te Senhor, com larga copia, 
Da India, Persia, Arabia e da Ethiopia! 

(Ltis., IV, lOO-l) 

E fallando de D. Jo3o i, exalta-o pela lu- 
cida iniciativa da acgSo guerreira : 

Este é o primeiro rei que se desterra 
Da patria, por fazer que o Africano 
GonhcQa pelas armas quanto excede 
A Lei de Ghristo a Lei de Mafamede. 

(Id. ib., est 48.) 

Na Egloga i, em que celebra a morte do 
eeu joven amigo D. Antonio de Noronha, em 
Africa, ao alludir ao nascimento de D. Sebas- 
tiào, vaticina: 

— que a ser conservado do bestino, 
As benignas estrellas promettendo 
Lhe estào o largo pasto de Ampelnsa 
Go'o Monte que em móo ponto Yiu Medusa. 

Tinha o poeta a comprehensào darà do 
problema, a que Dom Sebastiio desde 1574 



CAMÒBS — BPOGA, VIDA E OBRA 403 

a 1678 deu a fórma de urna misdSo mystica 
de nm Cavalleiro celeste. A partìda de Camoes 
para a Africa n3o foi urna a ventura de poeta, 
mas o impulso de um pensamento que Ihe fi- 
zera comprehender a grande empreza. 

Deliberado a partir para a Africa, diri- 
giu-se Camoes a Lisboa para seguir em qual- 
quer nào do estado; ^ conhecida a resoluQio 
desesperada, alguns amigos intervieram, e 
parece que a familia de Catherina de Athayde 
]i se mostrava complacente. No Soneto cxli 
esboQa-se està situagSo: 

Na desespera^ào jà repousava 
O peito longamente magoado, 
E com seu damno eterno concertado 
Jà nao temìa, ja nao desejava. 

Quando urna sombra va me assegurava 
Que algum bem me podia estar guardado 
ikn tao formosa imagem^ que o traslado 
N'alma ficca, que n'ella se enlevava. 

Que credito que dà tao facilmente 
O corallo àquillo que deseja, 
Quando Ihe esquece o fero seu destino ! 

Ah ! deixem-me enganar, que eu sou contente ; 
Pois postoque maior meu damno seja, 
Fica-me a gloria jà do que imagino. 

Apesar de deslumbrarem o poeta aquellas 
mesperadas esperan^as, elle reconheceu que 



Na segunda Vida de Gamdes, refere Farla e 
( da a tradiQao, que o poeta voltou de Santarem à 
e e, e que por ter reatado os seus amores Ihe fora in- 
f do um segundo destérro para Ceuta. Storck borda 
e a hypothese : a commuta^ào da pena do destérro 
T Ribatejo, por dois annos de servilo militar em 



( 



^04 HISTORIA DA LITTERATORA PORTUOUBZA 



a edade Ihe impunha um systema de vida, 
urna situa^ao social; e partiu para Geuta, re- 
ferìndo-se a està viagem o Soneto cxxxix: 

Por cima d'estaa aguas forte e firme 
Irei aonde os Fados o ordenaram, 
Pois por cima de quantas derramaram 
Aquelies claros olhos pude vir-me. 

Jà chegado era o firn de despedir-me ; 
Jd mil impedimentos se acabaram, 
Quando rios de amor se atravessaram 
A me impedir o passo de partir-me. 

Passei-os eu com animo obstinado, 
Gom que a morte forgada gloriosa 
Faz o vencido jà desesperado. 

Em qual figura ou gèsto desusado, 
Pode jà fazer medo a morte irosa 
A quem tem a seus pés rendido e atado ? 

Era Catherina de Athayde que Ihe pedia 
para ficar em Lisboa; os grandes desgostos 
tornaram o animo obstinado para aquelle 
passo, e partiu. Por certo que està situa^ao 
descripta n'estes dois Sonetos é multo diffe- 
rente d'aquelle estado de espirito com que 
partiu annos depois para a India tendo enfcf- 
cado todas as suas esperauQas. Gamoes de- 
screve com suave magoa a partida para Geuta, 
em umas deliciosas Voltas : 

Partir nào me atrevo, 
Que me lembram magoas ; 
Se me levam aguas, 
Nos olhos as levo. 

Se vou ao Tejo 
Pera me partir, 
Nam me posso ir 
Sem ver meu desejo, 



GAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 405 



E quando o vèjo, 
Partir nao me atrevo; 
Se me levam aguas 
Nos olhos as levo. 

Se de saudade 
Morrerei ou nao, 
Meus olbos dirào 
De mi a verdade. 
Por elles me atrevo 
A lan^ar às aguas, 
Que mostrem as magoas 
Que n'esta alma levo. 

As aguas que em vSo 
Me £zem chorar, 
Se ellas sao do mar, 
Estas de amor sao. 
Por ellas relevo 
Todas minhas magoas; 
Que se for^a de aguas 
Me leva, eu as levo. 

Todas me entristecem, 
Todas sao salgadas ; 
Porém as choradas 
Dooes me pareeem. 
Correi, doces aguas, 
Que se em vós me enlévo, 
Nao dóem as maguas 
Que no peito levo. ^ 

Dera-se urna acalmagao na alma do poeta» 
sabendo que ainda era amado. A viagem para 
Ceuta. comò se verifica pela marcha de algu* 
mas frótas, durava geralmente dez dias; e 
quando as calmarias pezavam, as frotas apor- 



^ No Cancioneiro de Evora, publicado por Har- 
dungi p. 80, vem a prìmeira estrophe, <]^ue completa o 
texto colligido dos manuscriptos de Fana e Scusa por 
Juromenha, Ohr., iv, 121. 



406 H18TORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



tavam nas costas do Algarve, em Faro ou 
Lagos. Da Gan^So xvi infere Juromenha, que 
a néo em que ia Gamoes para Ceuta aportara 
junto a Villa Nova de PortjmSo, no sitio da 
ribeira de Buyna, fundando-se nos seguintes 
versos : 

Por meio de umas serras mai fragosas, 
Geroadas de aylvestres arvoredos, 
Retnmbando por asperos penedos, 
Gorrem perennes aguas deleitosas 
Na Ribeira de Buina, asai chamada. 

Storck n3o acceita està inferencia plausi- 
vel, pela serenidade que inspira a Gamoes 
este trecho da paizagem algarvia : « Gontra a 
opiniio de Juromenha falla a serenidade ou 
mesmo a intima alegria em que os versos de 
Gamoes envolvem o quadro da paizagem— 
assim comò a affeigSo candida e terna da ho- 
menagem prestada na estrophe final à dama 
querida.» (Vida^ p. 400.) E' justamente aex- 
pressSo intima do regosijo moral que Ihe 
deixou a noticìa — Que algum bem Ihe podia 
estar guardado, — o que dfi certo aspecto de 
verdade ft GauQao xvi e às suavissimas ende- 
chas da despedida para Geuta. 

Na Gangao xi, que é urna Autobiographia 
de Gamoes, encontra-se a impressào d'està 
viagem forgada : 

Agora peregrino, vago, errante. 
Vendo na^oes, linguagens e costumes, 
Céos varios, qualìdades differentes. 
So por seguir com passos diligentes 
A ti, Fortuna injusta, que consumes 
As edades, levando-] hes diante 
Urna esperauQa em vista de diamante : etc. 




GAMOeS — EPOCA, VIDA E OBRA 407 

A Carta de Camdes, que cometa pela lo- 
cuqSo tradicional : < Està vfie com eandèa na 
mdo morrer.nas de v. m.» ^ é considerada 
pelo Dr. Storck corno tendo sido escripta de 
Ceuta. * 

O estado melancholico de urna tristeza 
idealmente systematisada, que prevalece na 
Elegia n, é o que transpira de toda està 
Carta» em que elle, servindo-se de uns versos 
de Garcilasso, allude & situa^fio material: 

La mar en medio y terras he dejado 
A Guanto bien, cuitado, yo tenia : 

E fazendo consideraQoes sobre a sua si- 
tuaQSo moral, intercala na prosa pittoresca 
versos da Ecloga Cria fai, ent3o em voga, 
que o poeta sabia de cor : 

Emfìm en la tierra queda 
E o mais a alma acompanha. 

Na estrophe 85 do Crisfal, lè-se: 

Cd fica o aver na terra^ 

O amor a alma acompanha. 

Prosegue Gamoes : « Ao alvo d'estes cui- 
dados jogam meus pensamentos fi barreira, 
tendo-me jfi por costume tao contente de tris- 
te que triste me faria ser contente por 



^ Era uso metter na mao do moribundo urna can- 
a accesa, corno conta o P.<^ Joào Figueira que assim 
Hyera, querendo significar o estado mortai a que 
^oa. (Lendas da India.! 

• Vida, p. 405. 



408 aiSTORIA DA LITTfiBATURA PORTUQUKZA 



Que o longo uso dos annù$ 
Se converte em naturerà. 

(St. 10) 

Pois o que épara mór mal 
Tenho eu para mór bem, 

(St. 12) 

Na prosa epistolar intercala Camdes : « mas 
a ddr dissimulada darà seu fructo, que a tris- 
teza no cora^So é corno tra<}a em panno.» Na 
strophe 43 do Orisfal, vem : 

Anda a dòr dissimulada, 
Mas ella darà seu fruito. 

A Carta é originalissima na fórma pela 
prosa faceta entresachada de Yoltaa, comfiQOs 
de Esparsas, e um fragmento de SonetOt que 
a termina, em que representa o jogo de vaza 
de ouros, alludindo & pobreza por cujo mo- 
tivo se oppozeram ao seu amor: 

Forgou-me Amor um dia a que jogasse, 
Deu as cartas, e az de ouros levantou ; 
E sem respeitar mao, logo triumphou, 
Guidando que o metal que me enganasse ; 

Dizendo, pois triumphou, — que triumphasse 
A urna sota de ouroSy que jogou ; 
Eu entao por burlar quem me burlou 
Tres pdos joguei, e disse, que ganhasse. 

Tres pdos é uma phrase que designa a 
fórca; n'este sentido a emprega Camoes ei 
copia ^A humus senhoras^ quejogandope ) 
de uma janella, Ihes eahiram tres pftos e f ^ 
ram na eabega de Camoes: 



ì 



OAMOBS — SPOCA, VIDA E OBRA 409 



Para evitar dias maos 
Da Vida triste que passo, 
Mandem-me dar um baralo, 
Que jà cà tenho tres pàos.» ^ 

Vè-8e que a Carta estava ainda vibrando 
Ì8 emoQoes dos recentes dias em que se homi- 
Biara da cdrte. 

Na Elegia ii, com que se fundamenta a es- 
tada do poeta em Ceuta, aponta elle a transi- 
fSo para esse novo meio : 

Jà quieto me achava co'a tristeza ; 

E tùli nào me f aliava um brando erigano, 

Que tirasse desejos da fraqueza. 

MaSy vendo-me enganado estar ufano, 
Den a roda a Fortuna ; e dea oommigo 
Onde de novo choro o novo dano. 

Gamoes devia sentir a surpreza da impor- 
tanda d'esse soberbo emporio de Geuta, que 
desde que ficou sob o dominio portuguez em 
1415, n§o decahira da sua florescencia primi- 
tiva. Geuta (Sebtah) era entfio o entreposto 
de um immenso commercio com o Levante, 
Afriea e Italia, comò observa Vivien de Saint 
Martin. N'esse centro de sciencias e de artes, 
tìnham os Arabes introduzido a fabricaQ9o do 
papely a cultura do algodào, e os trabalhos 
afamados da seda, do fio de ferro e de latao 
mantinham ainda a actividade de outr'ora. 
Era bastante rendosa a pescarla do coral ; ver- 
dadeiramente a mina industriai de Ceuta co- 
mmon e a partir do momento em que ficou em 



ObroM, t IV, p. 191. (Ed. Jar). 



410 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGITSZA 

poder dos hespanhóes.» (1580.) Gamoes 
pera que este novo espectaculo o arranqot 
sua concentraQio : 

A'b vezes cuido em mi, se a novìdade 
E extranhezà das cousas, co'a mudane 
Poderìam mudar urna vontade. 

E com isto figaro na lembran^ 
A nova terra, o novo trato humano, 
A estrangeira progenie, a extranha usanza. 

Snbo-me ao monte, que Hercules thebano 
Do altissimo Calpe dividiu, 
Dando caminho ao Mar mediterraneo; 

D'alli estou tenteando d'onde viu 
O pomar das Hespéridas, matando 
A serpe, que a seu passo resistiu. 

Estou-me em outra parte figurando 
O poderoso Anteo, que derribado 
Mais for^a se Ihe vinha accrescentando ; 

Porém, do herculeo bra^o subjugado. 
No àr deixando a vìda, nao podendo 
Dos soccorros da mae ser ajudado. 

Mas, nem com isto emfim que estou dizendo. 
Nem com as armas tao continuadas. 
De amorosas lembran^as me defendo. 

Embevecido na melanoholia das suas rd 
cordaQoes, o poeta procura nas perspecdrij 
da natureza um alivio, urna acalmaQio ^ 
saudades : 

Ando gastando a vida trabalhosa, 
E esparzindo a continua soidade 
Ao longo de urna praia soidosa. 

^ Velo do mar a instabilidade, 

Como com seu ruido impetuoso 
Retumba na maior concavidade. 



CAM ÒES — BPOCA, VIDA E OBRA 



411 






De farìbundas ondas poderoso, 
Na terra, a seu pesar, està tornando 
Legar, em que se estenda, cavernoso. 



À todas estas cousas tenho inveja 
Tamanha, que nao sei determinar-me, 
Por mais determinado que me veja. 

Se quero em tanto mal desesperar-me 
Nao posso, porque Amor e saudade 
Nem licenza me dio para matar-me. 

Camoes tinha encontrado n'aquellas para- 
^s um amigo, com quem podia desabafar, 
lar largas à explosSo do sentimento em que 
^ absorvia : 

Senlior, se vos espanta o soffrimento / 
Que tenho em tanto mal, para escrevèr» 
Furto este breve espa^o ao meu tormento. 

Porque, quem tem poder para soffrel-o, 
Sem acabar a vida co'o cuidado, 
Tambem terà poder para dizel-o. 

Nem eu escrevo um mal jà acostumado ; 
Mas n'alma minha triste e saudosa 
A saudade escreve e eu traslado. 

Quem era este senhor, a quem Camoes es- 
revia com a intimidade de Ihe confessar os 
eu8 soffrimentos, comò a um confidente e 
jnigo? Està Elegia ii, na ligào manuscripta 
lo Cancioneiro de Luiz Franco, tem a ru- 
brica : De Ceita, a um amigo; e na edigao 
Las Ritnaa de 1595, em que se acham as ly- 
icas mais authenticas de CamSes, vem com a 
Tibrica: A Dom Antonio de Noronha^ es- 
andò na India. Estas rubricas completam-se, 
iv^Hflnciando o erro, de que escrevendo Ca- 



ÌTÀ 






. 1; 






Vi 
■*3 



412 aiSTORlA DA UTTERATVRA PORTtTGDBZA 



rodes de Ceuta, n§o estava n'este periodi 
India D. Antonio de Noronha. Por um 4 
mento bistorìco corrige-se o facto detiir| 
no texto de Soropita; nos manuscriptoi 
Conde de S. Louren<;o acha-se um Regino 
para D. Antonio de Noronha ir d cxdadi 
Aden, datado de 1548. ^ Juromenha reood 
ceu a deturpagSo do copista, dizendo: 
este um dos muitos erros com que andai 
08 manuscriptos d'onde Fernào Rodiig 
Lobo Soropita copiou e com o seu escnzi 
conservou.» {Obr.^ iii, 456.) O traslada 
Elegia II corrige-se pelo Regimento de it 
Bubstituindo estando na India por estai 
em Aden. Acclara-se a situaoSo historica^ 
dois amigos; Gamoes escrevia a D. Anta 
de Noronha para Aden: 

Jà deve de bastar o que aqui di^^o. 
Para dar a entender o mais que calo, 
A quem viu jà tao aapero perigeo. 

E se nos brandos peitos faz abaio 
Um peito magoado e descontente, 
Que obriga a quem o ouve a consoUl-o; : 

Nao quero mais se nào que largamente, 
Senhor, me mandeis novas d'essa terra, 
Que alguma d'ellas me farà contente. 

Quem era D. Antonio de Noronha? 1^ 
o valoroso sobrinho do OapitSo de Osi 
D. Affonso de Noronha, tambem poeta.*] 



1 Mss. comprados para o Estado, e catalogadot] 
José Maria Antonio Nogueira. (Na Torre de Tòmra 

* A Capitania de Ceuta andava na Casa dell 
Real e de Linhares; o filho do l.^ Marqnez de 11 
Real, D. Antonio de Noronha, 1." Conde de L*nhiw 



j 



0AM5E8 — EPOCA, YIDA B OBRA 413 

I clamorosa decadencia das conquistas de Afri- 
ca, estes dois cavalleiros conservavam as tra- 
àUjòes e os sentimentos generosos dog fron- 
'teiros deoutr'ora, comò D. Fedro de Menezes, 



foi Capitdo de Ceuta; e seu irmào D. Joao de Noronha» 
Prìor de S. Cruz de Coimbra, foi Biapo de Ceuta, 

— Segairam-se n'esta Capìtania, D. Fedro de Me- 
nezes, filho do 2,^ Marquez de Villa Real, que casara 
com D. Brites de Lara, a amada prima de D. Joao in ; 
e D. Alfonso de Noronha, que serviu por seu irmao 
D. Fedro desde 1548 a 1549, sendo n'este anno cha- 
mado para partir comò Vice- Rei na Armada de 1550. 
D. Joao de Noronha, irmao d'estes dois, falecido em 
16 de Agosto de 1524 e tendo casado clandestina- 
mente, houve depois de viuvo um filho naturai, D, An- 
tao de Noronha, que acompanhou para a India seu tio 
Vice-Rei. E' este o amigo intimo de Gamoes. A celebre 
dama erudita D. Leonor de Noronha, grande latinista 
e que traduziu para portuguez as Eneadas de Sabel- 
lioo, era irmà d'estes tres fidalgos. 

— Do 1.® Conde de Linhares D. Antonio de Noro- 
nha, foi primogenito D. Francisco de Noronha, 2."* 
Gonde de Linhares, casado com D. Violante de An- 
drade, de quem foi filho D. Antonio de Noronha^ a 
erian^a gentil escolhida para justar com o Frincepe 
D. Joao no Torneio de Xabregas ; morreu com seu tio 
D. Fedro de Menezes no desastre de Ceuta em Abril de 
1558. Foi intimo amigo de Gamoes, que celebrou a sua 
morte prematura em uma Egloga e Soneto, tendo-lhe 
dedicado a sua Elegia ni. 

Vé-se que tanto na corte, comò na guarnigao de 
Ceuta teve Gamoes relagoes intimas com a poderosa e 
nobilissima familia dos Noronhas do ramo VUla Real e 
do de Linhares. 

— Ha outros homonymos, comò D. Antonio de 
Koronha, filho do Vice* rei D. Garcia de Noronha, que 
foi Gapitao de Malaca, onde faleceu em 1568; e D. An- 
tonio de Noronha, de alcunha o Gatarraz, filho de D. 
Martinho de Noronha. que foi Gapitao de Diu em 
1556, e serviu com o Vice-rei D. Gons tantino de Bra- 
gan^. A estes nao se acham referencias em Gamoes. 



/ 



414 H18T0RIA DA UTTBBAT0BA POBTÙGUBZA 



D. Jofio Goutinho, .os aguerrìdos Joào 
cao ou Gomes FreiVe, sendo o ultimo d'est 
gera<}So sublime o afamado poeta palacian 
D. Jofio de Menezes. Gam5es ainda Ihes celi 
brava os ditos memoraveis de valentìa, comi 
o de D; Fedro de Menezes, primeiro frontein 
de Geuta: 

Emquanto do seguro azambnjeiro 
Nos pastores de Luso houver cajados, 
Gom o valor antiguo, que primeiro 
Os fez no mando tao assignalados, 
Nao temas tu, Frondelio companheìro, 
Que em algum tempo sejam subjugados ; 
Nem que a cerviz indomita obede^ 
A outro jugo qualquer que se Ihe offre^a. 

(Kglog. 1) 

Gom estes doìs vultos historicos é que ser- 
viu Gamoes em Geuta; em firn de 1547» 
Dom Antao (ou Antonio) de Noronha subsd^ 
tuiu até Julho de 1548 seu tio D. Affonso de 
Noronha na Gapitania de Geuta. Foi n'esta 
periodo que se estabeleceu a intimidade do 
poeta, e que interessou o seu valente amigo 
pelos soffrimentos de um naufrago da vida. 
Tendo partido para Aden em 1548 D. Anto- 
nio de Noronha, para alli Ihe enviou a Ele- 
gia de Ceita, a um amigOy (Ms. Luiz Franco) 
talvez ]& no anno de 1549. 

E' àquelle generoso amigo que 83o diri- 
gidas as Outavas i que se intitulam Descon- 
certo do mundOf de um espirito que se apoia 
em firmes concepQdes philosophioas. Nas m- 
bricas das Outavas i dft-se o mesmo caso que 
na Elegia ii; em uma IìqSo acha-se: Epistola 
de Camoes a um amigo; e em outro texto: 
A D. Antonio de Noronha^ sobre o desi fh 



OAHÒES — BPOCA, VIDA B OBBA 415 

do mundo. O caracter d'està composi- 
tao repassada de conformidade philoso- 
pde em evidencia, que nSo poderia ser 
ida fiquelle joven filho do 2.<> Gonde de 
res, £). Antonio de Noronha, que pouco 
terìa de doze annos. ^ 
' ainda ao heroico capit3o de Àfrica, 
I dirigia Camdes a Ode xiii, colligida dos 
jditos de Luiz Franco; n'ella, jà escripta na 
fia, ainda se recorda Camdes dos seus va- 
teB feitos em Africa: 

A vós, caja alta fama 
Vi entre os Garamantas conhecida, 

A' luz que o sol derrama 

Na terra enobrecìda 
Por vós, jà tao de todo escurecida. * 

Por aqui se ve, que o bravo D. Antao de 
hronha era tambem Poeta; e justifica-se por 
in motivo Ihe dirigia as suas mais delicadas 
posÌQoes: \ 



h 



Nao é de confiado 

Mostrar-vos minhas consas, pois ccnhego 
Que tendes alcangado 
N'iste o mais alto preQO, 

E quanto em mostral-as desineremo. 



^ O Dr. Storck adopta em absoluto este persona- \ 

niy para dar corpo a sua hypothese phantasìsta, de ^. 

r sido Camoes pedagogo de D. Antonio de Noronha, ^. 

qjiregado em casa do Gonde de Linhares. 

* No testo mannscripto do Canto i dos Lusiadas^ 
I Caneioneiro de Luiz Franco, vem uma estrophe, 
tambem apparece no 1.® Manuscripto dos seis Gan- 
K achado por Faria e Scusa, em que se le : 

Jà deixa a mSo diretta os Garamantea 
E OS desertos de Lybia circumstantes. 



416 HISTORIA DA LITTEBATURA PORTU6UBZA 



Nas Outavas i a Dom Antonio de Noro- 
nha, seu companheiro na estagào de Africa,^ 
descrevendo-lhe Gamoes os desconcerto8 do 
mundo, falla com enthusiasmo da vìda intel- 
lectual, que era o seu sonho de felicidade: 

Mas, se o sereno céo me concederà 
Qualquer quieto, humilde e doce estado, 
Onde com minhas Musas so vivera, 
Sem vér-me em terra alheia degradado; 
E alli outrem nìnguem me conhecera, 
Nem eu conhecera outrem mais honrado 
Se nao a vós, tambem comò eu contente, 
Que bem sei que o serieis facilmente: 

\ E ao longo de huma darà e pura fonte, 
^Que em borbulhas nascendo, convidasse 
AP doce passarinho, que vos conte 
Qi^em da cara consorte o apartasse ; 
Dejpois, cobrindo a neve o verde monte, 
Ao )gasalhado o frio nos levasse, 
A vivando o juizo ao doce estudo, 
MrJis certo manjar de alma, emfim, que tudo. 

Cantara-nos aquelle, que tao claro 
O fez o fogo da arvore phebea, 
A qual elle em estylo grande e raro 
Louvando o crystalino Sorga enf reia ; 
Tangera-nos na franta Sanazaro, 
Ora nos montes, ora por a areia ; 
Passara celebrando o Tejo ufano 
O brando e doce Lasso castelhano. 

/ 

/ E comnosco tambem se achara aquella, 

Ouja lembranga e cujo darò gesto 
N'alma sómente vejo, por que n'ella 
Està em essencia puro e manifesto ; 
Por alta influigào de minha estrella 
Mitigando o rigor do peito honesto, 
Entretecendo rosas nos eabellos, 
De que tomasse a luz o sol em vd-os ; 



r 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 417 



l 



Mas por onde me leva a phantasia ? 
Porqae imagino eu bemaventuran^as, 
Se tao longe a Fortuna me desvia, 
Qae inda me nao consente as esperan^as ? 
Se lim novo pensamento Amor me cria 
Onde o legar, o tempo, as esqulvan^as 
Do bem me fazem tao desamparado, 
Qne nio póde ser mais que imaginado? 

Um novo Pensamento era a idealisa^So 
em que andava da Epopda nacional, a que o 
amor Tiera dar um maior relévo, para impdr 
a sua supremacia montai ; elle mesmo o con- 
fessara a Gatherìna de Athaide. N'este nau- 
fragio da vida em que se via envolvido, o 
Bea desamparo difficultava-lhe a realisaQSo 
d'esse Pensamento novo. Na tediosa vida da 
gnamigao militar de Ceuta refugiava-se n'esse 
Pensamento, deixando nas imagens e compa- 
ra(;oes poeticas as impressoes immediatas que 
ia recebendo. 

A compara^So da valentia do Gondestavel 
Non'alvares Pereira equiparada fi do leSo, 
na bella estrophe 34 do canto iv dos Lusia- 
dM, tem sido censiderada comò inspirada 
pelas impressSes directas do tempo da està- 
<^o de Gamoes em Geuta : 

Està ali Nnno, qiiàìpelos outeiros 
De CeUa està o fortissimo leao, 
Que cercado se ve dos cavalleiros, 
Que OS campos vao correr de TetuSo ; 
Persegnem-no oo'as langas, e elle iroso 
Torvado um ponce està, mas nao medroso. 

No seu estudo A Fauna dos Lusiadas, 

erva o Dr. Balthazar Osorio: «Poderia 
t /ez julffar-se que este facto, o leSo cercado 

1 cavalleiros portuguezes, n3o encontraria 



^ 



418 H18TORIA DA LlTTERATURA PORTUOUKZA 



documento historico que o comproYasae, e que 
a estrophe transcrìpta contém apenas ama 
phantasia do Poeta, esquecendo-se que elle é 
sempre exacto em tudo que conta ou a qae 
se refere. Todavia a ca<;a aos ledes era pas- 
satempo vulgar entre os nossos fronteiros do 
Moghreb; quando Ihes faltavam mouros para 
combàter, o que era raro, iam desafiar os 
leoes no fdjo, isto talvez para que o vigor 
n&o esmorecesse ou para que o ànimo se n§o 
quebranta8se.> E para fundamentar este as- 
serto, transcreve dos Annaes de D. Joào III 
este quadro, tracejado por Frei Luiz de Scu- 
sa : «e cerraremos este capitulo com umas pe- 
rigosas montarias de leoes, a que o Conde 
era t3o affeigoado, corno se foram de multo 
passatempo. Disseram-lhe um dia, que no 
valle dos Borrazeiros estavam dois leoes qua 
tinham morto um cavallo : mandou logo vir 
lan^as d'arremèQO, e espingardeiros a cavallo, 
e bater o mato. A poucos golpes saltou fora 
um dos dois, e vendo-se cercado de cavallaria 
e de muitos cSes, poz as mSos em alguns, e 
assi OS abriu e matou logo, sendo assàs bra- 
vos, comò se foram cordeirinhos. Tiroulha 
o Conde primeira lan<?a e pregou-lh'a de ma- 
neira que o lefio se sintiu, e acudindo fi dor 
lanQOU mSo da langa, e logo correu a vingar- 
se, mas em continente foy passado de ott- 
tras; porque D. Francisco acudindo a tea 
pae, e FernSo da Silva que com elle estava, 
empenaram no lefio cada um sua lanoa e 
D. Francisco nSo contente com o arremé ), 
tomando nas maos outra de monte, poz a 
pernas ao cavallo e o foi encontrar a tod o 
correr, de sorte que Ih'a ensopou no cor k 



— EPOCA, VIDA E OBRA 419 

ivera de sahir bem o lance, 
>rricto do Conde, que com se- 
arou ie3o de parte a parte, 
m tantas do9 cavalleiroa que 

Conde o mandou levar em 
CondeBsa, que multo aborre- 
B.> (Annaes, p. 295.) 

ios Lusiadas, eatancìas 36 e 
ra fìomparagao, que se torna 

1 facto narrado por Fr. Luiz 
maes de D. Joào III: 

iòti, fera e brava, 
que no nìnho aós estao, 
nquaato pasto Ifae buacara 
lassylia Ih'oe furtara. 



:eni de Frei Luiz de Sousa, 
intonio Leite, capitSo de Ma- 
lovas de urna leda, que com 
;rande8 Ihe tinha feito dano 
gado, se foi a ella com nove 
sendo-lbe tiro um bésteiro de 
e Antonio Rodrigues, a leòa 
solheu o cavallo pelas ancas 
Dtes ; o cavalleiro esteve tSo 
vou da espada e a ferìu em 
do logo o cavallo, e elle jun- 
Dtou ligeiro em pé, e com a 
) gentil &T deu ao andar pera 
.via com estar brava e muito 
aceiou; e fez volta bramìndo, 
outroB cavalleiros e a ambos 
: e todavia n9o pOde escapar 



420 aiSTOBIA DA LITTBRAT0RA PORTUGUEZA 

a tantos e ficou morta. Mas affirma o capitao, 
que tendo morto muitos outros ledes, nào Tira 
nenhum egaal a està, nem em ferocidade 
nem em ligeireza.» (Ib.^ p. 209.) 

E' para reparar que estas duas compara- 
Qoes se encontram ambas no Canto iv dos 
Lusiadas^ que o Dr. Storck julga jfi andar 
em elabora^ao, quando o poeta eateve na 
guamiQ&o de Ceuta. 

Na Egloga vii Os Faunos, traz compara- 
Qoes da zoologia africana: 

Nas Lybicas montanhas, 
As Scitalas sao féraa, de pintura 
Tao singular, que co'a vista encantam, 

Ab hyenas levantam 
A voz tao naturai a voz humana, 
Que a quem as ouve, facilmente engana. 

A Vida na guarnÌQ3o militar nas possea- 
sSes de Africa acha-se descripta em umas 
Trovas de Manoel Pereira d^Òeem, estando 
em Arzilla^ a um seu amigo^ que estava em 
Portugal^ em que Ihe da novas de si e da 
Terra. ^ Juromenha publicou essas Trovas 
em nome de GamSes, inferindo d'ellas factos 
biographicos do poeta; * mas reconhecido o 
seu verdadeiro auctor, sSo sempre aproveita- 
veis para a vida do poeta, representando^nos 
o melo militar em que passou dois annos : 



^ Publicadas no Cancioneiro geral de A. F. F* 
rata. Evora 1902. 

s Obras^ t. lY, p. 147 a 159. D. Carolina MiehaSL 
que examinou o Ms. do Cancioneiro impresso por B 
rata, procedeu a essa restituÌQ§o do apocrypho cam 
niano, indica^io seguida pelo Dr. Storck. (V!d. Zei 
schifi fur ramanisehe LittercUur, voi. vn, p, 41 6.) 



OAMOBS — BPOOA, VIDA E OBRA 421 



Melhor fora ter caladas 
As novas que ha n'esta terra, 
Pois aonde vim buscar guerra 
Sómente achei badaladas. 
Assilli estou tao enfadado. . . 

A gente é peor em dobro, 
As vergonhas sao perdidas, 
Fallam das alheias vidas 
E poem as armas em cobro. 
Poucos hao medo à yergonha, 
E a mui poucos se bade ouvir : 
Mais vale morrer com honra 
Que deshonrado bivir. 

Nao ha conversando corno d'antes 
Por que ha mister cem mil tentos 
Gom moradores praguentos 
E fronteiros mui galantes. . . 

Nenhum remedio a meus danos 

Vejo por alguma via, 

Senao vendo aquelle dia 

Que bade ser/im de dois annos. , 

Da guerra novas mais certas 
Brevemente sao contadas, 
No verào portas fechadas, 
No inverno pouco abertas. 
Qualquer Mouro desmandado, 
Nos commette sem n'hum pejo. 
E — aquelle postigo viejo, 
Que sempre esteve fechado. 

Isto nao é praguejar, 
Mas toda a culpa é da fome, 
Porque gente que nao come 
Mal poderà pelejar. . . 

Tndo sSo queixas em vao, 
E tttdo sao vaos clamores, 
Gapitao dos moradores, 
Elles contra o Gapitao. . . 



422 HISTORIA DA UTTEBATURA POBTUOnEZA 



E em urna segunda Carta, Manoel Pereira 
de Ocem exprime a mesma melancholia ca> 
moniana, terminando cada estrophe com doie 
versos oentonicos de romances velhos : 

Andando so, corno digo, 
Apartado da manada, 
Fazendo contas commigo, 
Que emfim nao fundem nada. . . 

Yinham de esporas douradas 
£ vestìdos de alegria, 
Gom adargas embragadas, 
La fior de la Berberia. . . 

Gentes de muitas maneiras 
E de diversas fei^òes» 
Gorriam a estas tranqueiras 
Gomo a ganhar perdòes ; . . . 

Gontar feitos esquecidos 
E' multo contra minh'arte» 
Houve mortos e feridos. 
Houve mal de parte a parte. 

Qulzera dizer-vos mais. 
Mas pois vos nào digo tudo, 
Fazei conta que sou mudo 
E entendeì-me por sinaes. 



N 'estas duas Cartas em trovas de Manoel 
Pereira de Ocem, além da vida desconfortada 
da guarniQao descreve-se uma d'essas fre- 
quentes escaramuQas contra os assaltos dos 
bandos berberes naa suas deprada^es e* su 
prezas. Foi n'uma d'estas escaramu^as avei 
turosas e inglorias que perdeu CamSes o olb 
direito, em risco de morte por falta de trat 
mento. Deixando a landa infundada de a 



CAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 423 

oombate naval batendo-se ao lado de seu pae, 
corno conta Faria e Sousa, é certo o facto, 
qne € perdio el ojo dereoho^ aviendole dado 
en el una centella de un canoliazo.» ( Vida seg.^ 
§ 14.) Na Can^So xi, em que o Poeta recapi- 
tala toda a sua vida, allude ao facto de ter 
provado o fructo acerbo de Marte nos olhos, 
em que ficou a marca do infesto fogo. No re- 
trato gravado, còpia de um retrato a oleo, 
qne se publicou em 1624 nos Discursos va- 
rioB de Manel Severim de Faria, é represen- 
tado Gamoes de meio corpo, de tres quartos 
para a esquerda, cego do olho diretto; au- 
thentfca a nobre cicatriz do poeta. ^ Tambem 
na Carta primeira da India chasquéa do seu 
defeito, ao qual torna a apontar em um ma- 
goado Epigramma, e no A B C feito em mo- 
tes: 

Galathéa soia, senhora, 
Da fermoBura extremo, 
E eu perdido Polyphemo. 

Segando os costumes da epoca, o servilo 
em Oeuta era obrigatorio por doia annos, 
para poder-se entrar na posse de qualquer 
rendosa commenda. Foi cumprindo este re- 
quesito, que GouQalo Mendes de Sfi, o primo- 
genito de Sa de Miranda, morreu em 1553 na 



^ Nas copias d'està gravura inverteu-se por im* 
p< eia a imagem, ficando Gamoes cego do olho es- 
o| rdo na copia de 1689, na de 1641, e na de 1731. 
F ia e Sousa fez urna copia à penna de um retrato a 
o] I, que pertencera ao licenciado Manoel Correa; 
a le estava leso o olho diretto. 



1 



424 HISTORIA DA LITTBRATURA POSTUGUEZA 



surpreza perto de Ceuta, desastre memora- 
Tel na historia portugueza. Manoel Pereira de 
Ocem, qua se achava em Arzilla, assira o 
confirma na Carta : 

Nenhum remedio a meue danoa 
Vejo por alguma via, 
Senao vendo aquelle dia 
Que hade set firn de (foie annoe. 

O que determinaria o regresso de Gamdes 
a Lisboa, e corno fixar-Ihe a data? Em No> 
▼embro de 1649, o velho Capitào de Genta, 
D. Alfonso de Noronha, foi chamado & córte 
para partir para a India come Vice-rei na 
Armada de 1560. Camoes acompanhou-o para 
Lisboa, no empenho de seguir com o valente 
cavalleiro para a India. A resoluQSo do poe- 
ta, abandonando agora o pensamento afri- 
cano, que tanto o inspirava no seu ideal èpico, 
obedecia ao desgosto da inanidade de todo o 
esforQO, vendo desmoronar-se o Imperio qae 
OS antepasaados cimentaram com o seu san- 
gue. Em 1549, mandou D. Jo§o m que se 
abandonasse Arzilla e Alcécer-Geguer ; a de- 
mora de 0am5es em Africa era um confran- 
gimento de espirito. A India appareda-lhe 
agora comò a miragem da Èra dos Descobri- 
mentos, e lA esperava encontrar as tradigòes 
vivas do heroismo, com que fOra fundado o 
Imperio orientai. NSo era o ànimo de lucro 
que o impelila para a India, mas a ardente 
aspirasse de dar realidade ao novo Pens^ 
mento. O abandono de Arzilla e Alcacer C 
guér deixou o vestigio da sua lethal imprc 
sSo nos versos de outros poetas; por ventai 
as Outavas em endechas sobre o despejo '^ 




OAMOB8 — EPOCA, YIDA B OBRA 425 

Arzilla, de um anonymo, pertencerìam a Ma- 
noel Pereira de Ocem? 

Deede que Dom Jo3o iii mandou abando- 
aar Arzilla em 1549, considerando mais van- 
tajosa a concentra^io de for^as na India por 
86 segurar e explorar com mais vantagem 
aquelle remotissimo imperio, a Africa torna- 
ya-se um campo esteril para o heroismo por- 
tagaez. Este golpe abrupto pa aspira^fio de 
GamSes, que comprehendia a necessidade da 
acQio de Portugal no norte de Africa para 
salvaguardar a seguranga das na^es meri- 
dionaes, veiu desnorteal-o na sua actividade 
pensando em acompanhar para a India Dom 
Affonso de Noronha, que fora chamado pelo 
rei O abandono de Arzilla deixou um ecco 
doloroso na poesia d'esse tempo; existem 
umas Outavas em endechas Sobre o deapejo 
de Arzila em dia de S. Bartholomeu^ nar- 
rando o vergonhoso acontecimento : 

r 

Qaem a meu pranto darà companhia 
Que faz a meus olhos de lagrimas fontes, 
Para de novo chorar i^elos montes, 
Que a filha de Jove mil annos carpia : 
ArzQla mai eheia de cavallerìa, 
Qae a Mouros e Afrìca fez tao crùa guerra, 
Soo jaz agora desfeita por terra, 
Deixada por mede a quem a temia. 



Oh quanto ditosos e bem afortundos 
Foram aquelles, a quem a ventura 
No campo de Arzila Ihes deu sepnltura, 
Antes que vissem seus campos deixadoB. 
Horreram por Patria, por pram de seus fados^ 
Mas vós, OS que vivos de ArzUla partistes, 
Em a ultima bora dos olhos a vistes, 
Deveifl para sempre ser magoados : 



426 BLI8TORIA DA LITTBBATURA PORTUOUBZA 



Vós outros, soldados, soccorro e repairo 
Que Arzilla perdendo mèo Boldo gaiihaates, 
Dizei-me se vistes por terras que andastes 
D'algtla outra terra tao séstro f adairo ? 
Se algum antre vós, cruel ou cossairo. 
Se esteve sem dor a vèr tal perdimento, 
Em tudo veria signaes de lamento, 
Em tudo ma sombra e triste doairo. 



As mo^as de Arzila se foram chorosas, 
Deixaram desertas as suas janellas, 
Aonde os mancebos as viam a ellas 
Em dias alegres, lougas e f ormosas : 



Alcacer-Ceguer, rasao é que chores 
Com estes logares comtigo fadados 
A seres em breve a Mouros torna doa, 
Como cabanas de vagos pastores ! 
Aqui nio vos canto os vossos louvores, 
Que musica em nojo seria importuna; 
Fez seu ofiTicio comvosco a fortuna, 
E fez outras vezes com Reys e senhores. 

O auctor anonymo d'estas vinte e quatro 
Outavas vivia em Tanger, e receiava qne 
chegasse a vez de ser tambem abandonada: 

Gidade de Tangere, filha de Anteo, 
Mais nobre, antiga daa que Africa tinha. 
Por véres pelada a barba visinha 
A tua de mólho teràs com receio. 
Nunca tu venhas a ter rey alheo, 
Nem vàs na mina dos outros logares 
Nem influencia esquerda de marea 
Assi te persigua per curso tao feo. 

A este poemeto seguem-se mais vinte i 
trophes a D. Duarte de Menezes, por mand 



j 



CAMÒES — BPOCA, YIDA E OBRA 427 

dettar fora de Tanger o auctor do lamento 
Sobre o despojo de Arzila. * 

Em 1542, quando j& a InquisÌQSo funccio- 
nava sanguinosamente em Portugal, e os Je- 
suitas comegavam a sua deleteria direcQ&o es- 
piritual na cdrte, consignou Gam5es està tre- 
menda crise nacional, referindo-a em um So- 
neto ao Duque D. Theodosio: 

Ao novo Portugal, que agora vèmos 
Tao differente do seu sér primeiro. 

(Sonet. XXI.) 

Poucos annos eram decorridos, e essa de- 
gradasso tornara-se mais temerosa, comò o 
cornei^ de um desmoronamento, de inevita- 
yel ruina. Os annos da guarniQ3o de Geuta 
fizeram-o vèr de perto comò se dissolvia o 
glorioso Imperio africano, reduzido jà ao des- 
pojo mesquinho de Geuta, Tanger e Tetu&o! 
O sentimento de glorificaQao enthuziastica que 
inspirava Gamdes para elaborar o Ganto he- 
roico, misturava-se com um presentimento de 
ruina, que agora imprimia a anciedade do 
protesto, a furia grande do Pregio eterno, 
que libertasse o ninho seu paterno da lei da 
morte. A desola<;3o da Africa portugueza deu 
à sua Lyra mais afamada que ditosa, este 
timbre, que nos eternisa na historia. India e 
Brasila comò observou SA de Miranda, eram 
a yertigem da attracQSo pelo espirito de ga- 
nancia, que maculava até os fortes caracteres; 
Gamdes resolveu partir para a India, para 
retemperar o seu ideal na tradigao viva do 



1 Obras ineditas. Ed. Gaminha, t. i, 194 a 212. 



428 HISTORIA DÀ LITTBRATURA PORTUGUBZA 



::»:v>;i 



heroismo portuguez. Em nada o pr( 
yam as riquezas: cn&o Ihe duravam os b«H 
temporaes mais que em quanto elle nSo tìi 
oocasi&o de os despender a seu belpraxw.s 
Foi este traQO dò seu caracter que os cchI" 
temporaneos transmittiram a Mariz, san pii- 
meiro biographo ; esse trago explica os an- 
nos tormentosos no Oriente. 



e) R«greMo de Canies ■ Lisboa, «té é partite para a latfia 

(1660-1663) 



Àproveitando a vinda de D. Affonso de 
Noronha, chamado a Lisboa para ir desem* 
penhar o triennio de Vice-Rei na India, Gamoe» 
regressou na matalotagem, decidido a aoo» 
panhal-o na Armada que tinha de partir par 
Abril ou Maio de 1650. Seduzia-o um ma^ 
vasto campo de aoQio; é naturai, mesmo, 
que pelas qualidades de bravura que mostnm 
nos recontros em Africa, e sobretado peli 
lucidez do seu espirito, Dom Affonso de No- 
ronha, que bem conhecia a intimidade de 
Gamdes com seu sobrinho D. Antio de No- 
ronha, Ihe afagasse a ideia de alistar-se na 
Armada que ia partir para a India. 

O regresso de Ceuta em fina de Noven- 
bro, attentos os dez dias de viagrai ordi- 
naria, leva a fixar a chegada a Lisboa em 
ooméQos de Dezembro de 1649. Seus paea 
moravam entSo & Mourarìa, esse antìgo arra- ^ 
balde de Lisboa concedido, depois da tomada 
da cidade em 1147, aos Mouros, o qual desde 
o tempo do rei D. Manoel se tornara um po- 
puloso bairro, rompendo a antìga morr'H 



OAMObB — EPOCA, VIDA S OBBA 429 



■il que ainda subsiste a primitiva porta 

^Arco do Marquez de Alegrete). 

\ Sómente em 1 de Maio de 1650 é que a 

E Dada partiu, commandada por FernSo Lo- 
de Albergaria ; era composta da Nfio San 
Irò, ( vulgarmente denominada dos Burga- 
ktes) da Frol de la Mar, Santa Cruz, Trin- 
dade e a caravella S. Jo3o. ^ Figueiredo Fal- 
cio fixa a partida em 28 de Mar?o. E' certo 
Jue fez Gamoes o seu alistamento ; a demora 
e MarQo até Maio deu occasiao ao poeta para 
refiectir e deixar-se possuir de novas espe- 
ranfia na carreira litterarìa, ficando em Lia- 
Ica. O sen alistamento consta do apontamen- 
to que em 1643 foi conhecido por Manoel 
llle Farla e Souza, em fórma de extracto ou 
iBegistro resamido dos Livros da Casa da In- 
t^, em que se transcreveu està inscrip^&o re- 
Inrente a 1550: 

I « Luiz de Camoesy filho de Simdo Vaz e 
Anna de Sd, moradores em Lisboa^ a Mou- 
torio, Eseudeiro^ de vinte e einco annos, 
barbiruivo ; trouxe por fiador a seu pae ; vae 
na Ndo San Fedro dos Burgalezes.i^ 

A eete texto abreviado do termo officiai, 
aocresoenta Farla e Sousa : < Està Nave era 
la en que iba el Vi-Rey que entonces passava 
a la India ; e su nombre Don Alonso de No- 
Iona. Estos assientos se hazian en titulos 
differentes, conforme el puesto en que cada 
persona iba a servir. Y el Poeta estava as- 



1 l^oeiredo Falcio, Indice de loda a Fazenda, 
f. 163 ; Oouto aponta em logar da Trindade e Santa 
ìk '^ a Biscaìnha e Sant'Amia. 



i 



430 HISTORIA DA LlTTERATURA PORTUGUEZA 

sentado en el titulo de los — Hombres de Ar- 
mas.y E termina o acerrimo commentador : 
cAunque el Poeta se huviesse alistado el 
ano de 1560, no se embarcó; e te.» 

Lembrou-se o Dr. Storck de affirmar e 
sustentar com argumentos dialecticos, que o 
Assento da Gasa da India era um documento 
falso f abricado pela mft fé de Farla e Sousa : 
«E' verdade que a obra de fancaria, publi- 
cada em 1685, gosou a fama e disfructou as 
honras de um authentico documento officiai, 
durante dois seculos e tanto, illudindo toda a 
gente,...» (Vida e Obr., p. 127.) cE visto 
que, desde a memoravel data em que Farla e 
Sousa descobriu os seus assentamentos, todos 
OS blographos do Poeta coordenam a sua vlda 
sobre a base dos taes documentos pseudo- 
authenticos, e em conformidade com elles» 
vae Storck, quanto fis passagens que dlzem 
respeito & edade de Gam5es, «analysal-as 
uma por uma, distinguindo bem entre os 
dizeres do pretendido documento officiai e 
OS ingredientes addicionados pelo glossador 
apaixonado e preoccupado.> Cometa o exame, 
tendo esclarecido, que em 1643 Farla e 
Sousa estava em Madrid ; e transcreve a pas- 
sagem expllcativa com que o commentador 
d& conta da sua descoberta : 

€Pero el ano 1643 vino a mis manos un 
Registro de la Casa de la India de Lisboa^ 
de todas las personas principales que passa- 
ron a servir en la India desde el ano 1500 
hasta estes nuestros anos.^ 

Contra isto applica o Dr. Storck o seu 
processo logico, para mostrar que era uma 
falsificagfio de Farla e Sousa: cAs listas 



CAMdBS — EPOCA, VIDA E OBBA 431 

abrangiam, dil-o elle, os annos de 1500 a 
1643 — um periodo de cento e quarenta e tres 
annos. — Saiam annualmente de Lisboa para 
a India uns sete navios, termo mèdio. A cada 
nào e fi sua companha de 400 a 600 homens, 
entre marinheiros e soldados, competia um 
livro cu registro especial: o assentamento de 
todos elles, eom os seus nomes inteiros e mais 
pertences, exigia, sem duvida alguma, muitas 
folhas de papel grande. — Pode-se calcular 
que, durante o periodo especificado, uns 
450:000 lan^amentos encheriam perto de mil 
in-folios! A fanfarronice de ter tido fi mSo, 
em Madrid, o Registro geral completo, teria 
sido una erro demasiadamente palmar, indi- 
gno da finura de um Farla e Sousa. Eis por 
que elle subtilisou a ponto de dar com o ex- 
pediente do seu extracto officiai. . . 

€ Restarla ainda saber comò foi que Sousa 
arranjou em Madrid, a quinhentos kilometros 
de Lisboa, o tal registro simplificado ? Podiam 
dispensal-o na capital, onde sem duvida se 
conservava para fins administr ati vos ? » 

E enfiando uma sèrie de perguntas des- 
oonnexas, a que n3o espera resposta, concine: 
«Multo embora geragoes successivas dessem 
credito ao impostor, durante dois seculos, as 
rasdea extrinsecas jft adduzidas seriam suffi- 
denteSy segundo me parece, para eu por de 
parte, em nome da critica camoniana, os con- 
tos da carochinha narrados por Farla e Sou- 
sa.» (Ib., p. 133.) 

O Dr. Storck comcQOU por nSo compre- 
hender o sentido das palavras de Faria e 
Srisa, confundindo um Registro com o i2e- 
g^ ira authentico da Casa da India, que con- 




432 HIBTOBIA DA UTTEBATURA POBTUGUEZA 



Btava de centenares de volumes; e un BegU- 
Ito significava urna Lista resumida contendo 
apenas a indica^fio ^de laspersomis maspri$^ 
dpales que passaron a servir en la Indiai; 
vé-se consequentemente que quem compilon 
esse Registro extra-officialmente se limitoa a 
transcrever sómente os nomes de pessoas a 
que ligava interesse historico ou genealogico. 
Se o Dr. Storck tivesse entendido o facto, 
nSo f aria a pergunta : < Que significa, em es- 
pecial, um Registro da Casa da India das 
pessoas mais prinoipaes ? Linschoten nao co- 
nhece tal registro reservado exclusivamente 
para as pessoas mais illustradas. Em primeiro 
logar seria extrem amente singular que offi- 
cialmente se elaborasse um registo de tal fei* 
tio, t3o pouco pratico e prestadio; e em se- 
gundo logar, que bitola estabelecer para a 
illustragào das pessoas? Os ascendentes? db 
titulos ? ou antes o pósto que cada um ceca- 
pava no servilo militar e naval? — N'ama 
palavra, parece-me impossivel dar com as 
rasdes que poderiam ter levado à elabora^o« 
além da matricula geral, de um rol authea- 
tico, peculiar e especial da fidalguia, conti- 
nuado n'este sentido durante mais de cento e 
quarenta annos, apesar de nào ter prol nem 
proveito para ninguem ! 

< O registro, que se diz ido às mSos de Fa- 
rla e Scusa, nunca existiu, portante. Deve 
ser uma obra de phantasia, ou em bom por- 
tuguez uma falsificasse.» (76., 131.) 

O Dr. Storck é que levantou oste moinho le 
vento, fazendo de uma Lista de apontam< i* 
tos das prinoipaes pessoas que foram ser ir 
fi India, de curiosidade particulart um J y 



OAM ÒKS — BPOOAy VIDA B OBRA 433 

:ffBto authentico, officiai, absurdo corno re- 
iomo e inepto corno especial da fidalguia, 
eoncluindo triumphantemente que era urna 
ìnven^ao de Farla e Sousa. 

Podé-se hoje vèr esse livro, a que allude 
Farla e Sousa; é o Manuscripto N.^' 123 da 
GoUeoQao pombalina, que tem o titulo: Me- 
moria das Pessoas que passaram d India nos 
Mnos de 1504 a 1628. . . que tiràmos dos 
livros da Gasa da India, etc. 

Ahi vem a indicagao das Armadas nos 
annos successivos, com alguns nomes de in- 
dividuos, a que se ligou mais interesse; e 

Juando se chega ao anno de 1550, faltam as 
ilhas que alcan^am os annos em que se de- 
rena encontrar apontada a Armada em que 
seguiu Gamoes para a India. Vè-se que uma 
feroz ouriosidade levou a esse vandalismo 
^lesgraQado. Mas nem por isso o Livro deiza 
de ser uma Lista, Memoria ou Registo das 
prineipaes pessoas, que passaram A India. O 
nesmo vandalismo se deu com os Manuscri- 
ptos genealogicos de Manoel Severim de Fa- 
ria extrahidos da Torre do Tombo, quando 
ella estava no Castello de S. Jorge, ficando 
011 branco as paginas relativas A familia de 
GamSee. ( Jur., Obr.^ i, p. xi.) O logar trun- 
eado do Ms. 123 denuncia o interesse exdu- 
8ÌY0 do apontamento. D'està Memoria nos 
servimos jà com vantagem para a resoluQBo 
do problema de Ghristovam Falc9o se na 
realidade embarcara para a India. ^ O Dr. 
Storck teve a infelicidade de ser levado ao 



^ Bemardim Ribeiro e o Btteolismo^ p. 335. Por- 
to, 897. 



L 




484 HIBTORIA DA L1TTBBAT17RA PORTUOUBZA 



seu negativisino fiando-se na deploravel bio- 
graphia do Album Gamoniano. * 

Porque nao embarcaria Camoes para a 
India em 1550? Segundo urna tradi^ào Taga, 
consignada por Severim de Faria, alenta- 
ram-o grandes esperan^as litterarìas : e parece 
que està arte ( a Poesia ) o trouxe outra vez a 
Lisboa, onde continuou algum tempo... > E 
completando a noticia tradicional, escreve Se- 



* Contra os factos indicadoa por Parìa e Sonai 
oppoe o Dr. Storck urna das suas hypotbesea gratui- 
tas: que « Sìmao Vaz jà nao era entra os vivos no anso 
de 1550;» concluindo, que nao podia ser CamÒes tra- 
tado de escudeiro, oompetindo-lhe de diretto o tìtulodt 
eavalleiro-fidalgo ; e tambem que « Anna de Sa nio 
era a mae carnai do poeta ; e, segundo todas as proba- 
bilidades, ainda nao residia n'aquelles tempos no baino 
da Mouraria de Lisboa.» (Ib.j p. 138 ) Para seconhe* 
eer que nao é falso o apontamento de Parìa e Soam 
basta notar, que elle traz o nome de Simao Vaz, tal 
comò se acha no alvarà de 1529, queo naturalisa d- 
dadao de Lisboa, e na carta de perdào a Camoes» eoi 
1553; nem Faria se afastarìa dos linhagistas que di- 
vam à màe de Camoes o nome de Anna de Maeedo, 
apparecendo sómente nos docuroentos officiaes e an- 
tbenticos o nome de Anna de Sa, corno no da ten^de 
1585. Para tomar este apontamento de Parìa comò 
falso e preciso acreditar nas seguìntes bypotheses in- 
fundadas do Dr. Storck: Que nascerà Camoes em 
Coimbra, e que até 1550 ahi vivera sua madrastaÀnni 
de Sa ; que fora sua màe uma Anna de Maeedo. }i b- 
lecida; e que seu pae Simao Vaz jà nao era rìroen 
1550, sendo im possi vel que~«o defuncto dehamnito 
affiancasse a pessoa de Luis Vaz.» 

D. Carolina Michaélis, escreve na sua edi^io dos 
Lusiadas ( Bibliotheca romanica, N.<> 10): «Postoqoe 
Parìa e Sousa seja em geral guia pouco seguro, os seni 
dizeres àcerca de um alistamento anterior ( em 1550) 
rescindido por motivos ignorados, talvez nào seìaiB 
inven^ào pura.» 




CAHdBS — EPOCA, VIDA E OBRA 435 



verìm: «Tornando ao Reino, ou por causa 
dos amores da Córte, ou por vèr que as fio- 
res da sua poesia Ihe ndo davam frueto, 
eomo costumami determinou de se passar a 
India.y De 1550 a 1553 é o periodo das ca- 
rinhosas esperangas ; durante tres annos que 
eateve na córte, apesar de todas as invejas e 
intrigas, deixou-se embalar por ellas, até que 
desoorsoado ou vencido, corno diz na Carta i 
da India: «mandei enforcar a quantas es- 
perangas dera de corner até entào com pregSo 
publico: por f alsificadoras de moeda. E deeen* 
ganei esses pensamentos que por casa traziaf 
por que em mim n3o ficasse pedra sobre pe- 
dra.» 

A confissSo do poeta concorda com a tra- 
dito apontada pelo seu segundo biographo. 
Hoje podemos precisar historica mente a si- 
taa^ao. Em 1550 o princepe D. Jo3o, acom- 
panhara seu pae D. Joào ni em visita à 
Universidade de Coimbra, com grande inte- 
resse mental, revelando um fervoroso gosto 
pela poesia e litteratura ; quer pela influencia 
domestica de seus tios os Infantes D. Luiz, 
D. Duarte, e D. Maria, que versifioavam, ou 
pela boa cultura dada por seu mestre o Dr. 
Antonio Pinheiro, chamado directamente de 
Paris para encarreger-se da sua educagao, é 
eerto que o princepe D. Joao empregou o 
prestigio da sua alta cathegoria para que os 
Poetas portuguezes Ihe enviassem as suas 
obras, que estavam na quasi totalidade ma- 
nascriptas e ineditas. O poeta mais admirado 
e venerado d'essa època, o Dr. Francisco de 
Sft de Miranda, que havia abandonado a 
e* 'te, o favor de D. Jo&o iii, è se refugiara 



436 H18TORIA DA UTTERATURA PORTUOITEZA 



estoicamente na sua quinta da Tapada, por 
pedido expresso do princepe trasladava os 
seus versos, enviando-Ih'os por tres yezes; ^ 
as poesias de S& de Miranda, hoje diffidl- 
mente apreciadas pelo vulgar leitor, eram no 
seculo XYi um encanto para as damas, corno 
se vd por um Soneto de André Falcio de Re- 
sende : A huma dama que Ha por o livro de 
Francisco de Sa de Miranda. 

O afamado poeta do Cancioneiro geral, JoSo 
Rodrigues de Sd, era o Camareiro mór do 
Princepe D. Joio; do seu talento poetico es- 
creve Frei Manoel da Esperanga, na Historia 
serapkica: «A este respeito celebrou a soa 
frescura (se. do rio Lega) a Musa galante do 
insigne portuguez JoSo Rodrigues de Sfi com 
a Cangao que dizia: 

Oh rio de Le^a, 
Como corres manso I 
Se eu tiver descanso 
Em ti cometa. ' 

D. Garcia de Almeida, que foi o primeirp 
Reitor da Universidade de Goimbra, erao 
Védor da Gasa do Princepe D. JoSo. Don 
Manoel de Portugal, filho do 1.^ Gonde de 
Vimioso e de D. Joanna de Vilhena, sua se- 
gunda mulher, por especial consideraQSo do 
seu talento poetico mereceu que D. Jo3o m 
Ihe concedesse a entrada livre no palado do 



' Estes cadernos, taes corno foram mandado^ o 
Princepe D. Joao iii, estào hoje publicados na Incom h 
ravel ediQào das Poesias de Sa de Miranda, fdta i f 
D. Carolina Michaelis. 

» Op. cit. p. 478. 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 437 



pritioepe D. Joao ; S& de Miranda o estimava 
ein extremo, e dirigia-lhe compoBÌ^des suas, 
depois que D. Manoel de Portugal regressara 
em 1542 da Italia. Fernao da Silveira, tam- 
bem offertou os seus Poemas^ hoje perdidos, 
ao Princepe D. Joio, que em carta escripta 
de Almeirim a 4 de Mar^o de 1551, Ih'os 
mandon pedir ; e por carta de 22 de Janeiro 
de 1552, OS mandara copiar pelo seu mdfo 
da camara Luiz Vicente, filho do fundador 
do Theatro portuguez. ^ Jorge Ferreira de 
Vasconcellos, vivendo na intimidade do prin- 
eepe, para elle passou a limpo a sua Comedia 
Euphrosina, e em 1554, publicou em Coim- 
bra OS Triumphos de Sagramor^ em que se 
tratam os Feitos dos Gavalleiros da Segunda 
Tavola Hedonda. Dedicado ao Princepe Dom 
Joao. Pelo talento da poesia é que JoSo Lo- 



1 No Obituario da Misericordia de Evora vem fa- 
toddo em 27 de MarQo de 1668: Fernao da Silveira, 
fDho do Coudel-mór. 

Em 1551, o principe D. Joao escrevia a Fernao da 
Sflveira, que vivia em Evora, pedindo-lhe os seus ver- 



< Fernao da Silveira. Eu o Princepe vos envio 
multo saudar. Porque rece berci grande contentamento 
eom vèr todas as Obras que tendes feito, vos recom- 
mendo multo me queiraes enviar o traslado d'ellas, e 
aio deixeis alguma de que m'o nao envieis ; e quanto 
mais breve o fizerdes, tanto mais prazer receberei e 
tanto mais vol-o agradecerei. Escripta em Almeirim, 
er~ 4 de Mar^o de 1551. Princepe.» 

Na sua impacìencia de obter copia dos versos de 
F n&o da Silveira, mandou o Princepe o seu secreta- 
ri mo^o da camara, Luiz Vicente, filho de Gii Vicente, 
6! fìns de Janeiro de 1 552, para fazer todo o traslado. 
L *ftva o copiata a seguinte carta : 

«Eu o Princepe, vos envio muito saudar. Pelo que 



438 HI8T0RIA DA LITTERATURA PORTUGUBZA 



pes Lei tao foi readmìttido na córte, corno pa- 
gem da lanQa do prìncepe. Era para ser de* 
dio^da ao princepe, que o Dr. Antonio Fer 
reira, ainda nos estudos de Ck>imbra> escrevia 
a sua Comedia BHsto. Brilhava outra vez a 
poesia na c6rte, corno se ve pelos innumeros 
poetas fidalgos que coUaboravam com Fedro 
de Andrade Gaminha, da casa do Infante 
D. Duarte. O poeta Fiiippe de Aguilar, primo 
de Gatherina de Athayde, era filho do trio- 
chante-mór do princepe. 

Gom quanta rasao podia Gamoes ter espe- 
rauQas de se mudar a sua sorte adversa, 
vendo que havia um princepe joven que prò- 
tegia o talento e apreciava a bella poesia. 
Foram com certeza estas as esperauQas qae 
nutria, e de que falla desalentado na Garta i 
da India. ^ Por isso que era Camoes reconbe- 



me escrevestes por urna carta vosaa àcerca deTOs 
mandar alguns escrivàes para trasladarem as vossas 
Obras, que os dias passados vos mandei pedir; envìo 
agora Luiz Vicente, meu moQO da CamBra, qoehebom 
escrfvào para as trasladar e m'aa trazer; e cumprìndo 
tornar alguns outros escrivàes mais, elle o farà, por 
que Rssim Ih'o mandei que o fizesse e vae providode 
todo o necessario para assim o fazer ; encommendo-ro« 
muito que Ihe deis todo o aviamento para Ihecamprìr, 
por quanto mais cedo vierem vossas Obras, maisfolgt- 
rei. Antonio Fernào a fez em Almeirim, a 29 dias do 
mez de Janeiro de 1552 annos.^ (Nobiliario da Familia 
dos Silveiras, fi. 212. Ms. da Bibl. do Porto ) 

O traslado em grande folio teve por Ululo Fornai 
de Femdo da Silveira, Senhor de SarzedcLS, dedica ' * 
ao Princepe Dom Jodo, Conservou-se na Livrarìa • 
Duque de Lafoes. Descreve-o Barbosa Machado. 

^ O Dr. Storck acceitou este nosso modo de ve' 
dà-lhe relèvo. (Vida, p. 408.) 



GAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 439 

ndo corno um genio pelo seu intenso lyrismo, 
empregaram-se logo os meios odiosos da ca- 
tamnia e damnadas tengoes para evitarem a 
sua aproximaQ&o do princepe. Camoes ainda 
procura o valìmento de pessoas sérias para 
Tencer essa corrente traiQoeira. E' ao grande 
hamanista Dr. Antonio Pinheiro, o pedagogo 
do Princepe D. Jo3o, que enderega o Sonato 
OXG, allusivo ao seu tentarne de Epopèa por- 
tugueza : 



Despois que viu Gybele o corpo humano 
Do formoso Àtys seu verde pinheirOj 
£m piedade o vao furor primeiro 
Gonvertido, ohorava o grave dano. 

E, à sua dor fazendo illustre engano, 
A Jupiter pediu, que o verdadeiro 
Prego da nobre palma e do loureìro 
Ao seu pinheiro desse, soberano. 

Mais Ihe concede o filho poderoso 

Que, crescendo, as estrellas tocar possa, 
Vendo os segredos là do Gèo superno. 

Oh éìXoso pinheiro ! Ohy mais ditoso 
Quem se vir coroar da rama vossa. 
Cantando d vossa sombra Verso eterno. 



Este Soneto foi sempre mal comprehen- 
dido pelos commentadores e biographos de 
CamSes ; Farla e Sousa foi de opiniao que se 
referia a D. Rodrigo Pinheiro, bispo do Fun- 
<^al, depois de Angra e por firn do Porto, 
nomeado Governador da Gasa do Givel em 
1548. N3o fundamenta o asserto; simples- 
mente a allus3o de Atys convertido em pi- 
n/ ito tinha sido thema do poemeto de Gada- 



440 HISTORIA DA LlTTKRATDRA PORTIfOUBSA 



vai Gravio, Pithyographia^ dedicado a esse 
biapo. * 

Depois d'està hypothese, apresenta Jnro- 
menha outra, tambem seguida pelo Dr. Stor^: 
o Sonato cxc parecelbe dedicado ao bispo 
D. Gonzalo Pinheiro, grande humanista e he- 
braisante, que fora bispo de Tanger, e em 
1543 embaixador junto de Francisco i, sendo 
nomeado ao voltar para Portugal desembar- 
ffador do Pa^o por carta de 14 de Novembro 
de 1548, e transf erido para o bispado de Vi- 
seu em 1553. Como D. Gonzalo Pinheiro aa- 
signou a Carta de perdio a Gamoes em 7 de 
Mar^o de 1553, concine Juromenha: co certo 
é quo a nomeagao do bispo e a sahida do 
Poeta da prisSo, foram suocessos que ambos 
tiveram logar no mesmo mez e anno de 1553. 
e està coincidencia dà toda a probabilidade fi 
nossa conjectura.» (Obr., i, 53.) — <0 Sonalo 
— em o qual, debaixo da allegoria de um pi- 
nheiro^ se dirige o Poeta a uma peasoa de 
elevada posigSo social d'este meamo appel- 
lido, d& rasSo para acreditar, que o bispo, 



^ O celebrado huuianista gallego Cada vai Grazio 
(D. Alvaro Cadaval Valladares de Sotomayor ) dedieoo 
ao bispo do Porto D. Rodrigo Pinheiro nm poemetD 
latino Pithyographia, em reconhecimento de ter aldo 
hospedado na Quinta da Maia. Ahi deacreve am Fi- 
nheiro em que cantam as avea ; e a metamorphoae di 
nympha Pitys e de Atis em pinheiro. Foi o poemeto 
impresso em Lisboa em 1568, contendo mais: — 
Epitaphio em louvor da Princeza D. Maria, prìmdn 
esposa de Philippe ii; o EncomiasHeon Carmm t 
D. Gaspar Avelaneda de Zunìga ; a Braekioloffia ao 
Infante D. Duarte, neto de D. Manoel, e um Carme* t 
Ruy Gomes da Silva. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 441 

que antes o tìnha aido de Tanger na Àfrica, e 
qne talvez ti vessa alli conhecìdo o Poeta, 
aproveitasse a sua recente nomeaQ3o, para im- 
petrar por està occasiSo corno graga especial 
do soberano, a soltura do poeta.» (Ib.^ 52.) 
Centra està generosa hypothese a favor de 
D. Gonzalo Pinheiro, oppoe D. Carolina Mi- 
ehaelis : < Pena é, semente, que o Soneto nSo 
contenha um unico pensamento ou palavra 
allusiva fi protecQ3o que o prelado se dignou 
dispensar a Camdes, nem ao goso da liber- 
dade, alcan<;ada ao cabo de mezes de enfado- 
nlia prisSo! — Apenas — e nas ultimas tres 
lìnhas o desejo de cantar o Verso eterno dos 
Lusiadas & sombra de um Pinheiro. De re- 
eonhecimento nem uma palavra.» (Vida, p. 
428, net. *) E' bem considerado. 

O pinheiro, a quem foi concedido o prègo 
do loureiro e da palma, é o Dr. Antonio Pi- 
nheiro, laureado nas cathedras de Paris, onde 
regera Bhetorica e Theologia, d'onde veiu em 
1546 chamado para mastre do Princepe Dom 
Jofto. Foi n'essa epoca venturosa de Cam5es 
na cdrte, que o Dr. Antonio Pinheiro teve 
occasiSo de admirar-lhe o genio poetico. Na 
sua elevagSo a Bispo de Miranda, comò diz o 
Poeta, é que ficou — ^« Vendo os segredos là 
do Céo superno.» Por ventura o Soneto foi 
dirigido a D. Antonio Pinheiro em 1551, 
quando elle fez a Pregando funebre por man- 
dado de D. JoSo III, no dia da trasladagdo 
à 8 0SS08 do muito alto e mui poderoso pHn- 
e ìé Et rey D. Manoel^ seu pay, e a Rainha 
1 Maria, sua mde, de louvada memoria. 
I Antonio Pinheiro tinha uma excepcional 
i portanda na cOrte, e desde 1545 n&o havia 



\ 



442 HISTOBIA DA UTTEHATURA PORTUGUBZA 

acto officiai apparatoso em que elle dSo fosse 
o orador ; elle é que podia patrocinar GamSes 
approximando-o do Princepe D. Jo3o, can- 
tando & sua sombra Verso etemo. Mas... 
«foi este prelado um dos que deslealmente 
serviram as intrigas castelhanas no tempo do 
Oardeal Rei, que prepararam a entrega de 
Portugal ao ambicioso Philippe n.> (Jur.,* 
06., II. 468.) 

Oamdes vendo que D. Antonio Pinheiro 
devia a sua situagao de mestre do Prinoepe 
ao jesuita Padre Simio Rodrigues, compre- 
henderia a inefficacia do seu valimento notan- 
do agora corno o mesmo jesuita, sob um aspe- 
cto benigno, movie na Inquisito de Lisboa 
em 1650 urna perseguigao contra os professo- 
res do Collegio Real de Goimbra. Era o mesmo 
intrigante que machinara a ruina de DamiSo 
de Goes, demolindo a nova fundagfio do Col- 
legio real em que ensinavam Humanidades ob 
insignes professores que comsigo trouxera de 
Franga Mestre André de Gouvèa. 

Como ficou exposto na Historia da Unir 
versidade de Coimbra. em 1547, depois de 
D. Jo3o III ter renovado o pessoal docente 
mandando vir jurisconsultos celebres de Ita- 
lia, confiou a André de Gouvèa a missio de 
vir fundar um Collegio de Artes e Humani- 
dades, com professores por elle escolhidos. 
Ninguem melhor para tal encargo do que le 
plus grand Principal de Franee^ comò Mon- 
taigne caracterisou André de Gouvèa. O Mr 
teiro de Santa Cruz de Goimbra manifestoo 
sua hostilidade contra està indepeifdencia < 
Universidade tendo um Collegio propri 
Mestre André de Gouvèa licenciara-se no G 



OAXOeS — SPOOA, VIDA E OBRA 443 

Jo de Bordéos, trazendo para Portugal um 
GoQegio inteiro em que figuravam Diogo de 
Tei ve, o Dr. Joào da Costa, Jorge Buchanan 
• seu irmSo Patricio Buchanan, Nicolas 
GroQchy, Guilherme Guerente, Elie Vinet, e 
outros vultos alguns distìnctos na Renascenga 
franceza. A hostilidade de Santa Cruz teve 
iogo por bandeira os titulos de Parisienses e 
BordalezeSt em antipathia inconcilia vel ; os 
Gruzios primavam de terem estudado em Pa- 
ris, em quanto que os do Collegio de Mestre 
André tinham vindo de Bordéos. Os Jesuitas 
aproveitaram estas dissidencias, e desde que 
André de Gouvèa morreu de doenga repen- 
tina nos trabalhos da sua installa^ao, facil foi 
despresar o Collegio Real, prendendo por de- 
nmicias de lutheranismo alguns dos mais no- 
taveis professores, comò Diogo de Teive, o 
Dr. Jo&o da Costa e o grande humanista 
George Buchanan. Os outros professores vi- 
rtm-se for^ados a ausentarem-se de Portugal, 
e D. JoSo ni, dominado pelo P.« Simao Ro- 
drìgues, mandou entregar aos Jesuitas o Col- 
legio Real, que se incorporou com o Collegio 
daa Artes, fundado em Coimbra pela Compa- 
Bhia e dotado pelas rendas da Universidade. 
Qundo Camoes chegou a Lisboa em fins de 1 549 
estava està lucta tra vada, e em 1550 o P.^ 
Simào Rodrigues era uma das testemunhas 
jaradas contra a orthodoxia dos professores 
bordalezes ; estavam presos na Inquisigio 
de Lisboa, em julgamento Buchanan, Teive 
e Dr. JoSo da Costa. O facto deixou-lhe a im- 
pressSo da avidez e espirito de intriga dos 
mU ReligioaoB diligentes^ que verberou nos 

lAeHadas. A perspectiva da florescencia hu- 



r 



444 HIBTORIA DA LITTEBATURA FOBTUGCKZA 



manista sob o impulso de André de GouTda, 
e em que podia achar emprego a sua grande 
cultura litteraria, foi mais urna das esperaii- 
gas de Camoes que se desfez diante das per- 
seguigdes que afastaram de Portugal os prò- 
fessores francezes, que viram os seus trae col- 
legas nos carceres inquisitorìaes. Como 6 que 
D. Antonio Pinheiro, que era feitura dos 
Jesuitas, poderia interessar-se por Caraóes 
e quando alguns rivaes seus eram obececada- 
mente reacoionarios? 

N'este empenho de ser apreciado pelo ia- 
telligente princepe, serviu-se Camoes da sua 
amisade e ainda parentesco oom D. Manoel 
de Portugal, que bem conhecìa todos osplanos 
que andava elaborando para a formalo de 
uma Epopèa portugueza. Dirigiu-lhe a Ode 
VII, intercalando a! aquelle verso de Si de 
Miranda: Senhor Dom Manoel de Porti^ 
gal, ( Eclog. rv.) alludindo delicadamente io 
grande louvor que merecera do iniciador da 
Eschola italiana, e de quem elle era nm di- 
scipulo fervoroso : 

A quem farào os Hymnos, Odes, Canto» 

Em Thebas Amphion, 

Em Lesbos Arion, 
Se nào a vós, por quem restituida 

Se ve da Poesia jd perdida 

A honra e gloria eguale 
Senhor Dom Manoel de Portugal ? 

Imitando os esp'ritos jà passados, 

GentiSy altos, reaes, 

Honra benigna daes 
A meu tao baixo quam zeloso engenho, 
Por Meeenas a vós celebro e ienho; 

E saero o nome vosso 
Farei, se alguma cousa em verso posso. 




CAMÒBS — EPOCA, YIDA E OBRA 446 



O rudo Canio meUf que resuscita 
As honras sepuUadas, 
As ^almas jd passadas 

Nos bellicosos campos. lusUanos, 

Para thezouro dos faturos annos, 
Com vosco se defende 

Da Lei lethéa, a qual tudo se rende. 



Na vossa arvore ornada de honra e gloria, 

Achou tronco exceliente 

À hera florescente 
Para a min ha a té aqui de baixa estima ; 
Niella» para trepar, se encosta e arrima ; 

E n'ella subireis 
Tao alto, quanto os ramos estendeis 



Està Ode tem sido erradamente oollocada 
no quadro da vida de CamSes, attribuindo 
por ella a D. Manoel de Portugal o ter apre- 
aentado o poeta ao rei D. Sebastiio para 
ofCerecer-lbe o poema dos Lusiadas. Hypo- 
these gratuita; a hera florescente, que para 
trepar se encosta fi arvore ornada, està indi- 
eando que isto se nSo passava na velhice do 
poeta, mas na sua mocidade. À protec^So ou 
valimento de D. Manoel de Portugal para a 
reentrada na córte, comò se expressa na Ode 
vn, coUoca-se n'este periodo em que tinha Ga- 
mfies grandes esperangas de ser apreciado 
pelo Princepe D. Jo&o, junto do qual gosava 
D. Manoel de Portugal as livres entradas. O 
critico camoniano D. Francisco Alexandre 
Lobo determina a data d'està Ode vii, antes 
dn partida de Camoes para a India , isto é 
a] eriormente a 1553. E' luminosa està infe- 
ri icia: cDeixa vèr o theor d'està Ode, que 
f( composta no reino; e se foi composta no 



1 



446 HISTORIA DA UTTKRATURA PORTUOUBZA 



reino, é quasi necessario referir a sua ooai- 
posÌQao ao tempo em que andou por Lisboa, 
anies de se embaroar para a India.> E in- 
siste : < a Ode YU foi oora da sua mocidade, 
depois de concluidos os estudos de Coimbra, 
e antes da resoltigdo decisiva de sahir do 
reino. Em D. Manoel de Portugai achon 
tronco robusto e benigno para se encostar a 
hera floreseente de seu peregrino engenho/d 
invejado da fortuna e opprimido da vii ut- 
cessidade, segundo o que elle declara na 
Ode. > ' O Canto, que resuscitara as Honras se- 
pultadas, era entSo exclusivamente historioo; 
a idealisa^So dos Descobrimentos maritìmoi 
— Por mares nunca d' antes navegados, n§o 
tem referencia na Ode vii, o que é muito ca- 
racteristico para a elabora^So definitiva da 
EpopSa. 

Infelizmente D. Manuel de Portugai na- 
da conseguiu a favor de Gamoes, cen- 
tra a virulencia das mds linguas, das peo- 
res tengoes e damnadas vontades nasi^das 
de pura inveja; na queixa que o poeta dei- 
xou na sua Carta i, tambem allude com ma- 
goa &s amisades mais brandas que céra, qu$ 
se aceendiam em odios. . . e D. Manoel de 
Portugai, comò se sabe pela sua vida, era um 
caracter passivo, acabando em um mystidsmo 
resignado. | 

Depoìs do regresso de Ceuta, procnroa 
Cam5ea saber novas de D. Cath^rina de 
Atbayde. Que impressSo Ihe causarla a lesio 
do olho direito, que tanto o desfeiava? Nt 



Hi8t. e MemorÙM da Aoadsmia, t. vii, p. 17 



OAMdBS — EPOCA, VIDA E OBRA 



447 



Irte jfi Ihe jogavam Epigrammas ; urna dama 
lamoulhe com desdem Cara sem olhos. ' O 
^eta oom a sua suprema generosidade, glo- 
m esse mote af f rontoso : 

Sem olhoB vi o mal claro 

Qae dos olhos se seguiu : 

Pois cara sem olhos viu 

Olhos qne Ihe custam caro. 

De olhos nào fago men^ao, 

Pois quereis que olhos nào sejam, , 

Vendo-vos, olhos sobejam, 

Nao vos vendo, olhos nào sào. 

Gatherina de Athayde viu o poeta depois 
lo regresso de Ceuta, e d3o Ihe fez sentir es- 
inheza. Conta-o o poeta no Sonato xci : 

Yós, qne de olhos suaves e serenos 
Com jnsta causa a vida cativaes, 
E que OS outros cnidados condemnaes 
Por indevidos, baixos e pequenos ; 

Se de Amor os domesticos venenos, 
Nunca provados, quero que sintaes, 
Que é tanto mais o amor despois que amaes, 
Quanto sào mais as causas de ser menos ; 

E ndo presuma alguem que algum defeito 
Quando na eousa amada se appresenta. 
Pòssa diminuir o amor perfeito ; 



^ Na biographia de Gamòes por Frei Francisco 
bde Santo Agostinbo Macedo, vem referencia à nobre 
deatriz por que era apodado entre as damas : < As Da- 
mas o motejavam de feo, com piques de nomes : cha- 
mando-lhe uara sem olhos e Diabo sem luses, a que 
elle replicou com chistes e gra^as...» (Ms., n.» 331, 
|fi« 3, da Bibl. nac.)* 

Os biographos de Camoes nunca souberam apro- 
▼eitar o elemento constructivo que ha n'estes vesti- 
KÌ08 tradicionaeSy que elles tornaram frivolas curiosi- 
ci ,6Sa 



448 HISTORIA DA UTTERATURA POSTUGUEZA 



Antes o dobra mais; e se a tormenta, 

Pouco a pouco desculpa o brando peito ; 

Que amor com seus contrarios se aocrescenta. 

O amor de CamSes, diante d'està sublime 
simplicidade de Gatherìna de Athayde, tor 
na-se um mais vehemente estimulo para a rea^ 
Usa<;3o do pensamento da sua vida. 

A Egloga iVy que na edi^So de 1594 traz 
o titulo A urna Dama^ representa perf alta- 
mente o seu regresso 6, cdrte em 1550, quando 
fundou as suas esperan^as na realisa^o da 
Epopèa portugueza. Ella o poderfi inspirar 
n'esse alto ideal : 

Com qualquer pouca parte. 
Senhora, que me deis de ajuda vossa, 

Podeìs fazer que eu possa 
Escurecer ao sol resplandecente ; 

Podeìs fazer, que a gente 
Eni mi do grào poder vosso se espante ; 
E que vossos louvores sempre cante. 

Podeìs fazer que crega de hora em hora 
O nome Lusitano^ e faqa invefa 
A Smyrna, que de Homero se engrandece ; 
Podeis fazer tambem que o inwndo veja 
Soar na ruda franta o que a sonora 
Cithara Mantuana so merece. 

Na Egloga alternam o canto dois pasto 
res, representando-se Gamoes com o nome de 
Frondoso, recriminando a amada do esque- 
cimento do passado : 

Olhos, que viram tua formosura, 
Vida, que so de vér-te se sustìnha; 
Vontade, que em ti estava transformada^ 
Alma, que essa alma tua era si so tinha, 
Tao unida commigo, quanto a pura 
Alma co'o debil corpo està liada: 




CAMOB8 — EPOOA, VIDA E OBRA 449 



E que agora apartada 
le ve de si eom tal apar lamento ^ 
Qual sera seu toruiento? 



Logra tu tua gloria, eu meu tormento. 

Nenhum apartamenio, 
Belisa. me fard deixar de amar-te: 

Porque era nenhuma parte 
Poderas nunca estar sem mi hum' hora. 



E Camdes terminando o oanto amaebeo 
dog doÌ8 pastores < ao longo da Ribeira de- 
leitosa. > dirìge-se no epilogo outra vez ' & 
l)ama, que invocara : 



Se aquillo que eu pretendo 
D'este trabalho ha ver, quo é todo vosso, 

Senhora, alcangar posso; 
Nao sera inuito haver tambem a gloria 

E o lauro da Victoria ^ 
Que Virgilio procura e haver pretende^ 
Pois o mesmo Virgilio a vós se rende. 



Os dois pastores» que alternam no canto 
celebrando os seus amores, sao Camdes e o 

IOTen D. Antonio de Noronha, que andava 
oacamento apaixonado por D. Margarìda da 
Silva (Silvana, na Egloga.) ^ O Morgado de 



Na identidade psychologica das naturezas ge- 
lee, està amisade de Camoes é comparavel a de 
)ethe, por Frederico Stein, ao qual a màe do poeta 
srevia em carta de 9 de Janeiro de 1780: «Goethe 
re sempre amisade a galhardos rapazes, e encanta- 
— « a sua convivencia vos tome feliz. * 




460 HI8TORIA DA UTTERATURA PORTUOUBZA 

MatheuB, nas notas fi biographia de GarnSaSt 
qua acompanha a edifSo monumentai dos Lu- 
siadas^ apontou o problema da amisade de 
Camdes, com os seus vinte e sete annos da 
edade, com D. Antonio de Noronha tendo pouoo 
mais de c^uinze. Pelas condi^Oes psychologi- 
cas conoluiu, qne a Elegia de Ceuta e as Ou- 
tavas a D. Antonio de Noronha sSo de uma 
epoca inteiramente incompativel com a ex- 
trema juvenilidade do filho do Gonde de Li- 
nhares. Quando Gamdes regressou a Lisboa, 
era o joven D. Antonio de Noronha, da 
mesma edade do Princepe D. Joao, multo ea- 
timado na córte ; comò apaixonado, conhecen- 
do 08 perseguidos amores de Gamoes aproxi- 
mou-se d'elle, tornou-se o seu confidente, 
dando-Ihe noticias de D. Gatherina de Athay- 
de. O Dr. Storck, que tanto phantasiou sobre 
as relsQdes do poeta em casa do Gonde de 
Linhares, observa com justf^za ficerca de 
D. Antonio de Noronha : « Gonfidente e inter- 
mediario nos amores de Luiz de Gamdes e 
D. Gatherina de Athayde, confessar-lhe-ia a 
ardente paixào que tinha por D. Margarida 
da Silva...» {Vida, p. 420), A Egloga vii 
dos Faunoa fondamenta estas intimidades dos 
dois namorados: 

Se o hieu engenho é rudo ou imperfeito 
Bem sabe onde se salva 

Em vós minha fraqueza se defende; 

Em vós instilla a fonte do Pegaso 

O que o meu Canto por raundo estende. 

Tinha sido a poesia amorosa que suscitare 
a sympathia do joven D. Antonio de Noro 



CAMOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 45 1 



ta por Gamoes ; o pobre expedicionario de 
lirica teve esperanQa que pelo seu vaii- 
mto minorassem as hostilidades palacianas. 
\à Egloga dos Faunos, admiravel esbdQO da 
bnisodìo da Uha dos Amores, qae andava 
poealisaiìdo, celebra os amores de dois apai- 
ponados, que seguiam aa Nymphas de alvas 
iMmes: 

Mas dois sylvestres deuses, que traziam 

O pensamento em duas occupado, 

À quem de longe mais que a si queriam ; 

, Nao Ihes ficava monte, valle cu prado, 

Nem arvore, por onde quer que andavam, 

Que nào soubesse d'elles seu cuidado. 

I 
I 

D. Antonio de Noronha^ que frequentava 
P P(^9o, dava noticia a Camdes da suave Ga- 
jttierina de Athayde; o poeta aconselhava-o 
itos desalentos da sua paixSo por D. Marga- 
IrMia da Silva. O pae de D. Margarida da 
Silva, D. Garcia de Almeida, fora Reitor da 
llnivereidade de Goimbra no tempo em que 
Oamoes frequentou os estudos; Gamoes man- 
iere sempre uma profunda sympatbia pelos 
Almeidas. Os amores de D. Antonio de Noro- 
Bha eram contrariados pela familìa; egua- 
b-se a Gamdes na mesma aneiedade, apesar 
da differenza de annos, n'esse periodo de 
1651 a 1553, em que a dura fatalidade os 
Beparou para sempre. 

pensamento da Epopèa nacional que se 
illaminava com os amores de Nathercia, ser- 
pa de objectivo para os Epigrammas de Pe- 
ltro de Andrade Gaminha, cansado de ouvir 
lui'** n'essa tSo annunciada obra genial; 



i 



452 aiSTORCA DA UTTERATUKA FORTUGUSZA 



assim no Epigramma oxly, qaasi parodiane 
a invocaQSo dos Lusiadas^ ataca-o Camioha 

Dizes que o bom Poeta bade ter furia. 
Se nom bade ter mais és bom poeta; 
Mas se o Poeta bade ter mais que furia. 
Tu nào tens mais que furia de Poeta. 

Oomprehende-se a certeza do golpe, apn 
xi mando este Epigramma da estrophe da il 
vocaQao dos Lusiadaa: 

m 

Dae-me urna furia grande e sonorosa, 
E nào de agreste avena ou frauta ruda. 
Mas de tuba canora e bellicosa 
Que o peito accende e a cor ao gesto muda. 

Caminha tambem ataca Luiz de Gamdej 
por causa das innovaQ5es que fizera na poe« 
pastoril: 

A teu sabòr escreves o que escreves, 
A leis de outros poetas nom te obrigas ; 
Tambem tu és poeta, e nom te deves 
Atar a leis de Poesia antigas; 
Faze leis e desfaze, corno fazes, 
Hi- te dos outros se te satisfazes. 

Referia-se este Epigramma cxliv de Gami 
nha & Egloga vi, no estylo piscatorio inno 
vado por GamSes em Portugal : 



A rustica contenda desusada 

Entre as Mtisas dos bosques e as areias 

De seus rudos cultores modulada. 



Vereis, Duque sereno, o estylo vario 
A nós novOf mas n'outro mar cantado 
De um que so fui das Musas secretario. 



i 



r^ 



■■Hi 



CAM5E8 — EPOCA, VIDA E OBBA 



453 



O pessador Sincero, que amansado 
Tetn o pégo Prochyta co'o canto 
Por as sonoras ondas compassado, 

D'este seguindo o som, que pode tanto, 
E misturando o antigo Mantuano, 
Fagamos novo estylo, novo espanto. 

A fórma da genialidade de Camoes nao 
foi a de urna eobreexcitaQSo da sensibilidade, 
mantendo em estado morbido os elementos 
nervosos; a bòa cultura synthetica, comple- 
tando-se pela synergia da sua vìda em diver- 
sissimos melos, teve um objectìvo para onde 
convergiram todas as assimiIaQ5es mentaes e 
adaptagoes pràticas, por uma fórma serena, 
deliberada e consciente — foi a expressSo sym- 
pathica da Patria portugueza pela creaQ3o 
da Epopèa moderna. Maudsley caracterisa 
estes genios exemplificando-os com as indivi- 
dualidades supremas de Shakespeare e de 
Goethe. No melo de todos os acontecimentos 
da Vida, as altas individualidades «fazem a 
integraQ&o das suas faculdades mentaes, pelas 
quaes de facto se formam a imaginagSo ver- 
dadeiramente creadora dos maiores poetas, e 
a rasao potente e quasi intuitiva dos maiores 
pbilosophos. — Embora se possa dizer des- 
cuidadamente, que é exacto que o genio de 
um poeta subjectivo e de uma sensibilidade 
delicada indica uma condi<;ao morbida dos 
elementos nervosos, n3o se póde comtudo 
suertentar, apoz um momento de reflexao, que 
o genio de homens comò Shakespeare e 
GoSthe tivesse origem n'um estado morbido. 
O impulso que leva estes homens a realisar a 
sua grande obra, nSo é o resultado de um 



^ 



464 HI8TOR1A DA UTTERATUBA PORTUGUBZA 



descontentamento, mas de urna nSo — satu- 
fa^So — de um desejo de adapta^So ; elles tèm 
necessidade de sentir, e de conhecer cada vez 
mais a natureza sob os seus numerosos as- 
pectos, e de se pdrem em relai^es cada yez 
mais intimas com ella ; as suas potencialidades 
internas manifestam-se por um sentimento de 
necessidade, por um desejo, um instincto nio 
satisfeito, taes comò os elementos organioos 
inferiores manifestam a sua sède... — Os 
actos do genio podem ser novos, sahirem 
fora da retina do pensamento ou do prooedi- 
mento: apezar d'isso, embora pare^am estni* 
nhos ou surprehendentes aos que trabalham 
• om regularidade automatica no organismo 
social, elles contém de uma maneira oonsdenta 
ou inconscìente, um designio bem determi* 
nado ; implicitamente, ha n 'elles o reconhed- 
mento das relagoes exteriores, resposta intel- 
ligente a estas rela<^es ; por outras palavras, 
elles tém por fim a satisfaQfio de um impulso 
que Ihes e inherente, e nao se exerce menos 
reflectidamente, embora seja inconsciente da 
sua natureza e do seu fim.» {Op. ciL^ p. 322.) 
Mostrando tambem comò uma grande ima- 
ginagao coexiste sempre com uma grande 
intelligencia, observa Maudsley : < No genio 
verdadeiro póde hayer o desvio do curso ha- 
bitual das cousas ; mas a organisa^io do exi* 
stente é reconhecida comò a base de um de* 
senvolvimento mais eie vado : o passado fa- 
siona-se com o futuro em molde novo.» (/b-i 
224.) Isto explica a obra de CamSes, na cor- 
rente da RenasceuQa, na tremenda reae^o 
catholica, e ainda no meio da decadendada 
nacionalidade, re vivificando as tradiode^ de 






CAMOBS — BPOCA, TIDA B OBBA 



um passado glorioso e aspirando a um futuro 
no aea Poema ou Pregio eterno. 

Cam6es nSo alcantara oom os seas doia 
annoB de Ceuta o despaoho de urna Com- 
nenda; trazia conatudo um signal evidente 
da aua coragem, que Ihe dava maia audacia 
e bravura : perderà o olho direito em urna 
refrega, e iato o expunba aos motejoa -alva- 
res, comò os que o pseudo-Avelaneda vibrara 
oontra Cervantes no prologo da parte apo- 
erypha do Don Quixote. Pedro de Andrade 
Caminba, no Epigramma ex. refere-se indù- 
bitavelmente a Camdes apóz o aeu regresso 
de Ceuta, alludindo caricatamente a ter um 
olho de meoos : 



Contenda de doib 

Um lem doin olho», e coni vista darà, 
Outro um so lem, e esse co'a vieta estreita; 
Um diz dquelle ; • Ainigo, eu aposCara 
A qual de nÓ3 tem vista mais perteita?* 
Quem houvera que a si nom se enganara, 
Como o oiitru, que enganado a apósta accetta? 
Diz-lhe este : - Ve que vejo inaia que ti, 
Pois dois olhws te vejo, um so tu a mi. 

CoDtra a ìnterpreta^So historica d'este 
Epigramma, oppOe o Dr. Storck : < seria mui 
pouco nobre e circumspecto da parte de Ca- 
minba motejar injuHosa e maliciosamente de 
uni aignal ganho no campo da honra, quando 
batalhava pelo rei e pela patria ; . . . > ( Vida, 
p. 416.) A este argumento moral contrapd- 
mos outro argumento moral decisivo : foi este 
meamo Caminha, que desceu & indignidade 
de ir denunciar & InquisÌQSo Dami3o de Góee, 



^ 



456 H18TOBIA OA UTTBBATURA POBTUGU8ZA 



aggravando-lhe a situa^So, quando o velbo 
chronista jazia n'um infecto carcere do Santo 
Officio, corno se le no processo respectìvo. A 
malevolencia que conspirava contra Camoes, 
forjava-lhe calumnias affrontosas, para exaa- 
toral-o da sua valentia ; na Nova Floresta do 
P.« Manoel Bernardes, (t. rv, p. 43) narra-se 
inconscientemente urna tradi<;So — que um fi- 
dalgo encarregara Gamdes, conhecido comi) 
valentSo, de dar cabo de um individuo, qua 
era cago de um olho. Passado tempo» comò a 
commissSo se nSo cumprira, o fidalgo incre- 
pou Gamdes, respondendo-lhe o Poeta: 

Logo Ihe nào vi bom geito. 
Quando vol-o dei por morto ; 
Porque torto niatar tòrto 
Nào me pareceu direito. ' 

Propositadamente visava-se a infamar 
aquelle caracter generoso e digno. por aoe- 
doctas transmìttidas anonymamente. Jnrome 
nha encontrou urna alcunha que Ihe deram. 
corno a um rascao, — o hometn das abas 
grandes : < o que deu logar a um Rpigramma 
(inedito) seu, ao ouvir uma senbora, que es- 
tava a uma janella, chamar outra para véro 
homem das abas grandes^ que comega: — 
Quem por abas me quer conhecer, etc.-^e 
que eu nao termino por ser d'aquellas poesias 
do nosso Poeta, que peccam algum tanto con- 
tra a decencia.» ' 



^ Faria e Sousa, Comm. aos Lusiadas^ i, ( ;0 
Fr. Francisco de Santa Maria, Anno historieo, t. p> ^ 
369. 

* Jur., ObraSf i, p. 134. 



I 




GAMdSS — EPOCA, VIDA E OBRA 457 



Gaminha, no Epigramma cxxx, A um que 
86 gabava de Gavalleiro, deìxou o vestigio 
do fóoo d'onde dimanavam as calumnias exe- 
crandas, que faziam de Camoes um matante : 

6a baste-te de grande Onvalleìro, 
E se em matar està a Gavallaria, 
DeveiD-te n'iPto ter por verdadeiro, 
Pois matas oiil co'a lingua cada dia ; 
Sempre no mal dizer és o primeiro, 
No bem dizer a lingua se te esfria; 
Este é o esforgo com que al^ar-te queres, 
Estas as armas com que a tantos feres. 

E corno Camoes era jà pelo pensamento 
da sua Epopèa, que andava idealisando, con 
siderado grande Poeta, Caminha encommo- 
dado com essa acclama^So, vibra-lhe o Epi- 
gramma GXLII: 

Nada, segundo entendo, te parece, 
Grande Poeta^ bem na alheia Musa ; 
Nunca ante ti na tua erro apparece, 
E se t'o mostram das-lhe logo a escusa ; 
Se o conselho te enfada e te avorrece, 
Que se póde dizer a quem isto usa, 
Se nao, que bem seus versos Ihe pare^am, 
E OS alheìos Ihe enfadem e avorre^am. 

No seu Epigramma cxLViir, Caminha 
chega a revelar rela<;5es intimas que em 
tempo ti vera com Camoes: 

Muitas vezes meus versos me pediste 
Que t'os mostrasse, e nunca t'os mostrei; 
Em nom pedir-te os teus, se bem sentiste, 
Entenderias porque t'os neguei: 
Da paga me temi ; se a nom temerà, 
Maitas vezes meus versos jà te léra. 



I 



458 H18TORIA DA LITTBBATURA PORTUGUBZA 



Como quo a dar verdade a està referencia 
de Caminha, encontra-se na Livraria da Gasa 
de Cadaval, um manusoripto contendo papeis 
e Cartas particulares de D. Gonzalo Coati- 
nho. (amigo de Cam5es) em que vem eate 
verso: Um pensamento perdio glosado ero 
outavas em redondìlhas, pelos seguintes poe- 
tas: 

— D. Francisco de Moura, 

— Pero de Andrade Caminha, 

— Antonio Ferreira, 

— Diogo Bernardes, 

— Luis de Camoes 

— O Conde de Mattosinhos. 

D. Francisco de Moura, teve relaQoes ioti- 
mas com Caminha. Ferreira e Bernardes, 
que, comò se deprehende da Carta xxx d'aste, 
possuia a coUecgSo dos seus versos; resta 
d'elle, glosada por Caminha, està Cantiga: 

Toda ]a noche su spiro, 
Harto lle^ar a llamarte; 
Que el dia que no te miro, 
Mas deseo de mirarte 

(Caminha, Poes. ined., ?rtO.) 

A glosa commum do verso Um pensa 
mento perdio pela presenoa de Antonio Fer- 
reira no grupo em que estfi Camoes, leva a 
collocar o facto comò passado antes de 1653, 
e antes do nome satirico de Magalio ser ei 
pregado por Ferreira comò parcial de Gan 
nha. 

Lembrandonos da genealogia fidalga ( 
Camoes e da sua forte educaQào erudita, q 



OAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 459 

destacava eatre os espiritos cultos da Re- 
nascenga, figurando tambem por essQs requi- 
8it08 na córte, tornasse patente o sentido do 
Epigramma evi, de Pero de Andrade Gami- 
nha A um qua tinha grande opinido de sa- 
ber e de sangue : 

Se està o saber na propria opiniào. 

Tu so, Sem falla, sabes mais que todos; 

Se tambem està n'ella a geranio, 

Tambem, sem faha, és nobre mais que os Godos; 

Mas se està no que sabe o mundo todo, 

Sabe-se, que netii sabes, nem és Godo. 

O que levaria Gaminha a atacar Camdes 
sobre qualidades que o poeta nao alardeava ? 
E' oste o argumento que opp5e o Dr. Storck, 
{op. cit., 366) que nunca sobre a sua no- 
breza bravatèa Cam5es. A resposta està em 
um facto suggestivo; em 1551 publicou o Li- 
cenciado Molina o livro Deseripeion del Reyno 
da Galizia y de laa eosas notables del; ci- 
tam-se n'essa obra os Gamanos com o seu so- 
lar proximo da Gorunha, descrevendo as suas 
armas — um Escudo dourado com um braQO 
em m§os de um Anjo entro duas azas, su- 
stentando urna corda na mSo. A fi. lvi, vem: 

Tambien en Galizia verey Ics Camahos 
notorios hidalgos y buenos solares . . . 

Pela data da publicaQSo d'este livro em 

1651, verse que o appellido de Gamoes era 

• icutido na córte e que o poeta acbava en- 

jo para repellir aquelles que insidiosamente 

itavam deprimil-o. Mas Pero de Andrade 

minha n&o se contentava com chasquear 

sua nobreza e saber; encommodava-o tam- 



460 HI8TOBIA DA LlTTBRATURA POBTUGUBZA 



bem aquella moeidade ardente e dominadora, 
cheia de vigor: aasim no Epigramma cxun, 
nega a Gamdes o saber e a moeidade: 

Por Poeta douto, e maneebo és julgado, 

Sesta opìniào de ti nom é secreta ; 
as vejd-te de ti ser tao louvado 
De maneebo e de douto e de poeta. 
Que de ti (se perdoas) nom cnncebo, 
Que és poeta, nem douto, nem maneebo. 

Camdes contava em' 1551 vìnte e sete an- 
no8, o que torna manifesto o objectivo do 
Epigramma odioso. Caminha era apenasmais 
velho quatro annos, e encommodava-o o seu 
aspecto de garbosa moeidade, sem esquecer a 
dìstincQSo que Oamdes merecera da cortejada 
D. Francisca de AragSo. por quem era Cami- 
nha friamente tratado. Considera o Dr. Storck 
muitos dos Epigrammas de Caminha centra 
Camoes, comò inoffensivos exercicios de rima, 
parapbraseando ou imitando varios Epigram- 
mas de Marciai; mas o facto da imitai^o Dao 
inhibe um intuito ou applicasse, que com evì- 
dentes circumstancias apparece comprovada. 

Camdes era atacado por todas as auas 
qualidades, servindo para Epigrammas e 
chascos « vingando com a lingua o que n&o 
podiam com o brago, » comò elle conta na Carta 
primeira da India. Tudo o impellia para um 
acto de desespero, o que tambem era um pia- 
no, conhecido o seu temperamento impetuoso, 
para o inutilisar de vez. No Epigramma A ut 
que se gaba de Cavalleiro, revela-se o natu 
ral protesto contra os que o motejavam, cba 
mando-lhe Cavalleiro de Africa; dava-se est 
tituio com certo intuito desdenhoso àquellc 



3 eram 

DOQdes 
eepeciaes, entre as quaes urna era a de pega- 
rem &8 varas do pàlio na ProcisBSo do Corpo 
de Deus, recebendo por isso urna paga mer- 
cenaria. Foi jnstamente no dia da PròcissSo 
do Corpo de Deus em Lisboa, em 16 de Ju- 
nbo de 1662, qua se achou Cam5ea envolvido 
em urna contenda em que leve de arrancar 
da eepada e ferir Gongalo Borges, creado dos 
arreiOB de D. JoSo lu, quando passava a ca> 
Tallo por urna das mas da procissSo, entre o 
Rocio e Santo Ant3o. Gonzalo Borges era 
filho de Antonio Borges de Miranda, senhor 
de Carvalhaea, Ubavo e Verdemilho, e de 
urna senbora da Casa de Barbacena; fora 
porém roubado da successào da casa assim 
come 88U irmào SimSo Borges, porque seu 
pae pasaara a segundas nupcias com Antonia 
Berrèdo, amasia de D. Joào iti, que fez suc- 
ceder Da casa o filbo d'este segundo consor- 
cìo Ruy Borges Pereira de Miranda. O rei 
iniquo consolara Gonzalo Borges dando-lbe 
cargo de creado dos seus arreioa; é de sup- 
pòr que motejado de pobre. Camòes Ibe re- 
plicasse com a ignavia da situa(}3o, e se orì- 
^nasse d'elle ou de dola embugadoa que pas- 
savam, a contenda brusca em que Camóes 
arrancou da espada, em prol dos amigos que 
reoonbecera. Estava dado o passo definitivo 
nara a sua desgra<;a ; cahira nas garras da 
— =— * lolemnidade do dia e a presenta 
idade, aggravavam sobremaneira 
pucbar da espada e de ferir o 
lonarcba. Perturbar o apparatoso 
religioso, que encantava o povo, 



462 HlflTOBIA DA UTTBRATUBA POBTUGITBSA 



deslumbrado com a excepcional samptuoei- 
dade! Yejamos o quadro conforme os costa- 
mes do tempo. 

A hoBtia ou eucharistìa era levada em 
urna custodia de ouro, cravejada de brilhan- 
tea, dentro de urna charola guayolla ou nicho 
envidra^ado, em procìssSo solemnissima na 
primeira quinta feira da outava de Pente- 
costes, partindo da Sé cathedral até ao con- 
vento de S. Domingos, regressando outra vex 
ft 8é. O Rei acompanhava a pé debaixo do 
pfilio, levando fi sua direita o princepe her- 
deiro; pegavam fis varas do palio auto Ca- 
valleiroa afrioanos, estipendiados pelo Sena- 
do, e para isso nomeados. Trez Vereadores de 
vfira vermelha seguiam atraz, ladeando o pà- 
lio todos OS fidalgos livremente. Exhibiam-se 
OS Officios com os seus Castellos e Bandeirast 
com OS emblemas que os differenciavam, com 
suas Dansas figuradas, Tourinhas, dansa das 
Colare jas, das Horteld^is, das Corraleiras, das 
Regateiras. As Bandeiras dos Officios eram 
com paìneis bordados a ouro sobre damasco, 
sobre brocado, symbolisando a actividade de 
cada officio, figurando tambem os seus San- 
tos Patronos da Irmandade; os portaestan- 
dartes vestiam ópas e tunicas avivadas a ga- 
15es de prata. E além dos seus Estaudartes, 
cada Officio exhibia InvengóeSt ou apparatos 
symbolicos e dramaticos do mais pittoresco 
effeito: os Hortelaos ou Almoynbeyros leva- 
vam urna horta ou Almoinha; os Sapateii i 
um Draguo ; os Armeiros levavam um Sai 
toriot representando um soldado peao; 
Peliteyros ou Surradores levavam o Oui 
paull; OS Alfaytes a Serpe; os Tanoeyi 
levavam as Torres; os Pedreiros e Carpi 



j 




OAUÒEB — KPOCA, VIDA E OBRA 463 

roB o Engenho; os Calata tea da Ribeira a 
Ndo e a Gale; os Esparteiros levavam a 
Dama e os Gallantes, com seus gestoa e phra- 
868 desenvoltas; — o Rei David dannava dìante 
do p&lio e iam Ftevineos ou Diabos agrilhoa- 
doB levados por Aojos» e Imperadores com 
sua cOrte» Gigantes corno S. Christovam; os 
GarDioeiros iam com seu JEmperador e Éey. 
Àlguns Castellos eram substituidos por to- 
ehas de prata, comò os TabellìSes, merca* 
dorea e Oorretores. Depois dos Officios se- 
guiam as Confrarias e Irmandades religiosas 
e as Communidades pela ordem estabelecida, 
Carmo e Trindade, S. Francisco da Cidade, 
Heninos Orfios, Paulistas, Dominìcanos, o 
Cabido e todos os Clerigos seculares, e o Se- 
nado, todos com suas tochas de céra branca 
na mio. As ruas por onde passava a procis- 
sSo eram tapetadas de verdura de espadana 
e areia encarnada, alecrim, e as portas, janel- 
las e varandas eram ornamentadas com col- 
chas de seda, brocado, estendendo-se alcali- 
fas, e pendurando colgaduras de raz ; as ruas, 
pelo intenso calor, eram cobertas de tóldos. 
A Procissào dirigia-se a San Domingos pelas 
ruas da Praga da Palha, das Arcas e Tanoa- 
rìa; todos os officios postavam-se em àlas à 
porta do Mosteiro, onde se fazia a Prégagao. 
Dom Jo&o m esmerava-se a dar todo o es- 
plendor & ProcissSo do Corpo de Deus, e a 
Camera, para Ibe prestar toda a sumptuosida- 
). creou mais tarde uma verba especial cha- 
.ada do Rendimento da eolumnata. 

No melo d'aquella multidSo e arruìdo, era 
cil aos dois embuQados evadiremse; Ca- 
5e8, sempre destemido, nSo f ugiu, sendo por 






464 H18TORIA DA LETTERATURA PORTUOCTEZA 



isso prezo no Tronquo da cidadet onde fiooa 
em consequenoìa da devassa sobre o feri- 
mento e até livrar-se. O Tronco era a cadéa 
municipale que alóm de deten^So para as oon- 
travengSes e cumprimentadas sentente dos 
Almotacés, tambem servìa de calaboago para 
custodiar os delinquentes em quanto nSo eram 
julgados até que iam cumprir sentenza na Ca- 
déa. Nas Ordenagoes do Reino, livro v, tì- 
tulo 97, acbam-se valiosas indioa^oes sobre o 
Tronco: <E todas as pessoas que na cidade de 
Lisboa fdrem prezas pelos alcaides d'ella, por 
serem achadas de dia ou de noite emhugadas 
ou oom armas defezas, ou de noite depois dò 
sino de recolber oom quaesquer armas ou sem 
ellas, sejam levadas ao Tronco e prezas em 
elle, e os alcaides nSo levarSo as pessoas, qae 
por OS ditos comprehenderem, fi Cadeia da ci- 
dade e no dito Tronco Ihes dar3o as Justì^as li- 
vramento a que pertencer paz e livramento. E 
o alcalde que levar alguns dos taes prezos a 
outra qualquer prizao, incorrerfi em suspensSo 
de seu officio até nossa mercé. E assim have- 
mos por bem, que nao sejam mudados nenhans 
dos ditos prezos para outra alguma cadeia 
da cidade, nem da córte, salvo quando por es- 
pecial mandado do Regedor algum fdr man- 
dado mudar, por Ihe sahirem oulpas mais gra- 
ves das acima dedaradas. E sendo preros 
por outros casos, os poder3o levar ao TVow* 
co, comtanto que ao outro dia pela manhS 
até o melo dia os levem fi cadeia da ddad 
sob pena de as Justigas que assim o nfio fi: 
rem. pagarem trinta cruzados por eada ves, 
metade para o accusador e a outra metaf 
para o Hospital da cidade de Lisboa.» 




GAMÒES — SFOCA, VIDA E OBRA 465 

Como era de praxe, pelo pòrte de arma de- 
feza tìnha o poeta de ser prezo no Tronco; 
mas em consequencia do feriménto em um 
ereado do pago e na corte, conforme a de- 
Tassa, era obrìgatorìa a mudanga para uma 
enzovìa da Cadeia da cidade. Competia ao 
Begedor das Justigas o ordenar essa mu- 
dane; por certo a amisade de Gamdes com 
a familia de D. Joao da Silva, entSo Rege- 
dor, influirla na attenua^So d'estes rigores. A 
prisao do Tronco, comò se sabe por uma carta 
regia de 18 de Janeiro de 1567, era nas ca- 
sas ,de Affonso da Barreira; ahi se ordena 
aos vereadores : « que pela muyta necessidade 
que ha de hua cadea nessa cidade, pera os 
prezos se prenderem, asy de noite comò de 
dia, ei por bem e vos mando, que compreis 
OS casas d* Affonso da Barreira j morador 
n'essa cidade, em que soya estar o Tronco, 
pelo preQO que vós com elle concertardes ou 
pelo em que forem avaliadas no estado em 
que ora estSo, nas quaes casas e chao d'ellas 
fareis fazer cadeia, pera se n'ella prenderem 
08 prezos que eu mandar, e pera os da almo- 
tararla... E mando que ellas fiquem pera 
sempre fi dita Camera. . . » ^ 

Estava pois em 1552 o Tronco da cidade 
estabelecido nas casas de Affonso da Barreira, 
em um edifìcio adaptado, o qual passado tempo 
se consìderou falto de condi^oes, comò se de- 
prebende por um Accòrdo em Verea<;ao de 6 



Livro I de Cons, e Dee. d^el-rei D, Sebastido, 
fi. <i. Ap. Elementos para a Historia do Municipio 
de "'tòoa por Freire de Oliveìra, t. i, p. 418. 



[ 



466 HI8T0RIA DA LITTBRATURA POBTUOUKSA 



de Outubro de 1615, «gobre algàa pratiea 
que ouvera do que era ordenado se levar de 
tronguagem n'aquellas pessoas, que ao dito 
Tronco som levadoa presos, e do que se le- 
vava, e por se avitarem alguos danoa e co- 
modias que os tronqueiros que por os tempoe 
tem carrego d'estas no dito Tronco, levam 
dos que assi vam presos, — accordaram todos 
juntamente que o dito tronqueiro, que no dito 
tronco ora est&, e d'aqui avente por os tem- 
poB esteverem, sejam obrigados de dar con- 
dea com que se vejam os ditos presos ; e assi 
sejam obrigados de mandar levar suas ne- 
eessidades a camareiros fora, tudo & costi 
d'elles ditos tronqueiros; e elles levarSo de 
cada bua pessoa, que assi for preso, quer jaga 
muy to tempo, quer pouco, dezeseis reis e mais 
nom, s. : quatorze rs. de tronquagem, e doiiB 
para as ditas despezas ; e qualquer tronqueiro 
que mais levar d'aqui avente que os ditos 
16 rs., na maneira que dito he, seja prezo, e 
da cadea pagare dez cruzados para as obras 
da cidade; e assi sejam os ditos tronqueiros 
obrigados a dar auga para beber, em abaa* 
tauQa, aos ditos presos; e se algti dos ditos 
presos se queixar que Ibe no dam a dita auga, 
ou nom deem as ditas cousas sobreditas, e Ibe 
for provado, 6ncorrerà na dita pena ; e bem assi 
no levarà nèbau premio de nebau preso, por o 
teer è gima, ne solto, né em outra maneira, 
soomente os ditos dezeseis rs., so a dita pena.>^ 
Por este extracto do accordo da verea^So >fli 



1 Livro I da Vereagào da Cam ara de Lisboa . B- 
Apud Freire de Oliveira, Elementos, 




OAliÒBS — EPOCA, VIDA B OBRA 467 

08 procuradorea doB misteres e oom o Vedor da 
Fazenda, se véem os costumes da prisSo do 
Tronco, aos quaes ficou sujeito Camoes du- 
rante OS longos mezes que ahi esteve detìdo. 
Em nm Soneto, (inedito até 1880) conaignou 
Camoes o soffrimento que o aeabrunhou na 
prìsSo do Tronco: 

Trìstezas! compassar tristes gemJdosl 
Passo a noite e o dia imaginando ; 
N'eata escura cova estoa cuidando 
De me ver com meus dias tao perdidos ! 

Vào passando corno sombra, escondidos, 
E sem fructo nenhnm irem deixando, 
Mais que os vèr passando e rodando 
Goni a roda da fortuna e meus sentìdos. 

N'estas ìmaginagoes, triste, commigo 
Estou, na alma enievado, que nào sento 
Se com alguem fallando estou, o que digo. 

Se vem alguem estar, no pensamento 
Nem sei dizer de mim n'este tormento 
Se estou fora de min), se estou commigo. ^ 

A Vida do carcere tenebroso tem um certo 
realismo n'este Soneto, embora imperfeita- 
mente conservado na còpia inedita ; o que o 
torna admiravel é o quadro subjectivo, em 
' que todo o horror do ambiente se ref lecte na 
angustia moral do poeta. A impressSo prò- 
hmdamente dolorosa d'esses outo mezes de 
prisSo consignou-a Gam5es na assombrosa 
CflnQSo XI, com os mais patheticos traQOS aù- 
t iographicos: 



^ Soneto 365, da traducf^ào de Storck, e Vida e 
( "^ de CamoeSj p. 423. \ . . 



468 H18TOR1A DA UTTBRATURA PORTUGUBZA 



A piedade h umana me faltava, 

A gente amiga jà contraria via 

No perigo pritneiro: e no segundo 

Terra em que por os pés me faiecia, 

Ar para respirar se me negava, 

E faltava>me emfim o tempo e o mundo. 

Que segredo tao arduo e tao profundo, 
Nascer para viver, e para a vida 
Faltar-me quanto o mundo tem para ella : 

E nào poder perdel-a, 
Estando tantas vezes jà perdida ! 

Camoes escreveu estes versos jà comò re- 
cordagao do passado, mas é vivissima a emo- 
Qao persistente; ahi considera o perigo pri- 
tneiro^ quando foi arrojado ao carcere do 
Tronco corno um assassino, e abandonado i8 
leis implacaveis pelos que se dizìam seus ami* 
gos, que se Ihe mostravam contrarios. O pe- 
rigo segundo, designa a situagfio em que pelo 
facto de puchar espada onde estava o rei e 
sua córte, se tornava o crime de lesa-mages* 
tade, estando por isso incurso em pena maior 
ou capital. Terra em que pdr os pés Ihe fale- 
eia, e mesmo a falta de tempo, alludem ao aea 
embarque forgado, substituindo um individuo 
obscuro, e em occasiSo em que seu pae an- 
dava embarcado, deixando sua mae desvalida 
quasi ao desamparo. 

Na situasse angustiosa de GamSes» em qua 
— a piedade humana Ihe faltava, — corno 
descreve na Gangao autobiographica, o nnioo 
apoio moral que Ihe deu validez foi aind o 
pensamento da Epopèa portugueza. Era 10 
agora suggerido pelo apparecimento da ì ^ 
toria do Deseobrimento e Conquista da i- 
dia pelos Portuguezes^ impressa em Ooipn "a 



r 



GAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 469 



por Joào de Barreira e Jo3o Alvares, e es- 
eripta por Fernào Lopes de Castanheda, que 
animou com as suas impressoes directas as 
empolgantes narrativas ; corno se le no colo- 
phfio d'esse livro in-folio < Acabouse aos 
Tinte dias do mez de Janeiro de M.D.LII.» Ga- 
m5e8 estava livre ainda e longe do accidente 
qne o levou é prisao no Tronco; ahi n'essas 
horas amarguradas p6de elle repassar-se da 
leitura da Historia emocionante de Fernao 
Lopes de Castanheda, escripta nos momentos 
de repouso que Ihe ficavam ao valente sol- 
dado, das fainas de bedel da Universidade 
de Coimbra. De facto nos Lusiadas as suas 
fontes historicas encontram-se immediata- 
mente na obra de Castanheda, de 1552, com- 
pletadas mais tarde com as narrativas das 
Deeadas de Jo3o de Barros. ^ Na cadéa do 



^ Àttribaia-se infundadamente às Deeadas a fonte 
immediata dos Lusiadas; em urna Carta de D. Marcos 
de S. LourenQo, commentador do principio do seculo 
XTii, descrevendo o sea tra balbo de annotacelo dos Lu- 
dadaSf declara : « Na geographia segui senipre Joào 
de Barros, bomem famosissimo e em tudo exceliente.» 
E termina : « Mais de meio Commento tirei de Joào de 
Barros, e sem a sua geographia im possi vel he a enten- 
dimento algum, commentar Luiz de Camòes...» (Ap. 
Joromenha, i, 326.) Storck exclue pelo exame biblio- 
graphico a influencia immediata de Joào de Barros, 
Dotando que a primeira Decada acabou de imprimir-se 
«• Lisboa, por Oermào Galhardo aos 24 dias de 
M ^ de 1558 — isto é, dois dias antes de Camoes 
pfl Ir para a India ; e a segunda appareceu posterior- 
m te tambem em Lisboa pelo mesmo ìmpressor e no 
» no anno, talvez nosfins de 1553.» {Vida, p. 427.1 
r. José Maria Rodrigues, no Instittito, determinou 
a "nenda immediata de Castanheda. 



i 



4?0 R18TORIA DA UTTBRATURA PORTUGUBZA 



Tronco teve corno refugio a leitura da Histo- 
ria de Castanheda, que o estimulava fi idea- 
lisagao da sua Epopèa. Maudsley aponta, na 
obra Pathologia do EspiHto^ o inf tuxo de ama 
ideia no equilibrio mental: «Nao se pode ne- 
gar que um projecto no qual um homem ha- 
bitualmente se concentra, que estfi sempre 
no seu pensamento, e para a realisa^So do 
qual tende toda a sua energia, nSo modifiqiie 
o seu caracter. . .» No meio de uma sociedade 
fanatisada, entre os desvairados da Valentia, 
e no conflicto de odientas mediocrldadesp tudo 
impellia Gamoes para a misanthropia ; a sua 
ideia dominante, a expressSo do ethos por- 
tuguez. em uma Epopèa nacional, que se foi 
definindo e apossando-se do seu espirito, tor- 
nou-se um refugio, um equilibrio mental nos 
Desconcertos do mundo, e contra os escala- 
vros de um destino material. E a sua elabo- 
ra^ào dos Lusiadas no carcere actualisa-se 
pelo roteiro do heroe confundido com o da 
sua proxima viagem para a India. 

Emquanto Gamdes jazia desde 16 de Ja- 
nho na prisSo infecta do Tronco, prepara- 
vam-se ruidosas festas na córte para a cele- 
bragào do casamento do princepe D. Joio 
cpm sua prima D. Joanna, filha de Carlos Y; 
o poeta seria informado pelos seus dois inti- 
mos amìgos Jo&o Lopes LeitSo e D. Antonio 
de Nòronha, escolhido pela sua juvenilidade 
para justar com o princepe no projeotado tor- 
neio de Xabregas. J& sete semanas tinha 
passado na angustia do Tronco, quando e 
5 de Agosto de 1552 se celebrou o sfamai 
Torneio de Xabregas, historiado por Jor^ 
Ferreira de Vasconcellos no seu Memorf 



CAUÒES — EPOCA, VIDA E OBRA '^ 471 

do8 Cavalleiros da Segunda Tavola Re- 
donda. N'essas apparatosas festas appareceu 
no Tejo urna barca com a deusa Diana, 
aeompanhada de duas Nymphas, uma com 
luna harpa, outra com um arrabil cantando 
estancias da Egloga primeira de Oarcilasso. 
Seria uma d'essas Nymphas, ou melhor a 
Diana a sobrehumana Nathercia ? Pela narra- 
tiva de qualquer dos seus amigos que o visi- 
tavam no Tronco, pòde representar & sua 
mente o quadro que tracejou no Soneto 
cccix : 

Em um batel, que com doce meneio 
O aurifero Tejo dividia, 
Vi bellas Damas, ou melhor diria, 
Bellas Estrellas e um Sol no melo. 

Em Novembre de 1552 chegava a Lisboa 
poeta Jorge de Monte-Mór, no séquito da 
princeza D. Joanna ; se as lembran^as do 
tempo de Coimbra nio estavam apagadas, 
elle irla visitar Gamoes & cadéa do Tronco. 
NSo é banal a bypothese, por que a elabora- 
q2o dos Lusiadas, entao, suggerirà a Jorge 
de Monte-Mór a paix3o por esse thema èpico : 
< Monte-Mór determinou-se escrever em verso 
Descobrimento da India orientai, mas a 
morte, que lego Ihe sobreveiu, Ihe atalhou o 
intento.» (Graesbeck, ed. da Diana de 1624.) 
Em 5 de Dezembro de 1552 celebro u-se o 
desposorìo do Princepe D. JoSo, com todo o 
n osijo, mas n3o houve um indulto para o 
eì uecido Gamoes. «A piedade humana me 
, U ava» — ezdamou elle em um verso eterno. 
Antonio Pinheiro esqueceu-o no seu 
e ìsmo de padre e de favorito da córte. 



1 



472 H18TORIA DA LITTERATORA PORTUGUKZA 



Como salvar Camoes da pena maior qne 
competia ao crime de lesa magestade^ por ter 
arrancado espàda eetando o rei e sua casa 
em Lisboa ? Era preciso que Gonzalo Borges 
Ihe perdoasse ; assim havia base para Gamdes 
requerer o perd3o regio, evitando o julga- 
mento, que seria condemnatorio. A generosa 
D. Francisca de AragSo, sempre acatada na 
c6rte, obteve o perdao de Gonzalo Borges, 
e a liberdade para Camoes. Como provar 
isto? Por uma tradigSo repetida, mas nSo 
comprehendida pelos que a archivaram. Exa- 
minemola a està luz. 

Nos Apophtegmas de Fedro José Supieo 
vem attribuida a Camdes uma anecdota, coja 
situagSo se pode fixar por 1552, pouco antes 
da sua pris3o: « Achava-se no Terreyro do 
Pago conversando com Luiz de Camdes Jorge 
de Monte-Mór, celebre poeta d'aquelles tem- 
pos. Estava em uma janella do quarto das 
Damas, D. Francisca de AragàOt dama mai 
formosa da rainha D. Catherine. Chegou-se 
um pobre a pedir-lhe esmola, e Jorge de 
Monte Mór apontando para a dita senhora, 
Ihe respondeu: 

Si, hermano, pedis por Dio8, 
A'quel Serafin pedid, 
Y pedid para los dos, 
La libertad para mif 
La limosna para vós.» ^ 

No Ms. 133, da Collec<;3o Pombalii 
fi. 124, vem este mesmo Epigramma oom i 



Apothegmas, Liv. i, P. i, p. 38. Ed. 1761. 




CAMÒBB — EPOCA, VIDA ■ OBRA 473 

rubrica: ^Eatando Camoes a ha canto re- 
spondeu a hum pobre que Ihe pediu esmola : 

Pobre, que pedis por Dios, 
Liegad y pedid alli. 
Y pedid para los dos : 
La limosna para vós, 
La liberdad para mi » 

D'està estrophe reproduzida na Communi- 
ca^o academica, escreve Lopes de MendonQa: 
ce perfeitamente intelligivel e consentanea 
eom a feÌQ3o madrigalesca de Camoes. Pode 
Sem desdouro, — quer-me parecer, figurar 
entre as suas mais galantes redondìlhas.» 

NSo importa ligar veracidade a estas ane- 
doctas ; basta-lhes, para valorisal-as, o repre- 
sentarem o meio social, as ideias e preconcei- 
tos dominantes, o espirito incomprehendido 
qne ellas transmittìram, para se reconstituir 
nma verdade moral. 

Depois de ter sido alcangada de Gonzalo 
Borges a desistencìa de toda a acgfio criminal 
cu civel centra Camoes, quasi ao fim de um 
anno de pris&o no Tronco da c^dade, foi la- 
▼rado e assìgnado um Instrumento de perdSo 
pelo tabeliSo publico das Notes de Lisboa 
Antonio Vaz Castello Branco, pelo quel con- 
stava, que Gonzalo Borges estava curado e 
aem deformidade. Em vista d'este instru- 
mento, datado de 13 de Fevereiro de 1653, 
dirigìu Gamdes em requerimento petigao a 
E rei D. Joao in, para que houvesse por 
bi a perdoal-o do ferimento de Gonzalo Bor- 
gi corno constava da devassa tirada sobre 
ei 3 caso. Foi a informar aos Desembargado- 
n do Pa«o a Peti^So, e sobre o seu Pare- 



474 H18TOR1A DA UTTBRATURA PORTUOUBZA 



cer, teve o Passe da respectiva Carta de Per- 
dao, pagando prèviamente quatro mil reìs 
para a Arca da Piedade. Obtido o Assignado 
do Bispo de San Thomé, de que Ihe fora en- 
tregue essa multa, e o recibo pelo escrivSo 
Alexandre Lopes em corno o carregou em re- 
ceita, foi a final assjgnada Carta de Perdio 
a Luiz de Camoes, em 7 de MarQO de 1553, 
pelos dois desembargadores D. Gonzalo Pi- 
nheiro e Dr. Jo3o Monteiro. Levou onze dias 
este processo de indulto, o que perante a mo- 
rosidade da justiga do tempo, leva a inferir 
que teve Camoes pessoa influente que inter- 
veiu para Ihe ser dada a liberdade; e que, 
apesar de constar na propria Carta de perdio 
que era um mancebo pobre^ a exigenda dos 
quatro mil reis para a Arca da Piedade so 
poderia ser satisfeita por uma sublime gene- 
rosidade, para depois ser solto. Vencida a 
reluctancia de Gonzalo Borges, accedendo ao 
que se Ihe impoz por cortezania, faltava o 
caso de lesa-magestade, e para consegoir-se 
o perdao real, foi preciso quasi comò nma 
commutaQ&o de pena offerecer-se o poeta para 
ir servir comò soldado na India, partindologo 
na Armada d'esse anno! 

Carta de perdìo a Luis de Camòes 

D. Johào Et. A todollos oorregedores. ouvidores 
Juìzes e JustÌQas officiaes e pessoas de meus reinos e 
senhorios a que està minha Carta de perdao for ni< 
trada, e o conhecimento d'ella com direito pertenoi 
saude : fa<;o-vos saber que Luis Vaaz de Camoes fi! 
de Syniào Vaaz, Cavalleiro fidalguo de minha ca 
morador em està cidade de Lisboa, me enviou disc 
per sua petiQam que elle estaa preso no tronquo dei 




OAMdKS — BPOOAy VIDA E OBRA 475 



ddade por ser calpado em huma devassa que se tirou 
8obre o ferimento de Gongallo borges que tinha carre- 
gno dos meas arreos por se dizer que andando o dito 

Sn^allo borges paeseando a cavallo no rocìo desta ci- 
de dia de Gorpore Xpti na rua de Sancto antào alem 
de S. domingos, defronte das casas do pero Vaaz que 
dona homens eromascarados a cavallo se poseram a 
pasaear e a zombar com o dito gon^allo borges, e que 
aà dita zombarla vieram a ha ver brìgas d'arrancar e 
que elle supplicante acudira em favor dos ditos em- 
maseanidos conhecendoos por serem sens amìguos. E 
que de proposito com barn a espada ferirà ao dito Gon- 
fio borges de huma f erida no pescoso jnnto do ca- 
bdlo do toutiQo, estando eu nesta cidade com minha 
eòrte e casa de supricagam e levando outros em sua 
oompanhia. E o dito gon^allo borges he sào e sem alei- 
ìao nem deformidade, e Ihe tem perdoado comò se 
mostra do perdio junto a sua peti^am. e elle supri- 
cante he bum mancebo e pobre e me vay este anno 
servir & India, enviando me elle supricante pedir por 
mercé onvesse por bem de Ihe perdoar a culpa que no 
dito caso tem da raaneira que diz, e o instrumento de 
perdio que apresentou parecia ser feito e asynado por 
antonio vaaz de Oastelbranco pubrioo tabaliào das no- 
tas em està cidade de Lixboa e seus termos aos xxiii 
dias do mez de fevereiro do anno presente de mil qui- 
tthentos cinquenta e trez annos pello qual se mostrava 
gonfio borges que tem carreguo dos meos arreos por 
ser ja sào da ferida sem aleijèo nem desformidade para 
qae o senhor deus Ihe perdoe seus peccados de sua 
boa livre vontade perdoar ao dito Luiz Vaaz de Ca- 
mòes toda sua justi^a, que con tra elle possa ter e o nào 
qaerìa por elio acusar nen demandar crimemente nem 
ci^elmente e Ihe perdoava toda justi^a dano corregi- 
mento, e todo o que centra elle per dereito podesse al- 
can^r com tanto que o dito supricante se livre do 
dito caso a sua custa e despeza e me pedia por mer- 
ce Ihe perdoasse minha justiQa segundo que todo 
«'^'' melbor e mais compridamente em o dito instru- 
n te de perdam se conthem. E eu vendo o que me 
e] supricante assi dizer e pedir mandou se asy he 
D elle diz e hy mais nào ha, visto um parecer com 
leu passe e querendo-lhe fazer gra^a e mercé tenho 
p bem e me praz de Ihe perdoar a culpa que tem no 
e conteudo em sua piti^am pelo modo que nella de- 



l 



476 HISTORIA DA LITTBRATDRA PORTUGUSSA 



Clara visto o perdam da parte que apresenta e pagani 
quatro inìl reìs pera piedade E por quanto, logo pa- 
gou OS ditos quatro mil reis pera ao bispo de Sta- 
cthotné do meu conseiho, e meu esmoler segando delle 
fuy certo per hum seu assynado e, per outro de ale- 
xandre lopes meu capeliào e escrivam do dito eargno 
que OS sobre elle carregou em recepta Vos mando qoe 
o mandeis soltar se por al nào for preso. E da quy eia 
diante o nào prendaes, netn mandeis prender, nem Ihe 
fagaes nem consintaes ser feito mal nem oatro deat- 
guisado quanto he por razào do contendo em sna peti- 
^am em està ultima carta declarado por que minba 
mercé e vontade he de Ihe assy perdoar pela guisa qae 
dito he. O que asy compry huns e oùtros e al nào fa- 
^aes. Dada em està min ha cidade de Lixboa aos sete 
dias do mez de MarQo e feita aos 3 do dito mez. El Rd 
nosso Sr. o mandou por dom gongallo pinheiro biapo 
de Viseu e per o doutor Joham Mont."* chanceler do 
mestrado de nosso senhor Jesu Christo ambos do men 
conseiho e seus desembargadores do pago e petiQdes. 
francisco marrins a fez por antonio godinho anno do 
nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil qui- 
nhentos e cincoenta e tres annos, e eu antonio godinho 
a fiz escrever. Concertado. Fedro de Oliveira. Concer- 
tado. Luis Carvalho, Fedro Comes. ^ 

Passada a Carta de PerdSo em 7 de 
MarQO, obteve Camdes a soltura na hypotheae 
mais favoravel no dia seguinte, tendo apenas 
dezeseis dias de liberdade até fi hora do em- 
barque para a India em 24 de Margo de 1624. 
Nem tempo teve para preparar-se com roupas 
e alimentos para ama tormentosa viagem de 



^ Perddes e Legitimagóes de D. Joào III, Li 
XX, fi. 296 ?. — Juromenha, Obr., t. l, p. 166. —Ci 
a crér corno este documento tao patente na Torre 
Tombo nào despertou a curiosidade de nenhum Idi 
tigador camonìano, D. Antonio Alvaro da Cunha no 
culo XVII ou D. Francisco Alexandre Lobo, no secalo 2 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 477 

seis mezes e sob a disciplina inflexivel do ho- 
nem de guerra. ^ 

D'està vez n3o se appresentou seu pae 
come fiador, no Registo da Casa da India, 
corno em 1550. D'aqui se infere que estava au- 
sente de Lisboa, ou que, melindrado pela pri- 
aio do filho se nao quizesse prestar a nova 
responsabilìdade. * As tradigoes, colhidas pe- 
lea linhagistas, auxiliam o esclarecimento do 
problema. No Manuscripto genealogico de 
Gabedo (1602 a 1604) encontrou Camillo 
Castello Branco està referencia a Simao Vaz 
de Camdes : < que fai por Capitào de urna ndo 
a India, e deu a còsta a vista de Goa; sai- 
vaU'Se em urna taboa, e la morreu, deixando 
viuva Anna de Maeedo, dos Macedos de San- 
taretn.* 

Quasi dez annos depois d'este trecho de 



' Qaando era ainda ignorada a existencìa da 
Carta de Perdao, que authentica a data da partida de 
OamÒes para a India, jà Severim de Faria tinha deter- 
minado o anno de 1553 por um processo deductivo : 
e Nao achei em seus versos, nem em memoria alguma 
anno em que se embarcou. Semente escreve, que 
tanto que chegou a Gòa sahiu o Vice- Rei coni uma ar- 
mada sobre o Rey da Pimenta Foi està empreza, se- 
gando referem as hjstorias da India, no fim do anno de 
1553. Pelo que consta que partiu de Lisboa no margo 
de 1553 com Fernando Alvares Cabrai, que, indo por 
Gapitao de quatro nàos, so elle chegou a india no pri- 
meiro de Setembro do mesmo anno.» {Disc, fi. 3 ) Fi- 
xa"*a tao lucidamente està data, para que havia Faria e 
Si taa fabriear um documento, comò o increpa o Dr. 
8 rck, repetindo o que jà estava sabido? , 

* A Carta de perdao a Camòes nada tem de humi- 
Ui ate; jà em 1551 fora passada a Christovam Falcào 
ai 1 carta de perdao por ter f erido o Meirinho de Por- 
ti orre. 



l 



478 H18TOBIA DA UTTBBATURA PORTUGUJSSA 



Oabedo, publicou Fedro de Marìz em 1613, 
na biographia do poeta, que Sim&o Vai: 
e foy por Capitdo de urna ndo d India, nau- 
fragando nas costas da terra firme de Oóa.* 
E fallando do naufragio do poeta, con- 
funde-o com o do pae, misturando dados da 
tradiQ&o de Gabedo, - d'està fórma : e E corno 
o nosso Poeta ficou aem pay, e tao pobre. que 
se salvou em uma taboa em tempo que espi- 
rava ficar rico: vendo-se n'este desamparo 
( ou corno dizem homiziado ou desterrado por 
huns amores no Pago da Rainha, se embar- 
cou para a India.» Pelo Indice de toda a Fa- 
zenda^ por Figueiredo FalcSo, sabe-se quB 
uma Ndo Concei^io, em 1653 arribada, tinha 
em 1555, no seu naufragio, segundo a rela- 
q3o de Manoel Rangel, por Feitor um tal Si- 
mdo Vaz, que ahi morreu. ^ 



^ Na ReloQào do Naufragio da Ndo Conceiqào 
em 1555, no Baixo de Pero dos Banhos, lé-se: «Tanto 
que Simdo Vaz^ Feitor da Nào, a viu arrombada, logo 
se metteu na primeira batelada, em a qual saia em 
terra, e andou n*ella por espago de uma bora toda em 
redondo, tao pasmado, corno homem fora de seu juizo. 
Lembrou-se que Ihe ficàra um pouco de dinbeiro em 
um cofre/ tanto que Ibe lembrou, tornou-se a embar- 
car para tornar a Nào, e quando là foi jà o nao acboa; 
entào se tornou com o Capitào e com Affonso da 
Gaìna, que inda nào tinba vindo à terra, e quando se 
veiu ao desembarcar nào se quiz sahir do batel, edisse- 
Ihe o Capitào Affonso da Gama : — Nao torneis a Nao, 
que nào tendes là que fazer. Elle, dìzeni que, resp< • 
deu : — Eu quero tornar para fazer tirar algumas o< * 
sas que sào necessarias. E nào se quiz sahir eficoac i 
o batel com o Gontra-mestre e marinheiros; e tai » 
que o batel foi remando e que se afastou das pedrj 
olhou para terra e entào disse que o tornassem a p ' 



OAMOBS — EPOCA, VIDA E OBBA 479 



Parìa e Sousa transcrevendo as indica^des 
qae encontrou no Livro de apontamentos das 
Pessoas que passaram & India, continua : 

^Aunque el Poeta se huviese alistado eV" 
ano de 1650 no se embarcó: hizolo el de 
1653 en que fué por Capitdo Mayor de las 
Naves Fernando Alvares Cabrai.^ 

E accrescenta Parìa e Sousa os esdared- 
mentos deciBivos: 

^En el Pegistro de la gente d'ella y ti- 
tulo de la Oente de guerra, ay este assiento : 
= Fernando CasadOy hijo de Manuel Casado 
y de Bianca Queymada, moradores en Lis- 
boa^ EsGudero. Fué en su lugar Luiz de Ca- 
m6es, hijo de Simdo Vaz y Ana de Sd^ Es- 
eudero; y recebio 2400 reis corno los de- 
mos. = 

No livro do viajante Pyrard, contendo a 



em terra; e os marìnheiros e Gontra-Mestre nào qui- 

zeram, por que tinham jà levada a fateìxa, e os mares 

qnebravam multo rijo; nao ousaram a tornar; e n'isto 

chamou por um mancebo que se charaava Fedro Àlva- 

rea sobrinho do Mestre, marìnheiro dà Nào, e dìzem 

que Ihe dissera d'està maneira: — Dizei-me, Foam ; 

querem-me matar os marinheiros ? E elle Ibe respon- 

deu, que nem dìssesse tal cousa, nem Guidasse n'isso. 

Respondeu entao o Feitor: — Se sois meu amigo, pon- 

de-roe em terra, se nào lauQar-me-hei ao mar. E n'isto 

Ihe disse um Antonio Gongalves, que vinha por Con- 

destavel da Nào, — que se lan^asse, se quizesse, que 

nao bavia de tornar a terra; e elle com isto se despe- 

^u e se lan^ou ao mar, e indo para terra, vieram uns 

lares grandes, e passaram por riba d'elle, e vindo 

mio das pedras veiu um mar e o botou entre as mes- 

las pedras, e alli se afogou e ao outro dia o acbaram 

orto, porque o mar o botou fora, e vinha com umas 

ordeduras nas pemas, que pareciam de peixes, e en- 



480 HISTOBIA DA LITTBRATURA PORTUOUEZA 



noticia da sua navega^ao das Indias Orìen- 
taes, de 1601 a 1611, descreve-se a organisa- 
Qào das Armadas que partiam de Lisboa: 
< Quando se quer fazer um embarque de Lis- 
boa para a India, fazem urna lèva de solda- 
dos por todo o Portugal, em cada freguezia, 
corno cà se faz com os gastadores, e aoceitam 
toda a sorte de gente, de qualquer qualidade 
e condi<;5es que seja, comtanto que chegue fi 
edade de nove a dez annos; e esses tomam 
a rol e fioam tidos e pagos por soldados. 
Se nao se acha quem queira ir de propria 
vontade, fazem-nos ir por for<;a, sem diffe- 
renga de edade, e todos matriculados na Casa 
da India, de Lisboa, onde dao fiador até em- 
barcarem. Adianta-se-Ihes todo o dinheiro da 
viagem, por que a maior parte sao filhos de 
gente pobre. e tSm necessidade de se vestir e 



terra mol-o na Ilha, e coni a sua morte fòmos multo 
trìstes, porque até entào nao tinha morrido nenhuma 
pessoa.* (Historia Iragico-maritima, t. i, p. 186.) 

Seria este Simào Vaz o pae do Poeta? Gom este 
simples nome é ref erido corno pae de Luiz Vaz de Ca- 
moes na Carta de Perdào de 7 de Mar^o de 1553, e 
no Assento da Casa da India para o embarque do poeta 
em 1550; e esse mesmo Simdo Vaz que trabalhava 
nos Armazens da Guiné e India e nas Armadas em 
1529, é o Simdo Vaz Feitor da Nào Conceigào naofra- 
gada em 1555. 

Além d'isso, Simào Vaz de Camòes era filho de 
D. Guiomar da Gama. e o piloto da Nào era Affonao 
da Gama, que tratava o Feitor com intimidade. 

As tradiQÒes conservadas por Cabedo e Fedro i 
Mariz de ter o pae do poeta naufragado, salvando i 
em uma taboa (batelada) em tempo que esperava fi* ' 
rico e depois là morreu, coinddem com a època i 
1553 (ausente de Lisboa) e 1556 em que morre. 




CAMÓES — EPOCA, VIDA E OBRA 481 



armar.» Gamoes teve de appresentar fiador, 
reoebendo 2$400 reis comò os demais; bem 

EroTa iato o estado de pobreza de sua fami- 
a, e quasi que o alistamento tornado, solto 
de poncos dias da cadéa do Tronco. Ha no 
Sonato CLViii um verso em que o poeta pro- 
testa contra o repentino embarque para a In- 
dia por determinaQSo officiai : 

£11 me aparto de vós, Nymphas do Tejo, 
Quando menos temia està partida ; 
E se a minha alma vae entrìstecida, 
N08 olhos o verei8 com que vos véjo 

A observa^So corno os demais posta no 
alistamento de Gamoes, substituindo um ob- 
Bcnro recruta, mostra que nem a fidalguia do 
seu nascimento, nem a excepcional cultura de 
intelligencia e valiosas relagoes pessoaes o 
differenciaram da Gente de guerra, apanhada 
a l8<^, segundo o costume nbtado por Pyrard; 
e comtudo, nota o viajante: < Entra esses sol- 
dados matriculados ha dignidades e qualida- 
des mais honradas umas que outras, e estas 
precedencias Ihes vém umas de raga e pro- 
sapia, outras de seus servÌQOs e virtudes, e 
oatras ainda de favor; de sorte que recebem 
paga segundo estas differen<;as mais ou me- 
nos.» Com certeza houve o intuito de affron- 
tar em Gamdes a fidalguia, as virtudes, os 
serviQos em Africa, emfim, prival-o de todo o 
fA^or. A piedade humana me fallava^ excla- 
I a Gamdes na GangSo xi, synthetisando està 
e le da sua vida. 

3 erudito Storck procura invalidar o va- 
1 bistorico d'este assento, partindo de que 
I ^do em fórmulas officiaes ellas nSo sSo 






482 H18TOUA DA UTTSRAI 

eguaea entre o primeiro e o Begundo assento ; 
e que faltaado-lhe a indioagào do fiador, isso 
denunciava a Falsificac3o : (O que me sar- 
prehendeu primeiro e me fez desconfiar, foi 
exacta e unicamente este ìncomprebensÌTel 
esquecimento do falsificador que nSo se lem- 
brou da caM^ào.» (Vida e Obr., p. 135.) Ju- 
romenha encontrou nos Apontamentoa do pa- 
dre D. Flaminio, um que «traz a copia de um 
registro da mesma Casa da India, pelo qual 
consta que fora fiador do Poeta Belckior 
Barreto, e que julgo era aeu tio, casado com 
urna irmS de sua mSe. ■ ■ * (Obr., i, 53.) Outra 
▼ez se ÌDBurge o Pr. Storck, considerando o 
apontamento, aohado por Juromenba, corno 
sendo um acto de caridade do P.<= D. Flaminio 
para salvar Farla e Sousa da omissSo do 
nome do fiador de Camoes! Pela sua parte 
D. Carolina Michaelis, procurando acudir ao 
Dr. Storck, pòe «m nota: «Nenhuma obra 
bìblìograpbica nos elucida sobre o Padre 
D. Flaminio e a parte que quiz tornar na fi- 
xa(;So de uma data importante da' vìda de 
Oamóes.» D. Flaminio era um frade auguBti- 
niano < profundo indagador de noticias genea- 
logicaa* ; comò nada imprimiu nSo apparece 
o seu nome nas bibliographias; e o seu apon- 
tamento, Dunca aproveitado até 1860, sÒ foi 
.coUigido com o intuito de pesquiza Unha- 
gista, aproveitando-se talvez de noticias ^ do 



1 Por eete tempo e na communidade de D. Pia 
nio, vìvia D. Harcos de San LourenQO, que comm 
tava OS Lusiadas, dando conta em carta de 26 de i 
ptembro de 16S7 a Jorge Cardoso, que tinha compii 
para a ìmpressào ciuco CantoB do aea Commenta. 



r 

I 0AMÒB8 — EPOCA, YIDA B OBRA 483 

i commentador D. Marcos de S. Lourenijo. E 
[ que aproveitava a Farla e Sousa fabricar do- 
I cunsentos para contradictar as suas primeiras 
affirma^oes? EUeo manifesta: cEstosdoa&s- 
sientos, que son infalibles, noe oferecen ai- 
gonas noyedades, que desdizen mucho algo 
de lo que diximos en su vida, seguindo los 
primeros que se occuparon en escribìrla.» 

poeta comico Antonio Ribeiro Ghiado, 
que mereceu uma louravel referencia de Ca- 
m5es no Auto de El rei Seleuco^ ao descrever 
OS perigos da córte no seu auto Pratica de 
Outo Mguras, parece retratar as decep^òes 
do amigo que desde 1643 a 1553 fora di- 
spendendo a Vida em enganosas esperan^as : 

Oulha, conheoe teu mal, 
Nào te engane o bem do Pa^o, 
Pois n'elle gàstas o ago 
E fìcas no ferro tal. 
R' urna tal pegonba 
Està que todos nos cega, 
E é tìnha que se apega 
E é mal que se nào sonha, 
Quanto homem depois renega. 
Ha dez annos 

Qtte me màntenho de enganoSy 
8em sentir lavrar os efpes 
Mui mais danados que serpes, 
E tudo para meus danos. 
Oh Pago! oh Pago! eu dirla 
Que és thezouro de maldades, 
Pois nos gastas as edades 
No melhor da mancebia. 



bre OS 10 Cantos dos Ltisiadas'de CainÒes. Ficou 
edito. 1" ^~'- 

Juromenha extrahiu algumas linhas d'este Com- 
tentario, referentes ao Canto ni, estancia l6 dos Lu- 

dos. 



i 



484 USTORIA DA UTTERATURA FOl 



Quem cuidasee 
Ante que no Pago e 
O que hade ser ao diante 
Certo que escolhesse anu 
Couaa com que se matasf 



NSo se pode affirmar qae o Ghiado pio- 
tava n'eatss versos a sUuaQ3o de Camoes; 
mas pelas relaoSes de amisade nSo ignorava 
-que elle perderà o melhor da sua mocidade, 
4os dezenove aos vìnte nove aDnos, maa- 
-tendo-se de esperan^aa que fora tornado a 
enforcar ao partir para a India. Na Carta t, 
.da India, esoreve: que partia de Portugal, 
tcomo quem o fazia para o outro mundo; — 
imandei enforcar a quantas esperan^as dera 
de corner até entào, com pregio publico: Por 
falsificadoraa de moeda. E desenganei esaes 
pensamentos que por casa trazia, por que em 
mim nSo fjcaese pedra sobre pedra. — Porqae 
quando cuido, que eem peccado que me obri- 
gasse a tres dias de purgatorio, pasaei tree 
mil de mds lingua», peores tengòea, damna- 
das voniades, naecidas de pura inveja . . . Da 
quel tambem amisades mais branda» que 
céra, ee accendiam em odios, que dìsparavam 
lume que me deìtava mais piogos na fama, 
que noa couroe de um leìtào. EntSo ajuntou-ae 
a isto acharem-me sempre na pelle a virtude 
de Achilles, que nSo podia ser cortado Ben9o 
pelae solas dos pés ; as quaes de m'asnSo vèrem 
nunca, me fez vèr a de muitos, e nSo engeitar 
conversa^òes da mesma impreBsSo, a quem 
fracoB punham m&o nome, vìrigando eom a 
lingua o que nào podiam com a brago. Em 
firn — eu nio sei oom que me pague saber tSo 
bem fugir a quantos laQos n'easa terra m< 
armavam os acontecimentos ■ ■ . * 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 486 



Todas as phrases do texto .transcripto 
d'està Carta tèm um sìngular valor historico ; 
comprehendem os successos que Ihe compli- 
caram a vida no decennio de 1643 a 1663, 
(08 tres mil dias, que sSo os outo annos, des- 
contando os dois annos em Oeuta.) Detai- 
Ihando as cpusas do seu soffrimento, caracte- 
risamolas pelas proprias indicagSes do poeta: 

— Mas linguas: as allus5es a ser fidalgo 
pobre, vaidoso da sua linhagem; valentSoi 
chasoos ao Trinca-Fortes, Cara sem olhos, e 
homem das abas grandes» e toda a materia à 
que deu Caminba curso nos seus Epigrammas. 

— Peóres tengoes : Relacionando o seu pa- 
rentesco corno sobrìnho de Dom Sento de 
Gamòes, lembrando conflictos d'este corno 
Prior goral de Santa Cruz de Coimbra com 
el-rei D. Joao iii, e com o Reitor da Universi- 
dade, emquanto foi Cancellano. 

— Damnadas vontades: a malevolente in- 
terpreta^ao do Auto de El rei Seleuco, dan- 
do-o corno allusivo a el-rei D. Jo3o in e aos 
mallogrados amores com sua madrasta D. Leo- 
Dor de Austria ; tambem a entrega do manu- 
fcripto ao Camareirc-mór Joao Rodrigues de 
Sfi, entro cujos papeis se conservou. 

— Pura inveja: dos poetas cortezSos, 
corno Pero de Andra de Caminha e seus apa- 
niguados, Philippe de Aguilar, Jeronymo 
C6rte Real, etc. 

— Amisades brandas: de amigos que se 
ostraram indifferentes à sua desgraQa, tendo 
ii&s altas influencias na córte, comò D. Ma- 
cai de Portugal, Dom Antonio Pinheiro, 
V Theodosio, duque de BragauQa, e o conde 

Linhares, etc. 



486 R1ST0RI& DA UTTKBAT1 

— Vingan^as com a 

doa oobardes, que o desacicuitavaui un u^^i w a 
oocultaa, para que d9o oa prejudicaBae a sua 
auperioridade menta! e moral; fazendo-o pas- 
sar corno perdulario, brigSo e motejador ìm- 
placavei. 

— A fatalidade dos aeontecimentos : O 
caso fortuito do encontro de Gonzalo Borges, 
tendo de acudir a dola amigoa. que fugiram 
e o deixaram nas garraa da justi^a, e que 
elle com toda a nobreza nunca denancioa, 
oarre^ando oom a responaabilidade tremenda 
do crime de lesa-magestade. 

A partida de Cam5ea para a India, pare- 
r«u aoa biograpboa que no seculo xvn colli- 
giram tradi^oes da vida do poeta, ainda um 
desterro, corno o eacreveu Paiva de Andrade 
nas suas LembranQas. Nas tradÌ95es ha sem- 
pre um residuo de verdade; nos Lusiadaa 
T6-8e o reflexo da emo<;So pessoal do poeta, 
quando na despedida dos nautas deixa eate 
tra^: 

Certifioo-ie, oh rei, que *e contemplo 

Como fili d'ntas praias apartado, 

Clieio dentro de duvida e rec«io. 

Que apenas nns meus olhoB ponho o freìo. 
(C«nt. IT, st. tn.) 
Com uma grande ÌatuÌ<;3o sentimentat de 
està scena de despedida, o Dr. JoSo Teizeira 
Soares considera comò reminisoencia do ul- 
timo abra^ de sua mSe eates veraoa : 

*0h. tilho, a quem eu tinha 
86 para refrigerio e duce atnparo 
D'està cariRada ja vclliice oiinha, 
Que em clidro acabarà, penoso e amaro: 
Porque me deixas, aiieera e mesquinha! 
Porque de mi te vfis, oh filho (-«ro? 
( Ib., bU 90.) 



EPOCA TERCEIRA 



annos no Oriente 



(i55Sa 1569) 



Abandonada a Africa, no plano da admi- 

nistra^ao de D. Jo3o iii, a viagem da India 

era o recurao das familias fidalgas para a 

carreira dos seus filhos ; dil-o Diogo do Conto 

noB Dialogos do Soldado pratico: eque os 

mais dos homens fidalgos querem mandar 

80U8 filhos — à India; porque corno ndo ha 

jd Africa^ nSo Ihes podem dar despezas para 

Mtas partes, e o tempo està de tal maneira, 

que n9o ha homem tSo abastado n'este reino 

qoe possa sustentar mais que um filho, ainda 

oom trabalho, e todos se querem langar n'essa 

India ds mas fadas. . . » (p. 38, 1.* redac^So.) 

eus paes n3o fazem pouco em langar sua 

rga em outro, e mandam-nos fi India aonde 

Alteza OS sustenta multo differente do que 

18 paes o podem fazer, em casas de gran 

" alugueis oom pagens desbarretados, gen- 



488 HI8TORIA DA UTTBBATURA PORTUGCTBZA 

tea bem ataviadas, que dizia o Conde'Viso* 
Rei pelos fidalgos da India, que sempre an- 
davam às oannas... e ha mancebos fidalgos 
tao ditosos, que em sahindo do ninho e cassa 
de seus paes, Ihes manda dar S. Alteza para 
sua despeza trezentos ou quatrocentos cruza- 
dos, ou tres ou quatro mil por anno, que é 
urna boa mer<;d, e que se antìgamente dava a 
fidalgos veihos no servilo e cheios de muìtas 
cfis, e por isso nSo ha dinheiro que baste à 
India para as grandes despezas que S. Altoza 
faz ;. . . mas o peior he, que nenhutn quer ser 
soldadOf todos querem ser Capitdes^ por que 
dizem que o servilo do soldado he muito, e 
que nào tem nome nem pre^ para o reqnerì- 
mento das mercés...» {Id., p. 39.) Gam5es 
inscripto corno soldado, obrigado ao servilo 
militar de cinco annos, estava inhibido de re- 
ceber essas mercés regias, e a India nSo Ihe 
apparecia comò uma esperan^a salvadora. 
Nào era equìparado ao «Fidalgo mancebo, 
que vem do Reyno sem hum cruzado, querer 
logo ter casas de trinta de alugueis por mez, 
cavallo ajaezado de prata, caprazoes ricos. . .> 
trajando <cal<;ào de veludo, espadas doura- 
das, trauQas de ouro, passamanes de guarnì- 
qòes de ouro e prata...» (Ib.^ 140.) Substi- 
tuindo entra a gente de armas a um filho do 
povo, competia a Cam5es comò aos soldados 
de bom tempo, comò descreve Diego do Gou- 
to : e sayo de guing9o pardo, ceroulas de 
cheila, gib3o do mesmo, coura de couro gol 
peado, gdrro de milao, espada curta em tala 
barte de anta...» (/ò., 142.) Està desegual- 
dade evidenciava-se logo na forma^So dai 
Armadas em Lisboa, comò observa o chro 



490 HI8TOB1A DA LlTTBRATDRA POHTUOUBZA 



virem sondo necessario.» (p. 33.) Era o que 
ainda hoje se chama viver & mesa do or^- 
mento. Diogo do Conto aponta alguns d'eeses 
boeiros por onde se esgotavam as riquezas da 
India : « vem està pobreza dos muitos ordena- 
dos de Arcebispos, Bispos, Inquisidores e 
outros officiaes. despezas dos Mosteiros que 
agora ha. . .» (/6., p. 48.) Paga adiantada de 
cinoo mil pard&os aos CapitSes de Chaul, Ba- 
Qaim e Din <que estava em costume a fa- 
zer-se aos Capitaes, para poderem ganhar 
alguma cousa em suas Fortalezas, e que para 
isso davam fianga para segurar a Fazenda de 
S. Alteza...» (76., p. 52.) Era a pilhagem 
organisada na administra^fio : «Todos os car* 
gos de EscrivSes, Gommissarios. Juizes. e 
outros officiaes das Tndias, s§o distribuidos 
pelo termo de tres annos, e devem ser exer- 
eidos pessoalmente. sendo por grande favor 
transferidos a um genro corno dote da mu- 
Iher.» Facto notado pelo hoUandez Linschott, 
no seu Itinerario, (p. 59.) Cada funceionario 
fazia render o officio quanto possivel n'este 
triennio; e o peor é o que se dava oom o 
governo dos Vice-Reis, sempre voluntariosoa 
e sem plano. Diogo do Conto o notava : e de 
maneira que cada tres annos védes a India 
demudada, que se nSo conhece, corno homem 
que entra em Auto por muitas figurai oom 
differentes trajos; por que nSo ha nenhum 
Vice- Rei que queir a conservar e sustentar o 
que achou feito por outro.» (76., p. 74.) C 
m5es seguiu para a India quando os Vio 
Rais se succediam no mais desaforado delir ' 
de se enriquecerem ; e com o exemplo de cim 
todo o funccionalismo medrava na concussi 
e peculato. 



i 

j 



poae DBier aqueiia moeaa, n-se ae vos 
zomba de todos.» (p. 138.) 

Depoia d'iato, o quadro d 
afìnado ao mesmo diapasSo, 
ao eagotameoto daa riquezt 
dindo n'eata amea^adora est 
do da Chioa, e por altimo o 1 
bìto do JapSo. Sìlveira, Daa 
Soldado da India, deacrei 
miaeria moral da adminìstri 
que era um symptoma da d 
Imperio t3o heroicamente fu 

( Tem eatea miniatroa da 
proprio o que furtam, que jfi 
algum escrupulo de conaoient 
iato, OB Eacrivfiea que lan^ 
e o Feitor que Ihea bade 
ro, ae concertam e fazem 
parti^So: — o eBcrivSo de b( 
tre doia aoldadoe vivos tra 
ou que anda na China; e 
Bada fazem suas contas, e 
que Ihe cabe do seu suor e t 

( Outra ae vae em criado 
CDviteiros, malsins, pagana e 
tém auas inteUigeucias pan 
oa aoldadoB d'aquelle paga 
ficam em Gòa servindo a q^ 
algum medo nem vergonba, 
màe piedosissima de velka 
drasta de homens de bem. 

' Outros tém amiaadea co 
fustas e galés : e a essa con 



OAJIOE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 



493 



qne os ponham no Rol para receberem 
a, e que os acompanham até encontrarem 
▼ics de chatìna ou sahirem n'algum porto 
de se fìquem, por que Ihes importa muito 
egar a Gochim ou ao Norte a certo nego- 
io: e algamas yezes a dar cutiladas ou fazer 
tra maior maldade por dinheiro que Ihes 
o.» (Silv. ib., p. 155.) 
<0 modo corno hoje se prove em nossas 
rmadas indianas é este. Dà-se ao Capitao do 
rio ou gale, que vae para o Malabar ou 
ra qualquer outra parte, para cada soldado 
to para bìscouto e arroz, quando nSo n'o 
noe armazens. . . e tanto para carne, pes- 
do e outras miudezas, e cem pardfios de 
eroe sondo o navio ligeiro, se é gale tre- 
entos, e às vezes mais. — Porém este provi- 
ento nfio é mais que por tempo de tres me- 
es: e depois Ihe d&o o dinheiro para elles se 
rovòrem. 

«Estes GapitSes (exceptuando alguns ze- 
osos e amigos da honra, que nSo s3o muitos) 
to qne vSem na sua mSo o dinheiro 
'aquella provincia, fazem logo suas contas 
quanto h3o de ferrar, para passarem 
quelle inverno em Gda com grande casa em 
a corrente e seus pagens e bom cavallo, 
ra melhor e com mais auctoridade poderem 
namorar, tratar com alcovitoiras e parar lar- 
gamente aos dados. — D'està maneira en- 
chiudo a bolsa do mantimento do pobre sel- 
ci o e da muxara ( ra^So, do maialo musava) 
Id marinheiros — que pagando-se quarenta 
D trazem mais de dezoito e algumas vezes 
108 — vèm estos desalmados a ter cabedal 
p "» oombator mulheres casadas e donzellas. 



se contentam.> (p. lOb.) u espirilo ao moro 
confundia a activìdade militar com a avìdez 
da onzena e do mercantiliemo, corno descreve 
Linscbott, DO seu Itinerario: <Ha outros sol- 
dadoa qua a3o empregados por alguDS dofl 
seus amigos a fazerem alguDias viagena e a 
exercer alguns negocioa, e aSo ohamadOB Cha- 
tins, porque quando a Fróta se equipa ae re- 
cusam a seguil-a, o qua é da sua liberdade, e 
embora n3o v5o & guerra Dem por isso d~' 
xam de ser chamados soldadoa.* O senso n 
ral aoffrera urna profunda alteralo na oc 
Bcienoia portugueza; com o seu raro ti 
critico indica-o Diogo do Couto, no Soldo» 
pratico: «no tempo de agora mais eSo 
males qua ae dissimulam, que os que se cfeo- 
tigam ; porque fia vezes vai mais a ''°^ 
culpa dea cuipados, que a verdade doe L( 
. . .quanto mais que oa offìciaes d'este te 
tem dado bum entendimento a aste i 
peitas, que Ibe n3o dera melhor Barthoto pur» 
favor do seu direito; cuido que està provado 
pelos Fadres confessores da Compatùtia, que 
sfio OS mais rìgorosoa que agora ha em casos 
de reatituigSo; — e dizem, qne peìta ae en- 
tende a que se toma da parte antes de a 
deepachar e concerto que com ella fazeia por 
aeu deapacho ; mas se estaa duas cousas nSo 
intervierem no negocio, se a parte (oi despa- 
ohada simpleamente e é boa té Ihe foi fr-ta . 
mercé — pode muito bem depoìs de des a- I 




CAM5E8 — EPOCA, VIDA B OBRA 495 



chada a parte, gratificar e agradecer ao des- 
pachador o beneficio recebido, e que se o 
nio fizer sera havido por ingrato e mào ho- 
mem de córte, etc > {Ib., p. 14.) Aléin da mo- 
ral jesuìtica, fundada em restricQòes mentaes 
e sophiamas soezes, a Gompanhia exercia um 
grande influxo de intriga pelo seu desenvolvi- 
mento temporal no governo da India, em que 
se tornara um elemento perturbador. CamSes 
conheoera esse influxo deleterio nos estudos 
humanisticos de Coimbra, cuja direc<}3o tira- 
ram ao Mosteiro de Santa Cruz ; fora encon- 
trar na córte de D. Jo&o iii esse falso asce- 
tìsmo, com que se apoderou da familia real, 
extorquindo-lhe espantosos privilegios e ri- 
quezas ; vinha agora encontrar urna mais fer- 
renha diligeneia da Gompanhia, que por tan- 
tos aspectos se Ihe mostrara antipathica. A 
rida da India, para onde os acontecimentos 
o impelliram, era um abysmo onde os odios, 
as doen^ast os desastres e a miseria o supplan- 
tariam se o nSo fortificasse uma aspiragào 
ideal — o Pensamento novo que o alenta e a 
que procura dar fórma artistica. Esses deze- 
seis annos, que passou na India, longe da 
Siio qnerida, que era Lisboa, acham-se con- 
Btituindo dois periodos: o 1.^ comprehende a 
sua actividade militar durante os cineo annos 
de servii obrigatorio (1563 a 1568); o 2.^ 
em que em suave convivencia litteraria se 
refugia na ìdealisa<;3o poetica, repassando e 
ardenando as suas composigoes. 



Embora se coahecesse tarde o documento 
officiai que authentìca em que Armada partìu 
CamSeB para a India, a Elegia lu, em que de- 
screve a sua viagem, ae grandea borraecas, na 
passagem do Cabo da Boa EsperaoQa, a cfae- 
gada a Goa e logo o primeiro feito de armas 
coDtra o Rei da Pimenta em que tomou parte, ' 
levava a precisar datas irrefragaveis, rigoro- 
samente histoHcas. Easa admiravel Elegia, 
que tem a rubrica vaga Da India a um 
amigo, acha-se no Cancioneiro manuscrìpto 
de Luiz Franco, (fi. 4) com a dedicatoria Da 
India, a Dom Antonio de Noronha, o seu jo- 
ven amigo, filho do segundo Coode de Lìnba- 
res, enamorado de D. Margarida da Silva, 
prematuramente morto na terrivel aurpreza de 
Tetuào em 18 de Abril de 1558, quando Ca- 
m5eB levava ]& vinte e seis dias de vìagem. 
Na Elegia in, ao descrever a cbegada fiquella 
terra: De lodo o pobre konrado sepuìtura, 
narra com aingeleza o seu baptismo de san- 
gue : Foi logo necessario termos guerra. 

N3o eacaparam a Manoel Severim de Fa- 
ria eataa circum stand as, e por ellaa deduzia 
com rigor em que Armada partirà Camóes 
para a India, determÌDando pelo feito de ar- 
mas a data da cbegada a Goa: Foi està em- 
preza, segundo referem as biatorìas da Indir 
no firn do anno de 1653. Pelo que consta qn 




•yv. * - 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 497 



partiu de Lisboa no inarco de 1553 com Fer- 
nando Aivares Cabrai, que indo por Capìtao 
mdr de quatro nàos, so elle chegou A India 
so primeiro de septembro do mesmo anno.» 
(FI. 3.) Bffectivamente Diogo do Conto refere 
que <a Ndo San Bento, em que vinha Fer- 
Bio Aivares Cabrai, que o Margo atraz pas- 
sado tinha partido do Reinp por Capit&o-mór 
de quatro nàos, e d'ellas so chegou està a 
Oùa.^ * Interessantes noticias d'està viagem 
tormentosa encontram-se na Relagdo summa- 
ria da Viagem que fez Ferndo d^ Aivares Ca- 
brai, deadè que partiu d'este Reynopor Capi- 
tdo-mór da Armada que foi no anno de 
1563 ds partes da India, escrìpta por Ma- 
nce] de Mesquita Perestrello, que se achou no 
naufragio da torna-viagem, eoi 23 de Abril 
de 1554, na Terra do Natal. Era composta a 
Armada de ciuco navios; corno a nào Santo 
Antonio^ que devia ser oommandada por 
D. Manoel de Menezes, se queimou no Tejo 
quando ainda estava recebendo carga, parti- 
ram apenas quatro, nos dias 23 e 24 de MarQo 
de 1553, em um domingo de ramos, comò in- 
dica Perestrello. Storck, corrige pelo Ealen- 
dario universa! de Eisselmeyer fixando pelo 
domingo de ramos o dia 26. Variam os no- 
mee de algumas nàos nas indicaQoes de Pe- 
restrelloi Figueiredo Falc&o e Diogo do Conto, 
que sio uniformes quanto aos nomea dos Ca- 
pities. Belchior de Sousa commandava a Con- 



Decada vi, liv. 10, cap. 14. O Bispo de Viseu, 
ni aa Js^fiioria, p. 188, nota C, seguiu estas refe- 
n <<is destacando os factos positivos. 



498 HISTORTA DA UTTERATURA PORTUGUEZA 



eeigdo (ou CerveiraJ, D. Fedro de Noronhat 
a Loreto, ou Rosario ou Santa Cruz)^ Ruy Pe- 
reira de Sousa a Santa Maria da Barca; e 
Fern9o Alvares Cabrai, corno GapitSo-mór ia 
na Ndo San Bento *que era entdo a tnelhar 
que entdo havia na carreira* e levava por 
piloto Diogo Garda, o Gastelhano, por mea- 
tre Antonio Ledo, e por contra-mestre Fran- 
cisco Pires, todos homens muito estimados 
em seus cargos. . .» Foi desastrosa a vìagem 
d'està Armada, corno narra Perestrello : e Par- 
tiram do porto d'està cidade de Lisboa em Do- 
mingo de ramos, 24 de Margo do dito anno, 
e seguiram sua ròta alguns dias, assim em 
conserva, até que andando o tempo, succede- 
ram t&o diversos acontecimentos, que foi tor- 
nado a apartarem-se uns dos outros, aju- 
dando-se cada um do caminho que melhor Ihe 
parecia, segundo a paragem em que se acha- 
vam, para salvamento das vidas e fazendas 
que leva vam a seu cargo . . . » ' Antes de se- 
guir-se o roteiro da nào San Bento ^ através 
de tremendas borrascas, é tambem commo- 
vente o estado moral de GamSes, que ex- 
prime na Garta i, na Elegia iii e ainda nos 
Lusiadas; sentia que caminhava para a 
morte, certo de que nenhuma esperan^a Ihe 
restava : «Despois que d'essa terra parti, corno 
quem o fazia para o outro mundo.^ A fami* 
Ha de Gatherina de Athayde planeara cassia 
com outro, mas fora baldado esse empenho; 
dil-o o poeta no Sonato xci, alludindo ao8 



^ A Relagao de Perestrello vem na Hisioria imr 
gico-maritima, t. i, p. 41. 



J 



CAMdES — EPOCA, VIDA E OBRA 499 

domesticos venenos, nunca provados, e antes 
certo de que era mais o amor, quanto as cau- 
808 eram de set menos. Elle na despedida 
lembrase das «danadas vontades, nascidas 
de pura ìnveja, de vèrem su amada yedra de 
ri arrancada, y en otro muro asida ...» * Ma- 
goava-o a situa<;ao em que ficava, exposta fis 
solicitaQoes prementes da familìa, em urna 
tristeza nostalgica, contrariada no seu amor, 
Yindo a morrer de saudade, ao firn de tres 
annos, tao cedo. Com este desmoronamento 
de esperan^as e pensamentos, o poeta procu- 
rou ^fugir a quantos laqos ni" essa terra me 
armavatn os aeontecimentos ...» 

A impressSo da partida vibra intensa- 
mente na estancia dos Lusiadas quando de- 
Bcreve a sahida da Armada de Vasco da Gama, 
eojo roteiro syncretisa com o seu proprio: 

Jà a vista pouco e pouco se de sterra 
D'aquelles patrios montes que ficavam ; 
Fìcava o caro Telo e a fresca serra 
De Clntra, e n'ella os olhos se alongavam. 
Fieav(i^nos tambem na amada terra 
O eoroQàOf que as magoas la deixavam; 
E jé despois que toda se escondeu, 
Nào vimos mais, emfim, que mar e céo. 

(Cant. V, 8t. 3) 

Era ainda a emoQSo do amor, que o alen- 
tava n'esta situaQao de completa incerteza, 
que elle na ironia de tantas decepQoes ca- 



^ Magnin explicava : « Està phrase poderia fazer 
B >or que a sua eie ita se havia casado com outro.» 
l é possivel tal supposi^ao diante dos documen- 
t lutbenticos; revela fl tentativa da familia, que o 
I \ conhecìa. 



500 HISTORIA DA UTTBRATORA PORTUGUEZA 

racterisa : « assi posto em estddOy que me ndo 
via se ndo por entre lusco e fusco ...» No So- 
neto GXLiii, talvez communicado na despe- 
dida, faz a profissSo de fé de um sentimento 
que é o seu viatico : 

Gentil senhora, se a fortuna imi^a, 

Que contra mi com todo o céo conspira, 
Os olhos meus de vèr os vossos tira, 
Porque em mais graves casos me persiga ; 

Gommigo levo està alma, que se obrlga 
Na mór pressa do mar^ de fogo e d'ira, 
A dar-vos a memoria, que su spira 
So por fazer com vosco eterna liga. 

N'esta alma, onde a fortuna póde ponoo, 
ToLo viva V08 terei, que frìo e fome 
Vos nào possam tirar, nem mais perigos ; 

Antes, com som de voz, trèmulo e ronco, 
Por vós chamando, so com vosso nome 
Farei fugir os ventos, e os imigos. 

No Soneto xxii expritne o protesto, da in- 
finda lembranQa que o aoompanha : 

De vós me parto, oh vida, e em tal mudane 
Sinto vivo da morte o sentimento ; 
Nào sei para que é ter contentamento, 
Se mais bade perder quem mais alcan^. 

Mas, dou-vos està firme seguran^a: 

Que postoqne me mate o meu tormento, 
Por as aguas do eterno esquecimento 
Segura passare minha lembran^a. 

Antes, sem vós, meus olhos se entriste^m, 
Que com cousa outra algnma se oontentem ; 
Antes OS esquegaes, que vos esque^am. 

Antes, n'esta lembranQa se atormentem, 
Que com esquecimento desmere^am 
A gloria que em soffrer tal pena sentem. 



a uisuvu; a ohdib maria uà E>ur(»i hu uuof^u 
a Gochim em fina de Novembro; e a Loreto 
ou Rosario teve de ir inTernar a Mo^ambi- 
que. Sómente a nSo San Sento cfaegoa a 
Goa; d'ella diz Pereatrello na sua RelaoSo: 
«fazia tanta vantagem a todas as outraa era 
grandeza. fortaleza e bondade.» 

Estes deaastrea dae Armadas que partiam 
para a India provinham de aerem despacha- 
daa muito tarde do reìno, transpondo difficil- 
mente o Gabo, e pelea fortes ventos do Nor- 
deate tendo de ìnvernarem em Mogambiqua. 
A epoca em qu,e partiu a Armada em que ia 
Gamoes, 26 de Mar^o, fazia prevér as caU- 
midades auccedidas. Em uma carta do Vice- 
rei D. Francisco de Almeida, jA se aoouea o 
erro de despacbar as Armadas para a India 
em Abril. ' Em fina de Maiv> 6 que comeoan 



^ • nào bIo chegadoa cà os offìciaea, nem oatrM . 
provìmentos, e tndo he porque oe votèot offìeiaet de 
Lisboa dùem qua voa fórram dinhàro em àetpedir tu 
Armadat em Abril.' E aocrescenta mais adeanU: •£ | 




CAMÒBS — EPOCA, VIDA £ OBRA 503 

as fortes tempestades da Costa africana, que 
duram até Septembro; o grande fundador da 
Geographia goral Bernard Varenius, mos- 
trando corno na zona tropical so ha duas es- 
ta^s, verao e inverno, differenciando-se pelo 
calor e humìdade, exemplifica està lei clima 
tologica corno a qne se passa na costa occi- 
dentai de Africa ao sul do Equador: «O in- 
verno cometa pouco mais ou menos ao mesmo 
tempo que a nossa primavera, e dura de 
15 de Mar<;o até 15 de Septembro. O verao 
vae de 15 de Septembro até 15 de MarQO. 
Durante o verSo as chuvas faltam totalmente 
oa s&o raras, o céo estfi constantemente sere- 
no. Durante o inverno, ao contrario, rara- 
mente apparece o sol um dia, tanto as nuvens 
e as chuvas obscurecem a atmosphera. Às 
trovoadas sfio tambem frequentes. Nao chove 
qnasi nunca todo o dia. mas a maior parte 
do tempo, durante duas horas da manha e 
duas da tarde, càem fortes bàtegas de agua, 
que absorve logo a terra fivida. . .» A bo^ali- 
dade da administra^ào, indifferente és leis 
naturaes, que afrontava por sordidos interes- 
Bss, causava as frequentes perdas das nàos 



mande V. Alteza que partam em Fevereiro, o mais tar- 
dar, por que bem vedes o jogo que vos tem feito o 
partirem as nóos de là tao tarde ; e perguntae a vossos 
offielaes qual he mór perda — se gastar e perder um 
mez e dois de soldo d'armada, que elles dizem que vos 
I roveitam em deter a partìda das nàos em Lisboa, 
I se he mór perda um anno que as nàos ficam em 
iQambique, por que chegam tarde, do que elles darào 
itas a Deus da gente que ahi morre ao desamparo, 
' que nfio. tenho culpa.» (Ap. Annaes das Scienc. e 
I LeUrcUy n, 144.) 



504 H18TORIA OA LlTTBRATOKA PORTITaUESA 



da carreira da India, e enorme sacrificio de 
vidas. ^ A gente da Armada era mettida a ca- 
pricho dos Capitfies sem lotaQao. No Soldado 
pratico, observava Diogo do Conto: <Doi8 
mil homens — parece que basta, porque Tae 
multa para a gente ir sa e bem tratada no 
alojamento; porque a viagem é comprida e 
trabalbosa, e differentes chuvas, aonde a 
gente mata urna a outra ; e tambem ir3o mais 
seguros, se retardarem no caminho mais do 
tempo acostumado, de nio terem tanta fatta 
de agua e de mantimentos; e seria de pare- 
cer, que nSo fosse toda a gente de armas, se 
n3o alguns homens do mar bombardeiros, 
para fìcarem servindo na India, de que ha 
multa falta;» . . . (p. 35.) Francisco Rodrigues 
da Silveira, nas Memorias de um saldaci da 
India, descreve as moiestias dos que se em- 
barcavam n'esta carreira ; ccorrupgao de gen- 
givas, (escorbuto) febres pestilentas, fluxos 
de ventre e outra grande copia de enfermi- 
dades, que muitas vezes consomem na via- 
gem a maior parte, causadas assim da mali- 
eia e da diversldade dos àres e climas por 
onde passam, mantimentos pddres e de pes- 
sima qualidade. que os infernaes ministrns do 
provimento em Lisboa mettem n'ellas, e tam- 
bem da fome, que tendo por provimento de 
el rei prover-se cada nào por sete mezes» as 



* Esoreve Diogo do Gouto, no Soldado pratico, 
p. 8: < este reyno està multo falto d'estes offidaes (pi- 
lotos ) ha vendo n'elle os melhores, qae se podem acbar 
em todo o mundo ; e vem està falta de pilotos e homens 
do mar das muitas Nàos que sSo perdidas n'esta e ' 
reìra de annos para cà, por nossos peccados* . . > 



pOe mais tempo, comò de ordinario aconte- 
ee.-.i À todoa estes medonboe accidentes fi- 
cou esposto GamòeB, organiaa<;3o delìoada de 
artista, temperamento deetinado da contem- 
plat^s especuUtivas. Sómente o poder de 
nma ideia poderia innuir-lhe urna latente 
energia . 

Cheio de interesse é o roteiro da sua via- 
fcem, que por um rasgo genial identificou dos 
Lusiadas com a ròta de Vasco da Gama. O 
Dr. Storck notou eEta circumetancia : * Mas 
podemos compdr um quadro vivo doa acon- 
tecìmentos e daa impresGÓes de CamOes lendo 
a deacrip^So brithante da expedi<;ào de Vasco 
da Gama; os factott bSo hÌBtorìcoa. mas o pin- 
cel do grande artista retratou o que vira em 
1553, dando-lhe um colorido pessoal.» { Vida, 
p. 446.) O que levaria Cam5e8 a syncretisar 
as duaa rótas? Dois motivoa: primeiramente 
a data da partida de Vasco da Gama em 28 
de Marco' de 1497, era com differenga de 
dois dias a mesma em que partirà de Lisboa 
a Armada de FeroSo Alvares Cabrai em 26 
de Margo (Domingo de ramos) de 1553, e 
por tanto sob os mesmos accidentes das hoje 
oonhecidas leis meteorologicas ; em segundo 
legar, usava o poeta de piena lìberdade de 
artista, por que no seu tempo nSo se conhecia 
Roteiro apocrypbo da viagem de Vasco 
I Gama, inintelligente fabricapSo litteraria, 



506 HI8TORIA DA LITTBRATURA PORTUOUBZA 



cheia de erros de datas calendaricas, e de ex- 
cursos alheioB a um diario de bordo. ^ As re- 
ferencias pessoaes da ròta noe Lusiadas es- 
clarecem-se com os dados apontados por Lina- 
chott, que navegou na mesma carreira. * 

De Mauritania os montes e logares. 
Terra que Anteo n'um tempo possala, 
Deixando a mào esquerda. . . 

Pasadmos a grande ilha da Madeira^ 
Que do muìto arvoredo assi se chama, 
Das que nós povoàmos a primeira, 
Mais celebre por nome, que por fama. 

Linschott aponta a mesma direcQ&o: «A 8 
de Abrìl do anno de 1583, dia de sexta feira 
santa, epoca em que a^ Ndos partem ardi- 
nariamentey fizemo-nos & vela, tornando a 
ròta da ilha da Madeira.T^ (p. 4.) 

e A 15 de Abril descobrimos a Madeira e 
Porto Santo, onde os nayios se separam uns 
dos outros e tomam diversas rótas, cada um 
fazendo tudo para adiantar-se ao seti compa- 
nheiro na esperan^a de maiores lucros ao que 
chegar mais cedo & India; està emuIaóSo 



? 



1 P. Ay ala, no Oriente portuguez — Revista di 
Gommissào archeologica da India portugueza, voi. u, 
p. 696 a 604. 

* Histoire de la Navigation de Jean Hugues de 
Linschott, Hollandois, atéx ìndes Orientales. Ck>ntenant 
diverses Descriptions des lieux jusqaes à present des^ 
couvertes par les Portugais. Observations des Consta- 
mes et singularités de là et d'autres dedarations. Àvee 
Annotations de B. Paludanus. . . Item, quelques Cartel 
geographiques et autres Figores. 2.* ed. A Amsterdam! 
1619, 1 voi. ( A viagem é de 1581.) 




CaHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 507 



torna por vezes a navegagao desgraQada, nSo 
se podendo soccorrer uns aos outros, quando 
se acham de noite em perigo ou em tempo de 
tormenta.» Explica-nos este costume comò se 
dispersou a Armada em que ia Cam5es, antes 
mesmo das ìnevitaveìs borrascas da esta^So. 
Àponta Linschott outro costume para 
notar o que se passou na nào San Sento: 
«Ab Nàos que vào &s Indias tem por costume 
levar cada urna 400 a 500 homens e às vezes 
mais soldados e marinbeiros, segundo as exi- 
gencias do tempo. — Logo que os navìos est&o 
no mar alto, faz-se a revista de todos os ma- 
rinheìros e soldados. Os que arrolados se 
acham ausentes, sao notados pelo Escriv&o, 
para que na volta se dirijam aos fiadores^ 
por que todos sdo fiados, e os bens e baga- 
gens dos ausentes que se acham no navio sao 
vendidos em leilao, postos em inventario en- 
tregue fi guarda do Gapitao do navio. O 
mesmo com os que morrem a bordo.» Toda a 
descrip<;9o da costa africana é exclusivamente 
do roteiro de Camdes, por que Vasco da 
Gama seguiu ao largo sempre directamente 
para o Cabo. Prosegue o poeta alludindo fi 
costa da Numidia : 

De&àmoB de Massylìa a esteril costa 
Onde seu gado os Azenegues pastam ; 



Passamos o lìmite aonde chega 
O sol, que para o Norte os carros guia, 
Onde jazem os povos, a quem nega 
filho de Glymene a cor do dia ; 
Aqui gente»' estranhas lava e rega 
Do negro Sanagà a corrente fria, 
Onde o cabo Arsinario o nome perde, 
Chamando-se dos nossos Oabo-Verde. 



\ 



une tiveram por nome i-'ortanaaae, 
Entrémos navegando pelaa filhsa 
Do velbo Hesperio, Heaperidas chamadaa, 
Terras por onde novas maravilhas 
Andaram vendo ja noseas Armadaa; 
Alli tooiamos porto som bom vento. 
Por toniÉiriiK>B da terra mantimento. 

A'quella iiha aport&mos, que tomoa 
O nome do guerreiro Sanct'Iago. . . 
D'aqui, tanto que Bóreaa nos ventou, 
Tornamoa a cortar o immenso lago 
Do Balgado Oceano, e assi deixémoa 
A terra, onde o refreeco dèce acbAmoa. 

Por aqui rodeando a lar^a parte 
De Africa, que ficava ao Oriente, 
A provincia Jalofo, que repàrta 
Por dEversas na^ocK a negra gente; 
A mui grande Handinga, por cnja arte 
Logramoa o meta) rìco e luzente, 
Que do curvo Gambéa aa agnaa bebé, 
Ab quaea o largo Atlantico recebe. 

Ab Dorcadas pasafinios, povoadaa 
DaB irmàa, que outro tempo alli viviam, 
Que de vieta total Bendo privadaa 
Todas tres de um bó olbo ae Berviam. * 
Sempre emfim para o Austro a aguda pròa, 
No grandissimo golfSo nos mettemoa 



' O Dr. José Maria Rodrigues, nos sena valioBoa 
e novoB eatudoB sobre aa Fonte» dos Lufiadat, ea- 
creve: • Onde foi o Poeta buscar a designando de Dor- 
cadas para dar a um ^mpo de ilhaa sìtuadas na foi do 
Cambia e a Serra Leoa?- E em nota esclarece: ■Con- 
frontando a est. 11 com a lO e 12.', 1-3, nio é difficil 
identificar as Dorcadas do poeta com o Arohipelago 
de Bijagoz. Estaa tres estancias ligam-ae immediaU- 
mente com a 7.» e referem-se nào 1 vlagem de Vasco 
da Gama, conio a 8.* e a 9.*, maa & do proprio poeti. 
Quando este, no Oriente, rémodelon o aeu Poema .' 
nncorporou no que jS tinha escripto urna parte do Ro- 
teiro da Nào San Bcnto em que fora i India.» fini*'- 
luto de Coimbra, voi. 52, p. 627.) 



CAlfÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 509 



Deixando a Serra asperrima Leda 

Go'o Cabo a quem das Palmas nome demos ; 

O grande rio, onde batendo sòa 

mar nas praias notas que alli temos, 

Ficou co'a Uba illastre que tomou 

O nome de um que o lado a Deus tocou. 

Alli o grande reino està de Qonffo, 
Por nos jà convertìdo à fé de Christo, 
Por onde o Zaire passa darò e longo, 
Rio pelos antiguos nunca visto. 
Por este largo mar emfim me alongo, 
Do conbecido polo de Callisto, 
Tendo o termino ardente jà passado, 
Onde o meio do mundo é limitado. 

Vejamos em Linschott os accidentes que 
soffriam os navegadores n'estas regioes das 
calmas: <A 24 de Abril nos appareceu a 
Costa da Ouiné, a qual comeQa no 9®, esten- 
dendo-se até & iinha Eqainocial. Ouviam-se 
trovSes e raios, com tanta quantìdade de 
chova repentina, que se viam muitas vezes 
forgados a recolher as velas... Aproximan- 
do-se mais da terra, o mar n3o é tao bravo, 
e ordinariamente ha taes calmarias que os 
Navios ficam fis vezes dois mezes n'esta costa 
antes de poderem passar a Linha, a qual logo 
que a passam s3o levados por um vento go- 
ral que é o Sulsudeste. Ora a ròta que tém 
n'esta costa é penivel e incerta. Porque nas 
atturas do Brasil sob o grfio 1 8 ha certos es- 
cólhos, que os Portuguezes chamam Abro- 
Ikos, que se estendem no Oceano por 70 le- 
gaas, & direita do lado da terra baixa. Os ma- 
rinheiros para evitarem o perigo aproxi- 
mam-se o mais que podem das Costas de 
r line, porque se se aproximam d'estes esco- 
I )B aio forQados de arribar a Portugal, nSo 
i ^ grande perigo de naufragar. 



/ 



[^ 



\ 



510 HI8TOR1A DÀ UTTERATURA PORTUGUSZA 

< O Piloto bem previdente, para evitar està 
calmaria nao se aproximarà muito da oosta 
da Guiné, e tambem nao costearà o Brasil 
com medo de cahir nos escólhos, tendo assim 
de manter-se n'uma ròta mèdia, que servirà 
muito ao avanQO da sua viagem.» (p. 6.) 

A arribada da nào de Belchior de Sousa 
a Lisboa foi para fugir & sua perda inevitavel 
nos Abrolhos. No seu roteiro Linschott escla- 
rece està circumstancia : « A 12 de Junho, es* 
capàmos e sobrepujamos os escólhos do Bra- 
sil, o que deu a todos uma grande alegria, 
ficando por isso fora do reeeio de arribar a 
PortugaL* Referindo-se no seu diario a 26 
de Maio, escreve Linschott: «passàmos a linba 
equinocìal, que divide a ilha de San Thomé 
pelo melo na costa de Guiné, e entao cometa- 
mos a vèr a Estrella do Polo australe tendo 
perdido a do Norte, tendo o Sol do melo dia 
ao Septentriao.» Gam5es descrevendo a ilha 
de San Thomé (st. xii) e passado o meio do 
mundo (st. xiii), descreve o espectaculo da 
Estrella Nova, ou o Cruzeiro do Sul, que o 
deixou deslumbrado: 



Jà descoberto tìnhamos diante 

Là no novo hemispherio a Nova Estrella, 

Nào vista de outra gente, que ignorante 

Alguns tempos esteve incerta d'ella ; 

Vimos a parte menos rutilante 

E por falta de estrellas menos bella, 

Do polo fixo, onde inda se nao sabe 

Que outra terra comece ou mar acabe. 



Ha urna reminiscencia dos celebres versos 
de Dante allusivos à Estrella nova ou o Gru- 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 511 



zeìro do Sul ; ' a parte menos rutilante desi- 
gna essa assombrosa agglomeragao de astros, 
qua OS astronomos chamaram as Nuvens de 
Magalhàes < objecto unico no mundo dos phe- 
nomenos celestos, e que augmenta ainda o 
encanto pittoresco do hemispherio austral,» 
corno diz Alexandre de Humboldt. Arago, na 
sua Astronomia popular, collocou as Nuvens 
de Magalhàes a Grande e a Peqùena entre 
as ConstellaQdes admittìdas; e lamentando 
nào ter tido a fortuna de contemplar este 
pbenomeno da abobada estrellada, transcreve 
do Cosmos de Humboldt alguns tragos do 
quadro: « As duas Nuvens de Magalhàes^ 
que naturalmente receberam primeiro dos Pi> 
lotos portuguezes o nome de Nuvens do Cabo, 
captivam a attengao do viajante pelo seu bri- 



' Escreve o Dr. Joao Teixeira Soares : « Nos pri- 
meiroa qaatro versos d'està estancia [xiv ) ha urna re 
miniscencia do Dante. . . No Purgatono^ canto i, verso 
22 e seguintes, disse o Fiorentino 

Io mi volvi a man de^ra, e posi mente 
AU' altro polo e vidi Quattro Stelle- 
Non viste mai fuo r, J alla prima gente. 

Goder pareva il Ciel di lor fiammelle : 

O settentrional vedovo sito, 

Poi che privato sei di mirar quelle ! 

«Dante nao viu a Cruz do Suly mas teve conheci- 
mento d'ella pela tradiQào dos negociantes italianos e 
dos navegadores arabes do Oceano Indico. 

« primeiro documento portuguez em que se men- 
ona està Constella^ào pertence ao seculo xv. E' a 
Birta que o Physico Mestre Joao, medico da Armada 
3 Fedro Alvares Cabrai, participa desde o Brasil a el 
A D. Manoel em Abril de 1500 a Descoberta d'este 
iz.. (A Epoca, n.« 86, 1882.) 



HISTORIA Di 



Ihantìsmo, pelo seu ìsolainmto que as faz bo- 
bresahir mais e pela orbita que desorevem de 
concerto em roda do polo austral, ainda que 
em distancias deseguaes. Seu nome actaal 
tem evidentemente por origem o de MagalhSes. 
postoque n3o foi elle quem primeiro aa ob- 
servou. A maior das Nuvens de Magalhàe» 
oobre 42°, e a menor IO quadrados da abo- 
dada celeste. — Herscbel acbou na Grande Nu- 
vem 682 estrellas, 291 nebuloses, e 46 aggio- 
meraQÒea eatellarea; na Pequena contou 200 
eBtrellaa, 37 nebulosas, e 7 agglomerat^es ea- 
tellares. As Nuvens de Magai/idea offerecem 
aoB olhos do obaervador uma eapecie de mi- 
niatura do céo eatrellado: descobrem-se n'el- 
las oonatellaQÒes, aggìomeraodes eatellares e . 
materia nebulosa em differentes eatados de 
condensaQ3o.> (Cosmos, iii, 403.) 

Gamdea concentra em uma inimitavel ee- 
tancìa todoa os aspectoa d'està arrojada tra- 
vesaia : 

Contar-te largamente ae perlgosae 
Gousas do mar, que oe homena nÌo entendem, 
Subitaa Irovoadat lemerosaa, 
Retampagos, que o dr em fogo accendem; 
Negroè ehuveiros, noiiet tenebroeas, 
Bramidos de trovòes, que o mnndo fendem, 
Nào menoB é trabalho, qne grande erro, 
Ainda que tivene a voE de ferro. 

(81. XTl.ì 

Na Elegia ni, em que communica aa snss 
ìmpreaaóes pessoaea ao joven D. Antonio de 
Noronha, desoreve està meama B!tua<}fio lego 
depoia do deaembarque : 



OAMSbS — EPOCA, VIDA E OBRA 613 



Hebaixo estando jà da Eatrella nova 
Qne DO novo Hemispherìo resplandece, 
Dando do segundo axe certa prova ; 

Eia a noite com nnvens se escurece, 
Do ar subitamente foge o dia. 
E todo o largo Oceano se embravece. 

A machina do mundo parecia 

Qne em tormentas se vinha desfazendo ; 
Em serras todo o mar se convertia. 

Lutando Bóreas fero e Noto borrendo, 
Sonoras tempestades levantavam, 
Das nàos as velas concavas rompendo. 

As cordas co'o ruido assoviavam ; 
Os marinheiros, jà desesperados, 
Com gritos para o céo o àr coalhavam. 

Os raioa por Vulcano fabricados 
Vibrava o fero e aspero Tonante, 
Tremendo os Polos ambos de assombrados. 

Amor, alli mostrando-se possante, 
E quo por algnm medo nào fu^ia, 
Mas quanto mais trabalho, m ais constante ; 

Vendo a morte presente, em mi dizia : 
Se aignm'hora, senhora, vos lembrasse, 
Nada do que passei me lembraria. 

Apesar d'estes incomportaveis trabalhos, 
n3o deixava a marinhagem de divertìr-se, 
corno refere Linschott, depois de terem pas- 
sado a linha : e A 29 de Maio, dia de Pente- 
costeSy segundo certo antigo costume, foi eleito 
nr navio um Imperador e todos os Officiaes 
8t «tituidos, e fez-se um banquete, que dura 
01 inariamente tres cu quatro dias.» Os typos 
gì ciosos de Leonardo e de Velloso, nos Lu- 
ti das^ com os seus contos para distrahirem 

19 



L 



^ 



514 HISTORIA DA LITTERATUBA POBTUGUBZA 

a marinbagem, foram suscitados pela pratica 
d'este antigo costume. Linschott descreve a 
approximagfio do Cabo da Boa Esperan^a 
com factos que esdarecem a idealisa<;So de 
Gamoes : « A 1 1 de Julho, o Governador jul- 
gou que estavamos a 50 leguas do Cabo da 
Boa Esperan<?a, — approximando-se da terra 
para considerar o Cabo pelo erigano causado 
por urna nuvem e obscuridade, elle se achou 
a duas leguas da terra firme, o que nos tei 
medo.» Os afamados navegadores Cook e La 
Peyrouse fallam n'estes enganos a que cha- 
maram Terras de bruma; os nossos antigos 
navegadores acreditaram n'essas Ilhas em- 
poadas ou encantadas, que desapparecem, e 
em cujo descobrimento confiavam, chegando 
até a premunirem-se com alvarfis de privile- 
gios. Essas appariQoes das ^Terras de bruma» 
suscitavam a ìmaginagao de Cam5es para a 
ìdealisaQSo do seu episodio da Ilha dos Amo- 
resy mais do que as classicas tradiQòes das 
Ilhas Fortunatas ou do Sonho de Seipido. A 
sublime creagao do Adamastor, com que re- 
presenta a passagem do Cabo da Boa Espe- 
rauQa, é sob a fórma de uma d'essas brumas 
que se annuncia, depois dos cinco dias da 
partida da bahia de Santa Helena até ao 
Cabo: 



Porém jà cinco sóes eram passados, 
Que d'alli nos partiramos, cortando 
Os mares nunca d'outrem navegados, 
Prosperamente os ventos assoprando; 
Quando uma noite, estando descuidados, 
Na cortadora pròa vigìando. 
Urna nuvem, que os àres escurece, 
Sobre nossas cabeQas apparece. 



OAMÓES — EPOCA, VIDA EOBRA 615 



Tao temerosa vinha e carregada, 
Que poz nos coraQoes uin grande medo. . . 
Bramindo o negro mar de longe brada, 
Como se desse em vào n'algum rochedo. 

Qlie ameago divino ou que segredo 
Este clima e este mar nos appresenta, 
Que mór cousa parece que tormenta? 

Àchada està mythificagao grandiosa e in- 
compara vel, o episodio do ^^{ama^^or consti- 
tuia-se synthetisando todos os clamorosos de- 
sastres da inimaginavel historia tragico- mari- 
timo portugueza. ^ 

Uma circumstancia da ròta da India era 
se poderiam passado o Cabo ir refrescar a 
MoQambique. Escreve Linschott no seu diario: 
«Estavamos nas alturas da Terra da Nativi- 
dade... N'este ponto os Capitaes ordinaria- 
mente tomam conselho, se devem levar a sua 
ròta entro a terra de Africa e a ilha de San 
Lourengo^ ou se elles devem deixar a ilha 6, 
mio esquerda. Levando a ròta entre a Ilha e 
a Terra, vae-se a JVloQambique e a Goa. Dei- 
xando a Ilha & esquerda, a corrente impede 



^ Com o nome de Olko de boi mythificavam os 
marinheiros os perìgos do Cabo da Boa Esperanga; 
escreve Diogo do Couto, no Soldado pratico : « Nào 
onviu V. s. dizer de um fuzil, que deu na volta do Cabo 
da Boa Esperan^a na Armada do Fedro Alvares Ca- 
brai, que por nào amainar logo, por nào terem expe- 
rìencia d'elle, que, tanto que dà n'aquella paragem, se 
inta um tempo novo e tormentoso, se perderam qua- 
) Nàos umas a vista das outras, e as que ficaram 
porque nào levavam os traquetes de gàvea e as 
ìzenas dadas; e d'este desastre nasceu o aviso que 
dà por Regimento, que n'aquella paragem nào dem 
nàos as vefas perigosas.» (p. 9.) 



516 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUOUBZA 



que se possa surgir em Goa, mas é-se levado 
adiante tornando porto em Cochim, distante 
cem leguas de Gda . . . Os que passam o Cabo 
em Julbo chegam facilmente a Mogambique, 
tèm melo de refrescar de agua e repousar-se 
dez ou doze dias. Mas os que passam em 
Agosto sao obrigados a irem a Cochim ...» 

(p. 7.) 

Referindo a viagem da N&o San Bento, 
em que ia Gamdes, diz do capitSo-mór Fer- 
nao d'Alvares: «o qual sobrepujando com sa- 
bia experiencia a todos os contrastes que Ihe 
sebrevieram, dobrando o Cabo da Boa Es- 
peranga em tempo que nào podiajd ir a Mo- 
QambiqtJbe^ se lauQOu fora da ilha de San Lon- 
rengo, e so entre todas as da sua Àrmada 
passou aquelle anno & India e foi surgir na 
entrada do mez de (Septembro ^ ) & barra de 
Gda, onde esteve descansando dos enfada- 
mentos do mar.» 



^ Ha na RelaQào da Viagem da nao San Bento 
evidente equivoco escrevendo-sè Fevereiro por Septem- 
bro, por que a ser assim, era Fevereiro de 1554, enio 
d^ aquelle anno de 1553, em que se ostava. D. Carolina 
Michaelia opina pelo mesmo equivoco, era que Feve- 
reiro està escripto por Septembro. ( Vida, p. 455, 
nota 1 *) 

O Dr. Storck, nao tendo reparado no facto da nào 
San Bento passar por fora da Uba de San Louren^o 
(Madagascar) e por isso nao podendo refrescar em 
MoQainbique, dà por seu mero arbitrio a viagem de 
Gamoes « dez a doze dias de refresco em MoQambiqiie,» 
(Vida, p. 453.) Confessa, que pela < exactidào d'està 
hypothese tem direito a contradictar Perestrello, » 
(p. 447) fundando-se em outras viagens, que dio to- 
dos OS visos de certeza a conjectura que a San Beato 
aportara a Mogambique em fins de Julho de 1553.» 
( Vida, p. 448.) 






L 



5bB — EPOCA, VIDA B OBBA 517 - 

I da India, refere CamOes ter 

8 mezes de md vida por e»$e 

do S letra este periodo usua! das 

im-se effectivamente seis mezes, 

OB ultimoB diaB de MarQO, da 

3z de Septembro, o qua cotlooa a 

«»»s»»» ^^ 25. Deu-se com a chegada da 

Nfio San Bento a GOa, unica vinda do reino 

n'osse anno de 1550, a entrada de ama outra 

nfto que invernare em Mo^ambìque, trazendo 

onto trìpulantes e quatorze escraros e quatro 

eacravas que tinham escapado do espantoso 

naotragio do Galeao San Jo3o, e que através 

dos desertos conseguìram chegar a MoQambi- 

qne em 26 de Maio de 1563. Desembarcando 

ao mesmo tempo em Góa, recebeu Camoes a im- 

presflao profonda do miserando naufragio que 

em 1552 soffrera Manoel de Sousa de Sepul- 

veda, na Costa do Natal, morreodo com sua 

mulher a formosissiina Ì>. Leonor de Sfi e 

seuB (ilhos. E' mesmo orivel que ouvisse da 

bocca do guardifio da N&o Alvaro Fernandes a 

narrativa orai, por elle redigida depoiB na 

impressionante Bela^So. Abi em Gda outÌu 

Gamdee a sombrla lenda dos amores de Se- 

pnlveda e de D. Leonor de Sé, que se ligava 

com agouro ao naufragio. Dizìa-se que Luiz 

FalcSo de Sousa, oapitSo de Ormuz, fdra 

morto à espingarda < por mando de Manoel 

de Sousa de Sepulveda, por intentar casar 

«■om Dona Leonor de S&, que era mulher for- 

osa, filha de Garda de Sfi, de quem o Se- 

ilveda andava enamorado, e se casou de- 

)!s, e todos foram a esperar o castigo do 

3UB fi Terra do Natal.> 

A impresaSo produzìda na mente de Ca- 



518 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



moes oonjunctamente com estas mysteriosas 
ooincidencias, depois de ter affrontado as 
tempestades do Cabo da Boa Esperanga, que 
n'esse anno de 1553 foram as mais tremen- 
das, levaram o poeta a dar relèvo oom essa 
catastrophe &s an^eagas do Adamastor; essas 
tres estrophes dos Lusiadas sao inexcediveis 
de tragica belleza pela impressao viva da re- 
cente realidade: 

Outro vira tambem de honrada fama, 
• Liberal, cavalleiro, enamorado, 
E comsigo trarà a formosa dama, 
Que Amor por grào mercé Ihe terà dado. 
Triste ventura e negro fado os chama, 
N*e8te terreno meu, que duro e irado 
Os deixarà de uni crù naufragio vivos 
Para vèrem trabalhos excessivos. 

Verao morrer com fome os filhos caros, 
Em tanto amor gerados e nascidos ; 
Verào os Cafres àsperos e avaros, 
Tirar a linda dama seus vestidos ; 
Os cristalinos membros e preclaros 
A' calma, ao frio, ao àr verao despidos, 
Despois de ter pisada longamente 
Co'os delicados pés a areia ardente. 

E verào mais os olhos, que escaparem 
A tanto mal, a tanta desventura, 
Os dois amantes miseros ficarem 
Na fèrvida e implacabil espessura. 
Alli, depois que as pedras abrandarem 
Com lagrimas de dór, de magoa pura, 
AbraQados as almas soltarào 
Da formosa e miserrima prisào. 

( Lus.f V, est. 46 a 48.) 



A chegada das Nàos do Eeino era sempr 
um motivo de anciedade, pelo receio das C8 
tastrophes. Rodrigues da Silveira, nas M 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 519 

morias de um Soldado da India, (p. 18) 
contrastando com o desdem com que eram 
tratados os soldados recem-vindos, escreve: 
cPorque ver as ancias, os cuidados e afflic- 
^8 com que tanto que chega o mez de 
Agosto se esperam estas Nàos, e o regosijo e 
alvoròQO com que se festejam depois de che- 
gadas, que nao fica sino em egreja que se 
nao quebre. , .» Este regosijo era urna expan- 
sSo superficial, por que os desgragados que 
tinham escapado aos naufragios, ao escor- 
buto, fis infecQdes pestilentes, eram deixados 
ao abandono depois do desembarque. Escreve 
Silveira, nas pittorescas Memorias: « Ghe- 
gam estes pobres soldados — pela maior parte 
desembarcam sem um real de prata para com 
elle comerem aquelle primeiro dia. Depois de 
desembarcados e de receberem uma copiosis- 
sima salva de gritos e appellidos infames, 
nao so dos mòQos e negros, mas tambem dos 
praticos da sua mèsma nagào e patria; aquelle 
que nao leve dinheiro ou cartas para algum 
amigo ou parente, logo aquella primeira noite 
alberga pelos alpendres das egrejas ou den- 
tro de algum navio dos que na ribeira estSo 
varados, com tanta miseria e desventura, 
corno se com gram fortuna os houvera o mar 
lan^ado em algum porto ou terra de inimigos. 
ÀssimL passam o segundo e terceiro dia, em- 
penhando ou vendendo a capa e a espada se 
A levam, até se desenganarem do estylo da 
rra. E vao de quatro em quatro e de seis 
1 seis tomando suas casinhas, d'onde se es- 
3 pasmando e consumindo de pura fome, de 
le muitos vèm a enfermar e morrer. E os 
e sào de tio robusta natureza que podem 



520 H18TOBIA DA LITTERATURA POBTUOUBZA 



superar com saude todos estes oontrastes, 
vSo entretendo o tempo e suas miserìaB come 
melhor podcdn, & sombra das esperangas, que 
08 praticos Ihes dSo da Armada que d'alU a 
doÌ8 ou tres mezes se hade fazer para o Ma- 
labar; étc. » (p. 17.) 

Oamdes conheceu este miserando especta- 
culo da chegada a 66a, e na Elegia in, a 
Dom Antonio de Noronha, depois de Ihe ter 
i^descripto as tempestades do Gabo, refere: 

D'est'arte me chegou minha ventura 

A està desejada e longa terra, 

De lodo pobre honraao sepultura. 

Vi quanta vaidade em nós se encerra 

E nos proprioB quam pouca ; con tra quem 

Fot Ioga necessario termos guerra, 

A Vida de Gda» & medida que o poeta a 
conheoe mais intimamente, foi descripta em 
Sonetos, que sSo comò ferro em braza sobre 
pustulas. Cam5es referindo-se logo a uma en* 
trada em campanha, confirma o que tanto 
condemnava Silveira, por mandarem para a 
guerra os soldados sem que e quando menos se 
refresquem ciuco ou seis dias depois de tio 
larga e prolixa navega^Sp. . .> (Mem. p. 18.) 

E' de presumir que n&o se veria Gam5es em 
Oda tanto ao abandono comò os outros sol- 
dados; se nao trouxe cartas do reino, tinha 
parentes na India ; nas noticias genealogicas 
da familia Severim, descendente de Vasco 
Pires de Gamoes, encontra-se um JoSo de G 
mdes, que serviu na India onde casou, fili 
de Fedro Alves de GamSes, senhor do Mg 
gado de Gam5es de Alemquer, e de D. Lui] 
de Garvaiho. Gonhecel-o-ia do tempo do d'* 



CAMÒBS — EPOOA, VIDA E OBRA 521 

terrò do Ribatejo. Tambem ostava na India a 
este tempo Gonzalo Vaz de Oainoes, filho de 
SimSo de Camoes da Gamara^ que era Gapi- 
tio de DaiD9o; Gaspar Gii Severim, que mor- 
rei! solteiro na India, e Antonio Gii Severim, 
sen irmao, que serviu muitos annos na India 
é se achou no segundo cérco de Diu, e rece- 
bea depois do GardealRei o cargo de Exe- 
eator-mór da Fazenda real, alli conheceriam 
Gam5e8, por que eram contemporaneos. Tam- 
bem Manoel Pegado, casado com D. Ignez de 
Camoes, irmS dos antecédentes, estava na 
India; è Duarte Frade de Farla, egualmente 
casado na familia dos Severins. Qualquer de 
estas familias o teria agasalhado? Pelo me- 
nos na Garta da India, escripta para Lisboa 
na torna viagem de 1554, diz: ^vivo mais 
venerado que os touros da Merceana, e mais 
quieto que a cella de um frade prégador.* 
Gumpre notar que foi da familia dos SeverinS' 
que Luiz de Gamoes recebeu as melhores 
homenagens publicas no seculo xyii, uma ex- 
eellente biographia critica e um retrato gra- 
▼ado. O Vice-Rei D. Affonso de Noronha, que 
bem conhecia a valentia do poeta, levou-o logo 
em fins de Novembro de 1553 & expediglo 
centra o Ghembé. Na Elegia iii, dirigida ao 
sobrinho do Vice-rei, descreve essa primeira 
empreza em que: 

Foi logo necessario termos guerra : 

Urna ilha, qne o Rei de Porca tem, 
E qne o Rei da Pimenta Ihe tomara, 
Fómos tomar-lh'a e succedeu-nos bem, 

Gom uma grossa Armada, que juntara 
Viso-Kei, de Gòa nos partimos 
Gom toda a gente de armas que se achara. 



-^ 



522 RISTORI A DÀ UTTERATURA PORTUGCTBZA 



E com pouco trabalho destruìmos 
A gente no curvo arco exercitada : 
Com morte, com ìncendios os punimos. 

Era a Ilha com aguas, alagada, 

De modo que se andava em almadias, 
Emfim, outra Veneza trasladada. 

N'ella nos detivemos sós dois dias, 

Que foram para alguns os derradeiros. 
Pois passaram da Estyge as ondas frias. 

Que estes sào os remedìos verdadeiros 
Que para a vida estào apparelhados 
Aos que a querem ter por cavalleiros. 

Oh Lavradores, bem aventurados! 
Se conhecessem seu contentamento, 
Como vivem no campo socegados! " 



Depois da rapida descripQ&o do feito guer- 
reiro, transita o poeta para a idealisa^So da 
yida rustica do trabalho pacifico e producti- 
vo, de um desejo de tranquillidade meditativa 
e de harmonia moral, aspira^ao que jà confes- 
sarà na guarnigSo de Ceuta a D. Àntao de 
Noronha nas Outavas I. N'este estado de es- 
pirito amesquinha pois *a sua primeira campa- 
nha, que Diogo do Couto descreveu extensa- 
mente na Decada VI e que durou nao dois 
dias mas quinze. Quando Oamdes chegou a 
6da jà se estava em fervoroso preparativo de 
urna Armada em que iria o proprio Vice-Rei 
Dom Affonso de Noronha castigar um regalo 
que hostilisara os outros régulos alliados ( > 
Portugal, embaragando o commercio da p 
menta. Era o rei do Gbembé ou da Pimenti 
que se apoderara de certas ilhotas do rei d 
Porca, cujo reino constava de algumas alde^ 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 523 



r- 

I de pescadores e de piratas. Que tinha o Vice- 
' Rei com estas pugnas, frequentes entre os 
pequenos regulos de Cananor, Calicut, Tanor, 
Oranganor, Gochìm, Repolim, Ghembé, Porca, 
Coulao e Travancor na costa ao sul de Oda? 
Pela importancia da Armada que partiu em 
fins de Novembro de 1553 de 6òa, periga- 
?ain OS interesses do commercio portuguez e 
da aactoridade real. Os reis de Chembé ou 
da Pimenta, conspiravam sempre desde 1549, 
ligavam*se com o Qamorim de Galicut, que 
com otitros princepes Malabares difficultavam 
08 carregamentos da pimenta, forcando a pro- 
teger com uma Armada os mercadores que 
levavam a Gochim a Armada annual da torna- 
viagem. O pensamento da expedigao ao 
Chembé nao era uma aventura, mas um plano 
decisivo para por termo a essa hostilidade do 
fégnlo, corno succedeu. Gontava a Armada, 
em que se juntaram quantos soldados se en- 
contraram, e em que tambem foi Gamdes sem 
ter repousado da fadiga da tormentosa via- 
gem de seis mezes, de cem navios, galés, ga- 
ledes, galeotas latinas, fustas e caravelias, 
indo o Vice-Rei na nào Reliquias. Por està 
circumstancia lìe ter saido de Gda o Vice-Rei 
é que Diogo do Gouto descreve na Decada VI 
a expedigSo do Ghembé, em que além de 
mnitos capit3es e cavalleiros, iam D. Fernando 
de Menezes, filho do Vice-Rei, Bastiao de Sa, 
D. Alvaro de Noronha, filho do anterior Viso- 
II i Dom Garcia de Noronha, que voltara da 
C pitania de Ormuz, Vasco da Gunha, Dom 
A tfio de Noronha, amigo e companheiro de 
C moes em Geuta, Francisco Barreto, que se 
fi notar pouco tempo depois pela sua austeri- 



524 HISTORIA DA LITTBBATURA PORTU6USZA 

dade corno Governador, Gii de Goes, Manod 
de Mascarenhas, irmao de Dom Fedro de Mas- 
carenhas que ia entrar na sucoessSo da vice- 
realeza, Antonio Moniz Barrato, D. Diogo de 
Athayde e outros mais. 

Ao seguir a Armada a sua ròta, pelag 
costas do Malabar, n'esta primeira campa- 
nha indiana mostrou Camoes a verdade da 
sua divisa : — N'uma mao sempre a espada» 
na outra a penna. Dom Affonso de Noronba 
aportou a Cananor, reoebendo ahi a notieia 
de ter chegado a Cochim a nào Santa Maria 
da Barca, da Armada de 1653, em que vi* 
nham os despachos de segunda via. Honve 
ahi desembarque de alguns cavalleiros é sol- 
dados ; ahi, na capella de San Thiago estava 
a sepultura de D. Henrique de Menezes, glo- 
rioso Vice*Rei da India, que falecera em Ga- 
nanor. E' naturai que fosse essa visita ao tu- 
mulo do heroe, ainda parente do Vice-rei, que 
motivasse aquella paragem. Gam5es compoz 
um Soneto exaitando a memoria de D. Hen- 
rique de Menezes, talvez diante do seu tu- 
mulo, lisonjeando o Vice-rei e seu filho, que 
mezes depois acompanha sob o seu comman- 
do na Armada do Norte. O Soneto di a im- 
pressSo da realidade : 

EsforQO grande, egual ao pensamento, 
Pensamentos em obras divulgados, 
E nào em peito timido encerrados, 
E desfeitos despois em ohuva e vento; 

Animo, de cobi^a baixa ìsento, 

Digno por isso so de altos estados, 
Fero a^oite dos nunca bem dnmadoa 
Povos do Malabar, sanguinolento; 



, C^MÒES — BPOCAy VIDA E OBRA 525 



Gentìleza de membros corporaes, 
Ornados de pudica continencia, 
Obra por certo rara da natura ; 

Estas virtndes e outras muitas mais, 
Dinas todas da homerica eloquencia, 
Jazem debaixo d'està sepultura. 

A emoQSo moral que este Soneto exprime 
é traduzivel na incomparavel melodia de 
Beethoven In questa tomba oscura... O 
poeta alcangava um ascendente moral entre 
08 cavalleiros da expedi^ao, ^ mas feria in- 
eonscientemente o governo da India que se 
afundava na expolia^So desvairada e nas 
fraudes de todo o funccionalismo. Fora em 
D. Henrique de Menezes, septimo Vice-Rei 
da India, que acabara a pleiade d'esses ex- 
traordinarios caracteres que cimentaram o 
Imperio portuguez no Oriente. Largando de 
Gananor, tocou a Armada em Cholé, che- 
gando fi barra da ria de Gochim^ onde com o 
capitSo Joao da Fonseca, se fez conselho 
Bobre a fórma do ataque. Como o rei de 
Ghembé estava bem armado, aconselhou o 
capitao de Gochim que Ihe arrasassem o Pa- 
gode de Baiqueta e destroQassem todos os 
palmares. A Armada tendo ancorado defronte 
de Tecancute, e feito o desembarque com pe- 
quenas galés, corno refere Conto: « comegou a 
assolar e destruir e por a ferro e fogo todas 
aquellas ilhas d'aquella parte, matando e ca- 



^ Escreve Fedro de Mariz, segundo os testemu- 
3 conteoiporaneos : « Mas nella ( India ) foy sempre 
'to estìmado, assi polo valor de sua pessoa na 
'ra, comò pola excellencia do seu engenho.» 



526 HI8T0RIA DA LITTERATURA POBTtJGUEZA 

ptivando muita gente, e depois de n5o haver 
cousa alguma de pé, se tornea a embarcar 
para a Armada.» Assegurada a Victoria, a Ar- 
mada voltou para Cochim, onde se carrega- 
vam as Nàos para o reino; alli chegaram 
depois OS emissarios do rei da Pimenta a pedir 
paz e acceitando todas as condi^Ses. Storck 
fundado em computos de Diogo de Conto, 
concine : « Toda a expedig&o desde a sahida 
de Gda até ao regresso durara entre oito e 
doze semanas, de fins de Novembro a princi- 
pios de Fevereiro.» (Vida, p. 512.) Vé-se por 
tanto que Camoes nSo quiz alardear yalentias 
nos versos em que descreveu a expedi^ao; e 
isto explica-nos porque é que Diogo do Conto 
na Decada VI nào incluiu o seu nome entre 
OS outros guerreiros : elle nao se f azia lem- 
brado, corno OS demais usavam. ^ O filho do 
Vice-Rei, D. Fernando de Menezes teve de 
recolher a Gda mais cedo para preparar a 
Armada do Norte^ que no coméQO do anno de 
1554 tinha de ir fazer o cruzeiro em uma das 
estaQoes contra a pirateria dos Arabes, cu no 
Golfo Persico ou no Estreito do Mar Roxo. 
Era o commando de uma Armada uma dis- 
tincQao que gosavam os filhos dos Vice-Reis, 
comò o declara Diogo do Couto no Soldado 
pratico: «Os filhos dos Viso-Reis tém outra 



^ Sobre estas omissoes de Diogo de Couto, sendo 
alias aniigo de Camoes, escreve D. Francisco Alexan- 
dre Lobo: «um d'aquelles mysterìos que deixam per- 
plexa a critica mais aguda, e em cuja explica^ào me 
parece superfluo consumir tempo e dilìgencia.» (Mem^ 
p. 204.) Couto trabalhava sobre dados officiaes etn- 
formaqòes pessoaes que Ihe forneciam. 



1.» 

Rei 



pa- 
loe- 



ide, 
loDge de lisongearem o Vice-Rei, feriam-no 
inconacientemente, por que o poeta ignorava 
toda a fraudulenta admÌDÌ9tra<;ào de Dom 
* ffonso de NoroDha. Camòes revelou a sua 
xjepcao, quando ouviu e soube vèr o que se 
issava em volta de si. 

A Armada do Norte, que em Fevereiro de 
'>54 tìnha de partir de Gda em expedic^o ao 



J528 HISTORIA DA LITTBBATURA PORTUGUESA 



Estreito de Méca com ordem de ir invernar no 
Golfo Persico para esperar as galèa quo sa- 
hiam de Bassorà em Agosto, era composta 
de seis galedes com 1200 homens, de seis ca- 
rayellas e de vinte e cinco fustas. (Gouto, 
Dee. VI, 1. 10, e. 18.) Em quanto se chama- 
vam 08 soldados, se equipavam a capricho, e 
se provia a Armada de mantimentos para outo 
mezes, demorou-se Camoes n'esse curto pe- 
riodo em Gda, ainda distrahido com o especta- 
culo de tudo quanto o rodeava : 

Vendo naQòes, linguagens e costumes, 
Céos varios, qualidades differentes, 
So por seguir com passos diligentes 
A ti, Fortuna injusta. . . 

Gabe aqui um pequeno quadro da vlda de 
Gda e do seu aspecto, tal corno a vira GamSes, 
e corno nol-a representa o viajante hoUandez 
Linschott com todo o seu realismo descriptivo: 

< A cidade de Gòa é a capital de toda a 
costa da India orientai, onde os Portuguezea 
estancéam. O que torna està cidade afamada 
é a residencia que ahi faz o Vice-Rei em 
nome do rei de Portugal. E' tambem ahi a 
sède do Arcebispo e do Gonselho real, que 
estende a sua auctoridade por quasi todas as 
regioes do Oriente. Ahi se fazem feiras e 
mercados, onde se encontram todas as merca- 
dorias do Levante, e a que concorrem grande 
numero de mercadores da Arabia, Armenia, 
Persia, Gambaia, Bengala, Pegu, Siao, Malaca, 
Java, das Molucas, da Ghina, e de outras para- 
gens, concorrendo ahi tanto para venderem co- 
rno para comprarem. Gda està cercada de um 
rio que corre entre a Ilha e a costa, conservando 



CAMÒBS — EPOCA» VIDA B OBBA 529 

Tuna mesma largura no espago de tres leguas, 

Jue é o que tem de extensao a ilha do lado 
a terra firme; depois torneada para dentro 
do lado septemtrional da cidade; d'ahi por 
mn circuito quasi em fórma de crescente vae 
para o mar do lado do meio-dia. Entro a ilha 
e a terra firme ha algumas outras ilhotas ha- 
bitad&B por naturaes do paiz. Em certos si- 
- tios a agua é tao baixa de uma das costas da 
ilha, que se poderia facilmente passar a v&o, 
no verào, em cujo sitio a ilha està defendida 
por um Forte levantado outr'ora pelos portu- 
gaezes para impedir as correrias dos habì- 
tantes da terra firme, que andavam quasi 
sempre em guerra, tendo Hidalc3o planeado 
estabelecer assedio d'este lado da emboca- 
dura. Do lado septemtrional da ilha é a terra 
de Bardez, cuja altura serve de defeza e de 
protecQao aos Navios portuguezes, que des- 
carregam com mais seguranga. Està terra està 
Bob o dominio dos Portuguezes, contendo 
muìtas aldeias habitadas por aldeaos chama- 
doB Canarina e que sào na maior parte chris- 
tios, andando nào obstante nùs, segundo o 
Bea antigo costume, tendo apenas cobertas as 
partes pudendas. A palmeira da India, que 
dà as nozes de cdco, cresce ahi abundante- 
mente comò nas outras ilhas da embocadura. 
Està ilha de Bardez é separada da terra 
firme por um estreitissimo riacho. Na costa 
r^'^ridional da ilha de Gda vé-se uma outra 
i ota chamada Salsete, que pertence egual- 
I mte aos portuguezes, tambem com habitan- 
t parecidos aos de Bardez e com fructos se- 
1 Ihantes. . . As ditas terras de Bardez e de 
'i '"ete sSo arrendadas em nome de El Rei, 



680 H18TOBIA DA LITTBRATURA PORTUGUXZA 

para as despezas do Aroebispado, dos Ck>ii- 
ventos, do clero, corno do Vice-rei e de ou- 
tros officiaes do Rei, que sfio pagos pela 
renda annual d'estas ilhas por privilegio real. 
Quanto à ìlha de Oda propriamente, 6 multo 
monta nhosa e em alguns sitios tao lamacenta, 
que com difficuldade se póde ir a pé até & 
embocadura da ribeira.— Pela poucafundura 
da ribeira, os navios de cem toneladas sfio 
forgados a descarregarem em Bardez. 

<A cidade é ornada de bellos edificios fi 
moda dos de Portugal, mas nao tfio altos por 
causa dos calores. Detraz das casaB véem-se 
geralmente jardins e vergeis cheios de fruotas 
da India de toda a especie. Tambem os ha 
multo agradaveis, que servem aos portugue- 
zes de passatempo, e onde as indianas se re- 
creiam. E' embellezada de templos e mostei- 
ros de todas as ordens, nem mais nem menos 
que Lisboa. Mas nfio ha nenhum convento de 
freiras, por que é difficilimo submetter os in- 
dios ao jugo da castidade. . .» 

« Os Portuguezes tém ahi as mesmas leis 
e costumes de Portugal, e ahi permaneoem 
misturados com indios, pagaos, mouros, ju- 
deus, armenios, guzerates, banianos, birma- 
nes e outros povos das Indias, que frequen- 
tam e habitam ahi com liberdade da sua reti- 
giào, salvo que Ihes é prohibido queimar 
corpos humanos mortos ou vivos, nem as ce- 
rimonias dos seus casamentos, nem outras 
superstigoes diabolicas . . . 

< A ilha nfio produz quasi nada do od S 
necessario fi vida, sómente ha ahi alg i 
gado, gallinhas, cabras e pombos ; o terre [) 
é deserto, esteril e pedregulhento, improii o 



HMriAMhn 



CAMOE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 531 



para cultura, de sorte que tudo quanto é pre- 
dso para a alimentagSo vem de Salsete e Bar^ 
dez e principalmente da terra firme, 

e Os cereaes, o arroz e outroa grSos e tam- 
bem o azeite e outras cousas necessarias s&o* 
trazidas por mar dos paizes estrangeiros^ 
corno de Gambaia, do Maiabar e outros Ioga- 
rea. O vinho de palma ahi se fabrica, podendo- 
exportar-se com abundancia. Ha em GOa 
pouca agua potavel, e essa so se encontra em 
urna fonte chamada Baganin a um quarto de 
legna da cìdade; todos os habitantes bebem 
d'ella, e là mandam os seus escravos buscal-a 
em talhas de barro, as quaes vendem pela 
ilha. Quanto à agua necessaria para cosinhar 
a carne e para lavar, ha nas casas póQos 
d'onde a tiram. 

«Ha tambem na cidade de Gda encontro 
diario e ajuntamento de habitantes e estran- 
geiros das Indias e outras na<;des visinhas, 
comò na Bolsa de Anvers, mas com alguma 
differenza: nobres e plebeus misturam-se com 
OS mercadores, e todas as cousas ahi se ven- 
dem comò em um mercado ou feira. Este 
ajuntamento diario executa-se todo o anno, 
excepto nos dias de festa, empregando algu- 
mas horas antes da missa . . . Os preg5es das 
cousas que estSo para vender fazem-se na rua 
principal chamada Bua Direita; chama-se-lhe 
LeilSo. Os que ahi concorrem trazem corren- 
f^^ de ouro, perolas, anneis e outras joias, 
I zendo uns ranchos de escravos de um e 
4 kTO sexo que sSo para vender, facilitando a 
< x>lha aos compradores . . . Acham-se ahi 
1 nbem cavallos da Arabia, drogas e espe- 
( rias de toda a sorte, gomma odorifera. 



&32 HISTOBIA DA UTTStUTUfiA PÒRTOO0EZA 



bellas tape<?aria8, e infinitas outras curìosida- 
des de Cambaia, Sinda, Bengala, da China e 
outras partes. Tambem ahi se trazem os ea- 
polios dos f alecidos para serem vendidos oom 
pregSo publico sem distinc^ao de pessda, de 
tal modo, que mesmo que o Vice-rei morresse, 
OS seus bens seriam logo postos em almoeda, 
para que o diretto dos pupillos e das Tiuvaa 
licasse melhor guardado e as dividas se pa- 
^gassem. E o que torna este mercado tao cele- 
bre, porque acontece muitas vezes n'este le- 
gar que muitos pelo vehemente calor e injuria ' 
do àr, assim corno falta de regimen na ali- 
mentagio, ahi sao arrebatados de morte su- 
bita:» (Gap. XXIX, p. 37.) 

A Vida de Camoes em terra pode bem sor 
conhecida pelo que Linschott escreveu dos 
soldados em Gda e que Pyrard repetiu mais 
pittorescamente: «Elles vivem em commum 
muitas vezes aos dez ou doze, na mesma casa, 
tendo um servo commum ou dois para Ibes 
escovar o fato. Entro os moveis do seu apo- 
sento tem ciuco ou seis cadeiras, urna meza e 
um leito, conforme o numero. Sua comida é 
arroz cosido com agua, peixe salgado e ou* 
tras cousas de pouco valor sem pao; sua be- 
bida é agua da fonte. Servem-se de dois cu 
tres fatos em commum, que vestem quando 
sàem, emquanto que os que ficam em casa 
apenas se contentam com a camisa e roupaa 
brancas por causa do calor do dia.> (p. 6^ ) 

«Em relag&o aos privilegios e immuni^ - 
des da cidade, ninguem pode gosal-os se v ) 
fdr casado ou chefe de familia, ou solda ) 
pago, o que é um multo honesto estado. P - 
que estes soldados nao estSo sob comman« , 



GAMÒES — EPOOA, VIDA E OBRA 538 

nem adstrictos por juramento a alguma com- 
panhia; està maneira de arrolar a gente de 
guerra nao 6 usada nas Indias. E quando os 
Portuguezes chegam fis Indias, é-lhes livre ir 
para onde Ihes apraza, sem obrigagSo de se 
fixar em um ponto. Comtudo os seus nomea 
e soldos que devem receber sao apontados 
em Portugal em um Rol que é enviado todos 
OS annos Is Indias com os navios.» 

E' este o aspecto da pobreza em que 
Tiveu Cam5es na India, a que alludem os 
biographos, em contraste com a opulencia dos 
jovens fidalgos privilegiados. A sahida na Ar- 
mada do Norte parecia-lhe um refugio para 
aa calmas e impaludismo de Oda, e é com um 
certo espirito marciai que dirige um Soneto 
ao joven commandante D. Fernando de Me- 
nezes: 

Illustre e digno ramo dos Menezes, 
Aos quaes o previdente e largo Céo 
(Que errar nào sabe) em dote concedeu 
Rompessem os mahometìcos arnezes; 

Desprezando a Fortuna e seus revezes, 
Ide para onde o Fado vos moveu ; 
Erguei flammas no Mar alto Erythreo, 
E sereis nova luz aos Portuguezes. 

Opprimi coni tao firme e forte peitó 
O Pirata insolente, que se espante 
E trema Taprobana e Gedrosia. 

T)ae nova causa à cor do Arabo Estreito, 
Assi, que o Roxò mar, d'aqui em diante 
seja so com sangue de Turquìa. 

(Son. 71.) 

late Soneto fdra escripto antes da partida 
^«"mada, exprimindo ainda os venturosos 



634 HISTOBIA DA UTTEBATURA PORTUOUBZA 



augurios'; é certo qae ]& Oamoes nao estava 
em Gòa, quando se fizeram as apparatosas 
festas pela chegada dos ossos de San Fran- 
cisco Xavier e sua inbuma^So no Collegio de 
San Paulo. D'essas festas falla o P.^ Belchior 
-em urna carta: cdepois de alguns mezes ole- 
varam para Gòa. . . Chegado o corpo a 66a, 
o saliiu a receber toda a cidade até o caes, e 
eom grande solemnidade o pozeram no Col- 
legio de San Paulo, da Companhia de Je^us, 
e deixando os do povo de trabalhar alguns 
dias pela alegria, acudiu tanto numero de 
gente a visitar o corpo, que conveo pela 
quieta^So, Padres e IrmSos tornal-o outra vez 
a meter ao caixSo. . . > ^ NSo escaparia & emo- 
gào de Cam5es este enthusiasmo publico pas- 
sado em 13 de fevereiro de 1564, se elle 
ainda estivesse em Oda; é justa està conclu- 
s3o, que Storck tira da de cn&o existirem 
versos seus em celebra^So do acto solemne.» 
(Vida, p. 524.) Està expedig&o ao Estreito 
de Meca foi ter o seu principal campo de acQao 
no Golfo Persico; d'aqui, o syncretismo de 
uma s6 expediQao em 1554, em que a Jr- 
mada do Norie nao estacionou no Guardafai, 
nSo tendo por isso o poeta a oppressSo de 
um cruzeiro atroz comò aquelle que Ihe inspi* 
rou a assombrosa Can<}ao x: Junto de um 
seco, duro, esteril monte. . . 

O Dr. Storck, nào destacou as duas Expedi- 
Qoes navaes no Estreito de Meca: a quecom^'*- 
teu e estacionou depois no Golfo Persico i 
1554, e aquella que em 1555 se passou na - 



' Mem. e hist, da Academia, t. x, P. n, p. U 



OAMÓES — EPOCA, VIDA E OBRA 535 

ta^io ou cruzeiro do Monte Felix. E' nota- 
vel corno a observa^ao psychologioa leva a 
achar a incongruencia historica e a discrimi- 
nal-as : ' na primeira Expedi^ao està Camoes 
animado do espirito marciai que Ihe inspira 
Soneto a D. Fernando de Menezes, o joven 
commandànte filho do Vice-Rei; na segunda 
Expedi^So mànifesta-se urna profunda deso- 
la^ìo moral sob a calmarla e doengas pesti- 
lenciaes do prolongado cruzeiro, em que toda 
a sua insondavel angustia se expande na in- 
comparavel Oan^ao x. Como se operou està 
alteragao no seu espirito ? As causas d'este 
abaio decisivo deram-se por factos que histo- 
rieamente discrimina m as duas expedi^oes 
navaes. 



B) Ot tfois Cruzeiros na Armada do Morte: no Golfo Pertico (1654) 

e no Estrelto de Meca (1565) 

• 

A situagao em que se achava o Imperio 
portuguez na India, sustentando-se pelas suas 
Armadas, esclarece-se pela acQdo da Ingla- 
terra no meado do secufo xix, luctando ajnda 
com OS mesmos factores. Em um estudo 
Mar Vermelho e o Golfo Persico^ encon- 
tram-se elementos e considera<;5es que fazem 
bem comprehender pelo proceder de Ingla- 
terra a resistencia portugueza : < A necessi- 
dade de reprimir a pirataria tero side um 
nretexto para intervir nos negoeios dos pe- 

snos estados do litoral do mar de Osman; 

Arabes nao se mostravam menos ardentes 
là pilhar OS navios, do que as caravanas. A 

is olhos OS marinheiros bindus sào pagàos, 

navegadores europeus infieis, os navega- 



586 aiSTORIA DA LITTERaTDRA portugueza 

dores persas scismaticos; iato aaaente, os 
Arabes faziam o córso com as suas pezadas 
barcas armadas de doÌ9 canhdes. Os nego- 
ciantes de Benchir e de Bassorà eram arrui- 
nados pelos pìrates, continuando està situa- 
q3o até que os Inglezes. oom os recuraos mo- 
demos da navega^ao a vapor se impòzeram 
de urna fórma definitiva. O que se estava 
passando em 1844 era em tudo semelhante 
ao que os portuguezes affrontavam no secalo 
XVI, tendo contra si as monQóes que Ihes fé- 
chavam os Estreitos; occupavam os mesmos 
pontos estrategicos. Lé-se no ref erido estudo: 
< A Inglaterra que monopolisa o commercio 
do mundo, tem sempre na lembran^a que ha 
duas vias pelas quaes a Europa communica 
de urna maneira mais directa com as Indias: 
o Mar Vermelho e o Golfo Persico : ella sabe 
que por està dupla via o Occidente recebia 
outr'ora os productos do Oriente. Importa 
mais a està nagao do que a todas as outras 
reunidas o tornar praticaveis e seguras estas 
paragens, que se descuravam desde a deca- 
dencia do commercio veneziano e os Desco- 
brimentos dos Portuguezes.» ^ Eram justa- 
mente estes dois pontos que os Vice-Reis da 
India occupavam annualmente por um Gru- 
zeiro de outo mezes pela Armcuia do Norie, 
Linschott falla da forma<;So d'està Armada, 
com particularidades que illuminam para nós 
hoje a Vida de Camóes. 

4^Na entrada do verSo, quando a neci 



* O Mar Vsrmelho e o Golfo Persico. Revue à 
Revues, t. ii, 1844. 



CAMÒBS — BPOOA, VIDA E OBRA 537 

1 : , 

BÌdade impoe que se equipe a Frola para 
libertar o mar dos piratas malabares, escu- 
Hiadores do mar e grandes inimigos dos Por- 
tnguezes, pouco mais ou menos pelo mez de 
Septembro publica-se o embarque ao som de 
tambor* a firn dos que desejam ir para o mar 
venhara receber a sua paga. E entào o Visp- 
Rei estabelece um Genepal, abaixo do qual 
eetSo todos os outros chefes e capitSes parti- 
colares tendo o Gommando das galés e fraga- 
tas, tripuladas por cem homens aquellas, e 
estas por trinta. Todos estes reoebem os seus 
soldoB aos trimestres conforme a matricula e 
grfio do seu officio. O simples soldado recebe 
sete pardfios, que valem tres tostoes, moeda 
de Portugal. — Està Armada estaciona no 
mar e espia os Piratas até ao mez de Abril, 
impedindo que exer^am alguma hostilidade. 
No fim de Abrii recolhe a Gda, por que entao 
cometa o inverno n'estas paragens. Acabada 
està yiagem, os soldados recebem a sua baixa 
e podem retirar-se para onde quizerem, e nao 
recebem mais paga do rei.» (p. 69.) No livro 
da Fazenda da India encontra-se nota do 
mantimento que competia por mez a estas 
Armadas, com as ra^Ses de cada soldado; ' 
estes factos apparentemente sem interesse re- 
▼elam-nos o tratamento a que resistiu Ca- 



^ Bìscouto, 1 arratel por dia; carne, o mesmo;: 
rz, 2 medidas a cada pessoa; manteiga. 1 canada 
roez; azeite, 1 quartiiho por mez; assucar, 1 arra- 
id ; YÌnagre, 1 qaanilho id ; litòes, 16 peQas id. ; 
e serra, 1 por mez id.; 1 Vaca (de Gòa) 5 arrobas. 
eie crnzado a cada pessoa : por mez para conducto 
^"^se-lbe 8Ó biscouto. 



538 H18T0RIA DA UTTBRATURA POBTUQUBZÀ 

moes. N8o 6 menos curiosa a maneira corno 
86 equipavam as Àrmadas, dando-nos ao Wvo 
o meio em que o poeta gastou os cinco annos 
de serviQo militar a que estava obrìgado. 

Nas Memorias de um Soldado da India 
descreve Silveira corno se apparelhavam as 
Armadas: «Chegado o tempo de fazer Ar- 
mada, a que precedem sempre muitos avisos 
que cada dia ora de urna parte ora de outra 
vem de navios de Gorsarios que sSo sahidos 
e de muitos damnos que tdm f cito ; nomèa o 
Viso-Rei ao GapìtSo-mór. . • com a somma de 
^alés e navios, e assim os demais capit3es, 
dando- Ihes copia de soldados que se devem 
embarcar; que sSo de ordinario a trinta por 
navio e sessenta por gale. . . 

« Depois de publicados os capitSes da Ar- 
mada, emquanto se fornece de bastimentos, 
munìQoes e de cbusma, a qual multa vez se 
faz de negros tomados aos seus donos pelas 
ruas com grandes for<;as e extors5es, prece- 
dendo outro numero de desordens... tém 
cuidado nossos GapitSes (que sempre sSofi- 
dalgos, e alguns sem ponta de barba, chega- 
dos aquelle mesmo anno de Portugal) de 
adquirir para seus navios aquelles soldados 
que mais bem vestidos e galantes encontram 
pelas ruasy procurando logo saber-ihes as 
pousadas onde os vio obrigar com suas visi* 
tas e promessas e dadivas.» Està classe con- 
stava, comò escreve Sjlveira, cna maior pp*'t6 
d'estas de adulteros, matsins, alcoviteii s, 
ladròes de noite, homens que acutilam e i i- 
tam por dinheiro, e outros de semelba te 
raga.» (p. 20.) 

< Gomo nossos GapitSes tém o numero e 



GAMÒB8 — BPOGA, VIDA E OBRA 589 



«oldados ( uè cada um deve levar, se tooam 
08 atambc es, e se vao chegando aos paQOs 
do Viso Rei, onde se faz o pagamento, e se 
d& a cada soldado a quarta parte do que em 
cida um anno tem de soldo, conforme & 
usanza de Portugal e ao assento que se Ihe 
fez em Lisboa na Casa da India; revol- 
▼endo, primeiro que se Ihe meta na mao o di- 
nheiro, muito maior copia de Lìvros do que 
tem um famoso jurisconsulto. 

cRecebida està paga (a que os portugue- 
zes chamamos quartel) que no goral serào 
dez xerafins, e valerSo pouco menos de tres 
mil rais; lauQa-se o pregSo pela cidade pelo 
qual se manda embarcar, limitando o'idia e a 
bora precisamente; e se embarcam todos, 
cada um com as armas que póde ou quer le- 
var. O que tem.vestido e camisas bastante 
para outo mezes, que de ordinario se anda 
na Annada, compra com os dez xerafins de 
sua paga uma espingarda, e o que h3o tem 
vestido e camisas compra aquelle até onde 
pode abranger o dinheiro, e leva uma espada 
e rodala: outros levam cada um sua ala- 
barda; e alguns pretendem andar nas galés e 
nos navios bem ataviados. e sahir em os por- 
tos ou terra de paz mui vestidos e galantes, 
ainda que nao tenham com que pelejar ao 
tempo de menear as armas. Outros ha que, 
ainda que possam levar espingarda, por fidai- 
— ia e doQura querem antes uma rodella e 
aa espada curta de bom córte com uma 
arnigSo prateada. Gpm osta soldadesca, 
im apercebida e armàda à eleigào de cada 
I sàem as Armadas de Oda, indo cada na- 
avolumado. de caixas, canastras, tarros, 



540 HISTORIA DA LITTBBATUBA PORTOGDBZA 



jarras, barris e oheio de mÓQos e negros...» 
(p. 21.) 

Seguir a marcha da Armada do Norte 
commandada pelo joven D. Fernando de Me- 
nezes, que se dirigiu de 6oa para o Estreito 
de Meca ou costas do Mar Vermelho, é tornar 
conhecimento da vida aventurosa d'està em- 
preza contra os piratas malabares, em que 
combatera Gamoes. A derrota seguiu para a 
costa da Arabia, pairando junto do Monte 
Felix, o Bar-ef-Fil, esperando as néos de 
Achem, Malaca e Gambaia carregadas de ri- 
cas mercadorias : ouro, cobre, pedras predo- 
sas, betel, enxofre, benjoim, camphora e pi- 
menta. Pelas fustas que foram fi explorat^o 
do Estreito, soube-se que no porto de Meca 
estavam algumas galeotas, e por se entrar 
em Abril no periodo da invernia trataram de 
irem estacionar a Ormuz, cujo Estreito com- 
munica o mar da Arabia com o Golfo Persico, 
onde existe o principal centro de commercio 
em Bassorfi. Navegando para leste sem en- 
contrarem corsarios, quasi a meio da costa 
perto de Dof ar foram atacar os Fartaquìns, com 
grandissimo perigo no desembarque dos ba- 
teis, saltando os soldados ao mar e avan- 
zando com fuzilaria contra os E^artaquins que 
resistiram em numero de trezentos em caval- 
los e elephantes. Gomo pela grande resaca a 
artelheria, nào pòde ser desembarcada, aban- 
donando-se o plano de assalto fi fortaler*' 
embarcaram outra vez, costeando a Arab 
Felix, passaram o cabo de Rosalgate e fora 
dar fundo a Mascate, centro de commerc 
importante na ponta avangada da Arabia (' 
lado da India e fi entrada do Golfo Persio 




OAMdES — BPOGA^ VIDA E OBRA 541 

Aqui encontraram Bernardim de Sousa, com 
ordem de entregar o galeSo em que viera a 
D. Ant3o de Noronha, passando a gente dos 
navios de alto bordo para a Armada de Dom 
Fernando de Menezes, que a entregou a Ma- 
noel de Vasconcellos, indo o filho do Vice-rei 
eom Bernaldim de Sousa para Ormuz. Cbe- 
gou a Ormuz a noticia de que o corsario Ale- 
Gheloby sahira com quinze galés de Basso- 
rà, com tengao de passar para Suez. Bas- 
sera, a dois kilometros da margem direita 
cu Occidental da reuniSo do Tigre e Euphra- 
tes, era o primeiro centro do commercio da 
Asia mussulmana, mas insaluberrima pelos 
pantanos que a circumdam. Nos mezes de 
Septembro, Outubro e Novembro os mercado- 
res do Golfo Persico, India, Mascate, Bender- 
Buchir, e outros de Bagdad, ali trocavam os 
seus productos por tamaras e cereaes. D. Fer- 
nando de Menezes, com o audacioso D. Antao 
de Noronha, seu primo, planearam fechar Ale- 
Cheloby no golfo de Bassorfi, nSo o deixando 
refugiar-se no Golfo Persico; tendo-se esca- 
padOy foi outra vez visto a doze leguas de 
Mascate, tomando-lhe seis galés com riquis- 
sima carga, com cincoenta peQas de bronze, 
e arrojando ao mar a guarnigSo. Em Mas- 
cate mandou D. Fernando de Menezes curar 
OS portuguezes feridos, e benzidas as seis 
galés repartiu-as pelos fidalgos e capitaes. 
^'ssta audaciosa aventura achou-se Gam5es, 
18 nSo foi contemplado com a preza nem o 
i nome figurou nas chronicas. Estavase 
20 de Septembro de 1554, e em princi- 
6 de Outubro dirigiu-se a Armada trium- 
inte para Gda, onde aportou gloriosa em 
"'Hpios de Novembro. 



542 H18TOB1A DA LITTERATTTRA PORTUGUBZA 



No8 versos de Camoes, encontra-se um 
Soneto, da sua eeta^ào de Bassorfi, cidade 
edificada sobre a margem ocddental do Ea- 
phrates ; ahi jà apparenta um estado de alma 
desalentada, comèdo de uma crise nostalgica» 
de que semente o poderfi salvar uma ideia 
feounda que Ihe resti tua a energia moral: 

Na ribeira do Euphrates assentado, 
Discorrendo me achei pela memoria 
Aquelle breve bem, aquella gloria 
Que em ti, doce*Siào, tinha passado. 

Da causa de meus males pergnntado 
Me foi : — Como nSo cantas a historia 
Do teu passado bem, e da Victoria 
Que sempre de teu mal has alcangado. .. 

Nao sabeSy que a quem canta se Ihe esquece 
O mal, ainda que grave e rigoroso? 
Canta» pois, e nao chores d'essa sorte. — 

Respondi com suspiros : — Quando crece 
A roinha saudade, o piedoso 
Remedio é nao cantar senao a morte. 

Nào era uma allegoria biblica o quadro 
d'este bello Soneto; effectivamente sobre a 
margem occidental do Euphrates, em Basso- 
rà, ahi o seu antigo amigo e confidente de 
Geuta, D. Ant9o de Noronha lembra-lhe a 
historia do passado bem^ e incita-o a de- 
sabafar no seu intenso lyrismo. A' ohegada a 
Gda, Camoes ia encontrar "grandes mudan^aa, 
e dolorosas noticias trazidas do reino, ba néo 
que conduzira o novo Vice-rei D. Fedro > 
Mascarenhas, que jà estava exercendo o 
verno. 

A Nào Santa Cruz, commandada por E 
chior de Sousa, que partirà na Armada > 



GAJfdES — EPOCA, VIDA B OBRA 543 

1653 (em que seguìu Camdes) tendo arribado a 
Lisboa, onde invernou, largou para Oda em 
fina de MarQO de 1554 corno capitanìa, levando 
Vice- Rei D. Fedro de Mascàrenhas, e ali dea 
fondo em 26 de Septembro. A vinda d'aquelle 
velho embaixador de quem Carlos v fdra 
multo amigo, era uma violencia contra a sua 
edade; era necessario mandar um homem 
austèro para sustar as depradagoes da fa- 
zenda publica que faziam os Vice-Reis desde 
Martim Affonso de Sousa até D. Affonso de 
Noronha. O Infante D. Luiz Ihe impoz esse 
sacrificio. Com à chegada sinistra do Vice-rei, 
chegaram tambem as tristes novas de que fa- 
lecera permaturamente o Princepe Dom Joào 
em 2 de Janeiro de 1554, que nascerà pos- 
thumo Dom Sebastiào, a debii vergontea dy- 
nastica, em 20 de Janeiro d'esse mesmo anno. 
N'osta viagem chegara tambem do reino o 
seu saudoso amigo e poeta, companheiro dos 
dias alegres da córte, JoSo Lopes Leitfio ; ^ 
este Ihe contarla o impressionante desastre 
em 18 de Abril de 1553, proximo de Geuta, 
em que morreu em uma surpreza dos arabes 
com todos OS cavalleiros que o acompanha- 
vam, o querido e intimo confidente D. Anto- 
nio de Noronha; tambem Ihe narra o soffri- 
mento de D. Catharina de Athayde, conser- 
vando- se solteira, nSo provando os domesticos 
venenoSy e retrahida em uma tristeza muda 
niie nem a boa vontade da Rainha podia con- 
ar. Concentrando-se n'estas impress5es, a 
3 se associavam recordagoes de alegria e 
esperan^a, CamSes escreveu uma bella 



Ck>uto, Decada vii, 1, 3. 



n 



544 HI8T0RIA DA LITTSRATUBA PORTUQUBSA 



Egloga celebrando a morte dos dois justado- 
res do Torneio de Xabregas, o Princepe Dom 
Jo9o e D. Antonio de Noronha, e liga ao nas- 
cimento de D. Sebastiào a aspirarlo do ideal 
de um Imperio africano. A' morte de D. An- 
tonio de Noronba consagrou um sentido So- 
neto, em que Ihe dea a immortalidade : 

Em fior V08 arrancou, de entao crecida, 
Ah. senhor Doni Antonio ! a dura sorte, 
D'onde fazendo andava o braQO forte 
A fama dos antiguos esquecida. 

Unia 8Ó rasào tenho conhecida 

(yom que tamanha magoa se conforte: 
Que se no mundo bavia honrada morte, 
Nào podieìs vós ter mais lar^a vida. 

Se meus bumildes versos podem tanto 
Que co'o desejo meu se eguale a arte, 
Especial materia me sereis ; 

E celebrando era triste e longo canto, 
Se niorrestes nas màos do fero Marte, 
Na memoria das gentes vivereis. 

(Son. XV.) 

E ainda vive. Por este tempo escreveu Ga- 
moes urna Carta, que veiu para Lieboa nas 
nàos de torna-viagem por Janeiro de 1565; 
ahi allude a estes tragicos succeRsos: «Por 
agora nào mais, senSo que este Soneto que 
aqui vae, que fiz 6. morte de D. Antonio de 
Noronba, vos mando em sinal de quanto 
d'ella me pesou. Uma Egloga fiz sobre a 
mesma materia, a qual tambem trata algu 
cousa da morte do Princepe, ^ que me par 



•MA 



^ Na Elegia de D. Francisco de Sa de Menezc 
morte do Princepe D. Joao, allude-se ao apagame 
d'aquelle fervor litterario que se ia manifestando e' 
08 poetas: 



OAMÒBB — EPOCA, VIDA E OBRA 545 



melhor qae quantas fiz. Tambem vol-a man- 
dara para mostrardes là a Miguel Dias, que 
pela maita amisade de D. Antonio folgaria de 
a ySr ; mas a oceupagào de escrever muitas 
Gartas para o reino, me nSo deu logar. Tam- 
bem là escrevo a Luiz de Lemos * em re- 
gposta de outra que vi sua ; se Ih'a nSo de- 
rem, saiba que é culpa da viagem, na qual 
tttdo se perde.» Fixada a epoca em que està 
Carta foi escripta, por Janeiro de 1555, n'ella 
se ve reflectido o estado moral em que se 
aehava Camoes em Oda, depois da chegada 
da Armada do Norte do cruzeiro do Golfo 
Persico. O poeta conhece j& perfeitamente o 
meio dissoluto em que vive e que detesta, 
n'essa babylonioa e doentia Oòa: cEmfim, 
senhor, eu nSo sei com que me pague saber 
tao bem fugir a quantos Isqos n'essa terra me 
armavam os acontedmentos, corno com me 
vir a està, onde vivo mala venerado que os 
touros de Merceana, e mais quieto que a cella 
de um frade prégador. Da terra vos sei di- 



As festas dos Pastores d'està terra 
Gobertas eatao jà de eaquecimento; 
Nào sei a branca lua oDde se encerra, 

Qoe depois que mingaou, nào cresceu mais, 
Nem parece erva verde em toda a terra, 
Aborrecem-me os \ ersos Daturaes. 
A Sanlonha estrangeira . . . 

fCanc. d*Evora,p. 58. Ed. BaraU.) 

Na Historia da Universidade de Coimbra, t. i, 
p. j8, vem oitado um Ialìz de Lemos naturai de Fron- 
te! I, philosopho e doutor em Medicina, que ensinou 
en Salamanca na sua mocidade. A amisade de Camoes 
é ] -'' o sea titQlo de immortalidade. 



546 HISTORIA DA LITTERATURA FORTUGUEZA 

zer^ que é màe de viloes mine e madrasta 
de homens honrados. Porque os que se ed 
langam a buscar dinheiro, sempre se susten- 
tam sabre agua corno bexigas; mas os quo 
sua opini&o deità 

À laa armas, Moarisoote, ^ 

corno mare corpos mortos 6. praia, sabei qae 
antes que amadure<;am se secam. Jà estes quo 
tomavam està opinifio de valentes fis oostas, 
créde que nunca 

Riberas de Daero arriba 
cavalgaron Zamoranos, 
que roncas de tal soberbia 
entre si fuesen bablando; 

e quando vém ao effeito da obra, salvam-se 
com dizer, que nSo podem fazer tamanhas 
duas cousas, comò é prometter e dar. Infor- 
mado d'isto veiu a està terra JoSo Toscano, 
que, corno se achasse em algum magusto de 
rufioes, verdadeiramente que ali era 

Su corner las carnea crudas, 
su beber la viva saDgre. 



^ Romance do seculo xvi, hoje completamente 
desconhecido. D'elle escreve Amador de los Kio8:«0 
romance do Moriscote^ nào se encontra effectivamente 
nas collecQÒes ; foi porém tao popular em prìncipios do 
seculo XVI, que quasi todos os compositores de musica 
de vikusla o citam entre os outros romances velhos e 
passa-calles, que appresentam comò modelloa ; mas so 
copiam OS quatro primeìros versos, suppondo indabl- 
tavelmente que os cantores de romances e aff ei^ados 
sabiam a continuagào. Os versos apenas referidoSr °^o: 

A' las armas, Moriscote, 
si las has en voluntade; 
y se acercan los francezes, 
los que en romena vane.» 

( HisL de la Litterai, esp,^ 1 11. p. ^) 



CAMÓEd — SPÓOÀ, VIDA È ÒBRA S4f 

«Callisto de Sequeira se veiu cà mais hu- 
manamente, por que assi o prometteu em urna 
tormenta grande em que se viu. Mas um Ma-^ 
noel SerrSOy que, sicut et nos, manqueja (i€t 
mn olho, se tem cfi provado arresoadameD^d^ 
porque fui tornado por juiz de certas pala- 
▼ras, de que elle fez desdizer a um soldado,« 
qual, pela postura de sua pessoa era e& tido» 
em boa conta.» 

Estes traQos pittorescos da Carta, esclare*- 
cem-se com as descripQoes realistas de Lins- 
chott, Francisco Rodrigues da Silveira e de 
Pyrard. Eis o quadro da vida dos soldados 
em terra, corno . refere Pyrard ; «juntam-seem 
numero de nove ou dez mais ou menos e to- 
mam um aposento, que là sSo mui baratos . . • 
Mobilam estes aposentos de leitos, mezas e- 
outros utensilios, e tém um escravo ou dois 
para todos. De ordinario moram em casas ter* 
reas por causa do grande calor. Estes solda* 
dos vivem pela maior parte mesquinhamente^ 
ao menos aquelles que nSo t3m alguma traga. 
Em todo o dia estSo na sala, ou & porta as- 
sentados em cadeiras, & sombra e & fresca em 
camisa e ceroulas, e alli canta m e tocam gui- 
tarra ou outro instrumento. — Sao muito 
cortezes com quem passa pela rua e de mui 
boa vontade offerecem a casa para que pos- 
sam entrar os que passam, sentar-se, galho- 
far e praticar com elles. Nunca sàem todos 
juntos pela cidade, mas aos dois e aos tres 
q indo muito, por que fis vezes n&o tém mais 
<j tres ou quatro vestidos para servir a dez 
a doze.» Isto explica o sentido gracìoso 
i )8a redondilha de Camoes A um fidalgo 
q ' Ihe tardava com uma camisa galante, 



' 



548 HldTÒBlA tA LiTTBttATtJRA POBTtTOUBZA 

que Ihe prometterà f na India.^ Prosegue Py- 
rard : < È todavìa, quem os vir marchar pela 
cidade dirà, que sSo senhores de dez ou doze 
mil libras de renda, por que v3o cheìos de 
gravidade, e levam junto de si utn eseravo^ 
um homem que Ihes segura um grande aom- 
breiro ou guarda-sol.» Chamava-se a aste es- 
tera vo hoi; d'aqui a Qonfus&o coni o Jdo desi- 
gnando o escravo de Gamdes, tSo idealisado 
Sem a comprehensSo hìstoriea. Escreve ainda 
I^yrard : e Andam os soldados de que falla- 
inos, vestidos de seda o mais soberbamente 
que se pode ìmaginar, mas logo que chegam 
6s pousadas promptamente largam os vesti- 
dos, e OS passam a outros, se querem sair a 
seu turno. Vagueam de noite pela oidade, e 
por via d'elles corre-se muito risco de andar 
pela rua depois das outo ou nove horas, ape- 
sar de fazerem rondar os meirinhos com sena 
homens, por que aquelles soldados sào muito 
valentes.» N'este firn do anno de 1564, viu-se 
CamSes envolvido entre esses valent5es, queo 
tomaram por juiz das suas pendencias, taes 
corno Manoel SerrSo e Callisto de Sequ^ra ^ 



i Camillo, nas Notas biographicaSy p. 40, escreve: 
« Era aste Manoel SerrSo um ricado de Ba^aiin, senbor 
de quatro aldeias. . .» E abona-se com este trecho das 
Memorias de um soldado da India : « Dentro ein 6òi 
se cortam braQos e pernas e se lan^am narizes e qoei- 
xadas em baixo cada dia e cada bora, e nao ha jar^^ 
que sobre o caso fa^a Higuma diligencia : dando poi t- 
zào que o nào permitte a India, por que cada qual ^ 
tende satiafazer-se por suas maos de quem o tm 
aggravado.» De Calisto de Sequeira, o Malato, Ut 
Diogo do Conto, corno grande espingardeiro. ( Str 'k, 
Vida, p. 498, nota 2.) 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 549 

Depoìs dos guapos, seguia-se a rovista 
das damas da terra, quo eram quasi todas de 
muita edade e incapazes de perceberem um 
coDceito amoroso tirado de Petrarcha ou de 
Boscan, failavam um portuguez mascavado 
de termos aaiaticos. com urna deturpag^o dia- 
lectal de fórmas corno se pode ainda hoje lèr 
noe Eyangelhos traduzidos em portuguez de 
Geyl&o : «Se das damas da terra quereis novas, 
as quaes sSo obrigatorias a urna carta, corno 
marinheiros & festa de S. Frei Pero GoiiQal- 
▼es, sabei que as portuguezas todas cdem de 
tnaduras, que nio ha cabo que Ihe tenha os 
pontos^ se Ihe quizerem langar pedalo. Pois 
as que a terra d£, além de serem de rala^ 
fazei-me mercé que Ihe falleis alguns amores 
de Petrarcha ou de Bosc9o; respondem-vos 
urna linguagem meada de ervilhaea, que 
trava na garganta do entendimento, a qual 
▼08 lauQa agua na fervura, na mdr quentura 
do mundo.» E contrapunha a està crùa reali- 
dade as lembranQas das venturas de Lisboa : 
«Ora julgae, senhor, o que sentirà um esto- 
lùago costumado a resistir às falsidades de 
um rostinho de tauxia, de uma dama lisbo- 
nenaei que chia comò um pucarinho novo 
oom agua, vendo-se agora entre està carne de 
sale» que nenhum amor dà de si.» Està com- 
parai^o do pucarinho novo ainda apparece 
em um despìque de conversados, da tradiQao 
popolar de Coimbra : 

Por um pucarinho novo 

E rodeado de flores, 

Quem me fora tao ditosa 

Que desse agua aos meus amores. 

( Cane, popular, p. 143.) 



550 HI8TORIA DA UTTBRATORA PORTUGUBZA 



D'aquellas damas idealisadas por Gamdes 
disse D. Francisco Manoel de Mello, tambem 
do mesmo temperamento amoroso e egual- 
mente desgra^ado: 

Um fallar com tanto geito, 
Uni ditìnho de repente, 

Que affeigòa ; 
TJm ter em tudo respeito, 
Ai» Deus me mate co'a gente 

De Lisboa. 

Linschott e Pyrard d&o-nos retratos das 
mulheres de Gòa, justificando a impressSo de 
Camòes : < Às mulheres dos portuguezes mes- 
tìQas ou christSs nas Indias, quasi que nSo 
sào vistas, sendo a maior parte do tempo re- 
ciusas em casa, sem sahirem senao à egreja 
ou a alguma visita, bem que raramente e nSo 
sem serem muito bem guardadas, sendo leva- 
das em palanquins cobertos com uma colcha 
ou outra cobertura.» Pelo seu lado Pyrard 
accentua : « A occupagào das mulheres nSo é 
outra durante todo o dia, mais que cantar e 
tanger instrumentos, e algumas vezes, raras, 
se visitam. Mas, ainda que em 6da as mu- 
lheres sejam muito impudicas, e que o clima 
e OS alimentos da terra as favoregam, todavia 
nem là nem nas outras cidades portuguezas 
ba alcouce publico. . . O mais ordinario passa- 
tempo das mulheres é estar todos os dias is 
janellas, e s3o mui bellas, grandes e espaco- 
sas em fórma de galerias e sacadas, com > 
losìas e rótulas mui lindamente pintadas, e 
modo que ellas podem vèr sem ser visti > 
Camoes synthetisou a vida de Gòa em n 
Soneto de um tremendo realismo: 




OAlfÒES — EPOOA, VIDA E OBRA 551 



Gà n'esta Babylonia, d'onde mana 
Materia a quanto mal o mundo cria, 
Gà d'onde o puro Amor nao tem valia, 
Que a Mae, que manda mais, tudo profana; 

Gay d'onde o mal se afina, o bem se dana, 
E pode mais que a honra a tyrannìa ; 
Gà, d'onde a errada e cega Monarchia 
Guida que um nome vao a Deus engana; 

Gè, n'este labyrinto onde a Nobreza, 
O Valor, o Saber pedindo vao 
A's portas da Gobi^a e da Vileza ; 

Gà, n'este escuró càos de confusào, 

Gumprindo o curso estou da natureza ; 
Ve se me psquecerei de ti, Siao ! 

(Son. cxGiv.) 

Gontra o governo dos dois ulimos Vice- 
rei8 correu n'este anno de 1554 urna Satira 
pungente, moldada sobre a fórma das coplas 
de Jorge Manrique universalmente conhecì- 
das pelo primeiro verso: Recuerd el alma 
dormidai que eram entao muito da paix3o 
de D. Jo&o III. ^ Pode-se fixar a data d'està 
parodia satirica; tendo a Nào Boa Ventura, 



^ ^ No Ms. Memorias dos Ditos e Sentengas, fi. 40, 
le-se: ^O Gonde de Vimioso pedindo-lhe El rei que 
Ihe tornasse bum creado por mÓQO da camara, gabou- 
Ihe de gentil bomem, musico, discreto, e sobretudo 
muito lido; e Eirei, porque o Conde se nào desobri- 
gasse por ally do agradecimento, disse-lhe que folgava 
de ver; e o Conde trazendo-lh'o, perguntou El Rey 
iiancebo após outras cousas: — Se sabia de cor as 
vas de Dom Jorge Manrique, que comegam : Re- 
cete el alma dormida ? elle respondeu-lhe que nào ; 
e-lhe El Rey: — Pois nào sabeis nada ; mas, eu vos 
ito por meu, pois m'o pede o Conde. * ( Ms. n."* 1 126, 
''orre do Tombo.) 



552 HISTOMIA DA UTTERATUEA PORTU6UBZA 



da Armada que trouxe o Vioe-Rei D. Fedro 
deMascarenhas, naufragado à cbegada: cPer- 
deu-se na costa de 60a a 18 de Septembro 
de 1554,» ^ a oste facto alludem as ooplas: 

Ved con quan poco amor 
lo8 nabios mal tratamos, 

que tenemos! 
Las gaìeras^ és dolor, 
primero que kts varamos 

laa perdemos. 

D'ellas, por su edad, 

mas que cosas desastradas 

que acaecen, 
otras por floxedad 
nuevas quillas y costados 

apodrecen. 

Decidme la hermosura 
de la Armada que a Suee 

bien llegara; 
no mìreis quan sin ventura 
sin llegar a la veliez 

qual se para. 

Pues la sangre de los Godos 
nos rije con su flaqueza 

envìlecida, 
por quales vias e modos 
sera nuestra fortaleza 

conocida. 

Elogiando-se ahi o ultimo grande Viceré! 
D. Henrique de Menezes, a Satira feria fondo 
OS ultìmos governoB dos Noronhas, * cujas 
deprada^es obrigaram o rei à nomea^So do 
austero D. Fedro de Mascarenhas: 



^ Fìgueiredo Falcao, Indice de loda a Faten i, 
p. 165. 

* Nas Mem, de Liti., t. v, p. 361, citam-se: Trù 9 
a D. Garda, Viso-Rei da Indica pela» de D» Jc 
Manrique, Em hespanhoL 



OAHÒEB — BPOOA, VIDA E OBRA 558 



Està India es camifio 
da triste vida cansada 

y de pesar ; 
el qne viene, es desatino 
no baga otra jornada 

sin parar. 

Partimos donde nascemos, 
andamos siempre y servimos 

y gastamos 
la Vida y quanto tenemos, 
y se con razon pedimos 

no alcan^amos. 

Todo lo hemos perder, 
lo por ganar y ganado, 

qne es peor ; 
y a nuestro parecer 
el menor hecho passado 

fue mejor. 

Y pues vemos lo presente 
de tirano mal regido 

y gobernado; 
JQzgaremos sabia mente 
no ser el Rey bien servido, 

mas robado. 



I 



Estaria D. Fedro de Mascarenhas & altura 
da missSo reorganisadora que Ihe era con- 
fiada ? Tinha centra ai a sua edade avanQada e 
ama vìda chela de serviQos. Os Jesuitas, que 
tttendiam o seu dominio na India portugueza, 
lembraram-se que fora D. Fedro de Mascare- 
nhas em 1542» entfio embaixador em Roma, 
one reeommendara a D. JoSo in a nova Gom- 
I ihia de Jesus, ^ que elle a introduzira em 

tugal; em urna carta do F.« Belchior Gar- 
) *o, lé-se: € Estando em Lampacau, me fo- 

' cartas dos Fadres da India, em que me 






654 HI8TOB1A DA LlTTERATUBA PORTUGUEZA 

escreviam, que era necessario tornar-me o 
mais cedo que pudesse para a India, por que 
viera o Vice Rei Dom Fedro de Maseare- 
nhtxsy tao zeloso da hpnra de Deus^ e tambem 
verdadeiro amigo dà Companhia, com que 
todo o serviQo de Deus se podesse aea- 
bar . . . » ^ Diogo do Conto, no Soldado pra- 
ticoj tambem o retrata : < o mais sisudo Viso- 
Rei que nunca foi à India, que foi D. Fedro 
de Mascarenhas; tanto que chegou e se via 
perseguido de requerimentos de Religiosos e 
de Prelados, que Ihe traziam mais peti^Ses 
que o Secretano; corno os teve juntos todos, 
fez-lhe urna fallasinha, da qual era substan- 
eia, que o encommendassem a Deus em suas 
oraQoes, e Ihe deixassem servir o cargo, de 
que havia de dar contas a Deus e a seu Bey; 
e que Ihe nào appresentassem peti<^es, nem 
Ihe fallassem em negocios, nem em confirma- 
Q5es de cargos, nem provimento de ontros; 
que sómente requeressem o necessario para o 
provimento de suas cousas e obras, por que 
o faria de muito boa vontade; e o mais pro- 
mettia nSo fazer, nem Ihes dar para isso en- 
trada em sua casa.» {Op. eit.y p. 22^ Ainte- 
gridade de D. Fedro de Mascarenhas revelar- 
Ihe-ia agora a avidez dos Jesuitas; Dom 
JoSo ITI concedera-lhes um poder verdadei- 
ramente tempora! na India, que contrastava 
com o dos seus generaes. * O Viso-Rei desen- 



^ Historia e Mem., da Academia das Sdencr 
t. X, P. I, p..9s. 

' Escreve Ismael Gracias: < os Padres daCk>m 
nhìa de Jesus, aos quaes a Córte havia desde mui 
epocas confìado a administra^ao dos Armazens 



GAMÒES — EPOCA, VIDA B OBRA 555 

i-- — -■ ■111 

volveu urna grande actìvidade e energia na 
administraQSo ; d'entre os seus numerosos 
actos destacamos a Àrmada de tres navios.de 
alto bordo, que mandou preparar para ir ata- 
car o terrivel corsario Safar, sob o com'mando 
do velho e experimentado Manoel de Vascon- 
cellos. Està Armada partiu de Oda em Feve- 
reiro de 1555, para ir estacionar junto do 
Monte Felix, ao norte do Cabo de Guardafui. 
N'eata expedÌQ&o partiu novamente Gamoes, 
e n'ella soffreu as calmas tediosa? e pestilen* 
tea, que o levaram fiquelle estado de desola- 
gio que relata na sua Gangao x. O poeta jà 
tìnha servido no sub-commando de Manoel de 
Vasconcellos, na Armada do Norte de 1554; 
era aste commàndante naturai da ilha da Ma- 
deira, filho de Lopo Mendes de Vasconcellos, 
e corno seu pae serviu valentemente comò ca- 
pitSo de Gananor e de Malaca. Sua esposa, 
D. Isabel da Veiga, era denominada a — Ma- 
trona de Diu, porque acompanhara seu ma- 
ndo n'aquelle celebre Gdrco fazendo actos de 
excepcional bravura. Era com este homem 
audaz e venerando, que Luiz de Gamoes 
abandonava Gda e se expunha ao doentio e 
prolongado cruzeiro. N'aquella aborrecida, 



/ 

/ 



JS^é.. 



provimentos de guerra, dos celeìros, dos mantìmentos, 
da fundigào da Artilheria e das obras das fortificaQoes 
nas differentes pragas do Norte com o proprio titulo 
deÀdminiatradores.* (Oriente portuguez^ voi. ui, p. 16.) 
'es poderes foram augmentados por carr.i regia de 
de Mar^o de 1635, de 23 de Abril de 1737. E' por 
que o erudito Gunha Rivara considerou essa pre- 
derancia dos Jesuitas na India « corno urna das 
icipaes cauaas da decadencia do Imperio Indo-por- 
iiez.» (Chronista de Tiassuary^ voi. i, p. 281.) 



656 H18TORIA DA UTTBBATUBA POBTUOUEZA 

paragem alli esteve a Armada esperando as 
Ndos que vinbam do Achem, mantendo-ae até 
passar a mongSo, para ir em Septeinbro in* 
vernar a Mascate, na entrada do Golfo Per- 
sico, para proteger as N&os de Ormuz na sua 
ròta para Gda. E' n'esta estagSo que D. Fran- 
cisco Alexandre Lobo colloca o cruzeiro de 
Gamdes, segando a opiniSo de Manuel Seve- 
rim de Paria, que dà o regresso do poeta a 
Gda nos primeiros dias de Outubro de 1555, 
quando <jd governava havia quasi quatro 
mezes Francisco Barretoo (Disc, fi. 3) De- 
rase o falecimento de D. Fedro de Mascara- 
nhas em 16 de Junho d'esse anno» e desde 
esse dia ficara investido do Governo da India 
Francisco Barreto pela carta de prego em 
que estava nomeado. ^ 

Gamdes sentiu bastante este longo cruzeiro 
de 1655 ; trazia as impressoes vivas das noti- 
cias que recebera do reino no firn do anno ante- 
riore que Ibe augmentavam a d6r moral, em 
um melo calmoso. pestilente, sem ao menos 
ter o esgotamento da lucta contra os piratas 
Sanganes, que entào n9o appareciam. De- 



^ Dr. Storck adoptou o cruzeiro no Estreito de 
Meca em 1564; mas reconhece, que o espirilo marciai 
do poeta no Soneto a D. Fernando de Menezes està 
em antithese com a profunda melancholia da Oangào x, 
composta em uma estagao naval multo demorada, comò 
foi a de 1555, pela qua! opta, desde Seyerim de Paria 
a maior parte dos biographos. A verdade completa e 
no desdobramento d'estas expedi^oes em 1554 e 156 
Storck reconhece : « E' certo que o tom geral e os S' 
timentus da poesia divergem dos que a Can^ào exhf 
— Mas isso pouco importa. — As duas obras exigc 
rhetorica differente. > (Vida, p. 526.) 



CAMÒES — EPOCA, yiDA E OBRA 567 

creve Rodrìgues da Silveira, d'este cruzeiro 
do Estreito do Mar Roxo: cdois ventos sSo 
08 quo alli cursam. um parte do levante com 
qus se entra, e outro do poente com que se 
8&6t e venta cada uni d'elles seis mezes sem 
algum intervallo.» (Mem.^ p. 22.^ Foi està 
esta^So for^ada de seis mezes proximo do 
Ras-ef^Fil, (o Monte Felix) rochedo que tira o 
seu nome da figura<;So da cabe^a do eie- 
phante, ìlhéo junto do Gabo do Guardafui 
(lard Hafun), e ao longo do Estreito de 
Bab^l-Mandeb. O viajante Salt descreve esse 
promontorio do Guardafui da costa orientai 
de Africa, deìxando ao sul a entrada do golfo 
de Aden; o mar rebentando nos seus areaes, 
altas montanhas ao fundo dSo-lbe um aspecto 
sublime. Deram-lhe os antigos o nome de Cabo 
do8 Aromata, e assim o designa Camdes, com 
as soas fortes reminiscencias classica s. Em 
volta de si via Camoes cabirem c^ seus cama- 
radas atacados das febres exantemicas, alli 
fechados pela mongSo; no Soneto cui de- 
screve a morte de um rapaz de vinte annos, 
naturai de Alemquer, e n'essa fórma laconica 
de epitapbio ressumbra urna insondavel tris- 
teza, e ìnextinguivel saudade da patria : 

No niundo poucos annos e cansados 
Vivi, cheios de vii miseria e dura ; 
Foi-me tao cedo a luz do dia escura, 
Que nao vi ciuco lustros acabados. 

Corri terras e mares apartados, 

Buscando é Vida algum remedio ou cura ; 
Mas aquillo que, emfim, nào dà ventura, 
Nào o dào OS trabalhos arriscados. 

Criou-me Portugal na verde e cara 

Patria minlm Alemquer ; mas àr corruto 
Qne n'este men terreno vaso tinha, 



558 HI8T0RIA DA UTTBRATURA PORTUGUBZA 



Me fez manjar de peixes em ti, bruto 

Mar^ que bates a Atassia fera e avara. 
Tao longe da dìtosa patria minha. 

Quem seria este deagragado mÒQO, que a 
condolencia de Cam5e8 tornou immortal ? En- 
contrfimoa o seu nome, em um appenso ma- 
nuscripto que estfi encadernado na edi^So das 
Rimas de 1595; tem ahi este Soneto a ru- 
brica em letra do seculo xvi : A Pero Moniz, 
que morreu no mar do Monte Feltz^ em epir 
taphio. * 

No meio d'estes perigos da peste de 
bordo e avergado sob a angustia moral, no 
tedio do prolongado cruzeiro, é que elle escre- 
veu a GangSo x, a mais profunda expressao 
da ddr humana : 



^ No exemplar da Bibliotheca nacional; desde Fa- 
ria e Sousa se,considerava este Soneto allusivo a morte 
de Ruy Dias por ordem implacavel de Affosso de Al- 
buquerque. Gamoes, nos LusiadaSf canto x, est. 45 a 
47, condemnou esse acto exeorando do heroe; mas 
Ruy Dias nào foi executado no mar da Abassia; diz 
Barros que fora no rio de Goa. Escreveu Innooencio 
em carta de 2 de Janeiro de 1878: «Ignorasse, nem 
talvez sera possivel descobrir de futuro quem fosse o 
SU] aito morto no mar da Abassia, cujo firn desventu- 
rado Ihe serviu de assumpto. Provavelmente algum 
desconhecido amigo ou camarada do poeta. Os que 
suppozeram o Soneto allusivo ao tragico firn do sol- 
dado Ruy Dias, mandado enforcar por Affonso de Al- 
buquerque, cahiram (seja dito de passagem) em re- 
dondo engano: porque esse facto occorreu a grande 
distancia do mar da Abassia, iato é, no rio de O^ 
onde a Armada estiverà invernando- e fez larga 
tenga ; corno é notorio em Joào de Barros, que na 
cada II, livro 5, cap. 7, relata miudamente o caso C 
todas as circum slancia s concomitantes. Nem sei mesi 
corno racionalmente podesse dizer-se que morrer? 
dr corrupto um homeni que foi enforcado,» (Dice 
bliographico, t. xiv, p. 11.) 



, VIDA S OBRà 



irò, esteri) Hoate, 
< e Informe, 
ibor recido ; 
fera dorme, 
1 ferve fonte, 
lece ruido ; 
ntrodnzido, 
Be fnf elica ; 



om que a costa . 

ro vem correndo, 

hamado; 

, que volvendo 

mal compoeta 
)me Ihe tem dado, 
er apreBBurado 
i d'este brago, 
■pò e leve 
•a. 
spera e dura 

que a vida breve, 
le um breve espago, 
rida 
iQOB repartida. 

lo uns tristea dias, 
>s e solitarioa, 
ira cheioB : 
e por con tra rio 8 
ae aguasfrisB, 
IdoB e feios, 
mtos, que sào meios 
ia na tu resa, 

emoria - 
breve gloria, 
fi, quando vivi; 

ales a aspereza. 



560 H18TORIA DA LrrTKRATURA PORTUOUBZA 



Aqui 'stive eu com estes pensamentOB 
Gaetando tempo e vida; os quaes tao alto 
Me subiam nas asas, que oahia 

ÌOh, vede se seria leve o salto !) 
>e sonhados e^ vaos contentamentos 
Ein desespera^ào de vèr um dia« 
O imaginar aqui se convertia 
Em improvisos chóros e em suspiros, 
Que rompiam os éres. 
Aqui a alma cativa, 
Chagada toda, estava em carne viva, 
De dóres rodeada e de pezares, 
Desamparada e descoberta aos tiros 

Da soberba Fortuna» 
Soberba, inexoravel e importuna. 

Nao tinha parte d'onde se deitasse, 
Nem esperan^a alguma, onde a cabota 
Um pouoo reclinasse, por descanso : 
Tudo dòr Ihe era e causa que pade^a. 
Mas que pereca nao; porque passasse 
O que quiz o destino nunca manso. 
Oh, que este irado mar gemendo amanso! 
Estes ventos, da voz importunados, 

Parece que se enfreciam : 

Sómente, céo severo 
As estrellas e o fado sempre fero, 
Com meu perpetuo da nino se recreiam, 
Mostrando-se potentes e indignados 

Gontra um corpo terreno, 
Bicho da terra vii e i§o pequeno. 

Se de tantos trabalhos so tirasse 
Saber inda por certo que algum'hora ^ 
Lem brava a uns claros olhos que jà vi ; 
E se està triste voz, rompendo fora, 
As orelhas angelicas tocasse^ 
iHaquella em cuja vista jà vivi ; 
A qùal, tornando um pouco sobre si, 
Revolvendo na mente presurosa 

Os tempos jà passados 

De meus dóces errores, 
De meus suaves males e furores. 
Por ella padecidos e buscados, 



CAJfÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 561 



E (postoque jà tarde) piedosa 

Um pouco Ihe pesasse, 
E là entre si por dura se julgasse 



Isto so que soubesse me seria 
DeFcaoQo para a vida que me fica; 
Coni isto affagaria o soffri mento. 
Ah. senhora ! Ah, senhora ! e que tao rica 
Estaps. que cà tao lon^e de alegria 
Me sustentaes com doce fingimento! 
Logo que vos figura o pensamento, 
Foge todo o trabaiho e toda a pena. 

So com vossas lembran^as 

Me acho seguro e forte 
Contra o rosto feroz da fera morte ; 
E logo se me juntam esperangas 
Com que, a fronte tornada mais serena, 

Torno os tormentos graves 
Em saudades brandas e suaves. 

Conio na mais petfeita Symphonia, ha 
n'esta CangSo x o contraste de dois themas: 
janto do secco, duro e osteril monte, o sol ar- 
dente, OS àrea grossos, e no poeta os seus 
penaamentOB, trazendo-lhe à memoria passa- 
dos dìas venturosos, para Ihe redobrarem os 
malese a aspereza do ambiente ! Mas se no melo 
de tantos trabalhos Nathercia ainda n3o per- 
derà a lembranga d'elle! E é n'esta contem- 
plagio intima que se sente forte e seus tor- 
mentos se abrandam em saudades. Nem este 
estado de espirito, nem a demora de dias tris- 
tes, forgados^ màos e solitarios, condizem 
com a paragem ruidosa e breve da Armada 
d joven D. Fernando de Menezes, em 1554, 
ei que o poeta estava entre amigos, comò Alva- 
ro la Silveira, Jorge de Moura e outros. Na 
C Q&o X o poeta corno que allude às duas ex- 
p •^'^^es : 



562 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUOUSZA 



Aquif no mar 

Me trouxe um tempo e leve 
Minha fera ventura. 

Depois na terceira estrophe é que descreve 
a estasio demorada de seis mezes, de 1555: 

Aquì me achei gastando una tristes dias, 
Tristes, forgados^ màos e solitarios. 
De trabalhOy dòr e de ira cheios. 

Para resìstir a este meio dissolvente e i 
depressao moral do seu espirito, Camoes for- 
taleceu-se concentrando-se na idealisa(}ào da 
Epopèa portugueza. N'este cruzeiro do Monte 
Felix teve occasiSo de ir a Momba«a ; ^ Farla 
e Sousa coUigiu sobre este facto urna tradi- 
qSo sem a comprehender : < Y Juan Finto Ri- 
bero me dixo que — persona que lo conodd 
é trató, otras que lo conocieran alla, dazia, en 
Zofala ó Mombaga avia el Poeta amanecido 
un dia, prometiendo inesperadamente este 
escripto, corno se aquella noche lo oviesse 
sido inspirado por alguno divino medio. ^.^ 
Storck ri-se da credulidade de Farla e Sousa; 
mas elle proprio reconhece que houve nm 
momento de maturagSo definitiva da Epopèa 
na mente do Poeta : « O proposito de cantar 
OS feitos heroicos do seu povo e da Patria, 
tomou comtudo fórma decisiva e amadureceu 
durante os seis mezes de vida do Oceano. * 
( Vida, p. 460.) Melhor dirla, durante os seis 
mezes d'essa doentia e fastidiosa esta^So do 



* Escreve Linschott: « Entre Mo^ambiqne e o 
Cabo de Guardafili estao as cidades de Quiloa e Mom- 
baga, que é urna pequena ilha do mesmo nome "'m 
um porto com duas fortalezas.» 



1 



8 — EèvÒÀ, VIDA E OBRA 663 

) seu prìmeiro esbfiQO do Canto 

a-se a Narrativa historica dos 

Reis de Portugal, que foram Ubertando o sr^Io 

nacional do jugo sarraceno, e avanzando pi'ia 

a Africa atacando oa Arabe» nos seus re- 

ductoB, formando ahi um novo Imperio. (Can- 

tos m e IV; e vii e viii.) Até ahi tinha pro- 

ctamado o Poto niinca de outrem subjugado. 

partida para a India revelou-lbe a gran- 

iza e ìmportancia da aegào historica dos 

BBCobrìmentOB por mares nunca d'antea na- 

tgadoa. Era a eesencia do ideal èpico. O 

tado de emoQSo da sua deeolada situa^So 

orai, deu-ìhe a impresBao direct» da viagem 

I India, a via&o sublime do Feito nunca 

ito. Faltava fundir em um todo barmonico 

tea doia elementoB. NSo o pòde fazer, na 

Tturba^o & cbegada a Gòa e partida im- 

ediata para o Chembé, seguindo de pois 

1 Armada do Norte sob o commando de 

. Fernando de Menezea. Sómente n'estes 

Ì8 mezes solitarios e forgados, é que a fu- • 

o dos seus materìaes se operou. E' ÌBto o 

le significa a tradioSo de Mombaifa. Quem 

m idealisado um grande puema sabe, que 

tesar de accumulados muitos trabalhos para 

le, so se considera realiBado quando se fixou 

ddamente a ideia fundamental que o uni- 

•A e Ibe dft rida. Os Lusìadas até este mo- 

Bnto constavam de quadroB historicos e epl- 

dicos; sómente quando o ideal doB Desco- 

mentos Ihe appareceu em toda a gran- 

a é que a Epopèa ia entrar na sua con- 

JCc5o bella ; para tornar esse Canto eterno, 

1 a nota de amargura da dissolucào do 

-«rio do Oriente apóz a derrocada do Im- 



664 HldrOtUA DA uttebatcra portugubza 

perio africano. Agora a Epopèa era o grito 
de urna nacionalidade que ia afundar-se. E 
està nota de tristeza so Ihe foì revelada nas 
reflexoes solitarias do cruzeiro do Monte Fe- 
lix. Maudsley indica-nos a importancia que 
4em urna grande ideia fortificando o des- 
alento de um homem de genio: «Notou Aristo- 
ieles, que os grandes homens tém tendencia 
para a melancholia e para a hypocondria. 
l^^elles o sentimento do seu valor é grande, 
elles nSo ee subordinam facilmente fis cousas 
taes corno ellas sio, querem-as corno deve- 
riam ser. Tambem, quando as suas forgas 
^ào dirigidas sob a direcgdo da sua intuì 
<Qdo superior para a realisagdo de um dado 
finii o ardor doe seus sentimentos inspira as 
suas convicgòes e infunde-se nos seus actos; 
este emprego da sua energia liberta-os da 
sua melancholia.^ (Path. do Esp., p. 262.) 

Deu-se um apaziguamento na alma do 
poeta com estas concep<^es da fórma defini- 
tiva da grandiosa Epopea, que era a synthese 
da sua vida moral. Logo que chegou a nova 
mongao, a Armada de Manoel de Vasconcellos 
foi em Septembro invernar a Mascate, na en- 
trada do Golfo Persico, para comboiar as n&os 
que vinham de Ormuz para Gda. Mascate 
durante o verao tornava-se inhabitavel por 
causa das brisas pestilenciaes ; o poeta nem dà 
por isso, e conformado superiormente com as 
fatalidades da vida, toma parte nas alegr'*'" 
que vae encontrai* em Oda pela successao 
novo Governador. 

< Jà governava havia quasi quatro mei 
Francisco 6 arroto,» assim se <)xprime Se 
rim de Farla, quando Camoes chegou a G 



oe 



— SFOCA, VIDA G OBRA 

zeiro da Armada i 
> principio de Sept 
icou em terra, pai 
iQO. Apesar de se 
■DO da India em 16 uo uuunu 
festaa da successSo tìnham 
ir causa de urna terrivel ca- 
isperae de San JoSo, um dos 
aial foi incendiar o gale3o 
tomou taea propor^óes o ìn- 
'opagou a mais seÌB galeòes, 
llas e duaa galés. Francisco 
lU para extinguir o incendio, 
]o8 OS perigoB, e até despo- 
s joias para gratificar oa que 
im. EntSo oa admiradores e 
Francisco Barreto, pasaada 
sombria, penaaram em que 
is festas da succeasào, tanto 
)C0 Barreto revestira cam um 
a baptismo de um magnate 
3 fdra padrinho. Cam5eB che- 
lente a Gda para tornar parte 
o Governador e collaborar 
moviam a gloriosa homena- 
ides eminentea de Franciaco 
)Dhecidas por todos; apesar 
idoT da Fazenda SimSo Bo- 
Etdo em cartas ao rei, quando 
Bcarenhas viera despachado 
!Ìa a carta de prègo em que 
rancisco Barreto, com quem 
iziliou no Ben governo. Boia 
e Camòes, o chronista Diogo 
ro da Silveira, elogiam Fran- 
Q a Itnguagem mais franca e 



^ / 



566 H ISTORIA 0A UTTERATDRA PORTUGUEZA 



decidida, que leva a considerar absurda a 
tradi<;ao sempre repetìda, que elle fora hostil 
ao poeta. Couto retrata-o conno «liberal, ca- 
marada officioso, e sempre propenso a per- 
doar aa offensas recebidas.» E Alvaro da 
Silveira, em carta de 24 de Dezembro de 
1555, dirigida a D. JoSo iii, eacrevia de 
Francisco Barreto e do modo corno sostentava 
o governo da India : « nunca homem tao 
amado foi do povo nem desejado.» Camoes 
via n'esse seu companheiro de armas, entao 
na pujanQa dos trinta e nove annos, o tic de 
D. Francisca de Aragao, a quem Ihe era grato 
prestar todas as homenagens.. Pretendia-se 
fazer, além de jogos de canas, encamisadas, 
torneios e arcos triumphaes dos officios, urna 
representagfio dramatica ; mas o tempo urgia, 
e semente Cam5es é que era capaz de vencer 
a difficuldade, dando prompto um Auto para 
ser decorado e ensaiado. Entre os seus pa- 
peis estava o rascunbo do Auto de Filodemo, 
representado em Lisboa, nos cdrros, por ami- 
gos intimos na època feliz em que frequen- 
tara a córte. E' mesmo presumivel que alguns 
dos seus antigos companheiros, que tomaram 
parte na representsQào em Lisboa, estivessem 
agora na India, comò Joao Lopes LeitSo e 
Alvaro da Silveira. 

E' acceitavel està inferéncia do Dr. Storck, 
porque nao havia materialmente tempo para 
escrever um Auto em tao poucos dias. ^ Li 



* O Dr. Storck, que traduziu para allemao o 1 
lodemoy reconheceu : « Cada urna das vinte sce 
d'aquella Coinedia, para nào dizer cada urna das s 
phrases, é um reflexo adequado e fiel do festivo r 



! 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 567 

Franco, quo tambem militava na India, e nas 
boras vagas compilava composÌQdes poeticas 
de varios em um grande Cancioneiro, tambem 
ahi transcreveu o texto do Auto do Philo- 
demo com està valiosa rubrica historica : « Co- 
media fetta por Luiz de Camoes. Represen- 
tado na India a Francisco Barreto.^ A pre- 
senta oste texto manuscripto muitas variantes 
do texto impresso em 1587; d'onde se infere 
que o impresso, que se conservara em Lis- 
boa em mfios extranhas, é a redacgSo primi- 
tiva, sendo a de Oda a modificada em 1655. 
Lniz Franco, tambem poeta, era entSo um dos 
admiradores de Camòes, escrevendo sob o 
san nome este titulo honorifico : « Compa- 
nheiro em o Estado da India e muito amigo 
de Luiz de Camoes. t^ O logar da representa- 
qSo seria no pàteo em arcaria das casas do 
Sabayo. 

À's festas pela investidura do Governador, 
ajnntaram-se as festas a Santa Catherìna, em 
25 de Novembro, commemorando a conquista 
de GOa por Affonso de Albuquerque, que 
proclamara a Santa protectora da cidade. So- 
bre a porta por onde entrara em G6a, eri- 
giu-se uma pequena capella, à qual se fazia 
ama apparatosa procissào, terminando por 



pooco leviano espirito do cortezào alegre, bemquisto e 
mimoseado por bellas damas, que nào sopezava ainda 
h"~i a valla dos seus ditos e habitos, etc » f Vida, p. 
< i.) No Philodemo, comò nas outras duas Comedias, 
e aductor e critico allemào diz, que se respira «desde 
( rìmeira a ultima palavra, o àr da patria, o àr da 
( e, o àr da roocldade, — a atmosphera dos annos de 
\ 4...» (Ib., p. 467.) Em obras artisticas é sempre 
i "To o criterio psychologico. 



L 



568 HISTORIA DA LITTEBATCRA PORTUGUEZA 

urna grande solemnìdade na sé de Gda. Tudo 
conspirava para um certo desvairamento, pre- 
textando o jubilo officiai para os mais torpes 
delirios. Camoes, jà estimulado, escreveu a 
Salirà do Torneio^ que tem a seguinte rubrica 
importante : < Finge que em Góa^ nas Festcts 
que se fizeram d sucoessdo de um Grovema- 
dor, sahiram a jogar as Cannas certos ho- 
mens a quem ndo sabia mal o vinho, ^ e oth 
tros notados de alguns viciós, eom divisas 
nas bandeiras, e Lettras conforme sua ten 
gdo.^ A corrupQ&o que a Satira accusa é 
muito conbecida pelas narrativas dos viajan- 
tes, coino Linschott e Pyrard ; os golpes dis- 
parados pelo poeta, tinbam o poder de faze- 
rem rir e de se popularisarem, pelos seus 
chistosos equivocos. E' possivel que as alla- 
soes fossem personalìsadas. A pega termina: 
€ Muitos outros homens illustres quizeram ser 
admittidos n'estas festas e canaB; e que se & 
zera memoria d'elles, conforme suas qualida- 
des; mas infinita escriptura fora, segundoto- 
dos OS homens da India sào assinalados; e 
por isso bastou para servirem de amostra do 
que ha nos mais.» 

E' uma narrativa picaresca e inoffensiva; 
assim mesmo serviu a Manoel Severim de Pà- 
ria para fundamentar com ella a grande crise 
da Vida de Camdes indo na Armada do Sul, 



^ Pyrard escreve: < Ali todos bebem 8Ó agaa, 
siin homens corno rnulheres, rapazes e raparìgas. 
grande deshonra entre elles beber vinbo, e se o faz( 
Ihes seria lanQado era rosto comò grande injaria.* Co 
a gente de baixa condiQào e os escravos bebiam orra 
uma especie de aguardente barata, d'aqui taivez o i 
cor contra a Satira. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 569 

em 1556, mandado preso e desterrado para a 
China por FraDcisco Barreto! 

Para reforgar os effeitos da Satira do Tor- 
neio aobre a perseguigào de Camdes, juntou- 
Ihe tambem Farla e Sousa as Decimas intitu- 
ladas Disparates da India, que considera 
feitas pela mesma època. Essas Decimas, for- 
madas com centoes de Romances velhos, e 
Ànexins portuguezes e castelhanos quebrando 
teda a versificagào, pertencem a essa catbego- 
ria de Satiras que corriam na India no tempo 
de Gamoes, e que n3o fizeram a desgra«a de 
ninguem. Esses vicios e defeitos chasqueados 
nos Disparates da India, estfio mais prof nu- 
damente escalpelisados por Dlogo do Gouto e 
Francisco Rodrigues da Silveira; os versos 
aio perfeitamente inoffensivos : 

Que dìreìs de uns, que as entranhas 

Lbe estao ardendo em cobiga ; 

E se tem mando, a justìga 

Fazem de téas de aranbas ? 

Com suas hypocrisias, 

Que sào de vossas espias, 

Para os pequenos uns Neros, 

Para os grandes tudo feros. 

Pois tu, parvo, nào sabias, 

Que là vào leis, onde querem cruzados. 



Oh, tu ! corno me atarracas, 
Escudeìro de soHa, 
Com bocaes de fidalguìa, 
Trazido quasi com vacàs ; 
Importuno a importunar, 
Morto por desenterrar 
Parentes, que cheirara jà! 



Oh, VÓ8, que sois secretarios 
Das consciencias reaes. 



670 fllSTORIA DA UTTEBATDRA POBTUGUBZA 



E que entre os homens estaes 
Por senhores ordinarios; 
Porque nào pondes um freio 
Ao roubar, que vae sem ineio, 
De baixo de bom governo ? 



Boca^e, que tanto comparou a sua vida 
com a de Gamòes, tambem melindrou com 
versos pungentes as familias de Gda nos seus 
preconceitoB heraldicos, tendo de ser afastado 
das malevolencias locaes por urna promogao 
para Diu. Gamoes era bastante valente para 
affrontar esses odios, que nSo passavam de 
propositadas calumnias. No descanso do ser- 
vilo de que recolhera a G6a, em lucta com 
deficiencia de melos, tìnha de gastar os trez 
annos de servilo militar que Ihe restavam e 
a que era obrìgado, partindo na Armada do 
Sul, que se apparelhava para o comèdo do 
anno de 1556. O intuito de ir percorrer essas 
vastas e ignoradas regides do extremo Oriente 
ligava-se ao pensamento da Epopèa, em qne 
trabalhava sempre; por essa demorada expe- 
di<^ao poderia realisar a bella descrip^ao da 
Asia, na ùltima parte do poema. Francisco 
Barreto, acceitando este servlQO ou orde- 
nando o seu embarque, entendeu provèl-o, nSo 
€om uma Oapitania, que era entao um privi- 
legio dos fidalgos favoritos da córte, mas com 
a mercè de uma viagem, comò era costume 
premiar homens benemeritos. Como um fac^^ 
tao simples e frequente nos apparece dett 
pado nos mais absurdos desconcertos mora 
e chronologieos ! 

Na pequena biographia por Marìz, a n 
rativa concreta dos factos reiativos à partì 



GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 571 



- 

I de Camoes para a China é cheia dos maiores 
I absardos pela sua descoordenagfio. Vè-se que 
I oolligira tradiQoes que confundiu, com piena 
' ignorancia historioa. Pelo espirito d'essa tra- 
dÌQSo, esdarecido pelos conhecimentos histo- 
ricos, é que nos poderemos approximar da 
verdade. 

E' certo (]|ue o poeta obteve um provimen- 
tOf e com o intuito de que o provimento fòi 
para vèr se o podia levantar da pobreza em 
que sempre andava envolto, 

Foi esse provimento nas partes da China; 
e por elle là grangeou a enchente de bens. ^ 
provimento feito por Francisco Barrato 
para beneficiar Camdes pelos seus serviQOs so 
podia ser urna viagem de mercè na carreira 
da China^ em que entio no negocio da seda 
se ganhava ou tenta por cento. 

A' lenda em que Mariz fez Camdes preso 
na India pelo Governador Francisco Bar- 
reto, accrescentou Severim de Farla o funda- 
mento imaginario, que depois passou comò 
definitivo, attribuindo a causa à Satira do 
Tomeio: «chegando Luiz de Camoes a Gòa, 
fez aquella Satira — contra alguns moradores 
d'aquellà cidade, com o titulò de Festas que 
se fizeram na successSo do Governador, do 
que sentindo-se Francisco Barrato ou por zelo 
da justiQa ou por queixas dos amotejados, o 



1 Os absurdoB comeQam quando partìcularisa o des- 

bo no cargo de Provedor dos Defunctos em urna 

ca muito anterior àquella em que Macào comegou a 

habìtada pelos Portuguezes; sendo depoìs preso 

Francisco Barreto, quando eram necessarios tres 

08 para que chegassem a Gòa as accusagoes e sq 

'^m as ordens para serem a final cumprìdas. 



/ 



L 



572 HISTORIA DA LITTERATURA POHTU6DE2A 



mandou prender e desterrar para a China, 
no anno seguinte de 1556, em que despachou 
alguns CapitSes para o Sul.» 

Nao era possivel tanta severidade e mal- 
vadez contra Camdes, sómente por Ihe attrì- 
buirem urna descrip^So picaresca de um Tor- 
neio^ que passara de poucas mfios h era intei- 
ramente impessoal. Dos textos poetìcos em 
que se estribara Severim de Paria, observa o 
Dr. Storck: « Em todas as Obras de Camdes 
n3o ha urna linha que falle directa ou indi- 
rectamente do desterro e prisdo decretados 
por Barreto.» (Vida, p. 543.) D'aqui resul- 
tou, que todos os biographos atacaram a 
fundo Francisco Barreto corno ferrenho per- 
seguidor de Camoes, acobertando o seu odio 
com o despacho do Provedor dos Defunctos 
para Macau (entSo inhabitado e pertencente 
ao Imperio da China); apenas Juromenha, 
reconbecendo o valor moral de Francisco 
Barreto, attribuiu esse hypothetico despacho 
& boa vontade com que o quiz salvar dos sens 
inimigos de Oda. Jà Farla e Sousà notara o 
contra-senso : *Pero yo no puedo entender 
corno Francisco Barreto le desterrou con 
tanta comodidad, pues le executaba con 
tanta ira ...» * 



^ Sobre o facto da nomeaQao de Gamoes para 
Provedor dos Defuntos e Ausentes em Macau, escreve- 
veu judicìosamente o Dr. Joao Teixeira Soares, rer'" 
mando urna scria reconstrucQào n'este periodo da t 
de Gamoes: 

< O logar de Provedor dos Defuntos e Ausentes i 
foi logo desde o seu comedo mui importante pelas qi 
lidades de intellìgencia e de caracter que exigia na p< 
soa que o desempenhasse. 

« Lan^ados, corno vìmos, os prìmeiros fundar 



CAMÒES — EPOOA» VIDA E OBBA 573 



Ha n'este sonhado odio de FraDcisco Bar- 
rato a confusSo com a hostilidade de Fedro 
Barreto Rolim, sobrìnho do Governador, que 
em MoQambique mais tarde perseguìu o poeta 
por urna divida, corno refere Couto. 

Antes de partir na Armada do Sul, nos 
poucos mezes de descanso em Gòa de Septem- 
bro de 1555 a Abril de 1556, o poeta traba- 
Iha na sua Epopèa, e jà Ihe fixara o titulo ; 
8abe-se pelo traslado do primeiro Canto, com- 
pilado por Luiz Franco Correa no seu Can- 



tos àquella povoa^ào em 1557, so no anno de 1 558 po- 
dia Camòes partir de Gòa para Macau revestìdo 
d'aquella auctoridade. 

« A navegagào de Gòa para aìì era feita com escala 
por Malaca, e por mongòes em determinadas epocas do 
anno; assim, eram as relaQoes annuaes entre Gòa e 
Macau poucas. longas e demoradas 

« A duragào do cargo de Provedor, segundo o prin- 
cipio geral entào seguido na nossa administra^ào pu- 
blica, devera ser de tres annos. 

« Francisco Barreto governou a India, desde 23 de 
Jonho de 1555 até 8 de Septembro de 1558. Attribue-se 
a Francisco Barreto a nomea^ào de Gamòes para 
aquelle cargo, e beni assim a sua revocagào d'elle, 
depois de dois annos de servilo: chegando o poeta a 
Gòa nos ultimos tempos d'aquelle Governador 

e Estes factos confrontaaos com a chronologia in- 
concnssa que estabelecemos ficam grandemente dis- / 

Bolvidos e insubsistentes, carecendo està parte da vida / 

de Camòes de urna sèria e profunda recons trucido. 

<Só urna ideia fixa e systematica de malquistar 
Camòes com Francisco Barreto podia estabelecer taes / 

f 08, chegando a anctorisar-se contraproducentemente 
e i o proprio Fernao Mendes Finto, para fazer Ca- 
I ^ sahindo em MarQo de 1656, na armada de Fran- 
c !0 Martins para Macau, ainda ridesse anno Ilha de- 
I 'o/» {Cousas camonianas — Velense, n.® 51, de 8 
e f«neiro de 1582,) 



\ 



I 

1 



574 HI8TOR1A DA LITTBRaTURA PORTUGUEZA 



cioneiro, onde tem o titulo: Elusiadas de 
Luis de Camoes, a El Rey D. Sebastido. A 
id'eia da dedicatoria revela urna emoQao pri- 
meira, substituindo o Principe Dom Joio» 
para cujo talento por essa fórma se queriaj 
fazer lembrado. E' certo porém que a dedica- 
toria nao foi mantida na publica^So definitiva 
do poema em 1572. Assim comò o titulo da 
Illiada era derivado da fortaleza de Illion, 
Camoes tambem pensou em derivar a deno- 
minaQao de Lusiadas do territorio, em que se 
desenvolveu a nacionalidade, comò o d& a es- 
tender : 

Segufndo as armas que contino usou, 
Do Douro e Guadiana o campo ufano 
Jd dito Elisio, tanto o contentou, 
Que alli quiz dar aos jà cansados ossos 
Eterna sepultura e nome cu)8 noasos, 

(Caot. vili, est. 3.) 

No titulo definitivo, seguiu depois Camoes 
a maneira virgiliana (Eneida de Enéas) ade- 
ptando o patronymico dp heroe, e de Luso ou 
Lysay (Cant. in, st. 21) deixando a fórma 
Lysiade, jà determinada pelo humanista Jorge 
Coelho e pelo jurisconsulto Manoel da Costa, 
o Sutil, escolheu a de Lusiadas^ creada em 
1531 por André de Resende quando esteve 
em Bruxellas junto do illustre diplomata Dom 
Fedro de Mascarenhas, a quem dedicata 
o poemeto Vicentine^ Levita et Mariyr. * 



^ D. Carolina Michaelìs, Lucius Andreas Rù 
diusy inventor da palavra — Lusiadas. — Dr. José 
ria Rodrigues, no Instituto, de Goimbra, voi. 
p. 754. 



OAMObS — EPOCA, VIDA E OBRA 575 



pensamento da Epopèa, em que se absorvìa, 
8i]6citava-lhe a vontade de visitar o Extremo 
Oriente, para completar pelas impressdes da 
realidade a descripQao da Asia, que tinha de 
contrapOr & da Europa. A resoIuQSo de se 
alistar na proxima Armada do Sul, nao obe- 
decia & preoccupagào dos lucros mercantis da 
carreira da China. Vivendo n'aquella fórma 
que descreve Pyrard, com companheiros de 
armas, de porta aberta, e em convivio franco 
e alegre, Camoes trasladava os seus versos 
e esboQava planos de trabalhos para as horas 
de isolamento e comò um refugio moral. Mas 
aquella natureza orientai, que pouco o im- 
pressionava com a exhuberancia da sua ve- 
getando opulenta, seduzia-o, fascinava-o pelos 
typos acariciantes da sua feminilidade ; pas- 
savam diante d'elle essas figuras phantasticas 
e encantadoras de raparìgas indianas, ma- 
layas. javanezas, dravidas e malabares desde 
branco eburneo & cor retinta, quasi metal- 
lica, enfeitadas com arrecadas e manilhas de 
curo, com um olhar languido convidando a 
paraisos de volupia. Linscbott descrevendo a 
Vida de Gda, em que os portuguezes viviam 
à cuBta do trabalho dos seus servos que ven- 
dem agua pela cidade, accrescenta: <As cati- 
vas fazem toda a qualidade de ddces das 
fructas da India, tratam de roupa branca, de 
diversas pegas que ellas mesmas vao vender 
ao mercado, onde apparecem bem paramen- 
tadas, para tornarem mais agrada veis aos 
mpradores as suas pessoas, a que n3o p5em 
dnhum embara^o, de facultar por dinheiro. 
'este ganho se enriquecem os seus patroes 
m que sustentam suas familias.» Pyrard 



576 HI8TORIA DA LITTARATURA PORTUGUBSA 

tambem descreve estes typos femininos oom 
traQos realistas, quo nos fazem comprehender 
o meio em que se viu Camoes empolgado: 
€ Entre as esoravas encontram-se alli raparì- 
gas e mulberes mui bellas e lindas, de todos 
OS paizes da India, as quaes pela maior parte 
sabem tanger instrumentos, bordar, cozer 
mui delicada mente e fazer toda a sorte de 
obras, doces, conservas e outras eousas. — 
Entre estas raparigas ha algumas mui belias, 
brancas e gentis, outras trigueiras, morenas, 
e de todas as cdres. Mas as de que alli gostam 
mais s3o as mògas cafres de Mogambique. . . 

— As mÓQas adornam-se muito para agradar 
mais e vender melhor a sua mercadoria; e &s 
vezes sSo chamadas às casas, e se alli Ihes 
fazem proposÌQ5es amorosas, de nenhuma. 
sorte se mostram esquivas, antes acceitam 
logo a troco de alguma cousa que se Ibes de. 

— Todas estas mulberes da India, assim 
christSs ou mestigas desejam mais ter trato 
com um homem da Europa, Chris tao- velbo, 
que com os indios, ainda em cima ihes dariam 
dinheiro, havendo-se por mui honradas com 
isso, por que ellas amam muito os homens 
brancos de cà, e ainda que haja indios mui 
brancos, nSp gostam tanto d'elles,» «nao se 
vestem ao niodo de Portugal, e usam grandes 
pegas de panno de seda, que Ihes servem de 
saias, e tem tambem roupinha de seda mai 
fina a qual chamam bajù. Entre estas esora- 
vas acham-se as mais lindas mógas de tod 
as naQoes da India.» 

A influencia d'este esotismo na alma ^ 
Camoes ficou representada pela fórma encai 
tadora da Endecha a hUa cativa, com que 



iher quo Ine cantava estrophea da apaixonada 

poesìa popolar indù e industanica? Um pad 

cr~io este: <Eu acordei pensando em ti, sem 

ti i3o hai contentamento...» bastava para 

I a< enderlhe todos os desejoB. Escreveu Goè- 

i tt : (Qae ventura 6 ser amado ! E o amar, que 

*nral» E' o caracter do temperamento 



578 H18TORIA DA LITTERATURA PORTUOUBZA 

^1 ■ I - ■ ■— ■■■- ■ .1 I «Il . Ili, — ^^^^. ■ — ■ M , I» 

erotico dos grandes genios, oomo Raphael, 
Mozart e Goethe, que sentiram o etemo femi- 
nino, através de tantos amores que Ihe inspira- 
ram as bellas concepQoes lyricas. Em Gamoes a 
exuberancia da sensibilidade affectiva levou-o 
a confessar que em amor nunca andou a um 
so rèmo. A mulher orientai, uma flora^So da 
feminilidade exotica, fascina-lbe os sentidos 
corno um perfume acre que hallucina e ador- 
menta. O poeta nSo podia ficar frio diante da 
flexuosidade voluptuosa d'aquellas curvas 
que vivificavam movimentos que o envolve- 
ram; nem d'aquelles olhares languidos de uma 
morbidez que magnetisa e quebra a vontade 
pelo desejo. Barbora era o typo da rapariga 
gentia nativa, de um moreno escuro, de uma 
raQa inconfundivel com a negroide ; braQOS e 
collo corno de uma esculptura.de bronza de 
uma correcQao completa, ancas desenvoltas 
pelo habito das dansas hieraticas, que Ihe da- 
vam a todos os movimentos uma flexuosidade 
felina, envolvente, completando a seduc^o 
pelo fulgor estonteante de uns olhos negros, 
azevichados que provocam um desejo infindo, 
que alumiam o sorriso da bocca pequena, or- 
lada de alvissimos dentes com que mastigava 
as plantas aromaticas; um andar leve oomo 
de gazella solta; uma gra^a primitiva corno 
de animai submisso, que 'se entrega ft pri- 
meira caricia. Gamoes nSo podia resistir fts 
mulheres que o dominavam pela desconhecida 
espontaneidade e ternura com que se ? i* 
diam. O exotismo da ra^a é um dos fortef )- 
timulos do amor, comò o confessou Ghatt i- 
briand, nas Memorias de além da cam h 
justificando-se com Gamdes, do qual tradì a 



^ 



580 H18T0RIA DA LITTBBATDRA PORTDOUBZA 



N§o foi s6 na sentida Endeoha que reTO- 
lou CamSes a sua fascinaQ&o pela mulher 
orientai ; na Ode x o poeta corno que se jus- 
tifioa de andar de amores com urna cativa. 
Vé-se pela fórma classica horaciana, e pelos 
exemplos classicos que cita, ime se dirigia a 
pessoas cultas que o increparam d'aquelle sea 
gosto. Tornando por compara^So Àchilles 
apaixonado pela cativa Briseis: 

AIH se viu cativo 
Da cativa gentil, que serve e adora; 
AUi se viu, que vivo 
Em vivo fogo mora, 
jPorque de seu senhor a ve senhora. 



Se agora foi ferido 
]Da penetrante ponta e forga d'herva, 

E se Amor é servido 

Que sirva a linda serva, 
Para quem minba estrella me reserva ? 

O gesto bem talhado, 
O airoso meneio e a postura, 

O rosto delicado, 

Que na vista figura 
Que se ensina por arte a formosura ; 

Como pode deixar 
De render a quem tenha entendimento? 

Que quem nao penetrar 

Um doce gesto attento. 
Nao Ihe é nenhum louvor viver isento. 



dos portos de Ceylao levam moQos e mogas furta^"' 
da terra a seus paes^ e muitas escravas furtadas a s 
donos.» Para atolhar a estes raptos continuadoa 
costa do Malabar e em Ceylao, promulgou D. Jo§ 
a provisao supracitada, mandando que os navios i 
tuguezes andassem munidos com a lista dos passa* 
ros, etc. 



GAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 581 

Gamoes» se n&o estivesse longe de Portu- 
gal, encontraria no Gancioneiro de Resende 
um Yilancéte de D. Joao de Menezes a urna 
eserava sua. Transcrevemol-o, para funda- 
montar o eterno principio da egualdade pe- 
pante o amor: 

Vylancete de D. Joam de Menezes: 

A UMA E8CRAVA SUA 

Catyvo sam de catyva, 
servo d'urna servidor, 
senhora de seu seohor. 

Porque sua fermosura 
sua gra<;a gratis data^ 
triste que tarde mata, 
he por mór desa ventura. 
Que mays vai a sepultura 
de quern he seu servidor, 
qu'a Vida de seu senhor. 

Nam me dà cativìdade, 
nem vyda pera viver, 
nem dita pera morrer, 
e cumprir sua vontade; 
mas paixam nem piadade. 
huma dor sobr'outra dor, 
que faz servo do senhor. 

Assy moìro manso e manso, 

nunca leixo de penar, / 

nem desejo mais descanso ' 

que morrer por acabar. 

Oh que triste desejar, 

para quem coni tanta dor 

se fez servo de senhor. 

(Cane, geì-al, t. i. p. 130. Ed. Stutt.) 

m que epoca foram os amores de Camoes 
1 ^arbora cativa? Pode-se determinal-a 



682 HISTORIA DA LITTBRATURA PORTUGUEZA 



por urna simples inferencia. Partindo Gamoes 
na Àrmada do Sul em Àbril de 1666, che^rou 
a Malaca, cujo commercio com a China fora 
inaugurado por Affonso de Albuquerqae, 
quando alli esteve; em Malaca teve conhecimen- 
to da tradÌQ§o crudelissima, que mancba o cara- 
cter d'aquelle grande capit&o; ainda se fal- 
lava da dureza com que mandou matar o jo- 
ven Boldado Ruy Dias, semente porque an- 
dava de amores com uma escrava sua. ^ Ca- 
mSes cchisignou essa impressfio, que tanto se 
relacionava com os seus recentes amores, no 
Canto X dos Lusiadas^ em que estava traba- 
lli andò: 

Mais estan^as cantara està Sirena 
Em louvor do ìllustrissìiDO Albuquerque; 
Mas alembrou-lhe uma ira que o condena^ 
Postoque a fama sua o mundo cerque. 



Parece de selvaticas brutezas, 

De peitos inhumanos e insolentes, 

Dar extremo supplicio pela culpa 

Que a fraca humanidade e Amor desculpa. 

\ Nào sera culpa abominoso incesto. 

Nem violento estupro em virgem pura; 

Nem menos adulterio deshonesto, 

Mas c'uma escrava vii, lasciva e escura. 

(St. XLV a XI. VII.) 



^ Ruy Dìas era naturai de Alemquert e filh. 
Diogo Dias Bocarro, tabelliào do judicial n'aqu 
terra, i Goes, Chron. de D, Manoely P. ni, cap. 
Apparece este tabelliào corno confrade da Oonfrarii 
Espirito Santo, d'aquella villa, no reinado de D. 
noel. (No Damido do GoeSy n.« 719.) 



]uer època nSo aoceotuaria 
està mancha na acQSo de 
uerque; é pois dos fine de 
eìro trimestre de 1656 que 
tivo da «Cativa gentìl*que 
Bissa paixSo foÌ rapida, ful- 
terrompida pela partida na 
1 que nào podia fallar ante 
'overno de Francisco Bar- 
: expedi^So tinha em vista 
1, sendo alifis considerada 
corno urna persegui^ào. O 
Ita paìxSo hallucìnada pela 
evela-nos.que o embarque 
il cu das Molucas, fora por 
lador em oumprimeoto do 
ne por etneo annos se obri- 
aatricula em Lisboa. * 



kimaSi do Sul ou d 



A India estava esgotada nos seus recursos 
pela expolia(;3o ad mi Distra ti va do funcciona- 
iismo desdobrado capciosamente em urna ma- 
trìcula, em que os mortos aìnda figuravam > 

vencendo ordenados em que se escoava a fa- /. 

zenda real. Procuraram-se novos campos de / 



* Està data é adoiittida pelo Dr. Xavier da Cu- 
, na nionumental edìQào polygloia das Endeclias a 
bora, on a Pretidào de amor. (Lishoa ) 
' Escreve o viajante hollandez Linsrhr>tt ( p. 5 ) : 
es ( OB BoldadnH ) nào podeni partir da» Indias seni 
a dada pelo Vice-Rei, sendo obripadoB a servir la 
■ -j espa^o'de etneo annos.- 



584 H18TORIA DA UTTBRATURA PORTUQUEZA 



explora^ao ; Diogo do Gouto definiu em quatro 
palavras a corrente de inesgotavel riqueza a 
que todos se arrojavam : < tenho ouvido dizer, 
que na China se gasta a maior parte da 
gente da India,T^ E n'esle mesmo dialogo 
do Soldado pratico, pinta em impressionante 
quadro: <a China com as mais partes do Sai 
descobertas, nao se sabe em tudo o que ora 
é descoberto na redondeza do mundo, terras 
t3o ricas, nem abundantes de todalas cousas; 
porque o que em todo o mundo se póde achar 
por partes, alli se acharà junto» ... : ouro, 
prata, cobre, estanho, ferro, todos os outros 
metaes, almiscar, ambar, benjoim, calumba, 
aguila, sandalo, oravo, pimenta mais que na 
India, perolas, camphora; e mais seda sfte 
cada anno da China do que se acharé de li- 
nho alcaneve n'este rèino. multo fertil e abas- 
tado de toda a sorte de mantimentos, e de 
todas as fructas, que se podem nomear das 
nossas» e outras da terra ; as mulher^s multo 
alvas e formosas, vestem de seda tecida oom 
rosas de ouro, e de prata. . .; é terra em que 
se vive sem confissao. nem restitui^So, nem 
ha n'ella Santa InquislQao para se saber 
comò cada um vive.» ( Op. ciL, 97.) A pe^ 
spectiva dos fabulosos lucros levava os solda- 
dos a fugirem ao servigo das Armadas, e 
creavamse os emprestimos para a China, 
com que medrava a onzena dos chatins, mi- 
litares que adiantavam dinheiro aos que se 
achavam favorecidos com urna viagem '? 
mercè para a China. Rodrigues da Silver « 
nas Memorias de um Soldado da India^ - 
screvendo a situa^So dos soldados mal pag v 
fixa està corrente : « Està gente, tanto que ) 



CAMÒBB — EPOCA, VIDA E OBRA 585 

desengana do que passa, procura por todos 
06 meios e vias possiveis buscar algum reme- 
dio para a vida. Porque ser soldado tao longe 
da patria, corner, vestir e calcar à sua custa, 
alngar casa de sua bolQa, comprar armas com 
seu dinheiro, e estar prestes para se embar- 
car na Armada, sem mais que urna so paga 
cada anno, e és vezes nenhuma, — parece 
cousa impossivel a quem nao fdr commenda- 
dor de Malta. 

< Pelo que uns se lanoam para Bengala', 
outros para a China, Malaca, Pegu, Diu, Or- 
muz, Ginde, Cambaia: e muitos se poem por 
soldadps em navios de cbatins aonde posto 
que o soldo nSo seja t9o honrado corno o de 
El rei, é mais proveitoso por ser melhor p/ 
go.» (p. 185.) 7 

N'esta phase da florescencia do comm^^cio 
da China, era difficil arranjar gente p^ a as 
Armadas do Norte e do Sul. Francisc^> Bar- 
reto tinha de ser severo para poder acudir 
ao8 dois Estreitos e a Maiaca. Diogo do Conto 
aponta o caso : « hoje, multo ao contrario, nao 
ha quem os fa^a embarcar ; passeiam por Oda 
todo o inverno; e tanto que entra o verao, e 
que se querem fazer Armadas, sómem-se logo; 
e tanto que sabem que deram & vela, tornam 
logo a apparecer, sem haver Viso Bey, que 
Ihes pergunte por isso; e quando se as Ar- 
madas recolhem, se sabem que hào de man- 
dar soccórro a Malaca, Maluco e Ceilao, alguns 
\ Armadas deixam-se ficar pelas Fortaiezas 
Canard, e os de Gda se escondem pelos co- 
ou pordes; e assim de maravilha succede 
isa bda; nfio ha quem peleje, nem quem 
^•«rra as Fortaiezas ; — e depois de parti- 



586 H18TORIA DA LITTBBATURA PORTUOCTEZA 

das as Armadas os vèem passear pelas ruas 
muito lustrosos, e nSo enforcam quatro para 
terror dos mais; etc.» (Sold. praL, 141.) Sii* 
veira, nas suaa Memorias^ tambem observa : 
«Assiin bei vieto eu; refusando os soldados 
de se embarcarem sem paga, niandal-os ò 
Viso Rey ca<;ar pelas casas e ruas. e levarem- 
nos ao tronco manietados corno se foram la- 
dr5es, e da prisfio os metterem na Armada, 
faltos de armas e vestidos, por terem empe- 
nhado e vendido para comerem aquella in- 
vernada que a malgrado seu ficaram em 
Gòa, onde nào tiveram outro algum soccórro 
mais que do céo e o de sua boa ou ma indu- 
stria.» (p. 184.) 

N'este inverno de 1555 para 1556 des- 
cannava Gamoes em Oda n'essa situa^ào que 
vimos descripta por Silveira; o Governador 
Francisco Bar reto, para vèr se o podia le- 
vantar da pobreza em que sempre andava 
envolto, (corno refere Mariz) deu-lhe ordem 
para embarcar na Armada do Sul ou das Molu- 
cas, provendO'O de qualquer irato, * ou mercè 
de viagem. N3o seria agradavel a Gamoes 
està partida repentina quando estava no mo- 
mento mais exaltado do seu amor pela Bar- 
bora cativa ; d'ahi talvez a sombra de hosti- 
lidade do Governador Francisco Barrato, e a 
referencia nas ii Outavas & rédea dura e ao 



' Lé-se nas Meinorias de um Soldado da Ini 
* tralos e viagenSf que até agora se costumavam 
em satisfa^ào de servic^os: por quanto os boinens 
aqui com esperanQas de virem no firn dos trabalbi 
partici par deste premio, nào recusavam offerecf 
aos perigos. . .> ( Op. cit , p. 247.) 



OAMÒES — SFOGA, VIDA E OBRA 587 



seu pezado governo. A Armada do Sul ou das 
Molucas partiu em Abril de 1556, levando o 
novo Capitao de Malaca Dom JoSo Pereira, 
filho do segando Gonde da Feira, que ia suc- 
ceder ao falecido D. Antonio de Noronha. fi- 
lho do antigo Vice-rei D. Garcia. Com està 
Armada iam de conserva os navios que 
para o Sul partiram ao mesmo tempo, aquelle 
que o mercador Francisco Martins levava 
para o trato da China, e a nào Santa Maria 
dos Anjos, capitaneada por Antonio Pereira 
BrandSo. Em que navio partiu Camoes? 
Storck en tende que foi no que levava o novo 
Gapitào a Malaca: «E' provavel que o Ca- 
moes embarcasse n'esta fróta e abordasse na 
ddade dos Malaios namorados, na primeira 
entrada de Maio...» ^ Storck nSo ohegou & 
prova Clara d'està verdade. A partida de Ca- 
moes na Armada do Sul ou das Molucas, com' 
' direcQào a Malaca, n&o deixando prevalecer 
as obscuridades do problema de Macau, leva 
ft resoluQfio segura d'esse outro intrincado 
problema de Ternate, do qual escrevia Dom 
Francisco Alexandre Lobo : « Severim refere 
com effeito a este anno (1556) a sahida para 
o Sul, com um dos Capitàes dos despachados 
por Francisco Barrato, de que o Couto faz 
mengSo na Decada vii, liv. 4, cap. 3. — Nào é 
incrìvel, que n'esta jornada, passado o estreito 



Vida e Obras, p. 566. Juromenha é de parecer 
ombarcara no navio do mercador Francisco Mar- 

; Evaristo Leoni julga que o poeta embarcara na 
Santa Maria dos A.njos. So quando estes factos 

idos se collocaai no quadro biographico é que 

-"-ena verdade. 



688 aiSTORfA DA LITTERATURA tORlUOUBZA 

da Sonda, fosse ds Molucas e locasse em Ter- 
nate: tem ao contrario probabìlidade, que 
rasoes de politica ou de commercio levassem 
alli o GapitSo que o conduzia, ou que do na- 
vio em que sahiu de Oda, foase passar 
n'aquella ilha para outro, que motìvos de 
commercio trouxessem tambem a Ternate 
desde Macau ou desde as paragens de Ma- 
cau. — Mas este é ainda um dos pontos da 
historia de Luiz de Cam5es em que a com- 
mum opiniào me nSo parece fundada em de- 
cisivo argumento.» ^ Urna interpreta<;^o mais 
segura e luminosa da GangSo vi, dà-nos a 
prova irrefragavei da estada de Gamdes em 
Ternate de Septembro de 1666 a Fevereiro 
seguinte, època do anno em que retoma a 
actividade o seu vulcSo latente. Abrio-nos 
està luz o Dr. Joao Teixeira Soares, nas suas 
Cousas camonianas. 

Podemos seguir o roteiro da nào em que 
partiu Gamdes em 1666: <na mongSo de 
Abril — derrota de Góa para Malaca, com es- 
cala por Gochim» que se faz a dez leguas ao 
mar, e d'ahi se governa a passar 20 a 26 le- 
goas ao longo de Geyiao para fugir aos ven- 
tos do sul, que reinam por aqui debaixo da 
] terra. Gorrendo depois para lèste até vir ga- 

nhar longitude para ir demandar o Ganal eli- 
tre as ilhas de Nicobar e d'ahi embocar o Es- 
treito de Malaca.» * À manifestagio naval em 
Malaca tornava-se uma necessidade impe- 
riosa, porque, comò diz Gouto, no Soldi o 



* Me?n, citada, p. 189. 

* Almeida E<?a, Mem. da Acad., t. x. P. I, p. 




■ m."'* 'iwi 



GAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 589 



pratico : < de urna ìmportanoia é o Aehem 
para seguran^ja de todo aquelle mar. e de 
DOBsas Fortalezas de Maluco e Malaca, e 
Irato da China e Japào^ porque com sua For- 
taleza em seu porto se segurava tudo; etc.» 
(p. 144.) O mercantilismo desvairado apode- 
rara-se de todos os espiri tos, desde os cargos 
da JustÌQa ^ até ao governo das Capitanias, 
que jft nfio eram dadas aos que presta vam os 
serviQos militares. Escreve Silveira: «Pro- 
vendo-se as Fortalezas da India em homens 
militares e nào em mercadores, corno agora se 
usa^ — é cessarem as guerras contra aquelle 
estado, por meio de se atalhar ao capital odio 
que todas as nfios de mouros e gentios da In- 
dia tèm ao nome portuguez, a causa das gran- 
dea forQas e aggravos que por ordem dos 
GapitSes das Fortalezas em nossos portos Ihes 
fazem.» (Mem.y p. 163.^ Era com estes odio- 
808 GapitSes-trafìcantes que ìa Gamdes de- 
frontar-se na viagem da Ghina, exposto im- 
placavelmente ao arbitrio ìrresponsavel do 
seu injusto mando, Duas linhas das Memo- 
rias de um Soldado da India esdarecem a 
brutalidade frequente d'estes conflictos. ^ Em 



A^ j. 



^ < OS cargos da JustiQa da India estam pedindo 
nns ( se Officios \ de mais bico-revolto, por todos se- 
rem do multo negocio e iiiiportancia, e em queospro- 
vìdoB d'elles se fazem ricos em pouco tempo, — comò 
tenliam grossas ordinarias, e a terra consente serem 
''06 mercadores da foleca até o grou, fazem suas fa- 
daSf respondendo-lhes seus empregos nielhor que aos 
ro8 homens pela necessidade que d'elles podem ter 
""e Ih'as feitorìsam » { Soldado pratico, p. 17.) 

« O Capi tao de Malaca tem irato na China e 
- OQtras partes. de cuja carga e retorno nào paga 
'" » nem seus creados e feitores.» (p. 167.) 



590 HISTOBIA DA LITTERATURA POHTnOUEZA 

Ternate (reino de Maluco) estava desde No- 
vembro de 1565 por GapitSo Duarte d'E^a, 
monstre de rapacidade sanguinaria, que A ma- 
neira do Vice Rei D. Aflonso de Noronha 
que expoliara o Thezouro do rei de Ceylio, 
tambem encarcerara o rei de Ternate e toda a 
sua familia. A guarniQào portugueza nfio se 
conformando toda com està fórma de governo 
do Capitào Duarte d'E^a revoltou-se, havendo 
lucta armada, que se tornou sangrenta com a 
chegada da Armada de G6a em AbriI de 
1557 e com a de outros navios vindos de Ma- 
laca. Foi de Setembro de 1556 a Fevereiro 
de 1557, que se viu Camoes no meio d'estes 
violentos conflìctos, chegando a ser ferido, 
comò se deprehende das referencias da Can- 
q3o vi, em que é eloquente a expressSo de 
desolamento do seu espirito continuando o 
estado moral em que se vira no cruzeiro do 
Monte Felix: 



' Nem é para que recitemos as insolencias dos Ca- 
pitàes de Malaca, aonde recebem drogas por um pezo 
grande e as tornam a vender por outro pequeao. E 
sào absolutos senhores de todas as mèrcadorias que 
n'aquelle porto desembarcam. Elles as recolhem todas: 
elles aa trocam : elles as pagam pelo pre^o que que- 
rem. Aos chìncheos e jaus pagam com as fazendas dos 
mercadores da India, a estes com as dos jaus e cbin- 
cheus ; de maneìra que ninguem é senhor de vender o 
que traz nem comprar o que bade levar, por que os 
Capìtàes abarcam tudo. Por està causa engrandecem 
multo a excellencìa d'aquella Fortaleza sobre todas as 
demaìs : que seni tirarem dinheiro da bolsa, de a 
mào para a outra, recebem os Capitàea em cada l i* 
<;!ào os trinta ou quarenta mìl cruzados. . . d'aquin ^ 
serem os portuguezes tao odiados para coro t. ts 
aquellas nagòes do Sul. .» ( Silveìra, meni, de ur l- 
dado da India, p. 170 ) 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 591 



Com for^a desusada 

Aqnenta o fogo eterno J 

Urna Hha, nas partes do Oriente, 

De extrauhos habitada, 

Aonde o duro inverno 
Os campos reverdece alegremente. 

A Lusitana Gente 

Por annas aanguinosaa 

Tem d'ella o senhorio. 

Cercada està de um rio 
De maritimas aguas saudosas; 

Das ervas que aqui nasoem, 
Os gados juntamente e os olhos pascem. 

Aqui inìnha ventura 

Quiz que urna grande parte 
Da Vida, que eu nào tinha, se passasse; 

Para que a sepultura 

Nas mào8 do fero Marte 
De sangue e de lembrangas matizasse. 



E depoìs de descrever em quatro bellissi- 
mas estrophes a emoQ&o viva do seu amor 
desde o affastamento da córte até este mo- 
mento em que sente perdida toda a espe- 
ranQa, e nem mesmo se offende de vèrse es- 
qaecido. volve outra vez fi paizagem da iiha: 



Rio formoso e olaro, 

E vós, oh arvoredos, 
Que 08 justos veneedores coroaes, 

E ao cultor avaro, 

Continuamente ledos, 
De um tronco sé diversos fruetos daes; 

Assi, nunca sintaes 

Do tempo injuria alguma! 

Que em vós achem abrigo 

Ab maguas que aqui digo, 
Emquanto der o sol virtude a lua ; 

Porque de gente em gente 
3aibam, que jà nao mata a vida ausente. 



i 



592 HI8TOR1A DA UTTB&ATURA POSTUOUBZA 



Refere-se està Cangio yi & ilha de Ternate, 
corno entendeu Severim de Faria? cN'este 
tempo em que andou pelas partes do Sul ee- 
teve nas ilhas de Maluco, e particularmente 
em Ternate, e de quem e do seu vulcSo qae 
estfi no cimo do mar, se faz particular mengSo 
na Cangio que diz: Com forga desusada, 
etc.» 

No Canto x, estrophe 132. dos Lusiadas, 
descreve Camoes o Archipelago das Molucas, 
ospecialmente Ternate, em que repete os 
mesmos caracteristicos da CangSo vi: 

Olha cà peloB mares do Oriente 
As infinitas Ilhas espalhadas : 
Ve Tidor e Ternate, co'o fervente 
Cume, que lanca as flatnmas ondeadas; 
À8 arvores veràs do oravo ardente, 
Co*o sangue portuguez inda eompradas, 
Aqui as aureas aves, que nào desceiu 
Nunca a terra, e so mortas apparecem. 

O Dr. JoSo Teixeira Soares fez a prova 
completa de que a Cangio vi contém a de- 
scripgio exacta de Ternate ; oomecemos pela 
identificagao do vulcio. ^ Diogo do Couto 
descreve o com circumstancias que coincidem 
com as referencias de CamSes : < O monte de 
Ternate, que se alevanta do melo da Uba, 
sera de altura de duas léguas, e é todo cheio 
de arvoredo e de palmares: no melo d'elle 
tem uma estranha cova, que pareee que desoe 



^ O Dr. Storck complicou o problema, dìzeL 
que o poeta nào mencìona o vuloào de Ternate, (Vi 
p. 544) mas sim o da ilha de Banda, onde grata 
mente localisa a Cangào vi. 



GAHÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 593 

« «atro. ,u, é «o ..rg. n. bocc. ,„, „o.,. 
samenle se enxerga um homem de urna banda 
& outra,... O chào que em baixo apparecei 
ferve de continuo com a forga de fogo que 
tem por baixo, e lan^a para cima muitas ve- 
268 um tfio espèsso e fedorento fumo, que 
parece cousa que se póde palpar, e fede a 
enxofre, e a voltas lan^a urna grande quanti- 
dade de pedras vermelhas comò fogo, que se 
espalham pelos fires comò se sahissem da 
bocca de furiosas bombardas e espalhando-se 
por teda a ilha, com grandes terramotos, e 
càem sobre a nossa Fortaleza e sobre a ci- 
dade, e algumas vezes se achou irem dar de* 
zoito e vìnte leguas de Ternate.» 

Este fogo eterno, que aquenta a Uba de 

Ternate, appresentava uma circumstancia es* 

pecial. que o sìngularisava entre os outros 

vulcoes, comò observa Joào de Barros : < Quiz 

Antonio Galvfio vèr aquelle mysterio da na- 

tureza, porque da Fortaleza de San Joio 

viam no cume da liba vaporar fogo ao modo 

que vèmos um forno de cai quando cometa a 

cozer, sem luz algunta de dia, e de noite era 

cousa espantosa vèr as córes e faiscas de 

fogo e rescaldo que langava em tòmo, co- 

brindo muita parte do arvoredo, da maneira 

que se elle cobre quando n'estas nossas re- 

giOes neva. Porém, isto nSo todo o anno, so- 

mente noa mezes de Septembro e Abril^ 

quando o sol se muda de uma parte a outra, 

3 passa a linha Equinocial, que corta melo 

Lo d'està ilha...» (Dee. ni, liv. 5, cap. 5.) 

\ por tanto no mez de Septembro de 1566, 

) observou Gamoes este phenomeno da re- 

"^Boencia do vulcio maravilhoso de Ter- 



594 H18TORIA DA UTTBBATURA PORTUGUBZA 

. . Il[ - - — MM^IM l»^! ■ Il !■ I ■— I I I mi 111 I 11 «M^ ■ ■■■ M BM ^^^ 

nate, demorandp-se ahi até depois de Abril 
de 1557, passando grande parte da vida^ 
que ndo tinha. Teixeira Soares mostrou corno 
as mais notaveis circumstancias topographi- 
cas e outras da Can^So vi assentam na liba 
de Ternate, achando na passagem dos Lusia- 
das o bastante para estabeleoer a identidade 
da situa^ao geographica. O verso : De extra- 
nhos habitada, commenta-o por està descrì- 
PqSo de Jo3o de Barros : < E duas consas de 
um argumento para se poder affirmar que os 
habitantes d'ellas sio de mui varias e diver- 
sas naQoes: a primeira, a ìnconstancia. odio, 
suspeitas e pouca fé, que entro si tém...; e 
a segunda, a grande variedade de suas lin- 
guagens, — de maneira que um logar nSo se 
entende com outro, e comò s9o varias, assim 
é o tom e modo diverso : ... E porém todos 
eonfessam ser estrangeiros e n9o proprios in- 
digenas e naturaes da terra » 

E n'esta phrase de Diego do Gouto: 
< IPestas Ilhas todas ndo ha verdo nem iih 
verno > acha-se o sentido dos versos : 

Àonde o duro inverno 
Os campos reverdece alegremente. 

■ 

O facto historico, da sustenta^ao do se- 
nhorio das Molucas Por annas sanguinosas, 
é identificado por Gamdes nos Lusiadas (x» 
132) no verso: Co^o sangue portuguez inda 
eompradas. Uma particulandade topo( 
phica fixou CamSes no verso : 

Cercada està de um rio 
De maritimas agtuia sandosas. 



GAMÒBS— EPOCA, VIDA E OBRA 595 

Teixeira Soares projecta toda a luz sobre 
està particularidade : <A Ilha de Ternate 6 
circumdada de um recite de coral, onde o mar 
quebra, ficando entre ella e a Terra um corno 
rio^ e nos logares em que a terra fórma ba- 
hias offerece seguros ancoradouros.» Aos que 
imaginaram vèr na Can^So vi referencia a 
6da {ilha apenas por ser circumdada pelo rio 
Mandovi) opp5e o camonista aQoriano: «As 
suas aguas pela proximidade do mar sio sa- 
lobras, mas nào maritimas, e pouco saudosas, 
pois que se acha povoada de corcodilos em 
tal abundancìa, que mesmo nos passos mais 
breves é impossivel por causa d'elles a passa- 
gem a pé.» ^ Completa a,sua prova de que nao 
poderia referir-se a G6a Gamoes, quando es- 
ere veu : 

Quem póde imaginar 

Que houvesse em mim peccado 

Dignp de urna iko grave penitenda 



Gangao n^este desterro viveràs. . . 

cnunca poderiam no seculo xvi ser appli- 
cadas a U6a, que mesmo com rela^So à popu- 
lafSo portugueza, era depois de Lisboa, uma 
das nossas primeiras cidades. A qualifi- 
ca^So De extranhoa habitada, era de mais 
inadmissivel.» Teixeira Soares nSo explicou a 
aUuB&o à lucta r^as màos do fero Marte^ ma- 
tizudo-a com o seu sangue ; a deposi^ào vio^ 
ta e prisSo do feroz Duarte d'E^a, capitSo 



^ Cousas camonianas, (Velense, n.*' 46, de 23 de 
-*^To de 1881. — Ilha de S. Jorge.) 






596 HISTORIA DA UTTBBATUBA POSTUaUEZA 



de Ternate, em 1557, mostram-nos ter Ga- 
mdes tornado parte n'essa lucta. Sobre este 
ponto escreve o Dr. Storck : e Na epoca d'es- 
tas graves e f unestas desaven^as, que inquie- 
taram durante dois annos o grupo das ilhas 
Molucas, é que na minha opiniSo rec&e a es- 
tada do Poeta. — Mas nada arrìscamos sup- 
pondo que o procedimento de Duarte d'E^a 
o indignarla, causando-lhe profunda repu- 
guancia. Bravo e valente corno todos os seas 
compatriotas, teria tambem feridas que curar. 
— O poeta pelejou portanto por mar nas re- 
gi5es molucas.» ( Vida^ p. 571-3.) Quando 
Humboldt, no Cosmos, caracterisa o senti- 
mento da natureza expresso noa Lusiadas, 
deriva essa verdade das impressòes immedia- 
tas recebidas por Gamoes: «Este caracter de 
verdade, que nasce de uma observa99o di- 
recta e pessoal brilha no mais aitò grfio na 
Epopèa nacional dos Portuguezes. Sente-se 
exalar comò um perfume das fldres da India 
através d'este Poema* escripto sob o céo dos 
tropicos, na grutade Macau e nas Ilhas Mo- 
lucas. ^ ' Os profundos conhecimentos geogra- 
phicos de Alexandre de Humboldt dSo fis snas 
palavras uma grande for^a comprobativa na 
interpreta^So definitiva da GanQSo vi. 

Gam5es percorreu as Ilha^ das Espeeia- 
rias, visitando a Uba da Banda, celebre pela 
sua producQfio da noz moscada: 



Tomo 11, p. 65. Trad. Gralusld. 



CAMdBS — EPOCA, VIDA B OBB^k 597 



Olha da Banda as ilhas, que se esmaltam 
Da varia cor que pinta o ròxo f ruoto, 
AS aves variadas qùe alli salta m 
Da verde noz tornando seu tributo. 

(Cant. X, 8t, 133.) 

Depois de Ternate e Bandai era Amboina, 
que fechava o grupo em que se concentrava 
lodo o commercio da especiaria. À provi sao 
dada por Francisco Barreto a Gamoes para o 
levantar da pobreza em que sempre andava 
envolto, (Mariz) seria pois no irato das Molu- 
cas. Pela interpretagSo que dèmos a uma es- 
trophe da CanQ&o xvi, pareceu-nos vèr uma 
referencia fi ilha de Amboinay formada por 
dnas peninsulas montanhosas, entre as quaes, 
pela revoluQio geologica que as separou està 
ì volta a bahia, que nSo ultrapassa setecentos 
metros; do lado da cidade, corre entre opu- 
lenta verdura para o mar uma ribeira. Agora 
a estrophe camoniana : 

Por meio de umas serras mui fragosas, 
Gerradas de silvestres arvoredos, 
Return bando por asperos penedos, 
Correm perennes a^uas deleitosas 
Na rìbeira de Boina assi chamada. * 

No poemeto intitulado Historia da Arvo- 
re triste^ em outava rima, ' acham-se algu- 
mas estanoias com successos que so condizem 
com Gamdes, na sua passagem por Amboìna : 



Vid. retro, p. 406, a interpretagào de Juromenha. 
' Impresso pela primeira vez na Fenix Renas- 
> t. IV, p. 1 a 33, com o nome de Francisco Rodri- 
' Lobo, por attribui^ào gratuita. 



l 



598 HIBTORIA DA LITTEBATURA PORTUGUEZA 



Depois, minha senhora, que partido 
Fui d'este Reino a India a vez primeira, 
Andando de desastres persegiiido, 
Seguia de meus fados a carreira ; 
De muitas desventuras combatido, 
Qual vae o sol te seixo na ribeira, 
Levado a rail perigos cada bora, 
De um mal que me magoa ainda agora. 

Algumas terras vi, que andei vagando, 
E n'ellas muitas cousas excellentes ; 
Cora mui diversas gentes conversando, 
Ouvia mil historias differentes ; 
De muitas antigualhas escutando 
Os deleitosos contos apparentes, 
Ouvi de amor effeitos namorados, 
Tambem successos tristes, desastrados. 

Um dia pois, jà tarde, que pousava 
Do meu largo caminho assàs cansado, 
Ao longo de Ambond^ que perto estava, 
Nas ribeiras do Ganges situado : 
As magoas pensativo imaginava, 
Fazendo alarde alli de meu cuidado, 
De mil lembran^as tristes, que nasciam 
Co'as aguas que meus olhos derretiam. 

Um Bramane, djaquelles moradores. 

Movido a piedade e pesaroso 

De assi me ver sujeito a tantas dóres, 

Ou foi que de sagaz e curioso 

Por se informar de mim, se alguns amores 

Causavam meu estado lastimoso, 

Fallou-me, comò quem co'os Portuguezes- 

Tratava dentro em Góa muitas vezes. 

De muitas varias cousas foi tratando, 
E todas a fim so de consolar-rae, 
De ritos desvairados relatando 
Mil contos, que podessem deleitar-me; 
— Agora (disse) attenta : <e apontando 
Co dedo ) se quizeras escutar-me, 
D'està Arvore direi a doce historia, 
E o nome que tem triste por memoria. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 599 



Segue-se em setenta e seis estancias a His- 
torìa da Arvore triste, cuja lenda se acha 
tambem refenda pelo Dr. Garcia da Orta, e 
era multo popolar no Oriente. No quadro do 
poemeto, as ultlmas estancias de urna prophe- 
cia do Brahmane ficerca dos amores do Poeta : 

Aqui nào te desrnaies, se constante 
Vencer queres fortuna, amor e a ella ; 
Tua alma Ihe daràs de esposo e amante. 
Que tudo te merece a nympha bella ; 
Pois tanto que vos vìrdes em diante, 
( Que Venus o demonstra em vossa estrella) 
Com al tornado amor sereis amados, 
E de urna mesma fé remunerados. 

Aquella emoQao que tanto predomina na 
segunda parte da OangSo vi, feita em Ter- 
nate, sob urna tao grave penitencia, revela-se 
ainda no mesmo estado psychologico do Poe- 
meto da Arvore Triste, em Ambonfi. 

A nào ser pela provlsào do trato da espe- 
darla, nSo se póde expllcar este facto- alle- 
gado pelo annotador da edi<;So dos Licsiadas 
de 1585 (dos Piscos) relativo a Camdes: 
^eomegando a fortuna a favorecel-o, e tendo 
algum fato de seu.>.T^ Pedro de Mariz deu 
mais relévo a està revelagào: «Mas nem a 
enehente de bens^ que la grangeou o póde li- 
vrar que em terra nào gastasse o seu liberal- 
mente.y Bem comprehendidas estas affirma- 
tivas, nio se entenda que Camdes se entregou 
pessoalmente ao trofico nas Molucas, mas sim 
'^"3 vendeu a mercadores ou tomou parte nos 

)ro8 correspondentes ao privilegio exclusivo 
sua provisSo. Escreve Linschott, no seu 

lerario :. « A carreira da China e de Malaca 
3lo contrario livre a todos os mercadores, 



600 HISTORIA DA UTTBRATDRA POHTUGUBZA 



que podem carregar fi vontade. — Gomtado, 
ninguem póde vender, comprar e carregar se 
nfio depois da nào officiai ter a sua carga 
completa.» (Gap. 25.) Àcompanbaria a provi- 
sào do trato a mercè de urna viagem ? Assim, 
era um ganho certo e immediato, apezar da 
rapinagem dos CapitSes das Fortalezas. Urna 
viagem para a China era para deixar am 
homem rico ; uma viagem para o Japào, era 
uma mercé para guindar um ambicioso fi opa- 
lencia. Escreve Diogo do Conto, no Soldado 
pratico : « uma viagem para a Gbina, e urna 
nfio pela via de Bengala, e d'abi para Malaca, 
e de Malaca a Sunda; com estes f avores e 
ajudas tirarfi de Ifi mais de cincoenta mil crii- 
zados. » (pag. 4B.) — e uma viagem do Japio, 
setenta a outenta mil pardfios cada uma.> 
(Ib,, p. 157.) O eabio Dr. Garcia da Orta, que 
deu intimidade a Gamdes,^ falla d'este espan- 
toso commercio da Ghina : < E sabei que as 
mercadorias que d'ella vém, s3o: leitos de 
prata e baixella ricamente dourada, seda scita 
e tecida, ouro, almique, aljofre, cobre e por- 
celana, que vale fis vezes tanto, que é mais 
que prata duas vezes.» Gam5es regressou das 
Molucas ao emporio de todo o commercio do 
Sul, fi — Opulenta Malaca nomeada, (Lu8,, x, 
44) a Aurea Chersoneso da tradi^fio classica; 
alli se accumulavam todas as mercadorias: 
€ OS cravos de Tidore e de Ternate, a canella 
de Geylao, a fldr e massa da noz moscada de 
Banda, o sandalo de Timor, o benjoim e oi > 
de Sumatra, o zinco de Branca, prata e oob > 
do JapSo, as sedas, lougas e mimos da Chi 
e de Siam,. OS rubis e laccas do Pegu, os 
eidos finos de Bengala, o aljofar e as pere 






CAMdBfi — EPOCA, VIDA E OBRA 601 

de Calecaré, diamantes de Narsinga, e muitas 
ontraa preciosidades ...» N'este maio activis- 
Simo pdde Camoed ter algum facto de seu^ ou 
' grangear alli urna enchente de bens. Como é 
qae elle subitamente se dirige para Macào na 
corrente d'esse anno de 1567 ? ^ 

O commercio dos portuguezes com a Chi- 
na, obteve amplas faculdades desde 1564, * 
dando ao mesmo tempo logar a urna terrivel 
pirataria chim centra as cidades maritimas de 
GantSo. Os mercadores portuguezes accudi- 
ram a aste perigo, dando uma campanha na- 
val decisiva centra esses piratas em 1667. 
Como vimos, partirà de Gda em 1656, com- 
boiando com a Armada do Sul, uma esqua- 
drilba de seis velas oommandada pelo merca- 
dor Francisco Martina ; d'ella falla o celeber- 
rimo via j ante Fern&o Mendes Finto, comò 
tendo aproado ao porto de Lampacau. Foram 
08 navios d'està frota, que acudiram para 
desfazer o bloqueio posto pelo terrivel pirata 
Obam-si-lau fis cidades maritimas do Cantfio ; 
tendo alcangado completa Victoria sobre elle, 
foram perseguii- o ao seu reducto na ilha de- 
BevìBL de Macau, entSo um esteril escdlho. 



' Scprck, Vida, p. 568, seguindo Barro8, Decada 
I, lìv. 8, cap. 1. 

* Lé-se em Carta do P. Luiz Froes, de 2 de De- 

zetubro de 1655: « tudo sera vir aqui a Malaca, e 

d'aqui ir a China a buscar passagem para Siam, e em 

DI invernar esse anno até achar passagem para là. 

?. Beicliior esteve aqui o anno passado mui movido 

indo soube que os Portuguezes tinham entrado em 

fUào e que se comegavam a tratar pazes e capitular 

certos OS portuguezes com os Chìns para ir a volta 

^hina,» 



i 



602 HISTORIA DA UTTERATURA PORTUGUBZA 



Depois d'este triumpho, é que os Mandarins 
de Gantao, para sua seguranga, pediram ao 
Imperador da China, que consentisse que se 
estabelecessem os Portuguezes em Maoau. O 
commercio portuguez com a China fizera-se 
até 1553 na ilha de San-choan, em cujo porto 
communicavam os mercadores que vinham de 
Malaca; em 1554 foram for^ados a mudarem 
para o porto de Lampacau, seis leguas ao 
norte de San-choam e onde negocifimos até o 
anno de 1557, em que concederam o sitio ou 
ilha de Macau, em que hoje estamos,> ^ A oc- 
cupagào graciosa de Macau é assim descripta 
em Reynal : « Os Portuguezes com as cabanas 
e feitoria que tinham em San-choan, e com a 
liberdade que o governo da China havia con- 
cedido ao seu commercio, quando se offereceu 
uma occasiào de procurarem um estabeleci- 
mento mais solido e menos dependente dos 
Mandarins, que commandavam sobre a costa. 
Um pirata chamado Cham-si-lau, que se tinha 
feito poderoso por suas pilhagens, tinha-se 
senhoreado da pequena ilha de Macau, 
d'onde tinha em bloqueio os portos da China, 
E 8 te pirata foi pdr sitio a Cantao ; os Manda- 



* Bispo Saraiva, Mem, sobre Macau, Voi. i, p 142. 
(Ap. Ta-Ssi-Yang-Kuo, p. 160.) — «nós partìmos d'està 
ilha ( San-Choam} para outra que està mais adiante 
seìs leguas para o norte, charnada Lampacau, aonde 
n'aquelle tempo os Portuguezes fazìam sua veDiaira 
com OS Chins, e ahi se fez sempre até o anno de 15* , 
que OS Mandarins de Oantào, a requerìmento dos i - 
radores da terra, nos deram este posto de Mae , 
aonde agora se faz, no qual, sendo antes ilha dese. , 
fizeram os nossos huma nobre povoaQào...» {Perei • 
naqdes de Fernào Mendes Finto, cap. 221.) 




OAM 5bS — SPOOA, VIDA E OBRA 603 

rìns das visìnhangas recorreram aos Portu- 
gaezes, que tìnham navios em San-cboam; 
estes correram em soccorro de GantSo e fize- 
ram levantar o sitio; alcangaram urna Victoria 
completa sobre o pirata a quem perseguirà m 
até Macau, onde elle se matou a si mesmo. O 
Imperador da China, informado do serviQO 
que OS Portuguezes Ihe acabavam de fazer, 
Ihes ficou reconhecido e Ihes fez presente de 
Hacau.» O feito deu-se em 1567, e por tanto 
a ocoupaQ&o effectiva dos Portuguezes fixa-se 
em 1568. Como podia o Goyernador Fran> 
cisco Barrato nomear em 1556 CamSes Pro* 
Tedor^mór dos Defunctos e Ausentes de Ma- 
cau, quando era entfio um esteril escolho, re- 
fugio de piratas chinezes? E comò podia vir 
Gam5es em 1558 capitulado sob prisào para 
6òa, por actos d'essa gerencia ? Elimine-se 
por anachronico e moralmente absurdo esse 
facto incongruente na vida do Poeta. ^ 



^ O bìographo D. Francisco Alexandre Lobo, com 
lucido criterio psychologico reconheceu a incong men- 
cia do cargo de Provedor dos Defunctos e Aiisentes 
com o caracter garboso do Poeta : « Nào dizia multo o 
officio com a nobreza de Luiz de Gamoes e ainda me- 
nos com as suas inclinaQÒes marciaes e exaltado amor 
da gloria.^ (Mera, cit., p. 192.) A corrente dos bio- 
graphos continuou até Storck a investir Camòes do 
imaginado cargo de Provedor dos Defunctos de Macau, 
e Camillo Castello Branco, para explicar a prisào do 
poeta, chega a.accusal-o do crime de peculato! Eis o 
( — ! escreveu nas suas Notas biographicas: « Sem umas 
j ^rroittencias de estouvanice dissipadora e destem- 
ada desordem de costumes, Camòes seria a exce- 
do genio. Tem o jtalento transcendente crises ver- 
nosas, doudices sublimes que oextraviam de prom- 
do bem viver. — Parece que nào procedeu com o 



L 



604 HI8TOR1A DA LITTBRAtORA PORTUGUfiZA 

Porque apparece, tendo partido de Malaca 
em 1557 Oamdes, logo no momento da occn- 
paQSo portugueza em Maoau? E' porque Fran- 
cisco Martina pedira navios de Malaca para 
dar a sua batalha decisiva contra Gham-si-Ido, 
e Camdes d'ahi partiu a tornar parte na gloriosa 
campanha. E' a logica dos acontecimentos ; 
Juromenha, por outras inducQòes, chegara ao 
mesmo resultado : < O numero de velas de que 
se compunha a Armada de Francisco Martine» 
e a epoca em que se achava estacionado no 
porto de Lampacau, induzem-nos a acreditar 
que ao nosso Poeta coube a ventura de par- 
tilhar a gloria d'este feito militar.» (Obr.^ i, 
73.) E' admissivel que a par^da da Flotilha 



espolio dos Defunctos e dfreitos dos Àusentes de modo 
mais zeloso e exeraplar que o communi dos Provedo- 
res das cidades asiaticas.» (p. 59 e 60.) — « OamoesDào 
poderìa ainda iilibar-se da nota de peculato, quando o 
Gonde de Redondo Ihe deu liberdade.» (p 56.) «a sua 
liberdade foi acto arbitrario e por ventura equitativo 
de dois governadores. . .» <p. 58.) «Se Luiz de Camòes, 
em pureza de costuraes, condissesse com a sobrexoel- 
lencia do engenho, seria um exemplar unico do talento 
irmanado com o juizo.» (Op. cit, p. 7^ E para escre- 
ver isto, dizia Camillo ao editor Chardron : *admiro 
pouquissimo o poeta, e nào sei soprar a bexiga da 
admiragào convencional. . .» E pelas 32 pagi nas das 
Notas biographicas, inclue em outra carta: e Se qnizer 
pode entregar ao portador 16 libras.» ( Noinstitutode 
Coimbra, voi. 53, pag. 510 e 511 ) 

Declarou Camillo que admirava pouquissimo o 
poeta; mas a Camoes podem-se applicar as palav^*^ 
que dizia Goethe sobre Shakespeare : « é um sér se 
rior para o qual levantamos os olhos, e que deve 
venerar.» 

Antes de Camoes chegar a India em 1553, j 
sentia a necessidade de tirar aos Provedores dos 
f unctos e Àusentes as funcgoes de Theeoureiros da^ 



OAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 605 

de Francisco Martins em 1556 estìvesse no 
plano de Francisco Barreto, de um ataque aos 
piratas chinezes para proteger o commercio 
do Japfio; que o provimento de Gamdes se 
reiacionasse com a condicio d'este servilo: 
— Ale à longinqua China navegando. 

Severim de Faria, sempre o mais bem in- 
formado dos biographos, fixa com nitidez : 
e A assistencia de Macau parece que foi a ul- 
tima do tempo que andou no Sul, pois vindo 
de là padeceu naufragio, que foi o derradeiro 
traballio antes de chegar a Gòa.» A època 
d'esse naufragio, coUocada por todos os bio- 
graphos em 1558, tornava breve a perma- 
nencia de Camoes em Macau; sabe-se hoje 



recadaQoes dod espolios ; assim o reclamava o celebre 
védor Sìmào Botelho: «parece que havia de haver The- 
soureiro do dinheiro dos Defuntos, porque sera melhor 
despacho para as partes, e andarà o dinheiro mais li- 
quido e certo, quando o nao houver de arrecadar a 
pessoa que houver de julgar.» (Carta, na Colìecq. dos 
Man. ineditos para a Hist. dos Conq, pori., t v i. 
Como eram frequentes as reclama^oes àeerca das he- 
ranoas ultramarinas, em 2 de Janeiro de 1556 era ex- 
pedido para a India ò Regimento do Thesoureiro dos 
Defunetos. Como é que o Provedor podia guardar em 
si dinheirofl que so deviam ser arrecadados por um The- 
soureiro? Bm 1557 recebia o Viso- Rei D. Constantino 
de BraganQa, antes de partir, Instnicgóes para a boa 
arrecada^ào: « A.ssy mesmo vos recommendo muito o 
bom recado das fazendas dos finados. E de mandardes 
80 Provedor-mór e Provedores d'elles, que tenham 
grande cuidado de se fazerem os inventa rios com toda 
a **deiidade em tudo o que tenho mandado por meus 
i 'Òmentos.* (Àj>. Jur., Obras, i, p 496, not. 42.) 
C Qo podia Gamoes, na phrase de Mariz, que «no mar 

fiesse o das partea, em un^ naufragio horrivel ?» 
ra imbecilidade, ante o Regimento do Thezoureiro 
e Defunotos. 



606 HI8TORIA DA LITTBRATURA PORTUGtJBCA 



pelas Gartas do Japào^ que o naufragio suc- 
cederà pouco antes de Novembre de 1559. 
Todas estas datas se relacionam com os phe- 
nomenos naturaes das MouQòes, dos tufoes e 
das cheias periodicas. Escreve Linschott no 
seu Itinerario: € Parte-se em Abril de Góa 
para Malaca, onde s3o for^ados de se demo- 
rarem algum tempo esperando as MonoSes. . . 
De Malaca navegam para Macau^ e alli pelo 
espaqo de nove mezes e algum pouco mais 
esperam outras vantagens dos ventos pelos 
quaes sSo levadas ao Japdo; alli passam al- 
guns mezes esperando o vento proprio para 
tornarem a Macau, onde sao forgados a es- 
perar outra opportunidade, no que gastam 
tres annos em ir e vir n'ésta viagem. Por 
melo d'estas viagens do JapSo, mudam-se 
tambem os Governadores de Macau«? (p. 46.) 
Aqui està justificada a permanencia de Ga- 
moes em Macau em 1558, tendo terminadoos 
seus ciuco annos de servilo militar na India, 
e podendo, em quanto esperava a toma-via* 
gem do Japfio, entregar-se aos ocios contem- 
plativos na elaborando da sua Epopèa. Pelo 
facto da omissfio do nome de Maoau entre as 
descripQdes geographicas de CamSes, aventa- 
ram sobre isso que o poeta nui\ca alli esti- 
verà. ^ D'onde partiu o poeta» quando soffrea 



^ < Referìndo-se ao Capitao illastre, a Densa re- 
fere-se a Asia, ó Africa, ao Brasi!, ao Padfioo, ao )- 
treito de Magalhàes, aos pampas da Patagonia, ao e o 
de Timor, a Ternate nas Mólucas, às iibas de Bant i, 
Singapura, a China e ao JapSo, emfim ao inundo tr o 
onde Portugal pisou armado; entretanto em tod o 
Poema, nao dà o menor indicio de que exista Ma< , 



■OCA, VIDA B OBBA 607 

em que fez para a China, 
itador de 1586? ' Unioa- 
torDa-viagem da Ndo da 
le desde 1655 fazia a car- 
3Dtre Gda, China e JapSo. 
que na oooupaQ3o de Ma- 
e demorou o poeta nove 
159, que tSo até Outubro, 
ticado o naufragio n'esse 
lo P.^ Balthazar Gago. 



te e OS biographos dizem, que 
ama, A rasào de tal silencio é 
'■d eateve, e Uacau nao exÌBtfa 
> o poeta esteve na India.- 
si proprio: 

'gau aìnda depois de 1567 nào 
lencente à Coròa portugueza; 
nao era cìdade, era um porto, 
tnte, e so tinha a auctoridade 
ruza, em quanto o capitao da 
esem bardava armado e gover- 

o entendia So em 1 583, 

do governo de Barreto, e cinco 
, e trea depoia da morte de Ga- 
mòes, e ja no dominio heepanhol é que encontro pela 
prìmeira vez o nome de Macau, reeebendo a pedido 
doB sens habitantee os force de Cidade...; e so em 
1596, quando aa bandeìrae portugùezas estavam ar- 
readas em todo o mundo — é que o porto de N'gau foi 
cbamado officialmente por O. Filippe Cidade do Santo 
Nome de Dette de Macau (Ann. da Aeaoc. Marit. e 
Colonial, 1841, p. 440.)< Na Opiniào, de 19 de Sept. 
1906. 

1 Garoez Ferreira entendeu eetupidamente està 
Brencia— gnando vìnha em viagem para o Sul (pas- 
ta a Coohincbina e inclinando para o Golfo de SiSo); 
Ita notar qne o poeta se achava aob a ordom de pn- 
>, o injueto mando, para concluir que o naufragio 
ia toma-via gè m. 



608 H18TOBIA DA UTTERATURA POSTUGUEZA 



N'esse periodo de tranquillidade, gustando 
muito liberal e magnifico os bens temporaes 
que alcantara, corno o refere Fedro de Mariz, 
(a enehente de bens) ^ suscitou as invejas em 
volta de si e viu-se mexerieculo por alguns 
amigos, de quem menos esperava. E' n'este 
profondo isolamento, que a tradi^So repre- 
sentou o poeta refugiando-se em urna gruta 
formada por trez fragas no alto de um monte 
nos campos de Fatane, ao norte de Macau. 
Soneto CLXXXi, dà a impressao d'esse refugio, 
aonde, comò se dizia na linguagem do sea 
tempo, elle ia gosar algumas hortis de so: 



Onde acharei logar tao apartado 
E tao isempto em tudo da ventura, 
Que, nào digo eu de humana criatura, 
Mas nem de féras seja frequentado? 



^ pequeno capital que poderia Gamòes ter al- 
cangado na carreira da China provlria da venda de urna 
viagem de mercé, que em geral Gustava ome mil par- 
ddos de realea; lé-se na Lista de todas as Gapitanias e 
mais Cargos que ha na India, de 14 de Dezembro de 
1616: 

« D'estas viagens se tirava antiguamente moito, o 
que se nào faz agora, estao muyto abatidas por caosa 
da muita seda que os Castelhanos e Chincheos levam 
a Japào. E assy nao rendem oje ametade, do que rea 
diam antigamente. E nào se póde dizer o que d'ellas 
se póde tirar por depender da valia que as fazendas 
teem em Japào. E em tanto que ganhando ante» fnais 
de oUenta por cento nas fazendas que de Macau se |j 
vavam na Nào de Viagem, de presente se ganha a i 
por toc, sendo muito maior o risco que antes, pc b 
rebeldes terem jà feitoria no Japào e navega i 
n'aquelle mar e còsta em essas nào6:> (Op. cit., p< 
Lisboa, 1901.) 



POCA, VIDA E OBRA 



aedonho e carregado, 
taria, triste e escura, 
ira ou placida verdura ; 
canforme a meu cuidsdo? 

enlranhas dos penedos 
to, aepultado em vida 
ìiosa e livremente, 

Wa. pena é sem medida, 
i triste eoi dias ledos, 
I me farào contente. 

deuominada pela tradi^So 
le Camòes em Macau con- 
topologicos d'este Soneto. 
llezamentoa tnodernos de 

da montanha sobranceìra 
. de Fatane, escreve o ofEl- 

M. Bordalo: (Eil-a, dou8 
rpendieulares e proximos 
ientam um teroeiro, que 
Gruta,» ^ N'eBta solidSo, 



:t, p. 36. O general Frederico 
) asaim a Gruta: • Quasi ao cen- 

r JS m^'s elevados da delicioaa 9Ì- 

tnacào — se via uni rochedo naturai de pouco mais de 
"oatro varas de altura, contendo na base uniaabertura 
m fórma de arco irregular, de sete a outo pés de ele- 
tto interior, coq) pouco nienos comprimente e lar- 
ara, aberto por amlras os lados, corno para deixargo- 
ir a quem alli ee recolbease das encantadoras per- 
pectÌTas... 

• lima das maiores provas de reapeitosa oonside- 

a(Ìo que deviam tributar-se a esclarecida memoria do 

f to poeta, seria sem duvida a conservaQào da Gruta 

predilecta, no mesmo estado em que existia quando 

<^ a frequentava. Nao foi isto porém o que aconteceu, 

p que o antigo proprietario do logar, por falta de 

to seu ou quì^a por mal aconselhado, a mandou 

lei^oar por canteiros, desbastando aa salienciaa 



n 



610 HI8TORIA DA UTTERATURA PORTÙOUBZA 

d'onde o poeta no mais absorto recolbimento 
avistava o mar, que Ihe inspirava a Epopèa 
da grande navega^So, e alcangava as ilhas de 
Lintfio e Typa, longe da patria e da justiQa, 
é que a ddr mora! Uie dictou as estrophes da 
sua Lyra — mais afamada que ditosa. 
que està situa^So Ihe suscitava, que se nos 
communica na vibra^So sentida dos Lusiadas^ 
explicam-o estas palavras de urna das maiores 
victimas da arbitrariedade, o baràode Trenck: 
< O homem, que escreve pacificamente em U- 
berdade, no seu quarto de estudo, tem muito 
menos genio e enthusiasmo do que o que tra- 
balha no horror de um carcere; as expressoee 
de que este ultimo se serve» s&o com certeza 
temperadas de outra energia.» ^ Tambem o 



interiores da rocha. e rebocando de alvenarìa suas na- 
turaes cavidades. — O mesmo aconteceu ao corpo do 
rochedo, o qual foi quasi tede revestidp de al?enaria« 
erigindo-se-lhe na parte superior, correspondente a Gra- 
ta, urna especie de caramanchào cu pavilhao chinez, 
tambem de alvenaria e de acanhado gosto.* 

Na descripQào da Gruta por Carlos José Caldeira, 
vem apontadas as dimengoes : « Dois dos rochedos for- 
mam comò duas paredes parallelas, que distam entre 
si 135 centimetros, no prolongamento de 332, e oom 
altura de 450. O terceiro assenta horisontalmente sobre 
aquelles em fórma de tecto, que a maneira de um al- 
pendre fica saliente para a parte orientai da gruta.— 
Pena é, a meu ver, que intentasse tambem ( o proprie- 
tario L. Marques) embellezar a Gruta de Camoes com 
OS dois porticos de alvenaria que ornam as duas en- 
tradas correspondentes, feobadaa com cancellas bai s 
de madeira ; mas corno para estas innova^oes de i o 
gosto nào foram quebrados os rochedos, é fadl faze 8 
desapparecer e restituir à Gruta a sua rudeza e ' i- 
plicidade primitivas.» 

^ Mem, do Bardo de Trenck^ t. ii, p. 152. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 611 

desgraQndo popta arcadico GarQ&o, que mor- 
reu victiiDa do despotismo do marquez de 
Pombal, DOS ferros do Limoeiro, resumira em 
poucas palavras a esthetica do soffrimento: 

Nào escreve Lusiadas quem janta 
Em toalhas de Flandres 

N&o era capricho de Camoes o retempe- 
rar-se n'esta reconcentragào ; em urna carta 
do jesuìta Padre Melchior, de 10 de De- 
zembro de 1568, dé-nos a realidade do cos- 
tame d'essa epoca: «o tempo que estive 
n'aquella ilha deserta (Lampacau) e despo- 
voada, vivi com tanta alegria... Havia ali 
hitas horas de soo que valiam mais que mui- 
tas de acompanhado, huns penedos, huns ar- 
voredos, htias saudades do paraìzo, huns en- 
fadamentos do mundo, hùas esperangas de 
amor que a diyersidade das creaturas dfi para 
aqaelle que as creou ser amado » ^ Como este 
trecho da carta commenta e aviva os realis- 
mos do Soneto de Cam5es ! Em um documento 
de compra de bens de raiz pertencentes ao 
Collegio dos Jesuitas de Macau, vem entre os 
que ahi se citam um «chSo do campo dos Pa- 
tanes aos penedos de Carnoes.* Foi isto no 
tempo do reitor P.® Antonio Cardim, dos fins 
do seculo XYi. O Collegio foi fundado em 1565 
em fórma de Hospicio para os missìonarios que 
seguiam para o Japào; sómente em 1597 é 
que o Hospicio se converteu em Collegio de 
S. da Madre de Deus ou vulgarmente de 

'n Paulo, tornando-se o mais opulento de 



^ Hist e Mem. da Academia, t. x, P. i, p. 98, 



612 a ISTORIA DA LITTBRATURA PORTUGUBZA 

todos OS CoUegios da Companhia nas regides 
orientaes. A demarca^ao da propriedade no 
tombo jesuitico do Collegio de Macau é um tes- 
temunho de antiguidade com que eram geral- 
mente designados ob Penedos de Camoes. ' 
Os tres mais antigos biographos do poeta 
n&o fallam da Gruta de Gamòes em Macan» 
ha vendo completa omissao d'este facto até 
1793, em que depois da embaixada & China 
de lord Mac-Cartney» appareceu uma relagao 
de Eyies Irwin louvandó o enthusiasmo e 
gosto de William Fitzhugh por ter restaurado 
aquella Gruta e ajardinado os terrenos adja- 
centes. ^ O Morgado de Matheus, na sua edi- 



Titulo dos ben8 de ralz dette Coll.<^ de MACAO, 



Tera mais o CoU.^' humas moradas de casas no 
Campo de patanes janto ao caix de Marti' Lopez as 
quaes deixou por legado o Maluco; rSdem dealugoeres 
160 pardaos. Tem mais o Coll.<> duas buticas q rendem 
cada mez ambas 4 pardaos, as quaes deixon Braz Mon- 
teyro c5 humas meyas cazas q. rendiào 60 pardaos p.* 
vinho de missas deste Coll.<>. As cazas vendeo o P.* 
Antonio Cardim, sendo Reitor deste Goll.<>, por oito 
centos Pardaos a Gaspar Borges da Fonseca, os quaes 
HOC pardao9 co mais 280 pardaos procedldos do chio 
do campo dos patanes aos Peneik>8 db Gamòes, ven- 
deo o dito P.*^ Reitor polla dita contia. Os 1080 pard.<^ 
procedidos das duas yendas, cazas e chao, andào a ga- 
nhos da terra de 10 por cento e nao podem os Reyto- 
res gastalos por serem procedidos de bens de raiz.» 

(Real Bibliotheca da Ajuda, Mas. apographo do .* 

quarte! do seculo 18.) Communicado pelo ar. Jordic le 
Freitas. 

' Nas Mem. de Catndes por John Adamson vei o 

trecbo inserto no livro da Embaixada de Maeartr f, 

589. — José do Canto, CollecQào camoneana, p. 6, 
x^ol. I. 






GAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 618 

fSo doB Lusiadas de 1817» é que pela pri- 
meira vez vulgarisou a lenda sympathica da 
Grata: «é tradi<;&o constante que passava 
muitas horas a trabalhar n'esta composiQSo 
(OS Lusiadas) em urna grata que se mostra 
ainda agora em Macau e é nomeada a Gruta 
de Gamoes.T^ (p. lx.) Sendo até hoje ignorado 
documento do Collegio de Macau, que traz 
a demarcando aos Penedos de Camòes (dois 
blocos graniticos sustentando um terceiro, na 
faixa de terra que liga a peninsula & ìlha de 
Hiangschan) considerou tardìa està tradigSo 
Dr. Storck, achando que podia Oamoes re- 
fugiar-se multa vez n'aquelle monte. Outras 
tradÌQoes correm ainda hoje da estada de Ca- 
mSes em Macau, mas so tèm de verdade a 
inconsciencia da deturpando dos factos. * 



1 Em Macau existem differentes tradigoos a cerca 
do Poeta; e embora incampativeìs com as datas histo- 
ricas, merecem consignar-se para ver corno era cora- 
prehendida a sua individualidade mora!. Antonio Fe- 
liciano Marques Pereira, que de 1862 a 1865 foi r-e- 
eretario da inissào diplomatica enviada a Pekin para 
negociar o tratado com a China, e publicou valiosos 
estndos sobre Macau, tambem investigou alii nos ar- 
chivos sobre a estada de Camòes, nsfda encontranao. 
Seu fillio Joào Feliciano, continuador dos seus estudos, 
eommunica-nos: «N'um manuscripto da coIlecQào de 
meu pae e da letra d'elle encontrei a seguinte nota : 

» Diz a tradigào popular de Macau, que Camoes 
de nenhum conceito gosou aqui, em rasào nào so de 
nao baver manifestado por entào ainda o seu grande 
1 ato, mas tambem da vida mal regrada que levava, 
i egando-se ao abuso das bebidas. Galanteava as 
1 beres às portas daa egrejas, recitando-I hes versos, 
f dar-lhes agua benta; e ainda hoje (1868) entre os 
^ 108 se repete aqui urna quadra com que uma Ihe 
] 'rsou ao galanteio, chamando-lhe vesgo^ com o que 



614 UlSTOKIA DA LITTERATURA POBTUGITBZA 



Achava-se o poeta em Macau, na sereni- 
dade da sua idealisagfio, tendo cumprido os 
cinco annos de servilo militar, e crendo ter 
organisada a sua vida, quando a bella per- 
spectiva do futuro dermi u subitamente : 

Agora da esperanga jd adquirida 
De novo, mais que nunca. derribado. 

(Lus., VII, st. 80) 

Era este o desastre maior com que se de- 
frontara. Em outro logar da sua Epopèa pre- 



dizem, Camòes quisilou muito, deixando-se desde en- 
tao de fazer versos para quem tao mal Ih'os agradecia. 

= Conviveu milito com os Padres de S. Domingos, 
em cujo convento dizem até, que habitava, e que d'aqui 
se diricria às tardes para a Gruta, fìcando-se por là àté 
que amanhecia.= 

«Nada mais encontrei no manuscripto. nem encon- 
trei aquadra com que a mulhersinha correspondea a 
amabilidade de Camòes. Pedi a^um amif^o meu de Ma- 
cau, que a recolhesse da tradÌQ§o popular e m'a man- 
dasse. Que curiosa a sua publicaQào, assira comò a 
d'essa nota inedita encontrada na collec^ào de meu 
pae.» (Carta de 12 de Junbo de 1900.) 

A tradiQào compieta-se por està outra, publicada 
no Rio de Janeiro em 1896, no n." 7 da Republiea Pofr- 
tugueza. Cumpre observar prèviamente que o nomade 
Macau deriva de Amaf Densa» e Oau, porto» ancont- 
douro (Amagau): 

«O im mortai poeta dos Lusiadas, desejando travar 
relaQÒes com uma poetisa do Porto, de nome Maria 
Cortez. perguntou aos seus companheiros em que Jo- 
f^ar poderia encontral-a para Ibe dizer am galani )• 
Disseram-lhe que a eulta dama portugueza costum a 
ouvir missa na egreja de Cedofeita, da cidade da 
gem. Camòes encaminhou-se para la, sobra^nd o 
Esopo, que tencionava offerecer à gentil cultora s 
dulcissimas Camenas. 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA ^ 616 

dsa facto, na bruta crueza, ficando comtu- 
do incomprehendido dos biographos : 

dos perigos grandes, quando 

Sera o injvsto mando executado 
N'a^uelle cuja Lyra sonorosa 
Sera mais afa m ad a que di tosa. 

injusto mando foi a ordem que fez 
efflbarcar debaixo de prìsao para Gda o 
poeta ; o seu amigo lioenciado Manoel Correa, 
ao commentar as estancias finaes do Canto 
yn dos Lusiadas^ pouco esclarece este facto: 



«Findo o acto religioso, o inegualavel vate endere- 
^tt-se para o sitio em que ordinariamente passava 
Maria Cortez e entregando-lhe o Esopo, desfechou: 

Cortezias me tem feito, 

Eu morrò por ser cortez; . / 

Nào sei se por ser do Porto, 

Qu por ser bom portuguez. 

<A adoravel poetisa nào se fez esperar e retorquiu: 

Eu nào sei se sois do Porto. 
Cu se sois bom portuguez ; 
So véjo que sois um tortOf 
E eu Maria Cortez.» 

No syncretismo das tradiQoes, vé-se que a locali- 
sagio no Porto, a cidade da Virgem, corresponde a 
Àmagau (Ancoradouro da Densa) ; é na e^reja que o 
galanteio de Camoes é improvisndo à dama, que Ihe 
corresponde chamando-Ihe torto. E* para notar corno 
e^*"! fragmento tradicional chegou às conversas curio- 
s no Rio de Janeiro. 

A tradiQào da sua hospitalidade no convento dos 
I des de San Domingos é um reflexo da noticia vaga 
e a pelo licenciado Manoel Correa, dos seus ultimos 
8 "^s em Lisboa. 



6t6 HISTORIA DA LITTERATUBA PORTUOUEXA 

«Nota o nosso Camoes os portuguezes de 
gente ingrata, pois cantando elle e celebrando 
OS seus feitos, em logar de Ihe agradecerem e 
servirem : oa maiores amigos que tinha o me- 
xericaram eom o Viso rei da India, (?) eomo 
elle me disse contando os enfadamentos que 
na India tivera^ que fot eausa de o prende- 
rem e enfadarem.^ Apura-se a prisSo por or- 
dem de alguem, suscitado por intrigas de ami"- 
gos. Fedro de Mariz tambem baralha e de- 
turpa as particularidades, fixando ò mesmo 
fondo simples: « Ghegando a India foi prezo 
por mando do Governador Francisco Bar- 
rato (?) pela Fazenda dos Defuntos que elle 
trazia a seu cargo, (?) porque foi & China por 
Provedor-mór dos Defuntos ; (?) e iste Ihe fi- 
zeram mexericado por alguns amigos d^onde 
elle esperava favor. » Netn pelo cargo que n9o 
existia, nem pelos Viso-rei e Governador que 
chronologicamente, e pela demora da viagem 
de trez annos, n§o podiam receber accusafoes 
e darem ordens, podem acceitar-se as info^ 
maQoes de Correa e de Mariz. Quem poderia 
entao prender Camoes em Macau e mandal-o 
capitulado para Gda na Nào de torna-viagem 
do Japao? Sómente o CapitSo mercador, que 
governava interinamente em Macau aie ao 
momento da chegada de outro capitSo da Nfio 
da prata e da seda. Linschott retrata ao vivo 
està auctoridade provisoria e transitoria que 
mandava em Macau, illudindo-se assim a dea- 
confianQa chineza contraria a um estabek 
mento officiai : ^ Todos os annos vem urna o 
da India, cuja capitania outorgada por i 
tante especial do rei de Portugal é dada 
pessoa de alta cathegoria e distincQSo ass 



CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBBA 617 

comò 88 oapìtanias das Fortalezas. Està ndo 
segue da China para o Japdo, onde carrega, 
tornando a desoer a Maeau, de Macau a Ma- 
laca e de Malaca a Gòa. Ninguem tem licenqa 
para està viagem do Japào, se n3o quem pos- 
8uìr a dita patente real; ora vae um, ora ou- 
tro, conforme as preoedencias ; mas cada 
anno so urna ndo. Estas vìagens, corno todas 
as outras e todos os demais póstos, s3o dadas 
por mercé em premio de servigos prestados a 
el-Rei na India. A carreira da China e de Ma- 
laca é pelo contrario livre a todos os merca- 
dores, que podem carregar à vontade (mas, 
rapito, ao Japdo ndo vae ninguem se ndo o 
privilegiado que recebeu a patente.) Com- 
tudo, ninguem póde vender, comprar e carre- 
gar senao depois da nào officiai ter a sua car- 
regagao completa. Os Capit&ps da linha do 
Japào tem enormes ganancias. Em uma so 
viagem, caso tenham algum capital e uma 
boa nào da capacidade de 700 a 800 tonala- 
das, pódem lucrar 100 a 200 mil ducados. 
Mas cada viagem dura bem tres annos.i^ 
Linschott descreve o roteiro, por fórma que 
se v§ comò estacionou Gamoes em Macau e a 
demora que teve em chegar a Góa : « partindo 
em abril de Gòa para Malaca, tem quasi 
sempre demora ahi, à espera da mongào, que 
vem multo regularmente em certos mezes de- 
terminados. De Malaca passam a Macau^ 
onde param durante quasi nove mezes, tam- 
m na perspectiva de alcangarem a boa mon- 
3. Depois seguem para o Japdo^ tendo no- 
mente longa estancia, por causa dos ventos 
e OS hfio de levar na volta da China. Ao 
K) de outros tantos mezes, corno na vinda. 



618 HISTQRIA DA UTIEBATDRA PORTUOUBZA 



podem continuar a jornada, chegando a gaa- 
tar em ida e volta tres annos completo». > 

Agora o retrato do Gapitào chatim da linha 
do JapSo, diante do qual se viu Camdes com 
o seu espirito cavalheiresco e deliòadeza ino- 
rai ; palavras de Linschott : < Durante lodo o 
tempo da sua estada em Macau e no Japao, 
o respectivo Capitdo mór e governador sobe- 
vano e juiz supremo assim corno o Vice-rei 
da India e os capitSes nas suas Fortalezas. 
E emquanto um veleja de Macau para o Ja- 
p&o, là està outro vindo de Gda, incumbido 
de seguir o mesmo caminho depois do pri- 
meiro haver tornado. E quando este regressa, 
ficando novamente corno governador em Ma- 
cau até partir para Malaca e a India, o se- 
gundo embarca para o Jap&o. D'este modo 
sempre ha quem faga de Governador ou Ca- 
pitao.» 

Poi o Capi tao chatim da torna- viagem do 
Japao em 1559, que por seu arbitrio ou in- 
justo mando prendeu Camoes e o trouxe ca- 
pitulado para Gòa : um anony mo ir responsavel, 
desvairado pelos lucros da prata do Japao 
trocada pelas sedas da India. Storck, embora 
screditando ainda na lenda de Provedor dos 
Defunctos, presentiu a verdade quando for- 
mulou està conclusao : « o ministro que deu o 
injusto mando e tanto o feriu, nao foi ne- 
nhum Governador da India, mas simplex- 
mente o Capitdo da ndo annual dà carreira 
da China ao Japao, Foi este um descon> 
cido, que o destituiu do seu posto ' ...m« 



.1-- 



* Nào ha via cargo officiai era Macau. porque p 
Capìtào era transitorio; so em 1571 é que a popui 



CAMÒE8 — EPOCA, VIDA E OBRA 619 



dando-o embarcar.» (Vida, p. 592.) Como 
homem grosseiro, facilmente obedeceu às sug- 
gestdes dos que mexericaram ^ Camoes, que 
o proprio poeta, na sua ingenuidade, conside- 
rava €08 mayores amigos que tinha* n'aquel- 
las paragens, em que se debatiam os mais 
sórdidos interesses do trato privilegiado, e 
em que as luctas & mSo armada eram quoti- 
dianas. * Era restricta a àrea d'esses mexeri- 



de Macau comegou a construìr casas. Na Chronica de 
Hian-Xan, fallando-se da occupagào de Macau pelos 
portuguezes, lé-se: 

« Na anterior Dynastia de Min, tendo vindo uns 
navios portuguezes negociar ao Cantèo, foMhes per- 
mettido fazer nas Ilkas de fora algumas paihoQas para 
residirem, as quaes eram demolìdas a partìda don na- 
vios. E quando S. M. imperiai houve por bem ordenar 
que se cobrasse todos os annos ofòro territorial, entdo 
é que prineipiaram os negociantes a fabricar casas em 
Maeau e a traaerpara aÙisuasfamilias.* — Quanto ao 
foro Jerrìtòrial parece que foi sempre pago desde o 
principio do Estabelecimento ; mas ha escriptores chi- 
nezes que dizem que o pagamento nào principiou senào 
pelo anno do reinado de Van-li, (1571 em diante).» 
Chron. de Hian-xam, por Li-choo-Ceci, voi 8. fi. 23 t, 
e 96 e 96. — Deve ficar de vez eliminado o cargo de 
Provedor dos Defuntos e Ausentes de Macau j em volta 
do qual se accuroularam tantos absurdos, na biogra- 
pbia de Oamòes. 

^ «réde de denuncias estpndida sobre as nossas 

possessoes asiaticas; réde de malhas apertadissimas, 

por onde raras honras notaveìs escapavam — Mexeri- 

ecuios ou diffamados assim todos, porque na falta de 

factos abria a calumnia illimìtado campo a industria 

'""quelles diffamadores irresponsaveis — subiu o mal 

ponto, «que o mais hypocrita e praguento devera 

: o mais acceito. . . > (Felner, Subsidios para a Hist. 

India portug, Notic. preliminar, p. xxix.) 

' Lé-se em urna carta do jesuita P.^ Melchior, de 

de Dezembro de 1558 : «por duas ou tres vezesque 



620 H18TORIA DA LITTBRATURA PORTUQUBZA 



C08 : Que a mercé do trato de que estava pro- 
vido Camoes ndo fora confirtnada pelo novo 
Vice-rei, que succederà ao Governador Fran- 
cisco B arroto? Que elle j& nao era militar, e 
por isso nfio podia permanecer em urna re- 
giào fechada a todos que nao tivessem pa- 
tente de privilegio? Que tencionava ir servir 
corno homem de guerra em navio de merca- 
dor, auxiliando assim o trafico prohibido? 
Porém o mexerico mais suggestivo seria : Ben- 
do Gamdes conhecido corno extremamente ou- 
sado, era para recear que praticasse qual- 
quer acto que levasse os Chinezes a expulsa- 
rem-nos de Macau, corno ]& tinbam feito em 
Liampó, em 1542, pelas arrogancias de Lan- 
zarote Pereira, e em Chinchéo em 1544, pelos 
abusos de Ayres Botelho de Sousa, que abi 
era entSo Capitao-mór e Provedor dos Defun 
tos. Estes factos denuncia vam perigos no mo- 
mento em que o poeta se via bafejado pela 
fortuna na enchente de bens. Eis o porque 
dos enfadamentos que na India tivera. 

O abaio moral, a decep^ao profunda que 
sentiu Gamdes, fixou-os nas ultimas estrophes 
do Ganto vii dos Lusiadaa, em que tendo jà 
consciencia da immortalidade de que dispoe, 
protesta deixar no olvido aquelles individuos 
em quem nSLo encontrou altos caracteres. Por 



estive em Lampacau, recreceram alguns bandos e ini- 
niisades entre algutts CapUdes das Ndos, por ond 
toda a gente estava em perigo de se matarem uns con 
outros, e por bondade de ds. tudo cessou, e ficararo to 
dos amigos, em que me foi algum trabalho e perigo 
andar nào sei quantos dias de Nào em Nào, até oi 
acabar de concertar.» (Mem. da Aead.j t x, P. i, p. 99. 



CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 621 

68888 estrophe8, em que se revela o ponto em 
qua ia elaborando o Poema, e aìnda inciden- 
temente no Canto x, na parte descriptiva da 
A8ia orientai, descreve o terrivel naufragio, 
que soffreu ao vir capitulado sob prisSo de 
Macau para Gda. Està hoje fixada a data 
d^se naufragio em 1559; a carta do P.^ Bai- 
thazar Cago, datada do Japao de 1 de No- 
vembre de 1559, para o Collegio de Gòa, re- 
ferindo-se ao anno de 1558, em que n3o houve 
naufragio n'esta carreira, poe-o em contraste 
com este em que escreve: <0 anno passado 
escrevémos de c& todos muitas cartas em que 
tinhamos materia de louvar muito ao Senhor; 
mas este de 59 tivemos por novas que a Ndo 
em que hiào^ antes que passasse a Costa da 
China se perdeu em hUs baixos.^ ^ Como ha- 
via uma so nào cada anno, vé-se que naufra- 
gira a Ndo da Prata e da sèda^ que n'esse 
anno de 1559 partirà de Macau para Oda via 
de Malaca, passados os tufoes de Septembro, 
dando-se o desastre por todo o mez de Outu- 
bro. N'ella ia indubitavelmente Camdes. Nas 
eatrophes 127 e 128 do Canto x dos Lusia- 
das, descreve Camdes o locai onde fora o seu 
naufragio : 

Vés. passa por Camboja Mecom, rio 
Qae Capitao das Aguas se interpreta, 
Tantas recebe de outro so no estio, 
Que alaga os campos longos e inquieta; 
Tem as enchentes, quaes o Nilo frio; 
À gente d'elle ere, comò indiscreta, 
Que pena e gloria tém depois da morte 
Os brutos animaes de toda a sorte. 

Este receberd, placido e brando 

No seu regago o Gantu, qtie molhado 



Carter do Japdo, fi. 167. 



622 H18TORIA DA LITTERATURA PORTUGOSZA 



Vem do naufragio triste e miserando 
Dos procellosos baizos escapado; 
Das fomes, dos perigos grandes, quando 
Sera o injusto mando execatado 
N'aquelle, cuja Lyra sonorosa 
Sera mais afamada qua ditosa. 

O séco Manoel Correa, que alardéa de 
amìgo pessoal de Cam5es, commenta assim 
estas referencìas : « Mostra o Poeta corno veiu 
a este reino de Camboja vindo da China, onde_ 
esteve alguns dias tornando algum alento dos 
grandes trabalhos que n'aquella vìagem da 
China passara e dos naufragìos e baixos de 
que escapara, de que n'aquelles mares ha 
muitos, pela qual razSo se n5o pode cbegar a 
algùas partes d'aquella regiao.» Nada esda- 
rece o licenciado. As cheias do Mecom eie- 
vam-se de Junho a Septembro; o seu mais 
baixo nivel é de Outubro a Fevereiro, mani- 
festando-se na Cochinchina. Condiz o pheDO- 
meno naturai com as induc<^es anteriores. ' 



* Fallando do rio Mekong, em urna relagao de 
viagem através da Indo-China, escreve Massieu: <À8 
aguas d'este rio appresentam a particularìdade de mu- 
darem, duas vezes no anno, a direc^ao do seu cnrso. 
Durante seis mezes do anno ellas sobem para o Grande 
Lago, ou Tonlé Sap, immenso reservatorìo creado pela 
natureza. regulador normal das inundagoes do Delta; 
e durante os outros seis mezes, ellas se esooam para a 
Cochinchina, na estasio da sécca, em quanto o seu fer- 
til humus produz a riqueza de Gambodja.» * Foi nesta 
epoca da estiagem, que naufragou Gamòes na costa de 
Gambodja, podendo dirigir-se a nado para a foz do • 
Meckong. E' provavel que o poeta, demorando-se-n'e i 
regiào, assistisse à Festa das Aguas, que se faz i ' 
toda a extensào de Mekong, com uma alegrìa d - 

• Revue des Deux-Afonde&i 1900 (Julho-Agosto, p. 6" 



de Cambodja escreveu o lusophito Ferdinand 
Denis: «Udì vìajaQte que percorreu estas re- 
giòeB, algiins anoos depois do successo que 
esteve a piqué de Ber tSo funesto ao Poeta, 
faz admiravelmente comprehender, eomo o 
naufrago earregado com o seu precioso vo- 
lume póde aalvar-se desde que attìngìu o 
curso lento do placido Macon. Este vasto rio, 
effectivamente tem a nascente nos confins da 
China, e rega o reino de Cambodja, tem 
cbeias corno ae do Nilo e é sensivel fis marés 
até urna distancia considerava] ; na baixa-mar 
OS navios encalkam frequentemente, e a sua 
embocadura pode ser pasaada a vdo. Inter- 
nando-se algumas leguas, Gamòes poderìa ter 
vìsitado as maravilhas da cidade de Angor, 
e encontrar hospitalidade em um dos ricos 



nni«, oomo no antìgo reino de Nien-Tian e no paiz de 
Nonf^-Khaye. DeBcreve essas festa» Massieu; •Aban- 
dosa-se ao curso da agua um grande numero de tochas 
acceaaa sobre pirogas que as levam ao meio de Me- 
kong. Estae tochas sSo babìlmente collocadas sobre pe- 
dacoB de foiba de bananeira diepoatae em cruz, e acce- 
sBs todas ao meamo tempo antes de serem entregues 
ao rio. E', em realìdade, um Bacrificio aoB manes dos 
mortoB. Este uso encontra-se em quasi toda a Asia, par- 
tìcnlarmente na China e no Turkestan. Frepara-se 
egoalmente nm barco de bambù completamente co- 
berto com estae tochas, chamadaa habougs, que sào 
alias, o modo de illuminagào ordinario empregado para 
transitar de noite. Os kabougg sào archotes de paiha 
arroz repassada de certo oleo e enrolada em folhas 
areqneira. Passam por afugentarem os pia ou espì- 
>e mallgnos.» ^9l mQsmv, Festa dos Àgtma, qìtì Tnom- 
ih appresenta-se <o simulacro do Rei Norodom, cor- 
do com a sua eepada o fio que prendi» as aguaa do 
'o Occidental do Uekong.* 



624 HIBTORIA DA UTTBRATORA POBTUGUBZA 

imperios do Oriente. Ignoramos o accolhi- 
mento que enoontrou n'essas paragens, mas 
ahi permaneceu muitos mezes, e enconti*a- 
mol-o na capital das Indias sómente em 
1561.» * Escrevendo em 1855, referia-se Fer- 
dinand Denis & extraordinaria oivilisa^ao 
cambodjiana, descripta no mesmo anno por 
Bastian, na obra Gambodische Altertumer, 
cuja grande capital Ongor, (Angkor) de que 
j& fallara o P.® Cardim, na Relagao das Mis- 
soes do Japfio, coberta das mais estupendas 
maravilhas de architectura, parece ter asso- 
ciado o genio cbinez com o &rico, produziodo 
na Arte o mesmo syncretismo das doutrìnas 
buddhicas. O paiz de Cambodja, denominado 
reino de Khmer pelos seus habitantes, é està- 
dado pelos archeologos e ethnologistas euro- 
peus. Os prodigios da arte khmer, reunidos 
no Museu de Gompiègne, acham-se descriptos 
no livro de Delapprte, Le Gambodje. Lem- 
bram os monumentos khmerianos, a uma sim- 
ples inspecQ&o, as obras architectonicas da ci- 
vilisaQào mexicana, vestigios morphologicos 
das construcQdes egypcias, por ventura pelas 
relaQoes do estylo indo-àrico de Casmira. No 
Canto X dos Lusiadas ha a impressSo d'esses 
pasmosos productos de uma civilìsaQao ex- 
tincta, notando Camoes a analogia das cheias 
do Mekon com as do Nilo, e ritos dos kme- 
res sobre a cren^a da alma immortai dos ani- 
maes. * 



^ Camóens. Noavelle Biographìe generale, t i 
p. 851. 

« Angkor, ou Nakhor' Vat, regiào archeologiea 
Cambodja siamez, onde se encontram as grandes r 



626 HISTORIA DA UTTSBATURA PORTUOUE2A 



diz, por qué Camoes andando na India, co- 
megando a fortuna a favorecello, e tendo aU 
gum fato de seu perdeu-se na viagem que fez 
para a Chinai donde elle compoz aquelle 
Caneioneiro, que diz: 

Sobre os Rios que vao 
Por Baby Ionia, etc.» 

Referia-se &s incomparaveis redondilhas 
paraphrasticas do Psalmo 138. ' O valor 
d'està nota & estancia 80 do Canto vn doa 



das qutro portas da cidade, sobre a qual se elevam tor- 
res em fórma de tiara. No seu recinto existem templos, 
palacioB, pyramides, arruinados pelo vigor da vec^eta- 
Qào tropical. Ha outras ruinas proximo de Nakhor- 
Vat ; e as descriptas por Kein e Ay monier remontam a 
sua antiguldade ao anno de 667 da nossa èra ; os mo- 
numentos de Ankor datam em parte do secalo ix, no- 
tando-se que estas construcQÒes foram interrompidas 
subitamente no seculo xiv: «Representam urna phase 
particular da religìào buddhica, quando sob a inflnenda 
da India e de Ceylào se cruzaram os mythos de 
Brahma. de Siva, de Vichnu, de Rama com os da 
Grande Doutrina, e personagens das Epopéas bindns 
representadas a par da Trimurti e do Brahma de ana- 
tro cabegas ; figura ahi o culto das Serpentes, sendo a 
Naga de sete cabe^as o motivo — dos motivos mais 
empregados » (Vivien de Saint-Martin, Nauv. Diec de 
Geographie universellet t. iv. p. 13 e 14.) 

«Nakhor-Vat appresenta um plano collossal: tres 
galerias ceucentricas em andares com portioos no meio 
d'ellas, e nos seus angulos ; ligadas entre si por outras 
galerias e por escadarias cobertas, com vastos pàteos 
em que se enfileiram symetricamente construo^oes iso- 
ladas, coroadas por nove torres, sendo a mais alta, 
centro do terceiro andar das galerias que enoerra o i 
ctuario.» 

^ O titulo de Caneioneiro dado a està paraphr i 
nào quer dizer, comò entendeu Juromenha, uma ^ 



CAMdSS — EPOCA, VIDA B OBRA 627 



Lusiadas està em dar-nos a època em que es- 
ereveu Campes essa extraordinaria composi* 
fio lyrica, que ficou desconhecida e inedita 
até 1595. O poeta symbolisa em Babylonia o 
mal presente e em SiSo o tempo padsado: 

Àlli lembran^as contentes 
N'alma se repreaentaram ; 
E minhas cousas ausentes 
Se fizeram tao presentes 
Como se nunca passaram. 
Alli, despois de acordado, 
Co'o rosto banhado em agua, 
D'este sonho imaginado, 
Vi que todo o bem passado 
Nao é gosto, mas é magoa. 



Vi aquillo que mais vai 
Que entào se entende melhor, 
Quando mais perdido fòr; 
Vi ao bem succeder mal, 
E ao mal multo peor. 



Mas deixar n'esta espessura 
O canto da mocidade, 
Nào cuide a gente futura 
Que sera obra da edade 
O que é for^a da ventura ; 
Que edade, tempo e espanto 
De vèr quSo ligeiro passe, 
Nunca em mi puderam tanto, 
Que, postoque deixo o canto 
A causa d'elle deixasse. 



le(v*$o mais copiosa de que ella faria parte; segundo 
abitoB litterarios do seculo xvi, chamava-se Can- 
I ei eiro a qualquer composto em redondilhas, 
■ r imindo a designando do genero: coplas ou trovas- 




628 HI8TORIA DA LITTBRATURA POSTUGUEZA 



Mas em tristezas e nojos, 
Km gosto e contentamento, 
Por sol, por neve, por vento 
Tendré presente a los ojos 
Por quieti muero tan contento. 



Terra bemaventurada, 
Se por algum movimento 
D'alma me fòres tirada, 
Minha penna seja dada 
A perpetuo esquecimento. 
A pena (Veste desterro^ 
Que eu mais desejo esculpida 
Em pedra ou em duro ferro. 
Essa nunca seja ouvida, 
Em castigo de meu erro. 

Refere-se o poeta à longa ausencia ou des- 
terro que liga com os erros de um venturoso 
passado; mas n'esta emoQSo da catastrophe 
de que escapou maravilhosamente, transita 
immediatamente para uma religiosidade mys- 
tica: 

E faz que este naturai 
Amor, que tanto se présa, 
Suba da sombra ao real, 
Da particular belleza 
Para a belleza geral. 

N'estes mezes que andou errante pelo 
reino de Cambodja, reconoentrou-se Camoes 
na mais intensa subjectividade, indifferente 
fts maravilbas deslumbrantes da natureza 
orientai. Ao contrario de Colombo que se 
vava fi mais absoluta eloquencia descreve > 
as novas terras que descobrira, Camoes - 
presentava acima d'esses effeitos a quer i 
Si3o. Lisboa das reoordagdes da mociaad s 



CAHÓBS — EPOCA, VIDA E OBRA 629 

na emoQEO mystica a harmonia moral pertur- 
bada pelos grandiosos symbolos indiaticod. ' 
Jfi tranquillisado d'estes violentos abalos 
do naufragio e perda dos poucos recursos 
qne alcangara, o poeta, ao repassar os Cantos 
do seu Poema, que salvara, accrescenta-lhe 
corno prosopopèa da heroica narrativa o qua- 
dro da situaQ&o calamitosa em que se achava : 

Olhae, que ha tanto tempo que cantando 

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos, 

A Fortuna me traz peregrinando, 

Novos trabalhos vendo e novos danos; 

Agora o mar, agora exp'rimentando 

Os perigos mavorcìos inhumanos, 

Qual Canace, que a morte se condena, 

N'uma mào sempre a espada e n'outra a penna. 

Agora, com pobreza aborrecida 
Por hospicios alheios degradado ; 



* *0 que a poesia tem o poder de exprimir nà^ é 
a sensagào immediata que nós recebemos dos objecios, 
mas sim o sentimento interior que se fórma em nós 
por oecasiao d'estes objectos ; aquillo que ella é apta a 
exprimir sào as rela<;5es. — As bellas tempestades de 
Gamoes nào foram descriptas no nieio da borrasca ; 
foram-no quando elle jà se aohava arrribado ao porto; 

que elle cantava sob o céo ardente dos trópicos nào 
era està bella naturéza grandiosa que se patenteava 
dìante dos seus olhos, eram os rios da sua patria au- 
sente, o ninho seu paterno^ conio Ihe chama. 

«A eloquencia póde-se inspirar da sensa^ào ìmme- 
fca ; a poesia apenas póde guardal-a para um outro 
mento. — Muito agitada pela sensa^ào presente, 
lito emocionada pela paixào actual, a poesia so pre- 
{ da recordagào da sensa^ào, sómente a recorda- 
•> Charles Magnin, Da naturéza do Genio poetico , 

1 '7. (Ap. Obras de E. Quinet, t. vn.) 



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630 H18T0R1A DA LITTEBATURA P0RTf70tTEZA 



Agora, da esperanga jà adquirida 
De novo mais que nunca derribado ; 
Agora, a 8 Gostas escapando a vida, 
Que de um fio pendia tao delgado, 
Que nao menos mìlagre foi salvar-se, 
Que para o rei judaico accrescentar-se. 

E ainda, Nymphas roinhas, nao bastava 
Que tamanhas niiserias me cercassem ; 
Se nào que aquelles, que eu cantando andava 
Tal prenìio de meus versos me tornassem 
A troco do descanso que esperava, 
Das capellas de louro que me honrassem, 
Trabalhos nunca usados me invenvaram, 
Com que em tao duro estado me deitaram. 

Vede, Nymphas, que engenhos de senhores, 

O vosso Tejo cria valerosos, 

Que assim sabem presar com taes favores 

A quem os faz cantando gloriosos! 

Que exemplos a futuros escriptores, 

Para espertar engenhos curiosos, 

Para pòrem as cousas em memoria, 

Que merecerem ter eterna gloria! 

Pois logo em tantos males é for^ado, 
Que so vosso favor me nào falena, 
Principalmente aqui, que sou chegado 
Onde feitos diversos engrandeQa; 
Dae-m'o vós sós, que eu tenho jà jurado 
Que nào n'o empregue em quem o nào mere^, 
Nem por lisonja louve algum subido, 
Sob pena de nao ser agradecido. 

(Lus, vn, 79 a 83) 

Como Dante, o poeta eleva-se ao juizo da 
immortalidade, nSo para lembrar nomes f 
eterno stigma, mas para deixar em pieno 
quecimento aquelles — que ao bem commi 
antepoem o proprio interesse, e pela ambiQ 
sobem a grandes cargos para usarem m 
largamente dos seus vicios; nenhum quei 






CAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 



681 



do.poder para servir desejo abjecto, e faga 
do officio ineio de despir e roubar o pobre 
povo, e rasdes apprende 

Para taixar com mào rapace e escassa 
Os trabalhos alheìos. que nào passa. 

No meio d^estes trabalbos e iniquidades 
sociaes em que estava submerso, o poeta fez 
tambem do seu Poema um escudo morai; era 
a expressao de urna consciencìa.'Para salval-o 
do naufragio, deveu-Ihe Cam5es a sua propria 
Vida. 









■^•a' 



2.^ Periodo: Refugio na ìdealisagào poetica 



Vivendo entre a instinctiva piedade das 
populaQoes buddhistas, depois do seu naufra- 
gio, pdde Camoos transportar-se para Malaca 
servindo corno hometn de guerra em algum 
navìo de mercador portuguez corno unico 
meio de pagar a passagem, assim desva- 
lido depois das suas perdas. Mais contrastava 
a sua miseria com a opulenta Malaca, onde 
agora se via no meio d'essa populagào varie- 
gada de todas as ragas orientaes. As impres- 
soes moraes é que mais o dominavam, e em 
Malaca tratou de saber novas de Oda, de que 
andava afastado havia quatro annos; soube 
f*" novo Vice-Rei Dom Constantino de Bra- 
I DQa, e da conquista de Damào, realisada 
1 » o seu governo, em 2 de Fevereiro de 

>9, e em que se cobriram de gloria os seus 
ì mos amigos Joào Lopes Leitào, D. Leonis 

^ira, Jorge de Moura e D. Alvaro da Sii- 




682 HISTORIA DA UTTERATURA POBTUGUEZA 



veira. O feito que tanto o enthusiasma, trouxe 
urna depressSo de tristeza. O seu amigo Dom 
Alvaro da Silveira, que em seguida, fora 
mandado com urna flotilha para o Estreito de 
Méca, depois de ter invernado em Mascate, 
foi em Septembro de 1559 para a Uba de Ba- 
barem, onde pdz cérco; a gente que elle com- 
mandava, receiosa das terriveis epidemias, pre- 
feriu um combate decisivo, em que foram der- 
rotados, ficando morto no campo com duas 
balas o capitSo Dom Alvaro da Silveira, fa- 
gindo OS sobreviventes para as nàos. Gamdes, 
impressionado com està perda, compòz urna 
Elegia, que traz no Cancioneiro de Laiz 
Franco a rubrica: Elegia a Dom Alvaro da 
Silveira, que mataram na India. Abi verbera 
a covardia dos que abandonaram o seu cnrpo, 
que flcou em poder dos turcos: 

Eu so perdi o verdadeìro amigo, 
Eu so heide viver n'esta saudade, 
Sabe Deus a tristeza com que o digo. 

O meu Silveira era urna vontade, 
Um amor, um desejo, um querer, 
Ambos um coragào e uma amisade. 

Nào tenho jà rasào de vos fazer 

Meus castellos de vento sobre o mari 
Que oousa ha 'hi no Gange para ver... 

E increpando os companheiros de armas 
que o abandonaram: 

Deixam morrer seu proprio Gapitào, 
Deixam perder as forgas que os susténi 
E tudo Ihes consente o coragào. . . 



CAMdBfi — EPOCA, VIDA E OBRA 

Rodeado de mortos e feridoe 

Que aquelte forte bra^o derribava, 
Sendu o8 seu8 és nfios jà recolhìdoa 
Deu a alma a quem a desejava. 

(Bleg. uviii) 

Ainda fi morte de D. Alvaro da Sii 
compoz Cam5es o Soneto cccxLviii, di 
deatacamos a estrophe inicial : 

Qu9o cedo te roubou a' morte dura, 

Animo illustre & grandea cousas dadoi 
Deixando o frJo corpo assi lan^ado 
Em extranha mas mtbre sepultura. 

N'este mesmo anno de 1561 perdia 
bem Camòes Dom Gonzalo da Silveìru 
em 9 de Jultto de 1543 entrara fanal 
em Coimbra para a Gompanhia de h 
Ignaeio, e vindo em 1556 em idìsbSo 
a AbasBÌa ahi foi estrangulado em 1 
Man^. ' Està nova esperava-o em Oda, 
ina receber outro golpe incomparaveli 
doloroao. 

Na Relaqào do naufragio da nào 
Paulo, em Sumatra, em 1561, narra-E 
lamentavel accidente succedido a 11 d 
Deiro d'esse anno: cahira casualmente a' 
D. leabel de Vasconcellos, manina de 
terze para quinze annos, perecendo de 
turadamente. Camòes tinha regressado i 
depois do seu naufragio a Malaca, e ab 
a notìcia d'essa triste fatalidade; exiate 
paquena sèrie de Sonetos em que o poe 



1 morte no Soneto J 



634 HISTOBIA DA LITTERaTCRa PORTUGUEZA 



lebra este caso, que pelas datas fixadas, toma 
todo o relévo da realidade : Faria e Sousa en- 
controu o Soneto clxx em um manuscrìpto 
com a rubrica latina Ad Dinamenem aquis 
extinetam, e é um d'aquelles coUigidos por 
Luiz Franco, na India : 

Ah, minha Dinampne! assi deixaste 
Quem nunca deixar pòde de querer-te. . . 

Poderani essas aguas defender-te 
Quo nao visses quem tanto magoaste? 

No Soneto xxiii, quasi corno epitaphio, de- 
screve o passamento da desditosa manina: 

Cara minha inimiga, em cuja mao 
Poz meus contentamentos a ventura, 
FaltoU'te a ti na terra sepultura, 
Por que me falte a mi consolaQào. 

Eternamente as aguas logrardo 
A tua peregrina formosura ; 
Mas emquanto me a mim a vida dura 
Sempre viva em minha alma te^acharào. 

E se meus rudes versos podem tanto, 
Que possam prometter-te longa historia 
D'aquelle amor tao puro e verdadeiro, 

Celebrada seràs sempre em meu canto ; 
Porque em quanto no mundo houver memoria 
Sera minha escriptura o teu letreiro. 

Faz lembrar este Soneto aquelle outro em 
que celebrou Camoes Pero Moniz, sepulti ') 
no mar da Abassia. Seria Dinamene de u i 
familia fidalga de Gda, que o poeta freqa< - 
tara até sahir na Armada do Sul? Vejair 3 
a narrativa da morte de D. Isabel de V - 
concellos, menina de quinze annos <m*' ) 



CAMÓBS — EPOCA, VIDA E OBRA 635 



formosa e bem figurada, na relaQSo do Nau- 
fragio escrìpta por Henrique Dias : 

<Ao8 ODze de Janeiro, depois do sol to- 
rnado em onze grfios e um sesmo, vento sueste 
honesto e galerno, o dia claro e mui sereno, 
governando em Nordeste quarta de Leste, 
nos aconteceu um triste e desastrado caso, 
que em todos causou grande dór e compai- 
xdo^ por ser o desastre de si muito para isso, 
e para commover a commiseragao a todo a 
pessoa^ por ser em quem foi. Seria entro o 
meio dia e uma bora, quando alguns que por 
bordo estavam, gritaram: — Homem ao mari 
e era que da varanda da camara do leme em 
que ia ag^^salhado com sua mulber Diogo Pe- 
reira de Vasconcellos, um fidalgo que vinba 
provido das viagens do Pegu, parece que indo 
tirar ou por alguma cousa. caiu ao mar uma 
móQa, sobrinba sua, fìiha de um seu irmao, 
que comsìgo trazia ; chamava-se D. Isabel, de 
edade de quatorze annos até quinze, muito 
formosa e bem affigurada; e em cahindo, em 
quanto deram a nào por davante, ia jfi meia 
légua, que foi vista de todos sempre sobre 
agua, batendo com os pés e com as màos ; a 
que o capitSo e todo o homem honrado com 
elle acudiu, mandando ao mostre que deitasse 
o batel fora, e ao piloto que puzesse a nào à 
trinca, o que nem um nem outro quiz fazer, 
dizendo e dando por raz3o, que jà ia muito 
loDge, e que nào aproveitava nada, e que era 
t balbo e perigo de mais; e assim mandou 
piloto governar sua ròta abatida ao mari- 
o dro que ao léme estava, a que o capitào 
n ndou estar fi trinca logo, ou por isso Ihe 
e ^"r a cabala fi mesma bora, de que levou 




636 HISTORIA DA LITTBHATURA PORTUOUBZA 



urna espada para o fazer; com o qual medo 
todoB o8 marìnheiros nos comegaram a ajudar 
a deitar o esquife ao mar, a que jà com ajuda 
do calafate e guardi&o, valentes homens do 
mar, tinhamos dado um apparèlbo; e assim 
se foi em continente ao mar, com o calafate e 
marìnheiros em busca da md^a, que ji nao 
apparecia; e depois de duas grandes horas 
que 1& andaram, a acbaram sem falla sabre a 
agua, que andava acabando de morrer, com 
um rosto tao sereno e bem assombrado, que 
parecia viva; andou quasi uma bora sobre a 
agua, viva e morta sem nunca se ir ao fundo; 
encommendou-a o padre, e em uma alcatifa 
com um pelouro aos pés se tornou ao mar; e 
assim d'està maueira e d'està edade cortaram 
as parcas e seu fado os seus dias. etc.» ' 

A funda poesia d'este lance descripto pelo 
naufrago é unisona com os sentidissimos So» 
netos de Cam5es ; os naufragos cbegaram de 
Sumatra a Malaca, o emporio do Sul, onde j& 
estava o poeta em 1661 ; n'este naufragio da 



i Historia tragico-maritiinaf t i, p. 410. A im- 
pressao de Catnòes fora suscitada por umdesastre ana- 
logo de que ouvira ainda a memoria, na suaestadana 
Cochinchina. e que se relata nes Carlos do Japdo: 
< Vindo de vagar nosso caminho antes da ohegada à Chi- 
na, e estando junto de uma terra que sechama Cochin- 
china, a qual é junto da China, nos aconteceram dois 
desastres em um dia, vespera de Madanella. Bendo os 
mares grandes e de muita tormenta, estando sartos 
aconteceu ... que a filha do Gapitào eahiu ao ma 
por serem os mares tao bravos nàolhe pudemosvf 
e assi em presenga de seu pae e de todos se afo 
junto do navio. Foram tantos os chòroa e vo: 
aquelle dia e noite, que era uma piedade mai gra 
ver tanta miseria.» (Carta de 1549.) 



0AM5E8 — EPOCA, VIDA E OBRA 637 

N&o San Paulo tambem se achou Sento Cai- 
deira, aquelle que fez a primeira traducQ3o 
castelhana dos Lusiadas. O nome de Dina' 
mene sera urna aprooriaQSo de Dindymene, 
urna deusa do mar? Assiin fazia Oamoes a 
apotheose da desditosa donzella, sobre que 
tanto 86 fallara em Malaca. 

Por este mesmo anno de 1561 entrava Pe- 
dro Barreto Rolim na Capitania da Sunda; 
em Malaca se encontraria Camoes com elle, e 
ahi contraiu a pequena divida, que poucos 
annos depois tSo cruamente Ihe exigiu em 
Mofambique, quando para alli foi transferido. 

Aqui em Malaca vi via em 1561 o velho 
chronista Gaspar Correa, occupado a retocar 
manuscripto das suas Lendas da India, li- 
vro extraordinario de verdade e espontanei- 
dade moral de um alto caracter. Gaspar Cor- 
r6a, filho de Pedro Correa Payo, nascerà em 
1495, por isso que declara ter embarcado 
para a India com dezesete annos, com Jorge 
de Mello Pereira em 20 de Agosto de 1512, 
na armada de outo nios que partirà para Co- 
chim. Por 1529 estava de regresso a Lisboa, 
apparecendo o seu nos assentos das Moradias 
da Casa real, com recibo de Junho assignado 
por sua mSo. Voltou para a India, e residia 
casado com Anna Vaz em Malaca, com um 
filho menor. de nome Antonio Correa. Era 
considerado comò cavalleiro da Casa feal e 
da Ordem de San Thiago. ^ Camoes ahi teria 



* Antonio Maria de Freitas (Nicolào Fiorentino) 
OBsassincUo de GcLspar Correa, artìgo documentado. 
> Diario da Manha^ de 24 de Maio de 1891. 



L 




638 H18TORIA DA LlTTERATOHA PORTUOUEZA 

ouvido citar o seu nome, e a grande curiosi- 
dade que suscitavam as noticias que corriam 
àcerca das Lendas da India. A necesaidade 
de revisar a parte da narrativa do descobri- 
mento da India no seu Poema, levaria-o a ir 
conversar com o venerando chronista. 

A hostilidade contra o Gama, e quem na 
estirpe seu se cbama, proviria d'este encon- 
tro? adiante o confirmaremos, diante de um 
tenebroso acontecimento ligado a um odioso 
crime. 

A) Chegada a Gda, a prlsio aob D. Conttantlno tfe Braganfa. (166I) 

Como prezo de estado, CamSes transpor- 
tar-se-hia de Malaca para Gda na Nfio da 
Viagem da China, ou da Prata e da Seda, 
que partia de Macau por Janeiro ou Feve* 
reiro de cada anno, chegando depois de tocar 
em Malaca a Gda em Maio ou Junho. Gondiz 
com a data de 1561, que Ihe assignam os bio- 
graphos para està chegada, ainda nos ultimos 
mezes de governo do Vice-Rei D. Oonstantino 
de BraganQa, cujo triennio findou em 7 de 
Septembro. 

Camdes foi internado na cadéa do Tronco 
de Gda ; Manoel Correa o declara no seu com- 
mento, abonando-se com a confissfio do poeta: 
*08 maiores amigos que.tinha, o tnexeriea- 
ram com o Viso-Rey da India, comò elle me 
disse, contando os enfadamentos que na India 
tivera, por que foi causa de o prenderem e 
enfadarem.» O Vice-Rei era D. Constant ) 
de Braganga, que tornando effectiva a prì ) 
sob que o poeta viera capitulado, Ihe pro^ • 
gou OS enfadamentos desleixando o seu j - 



>C&, TIDA E OBBA 639 

larou OS doìs factos de o 
em. 

de Braganqa tratava da 
sr, e de terminar a néo 
Qortar para o reino, acir- 
le Romances velhos oom 
ita-o Diogo do Gouto, na 
[ : <E tanto que Ihe con- 
mance velho: 



t 'cm 



O Vice Rei Dom Constantino de Bragan^a 
a3o se preoccupou em tornar conhecimento 

doa capitulos formuledoa contra Cam5e8, e 
deixou-o jazer no tronco. Para se fazer lem- 
brado, dirigiu-lbe Gam5e8 aa Ouiavas II, em 
tine allude ao seu feito bellico da Victoria de 
Jafanapatfio do firn de Dezembro de 1560: 



Póde tornar o tosso Dome dlno 
Damio por honra sua darà e pura, 
Como ja do prtmejro Constantino 
Tomou fiyzancio ac^uelle que inda dura. 
E tu Rei, que ao remo neptunino, 
L& no seio gangetioo a aatura 
Te aposentou, de aer tao inimigo 
lyeate Estado ndo fieas aem castigo. 



* O ineamo acontecers a Francisco Barreto na sua 
:a a Fortaleza de Ghaul em principio de 15G8: 
i soldados descontentea catitavam-the de noile ver- 
de escarneo, aasàs deshonestos.* (Storck, Vida, 
02.) 



640 HISTORIA DA UTTERATUBA PORTUOUEZA 



Fìxada a data do regresso do Vice Bei a 
Oda em Margo de 1661, temos determinada a 
prisSo de Camoes por Junho, d'este anno, 
quando o Vice- Rei se sentìa mais pertorbado 
no seu governo ; o poeta allude a esses oon- 
flictos da opiniSo, repellindo-os : 

E corno com vìrtude necessaria, 
Mal entendida do juizo alheio, 
A' desordem do vulgo temeraria 
Na santa paz ponbaes o duro freio; 
Se com minha escrìptura longa e vària 
Vos occupasse o tempo, certo creio 
Que com vagante e ociosa phantasia 
Contra o commum proveito peccarìa. 

E nao menos seria reputado 
Por doce adulador, sagaz, agudo, 
Que contra meu tao baixo e triste estado 
Busco favor em vós^ que podeis tudo. 
Se contra a opiniào do vulgo errado 
Vos celebrasse em verso humilde e rudo, 
Dirdo, que com lisonja ajuda peqo 
Contra a miseria injusta que padcQO. 
* 

E alludindo com certo resentimento ad Go* 
vernador Francisco Barreto, a quem D. Con- 
stantino de Braganga succederà em 1558: 

E depois de tornar a rédea dura 
Na mào, do povo indomito que estava 
Costumado a larguezas e a sol tura 
Do pezado Governo que acabava; 
Quem nao terà por santa e justa cura 
Qual do vosso conceito se esperava, 
A tao desenfreada enfermidade 
Applicar-lhe contraria qualidade ? 

Nao é muito, Senhor, se o moderado 
Governo se blasphema e se desama ; 
V Porque o povo à largueza costumado 
A' lei serena e justa, dura cbama. . . 



EFOCA, VIDA E OBRl 641 

o que se achava em Gda, 
imentario d'estes versos de 
ido pratico: «o Vigo rey 
que o fez nSo 8er do gosto 
ie outros da India, se n3o 
levia pagasse, e que quem 
que morresse? DaB quaes 
irra de muito tempo posta 
3 hyssopo de agua benta se 
;le Ihe vem o mal dil o-bei : 
) no dar e dispender a ta- 

menoB aos primeiroe an- 

1 homens mal parecia, pelo 
am postos; a outra era ser 
justÌQa e pouco amigo de 

ngas ; e juBtamente o 

1 em geral para escandato, 
18 para S. A., fazel-as de- 
mais certo pào de que vi- 
1 India, e que pareceu mfio 
le do querer olhar pela fa- 
S. Alteza, conforme ao que 
pimento... Ihe veiu o n9o 
- .> (p. 54.) D. Constantino 

de iiragao^a era tilho do segando casamento 

''o duque de BraganQa D. Jayme, esse fana- 

co Bombrio e hallucinado, que no delirio de 

ma aversfio latente assassinou por ìntrìgas 

9m base sua esposa a primeìra duqueza. 

I. Constantino tambem soffria da mesma ve- 

ania religiosa, corno se t3 pela anedocta do 

ite de Buddha. Se realmente Gam5es fora 

>vido por Francisco Barreto com a mercè no 

to da eapeciarìa, o monopolio real a que 

taram as drogas, era bastante para in- 

linar Camdee, caso infringisse eeea deteza 



642 H18TORIA DA LlTTBRATORA PORTUQUBZA 

mesmo por ignor ancia. GamSes ficou no 
tronco de 6da até depois de ter terminado o 
governo de D. Constantino de Braganga. ' Se 
de facto as Estancias omittidas nos Lusiadas, 
que se acharam no traslado de Correa Mon- 
tenegro, foram corno se diz despresadas na ul- 
tima remodela^So do poema, aquellas tres es- 
trophes de louvor aos Bragan^as revelam 
pela sua omissSo um resentimento legitimo do 
poeta. Depois de ter celebrado Nuno Alvares 
Pereira, (yiii-32) devia seguir a estropbe: 

Este deu grào principio a sublimada 
Illustrissima Casa de Bragan^a, 
Em estado e grandeza avantajada 
A quantas o hespanhol imperio alcanna. 

Depois de Camòes se achar prezo no 
Tronco de Goa, que era junto do palacio do 
Vice-rei, pris&o mais vasta que as outras e 
destinada para toda a sorte de prezos, conio 
descreve Pyrard, foi ahi entro essa repu- 
gnante promiscuidade (]ue o poeta recebeu a 
noticia da morte de D. Catherina de Athayde, 
succedida no mesmo anno em que elle partirà 
na Armada do Sul, em 1556. Por quem sabe- 
ria osta nova da córte de Lisboa, de natureza 
multo particular e intima ? Da empreza de Ja- 



^ Severim de Paria dà a sua prisao sob D. Fran- 
cisco Coutinho ; mas Juromenba dà a soltura de Camòes 
corno ordenada pelo novo Vice-Rei o Gonde de Redon- 
do: «Do tempo de D. Constantino de Bragan^a, e — o 
consta da Carta que Ihe escreveu achand(hse o Po \ 
prezOy dizem una que por certas travessuraa; oat i 
que ainda por calumnias, que Ihe levantaram . . . P ) 
elle justificar-se e obtér do Conde (de Rodendo) a q* i 
era bem acceite, a stia soltura.» fObr. i, 83.) 



- BPOOA, VIDA E OBRA 



issaram amigos seus do tempo 
tara a córte, comò JoSo Lopes 
icisco de Almeida ; por qual- 
•eria o facto, que Ihe produziu 
ubìta, que encadeia na sèrie 
}6e3 e com a fatalidade de urna 



I qiiizer o fado eacuro, 
ir-te Tlrào em um so dia 
s; logo a voK e a melodia 

0. e o som auave e puro. 

: por que um me degotou 
ado vacuni pastava e tinha, 
randee soldadas esperava. 

} dano, o outro ine matou 

a gentil, que eu tanto amava, 

aaudade da alma minha. 

;a ultima phrase achada pela 
Ir, solta o grìto immortai, que 
que abaia os eepiritoB pelas 

gentil, que te partiate 
d'est a Vida descontente, 
la no céo eternamente 
I c& na terra sempre triste. 

jnto ethéreo onde subiste 
d'eata vida se consente, 
qne^aB d'aquelle amor ardente 
la olhoB meuB tic puro viste. 

uè pode merece-te 
ausa a dòr que me ficou 

1, Sem remedio, de perder-te ; 

i, que teui annos encìirtoti, 
edo de cà me leve a vér-te, 
o de meus olhos te levou. 



644 aiSTORIA DA LITTERATURA fOBTUOUBZA 

Juromenha fixou a data da morte da na- 
morada do poeta com fundamento decisivo: 
«No Lìvro das Moradias da Casa da Rainha 
D. Catherina, apparece o seu assentamento, 
assignando ella quasi sempre os recibos do 
ordenado, ainda que algumas vezes por pro- 
curagào, ^té ao ultimo quartel de 1555, que 
aìnda assigna. No fim, porém, do anno de 
1556 apparece o assentamento de Dama de 
uma irma d'està senhora por està fórma : = 
D. Joanna de Lima hade haver lodo o quar- 
tel a rasào de 10 $000 rs. por anno. Etc. re 
cebeu por si em Lisboa a SO de Dezemhro de 
1656. — Joanna de Lima, — Descontou-se 600 
rs, de registo do Alvard, e 21 rs, de direitos. 
= Nao torna mais a apparecer o assentamento 
de D. Catherina de Athayde ; por onde se col- 
lige dar amente, e ousamos dizer sem perigo 
de errar, que por morte d'està senhora, pòde 
seu pae pela sua vagatura no pago, obtèr da 
Rainha fazer entrar no seu logar està outra 
sua filha.» * Pelo Nobiliario de D. Antonio de 
Lima se ve, que a circumstancia : ^morreuno 
Pago moga» deixou certa impressao entre os 
que frequenta vam a córte; pela data do casa- 
mento de sua mae, Infere-se que ella entraria 
nos vinte e ciuco annos de edade. Està pre- 
matura morte foi consequencia do seu amor 
contrariado, cuja crise de consumpQao affli- 
ctiva se estampa nos traQOs das varias assigna- 
turas nos recibos dos quarteis quo subscrevia 



1 Jur., Obras, t. i, p 35. k màe D. Maria Boc 
negra era muito da amìsade da Rainha, que bem r 
nhecia a sua pobreza, e sentiu a morte da desdito 
menina. 



a. Na Collec^ào G 
to, (p. 75-76) acha 
signatura authentic 
ayde, noe recibos 
e 1550, 1553, 15 
gas assignaturaB b 
hologico, qualquei 
Iteragòes d'esses ti 
tagao e os tormenti 
pela d6r moral. C 
turas : 

550: O 6eu nome i 
0, ascendendo, ati 
imòes tinha regres 
ira partir para a li 
ìB na matrìcula da 
L dos tra^os, resuli 
BB, moBtram-nos m 
agoada incerteza. 
[550 ; é escripto o i 
lares, mas ainùa o 
irtìu na Armada d 

, joa com esperan^a 

ser admittido na córte, pelo gosto littei 
do princepe D. JoSo. 

— 29 de Agosto de 1653: ella assigna 
traQOB firmes, alinhados, grandes, de 
dando um espirito reaoluto. Camòes pa 
em 26 de MarQo na Armada para a li 
tendo garantìda a firmeza do bgu amor, e 
està segura da sua esperan<;a. 

— 7 de MarQO de 1554: A assignatui 
.0 tem a firmeza de linhaB, corno na i 
T. Grandes tristezas na córte; a fai 

iteode casal-a; n3o sabe noticias do pt 

— 1566 : nas tres firmas d'estes quart 



646 HISTORIA DA LITTBRATURA PORTUGUEZA 



perturbagao dos tra<;os vae augmentaodo até 
revelar urna quasi inoonsciencia de moTÌmen- 
tos, urna vontade quebrada; era a morte 
lenta, sob a pressao da rainha, sollicitada 
pela familia. seu falecimento impressionoa 
quantos conheciam D. Catherina de Athayde. 
Um dos maìores inimigos de Camoes, o odioso 
P^ro de Andrade Caminha, escreveu um Epi- 
thaphio : 

A S.*"* DONA CATHERINA D'ATAIDE, FILHA 

DE DOM ANTONIO DE LIMA, 

DAMA DA RAINHA 

Aqui jaz escondida aquella Dama 

Fermosissima e rara Catherina; 
Que no inundo tera gloriosa fama 

De cuja vista a terra foi indìna. 
Aqui chorou o Amor, e d'aqui chama 

Que n'esta pedra, de tod'honra dina, 
Cantem immortaes versos e louvores 

A Formosura, as Gra^as e os Amores. 

{Epit, XXI 1.) 

Os elogios de Caminba n'este insulso Epi- 
taphio alludem & gloriosa fama, que terà 
D. Catherina de Athayde no mundo; serfipor 
ter sabido resistir ao amor nos seus tenros 
annos, ou pelos versos apaìxonados em que 
a idealisou Gamoes? Caminha era incapaz 
d'este sentimento generoso. 

Juromenha, ao fixar a data da morte da 
namorada do poeta, presentiu, que algu 
luz se reflectiria no oonhecimento d'es 
amores: «A certeza da epoca do falecimeL 
d'està senhora mais alguma'daridade lan 
sobre as poesias do nosso auctor; comtr 
diffidi empreza é o seguir o labyrinto do 



cn&DQa que se lorna mumer; a anupainia e 
bostìlidade da familia contra o poeta, e por 
ultimo a paixSo absoluta e nostalgica, que 
Ihe accelera a morte. * 

Durante & brutal recIusSo de Camòes no 
Tronco de G6a, compoz elle quatro Sonetos, 
que nos manuscrìptos andam ligados sob a 
epigrapbe : Trovas que fez utn prezo dizendo 
mal que fisera e lamentando a fortuna e 
tempo. Em um d'esse» Sonetos descreve a si- 
tua^So desgra^ada : 

Em prisòes baixas fui um tempo atado, 
Vergonboao oaatigo de meus erros; 
Inda agora arrojando levo o» ferrog, 
Qne a morte, a meu pesar, tem jà quebrado. 

Sacriffqoei a Vida a meu cuidado, 
Qne amor nao quer cordeiros nem bezerros ; 
Vi magoas, vi miaeriaii, in desterros: 
Parece-me que eatava at si ordenado. 

Ooatentei-me com pouco, conhecendo 
Que era o contentamento vergonhoso. 
So por vèr que cousa era o viver lèdo. 



I ' Na HÌ8toria de Camòes, impressa em 1873, 

258) tinhamos fisado este ponto: «quando Camóea 
pela prjmeìra vez desterrndo da córte, teria D. Ca- 
prina de Athayde deseeeis nnnos, o que nos explica a 
">BÌ()9o qne se fez a estes precoces amores.» 



648 HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA 



Mas, minha estrella, que eu ja agora entendo, 
A morte cega^ e o caso duvidoso 
Me fizeram de gostos haver medo. 

Alguns biographos interpretam este So- 
Deto V com sentido allegorico e moral ; mas a 
clausula final da morte cega e o caso duvi» 
doso determinando a situando que o inspirou, 
impoe um sentido concreto, que se confirma 
pelos factos. Foram as prisoes baixas o 
Tronco da cidade de Lisboa, bem corno o ser- 
vilo militar forgado de ciuco annos nas Ar- 
madas da India em cruzeiros doentios, a pri- 
sào em Macau sob que veiu capitulado para 
Gda, onde esteve mettido no Tronco durante os 
ultimos mezes do governo do Vice-Rei Dom 
Cons tantino de Braganga, que nao se prece- 
cupou de resolver o caso duvidoso que deter- 
minara o injusto mando. Tendo jfi conbecido 
a inefficacia da amisade branda de D. Theo- 
dosio, que saudara no tempo em que frequen- 
tava as Escholas de Santa Cruz de Goimbra, 
podia agora applicar ao irmao D. Constantino 
aquelle conceito da sua Carta iii «Princepes 
de condigao, ainda que o sejam de sangue, 
sao mais enfadonhos que a pobreza; fazem 
com a sua fidalguia com que Ihe cavem fi- 
dalguias de seus avós, onde nao ha trigo tSo 
joeirado que nao tenha alguma ervilhaca.» 
Referia se à bastardia originaria dos Bra- 
gan<;as. 

b) Sob governo do Conde de Redondo -* Amitades lltteraritt 

Em 7 de Septembro de 1561 la cometa 
o seu triennio o Vice- Rei Dom Francis© 
Coutinho, 2.^ Conde de Redondo, Regedor A 



> 



Ci, VIDA E OBRA 



mandado pela Kegencla 
nstantino de BragaiiQa. 

„v, nta e quatro annos, que 

formara o seu caracter antes do predominio 
do bigotismo na córte de D. JoSo iii, de Irato 
jovial e de um claro bom senso. * Alguns dos 
amigos de Camòes, que o visita vam no Tronco, 
deram noticia do poeta ao Conde Vice-Rei; 
lembrou-se logo o alto magiatrado do tempo 
em que se encontrara com Camòes na córte 
de D. Jo5o ni, quando andava apaixonado 
por D. Maria de GuernSo, sua esposa, e 
juando à irmS d'ella, D. Guiomar de Blaesfet, 
iscreveu Camòes as deliciosaa redondilhas e 
) Soneto ao caso da véla que Ihe quelmou a 
tee. Nada mais affectuoso ; recordava-lhe os 
wus trinta e sete annoa, e ao mesmo tempo 
iquella sua fìlha.a que puzera o nome de 
juiomar de Blaesfet, em homeDagem ft cantada 
lua tia. ' Lembrava-se bem d'aquelle Soneto 
■om que gloriticara seu pae, D. Jo3o Couti- 
iho, em quem symbolisava a Honra portu- 
gueza. (Son. LXXXVi.) 



' Conta Diogo do Couto, no Soldado pratico, uraa 

anedocta que o retrata; -estando o Conde viso-Rei em 

Cocbira, se poz iiiterdìcto na Sé. de portas fechadas 

por tardarem aos Padres com seu pagamento, por fatta 

de dinheiro, e nào boas palavras e promessae do Conde 

Tiao-Rei, que Ibes pagana do primeiro que houvesse; 

— corno liomem a que Deus deu tanto saber e galante- 

'" que em nada pode errar, — langando a couaa a 

barìa, com gra^as ob envergonhou de maneira que 

he vieram tannar aos p6s pedindo perdào com o 

...... (p. 24.) 

Jaromenha auppòe que fórE^ esia filha de Dom 
idaco Coutinho a celebrada por CamÓes; mas pela 
e seductora da dama v€-se que so podia ser a tia, 
^ -iroorada de D. Simào de Menezes. 



650 HISTORIA DA UTTERATURA POBTUOUEZA 



Camoes no Tronco de G6a ! Contra essa 
affronta ao talento deu o Conde Vice-Rei or- 
dem immediata de soltura, para qae nao dis- 
sessem que esteve prezo soh o 3eu governo. 

O Cònde de Redondo, lembrado dos seus 
talentos poeticos, pediu a Camoes, corno pri- 
meiro signal da sua intimidade, que Ihe glos* 
sasse uma copia que trazia de memoria, do 
tempo dos seroes do pago : Mote que Ihe man- 
dou o Vice- Rei: 

Muito 80U meu inimigo, 
Pois que nào tiro de mi 
Cuidados cotn que nasci, 
Que p5e a vida em perigo, 
Oxalà que fora assi. 

Camoes satisfez o pedido, escrevendo ao 
Conde de Redondo uma Carta em redondi- 
Ihas: «iVa India^ ao Viso-Rei^ eom o Mote 
adiante. Na carta encontram-se alguns dados 
biographicos : 

Conde, cujo illustre peito 
Merece o nome de Rei, 
Do qual muito certo sei 
Que fica sendo estreito 
O cargo do Viso- Rei; 
ÈervindO'Vos de occupar-me 
Tanto contra meu pianeta^ 
JNào foi se nào azas dar-nie, . . 



Bem bastai Senhor, que agora 
Vos sirvaes de me occupar; 
Que assi fazeis aparar 
A penna, com que alguma bora 
Vos vereis ao céo voar. 

Assi vos irei louvando, 
Vós a mi do ehdo erguendo^ 
Ambos o mundo espantando, 
Vós com a espada cortando, 
Eu com a penna escrevendo. 



Vendo o Fios aeccos a estima em que era Ca- 

mdeH tìdo pelo Vice-Rei, entendeu que era 

occasiSo azada para cobrar a divida, nào ae 

contentando em exigir-lh'a, mas embargando 

poeta na cad@a até seu integrai pagamento. 

Era a praxe usuai. E' assìm que se explica o 

dito de Severim de Farla, dando Camdes 

prezo sob o governo do Conde de Kedondo. 

Cam5e8, motejando do caso em umas re- 

d — dìlhas satiricas, fixou esse facto, que pas- 

s a desapercebldo em sua vida: *Trovas 

mandou o Autor da cadeia, em que o ti- 

embargado por uma divida Miguel Bo- 

^ee, Fìoa-seccos d'alcunha, ao Conde de 

'■^do />. FrandsGo Coutinho, Viso-Rei, 



1 



652 HISTORIA DA LITTERATURA POBTUGCTSZA 



que se embarcara para fóra^ pedindo-lhe o 
fizesse desembargar.^ Tratava o Vice-Rei de 
organisar a espaventosa Armada com que iria 
assentar pazes com o Qamorim, que se poz 
em marcha em Dezembro de 1562. Por tanto 
o embargo ou prisào pela divida a Fìos-sec- 
cos foi subsequente & amnistia dada pelo Vice- 
rei. As Trovas ao Conde de Redondo punham 
a auctoridade do lado do poeta : 

Que dìabo ha tao danado 
Que nào tema a cutiiada 
Dos Hos seccos da espada * 
Do fero Miguel armado ? 
Pois se tanto uni golpe seu 
Sòa na infernal cadéa, 
De que o demonio arreceia» 
Como nào fugirei eu ? 

Com rasào Ihe fugiria, 
Se contra elle e cantra ludo 
Nào tivesse um forte escitdo 
So em Vossa Senhoria, 
Por tanto, Senhor, proveja, 
Pois me tem ao remo atado, 
Que antes que seja embarcado 
Eu desembargado seja. 

Miguel Rodrigues Goutinho, de alcunha 
Fios seccos, que tambem foi na expedigao ao 
Qamorim, era multo conhecido em Gòa desde . 
o tempo em que combatera no segundo cerco 
de Diu em 1546, tendo desempenhado com 
valentia varios commandos corno capitao em 



^ Dà-se este nome a amoladela de faca ou espi 
em qualquer pedra ou borda de alguìdar 

«Beni parece que se afia n'aquella pedra, d'onde 
tao secco de penta, ou tao de fio seco,* Carlos fami 
res, de D. Francisco Manoel de Mello, p. 399. 



CPOCA, VIDA E OBRA 663 

iogo do Couto, que falla 

(VII, 8, 3) aponta-o corno 
onkecidos e ricos de Góa. 
ava-sa fi chatinagem, em- 
com fortes juros. Chama- 

militares fora do servilo, 
1 à agiotagem trocando 
chìnez e japonez a doze 
irtida dos mercadores em 
a da China, porque D'este 
Et procura fazia elevar o 
;e e cinco. Por certo que 
nprestarìa a Camoes sem 
ido perdeva no naufragio, 
vidoso; por tanto a divida 
gava Camdes pertencìa a 
iiaes chamadas Empresti- 
lue OB grandes juros eram 
los enormes lucros de ou- 
lommercio da seda. Diogo 
>8 empreatimos da Chinai 
lludindo & facilidade com 

dinheiro para negocios 
am a mercS de urna via- 
tnòes foi pertanto quando 
io Sul em Abril de 1556, 
erc§ do Governador Fran- 
;ou o poeta a ter a en- 
]ue falla Marìz, perdendo 
Lifragio na foz do Mecom, 

na insolvencia para com 
mar nào perdesse o das 
ifragio.» Entenderam oh 

que se tratava dos resi- 
(imaginaria); comò podia 
para Gòa, ser o deposita- 



654 «ISTORIA DA LITTBRATUHA PORTUGUVZA 

rio de quantìas cuja arrecadaQSo competia a 
um thesoureiro especial? Estes bens daspar- 
tes devem entender-se pelos emprestitnos da 
China^ de que era devedor ou associado dos 
lucros, com Miguel Bodrigues Coutinho. 
embargo seria para explorar a benevolenda 
do Vice-Rei manifestada a Camoes; Fios-seo- 
cos fora occupado por D. Francisco Coutioho 
na Àrmada contra o corsario Qatar. Se- 
verim de Farla, dando Gamdes prezo sob o 
governo do Conde de Redondo, ao fallar do 
embargo do Fios-seccos, refere: «nao Ihe va- 
leu o favor que o Conde de Rodondo. . . Ihe 
fez . . . para deixar de ser em seu tempo 
prezo ... E nào Ihe bastou livrar-se d'està 
accusagSo para sahir do carcere onde esteve 
algum tempo, por que Miguel Coutinho Fios- 
seccos. . . o embargou na prisSo por certo di- 
nheiro, que Ihe tinha emprestado.» (FI. 4.) Fa- 
ria e Sousa quasi que liga a pris&o com que 
viera capitulado com a do embargo de Fios> 
seccos: «E estando en està prision (parece 
que ya para salir della) en ella le embargo 
Miguel Coutinho Fios Seccos por algunos ma- 
ravedis.» (Vida li, § 22.) O Fios-seccos teve 
de conformasse com a insolvéncia mercantil 
de Camoes por inculposa e por caso de for^a 
maior; é naturai que os seus amigos influis- 
sem no animo do chatim. Pelo menos a lem- 
branga do Convite das Trovas tem por fun* 
damento plausivel o agradecimento àquelles 
bons rapazes que cooperaram para volta* i 
liberdade, e tambem comò despedida, pon te 
agora se preparavam para irem na galha a 
ExpediQao do fim d'este anno de 1562 qu< 3i 
assentar pazes com o Qamorim. O seu in^ o 



lue aseistiu a essa 
'o da 1663, ausen- 
ipitania do M aluco. 
Donde Viso Rei foi 
assentar as pazes com o Qamorim regresaou 
aÌDda no inverno a Gda; GamdeB teve eotSo 
enaejo de reatar a sua intìmìdade com os ga- 
ihardoa maoceboa, que dSo pdde acompaobar 
n'essa apparatosa expedì^So marciai, pela 
exigujdade de recursos. Essa estagSo prò- 
mettia diae agradabilÌBBlmos, e mesmo susci- 
tou no poeta urna certa satìsfa^So mora). <0 
inverno na lodia, consiste em urna sèrie de 
dias perfeìtamente serenos, aìnda bastante 
ttes, mas temperados por brisas mais frea- 
Algumas arvores, de uma delicadeza es- 
a, perdem a sua folhagem; outras, eter- 
ante verdes, soffrem apenas um abranda- 
to paseageiro na actividade de suas sei- 
Sob as latitudes tropìcaes eata esta^So 
inspira a melancbolia que noe causam as 
eiraa entradas do outono. Sente-ae que a 
reza està mergulhada em uma moddrra, 
ae que cada raio cheio de oaior tende a des- 
pertal-a ; a esperan^a é t§o proxìma, que n3o 
d& legar fi tristeza. Em logar de os temer, 
espera-se com uma certa impaciencia estes 
mezes em que o sol se afasta alguns grdoa, 
ande de todas as partes uma nova rida vem 
reanìmar aa cidades e os campoa. A pasaagem 
do astro-rei ao solsticio de estio, trouxe nu- 
la fecundas; o oéo abriu-se para laudar fi 
ra a agua de que precisa; as cearaa rega- 
i poem-ae a crescer e a amadurecer. — Aa 
tes, um pouco mais longas, permittem & 
-a o embeber-se melhor do orvalho, o ho- 



656 HISTOBIA DA UTTERATURA PORTUOUEZA 



mem tem mais forga e saude para affrontar 
a8 f adigas ... O tempo do inverno é o dos 
passeios e do8 exercicios para os europeu8.> ^ 
Sob este benefico influxo sentìu Camoea o 
desejo de saudar a despedida dos seus amigos 
com um Con vite ou festim. Como fazel-o, se 
elle que estiverà prezo por uma divida, podia 
na situa^ao em que se via tornar suas estas 
palavras do Soldado pratico: cnunca quieto 
senao nos tres mezes de inverno, e ainda 
n'esses tive maior trabalho que nas Armadas, 
por que pelejara com a fome. . què nas Ar- 
madas nao faltava um prato de arroz com 
cavallinlla salgada ; que estes sao os regalos 
com que là servem a El-rei.» (P. 159, 2.* red.) 
Camoes, agora em terra, pelejava com a fome, 
segundo a phrase de Diogo do Conto; mas 
nao desistiu do seu Convite, em que as igua- 
rias foram trovas jocosas. Em um dos Manu- 
scriptos em que essas Trovas foram traslada- 
das, vem a seguinte rubrica explicativa: ^Deu 
o Camoes hu Convite na India a hits homens 
fidalgos em hUa casa muito bem concertada, 
e Guidando elles que havia de set verdadeiro, 
acudiU'lhè com Trovas entre pratos por igua- 
rias ; e foi posto ao primeiro, Dom Vasco de 
Athayde, e descobrindo dezia a trova: etc* ' 
Dom Vasco de Atbayde, que em 1560 se 
vira no conflicto de Babarem, em que ficou 
ferido, era neto do poeta do Cancioneiro geral 
Alvaro Gongalves de Athayde, e irmSo de 
D. Luiz de Athayde, futuro Conde de Athc 



* Th. Pavie, Les Mahrattes de VOuesL 
« Ms. Jur., fi. 240. 



titDos ami- 

ezpediQ3o 

Jafanapa- 

»v., ^. .. .«^.^.a», V.V ».H.«.uB, »^^.g« de Moura 

e Jo&o Lopea Leit3o, que agora tambem iam 

na expedÌQ3o das pazes com Qamorim. 

A segunda iguaria a D. Francisco de Àl- 
meìda : 

Heliogabolo zombava 
DaB pe88oas convidadae, 
E de sorte as enganava, 
Qae Bs ignarias que dava 
Vìnham nos pratos pintadas. 
Nào temam tal traveseura. 
Fole ì& nao ^o&e ser nova; 
Por que a ceia està eegura 
De vos n3o vir em pintura, 
Mas bade vìr Coda em trova. 

Era D. Francisco de Àlmeida fillio de Dom 
[jopo de Almeida, neto do Prior do Orato 
D. DIogo de Almeida, e bisneto do primeiro 
[!!onde de Abrantes. Na dedioatoria dos Lu- 
Hadas de 1626 a Dom Jo3o de Almeida, con- 
lignou o editor Fedro Craesbeck eeta tradi- 
to, que mostra a amisade estrema de Oamòes 
;ior D. Francisco de Almeida : cSatisfa^a V. M. 
em favorecel-o n9o so com a opiniào da sua 
cnrioaidade, mas com as obriga<;òes do se- 
ihor Dom Francisco de Almeida, pay de 
V. M. de guem o autor fai tao afeÌQoado ser- 
ndor, que embareando-ae em urna nào para 
tate reino, dizia que se vinha da India por- 
! nào estava n'ella D. Francisco de Al- 
ida ■■.> E tal foi essa amisade, que em 
ìO, eBorsTia-lbe Camòes essa carta, em que 
aaber da resolu^ao de Philippe ii, Ihe di- 
lAo menos morrò com a patria.* 



6&8 HISTORIA DA LITTERATUBA PORTUGUEZA 

Segando o Manuscripto de Juromenha, a 
terceira iguaria foi servida a Jorge de Moura 
(na Iìq&o impressa, a Heitor da Silveira): 

Ceia nao a papareis ; 
Comtudo, por que nao minta, 
Para beber achareis 
Nao Caparìca mas tinta, 
E mil cousas de papeis. 
E vós torceÌB o focinho 
Com està amphibologia ? 
Pois sa bei, que a Poesia 
Vos dà aqui tinta por vinho, 
E papeis por iguaria. 

Dà-nos està decima a impressSo do alber- 
gue em que passava os seus ocios litterarios. 
D. Jorge de Moura, o collabo do Princepe 
D. JoSo, fora seu companheiro na Armada de 
1554 ao Estreito de Méca. Nos versos: «Pe- 
zar ora nSo de sao — Eu juro pelo Gèo bento», 
alludia a truques do seu amigo: ^^e falla corno 
era seu costume quando zombava^ quei- 
xandO'Se do erigano.^ 

^A quarta iguaria a Joao Lopes Leitao.» 
Àlludindo à intriga amorosa que passara na 
córte, quando offereceu a urna dama urna 
pega de cacha, descreve-lhe os pratos da ceia: 



Tendes nemigalha assada, 
Cousa nenhuma de mòlho, 
E nada feita em empada, 
E vento de tigelada, 
Picar no dente em remolho ; 
De fumo tendes ta^albos, 
Ave de pena que sente 
Quem da fome anda doente, 
Bocejos de vinho e de alhos, 
Manjar em branco excellente. 



I 

i 



GAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 659 

E'-Dos ]& conhecido Joao Lopes Leitao 
corno poeta e apaixonado, dos dias venturo- 
S08 de Gamoes na córte de D. Joao ni. Partiu 
para a India em 1554, depois da morte do 
Princepe D. JoSo. Nos versos de Fedro de 
Andrade Caminha a Epistola vii é dedioada 
a Joao Lopes Leitao, indo se para a India^ 
em resposta de outra sua; ali allude aos seus 
altos dotes poeticos e & corrente fatai que ar- 
Tastava a fidalguia para as emprezas do 
Oriente, que Sa de Miranda syntbetisou no 
cheiro da canella, despovoando o reino. O 
Dr. Antonio Ferreira na Carta vii saudava-o 
na India, lembrando as suas brandas rimas. 

Gaminha faz estas referencias ao estylo 
poetico de Joao Lopes LeitSo : 

Nem me espanto, bom Joao, qu'assì movesse 
Tea aito espirito a tua doce penna, 
Que com tam alto aparo assi escrevesse. 

Nanca par'elle fot cousa pequena, 

Tens mostrado jà d'isso mi! signaes, 
E ha muito tudo em ti sempre se ordena. 

Mas vìndo ó de que tratas, com eguaes 
Versos a teu engenho raro e puro, 
Que cresce cada dia muito mais. 

Qnem andare entre a gente jà seguro? 
E quem se nao vera tomado as màos, 
Gad'hora de um imigo forte e duro ? 

("Obr., p. 42) 

illudia aos desgostos que o fizeram aban- 
lar a córte, atirando-o para a vida tormen- 
I de além-mar, em vez de adoptar o re- 
iflo campestre : 



r> 



s. 



660 HISTORIA DA LITTEBATURA PORTUOUEZA 



Mas iiain te està ordenada inda està vida, 
Ohamado a ella seràs do céo que te ama, 
Quando sobre outros bens te for devida. 

Que de ti mais agora, jà te chama 

A quanto com rasSo de ti se espera, 
Que a Marte daràs nova gloria e fama. 

Camoes soffreu o desgosto de perder aste 
intimo amìgo» morto no mar. Em urna Epis- 
tola de Caminha a Heitor da Silveira a In- 
dia em resposta, de outra sua, descreve-se a 
impressSo oausada pela noticia da morte de 
Joao Lopes Leitao: 

la eu lendo os teus versos manso e manso, 
Porque fossem de mim melhor logrados, 
Senào quando de supito me canso. 

Se nào quando de sui)ito voltados 
Os vejo na tristissima lem branca 
Da dòr que nos terà sempre occupados. 

Ah Joao Lopes Leitao, que oonfiauQa 
Tinha o mundo no que de ti esperava! 
Mas cortou-nos a morte està esperan^a. 

Tudo o que o largo Geo em ti j unta va, 
las tu cada vez melhor mostrando 
O mundo que cad'hora mais te amava. 

Mandas, Silveira meu, que va cantando 
D'este espiri to gentil e darò amigo, 
Quantos bens se ia n'elle renovando. 

Mandas-me n'um gravissimo perigo, 

Que de sua perda a pena aspera e grande 
Nem me deixa fallar isto comtigo. 

Parece que a pedido de Heitor da Siiv< i 
compoz Caminha quatro Épitaphios fi mt ) 
de JoSo Lopes LeitSo no mar: 



nuscripto de Juromenha, o Convite termina 
com a trova a Heitor da Sìveira, distinguindo 
aseim o seu maior amìgo, tambem poeta, e 
corno elle envolvldo em invencivel pobreza. 
Sobre elle ainda pezava a tremenda fatali- 
dade, que forgara seu tio Heitor da Sìlveira, 
Drago, a partir para a India em 3 de Maio 
de 1523, para fugir aos rigores de seu pae o 
rìquiSBimo Coudel-mór FranciBCO da Silveira. * 



' Este homonymo de Heitor da Silveira, naeceu 
em 1497, e inorreu na ilha dos Mortos em 1531, em 
nm combate, com trìnta e quatro annoa. t Nobil. ma. 
dog Siiveiras, fi. 238.) CamÒes celebrou o seu heroismo 
na estancia 60 do Canto X dos Lusiadas: 

E nSo menOB de Diu a fera frota 
Que Chaul temere, de grande e ousada. 
Farà co'a vista so perdida e rota 
Por Heitor da Silveira, e doatro^ada; 
Por Heitor portuguez, de quem se nota, 
Que na costa Oambaica sempre armada, 
SerS aos Guzarates tanto dano, 
'*'ianto jà foi aos Gregos o Troyano. 



662 HISTORIA DA LITTBRATURA PORTUOUBZA 



Pela morte de seu pae Bernaldim da Sìlveira, 
e de seu irmSo primogenito Francisco da Sii- 
veira em 1640 em um naufragio, Heitor da 
Silveira veiu a herdar a Gasa da Sovereira, 



Transcrevemos aqui o retrato moral d^este tio do 
amigo do poeta, tra^ado por D. Luiz Lobo, no Nobiltà- 
rio do8 Silveirds, fi. 238: t Heitor da Silveira, em dez 
annos qua andou na India, sempre serviu sem ter ne- 
nhuma mercé nem despacho, sem tratar de interesses 
seus, podendo ter muitos de muitas prézas que tornea, 
das quaes nào quiz nada para si, postoque muito Ihe 
fosse necessario pera a meza que ordinario dava, e ou- 
tras grandes despezas que fazia, as quaes supprìa de 
aquillo que da sua parte Ihe vinha e mercés que os Go- 
vernadores Ihe faziam e de emprestimos que buscava; 
e de todos esses grandes servi^os morre sem satisfa- 
9ào, sem Ihe ficar mais outra alguma cousa que am 
balandrau de chamalote carmesim que costumava ves- 
tir sobre as armas, quando andava em alguma peleja; 
ao qual balandrau chamavam os soldados o beiele de 
Heitor da Silveira, que é uma erva que os mouros to- 
mam quando se querem esfor<;ar, querendo dizer, que 
elle com aquella vèste os esforgava nas pelejas, eassim 
quando Ih'a viam vestir : — Jà o nosso Capitào toma o 
betele : — pelo esforgo que com elle vestido mostrava; 
pela qual rasào comò bem era chamado o Drago^ o que 
se entendia nas emprezas de guerra, porque na pazera 
multo brando e aprazivel e suave na conversagao, 
posto que no resto sempre conservasse um pareeer 
triste e grave, devido a tao honrados e altos pensa- 
mentos. Veiu de Portugal sem mercè nenhuma pelos 
serviQos de Arzilla, e depois que foi à India, tambem 
tendo jà servido alguns annos, Ihe nào mandaram ne- 
nhuma satisfagào, comò de ordinario se costumava a 
pessoas de taes calidad^s e merecimentos. O Gou<f~* 
mór seu pae, postoque no reino Ihe nào fizesse aquc 
favor que elle por muitas razoes mereoia, depois d« 
vèr na India, procedendo sempre na paizào qne tin 
com Fernào da Silveira seu filho mais velho, escrevi 
que se viesse, por que Ihe querja dar sua casa; ao e 
Heitor da Silveira Ihe respondeu com o seo valer 



-, ^ tio FernSo da Sil- 

▼eìra. Do poeta e amigo de Camdes se 1@ no 
Nobilìarìo de D. Luiz Lobo: «Foi à India com 
o Gonde de Redondo, onde Berviu todo o 



animo : — Que elle nSo viera a India para tornar a Por- 
tDgal e deaherdar seu ìrmào niaia velho, se nào pera 
merecer para elle ; a qual palavra nao foi dita por cam- 

Srimento on geatileza, testifioou bem na bora da morte, 
eixando ao dito aeu irmào Fernào da Silveira por her- 
.deiro da satisfagào de seus aervigos, dos quaes até hoje 
se nSo deu nenhuma.' 

O terrivei Coudel-raór Francisco da Silveira, nao 
podendo conseguir que Ileilor da SÌIveira fosse o in- 
atrumento de iniquidnde para desherdar o seu primo- 
genito, serviu-se do fiJho mais novo, Bernaldim da Sil- 
-veira e casando-o com uma filha de um grande valido 
do rei D. Mance], conseguiu por cste melo que o rei fi- 
zesse oa confirmasse a doagio dos bens da Sovereìra 
a Bernaldim da Silveira, ficandu sem a casa o primo- 

fenito Fernào da Silveira, Do casamento de Bernaldim 
a Silveira com D. Ignez de Noronha, filha do alto va- 
lido D Bernaldim de Almeida, é que naaceu o grande 
amigo de CamÒes o poeta Heitor da Silveira, sobre o 
qual pezou a tremenda fatalidade da injuatÌQa de seu 
avo o XJoudel-mór, Lède no Nobiliario ms de D. Lniz 
Lobo : -a justipa que Fernào da Silveira nào action 
diante doa homens nào faltou diante de Deus, por que 
Bernaldim da Silveira nào logrou mais aquella jnjusta 
mercè qne quatro annos, porque morrendo seu pae no 
anno de 1536, elle morreu nfogado no de 1540, vindo 
da India ; e seu filho Heitor da Silveira, naecido do 
matrimonio causa d'aquella mercè, que n'ella succedeu, 
postoque com duas ou tres mulheres fosse casado, de 
nenbnma leve fìlhos, e tambem morreu vindo da India, 
de pe^onha.» (Nob. W3.,fl. 202.)0 primogenito de Ber- 
ildim da Silveira era Francisco da Silveira^que mor- 
lU com aeu pae em 1 540, indo este por capitào da Nào 
allega. Dnaa irmàs de Heitor da Silveira foram frei- 
•8: D. Cecilia de Noronha em Odivellaa, e D. Marga- 
da de Noronha em Santa Catherina de Sena, em 
rora. 



664 HISTORXA DA LITTEBATURA PORTUG0EZA 



tempo do Conde e de Jo9o de Menezes e de 
D. Antao de Noronha, e vindo com elle na 
dita n&o sua, morreu. Foi fidalgo de malto 
bom entendìmento e cortezao; foi casadooom 
D. Jeronyma de Menezes, filha de D. Luiz de 
Menezes, de quem teve Bemaldim da Sii- 
▼eira, que morreu menino, e por morte d'està 
mulher casou com D. (Isabel FalcdOy filha de 
Jorge de Resende e de Lucrecia FalcSo) qne 
n3o teve geragSo, porque n&o permittìu Deus 
que a injusta doa^So feita a seu pae e a elle 
em desherdamento de FernSo da Silveira, ti- 
▼esse effeito na mais longa success&o . . . > 
(FI. 240 y.) Preenchémos a omissao do genea- 
logista àcerca da segunda mulher, porque na 
Epistola I de André Falcao de Resende, tam- 
bem amigo de Cam5es, se le : ^ Heitor da 
Silveiray seu cunhado estando na India, Na 
Satira vili tambem dirigida a Heitor da Sii- 
▼eira, refere-se Falc&o de Resende a sua mu- 
lher Leonor da Silveira, sob o anagramma 
de Norelia: 

Que em reciproco amor minha consorte, 
Min ha doce Norelia e eu vivamos, 
Que mal me póde vir, que eu nao supporte! 



Oh, venha eu, Norelia, a valer tanto 
Que a Vida em com pan bla e amor passemos 
Celebrando teu nome em verso e canto. 

Da India escrevia-lhe Heitor da Silveii 
referìndo-se a esse amor, em urna Epistol 

Que alegre estarà sempre e pura essa alma, 
Toda entregue a Norelia, a qual so dando 
Cada bora da vida his, triumpho e palma. 



666 HISTORIA DA LITTERATURA POBTU6UEZA 



estrophes saudosas, exortando sua ausente 
esposa : 

Oh certo norte meu. luz clara e guia, 
Beliza, de mina alma — erti vào chamava, 
Juràra, ainìgo André, ora que a via. 

Belisa, amor, Belisa, mal cuìdava, 
Quando de vós fugi quasi voando, 
Que vinha o mal voando, e cà o achava ! 

Parti-me sem vos ver, quasi enganando 
A dura saudade bem guardada, 
Que inda ora, mais que entào, estou chorando. 

Mas nào sera fortuna tao ousada, 
Se a doce lìberdade me ora nega, 
Que muito tempo assi m'a tinha atada. 

Està confianca, André, so me socega, 
E me desvia de mil màos extremos, 
A que a va phantasia se me apega. 

Amor me diz a orelha, que nos vémos 
Cedo jà sem fortuna, mas bonanga : 
E em quanto tarda, assim nos visitemos. 
Se dar-me queres vida ou esperan^a. 

Tambem corno GamSes, condemnava Hei- 
tor da Silveira a dissoluQ3o moral que minava 
o imperio do Oriente: 

Este é o ouro, este é o metal, que criam 
Estas partes de cà, que em poucos annos 
Europa de varòes nobres despiam. 

Cruel Gama, cruel, que tantos danos 
O^ Lusitano dés! Que se desfa^a 
Em pò tanto varào por bens mundanos ! 

Oh desleal cubica ! viva traga, 
Faminta harpia, que por quasi nada 
Alma, que livre é, preza andar faga ! . . . 

O Conde Vice-Rei regressara de Gochii 
Oda; por està occasiSo escreveu Heitor 



1 



668 HISTORIA DA LITTfiRATURA PORTUaUEXA 



Referia-se & sua qualidade de Gapit&o, sob 
CU] a bandeira se offerecera o poeta para acom- 
panhal-o corno antigo homem de guerra. 

O Vice- Rei tinha por GamSes a estima qua 
bem merecia o seu excepcional talento, e o 
affecto das suas antigas rela^des da córte ; era 
quasi um empenbo para o Gonde de Redondo. 
Apparecera em 6òa o velbo Doutor Garcia da 
Orta, Physico de el-rei, que tendo andado 
pelas cortes e estados dos mais poderosos ra- 
jàs da India, vinha imprimir um livro em que 
consignara as suas observaQoes botanicas e 
pharmacologicas, coUigìdas durante trìnta an- 
nos de trabalho. Requereu o venerando sa- 
bio ao Vice- Rei um privilegio para que nin- 
guem pudesse imprimir sem sua licenza por 
tempo de tres annos o livro que elle tìnha 
feito das mezinhas e fruitas da India. 
Vice-rei concedeu o privilegio por aivarft da- 
tadn de 5 de Novembro de 1562. O livro foi 
tambem revisto pelo licenciado Aleixo Dias 
Falc&o, Inquisidor do Santo Officio em 66a, 
entrando depois de ter passado por essa te- 
nebrosa malha nos prelos de Joannes de En- 
dem, d'onde saiu em 10 de Abrìl de 1563. 
Entre os encomios que precedem esse ex- 
traordinario livro, que imprimiu & sciencia da 
Renascenga o caracter experimental, encon- 
tra-se uma Ode de Gamoes, recommendando 
ao seu respeito benevolente o velho sabio, 
que a Europa depois tanto consagrou ; tem a 
rubrica: Ao Gonde de Redondo o viso-I i 
da India. Luis de Gamoes. * 



^ No Ms. que anda appenso a edigào das Ri i 
de 1595, da Bibliotheca naclonal, traz està rub»*'" l 



lo 
irp 



E' tambem para notar, que < 
prìmeiro escripto de Gaiii5eB q 
Tulgarìsa^So pela impreDBa ; e 
Begundo ob differentes manusc 
foi colUeido peloB editores das J 
senta além do de 1563, mais 1 



Dom Franeiaeo Coulinho sabre o liin 
Douior Orla 'De Simplieibua.' Este 
( diz com se palavraa do auotor na 
< m padera eu compór este tratado e 
l ia muitoa annos antes composto. . ■ 
f portugnez por aer mais geral, e p< 
OS que n'estas indianas resiòes ha 
m vai intitulado folgaram de o lér : 



670 HISTOBIA DA UTTBRAT0RA PORTtrQUBZA 



na de 1598, em Paria e Sousa e no Manu- 
Bcripto do Visconde de Juromenha. Mas, com 
teda a evideneia a IìqSo de 1563, nSo ìncor- 
porada nas Rimas, é a mais bella e pura ; al- 
guns retoques, parece que foram feitos para 
corrigir Gamdes de imaginarios erros, corno 
na seguirne estrophe, referindo-se aos proje- 
ctos militares do Vice-Rei : 

Postoque o pensamento 
Occupado tenbaes na guerra infesta, . 

Ou do sanguinolento 
Taprobanico Aeketn, que o mar molesta, 
Ou do Oambaico occulto imiguo nosso; 
Que qualquer d'elles treme ao nome vosso. 

Alludia Gamdes aos preparativos bellicos 
do Vice-Rei, contra o Àchem, no proximo 
Septembro de 1563; o verso referente ao 
Taprobanico Achem^ anda emendado desde 
Farla e Sousa por Taprobano ou Achemj 
suppondo-se que confundira Camòes CeylSo 
com Sumatra (Taprobana, a ilha de GeylSo, 
e Achem em Sumatra.) Gamdes n&o errou; 
seguiu uma opini&o que dominou do firn da 
Edade mèdia aos comégos da Renascenga, e 
de que ainda nos Colloquios do Dr. Garda da 
Orta ha o reflexo, quando elle escreve de 
Geyl3o: «que alguns dizem ser Taprohana 
ou ^amatra.'b * 



* O Conde de Ficalbo na sua edi^ào inegual I— 

dos Colloquios dos Simples e DrogaSy justifica pl< - 

mente Camòes: «E a opiniao de que Taprohana \ 

Sumatra foi corrente entre viajantes, comò Nicolo ) 

Conti; entre cartographos corno Fra Mauro, entrr \ 

mais eruditos geographos corno Sebastìào Mane . 

Ortelius e Mercator, para citarmos unicamente os ' i 



672 B18TORIA DA UTTERAT0RA PORTUGUEZA 

Ihe fizesse vantagem. Sahindo ensinado nos 
principios de sua faeuldade das insignes Uhi- 
versidades de Alcalà e Salamaneat trabalhon 
de oommunicar o bem da Sciencia, que nas 
terras alheias tinha alcan^ado com sua pro- 
pria pratica, tendo nos Estudos de Lisboa por 
alguns annos com muyta diligencìa e cuidado, 
exercìtando-se na cura dos doentes até vir a 
estas partes da Asia, onde por espaQO de 
trinta annos, curando muyta diversidade de 

Sentes nSo sómente na companhia dos Viso- 
leys e Governadores d'està orientai India, 
mas em algumas cortes de reis mouros e gen- 
tios cummunicando com medicos e pessoas cu- 
riosas, trabalhou para reoonhecer e descobrir 
a verdade das medecinas simples, que n'esta 
terra nascem, das quaes tantos enganos e fa- 
bulas nSo sómente os antigos, mas muytos 
dos modernos escreveram: etc.» 

N'esta observaQSo se encerra o alto merito 
scientifico do Doutor Garcia da Orta ; porque 
emquanto os sabios da Europa abandonando 
com fundamento as doutrinas medicas dos 
Arabes para restabelecerem as doutrinas de 
Hippocrates ou o puro hellenismo, e envol- 
viam no mesmo desprezo os conhecimentos 
botanicos e pharmacologicos dos Àrabes, o 
Doutor Garcia da Orta soube verificar pela 
observaQSo e experiencia o que havia de posi- 
tivo n'esta parte da sciencia dos Arabes, in- 
fiuindo por isso immediatamente na Eurona 
no fim do seculo xvi e em todo o seculo xr . 
A' necessidade polemica das duas esebo, i 
adaptou Orta a fórma do dialogo, que tor i 
multo pittorescas as suas descripQóes e obs 
vsQóes, mesmo ethnologicas e historicas. ! 



OAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 673 

mente no secalo xix é que se p6de compre- 
hender e reconheoer a verdade dos factos 
oonsignados nos Goloquioa^ em frente da 
Flora Indica de Baxburgh, da Flora of Bri- 
tish India de Hookes, da Materia medica de 
Whitelaw Ainslie, e a Materia Medica of wes- 
tern India de Dymoik e das Useful piante of 
the Bombay Prèsideney do Dr. Lubsa ; d'onde 
oonclue o seu eruditissimo editor o Gonde de 
Ficalho : «Este facto é todo em louvor de Gar- 
da da Orta. Elle penetrou t3o profundamente 
no assumpto, que os livros dos dois seculos 
seguintes ao seu elucidam o que deixou es- 
cripto. E foi so no nosso seculo, e sobretudo 
na segunda metade do nosso seculo, que nu- 
merosas publicaQoes scientificas vieram con- 
firmar, explicar, rectìficar as suas observa- 
Qoee.» ^ 

Ha aìnda um .elemento biographico do 
Dontor Garcia da Orta na sua dedicatoria dos 
Coloquios a Martim Affonso de Sousa, de 
quem ee diz seu creado. Tendo-o acompanhado 
para a India em 1534, na Armada em que 
fora comò Governador, a elle confessa dever- 
Ihe o impulso para escrever o seu livro : «Oh, 
quem pudera, illustrissimo Senhor, tornar-se 
Homero ou Virgilio pera escrever vossas 
grandes fa^anbas pera com isto deixar fruto 
de mi aos vindouros ; mas pois que a fortuna 
isso me negou, e fui amoestado e reprendido 
d'està ociosidade, da qual tambem fui accu- 
F'*'>o d'alguns, que està terra governaram ; e 



Coloquios dos Simples e Drogas, p. xvu, Ed. 



674 HI8T0RIA DA LITTBRATURA PORTUGUESA 



porque o vosso conselho e mandado para mi, 
determinei de fazer este breve tratado;.- .^ 
«Bem podeìs, illustrissimo senhor, defendello 
do envejoso povo aquelle a quem até o pre- 
sente creastes, ajudastes e favorecestes e fi- 
nalmente Ihe destes o vosso nome, com o qual 
este livro sera temido dos invejosos. . .> 

A alta capacidade de Martim Affonso de 
Sousa avalia-se pelos problemas astf^onomi- 
cos, que ao recolher da sua expedigSo de re- 
conbecimento à^ costas austraes do «Brasil, 
(1530) appresentou ao insigne mathematico 
Fedro Nunes, cujas explica^oes oonstituiram 
o Tratado sobre certas duvidas da Navega- 
gdo. Por està relagao se comprehei^de corno 
em 1534 o Doutor Garcia da Orta o acompa- 
nhou para a India na Armada por elle capi- 
taneada, e ainda a seu pedido escreven a 
obra dos Cóloquios dos Simples e Drogas, 
Guiado pela noticia da Bibliotheea Lusitana^ 
de que era Garcia dà Orta naturai de Eivas, 
procedeu o erudito investigador Antonio Tho* 
maz Pires ao exame de velhos livros findos 
de VereaQoes, de Receita e Despeza e tambem 
de Capellas e Morgados, e encontron està 
familia da Orta residindo em Elvas, dando-nos 
o seu quadro genealogico até ao seculo xvn. ^ 
Diz Barbosa, que elle era por sua familia 



* Nos seus EUudoa e Notas Etvenses — vm — Gar- 
cia DA Orta : 

— Jorge da Orta, tendeiro (legista) em Elvas 
necendo em 1504 papel para a Camara. Possaiu i 
casa na rua que sóe da Pra^a de Elvas para o P6^ 
Alcalà, a qual veìu a pertencer em 1569 a seu geo > 
Bacharel Gabriel Lniz. 



CAHÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 675 

domestico do8 Senhores do Prado; é certo 
que em Salamanca, onde em uma viagem por 
Hespanha se demorou Martim Affonso de 
Scusa, na sua mocidade, casando-se ahi com 
a formosa D. Anna Pìmentel, filha do rege- 
dor de Salamanca e Talavera, D. Ayres Mal- 
donado, frequentava por este mesmo tempo 
Garcia da Orta a Universidade. Foi isto por 
1521 ; em IQ^de Abril de 1526 concedia Dom 
JoSo III a Garcia da Orta, morador em Cas- 
tello de Vide, licenza para curar de physica 
por todo o reino, tendo feito prèvio exame de 
sufficiencia diante do Physico-mór. Dedarada 
vaga a cadeira de Summulas na Universi- 
dado de Lisboa, concedeu o conselho n'osse 
mesmo dia, 27 de Janeiro de 1552, que se 



— Dr. Gaggia da Orta, nascido por 1490 appro- 
ximadamente, corno opina o Conde de Ficalho. A pro- 
fissào de medico n'esta familia da Orta, leva a inferir 
a verdade da genealogia. * 

— ' Beatriz da Orta^ casada com o Bacharel Gabriel 
Luiz, de quem teve duas filhas: Anna Luiz e Branca 
Laiz, que casaram. Morreu em 24 de Julhode 1562, 

— Bacharel Francisco da Orta, casou com Cathe- 
rina Lopes, naturai de Fronteira e residiu em Portale- 
greem 1569, 1571 e 1573 

— Jorge d* Orta^ cirurgiào em Elvas, sendoconsul- 
tado em 1581 sobre a continuaf^ào da peste do anno 
anterior. Casou com Àldon^a Gomes. Figura conio ho- 
mem abastado desde 1570, epoca em que o Conde de 
Ficalho colloca o falecimento do Doutor Garcia da Or- 
ta. sbendo comò parente proximo seu herdeiro. 

Os estudos raedicos eram desprezados pelos chris- 
velhos ; e a predilecQào d'estes estudos pelos Or- 
de Elvas, dà à genealogia deduzida dos documen- 
um certo nexo de familia. Garcia da Orta nos Col- 
io8 (p. 206) declara que teve uni seu parente Phy- 
em Èa^aim, 



676 aidTOfttÀ 5A LltTfiRATOEA POSTnoUBZA 



desse a Garda da Orta por encommendat in- 
terinamente. Na Tabula Legentium do se- 
gundo t6r<;o do anno lectivo de 1534 figura o 
L^ orta (Licenciado Orta), lendo até 1 de 
MarQO, por estar de partida para a India. ' 
Foi a paixSo pela sciencia que o fez abando- 
nar ^ sua cadeira da Universidade, e seguir 

6 ara a India na Àrmada do fidalgo seu amigo 
[artim Affonso de Sousa; confessa-o quando 
affirma a liberdade do seu criterio cporqae 
ostando eu em Hespanha, nao ousaria de di- 
2er cousa alguma cantra Galeno e contra os 
<jrrego8.T> Eram as auctoridades dominantes 
na Europa em conflicto dogmatico de arabis- 
tas e hellenistas ; Garcia da Orta libertava o 
seu criterio pela observagSo e pela experien- 
eia. Deveu-lhe a Europa a primeira descri- 
PqSo da noz vomica, (Strychna nux vomica) 
e a descripQ&o exacta do Cholera. Tendo re- 
digido em portuguez o seu livro, foi preciso 
que Carolus Clausius o traduzisse em latim, 
tirandO'lhe a fórma de dialogo para que se 
vulgarisasse na Europa, sondo ainda no se- 
culo xvi e *Xvii traduzido nas principaes Un* 
guas modernas. No mundo scientifico desde 
a Renascenga até hoje, os Coloquios do don- 
tor Garcia da Orta, est&o fi mesma altura qae 
na Litteratura estSo os Lusiadas de Camoes, 
as duas mais altas express5es do genio por- 
tuguez. Oamdes com os seus quarenta e doos 
annos mereceu a intimidade do velho medico 



^ Historia da Universidade de Coimbra, i 
363. — Conde de Ficalho, Garda da Orta, e o 
tempo, p. 46. 



% ., ^vam 



OAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 677 

oom a experiencia de mais de setenta annos. 
Como estas duas individualidades, longe da 
patria, se achavam servindo o mesmo ideal, 
amando-a, glorificando-ai i 

Quando para Camoes se organisava um 
maio moral, em que se encontrava & vontade, 
urna fatalìdade inesperada derruia mais uma 
vez todas as suas esperan^as : o Conde Vice- 
Rei adoeceu subitamente e em poucos dias 
faleceu quando se espalhara que estava ape- 
nas enfermo; deu-se o obito em 19 de Feve- 
reiro de 1564. Aberta a success&o ante o seu 
catafalco, appareceu nomeado para sucoe- 
der comò Governador D. Antao de Noronha, 
qne desde 1562 estava ausente, no reino; a 
segunda carta continha o nome de D. Joao 
de Mendonga, que findara o triennio da Ca* 
pitania de Malaca. 

Camòes achava-se quasi -so, porque se dis- 

persaram logo os seus amigos : Heitor da Sil- 

veira e Joao Lopes Leitao partem em 1564 

8ob o commando de Marramaque, D. Francisco 

de Àlmeida vae para o Cruzeiro do Malabar, 

e Jorge de Moura commanda a Armada do 

Norte. Era no meio dos seus desastres e de- 

salentos moraes, que o poeta se refugiava na 

elaboraQao da Epopèa portugueza ; datam 

d'oste tempo as relaQoes intimas com Diogo 

do Conto, que em 1564 terminara a sua obri- 

gBQào do serviQO militar, permanecendo em 

6òa. Cam5es communicoulhe o seu Poema, e 

isultava-o embora fosse um rapaz de vinte 

dois annos. Diogo do Conto era jà multo 

truido; entrara aos dez annos para o ser- 

do Infante D. Luiz, e frequentara o Col- 

■0 dos Jesuitas, tendo ahi por mestres os 



678 HISTORIA DA LITTBRATDRA PORTUOUBZA 

P.®» Manuel Alvares e Cypriano Soares, em 
latim e rhétorica, e Frei Bartholomeu dos 
Martyres, em Philosophia, em Bemfica. O bio- 
grapbo Severim de Paria cita um documento 
eobre as relagoes de Diogo do Couto com Ca- 
tndes: «urna carta que no anno de 1611 es- 
creveu a um amigo d'este Reyno, que por o 
8er grande de Luiz de Camoes Ihe communi- 
oou elle a obra dos seus Lusiadas^ e que Ihe 
pediu OS quizesse commentar, o que Diogo do 
Couto fez depois em parte . . . » f Vida^ fi. 4.) 
E na Vida do obronista, repete : «Teve par- 
ticular amisade com o excellente poeta Luiz 
de Camoes, o qual o consultou muitas vezes 
e tomou seu parecer em alguns dos logares 
dos séus Lusiadns.^ De facto Diogo do Couto 
chegou a emprehender um Commentario bis- 
torico, geograpbico e etbnologico sobre os 
Lusiadas, que chegara até ao Canto v, corno 
se le na Bibliotheca lusitana : < Commento às 
Lusiadas de Luiz de Camoes feito a petiqào 
d*este incomparavel Poeta^ em cuja empreza 
nao passou do Quinto canto, que conserva 
D. Fernando de Castro, conego de Evora, 
por Ib'o ter deixado seu tio D. Fernando de 
Castro Pereira, a quem o autbor o tinba re- 
mettido.» A epoca em que emprehendeu esto 
Commentario é anterior & publicagao dos Lu- 
siadas, por que em 6 de Setembro de 1571, 
regressava Couto para a India, n&o tendo 
mais ensejo para ocios litterarios, e ne*" 
mesmo fazendo justiga a Camoes em quan 
aos seus serviQOS comò militar. ^ Tambem 



^ Camillo, nas Notas biographicas, p. 44. escre 
«Os factos valorosos de Luiz de Gamòes, nao tive 




CAMÒES ~- EPOCA, VIDA E OBRA 679 



Doutor Garda da Orta teve conhecìmento da 
Epopèa portugueza, que Ihe acordara as suas 
reminiscencias classicas ; por que ao dedicar 
o seu livro a Martim Àffonso de Sousa, es- 
crevia: <0h quem pudera, illustrissimo se- 
nhor, tornar-se Homero ou Virgilio^ para es- 
crever vossas grandes f a^anhas ...» Ref lecte 
as comparagdes da Ode encomiastica ao Conde 
de Redondo. Gonfortava-se Camoes com as 
suas amisades litterarias ; entre os poetas que 
d'elle se acerca vam é lembrado Antonio de 
Abreu, que tambem comò Luiz Franco Cor- 
rèa, inscrevia o seu nome com a sigla de — 
Amigo e companheiro de Camoes no Estado 
da India. Seria Antonio de Abreu o outr'ora 
mestre da Infanta Dona Maria? Era alcu- 
nhado de Engenhoso, e d'elle escreve Bar- 
bosa: cTeve particular amisade com Luiz de 
0am5es, assim em Portugal comò na India, 
onde viveu com elle muitos annos, de que foi 
sempre fiel imitador, corno testemunham as 
pessoas mais eruditas d'aquelle seculo, e o 
poderiam testificar as do presente, se seu ìr- 
mao Fr. Bartholomeu de Santo Agostinho, 
antes de morrer publicasse uma grande col- 
iec^So que tinha feìt'^ dos seus Versos sagra- 
dos e profanos.^ ^ N«» tempo de Camoes exer- 



a Dotabilidade que os chronìstas do Oriente e de Dom 
Joào HI deram a lances ìnsignìfìcantes de homens ob- 
ros. O diffuso auctor das Decadasi Couto, apenas o 
Dèa n'uma crise de pobreza convisinha da mendì- 
)z.> O ipanuscripto da Decada vin foi toubado a 
•go do Couto, tendo elle de resuniìl-a sobre reminis- 
cìas; d'aqui por certo a sua omissào 

.De um Manuscripto em papel asiatico em que 



680 H18TORIA DA LlTTERATDRA PORTUGUEZA 



eia Antonio de Àbreu o cargo de Contador 
da Fazenda; * e resentem-se os seus versos 
bastante da secura da profissSo. Estava tam- 
bem na intimidade de Camoes o curioso com- 
pilador e poeta Luiz Franco Correa, que en* 
riquecia o seu Cancioneiro com o traslado das 
composiQdes dos melhores Poetas de sen 
tempo (1557 a 1589); ahi se encontra a Ode 
dedicada ao novo Vice-Rei, que em fina de 
1564 ia governar a India, a qual fioou inedita 
até 1861. 



e) A amltade do Vlc«-Rel D. Antlo de Noronha — Saliida para Mo^aai- 
bique (1667) — Partlda para Lisboa (1S69) 

O antigo amigo de Gamdes, o valente Dom 
AntSo de Noronha nomeado Vice-Rei da 
India em 15 de Mar^o de 1564, chegava a 
Gòa, tornando conta do governo em 3 de Se- 
ptembro d'esse anno. A confianga affectiva 
de Camoes com D. AntSo de Noronha, dos 
tempos da esta^ao militar de Ceuta, acha-se 
na sua Elegia ii e Outavas i.^; tinham bata- 



86 achavam poesias de Luiz de Camoes e de Antonio 
de Abreu, extrahiu era 1805 o prof. A. L. Caminha: 
20 Sonetos, 1 Ode a D. Jeronymo Osorio, Bispo do 
Algarve, 1 Sextina, e 58 Outavas contendo a Efescri- 
p<;ào de Malaca, e aìnda 1 Quartetos lamentando a perda 
de D. Sebastiào em Alcacer-Kibir, e a que dea o titulo 
de Obras ineditas de Antonio de Abreu. Lisboa, IB'^". 
In-S»^ de 51 pag. 

^ No Or<^amento do Estado da India, do i 
rende, eto por mandado de Diogo Velbo, Védorda 
zenda da India... E foi feito por mim Antonio '■ 
Abreu, Contador d'El Rei nosso senhor n'estas pai 
da India, e se acabou em 7 de Novembro de 1574. 



GAMÒES — BPOGAy VIDA E OBRA 681 



Ihado sob o mesmo commando na expedigSo 
oontra o Chembè em 1553, e na Armada do 
I Norte em 1554. A delìcadeza moral de Camoes 
I nSo Ihe consentiu fazer-se valer ante o novo 
; Vice- Rei; D. Ant&o de Noronha é que veiu ao 
seu encontro, e familiarmente Ihe pediu versos. 
, Ei8 o motivo da Ode a um amigo^ em que 
' faz sentir està circumstancia : 

Nao é de confìado 
j Mo8trar-vos minhas cousas, pois conheQo 

I Que tendes alcan^ado 

N'isto o mais alto pre^o, 
E quanto em mostral-as desmerego. 

Mas, é de desioso 
De vos obedeceTy por que estou vendo, 

Que a nome tao honroso, 
'Mais ganho obedecendo 
Que perco em demonstrar quào pouco entendo. 

Camoes recorda-lhe os feitos heroicos da 
sua mocidade, quando Africa era ainda a es- 
chola da Gavallaria portugueza, essa pri- 
meira aurora, que vem um so momento de- 
pois do sol da Vice-realeza : 

A vós, a cuja^gloria 
No mais antigo tempo e no presente, 

O louro da Victoria 

Concede facilmente 
Qualquer que de Thalia as obras sente; 



A vós, cufa alta fama 
Vi entre os Garamatas conheeida, 

A' luz que o sol derrama 

Na terra enobrecida 
Por vós, — jà tao de todo escurecida. 

Referia-se Camoes ao abandono de Africa 
T D. Jo5o III, quando comeijou o delirio 



682 HISTORIA DA LITTERATURA PORTnOUEZA 

pelas riquezas da' India ; por isso escreve ao 
Vice-Rei : 

Aquella primeira aurora 
Vira depois do sol, um so momento; 

Elle esquega alguma hora 

Ou possa o esquecimento 
Tolher-lhe seu continuo crescimento. * 

Dom Antao de Noronha quiz ser prestavel 
a Gamoes com urna provisSo de am logar ren- 
doso; a India estava esgotada, e apenas se 
€omprommetteu a ipelhor desnacho, nomean- 
do-o desde logo para a vagante da Feitoria 
de GhauL Este facto que foi ignorado por 
todos OS biographos até Juromenha, vem al- 
ludido no Padrao de 15 $000, de 5 de Feve- 
reiro de 1585 à mSe do poeta, allegando en- 
tre outros fundamentos de serviQOS: «a nào 
entrar na Feytoria de Chaul de que era prò- 
vido.^ ' Diogo do Gouto fallando do rendi- 



* Ode xiii. Pelo verso allusivo aos GaramataSy 
«oncluiu veridicamente Juromenha: «Por este verso se 
ve que foi està poesia dirigida a um camarada de 
Africa, D. Antào de Noronha. Devia or^ar mais ou rae- 
nos pela edade de Camoes quando serviu ,em Geuta, 
com seu tio D Alfonso de Noronha, capitàò d'aquelìa 
fortaleza.» (Obr , t. ii, p. 549.) 

* Camillo e o Dr. Storck entendem que a nomea- 
^ào para a Feitoria de Chaul fora feita pelo rei D. Se- 
bastiào quando Camoes estava em Lisboa, eem quanto 
nào entrava na sobrevivencia, Ihe dera a ten^ por 
tres annos, que cessarla quando vagasse a Feìtor"* 
Inadmissivel, por que se a Feitoria fosse dada por p 
visao regia a Camoes, era facil obter o poeta o fav 
de a traspassar a outro, o que se concedia por vez« 
Os dois biographos nào conheceram o que era este p' 
vimento de Feitorias na India ; era um embustecom e 
se tapava a bocca aos pretendentes, e comò tudo • 



CAMOBS — EPOCA, VIDA E OBRA 683 

■ I. . .1 - 

mento das Gapitanias e Fortalezas da India, 
aponta Chaul^ rendendo setenta a outenta 
mil pardfioB, {Sold. praL, p. 157.) E dìz da 
Fortaleza: «Pois Cbaul, jà se nao serve da 
Fortaleza senao por urna escada, que se fez, 
fi torre da Menagem por urna bombardeira 
por onde passa o Capitao. . . > (/6., p. 74.) Era 
odesmoronamento. Segando o Ornamento man- 
dado fazer pelo Vedor da Fazenda da India 
em 1574, lé-se: 

^Feitor e Alcaide-mór de Chaul tem de 

seu ordenado cem milr eis por anno 100$000. 

«E assim se Ihe paga aposentadoria de 

dez pardfios por provisao do Vice Rei D. An- 
tam, que he fora do Regimento. 

«Tem mais o dito Feitor um nayque que 

serve de lingoa e quatro piaes e huma tocha 

e o azeite para ella; importa està despeza por 

anno vinte e nove mil e quinhentos e vinte 

reis: 29:520.» 

A este cargo de Feitor de Chaul tambem 

andava annexo o de Provedor dos Defuntos ^ 

e Védor das Obras. 

Nomear Camoes para a Feitoria de Chaul 

entrando pela sobrevivencia na vagatura effe- 



tava esgotado, D. Antào de Noronha sacou sobre o fu- 
turo, dando a Camòes esse despacho, que era simples- 
mente urna cathegoria para melhoi' cousa que appare- 
cesae Demais, existindo na Torre do Tombo muitas 
d'estas cartas para sereni preenchidos nas vagantes 
i sobrevivencia a differentes individuos, a provisao 
3am5es nao existe na Chancellaria de Dom Sebas- 

* D'aqui se originaria a lenda do Provedor dos 
mtos em Macào, com intengào malevolente ? E do 
[ue a lenda do Jdo ? 



684 aiSTORIA DA LITTERATURA POBrUGUEZA 

qtiva, parece quasi um ludibrio para com- 
pensar OS serviQOS de Gamdes nas duas Ar- 
madas; mas nSo havia melhor reourso. Diego 
do Couto explica o desaforado abuso d'estas 
nomeaQ5es &s dezenas para o mesmo legar: 
«por onde nào ha poderem nunca vagar os 
cargos ; e ainda n'estas se mantém as trespas- 
saQdes . . . por onde venho a resumir , que 
quando se despacha um homem, seja em 
edade de vinte annos, n3o entra no seu cargo 
até aos sessenta: etc.» — «0 mal n&o vinha 
so do Rei, que para quarenta logares vinham 
cada tres annos despachados mais de cin- 
coenta f avorecidos, sem servilo ; o peior eram 
OS poderes dados aos Viso Reys para pode- 
rem provèr todos os cargos da India de Fei" 
torias para baixo ; por que com ellas provd o 
Viso-Rei mais de trinta cargos, e ficam com 
isso tao entulhados, que nada ha poder um 
homem esperar vagar-lhe o cargo de que he 
provido, etc.» (Sold. praL, p. 98.) Tal era a 
situaQ3o administrativa; Camoes conhecia a 
inefficacia da sua nomeagSo da Feitoria de 
Chaul, e nSo pensou em esperar pela vagante. 
A Vida de Oda tornava-se odiosa, pelo fana- 
tismo sangrento que se manifestava com ap* 
parato canibalesco da Inquisi^So depois de 
1564; e nào menos pela impunidade que nos 
seus crimes encontravam os CapitSes fidalgos. 
A Gda chegara o requerimento da viuva do 
chronista Gaspar Correa, auctor das Lendas 
da India, que fora assassinado por manda i 
do CapitSo de Malaca, D. Estevam da Gao , 
bisneto do celebrado Descobridor, que da i 
a sua protec<;ào officiai aos assassinos. fa > 
de vìrem parar as Lendas da India ao poi 



r 



CAMOB8 — EPOCA, VIDA B OBRA 685 

de D. Miguel da Gama, conservando-se sone- 
gadas por oentenas de annos, fazem crér que 
o assassinato- de Gaspar Correa fosse por 
qualquer despeito de referencia historica ao 
Beu orgulho nobiliarchico. Os assassinos fica- 
ram impunes; nem o Vice-Rei D. Ant&o de 
Noi^nha nada ousaria contra os orgulhosos 
Gamas. ' A Gamoes nSo foi occulta està as- 



^ Transcrevemos aqui o requerimento da pobre 
viuva, que é urna espantosa pagina da nossa bistoria : 

«Senhor. — Diz Anna Vaz mulher forra que foi de 
Gaspar Correa, cavalleiro da Casa d'El R^i nosso se- 
nhor, e da ordem de S. Tbiago, em aeu nome e de seu 
filho orfào menor Antonio Correa, filho d'està e do dito 
Gaspar Correa, diz e aqueixa e crama e pede justiga a 
Deus e a El Rei nosso senhor e a Vossa Merce que em 
nome de sua Àlteza vem para o fazer da morte, que 
Sem causa e sem razao nem justi^a foi pruvicamente 
dada ao dito Oaspar Correa^ que saltaram uma noite 
com elle n'esta cidade de Malaca e o mataram com 
muitas feridas, que Ihe deram e os matadores foram 
vistos e conhecidos quem eram, e sobre isso senàofez 
nenhnma diligencia, mas antes pruvicamente e sem te- 
mor de Deus nem das justi^as andam e andaram sem- 
pre em companhia de D. Estevào, capitao. 

E Anrique Mendes que foi o principal matador, 
sempre com elle cumeu e bebeu; por onde eu e o dito 
orfao passamos muitas necessidades e ao desamparo 
DOS perdemos. Pelo que. pedimos a Vossa Mercé e re- 
queremos da parte de El Rei nosso senhor. queira sa- 
ber OS matadores quem foram e com justi^a os casti- 
gue, porque D. Estevào com seu corpo o nao quiz fazer, 
e eu com o seu temer o nào ousei de requerer ; no que 
receberemos justi^a e mercé.» 

Este documento derrama uma grande luz sobre a 

) la^ào dos historiadores portuguezes. Pelas noticias 

iigidas pelo prof. A. M. Freitas (Nicolào Fiorentino) 

par Correa era filho de Fedro Correa Payo; nas- 
4 em 1495, pois declara ter embarcado para a In- 

com dezasete annos, com Jorge de Mello Pereira 



686 HISTORIA DA LITTERATUBA PORTUOUEZA 

sombrosa iniquidade do Capi tao de Malaca 
D. EstevSo da Gama, corno tambem a relacio- 
naria com as loucuras de D. Ghistovam da 
Gama commandando a expedÌQ3o de 450 sol* 
dàdos, narradas por D. Joào Bermudes, Pa- 
triaroha de Alexandria e da Ethiopia, quanda 
em 1556 chegou a Góa fugido da prisSo da 
Abyssinia. A impressSo directa d'estes facto» 
fez por certo nascer no espirito de Camdes a 
animadvers&o contra o Gama e contra qtiem 
na estirpe seu se chamù. Quando o poeta os- 
tava sob a pressSo do injusto mando ^ prò- 
metteu no canto vii dos Lusiadas nào dar 
fama a 

Nenhum que use do seu poder bastante 
Para servir a seu desejo feio. . . 

(St 85.) 

Nao era o resentimento pessoal que Ibe 
inspirava està estrophe em que affrontava o 
heroe do descobrimento da India : 



em 1512, em 20 de Agosto, na Armada de outo nàos 
que partiu para Gochim. 

Por 1529 estava de regresso a Lisboa, appareoen- 
do o seu nome nos assentos das Moradias da casa rea! 
com um recìbo de junho d'esse anno assignado por 
sua mfio. 

Voltou para a India, e residia em Malaca, ooca- 
pando-se por 1561 em retocar as suas Lendas; D. Es- 
tevào da Gama, bisneto do primitivo descobridor vivia 
em 1565, tendo pouco mais ou menos vinte annos. Este 
D. Estevào da Gama, era protector do assassino do 
chronista Gaspar Correa, comò se ve pelo requerìmi > 
da viuva; Henrique Mendes tinha intfmidade coi 
veridico chronista, e foi simples executor de uma * 
ganga. O Manuscripto das Lendas da India cahiu 
poder de D. Miguel da Gama, tio de D. Estevam, 
trouxe para Portugal, pensando abafar a voz da histc 



de Coimbra na épooa doa estudos. faziam vèr 
bem OB funeatos reflexoa doa Jeauitas na de- 
CBdencìa do Humanìamo, no retrocesso da 
C6rte, e na ambi^So polìtica oom que domi- 
DBTam na India. Tornava-ae imperiosa a sa- 
hìda de Gda, para fugir à malevolencia per- 
ca mil religiosos diligentes, Diogo do 
I Sol-dado pratico, aponta alguns fa- 
deacobrem a garra inquiaitorial : 
lato tomarem o fìlho de baniano rìco 
Tea gentio, que tinham oa cinooenta 
mil crnzados, passando-Ihea pela 
lem mais outra causa que assacarem- 
omeu vaca, o meterem dentro e que- 



"1 



688 H18TOR1A DA UTTBRATURA PORTUOUBZA 

rerem a torto e a direito fazel-o christSo so 
para Ihe herdarem a legitima, e ser necessa- 
rio acudir o Viso-Rei a isto, e fazer que se 
tornasse o filho a seu pae.» (p. 197.) 

Com a chegada do primeiro Aroebispo de 
6da D. Gaspar de Leao. acompanhado de 
dois Inquisidores Aleixo Dias FalcSo e Fran- 
cisco Marques Botelho, comegou em 1561 o 
sangrento tribunal do Santo Officio, sendo a 
primeira victima da fogueira o bacharel em 
medicina Jeronymo Dias. Camoes que fora 
mexericado de amigos para com o Vice-Rei 
Dom Constantino de Braganga, presentiu que 
seria facil denuncial-o fi Inquisisse por qual- 
quer dito ou phrase pittoresca protenda em 
familiaridade. O favor e até certo ponto ami- 
sade com o Conde Viso- Rei D. Francisco Gou- 
tinho, fez com que vencesse os receios temero- 
sos até 1564, em que este f alecer a. A demora 
em Gda era um perìgo continuado. A nomea- 
qSo de Camoes para a sobrevivencia da Fei- 
toria de Chaul, pelo Vice Rei D. AntSo de 
Noronha, nSo se póde considerar um benefi- 
cio, por que eram muitos os nomeados para 
esse cargo que tinham de entrar antes de Ca- 
m5es. Para que nomear Camdes para Feitor 
de Chaul? Para retdr o Poeta em 06a, na 
espectativa de tornar-se ef fectiva a provisio. E' 
presumivel que o Poeta esperasse os tres an- 
nos, com que terminavam as func^des do an* 
tigo Feitor, de 1564 a 1567; mas desde que 
novos providos se apresentaram para o exf 
ciclo do cargo, o Poeta nào se quiz prestai 
mais ludibrio, e aproveitou a primeira e. 
cumstancia para se transferir para Molami 
que. Em 1567 vagou a Capitania de MoQa 



CAMOES — EPOCA, VIDA E OBRA 689 

bique por morte de Fernao Martins Freire, sen- 
do nomeado Fedro B arroto Rolim, que desis- 
tira do commando da Armada do Malabar (Cou- 
to. Dee. vm, L i, e. 18.) ; tendo instado com Ga- 
mSes para o acompanhar a Sofala, empres- 
tara-lhe duzentos cruzados. Fedro Barreto 
era um monstro, de temperamento irasci- 
vel, capaz de todos os crimes, procedendo 
asaim nas guerras de exterminio que fizera 
nas cidades do Hidalcan, comò Tata, Ban- 
daio, Dabul, em que nSo poupou mulheres 
nem crean^as, em fins de 1558. Foi em con- 
tacto com este homém e sob a dependencia da 
divìda de duzentos cruzados que se viu Ca- 
mSes retido em Mo^ambique tàopobre, que co- 
mia de amigos, conforme a phrase de Diogo 
do Conto. No Canto v dos Lusiadas, estan- 
da 84, deixou Cam5es um tra^o vivo que re- 
flecte a impress&o dos dias amargos que pas- 
8on em Mogambique : 

Na dura Moqambique einfim surgimos, 
De cuja falsidade e ma vileza 
Jà seràs sabedor. . . 

Jà em Mo^ambique soube Camoes do 
grande triumpho do seu amigo D. Leonìs Pe- 
reira, em 1568, defendendo Malaca do cérco 
que Ihe puzera o rei do Achem; no Soneto 
ocxxYii celebra esse estremado feito, compa- 
rando o heroe portuguez a um heroe da an- 
tiguidade: 

Oh Nymphas ! Gantae pois, que claramente 
Blais do que Leonidas fez na Grecia, 
O nobre Leoniz fez em Malaca. 

jeria o despeito de se n&o vèr tambem 
e tado em verso por Cam5es, que irrompeu 



li 



690 mSTORlA DA UTTEBATURA POSTUGDSZIA 

em odio no feroz Fedro B arroto. Esteveo poe- 
ta desde 1567 até 1669 distrahindo a sua in- 
digencia em MoQambique, entregue ao labor 
poetico corno Ariosto ; coordenava o seu Par- 
nasOf colleccionando todas as varias composi- 
Q5es lyricas: SonetoSf Cangoes, Odes, ÈglO' 
US, Élegias, Sextinas^ Outavas e Redondi- 
has. Trasladava em iimpo os esparsos rascn- 
nhoB, ou escrevia de memoria, comò fez tam- 
bem Bocage com as suas Rimas. Pode-se fazer 
uma ideia precisa do conteùdo do Parnaso^ 
n'este periodo de Mo^ambique, pela coUec^ao 

Sue trasladòu o P.« Fedro Ribeiro em 1577, 
e cujo Cancioneiro existe por felicidade o 
indice, constituindo um verdadeiro Canon ly- 
rico camoniano. 

Terminado o seu governo em 1568, par- 
tiu de Gda D. AntSo de Noronha, succedendo- 
Ihe em 18 de Septembro D. Luiz de Athayde, 
tambem amigo de Camoes. Dom AntSo de No- 
ronba veiu invernar a MoQambique, acompa- 
nhado de muitos cavalleiroe, que se repatria- 
vam aproveitando a matalotagem do ex- Vice- 
rei. Na Decada vm, descrevendo este facto, 
refere Conto a circumstancia deploravel em 
que encontraram Camoes: <Em MoQambiqne 
achamos aquelle Frincepe dos Foetas do seu 
tempo, meu matalote e amigo Luiz de Ca- 
moes, tSo pobre que comia de amigos ; e para 
se embarcar para o reino Ihe ajuntàmos os 
amigos toda a roupa que houve mister, e dìo 
faltou quem Ihe desse de comer, e aquelle i- 
verno que esteve em Mo^ambique, acabon e 
aperfeigoar as suas Lusiadas para as im] i- 
mir, e foi escrevendo multo em um livro, b 
ia fazendo, que intitulava Parruiso de L z 



) de muita erudi<;3o, doutrina 
e philoBophia ...» A tencSo de publicar o 
poema, que continuava a aperfei<;oar em Mo- 
Qambique. é que Ihe suecitara a ferToroea 
Tontade de regresaar a Portugal, mfto grado 
a Bua estrema pobreza. 

A Nào em que D. AntSo de Noronha par- 
tira de Gòa para Portugal em 2 de Fevereì- 
ro de 1569, soffreu grande temporal, sendo 
for^ada a arribar e invernar em Mocambique ; 
apenas pdde passar a Ndo Santa Catherina. 
Eutreos cavalleiros da matalotagem, que ac- 
cudiràm a GamÒea, fìguram (segundo Marìz e 
Severìm) Heitor da Silveira, Autonio Cabrai, 
Luiz da Veiga, Duarte de Abreu e Antonio 
Ferr3o. Diego do Conto memora Heitor da 
Silveira, D. Jo5o Pereira, D. Fedro da Guer- 
ra, Àyres de Sousa de Santarem, Manoel 
de Meilo, Gaapar de Brito, FernSo Gomea da 
Gram e Lourengo Vaz Pegado. Estea cootri- 
buiram, cotiaando-se entre si para pagarem 
OB duzentoB cruzados a Pedro Barreto, e o 
trouxeram na sua matalotagem. Acba-se esto 
costume portuguez desjorìpto pelo via j ante 
Pyrard: «Quando o Vice Rei recolhe a Por- 
tugal, escolhe os navios que quer, e os faz 
provér de mantìmentos, a que cbamam ma- 
talotagem, para elle e sua comitiva; e ha 
tempo para isso. E quando os portuguezes 
sabem que algum Vice Rei, arcebispo ou 
grande senfaor e capitSo se vem embora, 
jidam em ae metter no seu rol e obterem 
.cenga para irem com elle; por que n'este 
tomo todos quantos vSo no navìo, tirada a 
'ente do mar e otficiaes do mesmo navio que 
jvam e tém a sua matalotagem fi parte, sào 



692 H18TÓBÌA DÀ LÌTteftAttTRA PORTDOUBZA 

suBtentados de gra^a ou sejam fidalgos ou 
soldados.» Em outro logar do seu livro, Py- 
rard fallando do regresso do Arcebispo de 
6da a Portugal, escreve : cComtudo, elle ha- 
via obtìdo licenQa para se ir embora, e ha- 
via feito todos os apercebimentos de manti- 
ìnentos e matalotagem para mais de cem 
pessoas, afóra os seus domesticos, que moa- 
tavam bem a outro tanto numero, e sSo ne- 
cessarios ao menos trezentos pardfios para 
mantenga de um homem da India a Portu- 
gal.» Por està efxplicagao se infere que, vindo 
Camdes na mesma matalotagem de Diogo do 
Oouto, corno diz o chronista, o seu regresso 
foi na n&o Santa Clara. Era preciso aprovei- 
tar este costume por que a viagem era multo 
cara: diz Diogo do Conto: «por darem de co- 
mer a um homem com um mO<;o, em o canto 
do camarote, Ihe levam muitos centos de par- 
dàos.» (Sola, prat., p. 86 2.*) Era diante 
d'està difficuldade que se vira Camdes em 
MoQambique, seni recursos para libertar-se. 
A partida para o reino effectuou-se em No- 
vembro de 1569, em que largou a Armada de 
Mogambique. Descreve està partida Diogo do 
Couto, na Decada vm, e. 28; «As ndos, comò 
foi tempo, que era em novembro, fizeram-se 
todas juntas à vela para o reino. . . e sahindo 
as n&os de Mogambique todas juntas, encos- 
tou-se a Chagas, que era a capitania, ft Uba 
de S. Jorge, e ficou quasi em secco, a que 
accudir am as outras com seus bateis; so - 
Nào Santa Clara, de que era capitao Gaapa 
Pereira, em que eu ia embareado, que foi i 
primeira que saiu, ia tao adiantada, que con 
as correntes nSo podia tornar e fòmos no8f« 
caminho. 



OAMÒES — EPOCA, VIDA E OBRA 



I Chagas alijou muito ao mar, e en- 
iró, com o que se saiu trabalhoBa- 
Da detenga de so eete dia chegdmos 
Santa Helena, tanto, que prìmeiro, 
vinte diaa aem nenhuma dae outras 
)lo que demos & vela, e chegamos a 
m Abril e ahi surgimos, por eatar a 
peste ;..■> (cap. 28.) <e as mais 
aram em fina de maio, ou jfi em 
r onde se verfi que em urna jornada 
I leguas comò està, um dia mais ou 
va tanta vantagem, corno se viu 
.08 por mais de mez e meio. » Vi- 
«s na Nào Santa Clara, de que 
io Gaspar Pereira (no Indice da 
Uanoel Jacques no anno ante- 
ipanbando a Armada que levara a 
»vo vice-rei D. Luiz de Athayde.) 
, viagem morreu no mar de doen^a 
de Noronha, tendo ordenado que 
fosse arrojado ao mar, e que Ihe 
o braQO direito pelo sangradouro, 
epultado na sé de Cauta, no tumulo 
D. Nuno Alvares de Noronha. Em 
irijo de 1570 chegava a nào Sarda 
A^òres, onde contava ser esperada 
ida, que alli acompanhava para Lis- 
38 da India, 
la carta de 26 de Junho de 1882, 

o Dr. Ernesto do Canto ao erudito 

-vestìgador a^oriano Dr. JoSo Teixeira Soa- 
ts: «Fazendo um estudo a respeito da volta 
I Camdes para Portugal em 1570 na n&o 
jnta Clara, antevéjo a probabilidade d'elle 
r tocado em alguma das ilhas dos A^ores, 
incipalmente na Terceira.* Teixeira Soarea 



694 HISTORIA DA UTTERATUBA PORTUGUEZA 



comega por observar a favor da inferencia: 
eque era entao goral a vinda das nàos da In- 
dia pelos AQòres. Duas eram as principaes 
causas d'està passagem por aqui : a primeira, 
aproveitar o favor dos ventos e correntes pe- 
lagicas ; a segunda, a protecgào contra a pira- 
taria, que ao chegar aos A^dres encontravam 
na Armada que todos os annos para esse firn 
vinha a estas ilhas.:» E para este fini cita o 
proprio Conto, que falla da Armada que os- 
tava jà em Cascaes prestes a largar para os 
Afdres, sob o commando de D. Francisco de 
Menezes, irmao do desventurado D. Tello de 
Menezes, o amigo de Camòes ; tambem a ob- 
servagSo do mesmo chronista, quando com- 
para a ilha de Angaricà, na costa orientai da 
Africa, com outra do arohipelago agoriano: ^é 
tao alta quasi corno a ilha do Pico.* A unica 
vez que poderia Diogo ()o Conto ter està im- 
pressao directa so podia ser no seu regresso 
a Portugal em fins de Margo de 1570, pas- 
sando a n&o Santa Clara pelos A<;6res. Mas 
em Camdes reflecte-se sempre a impressao da 
realidade na sua idealisagào poetica ; Alexan- 
dre de Humboldt, quo tanto admirava Oamoes 
comò pintor da Natureza, notou no Gosmos, 
que a vegotagao com que era representada a 
Ilha dos Amores, nos Lusiadas, era europèa 
e nao orientai. Diogo do Conto refere que a 
Nào Santa Clara esperara o resto da Armada 
vinte dias na ilha de Santa Helena; e Manosi 
Correa, no commento da Ilha dos Amon 
diz: «Muitos tèm para si que osta Ilha seja 
de Santa Helena; mas enganaram-se, porqt 
foi um fingimento que o Poeta aqui fez com< 
claramenté consta da letra.» (Comm.^ fi. 250. 



OAMÒES — BPOOA, VIDA E OBRA 695 



Reconhecendo a verdade da observa^So de 
Humboldt, quiz um crìtico fixar essa reali- 
dade na ilha de Zanzibar, * por exìstirem ahi 
cinco das quatorze arvores indicadas por Ca- 
mòes. Àpoiados nos dados topographìcos, dois 
eruditos terceirenses, o P.» Jeronymo Emi- 
liano de Andrade e o Dr. Moniz Barreto Córte 
Real, consideraram a liba Terceira corno 
sendo a realidade da Ilha dos Amores, pela 
coincidencia dos seus tragos descriptivos ; ex- 
plicam a referencia ao porto de Angra: 

Onde a costa fa zia urna enseada 
Curva e quieta 



E referindo-se aos tres oumes, tSo caracte- 
risticos do Monte Brazil: 

Ir €8 fermosos outeiros se mostra vani 
Erguidos com soberba graciosa, 
Que de gramineo esmalte se adornavam 
Na formosa ilha alegre e deleitosa. 

Tambem em relagao aos fructos, é bem co- 
nhecida nos Agores a lima doce, que ahi tem 
nome de lima da Persia, & qual allude Ca- 
moes: 

O pómo que da pat^^^'i Persia veiu, 
Melkor tornado no , arreno alheio. 

Corrobora a interpretagSo dos dois agoria- 
nos illustres a observagSo de Humboldt, tor- 
nando facto historico a passagem de Camdes 



* Gomes« Monteiro, Carta sobre a situagdo da 
Jutde Visnus, Porto, 1849. Inadmissivel, por que nem 
Ida para a India nem no regresso tocàram as nàos 

Zanzibar. 



696 HI8TORIA DA LITTERATURA PORTUOUBZA 

pela ilha Terceira, quo elle idealisou no im- 
pressionante episodio da Ilha dos Amores. 
A N&o Santa Giara chegou a Lisboa em 
7 de Abril de 1570, ^ tendo Camoes ainda o 
desgosto de vèr morrer Heitor da Silveira, jfi 
& vista de terra. Camdes, depois de dezesete 
annos de ausencia, veiu ainda encontrar acoe- 
sos OS antigos odios, e luctar mais duramente 
com a desgra^a, que agora jfi nSo era sómente 
pessoal, mas nacional. Em quanto outros tra- 
ziam as rioas mercadorias das Indias, Camdes 
trazia o manuscripto do seu Poema, sentido 
nos desterros injustos, nos cruzeiros doentios 
e combates contra os piratas, nas tempesta- 
des e naufragio : era o Tesoro del Luso, corno 
Ihe chamou Cervantes, traduzindo em urna 
phrase genial o sentimento coUectivo dos Lur 
siadas. AUi estava eternisada a vidai a glo- 
ria da naQao portugueza; trazia-o para lan- 
gal-o à publicidade, comò o marinheiro que 
arroja ao mar a noticia do galeSò que se 
afunda, para queum dia aconte^a saberem 
quando e aonde succumbiram à fatalidade. 



^ O dia da chegada vem apontado por Figueire 
Falcào, no Indice de toda a Fazenda, p. 170. 



Usboa e sua morte 



anaoB de ausencia, 
previatos, e sem espe- 
riuiQB de tornar a vèr a patria, o momento 
em que ae ouve o grìto que annuncia a terra 
faz estremecer de alegria, e o cora^ào estua 
Bob urna commofSo tSo forte comò a do soffrì- 
mento. Camoes aentìu està impressio prò- 
fonda, deacrevendo com um eloquente laco' 
nìsmo DOS Lusiadas, esse momento, quando 

da ethérea gavea o marinheiro 

Prompto co'a vista : — Terra ! Terra I brada. 

' A sensa^So dolorosa d'esse jubilo ainda 
nSo fot expressa em linguagem humana com 
pciavras mais sentidas do que as de Camòes: 

Està é a ditosa Patria minha amada, 
A' qnal se o Céo me dà que eu sem perigo 
Tome com està erapreza jà acabada, 
Acabe-se està luz alli commigo. - - 

;l.usia'/.. Ili, est. 21.) 



698 HI8T0R1A DÀ UTTBBATDRA PORTUGUEZA 

O que o poeta diz do navegador que pri- 
meiro sulcou os marea do Oriente, compete- 
Ihe por ser tambem o que conseguiu realìsar 
a empreza da creaQ3o da Epopèa nacional e 
dar fórma ao ideal heroico nas Litteraturas 
modernas. Esse momento excepcional da vida, 
em que o espirito comò que se renova pela 
lembranQa do passado reflectido em todas as 
cousas sobre que desoansam os olhos, torna a 
ser idealisado n'esta primorosa estancia dos 
Lusiadas : 

O prazer de chegar à Patria cara, 
A seus penates caros e parentes, . 
Para contar a peregrina e rara 
Navegagao, os varios céos e gentes ; 
Vir a lograr o premio qae ganhara. 
Por tao longoB trabalhos e accìdentes, 
Cada um tera por gosto tao perfeito, 
Que o cora^ào para elle é vaso estreito. 

(Lu$., IX, 17.) 

A chegada da n&o Santa Clara a Lisboa 
a 7 de Abril de 1570, em que regressara o 
poeta, é-nos descripta por Diogo do Couto: 
«demos à vela, e chegamos a Gascaes em 
Abril e ahi surgimos, por estar a cidade de 
peste; e tinha el-rei ali regimento, que cbe- 
gando as Nàos surgissem fora, e Ihe mandas- 
sem um criado seu com cartas para saber no- 
vas da India, a que acudiu Fernao Peres de 
Andrade e D. Francisco de Menezes, o Surdo, 
irmSo de D. Joao Tello, que ahi estava por 
capitSo de uma Armada, que era de a*' » 
bordo, para ir esperar as n&os às ilhas ( 
dos AQÓres); e pelo regimento que tinha > 
el-rei, me desembarcaram com as cartas ps 
Ihe ir dar novas. Em Almeirim o espei 



muito boa, porém com o temor do grande fogo 

Ìue era paseado, nSo se vinham para a ci- 
ade Ben9o peeaòas pobres, que jà nSo tinham 
que corner, que as outras eaperavam qne pas- 
'"•Rse Margo, por dizerem os medicos, que em 



1 Dioffo do Couto comò recotnpoz de reminiscencia 
■ Decada viii, que Ibe fora roubada, deu otitulo de 
igo de Heitor da Silveira, falecido em 1585, a seu 
-rjnho do mesino nome, o amigo de CamÒcs. 



700 H18T0RIA DA UTTEBATUBA PORTUGUKZA 



o renovar das ervas podia tornar a renovar 1 
o mal, o que assim nSo succedea.» ^ No sea | 
desembarque, no meio d'està desolaoSo geral, ' 
temendo-se ainda a recrudescencia da peste, 
foi Gamdes encontrar sua mSe D. Anne de Si, 
muito velha e muyto pobre, corno se le em 
um documento legai.. Moraria ella ainda & 
Mouraria, conforme o assento de dezesete 
annos antes feito na Casa da India, quando 
em 1660 foi a primeira inscrip<;§o do poeta. 
N'essa mesma rua ostava o Collegio dos Me- 
ninos Orfaos, e quando a cidade de Lisboa 
fez o voto de uma procissao solemne & Se- 
nhora da Saude, alti se recolheu a sua ima- 
gem : «os vereadores tornaram a mandar de- 
nunciar ao povo nas egrejas ao domingo de- 
zeseis de Abril da mesma èra de 1670, que a 
quinta feira primeira, que eram vinte do mez 
de Abril, se fazia a procissSo, comò se fez tfio 
solemne, com tantas dansas e inven<^es, que 
fora pouco de escrever...» Camdes vinha 
assistir a este résurgimento da cidade, e sem 
se lembrar mais dos passados soffrimen- 
tos, todo o seu interesse moral estava em ou* 
vir faUar das causas da temorosa deoadencia 
e catastrophe que o impressionaram. Entre 
as Cartas de Gamoes, hoje perdidas, dà Farla 
e Sousa noticia de uma que fora dirigida a 
um amigo do Porto, em que dizia que Ihe 
custava ainda a crér o ter conseguido voltar 
& patria; tinha esse amigo a carta encaixi- 
Ihada comò uma preciosidade, mas nSo obsti i 
tamanha estiipa a que o acaso a destruisi 



* Doc. no Summariode varia historia^ t. u, p. 1 



VIDA E OBRA 701 

[amente perturbado, 
austera, apagada e 
I de irremediavel de- 
Tinha Camòes dar 
3tò beroico da ideali- 
pòz uma ]ucta de re- 
1 soffrimeatos pbysi- 
[■ a ultima quadra 
rìmento das torturas 



amoes regressara a 
1 a tristeza publica 
que fìoou na hiatoria 
rande, e nSo menos 
moeda, pela instabì- 
idministra^ao e a po- 
itrio da classe eccle- 
Duscripta da Biblio- 
le a Peste grande a 
ira da moeda: <E as 
•am seu grande pe- 
I acabado de receber 
iB da Semana Santa, 
de esmolas n'esta ci- 
1 essa córte fiorente, 
Beus mais alegres e 
la mocldade deslum - 
ile quasi deserta, do- 
pelas cavilaQ5es de 
[omentando o uoita- 
D fi nnidade eatholica 
indo as ambi^Oes do 



702 HISTOBIA DA UTTERATURA PORTUGUBZA 

joven monarcha. Camoes, qae regressara pò- 
bre da India, yeia achar Lisboa na indigenda 
motivada pelo abaixamento insensato do ra- 
lor da moeda. Em uni manuscrìpto interes- 
santissimo de 1569, lèem-se estes dados: e A 
causa porque se tirou e abateu a moeda, fot 
por que vinha muita e em grande numero de 
Inglaterra seoretamente, entre barris de fari- 
nha e entre pipas de prégos e em outras 
muitas partes d'onde a podiam trazer escon- 
dida, e era tanto d'isto, que dentro em Ingla- 
terra se estava fazendo e batendo em mas 
publicas, e d'està maneira nos enehiam Por- 
tugal de eobre e levavam todo o auro e prata, 
e tanto com isto deitavam a perder este reino, 
que havendo grande multidio de moedas de 
curo de mil reis e de quinhentos reis de cru- 
zes, e portuguezes, e de prata, despejaram o 
reino t&o depressa d'està boa moeda, que veiu 
a nao ha ver uma senSo por milagre.» ^ Para 
corregir este erro economico, os conselheiros 
do joven rei D. SebastiSo commetteram outro 
erro mais desastroso, promulgado pela lei e 
pragmatica de 14 de Abril de 1568, em que 
o patacSo de dez reis era reduzido a trez ; a 
moeda de ciuco reis reduzida a real e melo; 
a de tres reis reduzida a um real, e a de um 
real reduzida a melo. Para subtrahirem Dom 
Sebastiao aos queixumes do povo, levaram-o 
para Almeirim. O poeta comico Ghiado, no 
Auto das Regateiras, confirma este abaio eco- 
nomico, refendo no manuscrìpto contempi a- 
neo citado : 



1 Ms. da Bibl. nac. Publicado pelo Dr. Bì\ ro 
Guimaràes no SummaHo de varia hisioHa, t. ii, ** '0. 




CAMÒBS — EPOCA, VIDA E OBRA 



703 



Vblha : 
COM. : 

Velha : 
CoM.: 



Vel-ia: 
COM : 



Velha 



Tudo vae fora da estrada, 
bem o vejo e bem o sei ! 
£ mais com està ida de El-Reì, 
ndo hade kaver venda nada. 
Comadre, eu vos direi, 
fico-m'eu n'aqueste inferno. 
Muitas vezes cuido eu 
qtie se vay a Almeirim 
hum rei meado inverno. 
A fazer rico escourpim. 
D'isso so me fica magoa, 
nunca é contente a pessoa, 
um Rei que estava em Lisboa 
assi corno peixe n'agoa ; 
mas vós veredes o que sóa. 
Todos nós isso ertnamos, 
comadre, manso o dizeis, 
mas sam vontades de reis, 
que quereis que Ihe fa^àmos, 
corno dizem --Ln vào leis... 

(FI. S) 



Pelo Manuscripto contemporaneo se expli- 
cam estas allusdes do Auto das Regateiras, 
em que se reflecte a vida popular: «De ma- 
neira que està Pragmatica saiu a quarta feira 
de trévas, estando El Rei em Almeirim^ pelo 
que era lastima vèr a gente de Lisboa pàs- 
mada, por que corno ha via pouca prata e nSo 
havia outra moeda sen3o cobre, e por terem 
todos esperan^as de nao cumprir a tal prag- 
matica, e cerrarem-se todos sem querer ven- 
der nada, e ser vespera de festa, julgue cada 
um aqui o povo de Lisboa, qual andaria e 
nual estaria, ao que acudiu a Camara e a 
isericordia d'està cidade, mandando a Al- 
eirim dar conta a El rei do reboliQO que ia 
1 Lisboa, que quizesse permittir houvesse 
jienda no mandado. -— E a quinta e sexta 
ira e§tiveram assim todos esperando, sem 



704 H18T0RIA DA UTTBRATURA PORTUGUBZA 

finesse dia quererem vender eotisa alguma. E 
ao sabbado, vespera da Paschoa, Tieram e trou- 
xeram por novas, que El rei mandava ae 
cumprisse o que tinha mandado, sem remis- 
fiSo, havendo respeito ao isentar causas que 
para isso ha via. — Foi tal a revolta e clamor 
n'este povo de Lisboa, por causa da multa 
perda que recebiam, que houve desesperados 
que, com sentirem o perdimento de dinbeiro 
perdiam as vidas enforcando-se, outros anda- 
vam pasmados.» (Op. ct7. p. 168.) 

Depois do rebate da moeda, veiu a Peste 
acabar de reduzir d miseria o povo de Lisboa ; 
reproduzimos aqui esse quadro de desolagSo, 
para representar o estado em que veiu Ca- 
moes enoontrar a patria que elle tanto pen- 
sara engrandecer : «No mez de Junho de 1569 
se acharam muitos pessoas n'esta cidade doen- 
tes de inchaqost e outras que morriam urna 
morte muito apressada, e todavia andava um 
ruge-ruge de povo que era peste, mas corno 
havia trinta e nove annos que a Portugal nào 
viera este mal, e o n3o conheciam, uns zom- 
bavam d'isso, outros de experiencia e edade 
affirmaram sel-o. — No mez de Junho veiu to- 
davia a ser este rumor tao grande, que certi- 
ficando alguns ser peste, mandou El rei f azer 
ajuntamento dos physicos, para o determina- 
rem. Os modernos diziam nSo ser este mal, 
dando por razSo que o inverno fora muito 
grande, e a humidade causara taes postdmas 
em OS corpos ; e os antigos e de experienof 
que tinham visto outros, affirmavam sel-o 
accolhiam-se e davam de conselho aos amig 
que se fossem por ser refinada peste^ e j? 
esse tempo morriam cada dia 50, 60 passo 



d'eeta maneira ìndetertniDada até entrar o 
mez de Julho, onde se inventou que no inter- 
lunio do dito mez, que era a 10 d'elle, Be ha- 
via de subverter a cidade, e que o Castellò se 
havìa de juntar com o Carmo e com Almada; 
e nSo Be espante quem isto ISr, nem me tenha 
por parte em escrever tal zombarla, por que 
affirmo, e foi assim, que t3o orente andava 
està abusao e parvoice em toda a gente, assim 
popolar corno de muìta qualidade, que chegou 
a tanto a cren<;a d'ella, & vespera do dito en- 
tre-lnnio se despejou toda a oidade com tSo 
desatinado impeto, e tSo sem ordem nem pro- 
posito, que cada um caminhava sem saber 
para onde, indo pdr arrabaldes e termo aos 
péa das oliTeiras, com fato, mulheres e filhos; 
e pasBado o eotre-Iunio, em que deu muito 
grande pancada de mal, aoabando de enten- 
der o que era, se foram os que poderam e ti- 
nham posses para as parteB que queriam, e 
OS pobreB se tornaram & cidade. — 
!V *No Qioz de Julho e Agosto aSo houve dia 
I ''em que n9o morressem 500, 600, 700, n3o 
,'/ havendo j& adros aonde se enterrar, que 20, 
' -80, 40, oO, 60 ae deìtavam em cada cova, 
~qae para isso se fizeram muitas, grandes, 
comò se disse na préga<;3o da Saude. (Refe- 
ae ao sermSo de Fr. Jo3o da Silva, na 
-Z reja de S. Domingos.) De maneira que 
. •.<: irrìa a gente fallando uns com oa outros e 
vv^ ùam mortOB, sondo jfi tanta a qoantidade, 
'-X ^ P^' ^^^ haver sagrado donde os podes- 



706 HI8TORIA DA UTTBBATURA PORTUOUBZA 



Sem enterrar, sagraram mònteiros, olivaes, 
praias para sepultar, até o campo da Fórca 
que foi todo lavrado de cóvas; e para haver 
quem levasse estes mortos &q sepulturas se tì- 
raram os forgados das galés para isso, que 
com esquifes andavam, no qual servilo se 
Ihes commutava o degredo das galés, e com 
tudo isso n3o bastavam para dar vasào a 
tantos mortos, acudindo àquelles que peita- 
vam aos forQados, e os que nSo estavam dois 
e tres dias pelas portas e ruas, amortalhados, 
esperando duas horas, até que jà nào esta- 
vam para os poder levar, Ihes faziam suas 
covas pelas ruas e lojas onde moravam e ali 
OS sepultavam. . . 

«Corria-se toda a cidade e muitas vezes 
nao se topava em toda ella cinco pessoas vi- 
vas e sàs, e alguns se se topavam, era a cor 
de finado...* De maneira que a maior mor- 
tandade d'este mal foi nos mezes de Julho, 
Agosto e Septembro, e o menor no dia de 
mortos n'estes mezes nao desceu de oOO pes- 
soas, e passando estes mezes comeQOU a ci- 
dade a melhorar, de maneira que quando vda 
o Natal jà a cidade estava com a maior parte 
da gente. . . » 

Em urna carta do j esulta Diogo de Carva- 
Iho, de 12 de Julho de 1569, alludindo ao 
prognostico de se subverter Lisboa no dia 
seguinte, descreve o effeito d'este panico: 
^nào ha via na cidade mais do que gritos, 
desmaios e andar a gente doida e sem siso. 
Occiipou a gente que d'està cidade saia sete 
ou outo leguas ao redor de Lisboa, e por ''ue 
nao havìa casas se punham pelos campo: ao 
pé das oliveiras ; e comò nào havia aguf 9in 



708 HlBTORlA t>A LlTTKBAtOftA POBTUOtrBZA 

«^«partiu da Sé pela manbS (11 horas) e aca 
bada de entrar em S. Domingos, deram duai 
horas depois do meio dia. — lam n'ella todai 
as religiSes d'està oidade e toda a clerezia, i 
confrarias e freguezias. la no oabo urna ri 
quissima charola com todas as principaea re 
liquas d'està cidàde, e adiante d'està outri 
com N. S. da Saude. Houve em S. Domingoi 
tres prégaQdes, urna cft fora no alpendre, ou« 
tra dentro, antes da prooissSo cbegar, poi 
causa de despejarem a egreja aos que vinbaa 
na procissSo, onde se prégaram muitos mila' 
gres e tudo ò que sucoedeu no mal. Ouvi ac 
prégador de dentro, que foi Frei Jofio di 
Silva, que nas mais das covas se botavam 
cincoenta defuntos, e que passaram de dn- 
coenta mil almas os falecidas do mal. — A 
quarta feira, yespera do dia d'està proci8s2o« 
se mandou deitar preg5es, que toda a pessoi 
puzesse de noite uma vela accesa ou candela 
a cada janella da banda do mar e da terra; 
fez-se assim. Estava a cidade muito para vi 
Houve tambem toda a noite fogueiras e fel 
tas pelas ruas. . .» (Summar., ii, 167.) 

Como na mente de Gamòes resaltaria 
contraste com as festas de outr'ora na odi 
de D. Jo3o mi E no meio d'està depref 
do espirito publico, nao viria o seu Poema 
«cantar a gente sur da e endureeida?^ Ni 
presentia o poeta que d'ahi a dez annos asi 
stiria a uma outra peste, egualmente tremendi 
e que o seu corpo desappareceria na vaia 
que se botavam aos cincoenta cadaveree. 

No meio d'està indiffereuQa geral, qi 
chega a actuar no seu espirito, confessando 
verso : « — O gesto de eaerever^ que vot* pi 




CAMÒJBS — EPOCA, VIDA E OBRA 709 

dendo — (Lus.^ x, 8) urna nova calamidade 
▼6ÌQ assaltal-0 ìnesperadamente. Pouco depoÌ9 
de ter ohegado a Lisboa foMhe roubada a 
eollecQao dos seus versos lyricos! Sabemol-O' 
pela noticia succinta de Diogo do Couto, na 
Decada vm, referindo-se ao encontro de Ca- 
m5e& em MoQambique no inverno de 1569, 
aioabando «de aperfei<?oar a$ suas Lusiadas 
para as imprimìr; e foi escrevendo multo em 
mn livro que ia fazendo, que intitulava Par- 
naso de Luiz de Camóes, livro de multa eru- 
di^ao, doutrlna e phllosophla, o guai Ihe tur- 
taram, e nunca pude saber no reino d'elle, 
por multo que o inqulri, e foi furto notavel. > 
Àsaind corno o titulo de Cancloneiro se dava 
ia composlQoes poeticas em redondllhas, foi 
liempre corrente o titulo de Parnaso empre- 
gar-se para designar as composlQoes em en- 
jtecasyllabosi da eschola italiana. Vg-se pois 
i^ae esse corpo systematico de todas as Lyri- 
ism de Gamoes, que elle estava organlsando, 
depois que acabou de aperfei^oar os Lusia- 
das, em MoQambique, foi subtrahldo ao poeta, 
dando em resultado ficarem até 1695, qulnze 
«naos depois da sua morte, ineditos e igno- 
fftdos OS versos em que dera expressào in- 
f^mparavel aos sentlmentos que o inspira- 
ram. A data do f